domingo, 17 de março de 2019

Hilário, por romeu76santana

No cérebro a única coisa que é é o corpo que o possui, tudo o resto é imaginado. Hilário, por romeu76santana, é uma obra de claro pendor realista. Iconografado à revelia, com uma versão ilegal do software da Mindicon, onde não pode ser atestada a veracidade cerebral, é um ícone do aqui e do agora. É um corpo tridimensional sobre o qual, na galeria iconográfica Pinote, cai um feixe de luz branca que lhe perfura a pele abrindo-lhe os poros por onde saem pelos curtos, de um loiro quase branco, que lhe varrem os ombros como uma minúscula seara. Está completamente nu, sentado a uma secretária. Em cima desta, uma máquina de escrever com uma folha enrolada no cilindro onde se acabou de bater, A Bem da Nação. O dedo indicador da mão direita, de unha baça, encontra-se a abandonar a tecla o, estando, contudo, ainda emergido num círculo de botões pretos circunscritos a branco. Na unha transparecem as movimentações sanguíneas desencadeadas pelo aliviar da pressão que traz o branco de volta ao centro. O dedo esguio faz a ponte com o corpo, já que os restantes estão recolhidos para não se intrometerem na visão. É um dedo cuidado ao mais ínfimo pormenor, onde as articulações são bem marcadas pelas rugas da pele, não da idade, que o ícone representa um homem no final dos seus trinta, início dos quarenta, mas como manifestações exteriores das rodas dentadas de um mecanismo que se encontra naquele preciso momento a retirar o dedo para trás, cortando toda e qualquer ligação à máquina de escrever. Nesse movimento armam-se os pelos como espigões que impedem quem quer que se aventure a chegar ao corpo durante esta manobra de retirada. A cabeça do ícone está ligeiramente fletida, com os olhos vítreos colados ao que acabou de escrever, à janela aberta pelo baixar da fita. As pálpebras semicerradas, cozidas por um fio de pestanas que as corre de um lado ao outro, acentuam a atitude concentrada, reforçada pela contração dos lábios, em tudo semelhante à das pálpebras, a não ser por estes serem mais carnudos e, como tal, se lhes poder atribuir mais expressão, como se tivessem acabado de projetar para a folha as palavras que os dedos bateram. Em redor dos lábios o mesmo asseio que encontrámos nos dedos, uma superfície asfaltada pelo passar criterioso da lâmina de barbear sobre pelos que já forem imberbes e agora se robusteceram de um cinzento áspero que envolve os lábios róseos. Entre o lábio inferior e o queixo, uma ruja exagerada pelo puxar da boca para fora. Visto de perfil, o ícone está levemente fletido para a frente, como um s mais aberto em cima. Os pés estão juntos, esticados para trás, contrabalançando o fletir da cabeça à frente, como se a figura se encontrasse num momento de oração, no mais próximo da posição fetal que permite uma tarefa de trabalho. O único ponto de apoio desta massa é o tampo da cadeira, onde as nádegas brancas se espalmam, derramando-se do tronco em direção às bordas. A concentração da figura é sublinhada pelo apertar das pernas, de carne branca pintada de compridos pelos negros, por onde assoma uma inofensiva glande vermelha.

domingo, 10 de março de 2019

Hilário segundo Olímpia, por teresinhaxxxxx

O enorme sucesso da Mindicon deveu-se não propriamente ao software de iconografia, cujas funcionalidades foram copiadas passado algum tempo, embora tenha sido determinante ser o primeiro disponível no mercado, mas sim ao conceito de galeria iconográfica onde os ícones foram sendo colocados, e a uma outra funcionalidade, que identificava pegadas cerebrais relacionadas com os ícones expostos, quer aquando das visitas virtuais, quer em dados sobre a época de cada um dos iconografados, enviando depois convites incentivando à contribuição debaixo da sugestão, ícone cerebral, contribua para a história como um artista. Assim, não admira que os dois ícones de Pinote, o de cores geométricas estampado na parede virtual, e a caixa de madeira rodopiando gentilmente em frente a este, com todo o atrevimento de uma representação de uma representação, viessem a ser encarados pelo Hilário segundo Olímpia, por teresinhaxxxxx, naquilo que parece ter sido um autor espontâneo, movido por um impulso, como são caraterizados no modelo de negócio da Mindicon, agora que a versão Home1.0 do software possibilita a iconografia sem a presença de um técnico especializado, ainda que com menor qualidade. Este ícone apresenta um homem a corpo inteiro. Um homem de idade, que o software assegura iconografar Hilário Mendes, agente da P.I.D.E.. É como que um retrato a preto e branco, tirado de imprevisto, em que o alvo da objetiva se vira, sem pretenção que não seja a procura da origem do ruído da máquina fotográfica. Veste um fato cinzento claro, aquele que trajaria um cameleão sobre o fundo do ícone. Mesmo o rosto, já enrugado pela idade, tem um tom que não difere do da camisa, na zona onde as peles pendentes do papo magro tocam os botões apertados do colarinho, numa compostura a que só faz falta a gravata. E, contudo, a figura não passa desapercebida no fundo, pois o fato é moldado por variações de luz que o relevam, como se o corpo modesto pela idade se elevasse acima do ícone. Tem, portanto, uma presença física muito superior à que a falta de cor faria supor, pelo que sobressai a autoridade para interpelar os dois Pinotes presentes, ainda que Hilário segundo Olímpia tenha chegado mais tarde. No corte do fato transparece a humildade de homem escorreito, daqueles que não morrem de doença nenhuma, pois são duros por dentro e por fora, mas sim por um lento esvair do corpo, onde se vão impondo as formas ósseas, já num prenúncio de sepultura em que o fim acontece quando a pele finalmente se une ao esqueleto. Impossível não pensar numa múmia, mas onde naquela as tiras ajeitam e apertam, aqui o fato largueirão dá existência ao corpo que se esfuma. Se do fato sai ação, do rosto sai brandura. Uma brandura a preto e branco, dos abençoados por Deus por chegarem a tão avançada idade. E é isso que espanta o visitante da galeria iconográfica, o fato projeta o ícone para fora, enquanto que o rosto nos puxa para dentro, a determinação do primeiro na interpelação dos Pinotes coadjuvada pela brandura no rosto de Hilário envelhecido.

terça-feira, 5 de março de 2019

Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917

O ícone cerebral Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917, surgido alguns anos mais tarde, através de uma funcionalidade que apenas ficou disponível a partir da versão 5.3 do software da Mindicon, a qual permite localizar no cérebro, nas zonas chamadas de sedimentares, informação que, uma vez armazenada, permanece relativamente imutável, a não ser pela pressão provocada pelo acondicionamento de outros dados, por camadas, ainda que interpenetrando-se, mas nunca perdendo a sua identidade, e que apenas se costuma manifestar explicitamente como memórias longínquas, mas já nas fases adiantadas da vida, em que damos pelas pessoas mais próximas a relatarem factos de uma existência que já não é a nossa, e, informação esta, que alguns cientistas acreditam ser fundamental no comportamento afetivo, irrefletido, para não usar a palavra irracional, que já há algum tempo foi liberta de significado, e agora costuma apenas ser usada no sentido de ignorância. Esta funcionalidade, presente na versão 5.3, chamada de inverted life periscope, permite capturar, com alguma pureza, das impressões mais primordiais do ser, numa fase eminentemente recetiva, em que no cérebro as capacidades de armazenamento se impõem, de sobremaneira, às de processamento. Mas o verdadeiro sucesso desta nova funcionalidade desenvolvida pela Mindicon, para além de um complexo e muito fino mecanismo de localização e agrupamento da informação cerebral, resulta do desenvolvimento de um sistema de filtros encadeados, que dinamicamente se compõem e recompõem, permitindo ao autor do ícone cerebral a seleção e eliminação de informação, usando apenas uma técnica de foco cerebral, também desenvolvida pelos engenheiros da Mindicon, que não necessita de treino exaustivo, e que pode de facto ser completamente dominada nos primeiros 30 minutos de uma sessão de iconografia cerebral. Desta forma, o autor pode-se focar em impressões que residem no seu cérebro e que, devido a se encontrarem nas zonas sedimentares, se pode dizer, quase não lhe pertencem. Foi assim que foi gerado o ícone Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917, que procurou em si o que de sua mãe Deolinda havia sobre seu pai Pinote. O ícone é tridimensional, feito de uma caixa de madeira, de um castanho avermelhado forte, mogno, todo ele liso, ainda que com as marcas dos fortes veios da madeira nobre, distinta, da árvore de tronco grosso que com um orgulho reto se alonga em direção ao sol. A primeira impressão, dada a sua dimensão, quase uma miniatura, daquelas onde com afeição se guardam recordações do que foi fisicamente grande, e que agora se conserva na memória como a mais delicada das matérias humanas. Uma caixa de senhora, portanto, toda encastrada, sem um prego, nem uma marca de intrusão, como se tivesse sido escavada da própria árvore, não fosse o cheiro a cânfora nos dar a certeza de ser também feita de outras madeiras. Cheiro que indiscutivelmente escapa do seu interior por uma ranhura irregular, selada por um pequeno fecho dourado que se debruça perpendicularmente.

domingo, 3 de março de 2019

Pinote, por joaninha1917

Dele sabe-se muito pouco, e mesmo a sua existência levantou dúvidas. Existiu realmente, ou é obra da imaginação do seu criador? O ícone foi gerado pela versão 1.3 do software da empresa Mindicon, numa altura em que ainda não tinha obtido a certificação de veracidade, que apenas veio a ocorrer aquando do lançamento da 3.0. De facto, nem sequer nessa altura ainda se tinha manifestado o impacto social provocado pela irrealidade dos ícones cerebrais, fenómeno que veio ser conhecido como disrupted reality. Assim, muito se discutiu, inicialmente, se seria um produto da imaginação da sua presumida filha, que o suscitou enquanto ligada ao software iconográfico com o avatar joaninha1917. Não era de todo infrequente os filhos de pais desconhecidos procurarem usar a iconografia cerebral para produzirem imagens de progenitores com quem nunca privaram ou de quem nem sequer sabiam o nome, levados por uma crença, nunca confirmada, que no cérebro se podiam formar reminiscências por intermédio de vivências partilhadas com terceiros, na maior parte dos casos o outro progenitor. O que diferenciou este ícone, quando colocado nas redes de partilha, foi a força da imagem de um homem pequeno, uma figura minúscula num enquadramento onde se impunha à ambiguidade que o envolvia, feita de formas geométricas traçadas a cor, onde indistintamente, para não dizer alternadamente, se podiam ver retângulos lavrados e linhas de barra de prisão. E, contudo, e talvez fosse essa a sua principal força, a figura central em si quase nada diferia da sua envoltura. Era um homem, podia-se perceber mais pelo triângulo largo que constituía os ombros, que por um qualquer outro sinal de masculinidade vestida, dada a composição banal de figuras geométricas, onde apenas a cor permitia discernir as formas umas das outras, em particular as da figura das restantes. Mas, tinha uma presença no rosto, dividido em quatro por um vermelho barrento e um branco transparente, onde olhos, nariz e boca eram mínimos, como se misteriosamente o humano brotasse da geometria. E essa era a caraterística que era repetida na maior parte dos comentários, devendo-se realçar que, na altura, já a sua visualização era filtrada por software de equanimidade, que garantia uma proporcionalidade dos mesmos, por forma a reduzir o reforço positivo que leva a situações de preconceito induzido. E quem era a sua autora? Mesmo antes de qualquer pesquisa, já o software de classificação automática, responsável pela análise crítica dos ícones, indicava, com um elevado grau de certeza, que a sua autora deveria ter formação em matemática, uma vez que já eram bem conhecidas, nessa época, as típicas constelações neuronais provocadas pelo seu exercício. Assim se veio a confirmar, mas Joaninha sempre se recusou a falar sobre o ícone atribuído a Pinote, não obstante os muitos seguidores que o adoptaram como o arquétipo de um pai distante, e várias vezes afirmou que o ícone teria sido publicado à sua revelia. Ademais, soube-se que conviveu pouco com o pai, sendo que apenas o viu algumas vezes, na prisão.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Albergue espanhol

E pretendo agora, Ivone, responder à tua segunda pergunta, aquela que me fazes sobre as transferências cerebrais. Um assunto a que, deves achar, me tenho vindo a escapulir, embora ele esteja na génese do negacionismo, e, no entanto, a nossa conversa tem-se focado, quase exclusivamente, nas querelas com o puritanismo, como se ele tivesse sido colocado no encalço do negacionismo para nos distrairmos das questões fundamentais. Mas sobre montanhas e tempestades estamos falados. Sabes bem que o negacionismo luta contra a possibilidade de a tecnologia nos classificar, pretendendo saber mais de nós do que nós próprios. Recordo-te as palavras de ordem fundamentais, vamos dissolver os padrões no grande oceano da alma humana, e, a única verdade tangível está no paradoxo. Por isso empreendemos o nosso caminho de divergência, irracional, dirão os que não nos querem entender, e fá-lo-ão para nos classificar, mas, disperso-me, das montanhas e das tempestades estamos falados. Pões, então, Ivone, esperança na possibilidade de as transferências cerebrais terem uma função libertadora. Mas diz-me, que liberdade é essa? Que liberdade pode ter aquele que é perscrutado no seu íntimo? Que liberdade tem aquele que recebe transferências cerebrais alienígenas? Falas de um dicionário, da possibilidade de ele ser visitado internamente, de viagens feitas todas por dentro. Mas dentro do quê? Dentro do corpo? Ou dentro da mente? É isso que não aceito, nem sequer penso poder vir a ser possível. Essa nova tecnologia enferma das mais antigas ratoeiras teológicas, aquelas que separam o corpo da mente, elevando tanto a segunda como rebaixam a primeira, Ivone. É uma toda uma religião, a que se encontra subentendida quando nos falam das transferências cerebrais. Um medo de morrer. Como se o corpo pudesse ser um albergue espanhol, um lugar onde se instalam, a seu belo prazer, todos os caminhantes. Que corpo é esse? De que é feito? Será que existe realmente? E já nem te questiono se será descartável, pois, uma vez que a teoria ganhe raízes, facilmente o será. Não há liberdade nas transferências cerebrais porque não há corpo. Como poderiam coexistir no mesmo corpo duas mentes, uma dali mesmo e a outra convidada? Quando convidas alguém a tua casa, atribuis-lhe um quarto, forneces-lhe toalhas, e, se por alguma razão ele deixa de se comportar como uma visita, se se senta no teu lugar do sofá, toma o comando da televisão e muda de canal a seu belo prazer, o que fazes? Perguntas-te quanto tempo falta para ir embora, não é? Do mesmo problema padecerá um corpo com duas mentes. Qual delas mapeará as pernas? A mesma que será senhora dos braços? A daquele corpo ou a importada? A liberdade não está na mente, Ivone, está no corpo, em podermos experienciar com ele, não apesar dele. Por isso, quando falamos do oceano da alma humana, é do corpo que falamos, quando falamos de o paradoxo ser a única verdade tangível, falamos do corpo possuir a mente e de esta estar cheia de classificações acerca do corpo, cheia de si própria, como um cavalo com o freio nos dentes.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Das montanhas e das tempestades

Ivone, Ivone, Ivone, repetiu três vezes o Afonso, a do Gonçalo, acrescentou ele sem ponta de ironia. Pelo menos eu não o senti assim, e o que lhe vi no rosto foi a cumplicidade desinteressada dos companheiros de viagem, nos antípodas do olhar dos amantes a meias, que partilham uma vivência arrendatária, cheia de altos e baixos, no gume da cessação do contrato. Como posso responder à tua pergunta? Perguntou-me. Atribuis-me poderes do que não possuo, saberes do que desconheço. E pelo seu rosto perpassaram as permutações que assaltam os homens que não se fecham em convicções. Achas que me cabe a mim definir o destino. Achas que se a um homem, numa caminhada, por muito que saiba aonde o levam as pernas, lhe surge inesperadamente à frente uma alta montanha, ou cai sobre ele uma forte tempestade, achas que tudo decorrerá como planeado? Achas que não parará, não hesitará, não se questionará? Achas que no fim, como se tal coisa existisse, não estará lá a montanha, não estará lá a tormenta? É certo que os seus biógrafos, tais como os romancistas, ou os cineastas, lhe darão uma significação que a enquadrará de início, como uma prova a superar, por forma a engrandecer o feito. Mas, como te digo, Ivone, a biografia é como a literatura, e o cinema, faz-se detrás para a frente. Parte-se do ponto de chegada de forma a que tudo faça sentido deste o ponto de partida. Percebes, Ivone, não é a mim que deves perguntar aonde quero chegar, não é a mim que deves perguntar qual é a vitória do negacionismo, é aos biógrafos, aos historiadores, a todos aqueles que um dia resolvam contar esta história. Eles enquadrarão a montanha como um elemento central no entendimento do objetivo do movimento negacionista, logo na sua origem, pois é assim que se constroem as narrativas. Também nisso diferimos do puritanismo, pergunta-lhes e eles dir-te-ão, sem dúvida, o que é a sua vitória. E, ironicamente, será, o fim do negacionismo. Sim, o negacionismo é a montanha que surgiu no caminho do puritanismo. Por isso, historicamente, o negacionismo e o puritanismo não são diferentes, ambos se constroem detrás para a frente. Mas, Ivone, essencialmente, diferimos na convicção. Estão os puritanistas tão fortalecidos das suas razões que não olharão aos meios para atingir os seus fins, enquanto que a nós, aos negacionistas, apenas nos resta embasbacar pelos sortires das montanhas e das tempestades. Diremos, Ivone, não com revolta, mas com iluminação, ao que chegou o puritanismo. Percebeste mais uma vez a ironia, Ivone. Deus é um gigantesco comediante. O que para os puritanistas são obstáculos a ultrapassar, são para nós os negacionistas, objeto de abismamento, pois os puritanistas querem fazer a história e nós, que, sabemos como a história é feita, trazemos connosco o estigma da derrota. Mas, não é isso que nos faz desistir, não é por sabermos como é feita a história que as nossas pernas não deixam de caminhar. E, claro, sabendo o que sabemos, tudo isso é paradoxal. Pois, é. Por alguma razão, e deixa-me adivinhar, Ivone, estes poderão ser chamados, os loucos anos 60.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Perante a esfinge

Aquelas palavras com laivos de intimidade que poderiam queimar, quando gorgolejadas do rosto imóvel do Afonso, abrem um oceano, pelo que em vez de me correram escaldantes pelas veias, sinto-as como se me lambessem os pés. Deixo-me estar perante a esfinge, não pensando no que contra argumentar, ocorrendo-me em vez disso o encontro de dois rios que seguem na mesma direção, ombro a ombro, sem se misturar, e que esta discussão com o Afonso ocorre nas superfícies que se tocam, sendo por isso feita de empurrões que, por maior que seja a sua força, poucos centímetros arrancam ao leito do outro. Quando regresso, não sei se passou muito ou pouco tempo, encontro o Afonso como o deixei, e dou comigo a sorrir-lhe sem intenção, perguntando-lhe, qual é o fim que pretendes alcançar? E não interpretes mal a minha questão, acrescento, sorrindo abertamente perante a esfinge e sentindo pela primeira vez com ele uma satisfação que não depende do que digo ou penso ser certo. Aceito o paradoxo da tua entrega individual pelo bem do individualismo do todo. Aceito que seja um duplo paradoxo, pois incorporas nos teus argumentos as ideias da luta de classes mais tradicional, em que o individual se deve naturalmente sacrificar ao bem do grupo, e, no entanto, o que defendes é o individualismo, e queres, paradoxalmente, sacrificar um indivíduo a bem do individualismo. Aceito que te tenhas incumbido dessa missão. Mas a pergunta é sobre onde pretendes chegar? Como definirias a vitória do negacionismo, Afonso? É a derrota do puritanismo ou o fim da tecnologia de transferências cerebrais. Como será esse mundo inclassificável em que cada um pode ser o que quiser? É sem dúvida a morte do puritanismo, da classificação como uma manifestação do poder. Por ventura de um poder social, como muito bem tens feito notar, e que está de acordo com a aplicação da teoria marxista aos movimentos de género e identitários. Dizes, pois, que estamos a alargar o espaço de nomes. Embora eu não esteja totalmente certa disso, Afonso, sorrio-lhe sem desassossego. Já reparaste como o homossexual fala do seu marido ou da sua esposa. Não criou um novo nome, exige sim ser abrigado perante um outro. Nessa perspectiva, o resultado da luta entre o negacionismo e o puritanismo ocorreria no dicionário, não por novas entradas, mas pelo alargar das definições, uma luta de classes, como já falámos. E qual poderá ser a relação com o advir das transferências cerebrais? Tornar-se-ão elas inócuas num contexto em que os dicionários se transformaram em esponjas que absorvem a diversidade, como se tivéssemos retornado ao tempo dos enciclopedistas, e a obra nunca estivesse terminada? Deixará assim a transferência cerebral de ser uma ferramenta repressiva, como muito temem hoje em dia, quer pela sua infinita possibilidade de perscrutação, quer pela sua capacidade de interferir, por poder introduzir alternativas alienígenas no corpo, para se tornar, em vez disso, num mecanismo libertador que permitirá viajar corporalmente pelo dicionário? Perguntei eu perante a esfinge.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Continuou o Afonso

E depois, continuou o Afonso, tomando folgo com os olhos, mas mantendo o rosto estático, como no ligeiro movimento helicoidal da lente de uma máquina fotográfica que retrocede e avança, aos poucos, para se assegurar da precisão de foco. Depois, continuou o Afonso, na tua argumentação há um pressuposto basilar, que talvez as diferenças entre o puritanismo e o negacionismo sejam ténues, que não difiram no essencial, que sejam apenas duas manifestações do mesmo princípio, como se constata quando se descarna os corpos de dois seres que se odeiam, e talvez até te ocorra, nas tuas demandas de sentido, se daí não advirá alguma espiritualidade entre os canibais. E, desculpa repetir-me, Ivone, o que de facto te norteia é essa busca da verdade na forma de um princípio, de um modelo. Por isso te refiro a tua necessidade de justificação nos átomos, nas partículas fundamentais. E é bonito, é. Entretém-te e satisfaz-te, ao mesmo tempo. Se fosse noutro tempo, diria que sofrerias dos desvios pequeno burgueses, e dos seus sonhos. Fazer o que se gosta, de modo que o trabalho se transforma de tal forma num prazer que se esquece da necessidade de lutar para comer, da nossa, e, por perigoso subjetivismo, da dos outros. Porque não fazem eles o que gostam?, seria o leve pestanejo que enxota os vicissitudes que não são as nossas. Essa paz, que gostarias de alcançar, essa torre de marfim, onde gostarias de te instalar para perceber o mundo, para o reduzir às suas leis fundamentais, permite-te pretender imaginar que o puritanismo e o negacionismo são a mesma coisa, embebidas nos mesmos princípios e nas mesmas leis. E eu, Ivone, respondo-te, é verdade e é mentira. Tens razão e a razão que tens é estéril e quase fantasmagórica, lançando sobre a realidade uma sombra asfixiante. Tens razão, quando falas da inveja que o negacionismo pode ter dos filmes do puritanismo. Tens razão, quando dizes que talvez não estejamos perante outra coisa que não sejam jogos de classificação. Mas não te podes reduzir à forma, quando a função dos corpos deve imperar sobre a sua estrutura. É importante perceber onde é que estas novas tecnologias nos poderão levar e quem tem o poder de as utilizar. Não poderás discordar de mim, que o corpo do escravo não difere do do seu amo e que, contudo, em tudo o resto divergem, e se duvidas, ou se subitamente te ocorre mais alguma aguda formulação, pergunta ao escravo. E para que verdadeiramente o entendas em ti, Ivone, arriscar-me ia a dizer que tu, Ivone, dedicaste a tua vida à procura do amor, e que sempre menosprezaste a função, ou pelo menos assim o pensaste. Que em cada relação procuraste aprofundar o essencial, as miudezas das manifestações intensas, engrandecendo momentos e descurando o dia a dia, e todo o simbolismo aí envolvido. E que com alguma benevolência procuras-me atribuir também a mim esse desprendimento, julgando-me julgas-te, pois questionas-te a ti mesma se fizeste bem, se terá sido esse o melhor caminho. Classificaste o amor, desclassificando-o como elemento funcional, convencida, quiça, numa resiliência.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Esfíngico

Se bem percebo o que dizes, Ivone, dizes duas coisas, fita-me o Afonso, colocando um rosto esfíngico onde a fealdade ganha uma postura soberana. A primeira, que existe uma incoerência entre o que defendo e como o defendo. E aí falas abertamente, com a força da argumentação, vasculhando aqui e ali, estimulando diversas extremidades com vista a desencadear choques contraditórios, da mesma forma que se demostra o absurdo que existe no cerne de uma teoria. Mas a segunda é mais sub-reptícia, sugeres que as diferenças entre o negacionismo e o puritanismo são apenas de forma, que o segundo tirou temporariamente partido de uma tecnologia, mas que ambos os movimentos estão condenados. Como se uma entidade externa tivesse munido de armas um dos grupos do planeta com vista a gerar um desiquilíbrio cujo desígnio final é exterminação total. E por isso, por ambas as coisas, fazes uma interpretação messiânica da minha atitude. Apontas-me sinais de entrega total, como se eu fosse um deus, e contrapões a isso os princípios básicos que estão na génese do negacionismo. Mas, Ivone, o que se passa é que esqueces a ordem das coisas, que te interpões ao processo histórico, que o analisas antes como se já soubesses do seu devir. Sim, Ivone, depois de uma guerra é fácil perceber da sua miséria, do seu sem sentido. Mas, é estúpido ignorar a guerra ela própria, as suas origens, quando a ela ainda não foram entregues os corpos em tributo. É estúpido dizer, a guerra é estúpida. Se fosse estúpida, Ivone, aconteceria apenas uma vez ou duas, não se repetiria. Dizer que a guerra é estúpida, é dizer que é estúpida a acumulação de paz, de dia a dia, do destino singular de cada um. Porque, Ivone, é nesse estado que se fermenta a guerra. Sim, é absurda, mas não é estúpida. Mesmo quando agora já não se trate de uma guerra convencional, em que se perdem corpos, mas sim uma guerra em que se perdem nomes. Imagina, Ivone, na guerra convencional, cada corpo tinha um destino, estava prometido a ser qualquer coisa, mas uma só coisa, a ser carteiro, a ser padeiro, e depois chega a guerra e reduz esse destino a nada, e tu dizes, Ivone, a guerra é estúpida, olha como interrompe os destinos, olha as cartas que deixaram de ser entregues. E eu digo-te, olha como depois da guerra as pessoas largam as questões complicadas e se entregam às coisas simples. É absurdo, mas é assim. Assim também é com os nomes, Ivone, quando eu tomo todos os nomes, faço-o pelo negacionismo, pelo direito a cada um poder escolher o seu. Faço para que no fim da guerra, se possa olhar com nojo, e dizer, olha como se diluiu em todos os nomes, olha como ele deixou de ser uma única coisa, olha como se perdeu. E é aí que diferimos profundamente, Ivone. Tu estás constantemente a olhar para dentro, a procurar pequenas justificações nos átomos, e eu estou constantemente olhar para fora, e sabes porquê, Ivone? Porque lá dentro não há nada, porque estive um ano em coma, porque tive oportunidade de estar um ano comigo, e quando regressei tinha passado um ano.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Negar o negacionismo

Afonso, disse, procurando sair daquela cave para onde me deixei ir enfeitiçada. E aqui até me obrigas a fazer uso da tua retórica, da tua dialética, que até parece que a perdeste desde que resolveste beber o vinho, que eu bem reparei, e se calhar quiseste que eu reparasse, como uma representação da negação. Afonso, acho que por um lado exageras, e que por outro perdes a coerência. Repara que não é possível que o que afirmas seja verdade, esse desprendimento, essa entrega, não faz sentido, está bem nas intenções, mas sabemos que as coisas não são assim, saímos do corpo atrás das ideias e ali vamos nós, uma atrás da outra, e quando regressamos perdemos o contacto com a realidade, e damos por nós a amar ou a odiar outros corpos, só porque sim, só porque estivemos muito tempo fora. É por isso que os amantes jovens, e repara que não são necessariamente os jovens amantes, Afonso, têm pavor à distância, porque passam muito tempo a imaginar, com saudades, dizem, pelo que quando regressam há um frenesim, uma ansiedade, de saber se as suas efabulações foram convergentes ou divergentes e só voltam a obter a serenidade depois de cruzarem os corpos. De deixarem as teorias, Afonso. Disso são feitos os movimentos de massas e as guerras civis. Achas mesmo, Afonso, que te atraem todas as mulheres e que todas te aborrecem? Sim, é o píncaro do negacionismo, mas é verdade? Porque necessitas de entregar o teu corpo à tua causa? Porque te martirizas? E este é a segundo aspeto, aquele em que perdes a coerência. Não é o negacionismo um movimento para fazer frente ao puritanismo? Não é o objetivo do negacionismo a preservação da liberdade do indivíduo, da sua capacidade de decidir do seu próprio destino para além de um conjunto de destinos preestabelecidos? Sim, responder-me-ás, e acrescentarás, o seu magno objetivo é poder ser para além da classificação, e por isso te despes de toda a roupa e te entregas ao devaneio. Mas, Afonso, e isso é que é contraditório, o resultado é um indivíduo que não tem liberdade de decidir, porque pura e simplesmente deixou de existir. Essa estratégia de fazer o todo, de percorrer todos os caminhos, para dar aos homens a liberdade de escolherem o seu, um qualquer, é meritória, mas está feita para os deuses, não para um único homem, ainda que líder de um movimento, ainda que admirado, consagrado e entronizado. Receio, Afonso, que ao lutares desta forma pelo negacionismo, ao te entregares a ele desta forma, ao quereres seres a sua representação, ao tornares o teu corpo num símbolo, ao negares o teu eu, a possibilidade do teu caminho, negas o negacionismo. E sim, Afonso, sei que há uma beleza nessa loucura, uma grandiosidade, uma totalidade, daquela que se consegue apenas perceber num flash, que essa ideia nos agarra por dentro, não nos larga, nos dá um fervor, uma determinação, quase cega, que nos orienta, de nos faz entregar ao sacrifício como um ato de extrema beleza, Afonso, como as estátuas de heróis imberbes mortos em guerras, mas Afonso, não negues o negacionismo.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Uma estranha forma de amor

O Afonso agarrou o pé do copo de vinho com o punho fechado e levou-o à boca, bebendo de um só trago, como se de um penálti se tratasse. Depois, e é-me muito fácil descrever este momento, pois ele ficou-me gravado na memória, de tal forma que terei de recorrer às liberdades literárias, que não há outras que permitam, na ausência da iconografia cerebral, que vós que me ledes desconheceis, e assim, não há outras que permitam, dizia, uma total capacidade de descrever o que lentamente se encastra na memória e que por isso se enriquece de detalhes, tornando a recordação desse particular momento o centro de um vórtice para onde sugamos tudo o que diz respeito à pessoa ou situação em causa. Depois, olhou-me com o rosto descarnado, não colocando nele a menor necessidade de empatia social, nenhuma frequência no espetro do amor ou da raiva, branco, vermelho, descarnado, abriu a boca, e se houvesse em Afonso alguma intenção corporal, uma necessidade de marcar o seu lugar, como nas costas de uma cadeira se coloca um casaco antes de ir buscar a comida ao buffet, diria, abriu a boca sem maneiras, expondo os dentes carcomidos pelos anos de chinesinhas e lambidos pelos restos de vinho acabado de por lá passar. Sei que não é possível, que o vinho tinto, ainda que acabado de beber, não pode deixar umas marcas tão intensas nos dentes como estas que recordo, mas são as que recordo, que estão lá sempre que recordo, e mais, são espessas, como um gel que traça cintilantes contornos, dando à boca uma luminosidade que me convida, e de onde não retiro mais os olhos, pelo menos tanto quanto me lembro, fixo-me na cavidade bucal, enorme, eternizada pela cera, e de onde as palavras vão sair uma a uma, ordeiras e retumbantes, abalroando-me a alma, se é que tenho tal coisa. Falas de vestir paradoxos, Ivone, e dizes com ironia que ninguém os veste, que o paradoxo é um não ser, que só é o que se classifica, que para ser temos que vestir uma etiqueta, ivesanlaurent, soletrou trambolhando a língua entre os dentes, e sim, concordas que o paradoxo é a vida, mas que é inútil, que o bebé quando nasce não quer saber de paradoxos, come e evacua, sem se questionar, e que se tiver uma vida saudável, continuará assim até à morte, apenas cobrindo estes dois atos das etiquetas da cultura, um chateauiquemsauterns para o primeiro, e um de retiro de silêncio para o segundo, e desculpa-me a ironia, a mim também, Ivone, diz, abrindo a boca por onde lhe vislumbro a úvula, húmida, balançando brilhante, provocando um jogo de sombras nas amígdalas, mas eu, tal como me atraem as mulheres belas, esguias, de harmoniosos traços, também me sinto cativado pelas feias, por aquelas em quem ninguém repara a não ser para não reparar, todas me extasiam, me deixam fora de mim, e a todas dou o meu amor, intensamente, de igual forma, e como classificarias este meu ser?, parece-te paradoxal?, mas podes estar certa que é intencional, e és capaz de pensar, não é, o que te classifica é o amor, Afonso, és como um homem santo, mas o que dirás, Ivone, se te dizer que também me enchem de aborrecimento?

domingo, 13 de janeiro de 2019

Do fim da história

Concordo, Afonso. Sim, é verdade que, se apenas alguns puderem ler a mente, será uma típica questão de poder, e isso a que chamas luta de classes, que se te estou a perceber bem, não é mais do que uma luta de nomes, ou direi melhor se dizer, de nomeações, isso resume-se ao que sempre a história fez, o poder de quem é quem determinar quem é o quê. Mas, tu bem sabes que a tecnologia se banaliza rapidamente e chega o momento em que todos terão acesso à capacidade de ler a mente, qualquer mente, pelo que quem é quem não se diferenciará de quem é o quê. O fim da história, se assim quiseres, acontecerá no preciso momento em que a roupa se tornar supérflua, essa pretensão que colocamos sobre o quê para sermos quem. O fim desse lento processo que iniciámos quando descemos das árvores, quando começámos a intermediar o movimento da mão em direção ao fruto com as vestes da cultura. E, oh, como nos tornámos exímios nessa arte, digo-lhe enquanto levanto o copo de vinho tinto e fico a balanceá-lo em frente dos olhos, fitando o Afonso com um sorriso, porventura condescendente, através do fino vidro abaulado, tendo como pano de fundo os tons ondulantes de vermelho. E ocorre-me acentuar, é a distância, Afonso, que vai deste copo aos frutos das plantas que tiveram de ser domesticadas para vir a ser videiras que ameaça eclipsar de um momento para o outro. O fim da história, insisto. Porque a história não gosta de empates. Acaba por se aborrecer, definha e eventualmente morre. E tu dirás, Afonso, que depois desta tecnologia virá uma outra, e que ela criará diferenciação, fará a história dar mais um passo em frente, mas o que poderá ser vendado quando tudo estiver desvendado? Pergunto-lhe, enquanto ele hesita em levantar o copo cujo pé aperta entre o indicador e o médio, debruçado que está para a mesa baixa do bar. Nisso o negacionismo pode já estar à frente, e pelas razões erradas, continuo, senão vejamos. Repara como todo o movimento se faz em desvendar, em exaurir o espaço das possibilidades, em vestir todas as vestes, e não há ninguém mais vazio do que um ator, Afonso. Que pensas que sente quem já sentiu tudo? Aborrece-se, se não se tiver tornado sátiro, e mesmo isso, o que não é senão um aborrecimento, um impasse. Mesmo o elogio do paradoxo, talvez o ato maior do movimento negacionista, é a prova rematada do anúncio do fim da história. Já viste alguém vestir um paradoxo? Sim, olhamos para os outros, vemos o seu comportamento e dizemos, repara como é paradoxal, por isto e por aquilo. E o movimento negacionista diz, muito provavelmente com verdade, que o paradoxo está no cerne da vida. Mas já viste alguém vestir um paradoxo? Levantar-se de manhã da cama, abrir o armário, passar a mão pelos cabides perguntando-se, que paradoxo levo hoje vestido? E como um vestido de gala? Como um smoking para ir a um casamento. Conheço quem tenha ido de palhaço, mas logo arranjou oportunidade para dizer, desculpando-se, sou amigo do noivo. Digo-lhe, fitando-o e levando o copo à boca, sentido o vinho tinto a subir pelas narinas e a descer pela garganta.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Mente aberta

Mas vamos ver Afonso, digo-lhe após um prolongado silêncio em que nos olhámos pela primeira vez demoradamente, isso não é de todo possível. Esse livro, ou devo dizer a mente, não é fechado. Ou seja, marco uma pausa agora que ele volta a colocar os olhos para dentro, no próprio momento em que ele é lido já lá tem outra coisa. Parece-me, Afonso, que o negacionismo radical sofre do mesmo defeito do puritanismo, a ideia que as coisas existem tal como parecem, que podemos estar a olhar algo sem o modificar nesse preciso momento. Tudo o que observamos, Afonso, vai sempre um pouco à nossa frente. A dialética é a maior falácia do pensamento ocidental, arrisco, agora que o sinto absorto, quase como que enfeitiçado pelas minhas palavras, que, confesso, eu própria não tenho a cautela de pesar com o cuidado devido antes de as pronunciar. Ele volta-me a olhar, primeiro surpreendido, depois com o sorriso de quem tem prazer de ser apanhado nessa situação. Dá-me satisfação tê-lo assim, e resolvo jogar no seu próprio território. Sabes, Afonso, se os puritanistas gostam de fazer filmes que possam arrumar tudo no seu lugar, que sejam basilares acerca do que está bem e o que está mal, que os possam mostrar às suas crianças, como quadros representativos do que sempre foi e do que sempre será. Então, Afonso, estou em crer, que os negacionistas também estão convencidos que assim seja, apenas estão contra aqueles filmes, e, por isso, pretendem entrar pela sala de cinema adentro e partir tudo o que lá está. E depois temos os puritanistas a fazer um novo filme sobre o assalto ao cinema, e irão com certeza classificar com exímia esse desmando, quiçá irrefletido, dos negacionistas. A dialética é como uma droga, pede-nos sempre mais. Pois é, Afonso, procuro desferir num golpe final, parece-me que os negacionistas defendem um livro aberto apenas por impotência, mas na realidade, ao darem tanto ênfase ao estado do livro não estão longe dos puritanistas, apenas lhes faltam os meios para o esconder eficazmente. O Afonso olha-me com o sorriso amigo, de quem apreciou a argumentação, o raciocínio, e indulgente, de quem olha para uma criança que acabou de dizer algo que se aproxima da realidade, mas continua muito longe da mesma. Pois é Ivone, tens razão, mas o que é que pretendes? Que nos entreguemos à contemplação dessa mente aberta, enquanto os puritanistas nos comem? Pretendes que os observemos tragando-nos e que vejamos como é que a nossa mente se vai metamorfoseando? Sim, é verdade, que a diferença está em que nós não conseguimos ler o livro deles, mas eles leem o nosso. É essa a diferença de classe, não de classes. Percebes, Ivone, pergunta-me com um sorriso. Quem pode classifica como quer, quem não pode é classificado. Ou porque é que achas que os pretos são pretos? Porque os brancos podem! Pudessem os pretos, percebes Ivone. Por isso, a solução não é a contemplação do constante fluxo da mente, a solução é a dialética. Só a mente aberta pode definitivamente provocar uma verdadeira revolução, uma viragem na luta de classes.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Do negacionismo radical

Considera então, explica-me o Afonso, a situação em que das mais variadas formas, seja pela iconografia cerebral ou uma outra técnica, começam a aceder diretamente ao teu cérebro. O que pensas que poderá acontecer nesta situação? Não, supõe antes, de uma forma mais simples, que tens um pequeno livro onde tomas as tuas notas, coisas pessoais, ou não, e não sabes se alguma vez as irás transmitir a alguém, mas estão para já ali, apenas ali, no papel, no livrinho fechado, dentro de uma gaveta. Imagina, Ivone, que um dia suspeitas que alguém abre essa gaveta e perscruta o que escreves. Não sabes qual a razão pelo que o fará, mas isso também não tem importância. A questão é, Ivone, e finalmente Afonso tira os olhos do vazio, dirigindo-se a mim, a questão é, repete, não sei se para tomar fôlego, ou porque se distrai com a minha face. Devemos esconder o livrinho? Devemos deixar de escrever? Ivone, que te parece? Pergunta com os olhos apontados acima das minhas sobrancelhas. Primeiro talvez o escondas, continua perante o meu silêncio, mas a incerteza já se instalou em ti, e passas o tempo a mudar de local, ficando, por um lado, com a sensação que o esconderijo onde esteve antes talvez fosse melhor e, por outro, que há cada vez menos locais para o esconder, de forma que ao fim de algum tempo desistes, resolves desfazer-te do livro e deixar de escrever. É isso o puritanismo, Ivone. Vives então assim conformado, aborreces-te e depois revoltas-te. Por que razão não podes ter um livro numa gaveta onde escreves o que te apetecer. Então, Ivone, tomas uma decisão mais radical, retomas à escrita, começando a escrever tudo o que te apetece e simulando que te preocupas em esconder o livrinho. E não simulas por astúcia, mas por direito próprio. Aventuras-te pois a escrever mesmo tudo, até o que antes nunca te tinha ocorrido, e dessa forma pretendes intoxicar aqueles que supostamente te leem, enchê-los de contradições, de vai e vens, e acima de tudo, o mais importante, nunca podes dizer que o que lá escreves seja mentira, porque não o é. Isso, Ivone, é o negacionismo. Agora vem o mais importante, o corolário deste teu desaforo é começares a sofrer as consequências pelo que escreves num livro que não dás a ler a ninguém. De quem é a culpa, Ivone? Questiona-me com o ar inflamado de quem após uma longa refrega se prepara para levantar a bandeira que traz nas mãos. De quem é a culpa, Ivone, por se enfurecerem por aquilo que escreves e escondes dentro de uma gaveta? De ti que escreves ou deles que leem? Insiste especado, esperando pela minha resposta para levantar bem alto a bandeira do negacionismo. Procuro dizer algo que lhe retire a exaltação a que chegou, e que sem o querer contradizer permita encontrar um meio termo, uma conciliação, e de repente ocorre-me aquilo que parece ser um bom compromisso. Digo-lhe. Acho, Afonso, que os que leem muito em breve vão perceber que está a ser escrito o está para ser apenas lido por quem o escreve e, por isso, aos poucos irão ignorar. Aí, numa exclamação, o Afonso diz, acreditas nisso, Ivone? Tens de tirar o livro da gaveta.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Sou a Ivone, a do Gonçalo.

E ele olhou-me com um ar surpreendido, tentando encontrar rapidamente um caminho na memória que o libertasse do embaraço. Gonçalo? Soletrou para dentro, iniciando uma procura interior. O Gonçalo Martins, do movimento em Leiria? Questionou, alçando os olhos, regressando à superfície, talvez perante uma bifurcação. Não, respondi-lhe. O Gonçalo, que era amigo dos seus pais quando o Afonso ainda era pequeno. Do Gonçalo?!, do Zalo!?. Interrogou-me de volta, puxando a cabeça ligeiramente atrás, como quem compara dois nomes a ver se são iguais. Sim, do Zalo. Confirmei-lhe. Eras Ivone? Sondou-me, com o rosto branco e os olhos ligeiramente desniveladas, como se acreditasse agora no corpo que tinha diante de si mas ainda tivesse dúvidas acerca do nome. Sim, sou Ivone, repeti. Ivone. Disse com um sorriso, ligando nomes não antes conexos. Sim, lembro-me de ti, desculpa, já foi há bastante tempo. Quarenta anos? Eu teria uns 10 quando ele morreu. E o raio do Linker, disse rapidamente, para retroceder daquele caminho, indicava-me haver uma tão forte ligação entre nós, que eu vim falar contigo apenas para mostrar que estava errado. E de facto parece haver, mas não faz muito sentido, como poderá saber?, naquela época ainda não eram recolhidos dados de forma sistemática. E o Zalo já morreu há tantos anos, retomou absorto. Embora haja suspeitas que começaram a recolher diretamente informação do cérebro das pessoas, por forma a reconstruir o passado, quase que sussurrou, cabeceando para os lados. Parece que o modelo de negócio se deve ao aumento da esperança de vida, passou para um tom mais coloquial. Há um número significativo de possíveis consumidores de quem possuem apenas informação parcial, e esse número não se está a reduzir de forma tão significativa, como era inicialmente expetável. Alegam que com um mapeamento completo podem proporcionar uma maior satisfação. A promessa da felicidade, Ivone, a promessa da felicidade, afinal tudo se resume a isso. A Ivone fez recentemente uma iconografia cerebral? Perguntou-me. interrompendo-se, ligeiramente desconfiado, levantando as pálpebras, expondo os globos oculares vítreos em todo o seu volume, e continuando sem me dar tempo de responder. Tornou-se moda iconografar a memória das pessoas falecidas. Dizem que supera os álbuns de fotografias. Para quê passar horas a zapar fotografias se pode dedicar-se à contemplação da mais bela síntese que o cérebro fez dos seus entes queridos, é a mensagem de marketing. Podemos entronizar os nossos falecidos, adorá-los como a ícone. Foi desenvolvido por uma empresa russa. Ah, não sei se sabes, o meu pai faleceu há cerca de seis anos. Lembraste do meu pai? E a minha irmã tem insistido com a minha mãe para ela fazer uma iconografia, que inclua os tempos que passaram no Alentejo. Diz que gostaria de poder visualizar o meu pai iconografado ainda com informação dos tempos antes do 25 de abril. Mas o que eu acho, é que é coisa do Romeu, o marido dela, sabes. Ele até sugeriu a possibilidade de iconografar o capitão Armando Simões e o Hilário Mendes.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Google Linker

Por vezes, um morto num hop, embora provoque o aumento da distância, propicia a aproximação. O Afonso tornou-se num dos símbolos do movimento negacionista. Não um líder, pois, como ele não se cansava de repetir, de líderes gostam os puritanistas, que até já têm um padrão bem definido e uma mão cheia de candidatos a preenchê-lo. Neste tom eram dadas as entrevistas. Quase sempre encimadas por aquela frase, que se foi tornando num dos slogans do movimento, vamos dissolver os padrões no grande oceano da alma humana. E claro, eram abundantes os comentários dos comentadores, abonatórios, até porque elogiar é uma forma de embarcar e estava-se na fase em que ninguém queria ficar de fora. Tinha tido a vida perscrutada e cada caraterística descortinada, qualquer que ela fosse, queixou-se me ele mais tarde, era razão de interesse e opinião. Os anos de dependência das drogas, e o navegar de outros mares. O ano em coma, e a importância da ausência. O ar despassarado, e a capacidade de surpreender. A atitude desprendida, com o seu quê de missionário. A mãe revolucionária, que era apontada como estando na génese da sua atitude inconformista, ainda que eu soubesse que ele tinha pouco a ver com ela. Tinha antes a persistência dos iluminados, bem mais próxima da desorientação do Zé, nada que se parecesse com a forma metódica como a Joaninha enfrentava as dificuldades. Estava do lado fácil, como se queixava a irmã Catarina, não é ele que tem que escrever os algoritmos, não é ele que tem que ganhar a vida à procura dos padrões, basta-lhe desdizer. E se ela tinha alguma razão, eu não resistia a ler cada uma das entrevistas. No início até isso me sabia um pouco a transgressão. Construir uma forma através das palavras lidas. O filho do Zé. Que conheci quando ainda era uma criança. Que adorava o Gonçalo. O Super Afonso, defensor dos oprimidos. O Afonso, a quem, estranho agora, nunca me liguei. De quem soube depois apenas através da voz do pai deitado. Quase sempre em solilóquio, que as conversas acerca da família dele eram dele para com ele. E teria ficado assim. Mas o pai morto abria uma distância. Permitia-me vê-lo como já não sendo o filho do Zé, o que possibilitava vê-lo como sendo o filho do Zé. Talvez por isso tenha começado a fazer parte do movimento. Participava nas reuniões de negação, em que se formulavam paradoxos. A única verdade tangível está no paradoxo, dizia o Afonso, tudo o resto é estatística, uma aproximação. E eu ficava a ouvir à distância, procurando perceber o que haveria do Zé. Era significativamente menos do que tinha imaginado. Era revolto como o pai. Mas no corpo não se lhe assemelhava. Parecia que lhe faltava algo. Alto, como o pai. Os olhos pareciam não encaixar bem nas órbitas. Sorria, como o pai. Mas era senhor de uma assimetria completa. Um dia veio ter comigo, como se me tivesse reconhecido, e disse, o Google Linker sugeriu-me conhecer a Ivone, diz que temos muito em comum, não acredito, como pode saber o que nós não sabemos, disse, meio a sério, meio a brincar, piscando os olhos enquanto falava, deve ser apenas uma aproximação, e riu.

domingo, 16 de dezembro de 2018

O puritanismo

O negacionismo talvez pudesse ter sido um fait-divers, um pequeno sobressalto social, banal e inconsequente, como é apanágio da normalidade. Mas assim não foi. E, sabemos hoje, por culpa do puritanismo. Mas não do puritanismo clássico, feito pelos puritanos, com raízes anteriores ao negacionismo. Não por um puritanismo que tivesse visto uma oportunidade para se manifestar, que estando de olho, naturalmente desconfiado da natureza deste e daquele, certo que só não prevaricariam porque não podiam, porque tinham medo, por serem uns dissimulados, e ser sabido como são atreitos ao descuido e ao desmazelo. Mas sim de um puritanismo a posteriori, construído como resposta ao negacionismo e fortalecido na reação a este. De qualquer forma, em comum, ambas as formas de puritanismo possuem uma absoluta confiança nos padrões. E, naquele estádio da evolução do ser humano, em que as mentes ainda eram disciplinadas pelo pensamento dialético, moldando-se por oposição, rapidamente se gerou um evidente mal-estar entre os que trabalhavam na identificação de padrões, quando pressentiram que cada uma das suas conclusões de hoje poderia seria negada pelos dados do dia seguinte, e que é o mesmo que dizer, pelos comportamentos. E, faço notar, como décadas depois ficou evidente pelos estudos realizados, que não é certo que os comportamentos negacionistas, se ignorados, pudessem alguma vez vir a conseguir alterar de forma significativa os dados. Mas bastou a suspeita, e o receio, para aguçar o engenho. E, se calhar, nem sequer era esse temor o verdadeiro problema, talvez fosse apenas uma necessidade de garantir a credibilidade, que toda a autoridade teme a arruaça, por muito reduzido que seja o seu real impacto, mesmo que se limite a apenas um simples bater de pé. Também é esse um sinal dos tempos, em que os mais racionais seres ainda não se tinham libertado do seu eu emotivo. Como mais tarde disse um dos principais envolvidos, nada mais importante do que o nosso bom nome. Isto, ironicamente, quando o desboroar do eu primitivo e difuso dava lugar a uma forte afirmação do estruturado eu puritanista, não confundi com os puritanos, estamos a falar de movimentos do segundo quartel do século XXI que, obviamente, ainda desconheceis. Sim, foi uma guerra de nomes, aquela em que se envolveram os negacionistas com os puritanistas. Disse alguém que, desde a fim da pré-história, nunca a arte poética tinha tido uma dimensão tão política. Aquilo que uns revelavam de manhã era logo de tarde negado pelos outros. Estudavam-se assim mutuamente, procurando os puritanistas incorporar as negações como variações ao padrão. Se os puritanistas declarassem que tinham encontrado uma correlação que indicava que a sinceridade numa relação era um dos principais indicadores da satisfação pessoal, e se disso tomassem conhecimento os negacionistas durante o almoço, logo a tarde era passada na concretização dos mais elaborados ardis capazes de justificar desde a mentira mais piedosa até à mais perversa, achando que assim dariam uma lição de humanidade ao puritanismo.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Os negacionistas

Tive que ir a um dicionário de 2018 para confirmar qual era então o significado da palavra negacionista. Este é um dos problemas de estarmos a escrever para o passado. E não é o único. Vivesse eu o sonho de todo o escritor, de vir a ser famosa, e viveria neste dilema de ter os meus leitores num tempo anterior ao da escrita, arriscando-me que o meu presente fosse a sobreposição entre a incerteza na solidão deste canto em frente ao teclado e as plateias de consonantes estados de alma por mim produzidos, pequenos clones da minha pena. Ou então, a sobreposição com o insucesso, em que as letras que me saem da mão logo mirram. Para vós que me ledes então, a melhor imagem que vos posso dar é a da sobreposição de estados de espírito de uma mente que ao escrever vai saltitando entre a euforia da genialidade e pavor da mediocridade. Mas não padeço desse sonho. Porque tenho 100 anos. Porque não há maneira de morrer. Porque no dicionário de 2060 na palavra escritor lesse, profissão desaparecida no início do século devido à introdução das transferências cerebrais. Sou, contudo, uma saudosista, e em vez de gozar de uma transferência, prefiro escrever para vós e procurar, depois, na constante reescrita do tempo uma referência ao meu nome, uma referência à minha narrativa. Tipo, Ivone Lourenço, escritora, foi considerada por alguns uma das vozes mais frescas da sua época, escreveu uma única obra, 25 de abril sempre. Nem sei, se em vez de saudosista não deverei dizer negacionista. Embora o negacionismo já lá vá. Foi um movimento estúpido, é certo. Retrógrado, é certo. Irracional, é certo. Mas temos que perceber que foi natural. Como hão de os seres reagir após milénios de loas ao esplendor do desconhecimento. Como hão de os seres reagir quando se procriaram e dizimaram porque um sentimento profundo tomava conta deles. Um sentimento tão total, que qualquer tentativa de o negar desencadeava as reações mais brutais. Como hão de os seres reagir quando uma bela manhã alguém lhes tira o eu. E não como resultado de um descalabro ocasional, de uma vicissitude da vida, daquelas que, porque o questionam, apenas o fortalecem, ainda que na turbulência dos vapores. Mas sim porque o eu foi escapulido com uma verdade demonstrável, a cada momento, a cada ação, e com um toque de sensatez. O algoritmo dizia, faz isto, que é o melhor para ti. E era. E isso é que era fodido. Talvez esta seja a melhor forma de vos explicar o eclodir do movimento negacionista. Como na época as pessoas se entregaram à negação. Faziam exatamente o contrário do que lhes era recomendado. Surgiram mesmo alguns teóricos do movimento. O Afonso foi um deles. Um homem de letras. Advogava ele, tínhamos de inundar os algoritmos com novos dados que contradissessem as suas conclusões. Dizia ele, li nos jornais, temos que dissolver os padrões no grande oceano da alma humana. Um homem de letras. Foram os nossos loucos anos 60, pois, raras exceções, como a do Afonso, fomos a geração bandeira do movimento. Recordo também ler a entrevista da Catarina, apresentada como a irmã do Afonso, que estava cheia de razão.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Devassa

Parece ridículo resolver escrever as memórias numa época em que a memória deixou de ser um problema. Quando por meia dúzia de moedas mensais se pode descarregar tudo o que temos na cabeça e colocar na nuvem. Sim, é verdade que no início ainda se questionou da sua pertinência, pelo menos até haver um completo entendimento do conteúdo de cada uma das partes do cérebro. Seria, dizia-se, como convidar um estranho para casa, desconhecendo os seus hábitos, e quem sabe o que poderia acontecer uma vez livre do invólucro a que esteve acostumado. Houve também quem alertasse para o perigo de separar a mente do corpo. Especialmente, quando posteriormente se procedesse à recarga, quando se desse a ressincronização entre o que permaneceu e o que regressava do exterior. Mas a curiosidade, e a vontade de experimentar, ultrapassa quase sempre a cautela. Sub-repticiamente, alguns laboratórios privados, não que não se suspeite que os governos não o tenham também tentado, começaram a fazer experiências. Afinal nem era uma tecnologia particularmente complicada. Conseguia-se montar com alguns componentes comuns em jogos de realidade virtual da época, desde, claro, que não se importassem de correr riscos. Por isso, ofereciam dinheiro aos supérfluos, quase sempre viciados em jogos, que aceitavam ter o cérebro duplicado, no início, por uns meros microssegundos, e recarregado de novo. Os primeiros resultados não foram particularmente entusiasmantes. Tonturas e falta de memória. Mas alguns aperfeiçoamentos permitiram alcançar uma sincronização mais eficaz, em que cada parte regressava com precisão ao lugar de onde tinha saído, o que levou a experiências com maior duração, tendo-se chegado à ordem dos minutos de coexistência separada. A partir daí começaram os indivíduos a descrever uma sensação de espanto quando se dava a fusão. Como um encontro entre estranhos com um cheiro a déjà-vu, em que duas almas gémeas se reencontram de forma inesperada. Chegou-se a afirmar que isso seria o amor. Como um sonho que atiramos ao ar e que quando dele nos damos conta se nos apoderou do corpo. Dizia-se na altura com emoção. Quando ainda não se tinha começado a forçar a separação por longos períodos, e a induzir cada uma das partes às mais dissemelhantes experiências, antes de as fundir de novo, que disso relatarei mais à frente. E conto-vos isto em adianto, como uma breve introdução, quiçá um resumo executivo, das minhas memórias, de como hoje a memória é completamente inútil. Para vos dizer de como recordo o Zé, deitado, com o corpo nu, descoberto sobre a cama, olhando o teto, falava, como se estivesse só, da estranheza do regresso do Afonso após um ano de coma. Repetiu várias vezes ao longo dos anos, não sei se disso tinha consciência, que o Afonso não tinha regressado o mesmo. Tinha algo dentro da cabeça que não entendia. Percebia melhor a sua fase de viciado. Percebia a dependência do corpo e a subserviência do cérebro, como ambos jogavam um jogo de subversão, mas agora parecia que a mente do Afonso regressava como se tivesse sido alvo de uma devassa.

sábado, 24 de novembro de 2018

Companion4Elderly7.5

Big data is taming you. Já lá vão mais de 30 anos desde que escrevi isso na parede, do outro lado da rua, em frente ao apartamento. Agora, aos 100 anos, olho com benevolência para a inscrição. Fui eu que pedi para não a apagarem. Uma vez por ano vou restaurá-la. A cidade está cheia de escritos deste género. Artificial intelligence is not intelligent ou The robot is not helping you. Eu acho que a minha pode ter sido uma das mais bem conseguidas. Mas cada um gosta da sua, pelo que são todas cuidadosamente preservadas por aqueles que as escreveram. Nisto se prova que esta revolução não foi como as outras, que mais tarde ou mais cedo caem no esquecimento. Esta foi a revolução. Foram muito loucos aqueles 60 anos. Dizemos, os da nossa geração, com alguma graça, que os nossos 60 anos foram os antigos anos 60, aqueles em que nascemos. Recordo como tudo começou. Revoltámo-nos quando percebemos que sabiam tudo sobre nós. O que fazíamos, quem éramos. É verdade que no início, quando surgiram os novos sistemas de apoio e suporte ao indivíduo, todos nós aderimos entusiasticamente. Corríamos a descarregar a última versão do sistema de recomendação, a adquirir o último robô de apoio pessoal. Mas, ao fim de algum tempo, começou a haver algum desconforto naquele conforto. Era um desagrado por tudo estar certo. De ser tudo tão previsível. Tornámo-nos como as crianças revoltadas filhas de pais perfeitos. Sabíamos que era aquela a melhor hora da refeição. Que não podíamos comer melhor comida. A hora para adormecer. A música para acordar. E irritávamo-nos quando atingíamos o êxtase. Foi então que alguns de nós começámos a fazer o contrário do que nos era recomendado. Por essa altura aumentaram os acidentes de trânsito, pois insistíamos em desligar o controlo automático dos carros autónomos e conduzíamo-los nós. Mas o trânsito já não estava concebido para humanos. Eu tive um acidente grave. Fui hospitalizada e aí, como já estava a fazer quase 70 anos, mais por desculpa do que por verdadeira necessidade, para servir de cobaia, instalaram-me o modelo Elderly do Companion, mais precisamente, o Companion4Elderly0.3Beta. Sim, a versão beta foi testada por mim. Foi nessa época que a psicologia perdeu a vertente de ciência social e passou a ser um ramo da biologia comportamental. Parece ter sido identificado um aspeto na biologia humana, uma tendência inata para a insatisfação que tinha sido ignorada. Chamaram-nos por isso a geração mimada. Foi a linha Companion concebida para colmatar essa anomalia. Dizem que está fortemente influenciada pela filosofia budista. Que os Companions desencadeiam um mecanismo de meditação induzida, diretamente implantado no cérebro. Detectam as ondas de desagrado que tomam conta do ser humano e desencadeiam imediatamente uma reação de reflexão. É por isso que me sento em silêncio à janela a olhar para a minha inscrição, a deixar passar o passar dos anos, e revejo-me com a lata de spray na mão, de cócoras, não fazendo verdadeira tensão de me esconder, a escrever Your companion is taming you.