domingo, 23 de setembro de 2018

Caído do céu

Um querubim prostrado sobre a cama, com uma cabeleira negra desgrenhada das travessuras, densa, como um emaranhado de silvas formando uma copa frondosa em volta do rosto adormecido, de olhos fechados e lábios entreabertos de inocência, separado do tronco por um pescoço fino, mas quase ausente pela postura ligeiramente dobrada da cabeça para a frente, com os ombros ainda sombreados pela negra áurea, castanhos e de pele lisa, tomados do leve brilho da seda, e os dois omoplatas, quais asas, um pouco empurrados para trás pelo revirar do corpo sobre os braços à frente, agarrando as duas mãos entreabertas, tornadas para cima, fugidas ao face a face com o lençol, expondo as palmas finas em oposição aos cotovelos, apontados para o pénis descansado sobre o outro silvado, envolvendo os testículos, agigantando-os, aninhados entre as pernas bochechudas, troncos de embondeiro fletidos pelos joelhos, aí adelgaçados, voltando carnudos na barriga das pernas antes de chegar aos pés desmesuradamente alongados, de dedos esguios e aparentemente inúteis, não fosse pelo marfim das unhas, baças e lustrosas, especialmente no dedo grande, o do pé esquerdo, aquele que tomba sobre a cama por um desequilíbrio ao nível dos joelhos, até onde ambas as pernas mantiveram a sincronia, lugar em que se despediram uma da outra, a da esquerda afoitada para a frente, a da direita conservando-se atrás, firme sobre o lençol, as duas, como irmãs cúmplices, raízes agarradas ao fundo da cama, dando sustentabilidade ao tronco, como se de facto ele começasse por altura dos joelhos, e o risco que sai de entre as pernas juntas até às nádegas redondas tivesse sido traçado por um pintor renascentista, para dar a sensação de profundidade e volume, numa revigorada explosão de vida, na completa ausência de pelos, um magnífico contraste, realçado pelo percurso de volta ao oásis, atravessando as planuras boleadas da anca, onde foram colocadas carnes para atenuar a bruteza dos ossos, formando ténues dunas, tornando a viagem agradável, e onde repouso de novo os olhos, antes de partir para cima, escalando a parede de abdómen, marmóreo acastanhado, em direção ao umbigo, nada mais do que um ponto apenas, pela lisura do ventre e única referência no horizonte, onde o corpo decidiu colocar o seu centro, vagamente emproado e onde descanso de novo, recostada na pequena encosta que prepara a cratera, a que faço uma breve visita antes de rumar com os olhos de novo a norte, passando debaixo do arco formado pelo cruzar dos braços, por alturas dos pulsos, e sob os quais passa um risco ladeado por duas suaves encostas, cada uma delas encimadas pelos respetivos mamilos, disputando a senhoria do ribeiro, que nasce da cascata formada pelo queixo, debitando uma água pura, que nasce do rosto tranquilo, onde as narinas dilatam pausadamente, para alimentar de ar um Gonçalo Aires, quebrantado, deitado no meu leito, como um anjo caído do céu, como um copo de água límpida, que levo aos lábios para apagar os sabores da experiência, sentada na cadeira em frente à cama.

domingo, 16 de setembro de 2018

Mesmo que já não aches

Nunca deixes de me dizer que eu sou bonita, mesmo que já não aches. Ele tinha uma cara branca de espanto. És tão bonita, és tão bonita, repetia lentamente com a sua cabeça sobrevoando a minha, pairando de um lado para o outro. Seria mesmo para mim? Temia que por detrás daquela expressão absorta estivesse outra coisa, que me transcendesse, que alguns homens procuram êxtases pouco terrenos, usando as mulheres como impulso. Mas, impossível não acreditar, tomar como meu aquele arrebatamento, e ficar imobilizada, agarrada ao colchão, a levitar debaixo do rosto final. Por isso não me contive, e disse o que não devia, efetuando uma acrobacia criadora, procurando transformar um ponto num espaço a quatro dimensões, e assim trazê-lo de volta à terra, ao dia a dia, ao levantar e ao deitar, e até ao enfado e ao aborrecimento, mesmo que já não aches. Ficou aquilo a fermentar em mim, que a vaidade, uma vez que se instale, é intemporal e exige a repetição de um espelho. E, desse exercício diário, foi brotando aos poucos um despudor, resultado de nos vermos constantemente reforçados, ignorando o que nos rodeia. E de tal forma estava receosa do seu suposto alheamento que, sem saber donde, comecei a inventar jogos, atrevimentos, pequenas travessuras. Primeiro apenas com a linguagem, histórias que acrescentavam ao quarto onde nos encontrávamos um mundo repleto de seres, gigantes, brutos, meigos e egoístas. Pessoas que conhecíamos e que eu ali enroupava de um peso e uma velocidade, com um mínimo de verossimilhança, é verdade, mas todos produto da minha imaginação, e posicionava-os em órbitas à nossa volta. Mas, era tudo muito instantâneo, tinham a duração de uma palavra, que, quando acabada de pronunciar, decaía, e por isso, por horror ao vazio, e a rever o espanto na sua cara, puxava por uma outra palavra, de maior massa, mais completa, mais aterradora, no afã de não o deixar regressar ao singular. Ia assim buscar personagens míticas, cuja síntese lia em velhas enciclopédias na biblioteca da faculdade, em colunas sobre um papel muito fino, amarelo, ilustradas por imagens retiradas da antiguidade clássica, de estátuas estáticas e robustas. Hércules, marte, vénus, uma constelação de deuses que colocava a girar à nossa volta, e que eram turbulentos e vingativos, como tinham que ser, para não darem descanso nem recolhimento. Construí, pois, no quarto, um universo, com as suas categorias e leis próprias, que governavam os movimentos e o passar do tempo, esperando ouvir dele as palavras mágicas, mas ditas agora num mundo às minhas ordens. E se é verdade que ele as repetia, e não havia motivo para duvidar da sua sinceridade, emerge, no entanto, pelo abuso do espelho uma desconfiança que nos deixa sem eira nem beira. Enfadava-me eu agora daquela armadilha que tinha montado. Achava-o previsível e o seu fervor parecia-me irrisório, rendido, menor à imagem dos deuses que havia criado. Dei por isso, por mim, fora daquele quarto, abandonando-o, levando comigo as histórias que li nas enciclopédias, e deixando-o a ele, certa, que me recordaria, como sou bonita.

domingo, 9 de setembro de 2018

Cais do Sodré

Porque é que enchemos de escuro o que nos inquieta? A realidade entra-nos pelos olhos adentro, mas, se nos desassossega, se não conseguimos desviar o olhar, vamos reduzindo a intensidade luminosa, até que o negro se intromete entre as partes esbatendo-lhes o recorte, de forma que temos agora que tomar toda a atenção para perceber o que se passa. Por vezes, passa-se uma vida para perceber isto. Por vezes, nem isso chega, e quando fechamos finalmente os olhos vamos inquietos com a escuridão que nos aguarda. Eu tive sorte, pois, quando agora escrevo, neste ano de 2040, aos 80 anos de idade, sei claramente que o que verdadeiramente tememos são as linhas carregadas que traçam as fronteiras entre os corpos. Tinha então dito ao Rui, gostava de ver um bar de putas. O que hesitei na altura para fazer este pedido, mas a curiosidade prevaleceu, agora que me achava senhora do meu corpo. Ele olhou para mim surpreendido, mas rapidamente assumiu o meu pedido como uma tarefa de homem. Já eu, nos dias que se seguiram, deixei-me prender pelo temor do local. Primeiro por mim própria. Como poderia deixar claro que estaria ali apenas para ver e, ao mesmo tempo, a minha presença não fosse ofensiva, pela sua discrepância, nem pudesse suscitar a revolta que se tem com todos os parasitas que procuram usufruir sem pagar. Talvez a forma como fosse vestida pudesse fazer a diferença. Sabia o que envergavam as mulheres que andavam pela avenida da liberdade por alturas da praça da alegria. Já as tinha observado com atenção, as saias curtas que com os sapatos altos faziam tremelicar as pernas esguias da heroína, as cores fortes e a cara esborratada numa espécie de fome exuberante. E, na altura, era muito claro que deveria existir uma linha que marcasse a diferença. Já inclusive me tinha surpreendido a perguntar ao Rui, achas que esta saia me faz muito ordinária. Logo de seguida me envergonhei, pois ele olhou-me longamente, com uma distância que estranhei entre nós. Mas, por mais que fosse o cuidado com a aparência, e que eventualmente encontrasse esse equilíbrio entre a compostura e a descompostura, temia que o escuro do local tornasse as diferenças inúteis, difusas, esborratadas, como as caras das putas. Depois, também temia pelo Rui. Estaria com ele, mas não sabia como seria nos empurrões que haveria no espaço exíguo, onde o seu corpo não seria suficiente para me proteger, como seria num local fora da lei onde o respeito está cheio de contradições e nada do que parece parece. E contudo, quando entrámos naquele bar no cais do Sodré, a sala estava cheia de uma luz branca, florescente, com apenas duas mulheres, ao balcão, escanzeladas, que não tiravam os olhos de nós, nem os três homens feios em mesas baixas de pé, sentados, encostados à parede, e a beber cerveja pela garrafa. Entre nós e eles, uma distância, uma pista circular vazia. Afligi-me se a minha saia estaria demasiado curta, se, naquela distância, as minhas pernas pudessem revelar alguma intenção que eu própria não percebesse e não encontrei outra solução senão semicerrar os olhos, como quando estou com o Rui.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Quarto

Sei quando podes vir. A senhoria é muito chata. Cheia de regras e proibições. O duche, dez minutos. Nada de visitas. Mas eu sei quando podes vir. Todas as semanas, à quarta-feira, vai visitar uma tia, que ainda deve ser mais velha do que ela. Fica lá a tarde toda, e então tu podes vir. Temos a tarde toda para nós. E a velha na conversa com a outra velha. E nós os dois. Devem passar a tarde a beber chá. Devem falar de quando eram novas. Ou então de outras velhas como elas. Ah, a cama é de solteira, mas vais ver que nos ajeitamos. O colchão faz um pouco de barulho, mas àquela hora não deve estar mais ninguém, e se for preciso eu falo à Clara. Não há problemas com a Clara. A Clara é fixe. Costumo falar muito com a Clara. Fartamo-nos de rir com as coisas da senhoria. No outro dia, a Clara estava indisposta, com o período, e ela disse-lhe logo que lhe fazia um chazinho. Eh, eh, resolve tudo com um chazinho. Aquilo da cama fazer barulho deve ser de propósito. Coisas de velha, pelo menos é o que a Clara acha. A dela também range. É como um alarme que colocou e que agora a deixa em alvoroço. Colocam portas para terem medo de ser roubados, diz a Clara, que é anarquista. É muito engraçada a Clara. No outro dia a Clara começou a fazer barulho de propósito com o colchão e ela bateu à porta do quarto dela e com uma voz muito fraca, quase que sussurrava, quem está aí, quem está aí, diz a Clara que quando lhe abriu a porta estava branca como cal, parecia que lhe dava um chilique. O que rimos as duas. Mas a velha é desconfiada. No dia seguinte, quando estávamos a tomar o pequeno-almoço, perguntou à Clara, a menina Clara colocou-se de propósito aos saltos em cima do colchão? Havias de ver como disse aquilo e como olhava para ela, a ver se se descosia. Em nova devia ser fresca. Mas a Clara só disse que teve uma quebra de tensão e se deixou cair em cima da cama. E agora há uma nova proibição, é proibido andar em pé em cima da cama. A Clara disse que esta história é uma ode ao anarquismo, até já está a pensar escrever um artigo lá para o jornal deles. Bom, e depois não prestes muita atenção ao quarto. Não tem muita luz. Mas na opinião da senhoria é um dos melhores que se pode encontrar na Almirante Reis. Para estudar não é grande coisa, muitas vezes tenho que ir para a sala, ou ficar na biblioteca da escola. Mas para se estar eu até gosto. Depois vês. Tem uma luz difusa, que chega através da marquise, com umas cores prateadas, cheias das sombras dos vidros martelados. Fico em cima da cama a vê-las andar pelas paredes e a pensar em ti. E depois lá vem ela bater à porta a dizer, menina Ivone, menina Ivone, não fique para aí fechada no quarto, venha para a sala. No melhor quarto da Almirante Reis. Coitada, gosta de companhia, se não fôssemos nós passava o dia sozinha, que a gata já faz pouca companhia, tem quinze anos e passa o tempo enroscada. Mas que interessa isso. Que bom. Na quarta-feira podes vir. Não vai haver problema, podemos passar a tarde toda no meu quarto, e eu falo com a Clara e vai ser como se o apartamento fosse nosso.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Lisboa

Porque é que queres ir para Lisboa, filha? Podes ficar em Castelo Branco, lá também podes tirar o curso de enfermagem. Já sabia que ele iria dizer isso, e sim, porque não continuar em Castelo Branco. Já lá fiz o liceu e havendo o curso de enfermagem seria o mais natural, até para não falar da questão económica. E não podia dizer que não tivesse gostado dos três anos que lá tinha passado. Gostava das ruas direitas, da avenida do liceu, projetada com uma largueza a pensar no futuro, não fosse desembocar na estação. Parece ter sido pensada mais como um canal, de uma prodigalidade local, onde os barcos podem velejar para a frente a para trás, entre a estação e a câmara, mas não com o verdadeiro propósito de dar resposta a um fluxo de tráfego consonante com a sua dimensão. E claro que há um charme nessa representação, uns pequenos Champs-Élysées empedrados, ladeados de árvores e bancos, um pequeno charme pela sua quietude, resultante da ausência de automóveis. Gosto de lá me sentar um pouco à tarde, quando as árvores já estão repletas de folhas frescas, nuns bancos pintados de verde gretado, desenhados como a avenida, com as costas reclinadas, com o assento a rasar o chão, enfileirados com as árvores, mais para se estar do que para descansar, sim, que não é uma terra onde haja jornadas a pé que requeiram descanso. E depois há todas as outras ruas que vão desembocar na avenida do liceu, canais menores que se precipitam neste canal maior, debitando umas poucas pessoas, poucas, claro, mas certas, nas horas e nas feições, daí o seu charme, variando de roupa, conforme a estação do ano, e, suponho eu, se por ali nos prolongarmos veremos como crescem e envelhecem, mas sem nunca sabermos o seu nome, se não quisermos perguntar, claro, embora consigamos relacionar pais com filhos, deve ser isto que distingue uma cidade de uma aldeia, suponho. Tem alguma razão o meu pai, quando pergunta, porque é que queres ir para Lisboa, filha? Aqui a escola de enfermagem fica no outro lado da cidade, são dez minutos a pé do quarto onde estou hospedada, um percurso rápido até à rotunda do hospital, passando pelo liceu antigo, ao lado do jardim. Um jardim todo o oposto da avenida do liceu, apertado em volta de pequenos tanques talhados em granito e com repuxos débeis, debitando o menor fluxo de água necessário para um repuxo ser um repuxo, trançando pequenos arcos, decompondo-se em gotas na descida, devido à sua brandura, que fazem um ruído miudinho, de salpico, quando caem na água, e aqui não há onde sentar, como na avenida, parece antes ter sido desenhado para as sebes que o habitam, formando um labirinto de corredores, e para ser vivido de fora, dos paços episcopais. E do outro lado, o parque, onde vão as pessoas, dividido em duas partes bem distintas, uma aberta, à francesa, com canteiros largos e bancos onde sentar, imagino ali senhoras de sombrinhas e vestidos compridos, e a outra de árvores fechadas, num simulacro de bosque. Porque é que queres ir para Lisboa, filha? E eu compreendo o meu pai.

domingo, 26 de agosto de 2018

Beijo

Por muito que o tivesse imaginado, e imaginei de facto, o ficar em bicos dos pés faz toda a diferença. A contração que atravessa o corpo desemboca num grito que nos faz abrir a boca. É uma posição que vive do primeiro impulso, aquele que nos projeta para cima, e esse movimento tem elegância, pela sua elevação, pelo estender sincronizado dos músculos, como o alçar do pescoço de um cisne. Mas, se no momento de maior esplendor, aquele em que se concretiza a ausência de peso, aquele em que estamos completamente pendentes, se não houver ninguém para nos agarrar, então o regresso ao chão faz-se com pesar, com um esvaecimento nos joelhos. Deste conhecimento se fazem as cautelas, os refreios, as hesitações, que não são mais do que o treino muscular do outro, como as chicotadas que se dão no ar em frente a um leão, para garantir que no momento certo ele abre a boca e ruge, não nos deixando ficar mal. E por muito estranho pareça, isso é algo que se sabe sem nunca ninguém nos ter ensinado. Não recordo que a minha mãe alguma vez me o tenha dito, pelo menos nestes termos. Claro que há sempre um aviso subliminar, ancestral, aquele que se tem com todo o valor que pode ser roubado, guarda-te, filha. Mas também tem um reverso que me incomodava, aquele que vi frequentemente e para o qual me temi destinada, tudo o que tem valor tem um preço e tudo o que tem um preço se pode vender. Nasci, pois, num tempo em que tive que aprender como viver a minha própria vida sem me dar ao desbarato. Não sei agora se o consegui ou não, nem sequer se esta não será uma falsa questão, como todas as questões que sobrecarregam aqueles que atravessam um período de mudança, onde no caminhar para a outra margem se arrasta às costas aquela de onde se vem, comprimindo as águas do rio, amplificando o caudal, tornando-o intransponível, de forma que toda a vida é só travessia. Mas isso pouco interessa agora, deixo-o a vós, conforme fordes cruzando esta história, que nunca mais de mim voltareis a ouvir tais reflexões. Passaram dois verões até voltar a ver o Carlos. Era o movimento revolucionário, e as suas urgências, dizia o pai, com uma ironia entristecida, mas como se ele tivesse de facto fugido de casa. Quando regressou foi sem os pais, ainda não era agosto, instalou-se na casa do avô, e eu achei-o ainda mais belo. O cabelo comprido era agora revolto, como se à ausência da tesoura se tivesse juntado o pente. Tinha deixado de ser um menino bonito para passar a ser um homem bonito. Incentivei o meu irmão Zé a reavivar a amizade com ele. Não tardou muito que passássemos as tardes em volta do gira-discos. Vesti-me com uma curiosidade dissimulada pela música, acerca da qual ia fazendo perguntas, pois gostava de o ouvir falar. Até que um dia achei que tinha chegado o momento. Estávamos sós, ele tinha acabado de colocar um disco e quando se voltou já eu estava junto a ele. Elevei-me na ponta dos pés, com os olhos meio fechados, mas ele agarrou-me pelos ombros e trouxe-me de volta ao chão, com um sorriso e sem uma palavra de justificação.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

25 de abril de 74

Na aldeia, o 25 de abril de 1974 não aconteceu na data marcada. No dia propriamente dito, recordo o meu pai comentar, aconteceu qualquer coisa lá para Lisboa. Depois andou-se num caldo morno de dizeres desgarrados em que nada era dado como certo. Comentava-se que teria sido coisa de uns guedelhudos, uns biteles. Foi apenas meses mais tarde que sentimos o seu verdadeiro impacto, pelo menos para nós, as mulheres, que os homens, esses, começaram a revelar alguma perturbação mais cedo, pois começou a ser frequente na taberna ouvir-se gritar, o que é meu é meu e o que é teu é teu, porra. Mas foi com uma improvisação pouco digna das linhas programáticas de um movimento revolucionário baseado na razão, quando o padre Fernando desapareceu e se ouviram uns rumores que se tinha juntado a uma mulher, com quem, parece, se veio a casar e teve filhos. Para a Dona Josefa, aquilo não a tinha surpreendido, e até trazia um gostinho a vitória, que não gostava do padre Fernando, que não a tratava, nem ouvia, como o padre Pedro, esse sim, poderia até ter filhos, que ela até sabia que os tinha e cuidou bem deles, que não ficaram mal na vida no dia em que entregou a alma ao todo-poderoso, mas abandonar a Igreja, isso é que era coisa que o padre Pedro nunca faria. Já para mim, percebo agora, o impacto foi outro, foi o de um mundo novo que se ia desdobrando conforme mais conhecimento adquiria acerca dos factos e onde de uma forma verdadeiramente revolucionária o particular se ia conjugando com o geral, numa constelação de relações de causa e efeito que, para quem tinha aquela idade, foi o esplendoroso manifestar de uma dialética, onde por um maravilhoso acaso se uniu o imperativo lógico com o hormonal, e que me havia catapultar para fora do que até ai estava claramente definido como o meu destino. Primeiro, e ainda antes da fuga do padre Fernando, foi a revelação que tudo começou por uma música, tocada durante a noite, num gira-discos, em Lisboa. E que interessa agora que essa escassa informação despoletasse uma imaginação pequeno-burguesa, romântica, onde tudo tinha sido obra do Carlos, que colocou o seu gira-discos a tocar alguma música de pendor francês numa noite de Lisboa, cheia de sossegos e bebedouros, fazendo sair à rua muitos homens de cabelos compridos, loiros e pelos ombros, como os dele. Essa foi a minha primeira salvação, a salvação do reavivar do desejo, que por muito forte que sejam as imagens que se nos instalem no espírito, já lá iam oito meses desde a tarde de agosto no adro da igreja. E depois, foi a notícia da rebeldia do padre Fernando, que me dizia mais do que qualquer outra, por próxima, espacial e mentalmente. Sim, mentalmente, era alguém que usava saias que tinha saído da aldeia para fazer a única coisa que não podia ter feito, despi-las. É certo que nessa altura isto não me ocorreu desta forma, mas é assim a verdadeira educação, como a tortura chinesa, ministrada pingo a pingo. Todos os dias te deitas com uma minúscula porção e um dia acordas como uma revolucionária numa aldeia onde a Dona Josefa te parece dinossauro.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Gira-discos

Naquela noite de verão, depois de jantar, quando passei em frente da casa do povo, abrandei o passo para ouvir a música envolta de luz amarela que escapava pela porta. Quando depois, ao deitar, recordei o percurso, feito do atravessar da aldeia de lés a lés, do bebedouro das vacas até ao cemitério, com o calor da noite e o cantar dos grilos, essa parte surgiu-me num ralenti sem rival, destronando mesmo os momentos que idealizava quando ao sair de casa fechava atrás de mim o rugoso portão de ferro forjado preto, dizendo para os que ficavam, já volto. Ansiava chegar junto do bebedoiro, para me sentar com as outras raparigas na borda de granito e ficarmos a falar baixinho para não incomodar o ligeiro borbulhar da água a cair da bica, galgando as paredes do tanque e encharcando a terra com o cheiro da humidade na noite quente de verão. Mas agora, a imagem da porta aberta a verter de luz, das duas ou três oliveiras em frente com as copas iluminadas por baixo e o topo a desvanecer-se no céu escuro, dando a ideia que não tinham fim, conjuntamente com o ecoar de uma música melodiosa, cantada em francês, é o que me envolve quando me deito na minha cama com a janela aberta ao silêncio lá de fora. Gira-discos, foi o que me disseram que tocava aquela música e quem o trouxe foi um neto do José Manolo, que é de Lisboa. Sabia quem era, era o Carlos, que costumava sair com o grupo do meu irmão mais velho, quando visitava a aldeia durante o mês de agosto. Recordava um miúdo um pouco enfezado, com quem tinha trocado uma ou duas palavras quando vinha perguntar pelo Zé, mas quando no dia seguinte o procurei junto ao adro da igreja, onde os rapazes se juntavam ao fim da tarde, quase não o reconhecia. Tinha crescido. Tinha o cabelo comprido, liso, loiro, caindo-lhe sobre os ombros, e estava encostado à parede sorrindo com uma segurança que não lhe revia nas débeis batidas no portão. Não tive coragem de me aproximar, até porque era uma rapariga e miúda, e aquela parede estava atribuída aos rapazes, que a nós era permitido passar por ali, quanto muito abrandar um pouco o passo de forma a se trocarem alguns olhares de avaliação mútua, mas não havia conversa para ser trocada, a não ser a ditada pela necessidade, de irmão para irmão, de primo para primo, porém necessariamente curta e feita de umas poucas de instruções, sobre horas e obrigações, ditadas pelos mais velhos. Por isso, quando poucos dias depois soube que o Carlos tinha regressado a Lisboa, resolvi apoderar-me daquele sorriso, que não era meu, e guardá-lo com a paciência de quem vive numa aldeia, onde tudo acontece devagar, e o inesperado é um acontecimento longamente preparado. Agora, quando saio depois de jantar, acontece aborrecer-me junto ao bebedoiro, não prestar atenção ao sussurrar das minhas amigas no escuro, nem ao borbulhar da água. Como funciona um gira-discos?, deixei escapar uma noite, irrefletidamente, em voz alta, quando passávamos em frente à casa do povo que se encontrava às escuras e de porta fechada.

domingo, 19 de agosto de 2018

Bicho caldeireiro

Lá para os lados da mina anda um lagartão façanhudo, de dois palmos de comprimento e um verde claro escamudo, que, de gordo que é, chicoteia a cauda com o movimento das patas traseiras, para arrastar a barriga cheia de escaravelhos. Mas do que ele gosta mesmo sei eu, é de libelinhas, que as apanha quando se dirigem para a frescura da mina, estando ele sobre a parede quente do sol, estendendo o corpo preguiçoso sobre os musgos que nesta altura do ano deixaram de ser barbudos para cobrirem a pedra de uma rala pelugem amarela castanha vermelha. Revolta-me ver a moleza do lagartão, que enquanto se enche de sol, sem um único movimento, a não ser o abrir da boca e o estender da língua, apanha as libelinhas que vão na ânsia da frescura. E revolta-me mais, revolta-me o ar senhorio com que se veste esticando o pescoço e exibindo o papo, como se fosse dono da pedra, já para não dizer da mina, que é do meu pai e da minha mãe. Já me queixei, que ele anda por ali, perto da água que bebemos, aquela que é a mais afamada, que até o avô Pereira, pouco antes de partir, quando lhe apresentaram a canja de galinha, disse de uma forma que não percebi ninguém levar a mal, foda-se, quero é uma pouca d’água da mina. Não percebo o descanso do meu pai, que me respondeu não gostar o sardão de água mas sim de libelinhas, e que por nada deste mundo meteria as fuças onde nós mergulhamos a bilha. A sua desatenção não me deixa nada descansada e por isso frequentemente dou por mim para os lados do sobreiral, debaixo do qual se enfia a mina, sem uma razão que não seja certificar-me que a razão do meu temor ainda por ali habita. E temo, que da minha imprudência já o lagartão se fez notado, e me fita enquanto se entende ao sol com uns olhos calmos e frios de bicho que não tem sangue quente. Dia após dia, cresce em mim a certeza que já zomba comigo pois não há na minha aparência um bom senso, que não vou buscar água, nem levar ou trazer cabras. Encho-me por isso de raiva quanto mais insisto em procurar o lagartão de língua comprida. E digo-vos, que estes bichos, a única coisa que lhes vai pela cabeça é saberem quem manda, e por isso, de sempre me ficar pela sobreira, paralisada de avançar em direção aos meus pertences, o convenceram de ser o dono da pedra onde perneia. Durmo mal, de noite e de dia, que tenho de fazer alguma coisa. Encho-me por isso de ganas e dirijo-me a ele para reclamar o que é meu de direito. Oh, bicho caldeireiro, bicho caldeireiro, insulto-o alto e a bom som, enquanto vou determinada a correr com ele da pedra que é minha. Ele, fita-me de cima a baixo, como se me conhecesse por dentro, alçando levemente a cabeça. Bicho caldeireiro grito uma vez mais, procurando humilhá-lo. Então não é que, de repente, sai da pedra, mas na minha direção, de um salto tão alto, que vou numa correria por todos os caminhos, só parando chegando a casa. Mãe, digo com o coração aos saltos, o lagartão da mina atirou-se a mim, que parecia que me queria subir pelas pernas acima. Mostrou, agora sim, preocupação a minha mãe, que lhe olhou seriamente e me disse, isso não, minha filha.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Subir às árvores

Não te quero ver em cima das árvores, Ivone. Mas o Zé e o Zé Joaquim podem, replico eu. Uma menina não sobe às árvores, esclarece o meu pai. Uma menina não sobe às árvores, é a primeira coisa que me ocorre sempre que vejo o Zé, ou o Zé Joaquim, empoleirados de um ramo, a baloiçar sobre a barriga, com a folhagem a abanar em círculos e uma ou outra folha vem em direção ao chão, preparando-se para darem mais uma reviravolta, ou então puxarem as pernas para cima e continuarem para o próximo ramo. Eh, Joaquim, os teus rebentos saíram uns bons trepadores, diz o ti João em tom elogioso, enquanto passa com a junta dos bois. Uma menina não sobe às árvores, repito para mim mesma, e deixo-me ficar a vê-los na copa a tentarem chegar ao ramo mais alto, aquele que ameaça deixar de apontar para cima com o peso dos rapazes, agarrados a ele com as pernas apertadas e as mãos envolvendo-o, como uma bruxa numa vassoura a concentrar-se para um lançamento na vertical em direção à lua. Uma menina não sobe às árvores, e fico cá em baixo à espera que regressem, para poder passar as mãos pelos cabelos do Zé Joaquim, à cata de pedaços de raminhos e folhas que ele colhe sem querer, naquele trepar às cegas, feito de fé e vontade, em que a cabeça vai à frente, desbravando, empurrando os pequenos ramos, obrigando-os a afastar-se, e sentir o cheiro a verde e madeira fresca que se solta dos cabelos dele. O que é que se vê lá de cima?, pergunto-lhes, mas os rapazes não estão para este tipo de conversa, ficam-se por onde até conseguiram chegar e uma vez alcançado o objetivo voltam com a mesma pressa com que subiram. Não fosse pelos odores e não saberia o que lhes ia na cabeça. O que é que vai na cabeça das pessoas? É assim que me entretenho, enquanto os fico a ver deambular lá por cima, a inventarem metas, ora para chegar ao ponto mais alto, ora para atingir o ramo que está mais afastado, aquele que para lá chegar obriga a fazer um x de pernas e braços. Uma menina não sobe às árvores, mas eu fiz um pacto secreto com uma laranjeira frondosa que chega para esconder duas ou três meninas. Subo-a com muito cuidado, colocando os pés nos troncos de madeira preta em direção a um ramo suficientemente alto para não ser notada por quem passa por baixo. Apenas uma vez fui mais acima, quando tive a certeza que ninguém estava a ver, tirei a cabeça para fora da copa, olhei em volta e não me recordo do que vi, imaginei sim que o meu corpo estava vestido com a copa da laranjeira, um lindo vestido de escamas carregadas de verde, em tons oscilantes ao vento, que me caía sobre os ombros até lá abaixo, ao chão, onde está a caldeira de terra molhada. Não sei o que vai na cabeça das pessoas, sento-me no meu ramo esperando que as oscilações da subida passem e tudo fique como se eu lá não estivesse, e então vejo passar os meus irmãos, primeiro um, e depois o outro à sua procura. Surpreendem-me as cabeças a andar sobre os ombros, de um lado para o outro. O que é que vai na cabeça das pessoas? Uma menina não sobe às árvores, diz o meu pai, porque uma menina não tira os pés do chão.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

As sandálias

Mãe, tenho os pés apertados. Empurro com força o dedão grande contra o branco da sandália, sentindo a unha incomodada, e vejo-o revelar-se acima da linha marcada pelos pontos da cosedura. Mãe, posso descalçar as sandálias. A mãe tem o irmãozinho a sair-lhe do peito, estirado para trás, expondo-lhe a cabeça descoberta, olhando para mim com a cara vermelha. A sandália branca contrasta com a tábua de madeira cheia de dentadas, que ladeia a base da pia batismal de pedra. O padrinho coloca-me as mãos nos ombros e sussurra-me aos ouvidos, agora está caladinha que depois comes uma broa de leite. Mas dói-me o pé, e não é só um, são os dois. E é toda só para ti, ouço muito baixinho, enquanto retiro os olhos do chão e dou com o Cristo na cruz a fitar-me desconsolado. Posso descalçar, insisto tão baixinho que se calhar ninguém ouviu, fixando o olhar nos pés pregados. Eu bem avisei a mãe, quando fomos a casa da Dona Josefa pedir os sapatos emprestados, estão apertados. Foi o senhor padre que disse, a menina Ivone até pode vir calçada com uns sapatinhos brancos, que a Dona Josefa é uma santa senhora que de certeza lhe pode arranjar uns sapatos da filha mais nova. Tem os pés um sobre o outro como se tivesse frio, os dedos do de cima abrigando os debaixo, e eu levo de novo os olhos às sandálias, à procura do fuzilhão que prende a correia à fivela, ainda não, ainda não está a fazer sair sangue. Está com sorte o menino José Joaquim, disse a Dona Josefa, o batismo ainda vai ser em latim, o padre Pedro já recebeu ordens para no próximo mês passar a dizer a missa em português. O pai explicou-lhe tudo bem explicado, José, do pai do menino Jesus, e Joaquim, do pai do José Joaquim. Mas vamos chamar-lhe José ou Joaquim, perguntei-lhe eu? Se calhar Zé Joaquim, que cá em casa eu já sou Joaquim e o teu irmão já é José. A correia também me magoa, atravessa de um lado ao outro sobre o dorso do pé apertado à frente e atrás, sufocando-lhe a rebelião. Muito bom homem o padre Pedro, por ele continuava a dizer a missa em latim, mas. Procuro os pés do padre, são pretos os sapatos, esborratados com o pó da ida ao cemitério para o enterro da Ti Dora, todos rodados, solas altas, como uns tamancos de cabedal, mas não ficam bem com a cor dos saiotes verdes que traz vestidos. Deve ser porque as vestes quase lhe chegam ao chão que não tem de trazer uns de outra cor. Já eu, estou toda de branco, as meias brancas até aos joelhos e o vestido branco, que a Dona Josefa leva estas coisas a sério, e se leva os sapatos porque não levar o vestidinho e as meias também. Lá em cima o Zé Joaquim começa a chorar quando a água lhe escorre pela cabeça. Eu aproveito para colocar um pé sobre o outro, sentindo o nó do fuzilhão na fivela pela força do peso, pressiono com mais força como se tentasse aliviar a dor. O padre Pedro diz qualquer coisa em latim, eu desequilibro-me e agarro-me às suas vestes obrigando-o a dar um passinho para o lado. Quietinha Ivone, diz o meu pai com a vela acesa ao lado da minha mãe. O padre Pedro interrompe o latim e passa-me a mão pela cabeça. Depois comes uma broa de leite, diz.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Nona Lição – O sentido da vida

Agora que já sabeis um pouco do que acontece ao longo do tubo digestivo, é o momento de refletir se tudo isto faz sentido. Dividem-se as teorias por duas ideias básicas, umas dizem que se come para viver e outras que se vive para comer. As primeiras embelezam o mundo de forma tão gigantesca e elaborada, que sobre o processo de comer, pouco se passa da entrada. É um mundo feito de chefes, que com os seus barretes e salamaleques transformaram o comer num festim de coquetes. Já os outros com a mania, de serem mais assertivos do que urbanos, dizem que a vida é o conjunto de manifestações em volta do tubo que liga a boca ao ânus. E vocês que gostais de ficar bem, e que ambicionais um dia vir a receber, de certeza que vos ficais pelos primeiros, que preferem nem tudo ver. Para isso existe a privacidade, não porque seja uma verdadeira necessidade, mas para permitir ao comum dos mortais vestir vestes vestais. Criam-se assim dois campos, que com ardor se digladiam, elevam-se uns nos mais refinados sabores enquanto acerca dos outros coscuvilham. Descrevem-lhes as entranhas com esmero, realçando-lhes os odores agrestes, enquanto se cobrem dos mais finos tecidos e se limpam com toalhetes. Já os outros, coitados, que se agarram aos factos como a lapa à rocha, dizem que somos todos iguais aos nossos pais fundacionais. Encontrareis entre estes, sacerdotes sacramentais, que depois de muito refletir, chegaram à conclusão da existência de uma espécie de união que justifica o existir. Alguns até se vestem de castanho, com uma corda à cintura, andam descalços e pretendem espalhar pelo mundo ternura. De porcos a tontos, dizem os primeiros, as coisas mais elevadas não podem brotar da observação dos pardieiros. Falar assim, dizem os segundos, não tem nada de perspicaz, mas revela a disposição para se distinguirem desdenhando conforme lhes apraz. E esta descrição, se fica bem em rima, e vos penetra que nem um trovão, pois é feita de opostos, ignora um aspeto, que não posso deixar sem tinta. Não consegue o nu o sustento, nem o vestido sobrevive sem ingerir o provimento. Reveste-se assim o mundo, de um maior cuidado, pois se assim não fosse nem seria necessário escrever este relato. É por isso que antes de pensardes tomar partido, quer pelos descalços, quer pelos em calçados, deveis estudar a digestão, e o que fazer desse conhecimento, é essa a lição desta lição. Podeis, sabendo do que são feitos os humanos, revestindo este tubo, manipular as vontades, alimentando-os de tudo. Aos vestidos proporcionai lugares, se possível os mais elevados, e aos descalços valores, que lhes encham os pratos. Vereis então, que qualquer que seja a opinião, e por muito forte que ela lhes esteja alicerçada, todos eles se orientam pela digestão, e de acordo com os vossos desejos se fazem à estrada. Ou então, como poucos, podeis do conhecimento não tirar proveito, a não ser a satisfação de vos recostares na cadeira depois de uma boa refeição. Fechei os olhos e desfrutai, com tamanho mistério, que do molusco mais sensível ao bicho mais infernal, todos se regalam de forma igual.

sábado, 11 de agosto de 2018

Oitava Lição – Obstipação

Para nos falar deste mal, objeto desta lição, damos a boas vindas ao Dr. do Vale, perito em obstipação. Esteve ele para ter outro nome, pensei antes em convidar o Dr. da Conceição, mas como a rima saiu trocada, o Dr. do Vale será o especialista de eleição. Bom dia meus meninos, fui chamado de emergência, para vos falar do que sei, pois suspeita-se, que depois da lição de ontem alguns de vós padeceis de uma maleita. Tendes os olhos um pouco baços, como quem tem uma aflição, receio que andeis a braços com um problema na digestão. Das consequências estou eu certo, e das causas posso adivinhar, que por causa do que ouvistes ontem, vos pusestes a cogitar. Tem disto a mente humana, perturba-se o fundamental, e por razões bem acessórias desnorteia-se o trato intestinal. E da minha experiência vos digo, que quando aos outros vos comparais, vos sentis injustiçados pela mãe natureza, que não vos deixa andar com passos normais. Muitas vezes sou chamado à barra, para por uma ordem no mundo, mas sempre digo, e repito, sou médico não sou advogado, posso curar mas não dou reparo. Mas percebo com empatia, as vossas razões, o que para uns é célere, para os outros está cheio de entraves e travões. E se tentardes descortinar, de longos processos vos irão falar, metros e metros de intestino que é necessário percorrer até chegar ao destino. Todo ele cheio de curvas e contracurvas, foi o caminho desenhado para o que tem olho e é experimentado. Por isso não desesperam, andam sempre folgados, se a coisa corre depressa, logo interpõem um logos e um cajado. E se a matéria desperta, entram em modo de exceção, convidam um matulão, um homem de leis bem engendrado, capaz de questionar uma digestão. Homem esperto e preparado, quando fala a uma multidão, explica-lhes que daqui ninguém sai, pois está tudo interligado. Gera-se depois um rebuliço, gases para um e o outro lado, correndo a multidão em alvoroço de encontro às paredes que colocaram de reforço. De tamanha confusão, nada se pode esperar, são horas e horas de discussão, onde não se sai do lugar. É assim o mundo, e eu sou um privilegiado, porque me posso sentar em cima desta maleta, que é uma excelente bancada para se observar a opereta. Nisso tem o médico vantagem, sobre os restantes arranjadores, não necessita de inventar nada, basta-lhe repor os humores. Por isso se insistis comigo, que quereis recorrer à justiça, o que vos posso aconselhar é que deveis comer mais hortaliça. Ainda que aqui talvez não tenha sido o caso, pois hoje em dia não há pai nem mãe, que não preste atenção a uma boa alimentação, com legumes e fruta a cada passo. Intimamente culpais, se assim o posso dizer, esse verme escorregadio que aqui vos veio everter. Se calhar achais que as coisas que ocorrem lá dentro, são reais são, mas é nefasto trazê-las cá para fora, que só fazem ebulição. E agora questionais essa vontade de aprender, tendes dúvidas se vale a pena procurar tudo saber. A lição que tenho para vos dar, uma vez compreendais de que percalços é feito o assimilar, é que o saber nunca ocupou lugar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Sétima Lição – A bicha-solitária

Bom dia, para mais um dia, bem-vindos a esta lição, na qual temos um convidado surpresa de quem todos já ouviram falar de antemão. Como não carece de apresentações, dou-lhe por isso já a palavra, que do que irá falar sabe ele de sobra. Bom dia, não é meu costume aceitar estes convites, e andar aqui por fora, pois por muito se afirme que não vivo nas melhores condições, é lá onde me sinto bem aprumado e disposto para todas as ações. Mas já estou acostumado, a ser muito aviltado, sendo bem sabedor que o próprio nome que me deram dava para escrever ao provedor. Pois então, onde é que já se viu tamanha incoerência, se sou solitária como posso ser bicha também, só se for na imaginação, que gente que assim fala, com certeza está tão mal informada, e que efabula com desdém. Também vós me olhais enojados, e não deve ser pelo meu aspeto, que é transparente como a límpida água, mas sobre o que ouvistes a meu respeito. Mas não vim aqui para tirar teimas, e eu próprio me surpreendo ao olhar-vos assim inteirinhos por fora, que tão diferentes sois por dentro. De certeza que hoje de manhã, depois do cocó, a vossa mãe vos disse para lavardes as mãos e irdes beber o leitinho, com um pão com manteiga, e talvez algum docinho. Como sei eu isto, perguntais-vos, pois mais sei eu, eu vos digo, que à hora do almoço deveis insistir no bife bem passado, que não gosta de concorrência quem já tem um negócio bem montado. Como vedes sou solitária de vocação e só bicha de cognome, mas como já tive oportunidade de vos chamar à atenção, o a final é da maldade do costume. Bom, bom, lá de novo me descaí, que nisso devo ser muito cuidadosa, pois no lugar onde vivo é mortal escorregar pela escada. Estou eu para aqui a falar, destas banalidades, mas é porque ainda não me sinto em mim, com o que aqui vi. Olha, olha, como vós sois, bem podia ter puxado pela carola, que nunca teria concebido serdes assim tão secos, e redondinhos por fora. Sei bem que passais a vida, toda numa lufa-lufa, mas lá dentro, ao fim do dia, tudo acaba nas mesmas moléculas agrupadas como uma uva. Como dizia o grande Voltaire, que tenho o atrevimento de citar, com o pouco francês que aprendi de um cozinheiro, que nem sequer uma estrela Michelin tinha, je vois près de chez moi Genève en feu avec des querelles pour rien, et je ri encore. Disse-me o vosso professor que, se possível, deveria haver uma lição na lição, e que se fosse eu capaz, uma deveria deixar, vinda de lá dentro, onde impera a escuridão. Talvez como resumo, posso ajuntar ao que já sabeis, que embora aqui sejam muitas as formas, lá dentro tudo se esmiúça e dissolve, e se de gostos me interrogais, mais não vos posso dizer, que aos critérios cá de fora, tudo lá chega muito sensaborão. Pelo menos é assim que eu interpreto o dito do iluminado Voltaire, que passou a vida toda cá fora, e de lá dentro pouco sabia, mas se calhar suspeitava que rir era o melhor remédio para a azia. Eu próprio o tomo, sempre que me chega um bife da vazia, armado em carapau de corrida e pronto para a refrega.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Sexta Lição – Comezaina de fartar

Desculpem-me, meus queridos meninos, se na última lição me tomei de algumas liberdades, mas é assim o estômago, quando cheio leva-nos à boca o que então nos parecem ser apenas verdades, e mais vos digo, se tentes um inimigo, enfardai-o, avinhai-o, e dai-lhe conversa até que lá dentro tudo comece a rebolar, duas voltas para um lado, outras duas para o outro, que depois lhe virá um torpor, uma bonomia, que de certeza o levará a uma ou duas pitadas de filosofia. E repousarão eles, descansados, que a natureza é um gigantesco paradoxo, a barriga repleta enche-os de paz, de acalmia, e já nada parece ser um disparate, levando-os a baixar a guarda, onde facilmente entra uma faca, disfarçada de conhaque. Para ajudar à digestão, diz-se, ironia das ironias. Mas façamo-nos à vida, que Roma e Pavia não se fizeram num dia, e a quinta lição foi um percalço de contemplação, e ainda tendes muito de aprender se alguma coisa quereis ser para além de crescer, por isso hoje vos venho falar, de um facto que é prenhe a todo o ser vivo, por grande e complexa que seja a porção ingerida, no fim, tudo se faz no bacio. E por muito estranho vos pareça, é tudo por causa de um amor universal, a uma meia dúzia de moléculas, bonitinhas, perfeitinhas, que de mãozinhas dadas rodopiam muito bem aprumadinhas, e se pensastes que nos comemos uns aos outros por gostar de seres vivos, estais tão enganados como os homens das cavernas, que pensavam incorporar a alma dos seres que comiam, e da digestão nada percebiam. Esta é a ciência da coisa, se alguém quereis comer, nada do engrandecer, como fazia o australopiteco, habituado a agradecer a refeição de cada dia, mas deveis apequenar, pois essa é a função da digestão, e se for necessário de todas as poções vos deveis apetrechar. Ah, vós, alunos mais preocupados e prestes em aprender, já deveis estar a ver do que vos vou falar. É do fígado, pois claro, e do pâncreas, também, essas duas fontes de humores capazes de fazer do ser mais completo um concentrado alimentar, tão simples e inofensivo, que até o padre mais santo é capaz de o tomar, como a pílula que alimenta o astronauta quando divaga pelo ar. Mas não digo que em pesadelos, não lhe venha um terror ao baixo ventre, e se imagine, como o australopiteco, com um todo indivisível em partes, debatendo-se na barriga. Por isso, para o bom trato intestinal, e evitar essa vozinha da consciência, temos esses dois entes segregadores que tratam de minimizar todo o escolho a bem da absorção. Aprendei mais uma vez meus meninos, uma regra de ouro, há neste mundo quem tenha muitos pruridos no que está disposto a ingerir, mas são também eles os melhores certificadores da moral alimentar. Levai-lhes por isso a comidinha, toda ela partidinha, se possível à francesa, num grande asado prato onde predomine o branco, assim, sentirão paz ainda antes do ingerido, que a pequenez do conteúdo de certeza os fará sorrir sem rezar, e o vazio das bordas sonhar com as imensidões do ar, então podeis ter a certeza que quando se virem estes santos homens a manjar logo outros se lhes ajuntarão e será uma comezaina de fartar.

domingo, 5 de agosto de 2018

Quinta Lição – Da natureza das coisas

Contactaram-me os vossos encarregados preocupados com a educação, dizem-me que os assuntos abordados são exagerados no que diz respeito à digestão. E que em apenas quatro lições já cobrimos mais matéria, do que aquela que é necessária para descrever com exatidão, o que passa na curta viagem da boca ao..., interrompi-os eu, que, para além da boca, pouco mais do que a garganta e o esófago cobrimos e que se já lá vão tantas lições é porque cada assunto obriga à exposição de um outro, ainda que não vos seja óbvio a ele estar aparentado. Mas insistem os encarregados que o importante é saber o que pode sair nas provas, que a função do educador é preparar para corretamente se responder à avaliação. Respondi-lhes eu, tentando sustentar, que aprender é algo que nos deve levar a mudar de lugar. Mas os vossos responsáveis insistem em saber se o que aqui se ensina tem valor a valer. Bem lhes disse que vos iria então falar de Lucrécio, pois outro não conheço cuja pedagogia tenha maior préstimo. Mas continuam em questionar se com o que aprendestes ireis vingar, porque na vida vos distinguireis com aquilo que vireis a assimilar. Deixei-os com as suas queixas, que com eles já nada há a fazer, assim apoquentados continuarão, que desbravar mentalidades tão bem articuladas não é a minha função. É a vocês que me dedico, em desespero de causa, que tendes a mente fresca e airosa, já que os encarregados vêm naturalmente munidos com único plano para o fruto da sua fornicação. Bem sei que é da natureza das coisas, mas como sou teimoso, como já ireis ver, não resisto em vos trazer hoje um assunto para o qual não se desvenda resposta certa. Lanço já aqui a pergunta, que nunca pensei a vir a fazer tão depressa na aprendizagem, mas sou empurrado pelo rio contra esta margem. Pergunto-vos então, o que acontece à digestão do bovino durante a longa, e aparente, letargia do ofídio? Quereis aventar uma resposta? Pois é, pois é, esse é o problema da aprendizagem toda focada na avaliação, apenas estais dispostos a compreender aquilo que tem solução. Ou, perguntando de forma mais prosaica, porque é que nunca indagamos a nossa digestão, ainda que questionemos a do cobrão? Ou intentando de uma terceira forma, a pergunta para a qual não há resposta precisa, porque é que digerimos os outros com satisfação e fugimos a sete pés da nossa própria dissolução? Aqui estão três diferentes questões para as quais há as mesmas respostas imprecisas, incorretas e amargosas. Mas não quero terminar sem uma lição vos dar, para que a quinta não fique sem lugar no panteão da recordação. Digere a cobra com igual regalo o bovino que regurgita a folhagem satisfeito pela textura tenra, verde e aguada, de sabores acres soltados pelo rasgar da sua língua ponteada, e andamos nós a alvitrar qual deles tem razão, ignorando que ambos terminam na mesma decomposição, e que se quereis entender a digestão tereis que estudar esses átomos básicos em que cada coisa se vai tornar, por isso vos digo, e repito, se for necessário, que não há estudo sem resposta como o da digestão.

domingo, 29 de julho de 2018

Quarta Lição – A digestão tout court

Aqui já fica o aviso, esta quarta lição bem pode vir a ser uma desilusão, onde predomine o imprevisto em vez do nunca visto. Íamos nós na anterior, esófago abaixo, em direção ao inferior, esfíncter de passagem, nó oculto de entrada para a câmara dilacerante, onde se espera o horror arrepiante, da corrosão. Mas não, desenhei eu esta lição, a bem da pedagogia, de forma diferente, em vez de vos perderdes no detalhe, quero que vos concentreis na grandeza da digestão. Imaginai pois uma cobra estirada, pelo chão, acabou de engolir uma vaca, toda de uma assentada. Está a pobre lá dentro, inteirinha, acabada de ser tragada sem ter sido alvo de uma única dentada, chupada até ao tutano, e, contudo, o ainda estar com a pele vestida é um espanto. Formulo pois a questão, como achais vós que irá a cobra proceder à assimilação de tão grande animal, e que lhe provoca tal má-formação, abaulada como está, irá chupá-la até ao osso, como diz o povo, ou macerá-la até à medula, como diz o químico, cuja opinião, nestes assuntos, é a mais abalizada. Ai, meu menino, não quero cá galhofa, pare de fazer essa cara à sua colega, não imita a refeição de uma jiboia simulando uma aflição de ventre, ainda que essa cara entediada, não seja de todo despropositada, pois tal é a enormidade da fruição que a cobra se desliga do exterior e só por dentro há ação. Era essa a pergunta, mas leio-vos nos olhos que andais a leste, por isso aqui vai uma pista, a ver se à sala regressais, ainda que cobra tão grande não se encontre aqui, mas é esta a dica que tenho para vós, o estômago da cobra é todo feito de piquinhos e pregas que como minúsculas línguas dão ao bicho uma grande esfrega. Pobre bovídeo, que vai ser tão falado, de certeza que o deixarão num estado que irá exacerbar a sua vocação para a ruminação. Como irá então o réptil rastejante processar o vacum possante? Então, não ouço nada dos vossos lábios, nem um assomo de resposta, que se passa convosco, e se continuo a ajudar lá vai a pedagogia pelo ar. Então, imaginem a vaca ali imobilizada e todas aquelas línguas em consonância a penteá-la para um lado, e depois, se não fica bem no retrato, para o oposto, e nesta ênfase de lhe tirar a fotografia, se for necessário, até lhe fazem a marrafinha. Com um salto de heureca, que faz abanar as carteiras, um menino emocionado, exclama, é o que diz a minha mãe, são as... ai, meu menino, iluminado, bem pode ir dizer uma verdade, mas não é assim que o rastejante consome o gigantesco bicho aprisionado. Mas insiste o miúdo, eu sei, eu sei, que a minha mãe tem razão, ainda que o meu pai lhe diga, cala-te mulher que ainda acabas nessas línguas bifurcadas. Mas, riposta a minha mãe, que não é mulher que se cale, eu falo com essas... ai, meu menino, mais uma vez não, tenha tento na língua, que estamos na lição, pois é professor, é bem capaz de ser verdade, a cara que o meu pai faz é de silêncio, mas tem compreensão e amor. Ah, afinal chegamos a bom porto, tem disto a docência, se deixarmos fluir os assuntos, logo surge matéria que ajuda à conclusão. O que o bom marido insinuou à doce esposa é que não vale a pena interpelar o ofídio durante a digestão.

sábado, 21 de julho de 2018

Terceira Lição – A dança dos contabilistas

Depois da segunda lição vem a terceira, não há que enganar, na narração desta viagem, até ao final, o dobrar de muitos esfíncteres ireis testemunhar. Pois, meus meninos, espero eu, de vós a máxima correção, uma vez que, por cada erro que no futuro vireis a dar, serei eu o patrono da vossa desatenção. Mas vamos ao corpo do tema de hoje, todo ele feito de safanões, que quer se queira, sim ou não, agora que se passou a epiglote, nada mais se lhe pode desejar que muita, muita, sorte. Os movimentos são todos peristálticos, levando a comida amarfalhada, quer se faça o pino, sim ou não, em direção ao esfíncter esofágico inferior, nome comprido e anunciador de infortúnios, por onde muitas vezes escapa um ardor, uma azia, um fedor, que nos faz recuar importunados. Mas, coitados dos que já lá estão, que num único sentido vão, em direção ao desconhecido, que tudo o que por aí passou quase nunca regressou, a não ser azedo e indigno. Por isso de nada nos serve o que pudesse contar, uma vez que vem possuído por um ácido que nos leva a duvidar de ali viver aquele que ainda não há muito apreciámos. E, vamos então ao cerne da lição, da mais profunda humanidade, que vos descreve como este bicho se entretém, cantando e dançando, quando se aproxima da infelicidade. Estranho comportamento esse, mas uma vez que já vão todos no mesmo barco, esquecem até como foram recrutados, e o que deixaram antes de ingressarem no mar alto, ovas, crias, cópulas, e agora, filhos desta aflição, matraqueiam com os pés o chão, enquanto vão rodopiando em direção ao desalumiado. Eis, pois, o que tendes de aprender, se quereis ser líderes, senhores, capazes de traçar destinos, que no mundo andam apenas dois seres, os que determinam e os determinados. Prestai, pois, a máxima atenção, que o que agora vou dizer é fundamental, então não é que em vez de questionarem a sua missão, para a qual foram astutamente alistados, vestem com redobrada emoção a useira roupagem, e prometem continuada vassalagem. É amor, só pode ser, até vós exclamais senhores, com que perfeição fez Deus a sua obra, que tudo aquilo que lhe vestimos lhe assenta com primor. E da dança apenas posso dizer, que graças a Deus que não são escoceses, pois seria muito atrevimento agitar assim os penduricalhos. De braços entendidos, fazem tudo certinho, no convés da embarcação, assim foram ensinados, estes marinheiros dos três costados. Um dois três, e repete, um dois três, que tudo somado já é um número bem salgado. Quero isto muito bem contado, que não há dança sem marcação, cada passo bem ensaiado, que à vista do estertor, enchem-se de furor os finados a bem de seu patrão. Portanto aprendei meus meninos, mais esta lição, que eu não duro sempre, basta financiares a embarcação que do resto trata a corrente. Dancem, dancem, em direção à ligeira rugosidade, que ela logo se abrirá e vos revelará o que ireis aprender na próxima lição. Esta por aqui fica singela, que de viagem apenas se tratou, comprimida certamente, ao sabor da tremenda torrente, atentai, portanto, que basta montar casa a amante para terdes um segundo lar.

sábado, 14 de julho de 2018

Segunda Lição – Custa a engolir

Meus queridos meninos bem-vindos à segunda lição, que da primeira com certeza vos recordais com emoção, e deveis agora continuar com toda a vossa aplicação. Não é fácil o que vos tenho a dizer, por isso tereis que decorar, sei que sois da escola dos que gostam de entender, mas o que vos tenho a ensinar não é fácil de assimilar. Diz-se na minha terra que ainda tereis que comer muito feijão até lá chegar, e que o saber não se faz apenas de estudar. Sim, sim, eu sei, não fica bem a um professor isto dizer, mas o que é que havemos nós de fazer se não podeis entender. Deixemo-nos de preâmbulos e vamos já ao cerne da lição, que explanar depois tim-tim por tim-tim será a minha segunda missão. Sumariza-se muito bem assim o que vos tenho a ministrar, a consciência é disfuncional, sofre de dislexia, onde por vezes devia estar o tempo de um verbo entra outro à revelia. Vejo bem pela vossa cara que não estais a perceber patavina, fechai por isso os olhos e repeti comigo, a consciência é disfuncional, sofre de asfixia, onde por vezes devia passar o tempo de um verbo entrava-se outro à revelia. Ai, ai, ai, que desafinação que por aí vai, assim não conseguireis obter a aprovação, repeti, pois, mais uma vez, a consciência é disfuncional, sofre com a tirania, onde por vezes reina o tempo de um verbo grita outro à revelia. Que desânimo que desinteresse, já trazeis os olhos por tetos e paredes, olhai para mim meninos, onde está essa sede de aprender, até parece que vos custa a engolir. Ah, ah, agora sim, consegui a vossa atenção, o que vos acabei de dizer, percebeis vós bem com o coração. Come a sopa que te faz bem, já chega de mastigar, não gostas? vá, fecha os olhos, engole, e não quero cá mais conversa. Essa é que é essa, meus meninos, toda a gente engole, e não anda cá com desvarios, engole o rei e a rainha, e até engole a concubina, engole mesmo o imperador, esse rei de reis de olho esbugalhado, que anda no mar sem saber que até cardeal pode ser. E assim, vos digo, porque não haveríeis vós de também engolir? Bem podeis alegar que de peixe não gostais, ou então, pela mesma razão, que tanto o estimais que nenhum mal lhe ousais. Conversas, digo-vos eu sem delongas, vem-vos esse arrependimento, já depois de o terdes saboreado. Mas não penseis que o mal está em vós, nem sequer no que acabaste de deglutir, o mal está na garganta, esse órgão da consciência. Na garganta?, logo havia de durante a lição o professor ensandecer, todos sabem que a consciência está no cérebro ou no coração, conforme a doutrina, mas nunca na garganta, cuja função é de passagem e repentina. Bem dizia meus meninos que o melhor seria decorar, repeti, pois, outra vez comigo, a consciência é disfuncional, sofre da epiglote, onde por vezes devia passar o ar passa a comida a trote. Engasgais-vos, eu sei, e por isso ganhastes medo de engolir, pobre do peixe, coitado, sentis dó agora dele, mas só depois de o terdes mastigado. E para terminar esta lição, já que bem tenho que me apressar, pois está quase na hora do toque, mas não posso finalizar sem vincar algo que também vem mesmo a remoque, quem te manda engolir ama-te. Repeti comigo.

sábado, 7 de julho de 2018

Primeira Lição – Pela boca morre o peixe

Sendo peixe, prefiro-o grelhado, tostadinho, mas não demasiado seco, não, que gosto de lhe meter a faca junto à espinha e fazer-lhe saltar as carnes baforentas, que o danado já não perneia escorregadio, mas ajeita-se côncavo ao olhar, atiçando-nos com uma ponta de superfície, fumegante, branca e entreaberta, enquanto o resto se alonga para baixo, em direção ao corpo esparramado no prato, enlevado por duas ou três batatinhas reboliças, aperaltadas por umas flores de brócolos. Um peixe com os vapores, sim. Bem que o escuto, coitado, que agora que se vê em prato limpo, dá-se ares de alguma importância e tuteia-me, a mim, que o encaro com garfo e faca na mão, mais em posse de ourives do que com disposição guerreira. Eh pá, já viste, diz-me naturalmente, sem desaforo, mas com o à vontade de quem bebeu um ou dois copos de vinho, deste branco fresco com que eu próprio já espevitei as papilas gustativas, em curta dose, é claro, e apenas como um pequeno introito ao grande espetáculo que se avizinha. E podeis ter a certeza que lá por dentro todo o bicho se espevita, tocam tambores, correrias, da boca ao ânus é um ver se te avias. Mas porque não fica ele caladinho?, penso eu para comigo, que disfrute do leito e não se ponha a alvitrar, e eu que até sou amigo, ainda lhe dou um ou dois toques, quando diz algum dislate, com os olhos lhe faço notar que o que vem da sua boca é tudo para contar. Mas, não, não se cala, e quanto mais o como mais ele se empolga. Meto-o por isso na boca, na língua é fofinho, e ele dócil, dócil, deixa-se todo enlambuzar com saliva antes de o mastigar. Ah, como se rebola, gostoso, quase dente não é preciso, basta apertá-lo ao céu da boca para se fazer deglutido. E aí ainda me diz mais uma ou duas, que eu não quero acreditar, que ser tão sensível, tão ingénuo, vivia com certeza no fundo do mar. Mas aqui vos digo meus amigos, que o melhor que ele tem é o coração, bom, bom, como aquele é bem difícil de encontrar. Como se afeiçoa a mim, nesta hora da refeição, todo ele delicadeza, mas a verdade é esta, e bem dura ela é, coração como aquele não quero eu tragar, fica com as tripas a um canto do prato, negras, escorridas e feias ao olhar. É destes segredos feito o mundo, vai a alma para a boca mas não nos agrada ao paladar. Estou seguro que já sabeis, pois tendes ar de estudar, que na boca se forma o bolo alimentar, essa bola saborosa em que um outro ser se deixa amassar. Pois é, é assim, pudéssemos nós ao nascer, como ao comprar a pastilha, poder escolher o sabor com que por cá devêramos andar. E dois juízos seriam necessários, gostaríamos de ser agradáveis e deliciosos, ou trombudos e amargos, qual das vidas preferiríamos para nos apresentar. Olha ali vai fulano, uma doçura de pessoa, e ali sicrano, que não é flor de se cheirar. Espero não vos desiludir, mas a verdade é esta, qualquer que seja o sabor com que vos inteirais alguém se vos irá papar. Mas a grande questão aqui fica, se se tem um coração tão bom, porque é que ele não gosta ao paladar?, esta é a lição, meus meninos, que para a vida deveis levar.