domingo, 9 de dezembro de 2018

Os negacionistas

Tive que ir a um dicionário de 2018 para confirmar qual era então o significado da palavra negacionista. Este é um dos problemas de estarmos a escrever para o passado. E não é o único. Vivesse eu o sonho de todo o escritor, de vir a ser famosa, e viveria neste dilema de ter os meus leitores num tempo anterior ao da escrita, arriscando-me que o meu presente fosse a sobreposição entre a incerteza na solidão deste canto em frente ao teclado e as plateias de consonantes estados de alma por mim produzidos, pequenos clones da minha pena. Ou então, a sobreposição com o insucesso, em que as letras que me saem da mão logo mirram. Para vós que me ledes então, a melhor imagem que vos posso dar é a da sobreposição de estados de espírito de uma mente que ao escrever vai saltitando entre a euforia da genialidade e pavor da mediocridade. Mas não padeço desse sonho. Porque tenho 100 anos. Porque não há maneira de morrer. Porque no dicionário de 2060 na palavra escritor lesse, profissão desaparecida no início do século devido à introdução das transferências cerebrais. Sou, contudo, uma saudosista, e em vez de gozar de uma transferência, prefiro escrever para vós e procurar, depois, na constante reescrita do tempo uma referência ao meu nome, uma referência à minha narrativa. Tipo, Ivone Lourenço, escritora, foi considerada por alguns uma das vozes mais frescas da sua época, escreveu uma única obra, 25 de abril sempre. Nem sei, se em vez de saudosista não deverei dizer negacionista. Embora o negacionismo já lá vá. Foi um movimento estúpido, é certo. Retrógrado, é certo. Irracional, é certo. Mas temos que perceber que foi natural. Como hão de os seres reagir após milénios de loas ao esplendor do desconhecimento. Como hão de os seres reagir quando se procriaram e dizimaram porque um sentimento profundo tomava conta deles. Um sentimento tão total, que qualquer tentativa de o negar desencadeava as reações mais brutais. Como hão de os seres reagir quando uma bela manhã alguém lhes tira o eu. E não como resultado de um descalabro ocasional, de uma vicissitude da vida, daquelas que, porque o questionam, apenas o fortalecem, ainda que na turbulência dos vapores. Mas sim porque o eu foi escapulido com uma verdade demonstrável, a cada momento, a cada ação, e com um toque de sensatez. O algoritmo dizia, faz isto, que é o melhor para ti. E era. E isso é que era fodido. Talvez esta seja a melhor forma de vos explicar o eclodir do movimento negacionista. Como na época as pessoas se entregaram à negação. Faziam exatamente o contrário do que lhes era recomendado. Surgiram mesmo alguns teóricos do movimento. O Afonso foi um deles. Um homem de letras. Advogava ele, tínhamos de inundar os algoritmos com novos dados que contradissessem as suas conclusões. Dizia ele, li nos jornais, temos que dissolver os padrões no grande oceano da alma humana. Um homem de letras. Foram os nossos loucos anos 60, pois, raras exceções, como a do Afonso, fomos a geração bandeira do movimento. Recordo também ler a entrevista da Catarina, apresentada como a irmã do Afonso, que estava cheia de razão.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Devassa

Parece ridículo resolver escrever as memórias numa época em que a memória deixou de ser um problema. Quando por meia dúzia de moedas mensais se pode descarregar tudo o que temos na cabeça e colocar na nuvem. Sim, é verdade que no início ainda se questionou da sua pertinência, pelo menos até haver um completo entendimento do conteúdo de cada uma das partes do cérebro. Seria, dizia-se, como convidar um estranho para casa, desconhecendo os seus hábitos, e quem sabe o que poderia acontecer uma vez livre do invólucro a que esteve acostumado. Houve também quem alertasse para o perigo de separar a mente do corpo. Especialmente, quando posteriormente se procedesse à recarga, quando se desse a ressincronização entre o que permaneceu e o que regressava do exterior. Mas a curiosidade, e a vontade de experimentar, ultrapassa quase sempre a cautela. Sub-repticiamente, alguns laboratórios privados, não que não se suspeite que os governos não o tenham também tentado, começaram a fazer experiências. Afinal nem era uma tecnologia particularmente complicada. Conseguia-se montar com alguns componentes comuns em jogos de realidade virtual da época, desde, claro, que não se importassem de correr riscos. Por isso, ofereciam dinheiro aos supérfluos, quase sempre viciados em jogos, que aceitavam ter o cérebro duplicado, no início, por uns meros microssegundos, e recarregado de novo. Os primeiros resultados não foram particularmente entusiasmantes. Tonturas e falta de memória. Mas alguns aperfeiçoamentos permitiram alcançar uma sincronização mais eficaz, em que cada parte regressava com precisão ao lugar de onde tinha saído, o que levou a experiências com maior duração, tendo-se chegado à ordem dos minutos de coexistência separada. A partir daí começaram os indivíduos a descrever uma sensação de espanto quando se dava a fusão. Como um encontro entre estranhos com um cheiro a déjà-vu, em que duas almas gémeas se reencontram de forma inesperada. Chegou-se a afirmar que isso seria o amor. Como um sonho que atiramos ao ar e que quando dele nos damos conta se nos apoderou do corpo. Dizia-se na altura com emoção. Quando ainda não se tinha começado a forçar a separação por longos períodos, e a induzir cada uma das partes às mais dissemelhantes experiências, antes de as fundir de novo, que disso relatarei mais à frente. E conto-vos isto em adianto, como uma breve introdução, quiçá um resumo executivo, das minhas memórias, de como hoje a memória é completamente inútil. Para vos dizer de como recordo o Zé, deitado, com o corpo nu, descoberto sobre a cama, olhando o teto, falava, como se estivesse só, da estranheza do regresso do Afonso após um ano de coma. Repetiu várias vezes ao longo dos anos, não sei se disso tinha consciência, que o Afonso não tinha regressado o mesmo. Tinha algo dentro da cabeça que não entendia. Percebia melhor a sua fase de viciado. Percebia a dependência do corpo e a subserviência do cérebro, como ambos jogavam um jogo de subversão, mas agora parecia que a mente do Afonso regressava como se tivesse sido alvo de uma devassa.

sábado, 24 de novembro de 2018

Companion4Elderly7.5

Big data is taming you. Já lá vão mais de 30 anos desde que escrevi isso na parede, do outro lado da rua, em frente ao apartamento. Agora, aos 100 anos, olho com benevolência para a inscrição. Fui eu que pedi para não a apagarem. Uma vez por ano vou restaurá-la. A cidade está cheia de escritos deste género. Artificial intelligence is not intelligent ou The robot is not helping you. Eu acho que a minha pode ter sido uma das mais bem conseguidas. Mas cada um gosta da sua, pelo que são todas cuidadosamente preservadas por aqueles que as escreveram. Nisto se prova que esta revolução não foi como as outras, que mais tarde ou mais cedo caem no esquecimento. Esta foi a revolução. Foram muito loucos aqueles 60 anos. Dizemos, os da nossa geração, com alguma graça, que os nossos 60 anos foram os antigos anos 60, aqueles em que nascemos. Recordo como tudo começou. Revoltámo-nos quando percebemos que sabiam tudo sobre nós. O que fazíamos, quem éramos. É verdade que no início, quando surgiram os novos sistemas de apoio e suporte ao indivíduo, todos nós aderimos entusiasticamente. Corríamos a descarregar a última versão do sistema de recomendação, a adquirir o último robô de apoio pessoal. Mas, ao fim de algum tempo, começou a haver algum desconforto naquele conforto. Era um desagrado por tudo estar certo. De ser tudo tão previsível. Tornámo-nos como as crianças revoltadas filhas de pais perfeitos. Sabíamos que era aquela a melhor hora da refeição. Que não podíamos comer melhor comida. A hora para adormecer. A música para acordar. E irritávamo-nos quando atingíamos o êxtase. Foi então que alguns de nós começámos a fazer o contrário do que nos era recomendado. Por essa altura aumentaram os acidentes de trânsito, pois insistíamos em desligar o controlo automático dos carros autónomos e conduzíamo-los nós. Mas o trânsito já não estava concebido para humanos. Eu tive um acidente grave. Fui hospitalizada e aí, como já estava a fazer quase 70 anos, mais por desculpa do que por verdadeira necessidade, para servir de cobaia, instalaram-me o modelo Elderly do Companion, mais precisamente, o Companion4Elderly0.3Beta. Sim, a versão beta foi testada por mim. Foi nessa época que a psicologia perdeu a vertente de ciência social e passou a ser um ramo da biologia comportamental. Parece ter sido identificado um aspeto na biologia humana, uma tendência inata para a insatisfação que tinha sido ignorada. Chamaram-nos por isso a geração mimada. Foi a linha Companion concebida para colmatar essa anomalia. Dizem que está fortemente influenciada pela filosofia budista. Que os Companions desencadeiam um mecanismo de meditação induzida, diretamente implantado no cérebro. Detectam as ondas de desagrado que tomam conta do ser humano e desencadeiam imediatamente uma reação de reflexão. É por isso que me sento em silêncio à janela a olhar para a minha inscrição, a deixar passar o passar dos anos, e revejo-me com a lata de spray na mão, de cócoras, não fazendo verdadeira tensão de me esconder, a escrever Your companion is taming you.

sábado, 17 de novembro de 2018

Tinder

casados, deslizai para a esquerda. porque na vida acontece tudo muito rápido. passaram treze anos desde aquele encontro no hospital. treze anos em que perdi a noção se fui a mulher ou a amante. treze anos a pensar numa coisa e na outra. e fui ambas com muita convicção. mas nunca ao mesmo tempo. fui a melhor amante que ele alguma vez teve. tive a disponibilidade de esperar. de viver nos intervalos da vida dele. de planear as fisgas por onde nos escapávamos. e nisso era exímia. uma meia-hora conquistada ao quotidiano sabia a eternidade. até fui sua paciente. ia à consulta para o ter. e nunca me queixei. mas também fui sua mulher. treze anos é muito tempo para viver em aventura. surge um momento em que nos descuidamos e deixamos passar mais de meia-hora. e o quotidiano entra-nos pela eternidade a dentro. soube-me bem esse apoucamento do infinito. confesso que até vesti a roupa de esposa. saíamos para jantar com o Ricardo e com o Humberto. íamos ao restaurante. visitávamos a casa deles. eles vinham jantar a nossa casa. conversávamos muito. o Humberto tinha sido colega da Catarina e do Romeu e perguntava-lhe por eles. o mundo é uma bolota. e o Zé respondia sem hesitação. nunca soube se alguma vez comentou alguma coisa à filha e ao genro. apenas não fui a casa dele. mas que interessava isso. preferia não pensar. e ele dizia-me que já não estava com a Joaninha. era em casa que tinha a roupa. apenas isso. até ficava à noite comigo. que melhor prova de ser mulher e não amante. passava a noite comigo. não ao fim de semana. não como uma escapada ao Alentejo. disfarçada de ida a um congresso. passava a noite comigo. para se levantar de manhã para o trabalho. tomávamos banho. ele fazia a barba. os amantes não partilham os asseios. eu era a mulher. a Joaninha passava a noite sozinha. se calhar ia jantar com amigas. nunca nos cruzámos. pensar nisso bastava-me para ter a certeza que ele era meu. já não pelo fogo da conquista. mas pela força da circunstância. e depois ele desaparecia. eu passava alguns dias à espera. e ele sem nada dizer. tinha então de despir as roupas de mulher. mas em vez de me entregar ao sofrimento ia à consulta. e regressava como amante. andámos nisto treze anos. e não penses que uns momentos foram melhores do que outros. não penses que com o tempo deixei de acreditar. que me entregava com menos certeza. que era menos mulher quando tinha que ser mulher. que era menos amante quando tinha que ser amante. não era assim. nem isso pode ele me apontar. e passado treze anos diz-me que não pode deixar a Joaninha. isso sim foi demais. não podia ser apenas amante. habituei-me a também me imaginar esposa. a vida é rápida. sabes. ainda o fui encontrando uma ou duas vezes nestes últimos seis meses. mas já não é a mesma coisa. sabes. agora o que fica é uma espuma do vai e vem. não é a mesma coisa. acabou. quero viver a minha vida. a vida passa muito depressa. mas estou aqui apenas a falar de mim. desculpa. já te devo estar a aborrecer. mas tinha que te dizer isto. queria que me conhecesses. que soubesses porque é que estou aqui. e tu. fala-me de ti.

domingo, 11 de novembro de 2018

Um homem mais velho

Um homem mais velho, oito anos mais velho, mas agora não me parece fazer muita diferença, não quando o vi da última vez, há quase vinte anos atrás, no funeral do Gonçalo, despediram-se, é verdade, com garantias dadas de se encontrarem de novo, mas nem de um lado, nem do outro, acabou por haver um movimento de aproximação, não é verdade, a Joaninha ligou uma ou duas vezes, mas sempre renovei, e não cumpri, a promessa de os visitar, nem sequer os miúdos, ou talvez por causa dos miúdos, o fim da infância, ainda antes da intervenção da adolescência, dá-lhes um brilho de maçãs polidas numa cesta de vime, bonitas, muito apresentáveis, com uma vivacidade saudável na pele, golden, dizem, e a mim, nessa altura, aborrecia-me essa compostura, confesso que nunca me agradou, também já não os via há algum tempo, nem sequer privei com eles no ano que estive separada do Gonçalo, antes do acidente, e eles também não foram ao funeral, parece que a Catarina queria ir, disse a Joaninha, logo a mais pequena, teria uns oito anos, não o Afonso, mas não, não vieram, ainda bem, pensei na altura, o Gonçalo gostava deles, as visitas que lhes fazíamos eram quase sempre à volta das crianças, um miúdo com os miúdos, comentávamos, nem que fosse para dizer alguma coisa, mas sim, era assim, é assim a empatia, mas eu não, não sentia-a essa necessidade de aproximação, deixava ao Gonçalo toda a dedicação, acabava por me refugiar na conversa com a Joaninha, que o Zé era mais reservado, simpático sempre, mas com aquela distância dos psiquiatras, como enfermeira fui reconhecendo essa marca noutros psiquiatras, um distanciamento em relação às coisas, como se tivessem sido calejados por um segundo sentido das circunstâncias, como quem pega em panelas quentes sem um relampejo, e as retira do fogão para cima da mesa como se nada fosse, como se não houvesse fogo, sim parecia-me frio o Zé, por isso, fiquei contente que não viessem, não saberia o que lhes dizer, sem o Gonçalo para ocupar esse lugar, especialmente à Catarina, que tinha um olhar que trespassava, mesmo quando perguntava a coisa mais insignificante, porquê, dizia, e a mim parecia-me que sabia a resposta, que me estava a testar, por isso, nas visitas a casa deles, era com a Joaninha que conversava, mas já não sei do quê, e o Zé estava por ali, falava às vezes com o Gonçalo, e nunca me ocorreu nada, nem o mais leve fervor, e parecia-me tão mais velho, oito anos são muitos anos, a idade da Catarina, medimos as pessoas pelos filhos que têm, como travessas na passadeira da vida, o Afonso teria uns dez anos, e agora, vinte anos depois foi o Zé que me reconheceu, chamou-me no hospital, Ivone, és a Ivone, não és, e depois ficou calado, como se me coubesse a mim dizer algo, senti-me então como se eu fosse uma panela ao lume, como se tivesse estado toda a vida em cima de uma chama e nunca me tivesse apercebido disso, talvez fosse a altura de um homem pegar em mim e me colocar em cima da mesa, sem palavras, sem demonstrar emoção, e então percebi que oito anos não são muitos anos.

domingo, 4 de novembro de 2018

Amizade

O engraçado de caminhar à chuva, afastados pelo limite das varetas, que dão pequenos toques, libertando chispas de excitação pelo aflorar das pontas, ainda que por debaixo dos guarda-chuvas os corpos se mantenham à distância das abas, como dois andores alinhados numa procissão, que vão ameaçando-se abalroar pelo peso do fervor, num arrebatamento que por vezes quase provoca um acidente, não fosse pela elasticidade dos tecidos que amparam a emoção, como o cruzar de espadas, e a faz retroceder de volta ao chão. É engraçado caminhar assim à chuva, pelo vazio da rua, que nos dá a liberdade de versejar de um lado ao outro, carambolando nas paredes, dado que a distância ao destino é curta, e queremos ter todo o tempo do mundo, e por isso obrigamos o progresso a ser exíguo. E paramos, paramos várias vezes, rodamo-nos nos guarda-chuvas, encarando-nos com os punhos, prontos para uma saudação de camaradagem, e ficamos assim um bom bocado só para rir, só para concordar, olhos nos olhos, atirando o bafo quente, vaporoso, um ao outro, que cheira a ternura húmida, vagueando debaixo dos chapéus, como que uma chuva ainda mais fininha que teima em não cair ao chão, prolongando o momento, até que rodamos de novo, para dar um passo em frente, o primeiro desde há um pouco, e recomeçarmos a rimar para os lados, sentindo a distância entre os corpos como uma intimidade sagrada protegida pelo acolhimento dos guarda-chuvas. É engraçado caminhar assim à noite, com as luzes dos candeeiros a deixar auréolas no chão, uma luz molhada, um pouco escorregadia debaixo dos pés, que nos atira ainda mais para os lados, como se não andássemos, patinássemos, e para isso fosse fundamental esse empurrão lateral, como um barco bolinando, inclinando-se para o lado, atiçando sensualmente o vento. E à altura das faces chega a luz filtrada pelas abas, a minha aos quadrados, a outra uniformemente preta, mas ambas ponteadas, outros salpicos entre salpicos, onde passam pequenas bolas de água a rolar, e em que nos calamos um pouco, para nos embebecermos pela textura do tecido, quão perfeita, e agradecemos em silêncio a esses tecelões hipotéticos, agora incorporados nalguma máquina num país distante, que não descansa, que não transvia, que está neste momento a tecer, para pontilhar os olhos de milhões de seres, como eu e tu. E falamos, é claro, de homens. Como são engraçados os homens, como são gigantes quando os vemos ao longe, com o seu tronco ereto, cabeça erguida, membros baloiçantes, olhos retos ao planeta, e como vão encolhendo quando se aproximam e a intimidade os faz pequenos, seres insensíveis que nos corroem por dentro e depois, quando menos se espera, choram, e ficamos assim, como marinheiros que se fizeram ao mar na promessa de uma nova terra e somos apanhados pela tempestade, bem no meio do oceano, em terra de ninguém, e vamos ganhar força às nossa incertezas, rimos. Dizes tu, Ricardo, e digo eu, se pudéssemos passar sem eles, iríamos diretos para casa de vento em popa, como um homem e uma mulher.

sábado, 27 de outubro de 2018

O agora

As unhas dos pés pintadas de vermelho, e às vezes penso que estaria melhor se estivesse casada, com um bebé para criar, e penso isto assim, com os pés sobre a areia fina, semienterrados, mas com as unhas a aflorar, emergidas pelos dedos, como pequenas tartarugas, dez minúsculas tartarugas acabadas de sair dos ovos, a despontar por entre a areia quente, atiradas para a frente em direção à água, e penso que como seria vê-lo crescer, com a água que vem, depositando pós dourados sobre o vermelho das unhas, que cada vez se elevam mais, conforme os calcanhares se vão afundando, trazendo os tornozelos ao alcance da vista, e penso como seria o pai do meu filho, penso nele como um homem que sai de manhã para o trabalho, e a água que regressa ao mar, trazendo de volta o rigor do vermelho, e trançando na areia um sulco, como a marca de um rio que desagua no deserto, penso nele e no que ele é capaz, comigo ao seu lado, quando a água que vai chega ao ponto de encontro da pequena crista que apela ao regresso à areia, e penso na casa onde poderíamos viver, penso como poderiam ser aquelas paredes, e a água, depois de uma breve reunião, decide de novo vir lamber a areia fina, baralhando o rasto do rio que se sente traído pela sua própria ideia de deserto, desaparecendo, e penso como seria com o meu homem regressado a casa, ao fim do dia, falando deste e daquele colega, desta e daquela situação, e eu dou uns passos em direção à água que vem, enfiando maliciosamente as unhas na areia, para a obrigar a lamber-me o peito do pé, esbarrando na perna, e penso como seria partilhar esses pequenos sucessos, coisas de pormenor, mas sorvidos pelos dois como pequenos goles de vinho tinto, na varanda, ao entardecer, com o miúdo já lá fora, a brincar sozinho em frente à casa, entretido, enquanto o vai e vem da água já não descobre os pés, que continuo a fixar, deformados pelos reflexos de luz, agito agora os dedos, para desencadear uma tempestade de areia subaquática, e poder vislumbrar os laivos de vermelho, carregado, vistoso, lá dentro, e penso como seria ter a vida toda preenchida, depois do trabalho, pelo filho, pela escola, pelas atividades da tarde, levá-lo daqui para ali, ficar sentada no corredor da piscina, ao fim da tarde, à espera que ele regresse da natação, com a sandes e o sumo dentro do saco, e agora por vezes já não se sente a ondulação, manifesta-se sim lá para trás das costas, aqui tenho a água abaixo dos joelhos, com as pernas lisas da depilação, como se não tivessem poros, pintadas com uma única pincelada pela lâmina a desflorestar o creme, mas concentro-me no vermelho lá ao fundo, e penso no miúdo já crescido, adolescente, quase a entrar para a universidade, imagino como seria alimentar-me com outro pedaço de vida, a juntar ao do marido, claro, viver vários crescimentos numa vida só, começo a retroceder, confrontando com a barriga das pernas a água que quer regressar ao mar, vejo os pés a recuar, pé ante pé, e penso como teria sido com o Gonçalo, agora que as unhas vermelhas voltam à tona de água, e já passaram alguns anos, e agora.

domingo, 21 de outubro de 2018

A mãe e o pai Aires

Fomos visitar a mãe e o pai Aires. Se o sobrenome assenta bem ao pai, já na mãe é claro que ele lhe foi entregue por empréstimo. Assim que chegámos, olhou o Gonçalo de alto a baixo, como se inspeciona um carro alugado acabado de retornar. Uma a uma, fez todas as verificações, e de forma tão ostensiva que nem se pode dizer que se pudesse lá identificar algum sinal da sorrateira desconfiança, daquela capaz de gerar um jogo de gato e rato entre avaliador e avaliado. Não, para Alzira, procedimentos são procedimentos, diretos e claros, feitos de uma única frase, onde na maior parte dos casos nem sequer é necessário interpor uma vírgula, e para cuja resposta apenas é necessário um sim ou um não, arrumando as hesitações da existência a meia dúzia de máximas sobejamente demonstradas pelo teste da sobrevivência. Você é que é a Ivone, disse, mais afirmativamente do que interrogativamente, mastigando uma côdea de pão, e como quem começa por conferir o nome. Olhe que isto aqui não é como na Beira, aqui somos todos comunistas, acrescentou para encarrilar a conversa na direção certa e acabar de me tirar as medidas. Depois olhou mais uma vez para o Gonçalo, e quedou-se fitando-o estaticamente enquanto se dirigia a mim. O menino Zé Galvão e menina Joaninha levaram-me o daqui com promessas de um ofício, tipógrafo, ele já me explicou, trabalha lá nos livros e nos jornais, mas mesmo nisso não pense que é muito diferente de nós, também trabalha para os que sabem ler, e agora passam-se seis meses sem o ver. E depois chega-me aqui, assim, magrito. Você não cozinha? Não é que ele alguma vez tenha sido gordo, mas já se sabe como é lá por Lisboa, não ajuda. Enquanto isto o Gonçalo mantinha-se de cabeça ondeando no ar, percorrendo com os olhos o espaço em redor, como um bicho faz uma inspeção a um novo poiso, quiçá procurando atribuir aos locais as funções das futuras necessidades, como se planeia a disposição da mobília numa casa recém adquirida, ainda que com o Gonçalo o ar aéreo fosse sempre um mistério, e eu própria já me tivesse deixado de deitar a adivinhar. Então Zálo, gostas dela, é isso? Perguntou-lhe, continuando a falar para mim. O que mais para aí há é mulheres, filho, mas se gostas de uma está arrumado, arrematou, com a concordância do pai Aires, que se mantinha numa segunda linha, um pouco atrás da mulher, apequenado, diferindo do Gonçalo apenas na altura, mas com o mesmo sorriso monolísico, os cabelos pretos agora manchados de branco, mas desregrados como os do filho, com uma insubmissão que já nem sequer parecia ser com alvo da investida disciplinadora do pente, e formando uma parelha com a mulher, onde a estatura semelhante era transbordada pelo dobro do volume da companheira, entrando-me ambos pelos olhos como Dom Quixote e Sancho Pança, mas como se a lança estivesse agora nas mãos do terra-a-terra e a voz do bom senso fosse silenciosa, uma característica fluida, mais um ar do que uma atitude, plena de um bem fazer despojado da realidade na posse do pai Aires.

sábado, 6 de outubro de 2018

Anjozálo

Para vocês, só por terem nascido com uma coisa entre as pernas, é tudo muito fácil, andam cheios de confiança, não se questionam se são bonitos ou se são feios, se as pessoas gostam ou não de vocês, nem sequer se preocupam se os vossos amigos são mesmo vossos verdadeiros amigos, para vocês, só por causa de trazerem esse penduricalho dentro das cuecas, está sempre tudo bem, mas nós não somos assim, Gonçalo, percebes, nós temos dúvidas, deitamo-nos, fazemos amor, dormimos descansadas, e no outro dia acordamos com uma sensação esquisita, perguntamo-nos se foi mesmo assim, se não podia ter sido diferente, se não podia ter sido melhor, ou se já foi pior do que a primeira vez, se isto está a crescer ou se está a diminuir, sabes, e o pior é a sensação de estar tudo igual, isso é que atormenta, Gonçalo, e é normal ter essas dúvidas, as coisas mudam à nossa volta, é tudo muito rápido, de forma que mesmo que pareçam não ter mudado passam de facto a ser diferentes, a mesma coisa duas vezes já não é a mesma coisa, Gonçalo, eu sei que tu não tens a culpa, mas é mesmo assim, não faz sentido, eu sei, e não deixa de ser assim por não fazer sentido, adoro a rotina, mas depois aborrece-me, percebes, prefiro ficar em casa, quero uma relação estável, digo-te que quero ficar em casa à noite, só os dois, no sofá, a ver um filme na televisão, mas depois tens que me convidar para sair, sabes, Gonçalo, e tens que insistir, especialmente se eu disser convictamente que não, se parecer satisfeita com a vida de sofá, e quando me conseguires convencer a sair, Gonçalo, chateia-me que depois me convenças todas as noites, sabes, especialmente se me vires a divertir muito por estar com os nossos amigos, a passar a noite toda a fazer e dizer parvoíces com eles, deves então exigir-me ficar em casa, dizer-me que tu é que já não sais, é como esse teu ar ausente, sabes, adoro ver como és capaz de te ausentar, parece que andas no céu, pareces um anjo, não é isso que eu te chamo?, anjozálo, meu anjozálo, mas tens que tomar mais atenção, enerva-me que andes sempre no ar, às vezes, quando estamos a fazer amor e olho para ti a pairar lá em cima, com os olhos fechados, imagino-te na cúpula de uma igreja, arqueado, lá junto dos outros deuses, e admiro-te, Gonçalo, por seres assim, por te alheares, por parecer que nada te preocupa, por seres tão volátil, um corpo com os volumes da pintura, tão lindo, tão cheio de cores, e nesse momento o fazer amor parece-me uma brincadeira de crianças, tão simples e cheio de correrias e gargalhadas, mas depois, irrita-me, Gonçalo, que ali estejas em cima, que sejas tu, que não seja eu, que me ignores, a mim, cá em baixo, sim, tenho inveja, é verdade, Gonçalo, sei que tenho inveja, eu aqui em baixo também sou gente, Gonçalo, porra, sou gente, Gonçalo, e depois sinto vergonha, Gonçalo, e sei que não te devia estar a dizer isto, sinto vergonha Gonçalo, porque te sinto de novo tão bonito lá em cima, e é então que me viro e te peço que me dês palmadas nas nádegas, Gonçalo, mas não te estou a pedir para me bateres, percebes, Gonçalo.

domingo, 30 de setembro de 2018

Estendal

A corda do estendal bamba, formando uma barriga com o lençol esticado, abanando ao vento do sexto andar, balançando, ameaçando voltear, uma, duas, três vezes, deixando-o enrolado sobre si mesmo, engordando a corda por desigual, com uma ou duas pontas ainda pendentes, olhando cabisbaixas, rendidas, como um avental descaído, soprado pelo vento, moldando-me a cara, erguido, com a costura do bolso como um remendo quadrado sobre o nariz, mais intrometido, projetando-se para trás como duas orelhas, pontiagudas e metediças, rabeando como uma bandeira açoitada, estriando-se da rugosidade da rajada, estalando nas pontas, empolgando-me internamente, como toda uma nação em risco, ainda que entre estas paredes da cozinha impere uma ordem sem sentido, onde arrumo tudo meticulosamente, como se não houvesse lugar onde deixar cair um vestido, e por isso me irrito sempre que vou à janela, e vejo a corda desafiante, que, se num momento de arrelia puxo para fora do sentido, logo salta da roldana do estendal, entalando-se junto ao eixo e emperrando teimosa, ainda que sem grande alarido, mas me obriga a abrir o outro extremo da janela, e a humilhar-me à necessidade de a trazer de volta, com cuidado, ao sulco da roldana, quase sempre obrigando ao acatamento das duas mãos, ou não fosse o peso dos vestidos, e não tenho a coragem sequer de pensar que um dia arranjo isto, talvez fosse apenas uma questão de um aperto, ou de um encurtar da corda, talvez se morasse no primeiro andar, mas aqui do sexto encho-me de algum prurido, pois imagino um descuido, e lá vai o parafuso por aí abaixo, pendulando ao longo da parede, rindo-se para mim o atrevido, se com sorte agarrar a outra ponta, senão tombará de encontro ao chão, com um ténue barulho que certamente só a mim chegará estrondoso, com a cabeça debruçada do sexto andar e os olhos em bico, confusa com qual o efeito dos estragos, se os houve ou não, como quem procura uma agulha num palheiro, e saio de casa numa correria, para retirar do passeio o testemunho do meu desmazelo, se tiver a ventura de ninguém ir a passar, regresso escadas acima sobressaltada, que até carregar no botão do elevador me causa aflição, esperando-me em casa a decisão de deixar a roldana descabelada, ou tentar mais uma vez, mas abandonar-me-á a arte e o empenho, pelo que ficará de novo oscilante. Por isso digo ao Gonçalo, podes, por favor, ver-me as cordas do estendal, e vai ele buscar a caixa da ferramenta, daquelas que como marmitas, de vários tabuleiros e um rico sortido de chaves e parafusos, das mais infinitésimas variações, e que requerem ser escolhidos a dedo, senão mesmo colocados em frente ao olho, e rodados com entendimento na procura de um encaixe mental. E agora, quando penduro algo no estendal, seja vestido ou lençol, fica tão direito que nem se sente o peso sobre o fio, e quando puxo a corda de um lado para o outro, roda doce e sem ruído, e até mesmo dentro da cozinha, onde por vezes deixo tombar o vestido, reina agora alguma desordem que para mim até faz algum sentido.

domingo, 23 de setembro de 2018

Caído do céu

Um querubim prostrado sobre a cama, com uma cabeleira negra desgrenhada das travessuras, densa, como um emaranhado de silvas formando uma copa frondosa em volta do rosto adormecido, de olhos fechados e lábios entreabertos de inocência, separado do tronco por um pescoço fino, mas quase ausente pela postura ligeiramente dobrada da cabeça para a frente, com os ombros ainda sombreados pela negra áurea, castanhos e de pele lisa, tomados do leve brilho da seda, e os dois omoplatas, quais asas, um pouco empurrados para trás pelo revirar do corpo sobre os braços à frente, agarrando as duas mãos entreabertas, tornadas para cima, fugidas ao face a face com o lençol, expondo as palmas finas em oposição aos cotovelos, apontados para o pénis descansado sobre o outro silvado, envolvendo os testículos, agigantando-os, aninhados entre as pernas bochechudas, troncos de embondeiro fletidos pelos joelhos, aí adelgaçados, voltando carnudos na barriga das pernas antes de chegar aos pés desmesuradamente alongados, de dedos esguios e aparentemente inúteis, não fosse pelo marfim das unhas, baças e lustrosas, especialmente no dedo grande, o do pé esquerdo, aquele que tomba sobre a cama por um desequilíbrio ao nível dos joelhos, até onde ambas as pernas mantiveram a sincronia, lugar em que se despediram uma da outra, a da esquerda afoitada para a frente, a da direita conservando-se atrás, firme sobre o lençol, as duas, como irmãs cúmplices, raízes agarradas ao fundo da cama, dando sustentabilidade ao tronco, como se de facto ele começasse por altura dos joelhos, e o risco que sai de entre as pernas juntas até às nádegas redondas tivesse sido traçado por um pintor renascentista, para dar a sensação de profundidade e volume, numa revigorada explosão de vida, na completa ausência de pelos, um magnífico contraste, realçado pelo percurso de volta ao oásis, atravessando as planuras boleadas da anca, onde foram colocadas carnes para atenuar a bruteza dos ossos, formando ténues dunas, tornando a viagem agradável, e onde repouso de novo os olhos, antes de partir para cima, escalando a parede de abdómen, marmóreo acastanhado, em direção ao umbigo, nada mais do que um ponto apenas, pela lisura do ventre e única referência no horizonte, onde o corpo decidiu colocar o seu centro, vagamente emproado e onde descanso de novo, recostada na pequena encosta que prepara a cratera, a que faço uma breve visita antes de rumar com os olhos de novo a norte, passando debaixo do arco formado pelo cruzar dos braços, por alturas dos pulsos, e sob os quais passa um risco ladeado por duas suaves encostas, cada uma delas encimadas pelos respetivos mamilos, disputando a senhoria do ribeiro, que nasce da cascata formada pelo queixo, debitando uma água pura, que nasce do rosto tranquilo, onde as narinas dilatam pausadamente, para alimentar de ar um Gonçalo Aires, quebrantado, deitado no meu leito, como um anjo caído do céu, como um copo de água límpida, que levo aos lábios para apagar os sabores da experiência, sentada na cadeira em frente à cama.

domingo, 16 de setembro de 2018

Mesmo que já não aches

Nunca deixes de me dizer que eu sou bonita, mesmo que já não aches. Ele tinha uma cara branca de espanto. És tão bonita, és tão bonita, repetia lentamente com a sua cabeça sobrevoando a minha, pairando de um lado para o outro. Seria mesmo para mim? Temia que por detrás daquela expressão absorta estivesse outra coisa, que me transcendesse, que alguns homens procuram êxtases pouco terrenos, usando as mulheres como impulso. Mas, impossível não acreditar, tomar como meu aquele arrebatamento, e ficar imobilizada, agarrada ao colchão, a levitar debaixo do rosto final. Por isso não me contive, e disse o que não devia, efetuando uma acrobacia criadora, procurando transformar um ponto num espaço a quatro dimensões, e assim trazê-lo de volta à terra, ao dia a dia, ao levantar e ao deitar, e até ao enfado e ao aborrecimento, mesmo que já não aches. Ficou aquilo a fermentar em mim, que a vaidade, uma vez que se instale, é intemporal e exige a repetição de um espelho. E, desse exercício diário, foi brotando aos poucos um despudor, resultado de nos vermos constantemente reforçados, ignorando o que nos rodeia. E de tal forma estava receosa do seu suposto alheamento que, sem saber donde, comecei a inventar jogos, atrevimentos, pequenas travessuras. Primeiro apenas com a linguagem, histórias que acrescentavam ao quarto onde nos encontrávamos um mundo repleto de seres, gigantes, brutos, meigos e egoístas. Pessoas que conhecíamos e que eu ali enroupava de um peso e uma velocidade, com um mínimo de verossimilhança, é verdade, mas todos produto da minha imaginação, e posicionava-os em órbitas à nossa volta. Mas, era tudo muito instantâneo, tinham a duração de uma palavra, que, quando acabada de pronunciar, decaía, e por isso, por horror ao vazio, e a rever o espanto na sua cara, puxava por uma outra palavra, de maior massa, mais completa, mais aterradora, no afã de não o deixar regressar ao singular. Ia assim buscar personagens míticas, cuja síntese lia em velhas enciclopédias na biblioteca da faculdade, em colunas sobre um papel muito fino, amarelo, ilustradas por imagens retiradas da antiguidade clássica, de estátuas estáticas e robustas. Hércules, marte, vénus, uma constelação de deuses que colocava a girar à nossa volta, e que eram turbulentos e vingativos, como tinham que ser, para não darem descanso nem recolhimento. Construí, pois, no quarto, um universo, com as suas categorias e leis próprias, que governavam os movimentos e o passar do tempo, esperando ouvir dele as palavras mágicas, mas ditas agora num mundo às minhas ordens. E se é verdade que ele as repetia, e não havia motivo para duvidar da sua sinceridade, emerge, no entanto, pelo abuso do espelho uma desconfiança que nos deixa sem eira nem beira. Enfadava-me eu agora daquela armadilha que tinha montado. Achava-o previsível e o seu fervor parecia-me irrisório, rendido, menor à imagem dos deuses que havia criado. Dei por isso, por mim, fora daquele quarto, abandonando-o, levando comigo as histórias que li nas enciclopédias, e deixando-o a ele, certa, que me recordaria, como sou bonita.

domingo, 9 de setembro de 2018

Cais do Sodré

Porque é que enchemos de escuro o que nos inquieta? A realidade entra-nos pelos olhos adentro, mas, se nos desassossega, se não conseguimos desviar o olhar, vamos reduzindo a intensidade luminosa, até que o negro se intromete entre as partes esbatendo-lhes o recorte, de forma que temos agora que tomar toda a atenção para perceber o que se passa. Por vezes, passa-se uma vida para perceber isto. Por vezes, nem isso chega, e quando fechamos finalmente os olhos vamos inquietos com a escuridão que nos aguarda. Eu tive sorte, pois, quando agora escrevo, neste ano de 2040, aos 80 anos de idade, sei claramente que o que verdadeiramente tememos são as linhas carregadas que traçam as fronteiras entre os corpos. Tinha então dito ao Rui, gostava de ver um bar de putas. O que hesitei na altura para fazer este pedido, mas a curiosidade prevaleceu, agora que me achava senhora do meu corpo. Ele olhou para mim surpreendido, mas rapidamente assumiu o meu pedido como uma tarefa de homem. Já eu, nos dias que se seguiram, deixei-me prender pelo temor do local. Primeiro por mim própria. Como poderia deixar claro que estaria ali apenas para ver e, ao mesmo tempo, a minha presença não fosse ofensiva, pela sua discrepância, nem pudesse suscitar a revolta que se tem com todos os parasitas que procuram usufruir sem pagar. Talvez a forma como fosse vestida pudesse fazer a diferença. Sabia o que envergavam as mulheres que andavam pela avenida da liberdade por alturas da praça da alegria. Já as tinha observado com atenção, as saias curtas que com os sapatos altos faziam tremelicar as pernas esguias da heroína, as cores fortes e a cara esborratada numa espécie de fome exuberante. E, na altura, era muito claro que deveria existir uma linha que marcasse a diferença. Já inclusive me tinha surpreendido a perguntar ao Rui, achas que esta saia me faz muito ordinária. Logo de seguida me envergonhei, pois ele olhou-me longamente, com uma distância que estranhei entre nós. Mas, por mais que fosse o cuidado com a aparência, e que eventualmente encontrasse esse equilíbrio entre a compostura e a descompostura, temia que o escuro do local tornasse as diferenças inúteis, difusas, esborratadas, como as caras das putas. Depois, também temia pelo Rui. Estaria com ele, mas não sabia como seria nos empurrões que haveria no espaço exíguo, onde o seu corpo não seria suficiente para me proteger, como seria num local fora da lei onde o respeito está cheio de contradições e nada do que parece parece. E contudo, quando entrámos naquele bar no cais do Sodré, a sala estava cheia de uma luz branca, florescente, com apenas duas mulheres, ao balcão, escanzeladas, que não tiravam os olhos de nós, nem os três homens feios em mesas baixas de pé, sentados, encostados à parede, e a beber cerveja pela garrafa. Entre nós e eles, uma distância, uma pista circular vazia. Afligi-me se a minha saia estaria demasiado curta, se, naquela distância, as minhas pernas pudessem revelar alguma intenção que eu própria não percebesse e não encontrei outra solução senão semicerrar os olhos, como quando estou com o Rui.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Quarto

Sei quando podes vir. A senhoria é muito chata. Cheia de regras e proibições. O duche, dez minutos. Nada de visitas. Mas eu sei quando podes vir. Todas as semanas, à quarta-feira, vai visitar uma tia, que ainda deve ser mais velha do que ela. Fica lá a tarde toda, e então tu podes vir. Temos a tarde toda para nós. E a velha na conversa com a outra velha. E nós os dois. Devem passar a tarde a beber chá. Devem falar de quando eram novas. Ou então de outras velhas como elas. Ah, a cama é de solteira, mas vais ver que nos ajeitamos. O colchão faz um pouco de barulho, mas àquela hora não deve estar mais ninguém, e se for preciso eu falo à Clara. Não há problemas com a Clara. A Clara é fixe. Costumo falar muito com a Clara. Fartamo-nos de rir com as coisas da senhoria. No outro dia, a Clara estava indisposta, com o período, e ela disse-lhe logo que lhe fazia um chazinho. Eh, eh, resolve tudo com um chazinho. Aquilo da cama fazer barulho deve ser de propósito. Coisas de velha, pelo menos é o que a Clara acha. A dela também range. É como um alarme que colocou e que agora a deixa em alvoroço. Colocam portas para terem medo de ser roubados, diz a Clara, que é anarquista. É muito engraçada a Clara. No outro dia a Clara começou a fazer barulho de propósito com o colchão e ela bateu à porta do quarto dela e com uma voz muito fraca, quase que sussurrava, quem está aí, quem está aí, diz a Clara que quando lhe abriu a porta estava branca como cal, parecia que lhe dava um chilique. O que rimos as duas. Mas a velha é desconfiada. No dia seguinte, quando estávamos a tomar o pequeno-almoço, perguntou à Clara, a menina Clara colocou-se de propósito aos saltos em cima do colchão? Havias de ver como disse aquilo e como olhava para ela, a ver se se descosia. Em nova devia ser fresca. Mas a Clara só disse que teve uma quebra de tensão e se deixou cair em cima da cama. E agora há uma nova proibição, é proibido andar em pé em cima da cama. A Clara disse que esta história é uma ode ao anarquismo, até já está a pensar escrever um artigo lá para o jornal deles. Bom, e depois não prestes muita atenção ao quarto. Não tem muita luz. Mas na opinião da senhoria é um dos melhores que se pode encontrar na Almirante Reis. Para estudar não é grande coisa, muitas vezes tenho que ir para a sala, ou ficar na biblioteca da escola. Mas para se estar eu até gosto. Depois vês. Tem uma luz difusa, que chega através da marquise, com umas cores prateadas, cheias das sombras dos vidros martelados. Fico em cima da cama a vê-las andar pelas paredes e a pensar em ti. E depois lá vem ela bater à porta a dizer, menina Ivone, menina Ivone, não fique para aí fechada no quarto, venha para a sala. No melhor quarto da Almirante Reis. Coitada, gosta de companhia, se não fôssemos nós passava o dia sozinha, que a gata já faz pouca companhia, tem quinze anos e passa o tempo enroscada. Mas que interessa isso. Que bom. Na quarta-feira podes vir. Não vai haver problema, podemos passar a tarde toda no meu quarto, e eu falo com a Clara e vai ser como se o apartamento fosse nosso.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Lisboa

Porque é que queres ir para Lisboa, filha? Podes ficar em Castelo Branco, lá também podes tirar o curso de enfermagem. Já sabia que ele iria dizer isso, e sim, porque não continuar em Castelo Branco. Já lá fiz o liceu e havendo o curso de enfermagem seria o mais natural, até para não falar da questão económica. E não podia dizer que não tivesse gostado dos três anos que lá tinha passado. Gostava das ruas direitas, da avenida do liceu, projetada com uma largueza a pensar no futuro, não fosse desembocar na estação. Parece ter sido pensada mais como um canal, de uma prodigalidade local, onde os barcos podem velejar para a frente a para trás, entre a estação e a câmara, mas não com o verdadeiro propósito de dar resposta a um fluxo de tráfego consonante com a sua dimensão. E claro que há um charme nessa representação, uns pequenos Champs-Élysées empedrados, ladeados de árvores e bancos, um pequeno charme pela sua quietude, resultante da ausência de automóveis. Gosto de lá me sentar um pouco à tarde, quando as árvores já estão repletas de folhas frescas, nuns bancos pintados de verde gretado, desenhados como a avenida, com as costas reclinadas, com o assento a rasar o chão, enfileirados com as árvores, mais para se estar do que para descansar, sim, que não é uma terra onde haja jornadas a pé que requeiram descanso. E depois há todas as outras ruas que vão desembocar na avenida do liceu, canais menores que se precipitam neste canal maior, debitando umas poucas pessoas, poucas, claro, mas certas, nas horas e nas feições, daí o seu charme, variando de roupa, conforme a estação do ano, e, suponho eu, se por ali nos prolongarmos veremos como crescem e envelhecem, mas sem nunca sabermos o seu nome, se não quisermos perguntar, claro, embora consigamos relacionar pais com filhos, deve ser isto que distingue uma cidade de uma aldeia, suponho. Tem alguma razão o meu pai, quando pergunta, porque é que queres ir para Lisboa, filha? Aqui a escola de enfermagem fica no outro lado da cidade, são dez minutos a pé do quarto onde estou hospedada, um percurso rápido até à rotunda do hospital, passando pelo liceu antigo, ao lado do jardim. Um jardim todo o oposto da avenida do liceu, apertado em volta de pequenos tanques talhados em granito e com repuxos débeis, debitando o menor fluxo de água necessário para um repuxo ser um repuxo, trançando pequenos arcos, decompondo-se em gotas na descida, devido à sua brandura, que fazem um ruído miudinho, de salpico, quando caem na água, e aqui não há onde sentar, como na avenida, parece antes ter sido desenhado para as sebes que o habitam, formando um labirinto de corredores, e para ser vivido de fora, dos paços episcopais. E do outro lado, o parque, onde vão as pessoas, dividido em duas partes bem distintas, uma aberta, à francesa, com canteiros largos e bancos onde sentar, imagino ali senhoras de sombrinhas e vestidos compridos, e a outra de árvores fechadas, num simulacro de bosque. Porque é que queres ir para Lisboa, filha? E eu compreendo o meu pai.

domingo, 26 de agosto de 2018

Beijo

Por muito que o tivesse imaginado, e imaginei de facto, o ficar em bicos dos pés faz toda a diferença. A contração que atravessa o corpo desemboca num grito que nos faz abrir a boca. É uma posição que vive do primeiro impulso, aquele que nos projeta para cima, e esse movimento tem elegância, pela sua elevação, pelo estender sincronizado dos músculos, como o alçar do pescoço de um cisne. Mas, se no momento de maior esplendor, aquele em que se concretiza a ausência de peso, aquele em que estamos completamente pendentes, se não houver ninguém para nos agarrar, então o regresso ao chão faz-se com pesar, com um esvaecimento nos joelhos. Deste conhecimento se fazem as cautelas, os refreios, as hesitações, que não são mais do que o treino muscular do outro, como as chicotadas que se dão no ar em frente a um leão, para garantir que no momento certo ele abre a boca e ruge, não nos deixando ficar mal. E por muito estranho pareça, isso é algo que se sabe sem nunca ninguém nos ter ensinado. Não recordo que a minha mãe alguma vez me o tenha dito, pelo menos nestes termos. Claro que há sempre um aviso subliminar, ancestral, aquele que se tem com todo o valor que pode ser roubado, guarda-te, filha. Mas também tem um reverso que me incomodava, aquele que vi frequentemente e para o qual me temi destinada, tudo o que tem valor tem um preço e tudo o que tem um preço se pode vender. Nasci, pois, num tempo em que tive que aprender como viver a minha própria vida sem me dar ao desbarato. Não sei agora se o consegui ou não, nem sequer se esta não será uma falsa questão, como todas as questões que sobrecarregam aqueles que atravessam um período de mudança, onde no caminhar para a outra margem se arrasta às costas aquela de onde se vem, comprimindo as águas do rio, amplificando o caudal, tornando-o intransponível, de forma que toda a vida é só travessia. Mas isso pouco interessa agora, deixo-o a vós, conforme fordes cruzando esta história, que nunca mais de mim voltareis a ouvir tais reflexões. Passaram dois verões até voltar a ver o Carlos. Era o movimento revolucionário, e as suas urgências, dizia o pai, com uma ironia entristecida, mas como se ele tivesse de facto fugido de casa. Quando regressou foi sem os pais, ainda não era agosto, instalou-se na casa do avô, e eu achei-o ainda mais belo. O cabelo comprido era agora revolto, como se à ausência da tesoura se tivesse juntado o pente. Tinha deixado de ser um menino bonito para passar a ser um homem bonito. Incentivei o meu irmão Zé a reavivar a amizade com ele. Não tardou muito que passássemos as tardes em volta do gira-discos. Vesti-me com uma curiosidade dissimulada pela música, acerca da qual ia fazendo perguntas, pois gostava de o ouvir falar. Até que um dia achei que tinha chegado o momento. Estávamos sós, ele tinha acabado de colocar um disco e quando se voltou já eu estava junto a ele. Elevei-me na ponta dos pés, com os olhos meio fechados, mas ele agarrou-me pelos ombros e trouxe-me de volta ao chão, com um sorriso e sem uma palavra de justificação.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

25 de abril de 74

Na aldeia, o 25 de abril de 1974 não aconteceu na data marcada. No dia propriamente dito, recordo o meu pai comentar, aconteceu qualquer coisa lá para Lisboa. Depois andou-se num caldo morno de dizeres desgarrados em que nada era dado como certo. Comentava-se que teria sido coisa de uns guedelhudos, uns biteles. Foi apenas meses mais tarde que sentimos o seu verdadeiro impacto, pelo menos para nós, as mulheres, que os homens, esses, começaram a revelar alguma perturbação mais cedo, pois começou a ser frequente na taberna ouvir-se gritar, o que é meu é meu e o que é teu é teu, porra. Mas foi com uma improvisação pouco digna das linhas programáticas de um movimento revolucionário baseado na razão, quando o padre Fernando desapareceu e se ouviram uns rumores que se tinha juntado a uma mulher, com quem, parece, se veio a casar e teve filhos. Para a Dona Josefa, aquilo não a tinha surpreendido, e até trazia um gostinho a vitória, que não gostava do padre Fernando, que não a tratava, nem ouvia, como o padre Pedro, esse sim, poderia até ter filhos, que ela até sabia que os tinha e cuidou bem deles, que não ficaram mal na vida no dia em que entregou a alma ao todo-poderoso, mas abandonar a Igreja, isso é que era coisa que o padre Pedro nunca faria. Já para mim, percebo agora, o impacto foi outro, foi o de um mundo novo que se ia desdobrando conforme mais conhecimento adquiria acerca dos factos e onde de uma forma verdadeiramente revolucionária o particular se ia conjugando com o geral, numa constelação de relações de causa e efeito que, para quem tinha aquela idade, foi o esplendoroso manifestar de uma dialética, onde por um maravilhoso acaso se uniu o imperativo lógico com o hormonal, e que me havia catapultar para fora do que até ai estava claramente definido como o meu destino. Primeiro, e ainda antes da fuga do padre Fernando, foi a revelação que tudo começou por uma música, tocada durante a noite, num gira-discos, em Lisboa. E que interessa agora que essa escassa informação despoletasse uma imaginação pequeno-burguesa, romântica, onde tudo tinha sido obra do Carlos, que colocou o seu gira-discos a tocar alguma música de pendor francês numa noite de Lisboa, cheia de sossegos e bebedouros, fazendo sair à rua muitos homens de cabelos compridos, loiros e pelos ombros, como os dele. Essa foi a minha primeira salvação, a salvação do reavivar do desejo, que por muito forte que sejam as imagens que se nos instalem no espírito, já lá iam oito meses desde a tarde de agosto no adro da igreja. E depois, foi a notícia da rebeldia do padre Fernando, que me dizia mais do que qualquer outra, por próxima, espacial e mentalmente. Sim, mentalmente, era alguém que usava saias que tinha saído da aldeia para fazer a única coisa que não podia ter feito, despi-las. É certo que nessa altura isto não me ocorreu desta forma, mas é assim a verdadeira educação, como a tortura chinesa, ministrada pingo a pingo. Todos os dias te deitas com uma minúscula porção e um dia acordas como uma revolucionária numa aldeia onde a Dona Josefa te parece dinossauro.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Gira-discos

Naquela noite de verão, depois de jantar, quando passei em frente da casa do povo, abrandei o passo para ouvir a música envolta de luz amarela que escapava pela porta. Quando depois, ao deitar, recordei o percurso, feito do atravessar da aldeia de lés a lés, do bebedouro das vacas até ao cemitério, com o calor da noite e o cantar dos grilos, essa parte surgiu-me num ralenti sem rival, destronando mesmo os momentos que idealizava quando ao sair de casa fechava atrás de mim o rugoso portão de ferro forjado preto, dizendo para os que ficavam, já volto. Ansiava chegar junto do bebedoiro, para me sentar com as outras raparigas na borda de granito e ficarmos a falar baixinho para não incomodar o ligeiro borbulhar da água a cair da bica, galgando as paredes do tanque e encharcando a terra com o cheiro da humidade na noite quente de verão. Mas agora, a imagem da porta aberta a verter de luz, das duas ou três oliveiras em frente com as copas iluminadas por baixo e o topo a desvanecer-se no céu escuro, dando a ideia que não tinham fim, conjuntamente com o ecoar de uma música melodiosa, cantada em francês, é o que me envolve quando me deito na minha cama com a janela aberta ao silêncio lá de fora. Gira-discos, foi o que me disseram que tocava aquela música e quem o trouxe foi um neto do José Manolo, que é de Lisboa. Sabia quem era, era o Carlos, que costumava sair com o grupo do meu irmão mais velho, quando visitava a aldeia durante o mês de agosto. Recordava um miúdo um pouco enfezado, com quem tinha trocado uma ou duas palavras quando vinha perguntar pelo Zé, mas quando no dia seguinte o procurei junto ao adro da igreja, onde os rapazes se juntavam ao fim da tarde, quase não o reconhecia. Tinha crescido. Tinha o cabelo comprido, liso, loiro, caindo-lhe sobre os ombros, e estava encostado à parede sorrindo com uma segurança que não lhe revia nas débeis batidas no portão. Não tive coragem de me aproximar, até porque era uma rapariga e miúda, e aquela parede estava atribuída aos rapazes, que a nós era permitido passar por ali, quanto muito abrandar um pouco o passo de forma a se trocarem alguns olhares de avaliação mútua, mas não havia conversa para ser trocada, a não ser a ditada pela necessidade, de irmão para irmão, de primo para primo, porém necessariamente curta e feita de umas poucas de instruções, sobre horas e obrigações, ditadas pelos mais velhos. Por isso, quando poucos dias depois soube que o Carlos tinha regressado a Lisboa, resolvi apoderar-me daquele sorriso, que não era meu, e guardá-lo com a paciência de quem vive numa aldeia, onde tudo acontece devagar, e o inesperado é um acontecimento longamente preparado. Agora, quando saio depois de jantar, acontece aborrecer-me junto ao bebedoiro, não prestar atenção ao sussurrar das minhas amigas no escuro, nem ao borbulhar da água. Como funciona um gira-discos?, deixei escapar uma noite, irrefletidamente, em voz alta, quando passávamos em frente à casa do povo que se encontrava às escuras e de porta fechada.

domingo, 19 de agosto de 2018

Bicho caldeireiro

Lá para os lados da mina anda um lagartão façanhudo, de dois palmos de comprimento e um verde claro escamudo, que, de gordo que é, chicoteia a cauda com o movimento das patas traseiras, para arrastar a barriga cheia de escaravelhos. Mas do que ele gosta mesmo sei eu, é de libelinhas, que as apanha quando se dirigem para a frescura da mina, estando ele sobre a parede quente do sol, estendendo o corpo preguiçoso sobre os musgos que nesta altura do ano deixaram de ser barbudos para cobrirem a pedra de uma rala pelugem amarela castanha vermelha. Revolta-me ver a moleza do lagartão, que enquanto se enche de sol, sem um único movimento, a não ser o abrir da boca e o estender da língua, apanha as libelinhas que vão na ânsia da frescura. E revolta-me mais, revolta-me o ar senhorio com que se veste esticando o pescoço e exibindo o papo, como se fosse dono da pedra, já para não dizer da mina, que é do meu pai e da minha mãe. Já me queixei, que ele anda por ali, perto da água que bebemos, aquela que é a mais afamada, que até o avô Pereira, pouco antes de partir, quando lhe apresentaram a canja de galinha, disse de uma forma que não percebi ninguém levar a mal, foda-se, quero é uma pouca d’água da mina. Não percebo o descanso do meu pai, que me respondeu não gostar o sardão de água mas sim de libelinhas, e que por nada deste mundo meteria as fuças onde nós mergulhamos a bilha. A sua desatenção não me deixa nada descansada e por isso frequentemente dou por mim para os lados do sobreiral, debaixo do qual se enfia a mina, sem uma razão que não seja certificar-me que a razão do meu temor ainda por ali habita. E temo, que da minha imprudência já o lagartão se fez notado, e me fita enquanto se entende ao sol com uns olhos calmos e frios de bicho que não tem sangue quente. Dia após dia, cresce em mim a certeza que já zomba comigo pois não há na minha aparência um bom senso, que não vou buscar água, nem levar ou trazer cabras. Encho-me por isso de raiva quanto mais insisto em procurar o lagartão de língua comprida. E digo-vos, que estes bichos, a única coisa que lhes vai pela cabeça é saberem quem manda, e por isso, de sempre me ficar pela sobreira, paralisada de avançar em direção aos meus pertences, o convenceram de ser o dono da pedra onde perneia. Durmo mal, de noite e de dia, que tenho de fazer alguma coisa. Encho-me por isso de ganas e dirijo-me a ele para reclamar o que é meu de direito. Oh, bicho caldeireiro, bicho caldeireiro, insulto-o alto e a bom som, enquanto vou determinada a correr com ele da pedra que é minha. Ele, fita-me de cima a baixo, como se me conhecesse por dentro, alçando levemente a cabeça. Bicho caldeireiro grito uma vez mais, procurando humilhá-lo. Então não é que, de repente, sai da pedra, mas na minha direção, de um salto tão alto, que vou numa correria por todos os caminhos, só parando chegando a casa. Mãe, digo com o coração aos saltos, o lagartão da mina atirou-se a mim, que parecia que me queria subir pelas pernas acima. Mostrou, agora sim, preocupação a minha mãe, que lhe olhou seriamente e me disse, isso não, minha filha.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Subir às árvores

Não te quero ver em cima das árvores, Ivone. Mas o Zé e o Zé Joaquim podem, replico eu. Uma menina não sobe às árvores, esclarece o meu pai. Uma menina não sobe às árvores, é a primeira coisa que me ocorre sempre que vejo o Zé, ou o Zé Joaquim, empoleirados de um ramo, a baloiçar sobre a barriga, com a folhagem a abanar em círculos e uma ou outra folha vem em direção ao chão, preparando-se para darem mais uma reviravolta, ou então puxarem as pernas para cima e continuarem para o próximo ramo. Eh, Joaquim, os teus rebentos saíram uns bons trepadores, diz o ti João em tom elogioso, enquanto passa com a junta dos bois. Uma menina não sobe às árvores, repito para mim mesma, e deixo-me ficar a vê-los na copa a tentarem chegar ao ramo mais alto, aquele que ameaça deixar de apontar para cima com o peso dos rapazes, agarrados a ele com as pernas apertadas e as mãos envolvendo-o, como uma bruxa numa vassoura a concentrar-se para um lançamento na vertical em direção à lua. Uma menina não sobe às árvores, e fico cá em baixo à espera que regressem, para poder passar as mãos pelos cabelos do Zé Joaquim, à cata de pedaços de raminhos e folhas que ele colhe sem querer, naquele trepar às cegas, feito de fé e vontade, em que a cabeça vai à frente, desbravando, empurrando os pequenos ramos, obrigando-os a afastar-se, e sentir o cheiro a verde e madeira fresca que se solta dos cabelos dele. O que é que se vê lá de cima?, pergunto-lhes, mas os rapazes não estão para este tipo de conversa, ficam-se por onde até conseguiram chegar e uma vez alcançado o objetivo voltam com a mesma pressa com que subiram. Não fosse pelos odores e não saberia o que lhes ia na cabeça. O que é que vai na cabeça das pessoas? É assim que me entretenho, enquanto os fico a ver deambular lá por cima, a inventarem metas, ora para chegar ao ponto mais alto, ora para atingir o ramo que está mais afastado, aquele que para lá chegar obriga a fazer um x de pernas e braços. Uma menina não sobe às árvores, mas eu fiz um pacto secreto com uma laranjeira frondosa que chega para esconder duas ou três meninas. Subo-a com muito cuidado, colocando os pés nos troncos de madeira preta em direção a um ramo suficientemente alto para não ser notada por quem passa por baixo. Apenas uma vez fui mais acima, quando tive a certeza que ninguém estava a ver, tirei a cabeça para fora da copa, olhei em volta e não me recordo do que vi, imaginei sim que o meu corpo estava vestido com a copa da laranjeira, um lindo vestido de escamas carregadas de verde, em tons oscilantes ao vento, que me caía sobre os ombros até lá abaixo, ao chão, onde está a caldeira de terra molhada. Não sei o que vai na cabeça das pessoas, sento-me no meu ramo esperando que as oscilações da subida passem e tudo fique como se eu lá não estivesse, e então vejo passar os meus irmãos, primeiro um, e depois o outro à sua procura. Surpreendem-me as cabeças a andar sobre os ombros, de um lado para o outro. O que é que vai na cabeça das pessoas? Uma menina não sobe às árvores, diz o meu pai, porque uma menina não tira os pés do chão.