domingo, 17 de junho de 2018

SIDA – Armindo

Consigo imaginar a anuência escorregadia com que morre um cristão, ou a insubmissão húmida com que morre um ateu, porque já por alguma vez me imaginei algum deles, mas como morre um maciço como o Armindo, uma estrutura óssea imponente, bem estufada de carnes trabalhadas, é para mim um mistério. Em particular se a morte não tem uma causa substantiva, de um peso semelhante, palpável, exterior, uma morte de que nos pudessem dizer, olha, o Armindo morreu, foi atropelado por um camião, não morreu logo, ainda esteve três dias em coma no hospital, perdeu o queixo quando foi de rastos pelo alcatrão, mas quando o visitei encontrei o seu corpo todo, tombado, é certo, mas era o Armindo, os braços moldados alinhados fora dos lençóis, com os dedo grossos onde costumava colocar os anéis. Agora, se o mal vem do interior, como uma térmita que corrói um edifício por dentro, pela calada, instalando-se lá, tornando-o oco, até que chega o momento em que não passa de uma majestosa figura de chocolate, uma figura de si mesmo, frágil ao contacto, onde facilmente se faz mossa, começando a ficar ridículo com as suas mazelas, vulnerável ao toque dos dedos, desfigurando-o de encontro ao vazio interior, ganhando um aspeto chupado, atrofiado, deixando de parecer o Armindo, então pergunto-me, o que é que está a acontecer ao Armindo, que merda de morte é esta, este retrocesso, este amesquinhamento, e por que não adopta ele uma posição, um ponto de vista em que se apoiar, por que não mostra a resignação de quem vai partir e junta os amigos à sua volta, imensos, como num funeral, ou então a revolta de quem não aceita e solta um brado aos céus, fodeste-me, mas para a próxima vais ver, uma blasfémia que está na base da ciência, mas nada, está tão calado como o bicho que o escava, mingua. Vou visitando-o ao longo dos dias, em cada um deles levo um Armindo e trago outro, menor, menos igual ao anterior, e aflige-me não se afligir. Por isso resolvo carregar um fardo que não é meu e monto uma tenda ao lado da sua cama, uma grande tenda de circo onde interiormente presencio as mais variadas palhaçadas, malabarismos, números com animais e fogo, tudo junto, números de que não consigo perceber o princípio nem o fim, em zapping, e enquanto o Armindo continua impávido, esvaziando-se lentamente como um boneco de borracha, eu, por dentro, entrego-me aos mais desmesurados assombramentos, cheios de risos aparvalhados, fedor de animais submissos que se oferecem ao gosto do chicote, belos trapezistas, cruzando o céu debaixo do toldo em encaracolados mortais, em sequência, e quando colocam solidamente os pés de regresso à base o público, constituído apenas por belos Adónis, solta uma exultação orgásmica cá em baixo, imagino também os palhaços enxovalhando-se, pregando-se partidas, rindo-se na cara uns dos outros, exageradas caras brancas e vermelhas, ninguém ri assim, pode dizer quem está junto da morte, mas eu, Humberto, é assim que estou junto à cama até que um dia olho e está vazia, o Armindo desapareceu, não existe, já não chupa um caralho.

domingo, 10 de junho de 2018

Riff – Gonçalo

Na primeira vez há sempre algum risco, mas quem não arrisca na primeira arrisca-se a não arriscar nunca, essa é que é essa. Como num concerto, no palco, com as caras cheias de euforia lá em baixo, braços no ar, estendidos, de dedos esticados, bocas estiradas em prolongados ais, e os músicos perfilados em silêncio. Começa-se, então, com um riff de guitarra, devagar, quase a medo, com tudo o mais ausente, talvez se sinta o agitar do coração do baterista a oxigenar por entre a catedral de pratos, pedais e tambores, com a pulsação a chegar às baquetas que pressentem o cheiro a adrenalina, enquanto o público se silencia de pescoço estendido como grandes lagartos alongando-se lentamente em direção a uma presa, acariciando com as línguas compridas o fio de notas que vai passando em fila indiana, bem comportadas, como um grupo de bailarinos cadenciando uma sequência de passos, e vão eles lambendo o ar à volta delas, uma a uma, sentindo-lhes a harmonia, um monstro com gostos gourmet, diria. Depois, repentinamente, desaba uma trovada tropical, com os pratos a relampejar exaltando de vibrações de luz o espaço, tornando-o descontínuo, fragmentário, pelo que os lagartos aproveitam para se atirar ao ar efetuando mirabolantes acrobacias nos pequenos cubos luminosos que julgam a eles ser destinados, talvez com reminiscências de teletransporte do Star Trek, cubos arrancados do chão pelo baixo, tornados translúcidos pelas guitarras, enquanto sobre o palco o vocalista pronuncia uma ou duas ininteligíveis palavras que os lagartos repetem entrelaçando as línguas e girando uns sobre os outros, aos dois e aos três de cada vez, como multi-pontiagudos dardos. E é o Gonçalo que está lá em cima. Sim o Gonçalo Aires, com a cabeça de cabelos desgrenhados, pretos, tronco nu, o peito escuro mas quase totalmente rapado, não fosse por alguns pelos apenas, por alturas dos mamilos, ponteando-os, pequenos repuxos de um jardim barroco rodeando um minúsculo tanque onde habita uma franzina planta aquática, como o Gonçalo ele todo, ossos jovens sobre carne jovem e pele sedosa, sustendo-se com as mãos sobre os pulsos, com a Ivone por baixo, com a garganta em v, atirada para cima, trazendo um arrasto de cabelos, como o véu de uma noiva, rendilhado, deixando uma mancha de clara de ovo, estrelado, por onde irrompem os olhos de Ivone, a boca, a língua, esticada, a cheirar o ar em volta, devagar Gonçalo, consegue dizer sem esconder a língua, projeta mais o pescoço, atirando os olhos lá para trás, onde as mão empurram a parede, provocando uma vibração nos seios que teima em não desaparecer, os mamilos nitidamente maiores que os de Gonçalo, provavelmente com outras ambições, se desmedidas apenas o tempo o dirá, rápido agora Gonçalo, dos cabelos desengancham-se línguas dardejantes, projetando-se em direção às paredes, ricocheteando, entrelaçando-se e deslaçando-se extenuadas no chão, as dos cabelos do Gonçalo encaracoladas, saem como bumerangues procurando trazer de volta as de Ivone, dobradas, rendidas, agora um riff apenas, Gonçalo.

sábado, 9 de junho de 2018

Inferno – Romeu

Anda Romeu azucrinado com dois diabinhos, um em cada ouvido, que à competição, como num fado à desgarrada, vão declamando das suas razões. Nunca os viu, e bem pode virar a cabeça de repente, procurando pôr os olhos onde antes estavam as orelhas, que nem um rabinho lhes avista. Mas que lá estão lá estão, e de uma outra coisa está Romeu certo, um parece ser bom e o outro mau. O bom perfilha a cartilha humanista, pois no seu julgamento a condição humana vem sempre à baila. Já o mau é egoísta e pensa apenas nele, que, neste caso, tratando-se de diabinhos conselheiros, é no Romeu, o que faz com que mesmo sendo um diabinho mau não seja mau de todo. Mas vamos ao que interessa, L’Ancien Régime, a novela interrompida, a enorme injustiça de que se sente vítima Romeu, e agora o esforço colocado na escrita de uma segunda parte, Mistério, com esperança que venha a despertar o interesse dos produtores, mas que continua enguiçada e ameaça nunca vir a sair do papel. E nada melhor para perceber o quanto azoado anda Romeu com estes dois diabinhos do que vos descrever o que aconteceu num pequeno almoço, em que o Alvares, o técnico de imagem, aparecendo como que vindo do nada, puxa à conversa um suposto comentário do Tavares sobre a putativa sequela, mistério, disse ele, Alvares, sobre o que teria dito o outro, Tavares, quando leu o manuscrito, mas isto é uma aventura ou um mistério, nós estamos com atenção, terá assinalado o Tavares. O diabinho mau, que mais parece um garoto com bichos-carpinteiros, ainda não tinha o Alvares terminado e já estava a invetivar o Romeu, este tipo vem à pesca, dá-lhe de comer, vai ficar dececionado se não levar nada para casa. Já diabinho bom procura colocar água na fervura, contrabalançando, diz, repara como ele está em sofrimento, coitado, fala, é verdade, mas não consegue disfarçar a tristeza nos olhos, não nasceu para ser mau. Mau, claro que não, repreende-o o diabinho da mesma qualidade, achas que se fosse mau o mandariam vir aqui, a maldade tresanda a enxofre e este ainda cheira a Johnson, diz com desdém. Estás a ver, até ele concorda que ele não é mau tipo, aproveita o diabinho antónimo, vem de certeza imbuído de um motivo nobre. Eh, eh, ri com escarninho o diabinho antónimo do antónimo, queres ver que ainda vai para o céu. E porque não? Cai na ratoeira o diabinho oposto. Eh, eh, insiste, o oposto do oposto, tal coisa não existe, vão todos para o inferno, a única diferença é que os maus ficam na gestão. Não lhe prestes atenção Romeu, esse filho ilegítimo de Satanás não acredita em nada, se tratares bem o Alvares vais ver que ele irá reconhecer e estimar-te. Qual quê, exclama o outro, se lhe deres o que quer irá de volta convencido da sua nobre missão, e então repararás como a tristeza inicial se transformará num alívio ético, espólio da vitória, senão ficará revoltado com o seu desaire e podes ter a certeza que se sentará à mesa do teu próximo pequeno almoço com redobrada raiva. O Romeu, talvez pela convivência com a sua tia-avó Roberta, não se contém e exclama o que a falta de espaço e o pudor me impedem de escrever.

sábado, 2 de junho de 2018

Oblívio – Zé

Um sistema de posições meticulosamente desenhadas num contínuo, onde a variação de um milímetro conta, numa prova irrefutável que entre quaisquer dois pontos existe uma infinidade de outros, prontos para a aproximação, prontos para revelarem o abismo entre eles, sugerirem coisas incontáveis, inarráveis em poucas palavras, por mais que nos precipitemos sobre elas com frases sintaticamente corretas, que a semântica não vai lá com gramáticas, frases maravilhosamente blindadas, das quais pensamos, não falta ali nada, nem um de, nem um a, nem um o, nem um da, nem mesmo um e, nada, como os dentes cerrados que rasgam o fio dental, como uma criança se recusa a obedecer, se fecha sobre si própria, protegendo-se, crescendo, entrando na fase em que se cimentam as paredes, se tapam as rachas entre os tijolos, se coloca maquilhagem sobre a cara, negando a existência do umbigo, essa reentrância que se retorce sobre si mesma, em espiral, por onde enfiamos a língua, à procura de um ponto, de um choque original, e vamos entretanto acomodando os olhos ao gigantesco pequeno, com o nariz para ali enfiado, como a câmara de um drone planando sobre as crateras formadas pelos poros, num contínuo, que aqui ora se estende, ora encolhe, longas planuras alvas onde andamos perdidos, sem um ponto de referência, para frente e para trás, como autistas no desempenho de uma tarefa, estendendo a língua idiota, lambendo, molhando, balbuciando com o infinito, um mantra, dizem os mais letrados justificando os movimentos repetitivos da nuca, não interessa, um muro de lamentações sobre o ventre liso, bamboleante como um rede acrobática, para onde atiramos o rosto, inspirando inspirados, pois para além dos olhos só o nariz está desperto, aprecia o trabalho da língua, não a traidora que cospe belas palavras, as que nos trouxeram aqui, a esta cama, não, aquela que humedece, que faz exaltar os odores, e vamos sentindo todo o seu espetro enquanto a cabeça vai e vem, e o nariz sempre atento não quer perder pitada, que agora até já os olhos se turvam, é assim em todas as celebrações, chamam-lhe o estado de transe, atinge-se uma forma de amnésia, esquecem-se as posição há tanto tempo desenhadas, fruto de num trabalho persistente, minucioso, como uma estrutura algébrica, com um fecho qualquer, feito do saber de séculos acumulados, mas é esse o culminar de toda a obra, quando se incrusta no leitor, perde-se a necessidade do seu suporte em papel, entra pelos corpos a dentro e já podemos mandar queimar os livros, não interessa, e depois, claro, a penetração, um ritual próprio, capaz das encenações mais grandiosas, às vezes, outras, parece mais um sussurro, um pedido de desculpa, implorado, entre o anteceder de um grande segredo e a revelação mais banal, despertando uma curiosidade puramente sintática, facial, prega-se no cérebro, lá bem atrás, onde as máquinas de inferência não chegam, salvaguardada, protegida, junto a outras, por categorizar, e coisa prossegue, como costuma ser, e quando o Zé quer fazer acompanhar o transvasamento de um nome, esquece-se de qual é, oblívio.

sábado, 26 de maio de 2018

Nestas matérias – Humberto

Talvez já não te lembres, triste Armindo, do tempo que passávamos sozinhos, entre os lençóis brancos de linho, e sem mácula, de início, talvez já não te lembres, ó colosso, das horas que passámos estendidos, por entre uns raios alinhados, que sobre a cama traçavam caminhos, e muito a meu contento tomava de assalto o teu corpo, alto e baixo, de mansinho, que o cabeço tem que ser conquistado, quando repousa em desalinho, no teu peito acampei, a coberto de pelos revoltos, e por eles rastejei, até encontrar os mamilos, doces horas de espera essas, continuamente fitando o abismo, pois, quem nestas lides prima, não lhe cabe baixar a guarda, talvez já te esquecesses, desaprumado Armindo, de como me tranquilizaste, agarrando-me pelos ombros, contra o teu peito me esparramaste, já não era eu, era tu, e não tinha tino no que fazia, osculei o teu pénis, todo ele purpurino, e as horas de êxtases pareciam minutos, pois esses silêncios eram momentos absolutos, e não falavas então, com os olhos fixos no teto, fechava e abria eu os meus, para marcar o tempo, por isso, querido Armindo, flor do campo não existe, com um perfume tão ténue, que guie o besouro mais pela intuição, que pelos raios de ouro, e tenho a dizer-te agora, se é que ainda me ouves, amor recordado, que quando eu farejava invejoso, odores de outros homem no teu corpo, não me queixava, imaginava, que se o mundo é tão grande, não tenho o direito de o pedir todo, mas leva-me contigo, por favor, não porque tenha medo de ficar sozinho, mas porque sendo eu tu e já não eu, devo presenciar o destino, como quem olha para a montanha que nos configura o trilho, subo por isso, regresso ao teu rosto, retribuindo de beijos o que ainda não me destes, pois aqui não se encontram as causas dos efeitos, e se assim não fosse, não me demoraria, mergulhando nestes lençóis, da mais límpida água, mas traria um relógio para contar a história, como os mergulhadores fazem agora no computador, e conseguem explicar todas as horas de esplendor, posso, mas não quero, Armindo, estas horas não têm preço nem sentido, envio-me por isso uma vez mais, nestes lençóis, mantos de eros, e juro-te com a boca que sou um apêndice do teu corpo, com estas asas grandiosas, dá-me tempo, meu amor, que irei fazer levantar a cama, sairemos então deste quarto de segredo, onde nos encontramos sem saber, pondo fim a um degredo, inventado por todos os que não querem ver, iremos então muito juntinhos, ao encontro do campo do Cesário, que acredito como o teu, e eu, que sou da cidade, desejo-o como o li no poema, ainda não te tinha descortinado, Armindo, pudesse eu, e prometia-te uma casinha, caiada, junto a um ribeiro remansoso, onde passássemos a eternidade, enchendo-te eu de cuidados, e lá me transformaria nas coisas pequenas, cada uma com o seu recado, para tu cresceres, até te dissolveres no espaço, e quando alguém lá por acaso passasse, sentir-nos ia ali aos dois, e se subitamente virasse a cabeça, nos procurando, desenharíamos um sorriso nos seus lábios, mas de tudo certamente te esqueceste, porque tudo no mundo morre e muda.

domingo, 20 de maio de 2018

Angola é nossa – Romeu

A tia-avó Roberta era como um almanaque, sabia tudo de pouca coisa. Do Salazar ao Ultramar era com ela. Fizeram as circunstâncias que fosse duplamente vítima do tempo, daquele que fazia avançar a sociedade e do que lhe retrocedia o corpo, como dois comboios que se cruzam em sentidos opostos. Não foi sem algum saudosismo que o resto da família a viu de janela a janela, lá vai a tia-avó Roberta, disseram com a brevidade imposta pela soma das velocidades. Foi por isso confinada a um quarto onde as visitas eram filtradas pelos parâmetros da cautela e da pedagogia. Para a primeira, as recentes ambições políticas dos mais jovens membros da família desaconselhavam a partilha de impressões menos caras aos valores democráticos, que na política, da esquerda à direita, não se vinga sem camaradagem. Para a segunda, era um instrumento de íntima formação, numa altura em que era necessário combater o perigo da desagregação, trazido pela correria dos tempos, com a estabilidade das origens. Tornou-se assim o seu quarto local de peregrinação com um pendor mais de romaria que de santuário, dada a forma mordaz com que lançava as suas invetivas. E é verdade que era useira de alegorias campestres. Quando dizia, essa vaca sagrada vai um dia deixar de dar leite e depois vão implorar pelo regresso do senhor doutor, era certo e sabido que se referia à democracia e a Salazar. E, se por não ser plausível que no universo da tia-avó uma entidade sagrada pudesse dar leite, gerava-se nas suas testemunhas algum mal-estar, receando tudo o que pudesse questionar a credibilidade e autoridade moral da tia Roberta, mas rapidamente acabavam por interpretar a aparente contradição como sendo um recorte da mais fina ironia. Era nesse afã de doutrinação que Romeu era convidado, conjuntamente com os primos, a entrar e fazer um pouco de companhia à tia, coitada, sempre fechada naquele quarto, mas com a nota de que o que ali se dizia não era para ser repetido, por ventura sussurrado entre dentes pelos romeiros daquele lugar. Para o jovem Romeu o quarto da tia-avó tornou-se no santuário de transgressão da sua infância, de tal forma que, o que outros alcançavam no recreio, no convívio com os colegas, através do b a bá iniciático de palavras porcas, era para ele ouvindo a tia-avó que atingia o pós-torpor de quem cospe cá para fora vilipêndios agitando todos os membros simultaneamente como se debaixo de uma descarga elétrica. Tia, pedia-lhe Romeu, fale-me do Ultramar, éramos grandes meu filho, até que o cigano do Mário Soares entregou tudo aos pretos, aquela gente só sabe fornicar. Convenhamos que nesta altura já Romeu tinha que se surripiar para o quarto, pois o piorar do estado de saúde da tia levantava objeções ao seu convívio com os mais jovens. Mas Romeu não se perturbava com os espasmos, mesmo quando na última vez que a viu, arrancando a camisa de dormir com ambas as mãos, expondo as carnes flácidas trilhadas por veios roxos escuros, os seios alongados junto à barriga e tombando da cadeira com os dentes cadavéricos de encontro ao chão, Angola é nossa.

sábado, 12 de maio de 2018

Barba e cabelo – Catarina

Este é um assunto delicado, pelo que nada mais me resta do que me despojar da roupa e assim, todo nu, dizer um poema. Era bom, era. Até pareceria então que dava sentido às coisas, com a barriga ligeiramente para fora e tudo o demais pendente, e que o assunto não tinha sido um arremedo momentâneo, incapaz de se repetir a não ser por outra imitação, tão imperfeita como a primeira, e que mesmo que elas se repetissem com frequência não caraterizariam o sujeito, a não ser pela passagem dos anos pelo corpo, os riscos dos pelos pelo puxar da roupa, que nestas situações de improviso saem por cima, a braços com uma rendição, enredadas, por desabotoar, como se impelidas pela urgência do sexo, e afinal, tão só um poema, meia dúzia de palavras cujo único propósito é virem umas a seguir às outras, em carreirinho, disciplinadas, cada uma como anúncio de previsibilidade da seguinte, que o parceiro se não o diz pensa, prometeste-me tempestade e afinal é tudo só acalmia, enquanto ali se está escorado, imobilizado com o que se tem para dizer, como se possuído por dentro. São diabruras toleradas na juventude, feita de peles escorreitas, mas a idade aconselha à cautela e esta leva à decência, e sendo assim, porquê? Pensais que a vida de criar personagens é fácil, que é um regalo, somos donos e senhores, sentamo-nos e lá vamos nós colorindo-os como uma criança a um desenho, ou uma menina veste e reveste uma boneca. Não. Sonhamos, abrimos os olhos e dói-nos diferença. Tinha depositado tanto na Catarina, tinha-a tão bem guardada que pouco dela vos tinha ainda contado. Para vós quase uma figurante, como se não existisse, um mero enquadramento do Romeu. Para mim, uma santa, se bem me entendeis, que a sujeitei às mais difíceis provas, ao vómito do marido, às suas infidelidades, à Amália, à Madalena, à Sílvia, à Splash!, sim, à Splash!, que neste mundo só o mundano dói. E em boa verdade vos digo que nunca me dececionei, muito menos desconfiei, mas andava distraído. As personagens no início não são nada, depois vão ganhando espessura. Errei. Não devia ter colocado aquelas três mulheres na dilatação da pupila de Romeu, quando era Catarina que o amparava. Ninguém gosta de se saber desprezado. É esta uma pena das narrativas, por muito que amemos um personagem, ou lhe damos provas no texto, ou essa afeição não serve de nada, quanto livro anda por aí a apodrecer em prateleiras cheios de homens e mulheres de amor descuidado, não vos admireis, portanto, que estejam desterrados para esses cantos de esquecimento. Por isso, com o mal feito, e para tentar salvar esta obra, só me resta tirar a roupa e dizer o meu poema. No dia seguinte conheceu Catarina um homem. Se conhecer se aplica a uma curta troca de palavras. Casual no início. Intencional depois. Foi das circunstâncias que pouco depois estava à porta do seu apartamento. Uma vez lá dentro, quando a porta se fecha sobre as suas costas, Catarina disse com uma voz que não lhe reconheço, e, por favor, olhai para o meu corpo despojado, há certas mulheres que gostam de fazer de putas, mas eu não.

sábado, 5 de maio de 2018

Maio, maduro maio – Ivone

A ilusão da multidão. O delírio de um corpo ungido de uma vontade, membro a membro, desfilando em uníssono, caminhando, solavancando a uma ordem maior, prescrita lá mais à frente, impondo uma disciplina imaginada aos seguintes, que a aceitam tão pura como sendo a primeira. A ilusão de corpos no corpo da multidão. As caramboladas com efeitos de fantasia, gente que na marcha ricocheta à frente e a atrás, vai até às grandes paredes rendilhadas de janelas que comprimem o movimento e regressam para mais um ressalto, porque todos se queixam da força da corrente e ninguém menciona as margens que a oprimem. A ilusão dos corpos próprios. Acondicionados neste mês de maio, pendurados de árvores que vergam ao peso dos frutos maduros, num desfilar de odores pairando na brisa indecisa, aventurando-se aqui e ali sem nunca abandonar o conforto da copa, porque todos se deleitam com os atrevimentos que desencadeiam, mas ninguém se lembra sofrimento que é manter os odores em forma. A ilusão do sofrimento dos frutos maduros. No auge da existência, mas já antevendo a decadências das formas, procuram ganhar tempo e por isso afiliam-se a um ritual vodu, pintam a cara de branco, beauty sleep, desculpam-se com um tom quase doce, mas procedem ao esvair sistemático do sangue na privacidade da relação com o próprio corpo, condicionando a decomposição dos odores, recuperando alguma frescura, professando uma amnésia calculada para voltar a atingir uma plenitude absorta. A ilusão da frescura contínua. Como numa grande superfície, onde a fruta de agora é exatamente igual à de ontem, e já se sabe com o que contar amanhã, e assim meses a fio, a mesma textura ao tato, o mesmo escorrer pelos dentes à mordida, até que se fartem por aborrecimento, pois negar o tempo tem limites, e ao fim de algum tempo desconfia-se. A ilusão da desconfiança. Como uma pedra no sapato que não magoa, incomoda, e que já descalçaram várias vezes, reviraram e nada encontraram, voltando a calçar com uma leve sensação de incompetência, pois estava lá, de certeza que é ela que se rebola, escapa à vista, inventou-se para se manifestar quando nela não se pensa. A ilusão da incompetência. Das tentativas repetidas, do calcorrear dos mesmos caminhos, profetizando logo no início ao outro o que se vai passar, num momento de fraqueza, concede-se, mas que não deixa de ser um momento de vaidade, pois jogam ao ioió entre o esquecimento e a consciência, ora vai, ora vem, movido à energia da juventude produzida com um ligeiro toque de pulso, quer no ir, quer no vir, e é assim que a Ivone encontrou o Gonçalo Aires naquele mar de gente, quando a força da vaga levava num único sentido, um turbilhão, disse-se nalguns jornais da época, aqueles que ainda insistiam em colocar na primeira página os crimes do capitalismo, mas convenhamos que era já uma réplica da onda, mas ainda assim iam carambolando com os calores de maio, e a Ivone sente o frio dos cabelos espessos de Gonçalo entre os dedos, sim, aí, Gonçalo, e raiava o sol já no sul.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Mistério – Avô Galvão

Pois é, tudo ocorreu de acordo com o planeado, era agora claro que o Pinote não tinha morto o capitão Simões, até se percebia bem o que tinha acontecido. O Hilário convenceu o Mouro a espalhar o boato acerca da Sra. Marquesa, dizendo que o tinha ouvido da boca do Pinote, em troca do esquecimento do caso do porco, pelo que esta, num momento de fraqueza emocional sustentada por alguma lamechice poética, acaba por escrever a carta de denúncia do paradeiro do Pinote ao Hilário, o qual o captura junto ao casebre, e desgostoso por este não se ter entregue com a doçura de que achava ser merecedora uma pessoa na sua posição, estava apenas no cumprimento do seu dever, e tendo até recebido um pequeno mimo que feriu mais o seu orgulho que o seu corpo, como acontece a todos os que se acham possuidores da razão, assim que o enjaulou mandou chamar o Mouco que o deixou num estado para além do esperado, pois o rancor que te guarda um homem a quem retires uma parte do corpo não é diretamente proporcional à dimensão da porção retirada, pelo que Hilário teve que adiar a notícia da captura, dado não ser da boa ética profissional entregar o peixe em mau estado sem uma razão plausível. Logo, disse o Zé ao avô, tal como estava, o Pinote não tinha condições de ter morto o capitão Simões e muito menos foi agredido na sequência da sua fuga, que nunca terá ocorrido, como alegou o Sr. Hilário, pelo que o mistério está esclarecido, o Pinote não matou o Sr. Capitão Simões. O avô olhou demoradamente o neto, antes de decidir o que responder. Sabes, resolveu-se finalmente, o Sr. Hilário veio falar comigo, disse-me que estiveste em casa dele a falar com a Olímpia, proibiu-te de lá voltares. Também já não é necessário, o avô nem sabe o esforço com que lá fui. E também me disse que o Mouco desapareceu, não sabem dele, pois não, interrompeu o Zé, o Armindo tratou disso, ele também não fazia falta nenhuma. O avô decide então ir direto ao assunto. O que achas que vai acontecer agora que resolveste o mistério, Zé, pergunta-lhe o avô. Então, agora temos que contar tudo ao Sr. Dr. Macedo, e ele irá dar a ordem para libertarem o Pinote e prenderem o Hilário, que mentiu à justiça, sob juramento, não foi avô, foi sob juramento que ele mentiu. Suponho que sim, concede o avô, embora ele possa ser um homem que fez vários juramentos. Vários juramentos, avô, como é isso possível? É possível, sim, mas isso pouco interessa agora. Quer dizer que não vão libertar o Pinote, avô? Sabes Zé, sinto muito ter de te dizer isto, mas já estás a ficar um homem e tens que saber que onde vocês viram um mistério não há mistério nenhum, o Zé olha o avô incrédulo, todos os que querem saber, sabem que o Pinote não matou o capitão Simões, mas como sabem, pergunta-lhe o Zé, o Dr. Macedo sabe, interpõe o Zé com mais uma questão antes de deixar o avô responder, não há mistério, repete o avô, lá em cima decidiram que o Pinote deveria ser responsável pela morte do capitão Simões, lá em cima, avô, sim em Lisboa, na PIDE, o Zé olha sem palavras, o que é necessário é um outro governo, uma outra política, diz-lhe o avô Galvão.

Taxionomia – Joaninha

Debaixo da conversa arrastada, do lento fluir de palavras, o Mouro mantém os olhos semicerrados com pupilas periscópicas. Não se encontra na terra bicho mais camuflado. Acha-se graça ao Mouro, estar-se com ele é só rir, uma grande pândega, e enquanto nos vamos deixando entreter pelos seus adornos aquelas duas pequenas bolas acobertadas por pálpebras papudas vão-nos tirando as medidas de alto a baixo. O Mouro até já inventou uma taxionomia com a qual classifica cada uma e todas as coisas que o cercam. O seu sistema é baseado num conjunto limitado de conceitos, e formulado a partir de uma pergunta bem básica, como é que cada uma das coisas do mundo vê o Mouro? Dirão, o Mouro interpreta o mundo à sua medida! Mas quem não o interpreta à sua? Dirão, o Mouro é autocentrado! Mas quem se arrisca a levar o pensamento aquém do centro de massa do seu corpo? Podem mesmo procurar ter uma argumentação mais impessoal e alegar que a abordagem epistemológica do Mouro não é a mais correta, mas então sugiro que questionem o Mouro acerca disso. Verão que ele logo fletirá o tronco com a cabeça para a frente, ou então colocar-se-á numa posição ligeiramente simétrica, dando relevo à barriga com a cabeça lá atrás, como um ferro de engomar sobre uma tábua de passar a ferro, e vós que sois apressados na utilização da razão direis, vede como o Mouro não é coerente na aplicação do seu modelo interpretativo do conhecimento, se está mais junto a uma parede estende-se, mas se sentado numa cadeira verga-se, percebendo-se que a sua análise é puramente contingencial e carece de rigor. Tende calma, para perceberdes o que está a ocorrer basta que imagineis o periscópio lá dentro a girar como num submarino, com um homem dando pequenos passinhos enquanto roda, roda a 360 graus. Ledes-me agora desconfiados, e dizeis, o possuidor de um tão sofisticado mecanismo de observação não pode ser um caramelo. Bom, sentis agora uma sensação incómoda? Como se alguém vos estivesse a observar? Não vos quero alarmar, mas neste momento o Mouro tem aqueles dois olhinhos húmidos e minúsculos bem focados em vós. Ah, o Mouro sabe tudo, exclamais espantados. Não sabe tudo, sabe tudo o que pode saber um caramelo. Uff, exalais mais descansados. Lá estais vós de novo descendo e subindo na vossa taxionomia. Assim não tendes descanso. Quem não se deixa levar nestas ansiedades é a Joaninha, que no dia anterior aos acontecimentos que relato, foi ter com ele. Foi recebida, com as habituais tramitações sonoras que encobrem o ruído da montagem da maquinaria. O Mouro perguntou-lhe pela mãe e se tinha notícias do pai, mas a Joaninha foi direta ao assunto, então a Sra. Marquesa natruca, disse-lhe, tirando partido da inexistência de tal palavra para a poder pronunciar sem interdições de idade nem ter de temer do seu significado. A dimensão da resposta do Mouro começou por se revelar com um revirar de olhos, que por duas ou três vezes percorreram toda a linha do horizonte, para finalmente dizer sem arrasto nem entorpecimento, já viu menina, tudo isto por causa de um porco.

domingo, 22 de abril de 2018

Olímpia – Zé

Ai que lindo menino. Esta afirmação seguida da entrega de um doce, um rebuçado ou um caramelo, revelado após se levantar a tampa de um recipiente de loiça, opaco por natureza, como sinal de pudor, colocado sobre um pequeno móvel à entrada de casa, numa altura em que brindar com açúcar ainda não trazia nenhum malefício, mas era mesmo um elemento indispensável nas disposições protocolares de bem receber crianças, por muito inocente que pareça, não pode ser tratado como algo normal, até porque Olímpia já andava há muito tempo de olho no miúdo. O miúdo era o Zé, e, diga-se de passagem, que se a sua predisposição para estes mimos nunca tinha sido grande, ia ficando ainda mais diminuta conforme ganhava vontade própria. Mas a Olímpia engraçava com ele, e o que é que havia de fazer. Era vítima de duas situações que não controlava e ambas com origem no seu matrimónio. Um matrimónio que se prolongava sem dar fruto. Um matrimónio que lhe trouxe a ascensão social que a colocou numa terra de ninguém, entre os senhores e os camponeses, não sendo convidada a privar com os primeiros, nem querendo comprometer a posição recém-adquirida dando-se ao convívio dos segundos. E as funções do Hilário não ajudavam, se o davam ao respeito também mantinham as pessoas à distância. Apenas os declarados adeptos do regime não se limitavam a cumprimentar de longe, e ainda assim eram sempre rápidos e circunspetos, uma cautela um pouco contraditória acerca de uma pessoa que tinha a fama de saber tudo. Até sabe o que se fala ao telefone, diziam, como cúmulo da feitiçaria. Tudo somado, Olímpia aborrecia-se em casa. Por isso foi com alegria que recebeu a visita inesperada do netinho do Sr. Dr. José Galvão, um membro da oposição, como já o marido lhe tinha diversas vezes dito, mas Olímpia dividia o mundo por outras linhas, e aquela era gente que se dava com os Marqueses, e, ademais, a esposa do Dr. Galvão sempre tinha sido simpatiquíssima para ela, dela não se podia queixar, não como da Marquesa, que de certeza achava que era mais que os outros. A contragosto deu o Zé as voltas ao rebuçado. Bem espinhosa era esta missão que a Joaninha lhe tinha confiado. Então, como está a sua avozinha, perguntou-lhe a Olímpia, uma vez que o Zé não havia meio de desembuchar. Está bem obrigada, ontem estivemos em casa dos Srs. Marqueses. Logo a Olímpia se fez toda ouvidos. Comentou-se a morte do Sr. Capitão Simões, disse, puxando o rebuçado para um canto ao fundo da boca. O meu avô disse que o caso não estava bem esclarecido, mas o Dr. Macedo replicou que se deu como provado que tinha sido o Pinote. O meu avô insistiu que não era possível, pois ele foi agredido pelo Mouco, ainda antes do capitão Simões morrer, e não quando tentava escapar da prisão, matando o capitão Simões durante a fuga, como alegou o Sr. Hilário. A Sra. Marquesa logo juntou que de certeza que o Sr. Hilário deveria saber mais alguma coisa. Foi quando a Olímpia o interrompeu. Ela disse isso, exclamou, foi ela que escreveu ao Hilário dizendo que o Pinote estava escondido no casebre.

sábado, 21 de abril de 2018

Esquentamento – Armindo

Só o homem livre apanha um esquentamento. É nestes momentos, entre o ridículo e o sublime, que se sente a vertigem da ausência do caminho debaixo dos pés. Nestes ápices de desvario, alguns, com mais perspicácia, pressentem que algo está para acontecer e, pelo sim, pelo não, achegam-se. Pelo sim, poderão ao menos dizer, eu também lá estive e, quem sabe, dos grandes festins até as sobras são divinais. Procuram assim um lugar à mesa levando a mão às costas de uma cadeira enquanto vão dizendo, eu também já tive dessas chatices. Ah, quão distante anda a aproximação da sorte grande. São como melgas que zumbem, zumbem, em volta de um tormentoso rio de sangue que traça linhas sinuosos, ricas de homomorfismos com as constelações celestes, e apenas sentem o cheiro a hemoglobina, numa cegueira na qual não distinguem um poema que abrasa por dentro de um post no facebook, por muito infestado de likes que ele esteja. Pelo não, dirão, só lá fui para gozar o prato, onde já se viu uma coisa destas. Pois é, se no tempo que agora escrevo esteve Armindo incumbido de lançar a invetiva ao pai Mouco, estava muito longe de suspeitar do poema que anos mais tarde o Humberto lhe soletrou junto ao ouvido, enquanto o Armindo o enlaçava com os seus braços bochechudos, facetados no ginásio, de pele oleada, bronzeada e lisa, depois de se lhe ter queixado de um ardor. Não sendo um homem de letras, foram os sons que o tomaram por dentro, os erres, os eis, sopros ditos em sequência, saídos daquele ser aninhado, que, como um fole, se manifesta e esvai em perpétuo movimento. É isso a poesia. Do poema dito já sabeis o início, só o homem livre apanha um esquentamento, e o resto tereis que o tomar em linha contínua, quer porque a disciplina desta página não me o permite, quer porque foi dito sem quebras, sem princípio nem fim, feito de uma dança entre o temor e o tremor, o ardente e o ardor. Mas temo que tenhamos de deixar o esmiuçar do poema, das suas relações fonéticas e semânticas, para uma nova parte desta obra, que aqui já anúncio será apenas feita da ebulição das partes, sem a procura de um todo, pois neste preciso momento soa o primeiro toque no sino da igreja. Uma. O Mouco tem pela manhã a preguiça do álcool, levanta-se tarde e bamboleia-se pela casa, incomodado, com pernas muito abertas. Duas. O Armindo prepara-se para o que tem para dizer, para além da força da razão apercebe-se que a natureza trabalhou o seu corpo numa ordem inversa ao que a bebida fez ao do pai. Três. Coloca-se à frente do Mouco atemorizador, o da meia lua na orelha, o que já foi comido pelos porcos, o que já não tem nada a temer. Quatro. Incrédulo, o Mouco retrocede um pouco, juntado os olhos à abertura das pernas. Cinco. Nunca mais te aproximas da mãe, ouviste, diz-lhe o Armindo, surpreendido com a grandeza da própria candura. Seis. Quem pensas que és para me ameaçares, grita-lhe o Mouco, procurando reaver a autoridade. Sete. Oito. Foste tu que bateste no Pinote na prisão. Nove. Foge, andam à tua procura pela morte do capitão Simões. Dez. Já nem o Hilário te vale. Onze.

domingo, 1 de abril de 2018

Uma História bem Contada – Zalo

Cada qual com o seu papel, cada qual no seu papel. Melhor não consigo descrever a função do ator. Quantas obras fenomenais são assassinadas pelas fracas interpretações. E que se lhes pode dizer a não ser um prosaico, estava tudo tão bem preparado e tu fizeste merda. Assim não dá. Dá deus nozes a quem não tem dentes, diz-se recorrendo a figuras de estilo, à procura de uma outra dignidade, levantando-se do chão, rebuscando entre as deixas uma que se enquadre, que mascare a visão das pérolas espalhando-se pelo chão, que lindas que elas eram antes de entrarem na tua boca, morcão. Mas também o contrário é frequente, quantas vezes a genialidade irrompe do irrisório, do banal. São assim os grandes intérpretes, enfrentam gigantes cavalgando ridicularias, mal se lhes nota o cavalo branco entre a pernas, de minúsculo que ele é, e ainda assim atiram-se sem medo ao adversário, apertando os membros, aos saltos, para o verbo não ficar para trás, não porque precisem, mas porque um ator é um profissional e por isso diz aquilo para que foi pago, só que fá-lo com um tal arcaboiço, que os outros tremem só de o pressentir abrir a boca, o anteceder aquele vozeirão que vem das entranhas e enche uma plateia de arrepios, como se tivessem repentinamente aberto as portas de par em par. Palavras fracas e vazias que nos atravessam com o arremesso de um tornado. Levam tudo à volta. São uma força da natureza. Sim, teatro é corpo com texto. No caso do Zalo o texto estava à dimensão ao corpo. Curto e telegráfico. Sabe-se que passa uma mensagem naquele fio pendurado entre os postes de madeira, o difícil é saber quando. Deste dilema já padecia o Aires pai, que se sentava à volta das ovelhas de olhos no cabo, absorto, como que procurando adivinhar o que por ali iria e quando, da notícia da morte da ti Josefa para o filho, teve a certeza que a viu sair do terceiro poste depois do cabeço do prior e chegar ao poste seguinte, para os lados do cabanal, onde esteve aí um bom minuto a tomar fôlego, que a viagem até ao Brasil não é para brincadeiras, teve o descuido de confidenciar a alguém, mas logo foi desenganado, que não, que aquilo vai mais rápido, talvez não chegue à velocidade de automóvel do Sr. Marquês, mas ela deve ser mais coisa menos coisa. É isto, mais coisa menos coisa, disse-lhe a Joaninha, não tenhas pressa, uma palavra de cada vez, vai-te distraindo, olhando em volta, para a secretária, para a lâmpada pendurada do teto, fala da Sra. Marquesa, diz só, a Sra. Marquesa, que ele fique a saber que é da Sra. Marquesa, depois para, tira os olhos do Hilário, olha para o lado, dá-lhe tempo, ele vai querer saber mais, faz-te esquecido, como se de repente não soubesses porque ali estás, que te quisesses ir embora, basta um ligeiro arrastar de um pé atrás para ele te perguntar por mais, deixa então cair um outro nome, diz-lhe, por causa do Pinote, acho, não te esqueças do acho, Zalo, e olha mais uma vez para o teto, mas agora não te mexas, só a cabeça, imobiliza o teu corpo como para lhe impedir a passagem, e quando sentires que respirou fundo, diz-lhe, quer falar consigo junto ao casebre, e então roda os ombros e deixa-o sair.

domingo, 25 de março de 2018

Uma Aventura – Joaninha, Zé, Zalo e Armindo

Era uma vez, começam as histórias, e antes as aventuras começassem da mesma forma. Sentados no chão, prontos a disfrutar delas, sem imprevistos nem exaltações, só para o alimento da mente, o conhecimento do mundo feito de ouvir contar, como se conhece em detalhe um vírus sem o haver contraído, para depois em sonhos nos sentirmos infetados, imaginá-lo a entranhar-se no corpo por uma pequena fissura descurada, até porque esse não é um momento de vigília, e o visualizemos a percorrer as veias, a tocar-nos no mais íntimo, que o sono é uma verossímil desculpa para baixar a guarda. São assim as histórias, tomam-nos o corpo repousado, são o futuro, a omnisciência sem um risco. Não, não, as aventuras não são como as histórias, que o diga o Armindo, que terá de fazer frente ao Mouco, que o diga o Zé, que deve ganhar a confiança da Olímpia, que o diga o Zalo, que tem de contar uma história ao Hilário, que o diga a Joaninha, que precisa de pregar uma partida ao Mouro. De acordo com o planeado, tudo deve acontecer entre as badaladas das onze da manhã e as do meio dia. Só o Zé tem relógio e mesmo que todos tivessem nada substitui a ordem intemporal que vem da torre, diz-se mesmo que houve uma altura em que o lugar andou quinze minutos atrasado em relação à vila vizinha e ninguém deu por nada, para além de uma estranha alteração, narrada pelos viajantes, na duração da viagem entre os dois lugares, que tornaram mais rápida a vinda e prolongavam o regresso. Mas isso já foi há muito tempo, ainda se ia de burro, quem tinha, e todos sabem que esse animal é muito dado a distrações, ora se alongando por frivolidades, ora se lançando no seu passo rápido e curto, um pouco ao estilo de Fred Astaire, a quem a imaginação de um outro zurrar de tal forma se lhe mete na cabeça que não descansa até chegar ao estábulo, onde uma pouca de palha lhe traz de novo o olvido, porque o burro é um animal de obsessões tão fortes quão curta é a sua duração. Assim, ao equídeo foi imputado o crime para poder o relógio continuar a sua soberania. Também no plano concebido pela Joaninha, nada pode substituir este relógio universal, pois também eles, Mouco, Mouro, Olímpia e Hilário, não poderão escapulir-se aos sessenta tiques que lá do cimo da torre marcarão o passar da aventura. Nesse intervalo de tempo, cada minuto deve ocorrer como que marcado por uma batuta precisa e sem desacertos. Ninguém deve falar com ninguém para que tudo possa ocorrer como combinado. Uma sinfonia em que cada instrumento toca sozinho e apenas ao público é dado o prazer da clarividência. E a coisa não é isenta de riscos. Há telefone em casa da Olímpia, e a terra é pequena, percorrem-se as suas ruas, vielas e becos, em menos de meia hora, incluindo as necessárias voltas e reviravoltas, que no desenho da urbe houve mais de partilhas e conveniências que de régua e esquadro. Sendo a Joaninha discípula destes últimos preferiu o relógio ao emaranhado de contingências, e, se tudo correr como planeado, ficará esclarecido que o Pinote não pode ter morto o capitão Simões.

sábado, 3 de março de 2018

Mãe - Armindo

Num futuro não muito longínquo vamos encontrar na rua gente fazendo delicados movimentos com as mãos e, ao princípio, ir-nos-emos surpreender com essa intimidade de trazer por casa assim exposta com a desvergonha de uma distração. Dizem-me que traçarão pequenas órbitas, cheias de carinho, interrompidas para iniciar uma nova ondulação porque o amor não tem fim. Depois, depois também nós nos habituaremos a estar emparelhados aos nossos seres queridos onde quer que estejamos e o trazer alguém no coração passará para as pontas dos dedos, o ténue bafo junto à orelha, a leve palpitação de um olhar, o sinal enviado pelo impercetível interromper de um movimento, ultrapassarão a barreira da distância e o mundo será como um gigantesco ventre egoísta que se coibirá nos expulsar insistindo em aumentar de volume para mais albergar. Ligados, sempre ligados. Estarás sempre comigo mãe, virá um dia a dizer Armindo quando a desmazelada mulher estiver no seu leito com ele de joelhos junto à cama, os cotovelos afundados no colchão, mãos apertadas no topo de um vê invertido, e nessa altura só não verá quem não quer ver, ainda que cada um esteja focado nas suas carícias à distância, e ela cadavérica, não pela hora mas porque sempre o foi, uma mulher precisa de alimento, assim, dado com as mãos, senão não medra, sim, ainda não o disse, o mundo do futuro vai ser feminino, nos antípodas do do Mouco, que nunca teve ouvidos para os seus lamentos, e ela com os ossos como estandarte de carnes fracas, baloiçantes, movendo-se pela casa estonteada como um animal sempre enjaulado a quem foi dado um único vislumbre de uma janela, na distância percorrida entre a casa dos pais e a casa do Mouco, a casa agora dela, e o Armindo de joelhos junto à cama, ele a quem ela aprendeu a temer como ao marido, de um útero tudo pode sair, e saiu um homem, forte e bruto como o Mouco, se amamentar não fosse uma cegueira teria morrido à fome, mas a mama, mesmo pequena, doí, porque quer verter, esguichar, por vezes seria melhor não sermos feitos de carne e osso, de silício antes, seria possível desligar, avariou, chamem a assistência, estamos fechados, voltem mais tarde, noutro dia talvez, se calhar já cá não estou, fugiu com o amante, deixou o filho e o marido desconetados, mas existem impossíveis em que nem sonhar é possível, sempre ligada aos pequenos gestos do Mouco, a sensibilidade exacerbada ao arrastar do pé de uma cadeira, um tremor de terra que lhe abana as carnes, não os ossos, que esses fizeram-se antissísmicos, há quem diga que os ossos não doem, é tudo uma questão de carne, nódoas negras, e foi na carne da sua carne que encontrou a salvação, ouviu-a como ouvia tudo, de olhos descaídos, oferecendo uma face porque ouve mal da outra, como um herbívoro escuta o aproximar de um carnívoro, está-lhes no sangue procurar entender o que eles têm para dizer, até ficarem sem pinga dele, mas naquele dia Armindo fê-la dar a outra fase, olhar alguém de frente pela primeira vez na vida, disse-lhe ele, eu não sou um homem, como o meu pai.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Da turbulência - Joaninha

Vamos agora ao assombro da coexistência pacífica entre o maciço Armindo e o volátil Zalo. Dois seres tão opostos que quando se encontram quase sempre há turbulência. Dela gozam as cegonhas, que de asas desfraldadas ascendem nas correntes de ar que a rocha quente da montanha atira para cima. Por isso, se vos revoltastes com o tratamento de que o Zalo era alvo por parte da trupe do Armindo, digo-vos que o fizestes mais com base na emoção do que na razão. Sereis também vós voláteis? Sim, volúveis, instáveis, inconstantes, inseguros, até mesmo um pouco voantes, volantes e voadores. Sim, o contrário de estáveis e constantes. Ou deverei dizer, não. Não sois firmes, fixos, assentes e seguros. Ah, sentis já o estremecimento que cada uma destas palavras provoca nas vossas entranhas, tirando-vos do sério, atirando-vos para cima. Deixai-me dizer-vos então que vos deixais levar facilmente pelos calores. Porque não sois como as cegonhas que usufruem da matemática da vida, da diferença entre o seu peso e a velocidade do ar que sobe? Vede como se mantêm sérias e impassíveis, como quem vai numa montanha russa apenas a efetuar cálculos, sem um grito nem um esgar. De olhar impassível, quantas operações farão por segundo? Que máquina tão perfeita é uma cegonha e inventámos nós o parapente para nos emocionarmos, eh, tão lindo visto daqui. Sim, também eu tive veleidades de cegonha, tirei as fotografias com duas impercetíveis contrações da íris, mas logo fiquei de olhos esbugalhados, como um aprendiz a quem o mestre nada diz, tempo, necessita de mais tempo, pensa. Mas isso sou eu, pois a Joaninha já tinha as contas feitas. Está lá na fotografia e não vi. Fala com os braços estendidos marcando cada palavra enquanto vai avaliando com os olhos ora no Zalo ora no Armindo, sem se emocionar, que para isso já lhe bastou o pai. É verdade que o Zé fixa o Armindo, como se mantém tesa a rédea de um animal recém-domado, mas acreditar que a psicologia bastaria, que não seria necessária a matemática, é como acreditar que o ar nunca mais pararia de subir e que a rocha continuaria a aquecer, ah é tão lindo isto visto de aqui, ah é tão lindo isto visto de aqui, ah, ah, ah. Não, existe um intervalo no qual o ar sobe e volta a descer, dá um pouco de corda ao Armindo parece dizer a Joaninha, deixa-o estar sem sentir o aperto no pescoço, é verdade que o conquistaste, mas o triunfo é uma cegueira pois é feita de apenas um estado, instável e suscetível, aquele que agora docilmente te lambe as mãos em breve sentirá a propensão de um impulso. O mesmo se aplica a Zalo, o fim do pavor a Armindo seria como deixar de voar e tudo o que planou tem pavor ao aborrecimento terreno. Que Zalo mantenha o receio de Armindo, que Armindo não deixe de ser Armindo, decretou Joaninha. Baixo os olhos como numa celebração e espanto-me porque entre mãos tenho uma terceira fotografia, eu que me recordo de ter apenas duas vezes contraído a íris. Esta é em tudo semelhante à segunda, com o Zalo e o Armindo, mas sem a aura do Mouco nem o peso da anterior, sente-se antes o equilíbrio de uma equação.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Da conquista de um colosso - Zé

Do choque provocado pelas duas contrações da íris, procuro restabelecer-me com a ajuda da matemática e da psicologia. A juntar à inconcebível conquista do Armindo assombra-me também a sua coexistência física neste circunscrito local com o Zalo Aires. Para explicar a primeira recorro à psicologia, para a segunda necessito de lhe adicionar a matemática. E esta ciência dos interiores não parece que se aplique ao Armindo, que está cheio de peripécias inteligíveis, sem nuances, que são como são, de uma tal objetividade que ainda que muitas vezes recontadas não se lhes consegue encontrar um desvio digno de nota. O corpo matulão é assim um excelente objeto de análise objetiva, focada na ação, sem necessidade daquelas apreciações que vasculham seres encolhidos com queda para uma poesia húmida que se declama baixinho em esconsos de personalidade apagada, uma água com anseios de húmus, com a matéria orgânica que se vai encontrando no suor de um corpo redondo, onde a distância que os líquidos têm de percorrer para desaguar nos poros é suficiente para os inebriar de odores, ditos pessoais e munidos de rabiscos com tiques de estilo. Não se podem, portanto, aqui aplicar essas visões intimistas e negadoras da existência das grandes classes categorizadoras da matéria humana com argumento que cada caso é um caso. Pois se o Armindo tem estilo, ele pertence ao grupo dos dois ou três grandes traços que estão deste sempre associados à espécie humana, e que pode ser facilmente caraterizado pela distância que o separa da resolução de um problema, que se noutro pode levar à desmesurada reflexão filosófica, nele é dada pelo espaço que necessita de percorrer para entrar em contacto com a origem da contrariedade. Duas exceções ocorreram, no entanto, em que esse intervalo não foi galgado, e de ambas fostes testemunha, Armindo quedou-se imobilizado, enrubesceu, começou a emitir calor e, quiçá traído pelo corpo, internamente foi vítima da segregação de líquidos com tiques pessoais e não de espécie. Nunca digais que desta água não bebereis, estávamos aprontados a seguir pela análise clara, norteados pela ação, e eis que agora nos vemos na iminência de cair no abismo do intimismo, essa caverna onde as qualidades caseiras se cozinham com os piores ingredientes, resultando num guisado espapaçado que tolhe o apetite e se engole por misericórdia. Mas as coisas são como são, e existem de facto tendências inatas. Não sei se foi pelo cheiro, ou de uma outra forma puramente intuitiva, que o Zé sentiu o calcanhar de Aquiles daquela catapulta pesada, que por entre as cordas e o braço lançador, tudo trambolhos pouco refinados, existia um animal que se deixava conduzir com doçura. Ainda assim foi necessária coragem. Todos estendem a mão quando sabem que o cão é manso, mas o Zé conquistou o colosso quando sobre ele tudo era epopeia. Duas conquistas numa só, pois o triunfo desperta a inveja e o amor, e, ainda que ambos venham mascarados das mesmas manifestações de admiração, mais tarde ou mais cedo revelam-se, e no caso do Zé foi mais tarde.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Das vantagens da fotografia - Clube

É clara a vantagem da fotografia sobre a pintura, ainda que esta última seja mais prestigiada, protagonizada por artistas de pincel baloiçando da mão, enquanto os olhos se fixam ora para fora ora para dentro, conforme professem um estilo mais realista ou mais abstrato, sendo a diferença de escola caraterizada pelo tempo que permanecem em cada um dos estádios, em que o de menor duração pouco contribui para a obra, foi desenhado a pensar no artista, com o objetivo que faça um rápido teste de realidade. É assim, todos as ordens vêm munidas destas válvulas de segurança, tanto mais meticulosas quando mais elaborada se tornou a técnica, mais enredada em si própria, sim, particularmente a realista, capaz de conceber corpos monstruosos que nenhum ser humano digno desse nome alguma vez imaginou e cujo vislumbre arranca risos do demo, até porque nenhum rei vai nu. Por isso vos asseguro, a fotografia é imensamente superior à pintura. Primeiro, não necessita de pincel. Segundo, não obriga ao vai e vem do olhar. Terceiro, é precisa na captura da realidade. Debruça-se um homem sobre a máquina, carrega num botão, e já está. Não vou, portanto, pintar a primeira reunião do clube, prefiro tirar-lhe a fotografia. Fico estático por uns momentos, para não sair tremida, olhos bem abertos, pois a luz não impera dentro do casebre, e contraio a íris não uma, mas duas vezes, para poder depois escolher a que ficou melhor. E, tendo sido tiradas tão de seguida, as únicas diferenças deverão ser puramente técnicas, influenciadas por um pequeno oscilar da mão, o súbito movimento de uma nuvem lá fora, ou um relampejar de neurónios que provoque uma ténue mudança de semblante. Coisas pequenas, é certo, mas que numa fotografia fazem toda a diferença. Pois tal como o fotografo se debruça sobre a máquina, também depois o olhar de cada um dos fotografados se verte sobre a fotografia para se certificar da sua fidelidade à realidade exposta. Vamos então a uma delas, não sei se a primeira ou a segunda, pois a memória entregou-me as sem a indicação da ordem, nela, dos principais figurados, nada surpreende, a Joaninha foi apanhada a falar, curvada para a frente sobre as pernas cruzadas no chão, à sua esquerda, encostado a um barrote, o Zé fixa o Armindo que continua com o tronco hirto, ignorando a exiguidade do espaço, e é neste ponto focal que sou assaltado por um sobressalto, por detrás do Armindo está a figura do Mouco, difusa é certo, mas a meia lua no topo da orelha é indisfarçável, dá-lhe um ar ameaçador, o que nesta reunião com indícios de conjura incute um peso que perpassa todos os restantes figurados. Não caibo em mim com o que vejo. Como não foi isto o que testemunhei no momento em que me debrucei sobre a câmara? Também nisto é a fotografia superior à pintura, prefere a realidade ao criador. É com mãos débeis que puxo da outra, não sei o que procuro, mas a busca da tranquilidade está pespegada de movimentos inúteis. Nesta, tal como na anterior, continua presente o Mouco ameaçador, e é quando afasto os olhos com desalento da sua figura carcomida que vejo, entre a Joaninha e o Zé, o Zalo Aires.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Das vantagens de se pertencer a um Clube - Joaninha, Zé e Armindo

Mais uma vez, devo começar com um reparo sobre o título. A palavra se. Pois desconfio que a lestes como pronome pessoal, como pertencer-se a um clube, como se descreve nas brochuras de angariação de sócios, escritas com o único intuito de aumentar as hostes, essencialmente os incautos, e quantos ingénuos pertencem a clubes apenas para lhes dar corpo, sem nunca chegarem efetivamente ao caroço, ao âmago, mas se a lerdes como conjunção, e se com propriedade pertencerdes a um algum clube decerto a tereis lido dessa forma, pois é para mim certo e sabido que, assim sendo, não andareis neste mundo com os olhos fechados, nesse caso, bom nesse caso, peço-vos para vos irdes embora deste texto, e faço-o por duas boas razões, a primeira é que já sabeis o que aqui se irá escrever e por isso podeis gastar melhor o vosso tempo a fazer outra coisa qualquer, sei lá, ide jogar xadrez, entretende-vos com peões, cavalos, bispos, torres, rainhas e reis, estes últimos de incalculável valor, ainda que só consigam dar um passinho de cada vez, como uma delicada gueixa, a segunda, porque me entedio de escrever para vós, agoniam-me as táticas e as estratégias, tudo muito posicional, muito estático, cheio de disposições, e acordei hoje com vontade de escrever sobre árvores, regatos, casebres e pedras de granito que nos rendilham as nádegas quando nelas nos sentamos, comunicando-nos pela parte menos nobre o estado da mãe terra, debitando-nos pacientemente para o corpo calor ou frio, conforme a estação do ano, e, neste mecanismo de desapego eletrostático, nada melhor do que ir olhando para as árvores dispostas em xadrez, intrometendo-se no acesso ao casebre, tornando penoso o progresso em sua direção, e porventura, quase sem querer, reparamos que escasseiam por alturas deste, quando se impõe a encosta do monte onde ele se empoleirou solitário, talvez porque o criador é do tipo aventureiro e descurou a retaguarda, tenha sido por entusiasmo que lançou a bolota para a frente, na sofreguidão que carateriza a procriação, ou tenha sido por falta de amor, e nada melhor que a guerra para justificar a ausência do leito, porque entre um casebre em ruínas e uma gueixa vai uma indisfarçável diferença de carga, ainda que ambos tenham já visto tudo, mas, qualquer que tenha sido a tática ou a estratégia, e não me vou perder agora no esmiuçar das diferenças, o que é certo é que a calvície prematura na cabeça com coroa derreada pode ser um estratagema, engendrado com algum sacrifício, uma entrega, como uma oferenda aos deuses destinada a obter o favor das próximas jogada, senão quando, vemos dirigir-se para o casebre, cada um à sua vez, primeiro o Zé, como um cavalo ligeiro e um pouco nervoso, fazendo repetitivos acenos com a cabeça, como quem vai a pensar, não a saudar, dando duas voltas ao casebre perscrutando ao horizonte, com ele ainda cá fora sobe encosta acima o Armindo num movimento lento e retilíneo, caminha como que hipnotizado, talvez emparedado pela carga e, finalmente, chega a Joaninha, ziguezagueando, destra, em direção a eles, como uma rainha. Qual será a senha?

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Retrato psicológico de um - Caramelo

Sei que o título tem tiques humoristas. Eminentemente visuais, dados pelo travessão que procura atirar o Caramelo para fora da frase, pudesse eu, pontualmente, adotar a forma tategaki. Sei também que já antes vos foi dado um retrato psicológico de um caramelo, endereçado ao Mouro pela voz do Hilário. Se não tendes presente relembro-vos, aquele em que se exalta a dissolução provocada pelos sucos salivares. Sei ainda da ironia dessa situação, em que o Pinote é caramelizado por forma a embrulhar o Mouro com um lindo papel colorido, capaz de fazer salivar uma criança. Notai a circularidade do processo, do húmido ao seco e de volta ao húmido, não fosse o Hilário um alquimista do quotidiano. E, se ficasse por aqui, seria um retrato neorrealista, puramente mandibular, como aqueles em que as pessoas sorriem com desmesura, onde o traço se faz dos maxilares para dentro, da forma física para a textura psicológica, do todo para o detalhe, descrevendo o que acontece a um caramelo quando se coloca entre os dentes. Prefiro, contudo, traçar o Mouro de outra forma, de dentro para fora. Sei que não é uma abordagem utilitária e tem tendência a encabelar-se nas narrativas, esquecendo os fins. Mas eu não consigo deixar de olhar para o Mouro com alguma ternura. E o que é a ternura senão a vontade de passar a mão pelo pelo, e depois disso todas as desculpas são possíveis, todos os defeitos são compreensíveis, engraçados até, vistos como tiques de personalidade, sinais que não incomodam. Gosto do Mouro, é senhor dos seus humores, húmidos e frios, segundo a formulação clássica, mas que aqui, neste ermo do império temperamental, ganham a forma vulgar, aquela que troca o frio pelo lento, que é a melhor maneira de resistir aos calores. Gosto do seu arrastar previsível de argumentos, da sua lengalenga entediante, não pelo que ela diz, mas pelo que me provoca. Se a preguiça é um pecado capital, o deixarmo-nos enlaçar pelo torpor é divino. Gosto sobretudo das suas fraquezas, aquelas que o põem a falar, dos pequenos arranques que o tiram da inércia de máquina adormecida. Desculpo-lhe o favor que fez ao Hilário pela extraordinária interlocução com o porco, pois sei que separar um do outro é ter nenhum. Ambos irrompem como um soluço e abrandam de seguida, voltando o Mouro ao estado inicial de uma máquina sem memória. Assim se explica a sua suscetibilidade à pressão, a facilidade com que se aviva, esbraceja e atira uma resposta. Tem por isso a Joaninha a missão simplificada, até porque o próprio Mouro se enternece pelo destino da pequena. Mas, para o completo retrato de um caramelo é necessário juntar os dois pontos de vista, o do Hilário e da Joaninha, uma vez que no segundo se alimenta e cresce o caramelo para ser tragado pelo primeiro, num movimento inicial de dentro para fora seguindo de um movimento oposto de fora para dentro, como se pode observar numa qualquer série sobre a vida animal. Por isso, quando Joaninha lhe perguntou sobre o que sabia acerca da prisão do pai, o Mouro encostou-se à parede e respondeu naa.