sábado, 12 de outubro de 2019

Humberto reflete sobre a morte tal como ela é

Reconhece-se a derrota, cumprimenta-se o vencedor, cai o pano preto, e entra o comentador. Esteve muito bem no seu discurso final e jaz agora muito tranquilo no caixão, tem um rosto de cera imperial, até à hora em que o encerram naquele vão. E ajuntam para encher a página do jornal, que defendeu aquilo em que acredita, mas não se pode levar a mal o que só a vontade do povo possibilita. Foi um homem fora do seu tempo, até muito avançado para a época, e talvez até venhamos a estar cá nós para relembrar, o quanto ele poderia ter sido merecedor, mas a política é como a vida, feita de acasos e muito pouco rigor. Não foi o homem certo no momento certo, fugiu-lhe por isso o chão debaixo dos pés, resta-lhe agora retirar-se para a deslembrança, que é o que acontece ao candidato que nada fez. Os comentadores deixam bem claro, que só no exercício da governação, na clara concretização de obra feita, um homem não cai no esquecimento. Não bastam as ideias, o que contam são as ações, e mais vale um muro mandado levantar por um regedor que toda a parafernália de razões que embala um candidato que alcança uma escassa minoria e nunca é vencedor. Merda, caralho, fodam-se todos os comentaristas, o que dói na morte não é a morte, mas a vida dos trapezistas. E béu béu, béu béu, béu béu, cá continuam eles a tecer loas à vida, até junto da urna vão, como numa prova de vitalidade, como quem mantém a boa forma física, que denotam no brilho dos dentes, às luzes dos projetores de televisão, e dizem, ou escrevem, com desembaraço, que também estiveram na despedida do homem que já cá não fica. Foi pão bom de amassar, enquanto não lhe atuou o fermento, era um brilharete a esticar, já para não falar do estalo que fazia na bancada, era farinha por todo o lado, que entrava pelos olhos adentro como uma maravilha, colocando o povo, por uns momentos, a regurgitar nas caixas de comentários até lhe chegar a azia. Mas não prezem todos os comentadores por igual, que se os há encartados, de outros que não se percebe como chegam a todo o lado. Não sabem escrever, e sobre as várias bolas conseguem dizer, como se tivessem toda a razão, o que lhes vai na tola com a mais rápida prontidão. Já os encartados são donos de uma certa graça quando fazem rima forçada, e repetem generalidades, com a força que lhes dá a adrenalina de uma boa porrada. Mas aqui, por detrás do pano preto, num último momento dá-nos deus o vagar, de num breve esgar, poder mirar, todos esses frangos em seus poleiros, alçando-se numa só perna para impressionar as galinhas. E também sabemos que o estar vivo é achar-se graça sem ser engraçado, por isso são os galináceos tão ciosos da sua aura. É por não haver vida sem os outros que são tão zelosos da sua reputação, e, contudo, neste exibir de penas, não há lugar para não cornudos, que só é fiel a uma ideia, aquele sobre o qual cai a mortalha. Também eu em garoto, tirava as mãos do guiador da bicicleta e gritava bem alto ao vento, sem mãos sem dentes. Merda, caralho, fodam-se todos os comentaristas, o que dói na morte não é a morte, mas a vida dos trapezistas.

domingo, 6 de outubro de 2019

Cátia na cabine de voto

Humberto abafa a palhinha. Humberto liberal. Humberto de direita. Humberto do choque fiscal. Humberto do Ricardo. Humberto conservador quanto baste. Humberto Mascarenhas veementemente contra a regionalização. Humberto da Cátia. Humberto lá de casa. Humberto lê Ulisses. Humberto grelha costeleta de porco ao sábado. Humberto tem uma ereção. Humberto um homem de estado. Humberto de mente turvada. Humberto heterossexual. Humberto um homem normal. Humberto tem namorada. Humberto da direita moderada. Humberto contra a exclusão. Humberto do arroz de tomate na panela de pressão. Humberto gosta de ser dominado. Humberto é candidato. Humberto deixa colocar a coleira. Humberto o político pragmático. Humberto o homem que toma decisões. Humberto não deixa escapar as ocasiões. Humberto o oportunista. Humberto sabe como é a vida. Humberto um homem de valores. Humberto do humanismo cristão. Humberto Mascarenhas da baixa de impostos. Humberto homossexual. Humberto tem saudades do Ricardo. Humberto ama a Cátia. Humberto afetuoso. Humberto da liberdade individual. Humberto deixa escolher a escola. Humberto deixa escolher o hospital. Humberto não descarta a solidariedade social. Humberto sabe que não só de espécies autóctones vive o homem. Humberto gosta de fardas romanas. Humberto silencioso. Humberto sabe fazer sala. Humberto luta por causas. Humberto amou um gigante. Humberto fez poesia. Humberto cuidou com o silencio de uma mulher. Humberto fez ouvir a sua voz. Humberto amou Armindo. Humberto fecha-se em si. Humberto ama Cátia com condescendência. Humberto ama Cátia como um homem. Humberto ama Ricardo como uma mulher. Humberto ama Armindo como não sabe como. Humberto um homem de causas. Humberto não é bissexual. Humberto viu desvanecer a vida. Humberto teve um primeiro amor. Humberto é um político de compromissos. Humberto está longe da direita radical. Humberto teme ser homossexual. Humberto teve uma ereção. Humberto sabe que teve uma ereção. Humberto às vezes fecha os olhos. Humberto tapou o rosto de Cátia com os olhos abertos. Humberto faz sexo anal. Humberto faz sexo vaginal. Humberto teme a direita radical. Humberto amou um bruto. Humberto quer o bem de Portugal. Humberto teme a brutalidade. Humberto encontrou na pedra poesia moldada. Humberto imaginou-se toureiro. Humberto não enjeita a espada. Humberto parece saber tudo. Humberto tem dúvidas das mais básicas. Humberto hesita em casa. Humberto é comentado. Humberto é o responsável qualquer que seja o resultado. Humberto acordou cedo. Humberto votou pelas dez da manhã. Humberto apelou ao voto. Humberto disse esperar com tranquilidade a decisão dos portugueses. Humberto não sabe o dia de amanhã. Humberto continuará a servir Portugal qualquer que seja o resultado. Humberto da direita moderada. Cátia procura o partido de Humberto no boletim de voto. Cátia pega na caneta. Cátia respira. Cátia vota um pouco mais à esquerda.

sábado, 5 de outubro de 2019

A Reflexão de Humberto Mascarenhas

Da Cátia ao Ricardo. Da Cátia. Do Ricardo. Porque será sempre necessário escolher. Deve ser a identidade. És o que escolhes. O que escolhes ser. Ser. O teu bilhete de identidade. Um número único calculado com o resultado das tuas escolhas. Do afeto. Um número que nos identifica. Sou o que escolho. Que raio, eu, um político, na véspera das eleições com questões de identidade. Eu que passei o tempo a afirmar quem sou. Só se confia em quem é. Dá-me o teu voto pois sabes quem eu sou. Sabes com o que contar. E da Cátia ao Ricardo talvez apenas umas infeções urinárias. Pois. E isso faz toda a diferença no eleitorado. Vais a votos. Queres que depositem a confiança na urna. E a confiança está nas pequenas coisas. Nos pequenos cuidados. Somos gigantes que cedo temeram o microscópico. Imaginámos os micróbios ainda antes de os identificarmos. A existência do grande Deus inferida da suspeita do infinitamente pequeno. Micróbios não vão a votos. Não escolhem um chefe. Um líder. Multiplicam-se. Será que preservam a afinidade. O micróbio irmão. Tu és da minha raça. Da minha criação. Tens toda a minha confiança. Vai em frente. Farei tudo por ti. Uma identidade breve é como identidade nenhuma. É a identidade. Pois. A bactéria passageira replica-se noutra exatamente igual. Alcança a imortalidade pois não se desvanece num corpo. Gera almas gémeas. Das infeções urinárias. Primeiro um pequeno prurido. Depois sobem-te pela uretra acima até à bexiga. Até nos rins replicados. Inflamados. Infetados. Sangue. Já sai sangue. És sangue do meu sangue. Por causa daquela irmandade. Não é de confiança. Sim, confiam uns nos outros. Para eles não é difícil. É a vantagem das fraternidades. Ajudam os pobres. Sem identidade. Apenas a pensar no outro. Sim. O outro é diferente. Mas imaginam-no semelhante. Pois na fraternidade somos todos irmãos. Partilham a comida. Partilham a sela. Partilham o amor. Afeto. O amor a todas as coisas como resultado da replicação assexuada na sela partilhada. Sela enclausurada. A urna selada. Cheia de votos expurgados da sua identidade. Atribuídos ao líder. Sim. Tu és o meu líder. Nós abdicamos de ser nós. Somos tu. Aqui tens o meu voto secreto. Anónimo. Uma data de eus na urna selada. Que permanecem todo o dia lá dentro depositados. Já se olham desconfiados. Miram a ranhura iluminada. Serás dos nossos. Qual é a tua irmandade dentro da urna selada. Cavalgada para a governação. Quem sou eu. Da Cátia ou do Ricardo. Terei mentido ao eleitorado. Nas pequenas coisas. Na infeção urinária. Serei apenas a infeção urinária. Menti à Cátia. Menti ao Ricardo. O Humberto não existe. Ou então o pequeno não existe. A não ser que analisem os candidatos ao microscópio. É o preço do poder. Do poder democrático. Ter de deixar de ser para que seres confiem em ti. Depositem o seu voto anónimo na urna selada. Como pertencer a uma irmandade. Teres de fechar-te no mosteiro da reflexão sem as intrusões microscópicas que perturbam na verdadeira existência. Que te levantam a questão. Da Cátia. Do Ricardo.

domingo, 29 de setembro de 2019

Humberto e Cátia fazem coisas práticas

Quando se abre a panela de pressão, a primeira coisa que se deve fazer é mexer o arroz, dar-lhe uma ou duas voltas com uma colher, esperar um pouco para repousar e tomar o gosto antes de servir, diz Humberto, retirando o avental vermelho onde dois gloriosos morangos campeiam lado a lado. Fica-te bem esse avental vermelho, diz-lhe Cátia, de cabeça encostada à mão, aspirando o bafo do arroz de tomate que se libertou ao revolver da colher. Fica-me bem o vermelho?, pergunta-lhe com ar brincalhão, volteando o avental agora solto do pescoço como um capote. Sim, claro, o vermelho assenta muito bem a um homem loiro de barba loira, dá-lhe um ar nórdico, vikinga-o, diria. Suponho que, no meu caso, te referes ao vermelho republicano, não ao vermelho socialista, dá um pequeno passo na sua direção, exibindo o avental, bem direito, à frente dos seus olhos. Não sei se é republicano ou socialista, acho sim que te dá uma tonalidade sanguinária e carente, de um homem do norte deserdado que desembarca nestas costas disposto a tudo, diz-lhe Cátia, fitando os morangos agigantados. Deixa ver, referes-te a uma costa pejada de morenas moiras, de um castanho maduro, pungente, trespassadas por uma tontura de procriar, dá um pequeno passo de falsete atrás, alinhando as pernas. Moira não, prefiro ser moura, moira é muito afrancesado, anormandado, percebes, se o que procuras são moiras deves é desembarcar em Cascais, aqui o que te espera é fruto feito, sem pinta de esbranquiçado, imagina-se sugada pelo vácuo resultante do afastamento do capote. Ah, então é isso que tu queres, moura, é um abastardamento, já percebo de onde te vem a referência ao sanguinário, queres uma colonização à portuguesa, quando dizes anormandado não se estás a referir aos franceses, mas aos prevaricadores dos saxões, aos guilhermes os conquistadores, não consegue evitar um ligeiro estremecimento do avental devido ao início de uma ereção. Sim, Humberto, vamos fazer um país de bastardos, castanhos, acastanhados, pintalgados, que cruzam a espada duas vezes, mas estou desconfiada que todo esse furor é mais poesia, se calhar és daqueles que acha que a sua espada é a pena, chega os ombros atrás forçando o botão da casa do decote. Ah, temes que os guilhermes já se tenham enshakespearado, que do furor da tomada, do rompimento da cerca, da gritaria da escalada, do degolar dos inimigos, já só desfrutes nas estórias, que de homens só saibas em serões de donzelas, avança para ela de avental em riste. Sim, Humberto, tenho pavor ao amor eterno, àquele tão grande e tão puro que nem seja necessário sermos assaltadas, morte aos poetas, vivam as espadas, escorrega na cadeira afastando as pernas. Façamos então uma surtida, com a mente turvada, deixemo-nos levar pelos cavalos picados pelas esporas, cobre a cabeça de Cátia com o avental. Sim, Humberto, dá com as esporas nessa montada, não panfiques esse animal, que ele bem merece ser castigado. Eu sei, debruça-se, colocando a cabeça entre as pernas, enquanto leva a mão à panela para tirar um pouco de arroz, porra, queimei-me.

sábado, 28 de setembro de 2019

Humberto e Cátia falam de coisas práticas

Borbulham as iniciativas de direita, Humberto, diz Cátia sentada à mesa da cozinha. Que queres dizer com borbulham?, pergunta-lhe, a passar a medida de arroz por água. Borbulham as alternativas e as propostas, acrescenta sentada. Mas a que alternativas e propostas te referes?, insiste ele, com os dedos de pontas escondidas entre a água leitosa de viço instável. Vais fazer arroz? Sim, arroz de tomate a acompanhar as costeletas, mas a que te referes?, inclina a malga e deixa escorrer a água por entre os dedos. Estas propostas mais supostamente liberais, por exemplo a ADSE para todos e cada um escolhe a sua escola. Ah, sim, não achas bem?, olha para os grãos de arroz molhados e empapados ao fundo da malga. Por exemplo, acerca da ADSE para todos, acho estranho que seja uma medida liberal, até parece contraditório com a proposta de cada um poder escolher a sua escola. Mais ao menos, fecha Humberto a torneira agitando a malga meia de água com a mão esquerda. Essa coisa da ADSE para todas parece uma coisa do estado, uma imposição em que não há escolha. Ah, já percebo, mas repara que as pessoas vão poder escolher o privado, volta a enviar as pontas dos dedos no arroz, e assim vai maior haver concorrência e logo a qualidade do serviço irá aumentar, vira de novo a malga deixando vazar uma água límpida. Mas isso não vai ser o fim do serviço nacional de saúde? Não, pelo contrário, será sim um melhor serviço nacional de saúde, por exemplo, sem greves cirúrgicas nem filas, percebes, escavando com a ponta da faca o topo do tomate. Mas, se o estado deixar de ser responsável pela prestação dos serviços, não há o perigo dos privados decidirem começar a aumentar os preços, fazendo alguma chantagem política, uma vez que este não poderá deixar de fornecer cuidados de saúde? Isso não vai acontecer num estado liberal, Cátia, chantagem podem fazer os trabalhadores do estado, que são simultaneamente seus eleitores, não vês que será o próprio mercado que irá estimular a concorrência, fazendo exatamente o oposto, tira uma fina fita em volta do tomate. Então porque é que em Portugal os seguros de saúde são tão baixos comparados com os seguros nos Estados Unidos? Ora, pela concorrência desleal que o serviço nacional de saúde faz aos privados, o que obriga a que os preços sejam excecionalmente baixos, roda o tomate descascado nos dedos deixando cair um ou dois pingos de uma água avermelhada sobre o balcão. Estás a dizer que agora os hospitais privados não têm lucro? Sim, devem ter, começa a cortar o tomate em pedaços para dentro da panela de pressão. Então porque razão irão os preços aumentar? Ora, Cátia, os investidores têm expetativas, coloca o arroz na panela. Queres dizer que eles não estão contentes com os lucros atuais? É provável, pode ser que no contexto atual hajam melhores investimentos, tira uma medida de água que verte para a panela. Então, porque razão, Humberto, é que resolveram investir num negócio como este? Bem, suponho que têm alguma visão de futuro e acreditem que, entretanto, possa haver iniciativas liberais, fecha a panela de pressão.

domingo, 22 de setembro de 2019

Mascarenhas dá um murro na mesa. Opinião de José de Mendonça e comentários

As mornas declarações de Humberto Mascarenhas, sempre mornas, sejam elas acerca das mudanças climáticas, sejam sobre a necessidade de entendimento entre a direita, sejam acerca do populismo, ou do primado da ética sobre as diferenças direita-esquerda, não passam de generalidades catitas. E, se é verdade que podem assentar que nem uma luva a quem está no governo, não servem de nada para quem está na oposição. Era já, pois, hora de Mascarenhas parar de assobiar para o ar, dizer que o sistema está a funcionar, afirmar que deixa a cada um dos órgãos de soberania da democracia a responsabilidade das suas funções e seguir para a campanha eleitoral como se nada se passasse, sem tirar as devidas ilações. É por isso de saudar, finalmente, o murro de Mascarenhas na mesa sobre este consenso podre que se formou sobre a regionalização. Mas esperem lá, agora que este assunto foi de novo trazido para o conflito político, cabe recordar, onde estão agora todos aqueles que há uns anos atrás escreveram longos artigos de opinião sobre os impactos da regionalização, avisando para a possível proliferação de uma corrupção de pequena esfera, mais difícil de controlar, porque mais difusa? Pergunto, será que a oportunidade faz o comentador? Sim, sim, muito bem JdM, há 45 anos que esta canalha anda a (des)governar-nos(se), já se vê que isto da regionalização é um caldinho para todos eles, mas olhe que este de Mascarenhas também não me engana, dizem até que é esquisito, no mínimo. Ó Manuel Custódio, você devia era assinar Salazar lá da Comba Dão, nunca gosta de nada, até lhe digo, eu que até nem sou de direita, o Mascarenhas parece-me ser um homem sério, não como outros do seu partido que estão bem-feitinhos com os dos bancos. Já várias vezes prometi a mim mesmo que não lhe respondia, José do Pego, mas você consegue tirar qualquer um do sério, Santa quê?, e olhe que pessoas da sua espécie dizerem que até gostam do Mascarenhas diz tudo acerca dele, estamos falados, e a direita anda muito mal. Porque é que não publicam o meu comentário?, e depois ainda dizem que vivemos em democracia, eles são é todos uma grande corja, e agora a regionalização é para ver se se reproduzem por estes campos de Portugal, é tudo animal de hastes, e não ligue Custódio que do José do Pego já eu soube quem ele é, tem é uma boa reforma e depois vem para aqui mandar bitaites, é fácil, só de reforma recebe mais de 5.000 euros, ouviu, com a continha do banco recheada até eu passava o dia regalado ao computador, já reparou que é quem deixa mais comentários aqui no jornal, se calhar ainda recebe mais algum por fora à conta do que aqui escreve. Pois não me admira nada essa conversa da reforma, nota-se mesmo que são fãs do JdM, que tem a mania que é o ghostbuster português da corrupção e da fuga aos impostos. Olhe, Pego, você é que tem a mania que fala inglês, se calhar é professor universitário, mas olhe que aqui anda gente que trabalha, que trabalha a sério, você deve é ser como estes políticos que só querem é mamar. Isso mesmo, Carlos Ambrósio, não há(à) regionalização, e viva Portugal!

sábado, 21 de setembro de 2019

Ainda sobre as costeletas de porco

Outra vez costeletas de porco?, pensou para si Cátia, ainda no fim de semana passado foram costeletas de porco, recorreu involuntariamente, mas resolveu nada dizer pois o amor tem destas coisas. Parecendo ler-lhe a mente, Humberto, com um alho entre os dedos ao jeito do gume da faca comenta com satisfação, ficaram mesmo boas na semana passada, não ficaram? Cátia, assenta sorrindo com o mesmo deleite com que um barco vai, ao sabor da suave ondulação, dando com o costado pequenas achegas aos pneus dependurados por cordas de cabeços de um porto seguro. O que achaste do debate?, pergunta-lhe Humberto, virando-se para a mesa onde Cátia se encontra sentada, verdadeiramente atento aquela que irá ser a sua resposta. Sabes, acho que foi muito morno, e acima de tudo tu não te diferenciaste, diz-lhe procurando roçá-lo apenas com a voz, como uma plácida não intrusiva bruma húmida envolvente, mas que irremediavelmente terá de vir a ser inalada por mais que se consiga suster a respiração. Achas?, diz após o longo intervalo que o leva de regresso às mãos sobre o prato, mirando pensativo o alho vazado a meio, surpreendendo-se pelos grossos veios que marcaram os saltos do seu crescimento e agora se fingem insignificantes a bem do todo. Sim, persiste Cátia com o cuidado com que um pai mergulha carinhosamente de novo na água a cabeça de um filho que acabou de vir à tona para respirar e a quem está a ensinar a nadar. Mas como é que me posso diferenciar?, pergunta-lhe a estátua completa de Humberto, imobilizada, porventura destinada às grandes coisas do mundo que a passagem do tempo obriga a gravar a martelo no seu pedestal, como te expliquei estes são assuntos muito complexos. Tens de arranjar um tema fraturante, industria, procurando provocar um frémito no bronze que jaz sobre o vermelho da carne de porco. Mas eu sou um político pragmático, responde Humberto com a única coisa que nunca poderá vir a ser escrita no seu pedestal. Mas porque é que não és pragmático na escolha de um tema fraturante?, atiça Cátia, que sabe que o bronze se molda com fogo para as promessas de eternidade. As lascas de alho começam a cair ao trabalho da faca, primeiro lentamente, finas, quase transparentes, como o suave início de um intenso nevão, sim, algo que talvez sacrifique uns poucos ao bem de muitos mais. Claro, anima-se Cátia, que sabe que o amor é fermentado no caldeirão dos alquimistas. Sabes, estava a ser estúpido, recupera Humberto a postura, é tudo uma questão de votos, que interessa perder alguns se podemos conseguir mais dos restantes, vira-se para Cátia, de faca em riste, sorridente, quase como o vislumbre de um serial killer dos pequeninos. Ah, Humberto, diz-lhe Cátia da posição sentada, com o breve temor dos criadores, eu sei que tu sabes o que deves fazer, sai-lhe, destravando-se, deixando-se ir transportada pela obra. Amor, soletra Humberto feliz. Amor, faz eco Cátia, baixando os olhos para o tampo da mesa enquanto Humberto enfia a ponta da faca através da costeleta do porco nado-vivo nado-morto numas beiras quaisquer.

domingo, 15 de setembro de 2019

Debate, só há um planeta

Se fizermos umas contas poder-se-á concluir que a probabilidade de haver um outro planeta como este, com água, seres vivos e vida inteligente, é diminuta, pelo que é nosso dever preservá-lo. E, Dr. Humberto Mascarenhas, que medidas considera serem necessárias para se garantir a preservação do planeta? Bom, a discussão de quais as medidas deve ser feita no seu contexto próprio, quer nacional, quer internacional, mas devo deixar muito claro que a preservação do planeta é uma das principais preocupações do nosso partido. É também essa a sua opinião? Nós achamos que não basta a preocupação, é necessário agir já, pois o planeta não pode esperar, e o nosso programa é muito claro acerca das medidas a serem tomadas no que diz respeito à proteção do planeta, medidas muitas vezes incómodas para os interesses económicos instalados. Que medidas são essas? Por exemplo, é necessário reduzir imediatamente as emissões de carbono, o que passa pela limitação da circulação rodoviária nas cidades aos serviços prioritários, e claro que isso irá desagradar à indústria automóvel. Está de acordo com esta medida, Dr. Humberto Mascarenhas? Não gostaria de estar aqui a discutir medidas avulsas, esta ou aquela medida podem ser muito meritórias e, por princípio, não somos contra, mas cada uma delas deve ser avaliada relativamente ao seu real impacto, quer do ponto de vista dos benefícios, temos que saber qual a efetiva redução nas emissões que dela resulta, quer do ponto de vista dos prejuízos que possa trazer às pessoas a institucionalização da limitação das liberdades de movimento e económicas dos cidadãos. Não está então certo que uma limitação da circulação rodoviária possa trazer benefícios sobre as emissões? Não foi isso que eu disse, o nosso programa tem uma preocupação com a preservação do planeta, mas também considera que apenas a estabilidade associada ao crescimento económico pode assegurar um mundo melhor para as próximas gerações. Acha que as medidas que o seu partido propõe não irão colocar em causa a economia e o mundo como o conhecemos hoje? Nós também achamos que as medidas devem ser ponderadas, mas não podem ser proteladas, veja o caso da Greta Thunberg, que assumiu a recusa em viajar de avião e atravessou o atlântico num barco com emissões zero, não dando apenas uma mensagem, mas um exemplo, sobre a clara necessidade de agir já. Acha que as ações como as de Greta Thunberg possuem um real impacto para além do significado simbólico? Não podemos separar uma coisa da outra, e, simbolicamente, nada tem mais força do que as ações concretas que possam marcar uma diferente forma de estar no planeta. O que tem a dizer a isto, Dr. Humberto Mascarenhas? Nós, estamos cientes do significado impactante que a travessia efetuada pela Greta com emissões zero tem, não temos nada contra estas ações, achamos apenas que é importante ter uma política articulada de defesa do planeta que inclua a defesa das pessoas e das liberdades. Posso concluir então que, no essencial, não estão em desacordo.

Cátia e Humberto sobre o que o galo faz à galinha

Humberto, qual vai ser a tua posição relativamente a esta coisa dos animais? Pergunta Cátia ao entrar na cozinha, mantendo-se a alguma distância dele, logo junto à porta. Que questão?, a do partido dos animais? Humberto gira a cabeça para fitar Cátia, revelando no ligeiro torcer de tronco a faca que tem nas mãos dando dentadas no alho que cai com o cheiro de esventrado sobre as costeletas de porco fatiadas subtraídas de identidade. Sim, estive a pensar no que ocorreu nos restantes debates, foram tão mornos. Responde, pensativa, descendo os olhos por Humberto abaixo, hesitando ligeiramente por alturas da faca nas mãos de Humberto, em direção ao chão da cozinha. O que se pode fazer? Poisa a faca sobre a bancada e dirige-se em direção a ela, com as mãos imobilizadas à altura da barriga, para não deixarem cair no chão alguns dos pedaços de alho revirados que permanecem sobre os indicadores e o polegar. Não sei, talvez pudesses fazer a diferença, pensei. Dá um ligeiro passo atrás ao aproximar do cheiro a alho nas mãos de Humberto, procurando com as costas a parede, não subtraindo os olhos ao chão. Gosto quando ficas assim, absorta, preocupada comido. Está agora a meia distância, fitando-a, com as mãos à frente. Gostas? Sorri, insistindo em não o olhar de frente, calculando a distância pelo cheiro a alho. Sim. Sussurra ligeiramente, já sobre ela, apertando as nádegas atrás para não a tocar com as mãos sujas. Ah. Não consegue evitar inspirar profundamente o cheiro a alho que sobe entre eles quente por entre os seios, encarando-o com olhos e empurrando com força as costas contra a parede. Humberto beija-lhe os lábios. Cátia fecha os olhos. Sabes, Cátia, voltando a essa questão do partido dos animais, talvez a questão seja saber porque é que te encostaste à parede e ficaste aí passiva, era medo ou era amor? Vira-lhe as costas e dirige-se de volta para a bancada. Porque perguntas isso?, acho que é amor. Desampara-se da parede, com um pequeno passo à frente, com os lábios molhados e a interiorização do esvaecimento do cheiro a alho. Mas não podia ser medo também? Sacode os pedaços de alho dos dedos para cima das costeletas. Pois, no fim é amor, mas até me beijares à um latente receio que não consigo controlar. Olha para ele de frente levando a mão ao lábio para varrer a saliva dele. E gostas desse receio? Pega num novo dente e com a faca rasga-o de cima a baixo. Sim, claro que gosto, essa tensão de não saber o que poderá acontecer inebria. Afasta com a mão a cadeira junto à mesa, fazendo intenção de se sentar. Então se calhar não me amas, tens é medo de mim. Mete o bico da faca entre a casca do alho e o sue corpo prendendo-lhe a pele entre os dedos que arranca depois de um só golpe a toda a volta expondo-o brilhante de marfim. Não, não tenho medo de ti, eu amo-te. Senta-se. Mas podias só ter medo de mim, podias no fim da tensão ter apenas medo? Recomeça a dar golpes finos com a faca. Sim claro, isso podia ter acontecido, no fim podia apenas sentir medo. Encosta a cabeça na mão olhando para as costeletas de porco. Estás a ver, é por isso que esses debates têm que ser mornos.

domingo, 8 de setembro de 2019

Humberto Mascarenhas desce os impostos. Editorial

Quem deu Humberto Mascarenhas como politicamente morto pode ter de vir a rever as suas previsões em baixa. Mascarenhas veio revigorado de férias. Alguns queixaram-se que foram longas. Outros comentaram que andaria a tratar de problemas que não os políticos. Até lhe apreciaram as companhias, como sempre acontece a todos os que se pressente poderem vir a perder a graça. E a esses, os avaliadores de férias, ademais, ele teve o ensejo de responder, e surpreender, com ironia, que não é para mais uma das suas imagens de marca, nestes períodos de calor intenso há sempre aves à procura de térmicas, disse. Mas, para os calar de uma vez por todas temos um Mascarenhas que sabe ao que vem. Humberto Mascarenhas desce os impostos. Menos impostos. Nunca é demais repetir. Uma redução significativa. Com propostas concretas. Com impacto na economia real. Que efetivamente se faça sentir nas empresas e nas famílias. Uma redução no IRS e no IRC. Em boa verdade vos digo que esta proposta não difere das feitas por alguns partidos mais pequenos à procura uma oportunidade de mercado, por um lado, e por outro que não há verdadeiras alternativas a uma situação económica, há que dizê-lo, estável, senão prometer mais do mesmo mas melhor, ou seja, com menos impostos. Assim sendo, porque é que considero esta posição importante? Primeiro, por vir de quem devia vir. Depois da europeias Mascarenhas tem feito a via sacra das sondagens, todas as semanas mais uma estação e a recorrente pergunta acerca do anunciar do calvário da décima primeira, a da cruz, marcada para 6 de outubro, até à décima quarta, acerca da qual já se sussurra baixinho em off, enquanto Mascarenhas responde às perguntas dos jornalistas, quem, no rescaldo das eleições, o poderá substituir na direção do partido. Por tudo isto, é importante marcar uma posição que acentue não ser intenção sua subir ao monte do Calvário. E que outra pode ser para um liberal senão a da descida de impostos. Depois, para se poder diferenciar do partido do governo e da força centípeda que este imprimiu ao espaço político à sua esquerda enquanto se desloca para a direita com as contas certas. É verdade que pode ser do interesse de Humberto Mascarenhas vir a ser atraído para o centro de poder após as eleições, mas não é de todo sensato seguir as pisadas da esquerda que pode ter a sorte da mulher oferecida, a qual desperta uma atenção imediata da qual logo se perde o interesse. E, finalmente, para ser mais igual aos pequenos partidos da direita, entidades fragmentárias de pequena massa e velocidade estonteante, que, devido à sua pequena descomprometida carga, podem atrever-se à exaltação pelo choque. Destes, pode Humberto Mascarenhas pedir emprestado o elã por reverberação, não se afundado demasiado em purismos ideológicos que o impeçam do planeado movimento pós-eleições, mas que lhe concedam a frescura durante este período eleitoral. Assim, poderão estar enganados todos aqueles que no pico da época estival já anunciavam ao Dr. Humberto Mascarenhas uma morte na praia.

sábado, 7 de setembro de 2019

Cátia desce à terra

ina ina aka aka ina ina etenemaca ina ina aka aka atenemaca. 965380066. trim trim trim trim. Humberto. ina ina aka aka. Humberto. ina ina aka aka. Desculpa. tabá baa baa tabá baa baa. Cansaste-te? iiiiiiii stai stai iiiiiii stai staiiiiiiii. Desculpa. aaaah demi aaaah demi. Então? oooooh oooooh tong. Onde estás a ficar? tong. Estou num hotel. tong. Por uns dias apenas. uoooh uoooh uoooh. Regressei ontem da praia. humme hummme hummmme. Porque não vens para minha casa? ó pa pa pa pará. Achas que sim? tarará tarará. Sim acho, sim, eu quero. mi mi pa la to mi chi chi fa fa amomi amomi. Não sei. ta tata tatatatatata ta tata tatatatatatatatatata. Tens razão, eu sei. ei eiei eieieieieieiiii ei ei eieieieieieiiii. E depois? ton ton ton tontontontonton. Depois. nan nan nanan iridu cachimbó iridu cahimbó cachimbó o ó ó ó ó. Tenho a campanhã. la la lari la la la lari. Eu sei. ó lariloo ó lariloo. Tenho que me focar. ar ar are are arerarerereeee. Eu ajudo-te a focar. ar ar are are arerarereereeee ta masi ta masi lau lau larau larau au au au au au au larau larau uuuuu. As sondagens não são boas. xexe xeçaba xexe xeçaba xáxáxachega xexe xeçaba xexe xeçaba xejá xesim xego. Pois não. ei pao ei pao elarinao elarinao. Mas tu tens espaço. ni na to roló te sa roloró. Eu? pirororó pirororó. Sim, tu, a direita. nana nana nana nana uai nana nana nana uai. Não ouviste? tan tan tam tan tan tam ouriloró. Quem? ouxiró uxiró ó lóró lóró ouxiró iuxiró ó lóró lóró. A esquerda, social democrata. pa pa pa pa cra cra cra pa pa pa cra cra crata. Conversa, Humberto. dei xe chen xo só dei xe chen xo só loró lóró. Não ouviste, não. Dei xos xenxe dei xos xenxe xenxis xeix xenxis xeis. Os motoristas matérias perigosas. Óssas óssas a bó bi óssas óssas a bó bi. Idos buscar a casa. assa assa ninó nóní assa assa ninó nóní. Sem uma queixa em tribunal, nada de mal. ó ó dei dei dó dó mómi ó ó dei dei dó dómusmi. Sim, ouvi. ja ja já já ja ja já lóvi. O Costa meteu-os num saco. uh uh uh lá lá lá uh uh lá lá uhhh uhhhh lá lá rá uhhhhhh uhhhhhhhh. Quem? em em em em nem nem nem em em em nem nem nem. A esquerda. so so somadar so so somador so xa che chega. Mas tu consegues, Humberto. trala trala lalalala trala trala lalalala. Mas vou para o centro ou vou para a direita? rei rei ta ta ta rei rei ta ta ta di rei di rei ento ento ento ento. Não sei, mas sei que vais conseguir. ir ir ir vee veee veee ir ir ir vee veee veee vemm. Ajudas-me? nu nu na na nu nu na na nananana nu nu na na nanananana. Sim, Humberto. u ru ru u ru ru ru er er to to er er toto erto erto ertotototototo berto. Posso ir agora? pan panpan pan pan pan panpam pan pan panpam pan pan pampam pampampampam. Sim, amor. amor amor amor amor amor amorererere amor amor amor amor amor amorerererereeeee. Amor. amor amor amor amor amor amorererere amor amor amor amor amor amorerererereeeee. Amo-te. te te te te te te tetetetetetetetetetete te. Amo-te. te te te te te te tetetetetetetetetetete te. Vem! ve ve ve ve vem vem vem vem vem vem. Vou! vo vo vo vo vo vo vo vo vou vou vooooooou voooooooou. ólárálá olárálá olárálá lá lá lá lálálá lálálá lálálá lálálárá lálálárárá rárárárárárárárárárárárá.

sábado, 31 de agosto de 2019

Observador obsessivo

acho que ele deve ser do tipo obsessivo, então?, reparei que rapa a cabeça aos sábados de manhã sempre aos sábados de manhã, como assim? como podes ter a certeza disso?, então é fácil notei várias vezes que na sexta ao fim da tarde tem uma leve penugem e no sábado de manhã surge completamente rapado, mas se calhar só observaste uma vez e agora estás a generalizar, não por acaso depois de ver a primeira vez fiquei com a dúvida e procurei vir à esplanada pelo fim de tarde de sexta e depois na manhã de sábado e verifiquei que é assim, oh Humberto fizeste isso mas disseste que não vens cá há algum tempo, sim era na época em que cá vinha ele já por aqui estava e parece que os seus comportamentos não mudaram nada como qualquer obsessivo, mas mesmo assim não podes estar completamente certo pode cortar o cabelo ao fim da tarde de sexta umas vezes e outras de manhã, é verdade mas tem que ser mesmo antes de se deitar pois quando o via a passear à sexta à noite ao longo da marginal ainda levava a penugem, engraçado estou a notar que ou está a escrever ou a ler traz sempre um livro com ele?, sim deve também ser um leitor obsessivo, oh Humberto e tu a dar-lhe, porquê?, se calhar não é obsessivo é só compulsivo é um leitor compulsivo, mas qual é a diferença?, então vou-te explicar de uma forma que um político entende dizer que se é leitor compulsivo pode arrecadar votos mas se se disser que se é um leitor obsessivo não, não?, ai o sol Humberto, um leitor compulsivo é também um comprador compulsivo e isso tem um contributo social e económico claro e indiscutível enquanto que um leitor obsessivo anda sempre à volta dos mesmos livros e desconfia dos restantes o que é muito pior do que dizer que não gosta deles já o compulsivo passeia-se pela literatura onde o obsessivo chafurda, ah?! pois?! a diferença entre o Ulisses do Joyce e a Biografia do Churchill!, isso mesmo olha ele parou de escrever e está a olhar para nós, sim sim costuma fazer isso é um observador obsessivo, compulsivo mas pronto o que fazemos agora, não faças nada enquanto ele estiver a olhar, está bem, continua a observar?, não já regressou à escrita oi oi Humberto já começo a perceber porque é que ele te desperta assim tanto interesse que até cá vinhas de propósito ao fim da tarde e depois logo de manhã, então?, é giro!, não é nada!, não é nada?, não! olha voltou a observar-nos olha intensamente é um olhar desprendido será que está mesmo a olhar para nós?, não faças nada enquanto ele estiver a olhar, está bem, já parou Cátia?, ainda não, continua?, retomou a escrita agora podemos falar?, sim, quando dizes que não é nada queres dizer que ele não é giro ou que não foi por isso que começaste a ter esse comportamento obsessivo Humberto?, qual comportamento obsessivo?, não desconverses voltou a olhar para nós, então não digas nada continua?, voltou ao teclado, qual comportamento obsessivo? achas que a mera curiosidade pode ser apelidada de comportamento obsessivo?, isso já me parece ser mais do que curiosidade Humberto..., Cátia tu é que desde que aqui chegámos não tens tirado os olhos dele,tu é que te puseste a olhar para ele e agora queixas-te, não me estou a queixar apenas a constatar um facto não paras de olhar para o tipo careca que está lá na mesa ao fundo no computador achas que quando olha é para ti não, e isso incomoda-te?, e se incomodar? estás aqui comigo mas se queres podes ir ter com o cabrão, ui deu-te forte Humberto acho que deves regressar à política depressa estás a perder o teu sentido prático sempre tão frio e lógico e agora já começas a chamar cabrão a tipos que nem sequer conheces onde está esse teu pragmatismo que não compra guerras desnecessárias, já não é a primeira vez que gozas com o meu pragmatismo Cátia e desculpa mas até a dizer isso continuas a olhar para esse gajo, deixa estar é curiosidade pois ele ainda não parou de escrever agora parece entusiasmado e de vez em quanto sorri o que estará a escrever? tu Humberto que já o trazes debaixo de olho há tanto tempo fazes alguma ideia?, porra!, achas pode ser sobre nós?, não há paciência Cátia, tu és uma pessoa conhecida líder da direita liberal ele de certeza que sabe quem tu és não dizem que os políticos são transparentes, epá se for um escritor a sério de certeza que não está a escrever sobre nós, porque não?, porque um escritor escreve sobre o que não existe percebes?, como assim Humberto? tu que até gostas de ler que eu sei como poderias ter interesse no que não existe?, pois é Cátia é por isso que estes gajos que escrevem são como mel para as gajas que raio querem sempre pensar que é sobre elas deve estar nos genes é o complexo de flor as musas, deixa-te de tretas Humberto ainda não respondeste à minha pergunta, qual pergunta? podes por favor parar de olhar para o tipo! começo a chatear-me a sério, a pergunta como é que os escritores escrevem sobre o que não existe, epá pois só escrevendo sobre o que não existe se pode falar do que existe por isso se esse gajo é escritor de certeza que não está a escrever sobre nós por muito transparente que eu seja e muito princesa encantada que tu estejas, não não deve ser sobre nós pois não para de escrever, podes parar de olhar!, não estou a olhar, estás estás, olha para mim por favor, então estás satisfeito? ele parou de escrever!, parou?, parou!, ah, recomeçou agora, estás a ver estás a olhar para ele, o que queres? não te disse já que foste tu que me chamaste a atenção se não tivesses começado com a conversa do tipo obsessivo não tínhamos chegado a isto, mas não era para ficares assim até já começo a ter vergonha estão ali os pereiras, onde?, estás a ver! dizes onde e continuas a olhar para o tipo, porque é que tu começaste a reparar nele Humberto?, e tu a dar-lhe olha que eu não sou disso mas se continuas assim levanto-me e vou-me embora ficas aqui deslumbrada com esse gajo pareces uma parva, Humberto tem maneiras não nos conhecemos assim há tanto tempo não te admito esse tipo de coisa não basta teres-lhe chamado cabrão e agora ainda vens com indelicadezas para cima de mim, isto não pode ser vou contar até três se não parares de olhar para ele e ficares com modos levanto-me e vou embora, olha ele parou de escrever, um, está a olhar para nós, dois, o que estará a pensar?, três.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Observador compulsivo

acho que ele deve ser do tipo obsessivo, então?, reparei que rapa a cabeça aos sábados de manhã sempre aos sábados de manhã, como assim? como podes ter a certeza disso?, então é fácil notei várias vezes que na sexta ao fim da tarde tem uma leve penugem e no sábado de manhã surge completamente rapado, mas se calhar só observaste uma vez e agora estás a generalizar, não por acaso depois de ver a primeira vez fiquei com a dúvida e procurei vir à esplanada pelo fim de tarde de sexta e depois na manhã de sábado e verifiquei que é assim, oh Humberto fizeste isso mas disseste que não vens cá há algum tempo, sim era na época em que cá vinha ele já por aqui estava e parece que os seus comportamentos não mudaram nada como qualquer obsessivo, mas mesmo assim não podes estar completamente certo pode cortar o cabelo ao fim da tarde de sexta umas vezes e outras de manhã, é verdade mas tem que ser mesmo antes de se deitar pois quando o via a passear à sexta à noite ao longo da marginal ainda levava a penugem, engraçado estou a notar que ou está a escrever ou a ler traz sempre um livro com ele?, sim deve também ser um leitor obsessivo, oh Humberto e tu a dar-lhe, porquê?, se calhar não é obsessivo é só compulsivo é um leitor compulsivo, mas qual é a diferença?, então vou-te explicar de uma forma que um político entende dizer que se é leitor compulsivo pode arrecadar votos mas se se disser que se é um leitor obsessivo não, não?, ai o sol Humberto, um leitor compulsivo é também um comprador compulsivo e isso tem um contributo social e económico claro e indiscutível enquanto que um leitor obsessivo anda sempre à volta dos mesmos livros e desconfia dos restantes o que é muito pior do que dizer que não gosta deles já o compulsivo passeia-se pela literatura onde o obsessivo chafurda, ah?! pois?! a diferença entre o Ulisses do Joyce e a Biografia do Churchill!, isso mesmo olha ele parou de escrever e está a olhar para nós, sim sim costuma fazer isso é um observador obsessivo, compulsivo mas pronto o que fazemos agora, não faças nada enquanto ele estiver a olhar, está bem, continua a observar?, não já regressou à escrita oi oi Humberto já começo a perceber porque é que ele te desperta assim tanto interesse que até cá vinhas de propósito ao fim da tarde e depois logo de manhã, então?, é giro!, não é nada!, não é nada?, não! olha voltou a observar-nos olha intensamente é um olhar desprendido será que está mesmo a olhar para nós?, não faças nada enquanto ele estiver a olhar, está bem, já parou Cátia?, ainda não, continua?, retomou a escrita agora podemos falar?, sim, quando dizes que não é nada queres dizer que ele não é giro ou que não foi por isso que começaste a ter esse comportamento obsessivo Humberto?, qual comportamento obsessivo?, não desconverses voltou a olhar para nós, então não digas nada continua?, voltou ao teclado, qual comportamento obsessivo? achas que a mera curiosidade pode ser apelidada de comportamento obsessivo?, isso já me parece ser mais do que curiosidade Humberto..., Cátia tu é que desde que aqui chegámos não tens tirado os olhos dele,

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

A esplanada

engordou e amarelou, aburguesou-se? queres tu dizer, sim, olha que não pois eu ainda recordo uns sofás a pano panados colocados na parte frontal com umas mesas baixas e já nem sei se teriam alguns revistas daquelas cor-de-rosa, é verdade sim mas isso foi já na parte final aquela em que os infortúnios do negócio a levaram a abandonar o orgulho de quem sabe o que vale e não se dobra a cativar o comprador passador incauto com um piscar de olho venha tomar uma bebidinha e bem se pode dizer que duas dignidades eram respeitadas a do comprador e a do vendedor dado que o primeiro é antes de tudo um passador e o segundo presta serviço sim mas sem ser um oferecido, não passas de um antiquado de um tempo em que para se ter um negócio não era necessário ser um sedutor olha como agora tudo mudou desde logo este pedestal de madeira onde é disposto o cliente horizontalizado taipado em vidro frequentemente lavado uma esplanada contida no regaço do estabelecimento mãe marcando-se diferenciando-se da rua do jardim quem paga quer-se elevado, então que dizes tu às mesas e cadeiras para cá dos vidros sobre o empedrado padecentes da inclinação de pernas entre pedras algumas seguras por um pedacinho apenas sujeitas aos desaires do peso do movimento do cliente raspando nos bordos dos calhaus paralelepipédicos será que já denotam o enfado do novo e buscam um revivalismo da esplanada que foi destronada por esta anunciando já a outra após o uso e fruto desta uma esplanada gourmet disposta à moda antiga mas servida nutrida com os rigores comerciais do tempos modernos, não iria tão longe que os avanços da economia fazem-se dia a dia quem tem um produto para vender não pode ter outra ideia quem adquire quer o autêntico o verdadeiro já que comprar é incorporar no ser quem compra é são antes gorduras do sucesso da incapacidade de conter todos os clientes no regaço e por isso alguns poucos que não podendo ser compreendidos entre as abas se encostam aos muros como migrantes na ânsia de entrar que estar perto ainda não é ser mas já é estar, é então por isso que as taipas são transparentes para alimentar a vontade dos que estão fora em permanecer que os tempos podem ser duros mas do outro lado é elparaíso amadeirado direitinho arrumado enquanto deste lado do muro impera o empedrado não recuso gostava da outra mais transbordada do estabelecimento para fora desconchavada balanceada como o convés de um navio sujeito a um ondular amigo orbitante de cabeças balanceadas enquanto da terra deitamos os olhos ao mar, creio que estás possuído dos males da memória que tudo embelezam e limpam desde o mais arregaçado até ao mais descurado desfrutas sim aqui agora sentado com o estômago regalado meditando no passado passado, costumavas vir a esta esplanada?, sim mas mudou um pouco, então, eram apenas umas mesas fora do café dedicava-se à venda de bebidas agora ficou mais como um restaurante, gostavas mais de antes?, não sei poderia dizer que sim mas a memória é traiçoeira de qualquer forma em comum apenas tem aquele careca lá em baixo não olhes a escrever num computador,

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Sim, não, pois, sim

tomaste banho, tomei, também?, sim, onde, lá mais á frente, estava fria?, um pouco, também achei, aqui costuma estar melhor, não estava mal ainda assim, acolá sente-se mais o mar, como?, o cheiro, cheira mais a mar?, sim, mas é mais fria e tem umas ondinhas, foste até às dunas?, não fui voltei um pouco antes de chegar, qual a distância?, até onde? até mesmo às dunas?, sim, três ou quatro quilómetros mas não tenho a certeza, ida e volta?, não só ida aqui a água estava boa?, fria como disse mas não sou muito friorenta, nadaste?, não nadei mergulhei e saí logo, com a maré cheia é engraçado ir até às boias, ah!?, vais descobrindo zonas mais quentes e mais frias, como?, como a água não é muito agitada não tem uma temperatura muito uniforme?, porquê?, o quê?, qual a razão de se formarem zonas com temperatura diferente?, não sei mas deve ser por ser pouco agitada que se mantêm, não dei por isso, também estiveste pouco tempo, sim, não reparaste que se boiares a água é mais quente à superfície, sim?, sim e a diferença é grande, não dei por isso foi só quase entrar e sair e tu nadaste?, dei umas braçadas, a água é mais clara?, sim revigora mais mas apenas dei as braçadas e saí, havia mais alguém lá a tomar banho?, não era apenas eu, não há mais ninguém naquela parte da praia?, a tomar banho não só pessoas a passar, ventoso?, sim um pouco mas nadar aquece, quando sais deves sentir muito frio com o vento?, um pouco e tu tens frio?, agora?, sim?, não agora não?, tu?, agora já não mas quando saí sim, pois, parece que já passou muito tempo desde que chegámos à praia, hoje?, sim hoje acho que é de se estar sem fazer nada deitado na areia, a apanhar sol?, sim a apanhar sol, recordas as horas a que chegámos?, deve ter sido pelas três, que horas são agora?, não faço ideia queres que veja?, não é necessário também ainda não deve ser muito tarde, não, alguma vez subiste às dunas, sim muitas, é difícil?, de seguida é, parando?, parando não gostavas de lá subir?, talvez, talvez outro dia?, talvez, hoje já é tarde, a vista é bonita?, sim é um ponto mais alto, pois, costumavas lá ir quando era miúdo? sim muitas vezes, mas não foste hoje?, não disse não, gostavas?, sim é muito engraçado descer a correr mas era maior, o que era maior?, a duna, a duna?, sim, ah porquê?, muita gente a subir e a descer menos vegetação, a vegetação segura a areia?, pois mas pode ser impressão minha, não deve ser faz sentido, pois por isso colocaram uma cerca, ah para impedir de aceder à duna, não para ir mais para dentro para onde estão as árvores e a vegetação, não estou a ver árvores e vegetação na duna, na duna mas lá mais atrás, aqui na praia também há vedação lá mais à frente entre a praia e a marginal, sim mas não foi sempre assim antigamente não era mas começou a desparecer a vegetação e a areia a vir para a marginal e colocaram a cerca, há muito tempo?, sim era miúdo, quando?, não sei talvez uns trinta anos, e parou?, parou o quê?, a erosão, acho que sim creio que agora há menos areia na marginal mas já cá não venho tão frequentemente, ah?! há quanto tempo?, há algum ou pelo menos não costumo estar durante muito, pois, queres até à esplanada, pode ser,

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Separação

está bem, vou caminhar até às dunas, queres vir?, hum, onde?, lá ao fundo, junto à foz do rio, não, obrigado, prefiro ficar aqui na toalha, então até já, até já, começa a caminhar pela areia molhada junto à borda onde os pés marcam um baixo-relevo que é galgado de água assim que é abandonado pela palma, vira-se de barriga para baixo esticando ambas as pernas empurrando a areia com a ponta dos dedos dos pés e enfiando a cabeça na areia de encontro à toalha, bate com a palma das mãos nos calções amarelos em movimentos amplos cadenciados de braços e dedos estendidos marchando, inspira profundamente da areia através da toalha um pó ar filtrado húmido fétido comichando as narinas esborrachadas com a força com que empurra a cana do nariz de encontro ao chão, vira o rosto para a abertura de mar agora que o vento lhe começa a chegar através dessa nesga aberta nas ravinas onde o mar ao longe faz assomos de vida e deixa que o aflorar dos pelos do peito pela ação do vento se lhe intrometam pelos olhos também, abocanha a toalha agigantando a boca mordendo a areia que se esvai entre os dentes formando uma bola que conserva entre os lábios grossos rangendo os maxilares enquanto abana lateralmente a cabeça soltando depois a toalha de lábios revirados e dentes descobertos espalmados no chão, fita a mínima onda que lambe a areia com uma espuma branca escura espalhando bolinhas de sabão baço amarelado ponteado de bolinhas mais pequenas iguais a pairar sobre um fina superfície molhada ao sabor do vento, solta-se do rosto enfiado no chão repousando a cabeça de lado com a orelha contra o molhado da saliva da boca da fome do morder e olha para longe para a duna onde pontos escuros entre o amarelo sombreado da tarde estacam subindo e descem saltitando, torce o tronco para trás medindo a distância percorrida já depois do passar das barracas imaginando onde estarão as duas toalhas enquanto aumenta a passada deslizando em direção ao chapinhar ténue da água abaixo dos tornozelos devido ao desvio imposto pela torção, deita os olhos ao encontro da água com a areia e percorre metodicamente o fio oscilante desde onde se encontra procurando encontrar um dorso terminado por uns calções amarelos compridos até aos joelhos acima de duas pernas que supõe andantes avistando de novo a duna não os calções trazendo agora os olhos em sentido inverso até onde se encontra sem sucesso, afigura-se-lhe a água mais límpida as ondas mais virtuosas engalanadas pelo vento que agora sopra mais forte já que aqui encontra toda a abertura permissão que não descura, dobra os joelhos de encontro ao peito traz as mãos à frente de ambos roda com o apoio dos braços ajoelha-se na areia antes de totalmente se erguer olhando a marginal com as costas sopradas por um bafo protegido pelas ladeiras castanho verdes casas, muda de rumo deixa a areia enfrenta perpendicularmente o mar esventra-se na água que sobe pelas pernas imobilizando-se quando sente o frio nos testículos, vira-se e desce lentamente para a água escura que lhe sobe pela pernas até à vagina imobiliza-se, mergulha, mergulha,

terça-feira, 20 de agosto de 2019

E depois as coisas ficam azedas

estás a dizer isso de propósito para me irritar?, sabes que eu sou crente, a igreja para mim é importante, mas o quê?, esse comentário acerca dos padres já não gostarem de mulheres, foi?, mas foste tu que disseste para ir à procura nas filas do voluntariado, e depois uma coisa puxa a outra, e ademais acho que podemos falar sobre isto de forma objetiva, sem ter nada de pessoal, estou certa que, de facto, os padres já não gostam de mulheres, lá estás tu, não, repara, qual era o crime do padre amaro?, nós não somos dessa época, mas recordo do meu pai contar anedotas antigas sobre casos de padres com mulheres, onde quase sempre havia essa figura que era o filho do padre, não é bem assim, sabes que também naquela altura tudo era mais tolerado, a sociedade era mais permissiva aos desvios, entre aspas, e por desvios quero dizer a uma coexistência entre dois tipos de comportamentos, um mais formal, de acordo com a norma, e outro informal, de acordo com as necessidades, deixa-me dar-te um exemplo, antigamente era normal atirar papéis para o chão, já para não falar cuspir ou escarrar, ninguém levava a mal, e hoje em dia se alguém faz isso sente logo uma pressão social, mas o que é que isso tem a ver com a dualidade de comportamentos?, está bem, talvez este exemplo não tenha sido o mais adequado, de qualquer forma, percebes o que quero dizer, era mais aceitável por exemplo a pequena corrupção, do tipo cunha, ninguém tinha vergonha de dizer que tinha oferecido algo ao professor, ouvi falar de histórias em que oferecer uma garrafa de uísque ao professor evitava o chumbo, por exemplo, ou ninguém reclamar quando se dava vinho às crianças, nunca ouviste falar das sopas de cavalo cansado?, desculpa, estás a dizer que hoje os padres também sentem mais a pressão social e é por isso que não se ouve falar de casos de filhos de padres, pode ser, e não só, repara que antigamente muita gente ia para padre por pobreza, por necessidade, hoje vai-se por vocação, ai, Humberto, acreditas mesmo nisso?, repara, o papa Francisco tentou lançar o tema do casamento dos padres e foi a igreja que não mostrou interesse, lá vem o padre Francisco como um santo na boca dos não crentes, ele é o favorito da esquerda, achas que ele é de esquerda?, claro que sim, então porque não fazem nada?, achas que a igreja existe há 2000 anos com levantamentos de rancho?, é por isso que são subservientes e depois não fazem o que ele quer?, mas voltando à questão, porque é que na maioria da igreja não há interesse no casamento dos padres quando é o próprio papa que levanta a discussão?, a resposta é simples, é porque os padres não estão interessados em casar, imagina, se o casamento se torna possível, e depois poucos ou nenhuns padres se casam?, os fiéis vão questionar-se, porque é que o nosso padre não se casa? será que ele é esquisito?, percebes?, é isso que irrita, quando colocas essa ironia, por vezes pareces muito ingénua, mas outras és bem sarcástica, Cátia, estou certo que o celibato é mesmo uma vocação, entendes?, tudo bem, não te chateies, tudo isto só por causa do Bernardo falar da tua infância,

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Sobre o coração do homem de ferro

quem é o Bernardo?, então não vês?, é um fala-barato, oh, o Humberto não gostou de rever um amigo de infância... não é isso, mas vê-se bem que ele não se cala, uma princesa, ora, ora, e tu o homem de ferro, quem diria, como foi que ele disse?, reservado e frio, Humberto o thatcher aqui do areal, perito a cortar a bola, não ligues muito ao que ele diz, sabes que eu até nem gostava muito de futebol, por isso é que cortava bem a bola, era por desdém, estás a gozar, isso não faz sentido nenhum, como não gostavas de futebol?, são estas coisas de grupo, és rapaz, tens que ser como os outros rapazes, joga-se à bola, joga-se com os outros, por isso era defesa, eles queriam ser todos avançados, para mim o que me dava satisfação era cortar-lhes o jogo, retirar-lhes a emoção que tinham e que me obrigava a jogar, eu jogava, mas eles não marcavam, ui, isso já é muita psicologia, aqui o Humberto não é pera doce, as esquerdas que se ponham a pau, ainda que não tenha sido essa ideia com que fiquei quando me falaste da Catarina, parecias mais um cordeirinho com das tuas idas à casa dela a comer bolo de chocolate e a beber limonada, um rapaz muito educado..., pois é, lembras-te de tudo, foi da conversa da Joaninha na exposição do Banksy, claro, uma princesa anda sempre a tentar encontrar onde está o coração do seu homem de ferro, resguarda-se, não pode andar por aqui por desdém, não sei se é muito boa estratégia procurar um coração no homem de ferro, não seria melhor encontrar logo daqueles de carne e osso que já anda com o coração na mão, sei lá, inscreveres-te num voluntariado qualquer e depois ver os homens que por lá andam, teria a vantagem de que à partida já teriam todos coração e depois poderias ir acrescentando algumas caraterísticas adicionais, tipo serem giros, ou ricos, ou outra coisa qualquer, como se diz, toppings?, pois é, mas eu gosto de riscos e essa abordagem seria muito comezinha, sabes que uma mulher que ser preze gosta de construir o seu homem, possui-se mais o que se constrói do que o que já existe, ah, muito bem, deixa ver, é a diferença entre comprar ações de uma empresa ou ter as ações por ser o seu fundador?, isso mesmo, o Humberto está sempre a puxar para os temas liberais, mas isso não é muito abonador da liberdade que queres dar ao outro, como assim?, então, se ele é a tua construção o pobre coitado pouco existe para além do que dele fazes, ai, Humberto, não percebes nada de mulheres, não percebes que nós somos muito cuidadoras, e para além disso, eu não disse que o coração não estava lá, disse que somos capazes do o revelar, e sim, é um egoísmo, pois é um coração só para nós que o descobrimos, queremos que ele continue a ser um homem ferro fora de casa, enquanto que esses que andam com o coração sempre nas mãos, sempre a praticar o bem nos outros, quase que não se podem mostrar às amigas, sabes, é como ser a mulher de um padre, aqui em Portugal não, que os padres já não gostam de mulheres, mas já reparaste bem nas mulheres dos pastores anglicanos?, digo isto pelo que vejo na televisão, parecem-te felizes?, como mulheres, claro,

domingo, 18 de agosto de 2019

Humberto, o homem de ferro

ó meu amigo, esta é uma praia séria, não vê as crianças?, então Bernardo!, estás bom?, ah, Humberto, estava a brincar, a tua mãe já me tinha dito que estavas por cá, quem é a princesa?, é a Cátia, este é o Bernardo, um amigo de infância aqui da praia, então foi você que desviou o Humberto das tarefas de oposição ao governo e o trouxe de regresso às origens?, não é que a censure, já há algum tempo que ele está dado como desaparecido entre este círculo de amigos, se o quisermos ver tem de ser na televisão, até já estava a estranhar que nesta semana nem isso, e afinal vens aqui para a areia incógnito, será que passaste para a clandestinidade?, olha que as esquerdas, que como todos sabemos, gostam muito pouco de trabalhar, resolveram não tirar férias, nada como uma greve para as baralhar, mas já viste que ninguém se levanta para apoiar os pobres dos motoristas, Humberto, Humberto, não seria de fazer mais alguma coisa, sim, sei que princípios são princípios, mas por princípio nunca se deve dar descanso aos adversários políticos, senão para o que é que serve a democracia?, esta generalidade do bem de Portugal é o normal dos estados totalitários, se não houver oposição qualquer governo consegue governar para o bem da nação, é como ter um campeonato de futebol de uma só equipa, ganha sempre o campeonato e não há quem jogue como ela, nem sabes como acertaste, Bernardo, olha que era isso mesmo que a Cátia me estava a dizer, quando tu chegaste, muito bem!, estou a ver que ela, para além de ser capaz de te tirar do saco, ainda de trouxe de volta às origens e para além disso também te dá bons conselhos, os meus parabéns, Cátia, o Humberto desta vez acertou em cheio, assim tem desculpa este interregno, até te desculpo o preparo em que estavas, já há um pouco que estava ali em cima e pensava, que é aquilo, e depois parecias tu, mas não parecias tu, é o Humberto, não pode ser o Humberto, nunca vi o Humberto tão entusiasmado, sabe que ele era conhecido entre aqui os amigos como o homem de ferro, isso claro foi no tempo da dama de ferro, da Thatcher, ainda não tínhamos nós 10 anos, mas o Humberto sempre foi muito reservado e frio, e claro que gostava do cognome, jogava futebol à defesa e era perito em cortar a bola, por isso é que não me parecia o Humberto, ao princípio pensei, não pode ser o Humberto, mas se é o Humberto, de certeza que saiu da caixa, pois é Cátia, aqui o Bernardo continua o mesmo brincalhão de sempre, é imparável, não era eu que era reservado, era o Bernardo que falava por todos, olha que não tenho a certeza disso, quem agora te houve a falar, és uma máquina, como foi que aquele comentador te apelidou?, ah, já sei, o logiciel politique, e acho que o facto de ser em francês foi um indireta às suas origens, que o Humberto aprendeu francês e a tocar piano, e agora tem uma lógica que arrasa, achas que foi?, Bernardo, ah, ah, ah, estou a brincar, até parece que não me conheces, olha, ainda vais estar por cá mais algum tempo?, temos que combinar nos encontrar, está por cá a malta, e de certeza que te vão querer voltar a ver, e aqui à Cátia, claro, que trouxe o Humberto de volta,

sábado, 17 de agosto de 2019

Merda, sou lúcido, ou não tanto

Humberto, Humberto, Humberto, não devias ao menos fazer uma declaração, disse Cátia dando meia volta, colocando-se de lado sobre a toalha, virando as costas a Humberto, como quem mostra desagrado, ou pelo menos algum enfado, essa tua passividade, aqui sobre a toalha, esse teu ajuizar, que pode estar muito certo, mas já li algures que a lucidez é o principal inimigo da ação, quase que aposto que houve alguém que disse isto, quem?, terá dito algo do tipo, merda, sou lúcido?, sim, sim, acho que foi isso, pois, é do pessoa, que não ia à praia e deu a um pedinte tudo o que possuía no bolso onde tinha menos dinheiro, tentou declamar Humberto de barriga para o ar gesticulando com ambos os braços em gestos arredondados, sim, exatamente, animou-se Cátia, procurando entreolhar-se, sobre os ombros, com um Humberto que já se poderia ter levantado, ou fazer intenção disso, mas que continuava deitado com o sol no peito, queres dizer que essa declaração deve ser assim, dada com o que tenho no bolso onde tenho menos dinheiro?, ignorando o que tenho no outro?, onde está o que realmente sei?, reduzindo tudo a trocos?, levou Humberto as mãos aos grandes bolsos dos calções de banho amarelos, como dois pontos de interrogação, então não!?, acho que estás a apanhar muito sol e que estranhamente ele te enche de melancolia, parece que tenho de ser eu a ensinar-te política?, e agora até sou também capaz citar pessoa, imagina que é uma declaração para o Esteves sem metafísica nenhuma, o que queres?, estás aqui, és o líder!, o Esteves quer ouvir o que tens a dizer senão vai pensar que já não gostas dele, dele que é convicto por profissão, ah, percebo, Cátia, urges-me a falar para as bases, disse Humberto questionando-se, sim!, claro!, a política tem horror ao vazio e podes ter a certeza que não é com declarações dizendo que o que te move é o bem de Portugal que o preenches, Humberto ri alto, ri muito alto, erguendo-se sobre os antebraços por forma a conseguir olhar para o rosto de Cátia, ai Cátia, há quanto tempo estamos juntos?, mais ou menos desde as europeias, que foram em finais de maio, portanto ainda não há três meses, e já dizes que a política tem horror ao vazio, sabes?, olha com ternura Cátia enquanto se coloca sobre ela, fazendo uma ponte com os braços esticados, um de cada lado, e esta se aninha sobre a toalha com uma expressão indefesa infantilómalandra, diz-me, minha pestezinha, és bem capaz de ter razão, mas de onde te vem agora esse interesse pela política?, ai, não sei, deve ser de conviver com o grande Humberto Mascarenhas, da direita liberal, e depois, sabendo o que vou sabendo sobre o Dr. Mascarenhas, sussurra Cátia, juntando as mãozinhas à frente e fitando Humberto pelo canto do olho, e o que é que vai a minha menina sabendo?, Humberto dobra os cotovelos, ameaçando deixar cair o corpo sobre Cátia, sei lá, que quando quer o Dr. Mascarenhas também sabe ser impulsivo, ui, só de imaginar, que não precisa se deixar levar em melancolias, que é lúcido, e está muito bem, mas não fica mal colocar um bocadinho mais de emoção, diz Cátia acenando convictamente com a cabeça,

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Uma pequena escapadela de volta à política

mas estamos para aqui sobre as toalhas, com estas conversas sobre as interioridades, com a maré veraneante a subir na ronha, e do outro lado, logo ali acima, logo a partir da marginal, a ameaça do país ser paralisado pela greve dos camionistas, Humberto, não achas que seria de fazer alguma coisa?, vejo-te tão descansado, pois é, até parece que estás aqui a falar comigo e a ler os comentaristas, deixa-me adivinhar, estão agora a dizer que os motoristas até têm razão e que o carro do pardal é irrelevante e que a direita não faz nada, sim, é isso que dizem, sabes, para perceber os comentaristas não é preciso lê-los com frequência, necessitas apenas de saber de vez onde se encontram, depois é como um pêndulo, vão e vêm, a não ser que aconteça algo de verdadeiramente excecional, caso contrário sabemos que estão sempre a antecipar um pouco o movimento da realidade, sempre a dar uma pequena corridinha para preencher o vazio que se lhe abre adiante, não muito, claro, que não são filósofos, mas um pouco à frente, só quando acontece algo de verdadeiramente relevante é que temos que os observar de novo para saber qual a nova direção, que por imposição da realidade, foi imprimida ao movimento do pêndulo, e aí, coitados, és capaz de os surpreender a dizer exatamente o contrário do que lhes antes ouviste dizer, e lá passa o Boris de bestial a besta, e de volta a bestial quando chega a primeiro ministro, e de regresso a besta de novo a 31 de outubro, é o poder das palavras, entendes?, mas acima de tudo, e isso é o que qualquer político sabe, se tens o poder és bestial, quando o perdes és uma besta, mas se queres uma imagem mais próxima, é um pouco como a ronha desta maré que aqui vem a subir, tenho a certeza que me consegues dizer onde estará daqui a pouco, os comentaristas são um misto de adivinhadores do óbvio e alvitradores das vantagens do que nunca irá acontecer, a utilidade deste último caso é que nunca poderão ser desmentidos que a solução que propõem não resultaria, e sempre poderão dizer, eu bem dizia, mas olha que é uma capacidade fundamental para a sobrevivência e que, graças a deus, está embutida no código genético da espécie humana, é olhando pela janela que decidimos se levamos, ou não, guarda-chuva, ai, Humberto, deixa-te desta ironia de areia, achas mesmo que não deves tirar algum proveito desta greve?, logo em período pós-eleitoral, pois é Cátia, é triste, mas é verdade, o que pode fazer a direita quando uma greve no setor privado ameaça um governo de esquerda com uma grande possibilidade de poder vir as ganhar as eleições e ficar à frente da economia nos próximos quatro anos?, se houvesse alguma possibilidade de não ganharem então poderia talvez o setor privado exigir desregulamentação, e esta greve não era uns poucos a tender para zero, mas sim um mais um igual a dois, os trabalhadores a pedir mais condições e as empresas também, só que aqui ninguém é parvo e quem tomar conta da economia nos próximos anos tem muito para dar, é por isso que estamos nós os dois a falar de interioridades, sobre estas toalhas, no areal, entre o mar e a marginal,

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Ah, o Afonso, segundo Cátia, questionado por Humberto

onde está o Humberto pragmático?, perguntas tu, onde está a Cátia namorada do Afonso?, pergunto-te eu, ah, o Afonso, também era nova, como tu, talvez um pouco mais velha, teria 24 anos e o Afonso 30, parece-me agora, passado este tempo, que fui como uma praia que acolheu um naufrago, e sabes, uma praia é um areal, como este aqui, é um ponto intermédio, entre a maré lá em baixo que já começa a encher, com a água a avançar em direção aos nossos pés, e a marginal ali em cima imóvel, também ele, como tu, pelo que me contas, vinha de uma qualquer oração, esteve algum tempo em coma por causa de uma overdose, sabias?, sim, sei, a namorada dele morreu, uma Susana, sim, a Joaninha contou-me, ele não falava dela, para ele parecia não ter existido, tal como esse passado, não que o negasse, porém não falava dele, não parecia fazer parte da sua experiência, para além de um ou dois episódios anedóticos, pelo que quando ele abriu os olhos, depois de ser cuspido pelo mar, deve ter sido como acordar numa cama e não recordar como se lá chegou, e aconteceu ser a mim que viu, eu tinha 24 anos, como te disse, e deixei-me enfeitiçar por aquele olhar, tomei-o como meu, sabes, o espanto de um rosto cobre com um véu platónico o que vê, eu não era a Cátia, era uma enorme catedral, ou um gigantesco desfiladeiro, imagina se o grand canyon pudesse sentir o assombramento que provoca nos seus visitantes, o seu poder, contudo, por outro lado, e isso levei algum tempo a perceber, a sua impraticabilidade por ser grande demais, não é por desceres pelos seus desfiladeiros até lá abaixo junto ao rio, nem por o sobrevoares, que o tomas como teu, era platónica a relação?, talvez, mas era mais uma relação platónica comigo mesma, eu era simultaneamente aquela que admirava o desfiladeiro e, simultaneamente, era o desfiladeiro admirado, sabes, como num fenómeno de identificação com um filme, não te identificas com um dos personagens, identificas-te com toda a história, e o Afonso?, ah, o Afonso, como te disse, chegou à praia onde viveu por um tempo, passou por lá o dia a dia, tratou das tuas miudezas, e a pós-dependência do Afonso era obsessivamente metódica, a dependência é uma criação de hábitos, recordas a Joaninha dizer que ele era um pouco obsessivo, o Afonso contava uma história engraçada, tinha ido a um festival de verão e um dia acordou de manhã cedo com um tipo a gritar na tenda ao lado, foda-se!, estou farto de dizer que a faca do haxe não é para a manteiga, acho que de alguma forma isso descreve um pouco a nossa relação, depois de Afonso ter vindo de uma viagem arriscada ficou com pequenos tiques de sobrevivência, repetitivos e aborrecidos, regrados, que nos meus 24 anos eu tomei como formando as paredes, ruas, e esquinas do meu mundo, levei tempo a perceber que não tinha de ser assim, quantos anos estiveste com ele?, quase seis anos, e depois?, depois pode-se dizer que foi como tu, saí do armário, ah, Cátia, parece que temos algo em comum, talvez, mas eu tive de sair de um armário onde de livre vontade me deixei fechar e o teu foi feito de uma falta de alternativa,

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Oh, o Armindo, segundo Humberto, questionado por Cátia

quem é o Armindo, Humberto?, isso pergunto-te eu, que Armindo surge em o mistério, Cátia?, já li há algum tempo, mas pelo que recordo, é um adolescente, forte, abrutalhado, para o redondo, que revela uma sexualidade hesitante, entre o Zé e a Joaninha, embora a atração pela Joaninha desperte quando ela mostra que não o teme, filho de um bruto e uma mulher engelhada, curioso, ele nunca me falou do pai, mas falava frequentemente da mãe, foi teu namorado?, mais ou menos, há muitos anos, talvez mais de vinte, nessa altura fiz muita loucura, difícil dizer que era namorado, até porque ele tinha outros, sim?, e isso não te incomodava?, não, eu era muito novo, estava a descobrir a minha sexualidade, a sair do armário, como se diz, nessas alturas acabas demasiado concentrado com o que te está a acontecer, é como se a mente tivesse soltado o corpo e passasse depois todo o tempo a o observar, não se conseguindo concentrar em mais nada, a não ser no que lhe chega através dele, levei uns anos até que a mente voltasse a ser senhora, a retomar o comando, até lá a minha sexualidade foi puramente empírica, sintetizava as experiências que tinha, não conseguia, ou nem sequer procurava, impor um modelo, uma regra, mas, ele era abrutalhado, como o Romeu o descreve?, quando o conheci ele já tinha quarenta e muitos anos, quase cinquenta, mas continuava um diamante em bruto, com uma ternura infantil, por vezes pensei que ele pudesse ter qualquer coisa de idiota, havia uma intensidade tremenda e um desinteresse igual, não parecia querer possuir nada, para mim foi um choque, possuía intensamente e depois desaparecia, não sabia dele, e, como te disse, habituei-me a isso, embora não tivesse tido outro naqueles dois anos, como disse, não era namorado mas guardava-me para ele, mas isso não te deixava ansioso, ciumento?, sim, é engraçado, há estados de plenitude em que nem pensas nisso, mas também não tenho a certeza que tenha sido isso, talvez mais uma cegueira, como te disse a mente tinha soltado o corpo e apenas olhava para ele, para sentir ciúme talvez tivesse de imaginar outros corpos, o que te atraiu nele?, conheci-o por acaso, numa discoteca, ele era mais velho, mas foi o oposto daquelas atrações por homens mais velhos guiadas pelo status, sabes, tipo descapotável, o que recordo logo é o corpo, fazia musculação, um pequeno adónis, sim, é verdade, um pouco para o redondo que o ginásio mantinha maciço, silencioso, sim, acho que era isso, o silêncio do corpo dele, entendes o poder do silêncio para um corpo que está em ebulição, que não tem descanso, que não dá descanso, quando encontra outro que impõe respeito, é como um altar onde fazes a tuas preces, onde vais em tormento à procura da paz, ah, o Armindo, até na morte se manteve assim, silencioso, idiota, a única coisa que desapareceu foi o corpo, como uma religião que se expurga de representações, e para mim era muito fácil, sabes, é muito fácil amar o transcendente, talvez seja essa a resposta que te posso dar acerca da questão do ciúme e da ansiedade, surpreendes-me, onde está o Humberto pragmático, Humberto?,

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Agora sobre L’Ancien Regime, Humberto e Cátia

mas uma coisa que me surpreendeu foi como o Romeu acabou por fazer uma descrição tão à letra em l’ancien regime, pelo menos no que diz respeito à história da Joaninha e do Zé, não é preciso muito para perceber que é deles que se trata, mais ao menos, talvez pela história de antifascista do pai da Joaninha, e os nomes deles os dois e mais alguns dos outros personagens, os Aires, por exemplo, mas tudo o resto foi inventado, ele usou as pessoas reais para construir uma história que pouco ou nada corresponde à realidade, pelo menos segundo a Joaninha, recordo que era frequente, quando jantávamos juntos, ela se meter com ele, dizia-lhe, aqui o nosso Romeu é o oposto daquilo que os fotógrafos eram para alguns povos indígenas, ele roubou-nos os corpos e os locais para depois lá colocar as almas que lhe apraz, e então ria, e dizia, bom, no meu caso que sou materialista, só posso dizer que o Romeu nos roubou tudo, pelo que ele me atemoriza tanto como os fotógrafos atemorizavam os índios, veja-se só as obras do realismo soviético, acrescentava para o desafiar, ela gosta mesmo dele, como te disse, a sério?, ela disse isso?, achas mesmo que a história de l’ancien regime tem pouco a ver com a realidade?, sim, pelo menos era o que ela dizia, mas vá-se lá saber?!, e o Zé falava alguma coisa sobre esse tempo?, o Zé nunca falava do assunto, mas sempre que a Joaninha dizia que o Romeu tinha inventado toda a história, se o interrogávamos com o olhar, ele apenas retorquia ui!, ui!, ui!, ui!, sabes que eu apenas tive conhecimento que o Armindo era amigo deles anos mais tarde, depois de ele ter morrido, quando vi l’ancien regime, primeiro por ser do Romeu associei com o Zé a Joaninha, e depois fui recordando o que o Armindo me contava sobre a terra dele, os nomes das pessoas e algumas histórias, tu conhecias o Armindo?, sim, conhecia, ah!, mas então a história da morte do capitão simões nunca aconteceu?, acho que não, pelo menos a Joaninha dizia que o pai esteve preso por ser comunista, nunca foi acusado de ter morto alguém, embora tenha havido de facto um capitão simões que apareceu morto no chão junto à cadeira no posto da guarda onde era o comandante, mas não parece que tenha sido considerado um homicídio, a história do garrote foi completamente inventada, conheceste portanto o Armindo, sim, conheci, como disse, foi só quando vi na televisão que associei com algumas coisas que ele me contava sobre locais e pessoas que tinha conhecido, pelo que um dia encontrei a Catarina e perguntei-lhe se ela o conhecia, e ela recordou que os pais tinham comentado um dia, olha, o Armindo morreu, parece que foi sida, mas, olha, isso do capitão simões não ter morrido com um garrote tem piada, pois uma das partes mais engraçadas foi a disputa entre a carta e o bigode chinês, tem de se concordar que foi arrojado terem feito aquilo em televisão, ainda por cima numa novela, com que então o Humberto conheceu o Armindo..., como sabes tu do Armindo?, eu li a segunda parte, que vão filmar agora, o mistério, em que ele surge, mas, segundo a Joaninha, esta parte ainda é mais fantasiosa que a primeira,

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Humberto e Cátia acerca de Romeu

Sabes, comenta Cátia na maré baixa, que parece que vão fazer uma segunda temporada de l’ancien regime, creio que se vai chamar o mistério, o quê, aquela história do Romeu?, sim, parece que sim, já está escrita há muito tempo, na altura, quando a cancelaram ao fim da primeira temporada o Romeu ainda apareceu a falar da segunda, creio ser sobre o fim da infância, princípio da adolescência, da joaninha e do zé, acho que recordo alguma coisa, ele não fez algum burburinho quando cancelaram a segunda parte?, até se queixava de perseguição, mas depois tudo se desvaneceu naquelas insinuações que surgiram nas revistas cor-de-rosa acerca das amantes que tinha, de um caso com uma atriz francesa, não era?, sim, a famosa Sylvie, mas parece que era apenas a ponta do icebergue, sim, essa mesmo, pelo que vi numas fotos, uma matrona, uma balzaquiana, quem diria, o Romeu, quando o conheci no secundário era o certinho dos certinhos, ui, sim, na altura eu ainda andava com o Afonso, foi um problema e peras, nem imaginas, e não vais acreditar quem mais o defendeu, quem?, imagina só, a Joaninha, é uma mulher muito estranha, mas idolatra o genro, e o genro é de direita, mas é assim, ela com os homens tolera tudo, o Zé, o Afonso, o Romeu, com as mulheres é sempre mais complicado, nem imaginas como era comigo, então? viste-a na exposição do Banksy, só falava contigo, quando dizia algo referente a mim era como se já estivesse conversado, eu estava ali apenas como exemplo, tu eras quem ela se estava a medir, és capaz de ter razão, mas voltando ao Romeu, é-me difícil perceber como é que isso aconteceu, ainda recordo quando andava com a Catarina e ele apareceu, fiquei completamente arrasado pela certeza e segurança que ele tinha em tudo, fez com que a Catarina passasse de mim para ele pelo caminho das pedras, foi muito suave, eu quase que não dei por nada, quando foi já estava feito, pois, sim, creio que teve daquelas educações muito certinhas, muito corretas, sabes quem foi o tio dele?, ele foi educado por forma a nunca sair dos carris numa altura em que tudo andava a descarrilar, sim, sei, pois, então, acho que aquilo ou dá num pãozinho sem sal muito bem comportado, ou então é como um relógio disparatado, não avariou, continuou a trabalhar, esse foi o problema, mas depois as horas nunca batiam certas, mas quem é que ia dizer que ele não estava a funcionar bem?, tirava-se do bolso, olhava-se para ele e ouvia-se um tique-taque, tique-taque, bem certinho, mas depois levantava-se a tampa e andava completamente destrambelhado, e a Sylvie foi a mais mediática, mas houve outras bem mais selvagens, e a Catarina?, a Catarina é como a mãe, não vai abaixo facilmente e aquilo só se resolveu-se recorrendo uma conjugação de forças terrenas e celestes, a sério?, o quê?, estás a brincar comigo?, não estou nada, eu que na altura estive por dentro sei bem, foi hilariante, e uniu todo o espetro político, parece agora a greve dos motoristas de matérias perigosas, ah ah ah, e como está ele agora?, não sei, parece bem, parece fazer tique-taque,

domingo, 11 de agosto de 2019

Ainda sobre as toalhas, Humberto e Cátia

Ai, Cátia, também não é tanto assim. Humberto dá uma volta sobre a toalha, evitando colocar as mãos na areia, sentando-se com as pernas fletidas, cotovelos sobre os joelhos, queixo sobre os punhos fechados, de cara defronte ao mar. Isto é tão tranquilo. Foca a embocadura onde uma costura de espuma branca sela as escarpas descendentes, saltitantes, entrecortadas, em direção à água. Olha para as crianças a brincar, achas que não estão na praia? Gira ligeiramente a cabeça, deslizando o queixo sobre a passadeira rolante de dedos ajustados, varrendo com os olhos a pele escura de Cátia, toda de costas, os calcanhares, as costas das pernas, as costas das nádegas, as costas das costas, os omoplatas, os ombros de costas, as costas do pescoço arqueado, até às costas da cabeça com a testa de encontro à toalha. Não sabe bem estar aqui e sentir o calor do sol no corpo? Cátia apoia-se sobre os braços, dobrados pelos cotovelos, amplificando o arco, despegando o peito da toalha, primeiro, depois elevando ligeiramente as ancas, arrastando as pernas, deixando um sulco na areia fina, vira a cabeça na direção de Humberto, apoia lateralmente a cabeça sobre a toalha, contrai o rosto de cima para baixo, da testa para o queixo, alargando-o de lado para lado, de face para face, descrevendo um risco aumentando pelos lábios prolongados, e diz. Sou uma chata, não sou?, Humberto, e nos últimos dias, então, tenho andado impossível, não tenho? Humberto retira as mãos do queixo, leva a direita à procura da orelha, que aperta entre os dedos e resguarda com a concha da mão, segurando a cabeça, e com as pontas dos dedos da direita percorre o enorme sulco de arrependimento, e diz. Não és nada. E repete. Não tens sido nada, Cátia. Cátia, dá uma pequena reviravolta, levanta a cabeça da toalha, coloca-se de lado, apoia-se no antebraço, com a mão já sobre a areia, e o braço esquerdo ao longo do corpo com a palma da mão arqueada, os dedos pendentes, e as pontas das unhas marcando quatro pequenos sulcos na pele onde pousam, enquanto o polegar se entende sobre a coxa castanha regalando-se com a unha vermelha. Estás a ser simpático, sabes bem que nesta última semana nunca estive satisfeita com nada, sempre a implicar, até podia dizer que estava com o período, mas nem isso, não sei bem porquê, mas só me apetece chatear-te. Humberto deixa-se de lado, a perna direita sobre a esquerda, apoia a cabeça na mão, e diz. Não dei por nada. Não me parece que tenhas estado a chatear-me, mas se calhar foi alguma coisa que eu fiz, alguma coisa que não gostaste. Não sei Humberto, até agora encontrávamo-nos principalmente à noite, muitas vezes até mesmo no fim de semana, pois tu tens sempre coisas para fazer, e os breves momentos antes de dormir e depois de acordar eram particularmente preenchidos, com histórias para contar, comigo com curiosidade de saber da tua perspetiva sobre alguma coisa que tivesse acontecido, ou que se discutisse, mas agora passamos todo o dia juntos, acho que não estou habitada. Olha, olha, Cátia, não quero parecer preconceituoso, isso não parece ser coisa de mulher.

sábado, 10 de agosto de 2019

A praia de Humberto, segundo Cátia

Ai, Humberto, esta não é a minha praia. Gosto de areia, sim, mas de areia a sério. Esta aqui não tem personalidade, agarra-se entre os dedos com a falta de independência de quem vive na peugada de outro. Não nos larga. É uma sombra de areia, é o que ela é. Sim, já disseste que é depositada na baía pelo rio lá ao fundo, mas que interessa isso, justificações não fazem destinos. Ela é isso mesmo, uma pretensão de mar trazida de terra, uma areia de trazer por casa. E depois, claro, há esta ausência de mar. Mar rima com ondas onde te possas afogar, e aqui é tudo tão tranquilo. Estas lambidelas na areia são a submissão do fraco ao enfraquecido, e a maior prova deste conluio de vencidos é essa mistela que fica aqui a boiar turvando o olhar, a água e a areia enroladas, incólumes à força da gravidade, como que conspirando. Uma mão lava a outra e as duas lavam as costas. Pois, uma finge-se areia e a outra finge-se mar, e se não se denunciarem podem então afirmar que são praia, e não há quem as contradiga. É uma negação das leis da natureza, e esta encenação está para uma praia como um jardim zoológico está para a selva. Ai, Humberto, trouxeste-me e eu vim, e agora estamos aqui os dois sobre as toalhas com aquele lambe, lambe, lá em baixo, sem um ameaço de onda que nos faça dar um salto e puxar das roupas numa corrida. Sim, concordo que tem uma certa beleza geométrica, uma perfeita concha, mas é vista de fora. Foi o tato vendido pelo preço do olhar. Uma inevitabilidade, tu dirás, acostumado que estás ao compromisso político. E se calhar tens razão. O prazer pela harmonia das formas acabou por suplantar o do tato. Somos atraídos pelos olhos, eu sei, mas depois deviam colocar um aviso, como nas exposições de arte, por favor não tocar, não danifique a obra de arte, deixe que as futuras gerações possam também desfrutar. Ah, o prazer do olhar das futuras gerações e o enfado da universalidade. O futuro é puramente geométrico e deviam contratar japoneses para começar já a desenhá-lo. Uma elegância tão sadia como intocável. Tão suave como retilínea, até mesmo nas linhas curvas, que possuem a única retidão possível num mundo redondo. O futuro explicado por amplos movimentos de braços e leves acenares. Pronto, aquiesço, é uma concha perfeita, mas depois gostava de me atirar a ela, enterrar as mãos na areia e tirá-las para fora, não sujas pelos materiais utilizados pelo artista, mas a brilhar de pedrinhas de areia, convictas do corpo a corpo com as ondas, habituadas a serem engolidas e cuspidas de volta, é isso que as torna escorreitas, como um corpo moldado pela corrida. E depois gostava de me poder levantar desta toalha, Humberto, não para me banhar em belas formas, não para me submergir matematicamente, de acordo com uma fórmula qualquer, que equacione o suave declive com a brandura do ondular, mas para me afundar pelo súbito declive baralhado pelos picos das ondas. E aqui estamos nós sobre as toalhas, Humberto, contando o tempo com os dedos dos pés, empurrando a areia de encontro ao encher do mar.

domingo, 28 de julho de 2019

Humberto e Cátia entram na Silly Season

Desculpa-me que te diga Humberto, mas parece que tu entraste na silly season ainda em julho. Como assim? Então, onde foste desencantar aquele artigo de opinião que escreveste para o Opinião Publicada? Qual?, o da Direita e as Espécies Autóctones? Porquê?, escreveste outro?, não me digas que foi na Playboy?, deixa-me adivinhar... sobre a direita e as mulheres de leste com mais de um metro e setenta e cinco de altura. Lá estás tu na brincadeira. Então não, ateiam o fogo às espécies autóctones, e com a vantagem de fazer correr as populações para as labaredas, e não das labaredas, a se virem queixar será apenas delas próprias, lá está o princípio da responsabilidade individual, quem não tem unhas não toca guitarra, embora não sei o que dirá o senhor bispo, mas, tirando isso, assenta bem à direita, já que é um negócio bem liberal, não pagam impostos, se querem saúde têm de ir ao privado, que presta um muito melhor serviço, como elas próprias, que sabem como é, o sexo sem a muleta do amor, num ambiente verdadeiramente concorrencial, é à séria, sem a ajudinha do estado a amparar a ineficiência com os seus contratos de trabalho, a coisa menos bem feita e o cliente não fica satisfeito e não volta, e o seu patronato rege-se pelas regras do mercado, se o negócio corre mal também não vêm cá pedir a ajuda do estado, têm é que resolver as coisas com uma mais eficaz gestão da sua força de trabalho em vez de concorrem a algum subsídio da europa, mas com a vantagem de não haver cá regulamentações para atrapalhar, podem despedir as preguiçosas que apenas sabem abrir as pernas e fechar os olhos. Ui, tu hoje acordaste com a corda toda, passaste a noite a sonhar isso, ontem quando nos deitámos não estavas assim, parece-me que já sei quem foi que entrou na silly season. Ai, desculpa-me Humberto, acho que deve ser inveja, se não fosse morena gostaria de ser uma loira volátil, acho que é um dos meus fetiches sexuais. Ai sim? Sim, não sei, se calhar o que sonhei esta noite foi que pegavas em mim pela cintura, dava-me a volta, dobravas-me sobre o teu colo, de rabo para o ar e me davas umas valentes palmadas só para veres o meu rabo vermelho de fogo e a cabeleira loira a esvoaçar em labaredas azuis, violeta, amarelas, com tal violência que não haveria bombeiro com coragem de lá aproximar sequer a mangueira. Ui, isto está mesmo mal, onde foste desencadear isso do bombeiro. Ai, Humberto, não percebes nada, o que quer uma loira volátil senão um senhor que saiba conter o seu fogo, que não a deixe andar para aí ao deus dará. Faixas de contenção? Lá estás tu com burocracias, pareces mais da direita salazarista do que da liberal, não há faixa que contenha o fogo de que falo, a história está cheia de histórias de valas galgadas, muros trepados e varandas escaladas, nunca leste o Boccaccio, o que são os fogos florestais ao pé dos ardores de carne humanos?, a não ser a aparente paz que deixam depois de passarem, a ilusão que não voltam. Ui, estou a ver que a silly season vai ser animada. Não sei não, tens é de te ir preparando para uma nova ordem, para o fim desta norma patriarcal.