domingo, 19 de maio de 2019

O Dr. Humberto Mascarenhas abafa a palhinha, faz o trólóró

O Dr. Humberto Mascarenhas abafa a palhinha, faz o trólóró, joga à macaca como as meninas, ora gira para cá, ora gira para lá, antes de ir fazer o óó. Do que gosta ele sei eu, é do carapau, e de certeza que o prefere com o azeitinho avinagrado, à moda do molho de escabeche. Nã, ele deve é gostar do robalo enfornado, já todo estaladiço, com a pele a saltar, já quase a perder o viço. E porque não o pernil no forno, com as suas partes gelatinosas, em torno do osso nodoso. Ouvi dizer, e apenas aqui vos o repito, que do que ele gosta mesmo é de bacalhau com todos, que não lhe bastam as lascas escorregadiças do gadídeo, também tem que encher a boca com o grão, como um ouriço. Mas olha que não foi isso que ouvi, embora acredite piamente que também seja verdade, mas de um restaurante de que ele é useiro e vezeiro, contou-me um empregado, que não larga a porta para comer o cozido, e do que mais gosta é da morcela, para já não falar da farinheira. Ah, então, se o que ele gosta é de enchidos, sem temor me deito aqui a adivinhar, que de certeza os maranhos o farão delirar, que muito deverá ele de gostar de mordiscar os grãos de arrozinho. Agora que falas de maranhos, por alguma razão, vem-me à ideia o Brasil, onde não sei se há veado, mas se o houver, quando lá vai em viagem de estado, deve-o comer estufado. Pois, é o doutor muito viajado, que se for à Hungria enche o papo de gulache, que é um caldo de carnes baloiçantes, e dizem que bem picantes. Mas, olha que de lá já correram com os turcos, mas ainda assim, o Dr. Humberto Mascarenhas que é todo liberal, de certeza não perde a oportunidade de dar um saltinho mais a sul para comer um kebab. E agora que anda pela Turquia, é homem de meter o bedelho, se não mesmo a bilha, no conflito israelo-árabe, nem que seja para se deleitar com húmus. Na sua ânsia de estadar, muito mais para leste ele deve gostar de viajar, só parando quando encontrar uma gastronomia em que para comer sejam necessários dois pauzinhos. Ui, ui, ui, já o imagino com o sashimi, do mais vermelhusco salmão, quase ainda vivo e derretidiço, apertadinho entre dedos em direção à boca. Para mim, e olhando para a figurinha, tem gostinhos mais refinados, sobe de certeza à Rússia, onde o Putin lhe dá a sorver bolinhas de caviar entre os lábios apertados e bem amanteigados. Qual caviar qual carapuça, para ele até com gasosa gosta de levar na fuça. Deixai-me discordar, que andais para aí a deambular, o Dr. Humberto Mascarenhas é um homem que pode percorrer o mundo a experimentar, mas do que ele gosta mesmo é do nosso bom pão, pois sei de fonte fidedigna, que em terras pátrias, não descura encher a cesta de regueifas. Deve-se achar muito fino, com certeza, é por esta e por outras, por assim andar a nossa direita, que se voltasse cá o pobre do Salazar, morria logo outra vez da desfeita. Eu não sou destas coisas, mas não consigo controlar a revolta, deixarem entrar tal traste, como deputado da nação. Pois é, o Dr. Humberto Mascarenhas deve-se achar uma grande espingarda, mas tem a rosca avariada e sempre que quer dar um tiro, sai-lhe pela culatra.

sábado, 18 de maio de 2019

O Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um liberal

O Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um liberal. Não, permite-me discordar, o Humberto Mascarenhas é, fundamentalmente, um conservador, um conservador de uma direita à moda antiga, que tem mais raízes na máquina do estado, no antigo cooperativismo, do que na iniciativa privada. Bom, quanto ao partido a que pertence estamos de acordo, mas é sabido que o Humberto Mascarenhas não é o espelho do seu partido, são públicas as dificuldades internas que tem tido, e reconhecido como é por mérito próprio, pelas suas próprias capacidades, que consegue ter a voz que tem dentro do seu partido, ainda que contra a corrente. Permite-me, não nego as suas competências, mas não estou tão certo que esse papel de enfant terrible não seja convenientemente explorado, se não mesmo incentivado, no interesse da imagem do partido, o qual necessita de se suavizar, de se tornar mais apetecível, para seguir, até ver, com o barco dos tempos, enfim, um rebranding, para sermos mais precisos. Queres então dizer que o que ele defende é apenas circunstancial, que não é o que efetivamente pensa, quando diz defender posições mais liberais, sobretudo nos aspetos dos costumes, como a liberalização do consumo de drogas leves ou as questões de género. Aqui tenho uma opinião diferente de vós, o Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um político, e como tal uma pessoa pragmática, pelo que já sabemos que nunca defenderá nada em que não acredite, em que não acredite que não resulte. Isso é muito geral, e pode ser dito em qualquer situação, até o já tens repetido aqui muitas vezes, mas quero voltar ao argumento do rebranding, pois se reduzirmos a nossa análise à formulação de cenários, o espaço de debate deixa de ser de análise para ser de política, dado que a mera formulação de um cenário tem a possibilidade de gerar um facto político, e eu, pessoalmente, quero estar aqui como analista, não como participante do jogo político. Deixai-me, a mim que ainda não tive oportunidade de dar a minha opinião sobre este assunto, e ficando bem claro que, e sem qualquer tipo de reserva, que conheço bem o Humberto Mascarenhas, por quem nutro uma grande consideração, quer pessoal, quer profissional, e de quem sou amigo, ainda esta semana estive a almoçar com ele, que na minha opinião, o Humberto Mascarenhas é, essencial e fundamentalmente, um liberal de direita, um homem do mercado e para o mercado, ou não se tenha ele especializado em direito empresarial, sendo um férreo defensor da iniciativa privada e dos negócios em geral. Pois é aí que discordo, e não nos desviando da iniciativa legislativa, que estamos a discutir, proposta pelo Humberto Mascarenhas, acho mesmo que a iniciativa privada e a iniciativa dos negócios estão em clara contradição, e é por isso que me parece que esta iniciativa tem pés de barro, pois sabemos que a proposta condicional da reposição dos rendimentos, nos termos em que é feita, não é exequível, é areia para os olhos, deixa o Humberto Mascarenhas, e o seu partido, bem na fotografia e nos resultados, que não serão nenhuns.

domingo, 5 de maio de 2019

Sr. Marquês, Water Music, segundo George Frideric Handel

Há relatos que uma ligação prolongada à galeria iconográfica Pinote suscita uma ligeira sensação de tontura, aquilo que em língua castelhana, mais precisamente, se chama de mareo. E se aqui uso esta palavra, não é por acaso, pois muitos defendem agora, numa luta desesperada de sobrevivência perante a língua inglesa, uma língua universal latina, onde em vez de se falar usando apenas as palavras que seguem na mesma barca, se possa escolher de entre as várias embarcações que, ao sabor da maré, sobem e descem o rio. Pois, surpreendei-vos, a galeria iconográfica não é mais do que uma enorme barca, de remos alçados, rio acima, rio abaixo, onde à proa vai sentado o Sr. Marquês, sem vaidade, só por condição. O ícone da sua esposa, a Sra. Marquesa, encontra-se bem no centro, como tivemos oportunidade de o descrever, literariamente enclausurado, dispondo-se os restantes ícones, adequadamente, os Hilários e seus consortes a estibordo, cabendo o bombordo aos Pinotes e seus compagnons de route. É a extrema largura da barca que propiciou que até agora possamos ter ignorado a presença deste ícone colossal. Sempre nos colocámos lateralmente, ora tomando um partido, ora tomando o outro, enganados por esse suposto primado do humano, segundo o qual cada ser é um ser, cada ser tem a sua perspetiva. Achámos que a linha traçada pelo corpo do Sr. Capitão Armando Simões estava lá para dividir as duas partes, e, nesta condição, posicionámo-nos ora de um lado, ora do outro, da contenta, esquecendo que a obra barroca não tem lado, e se fossemos brejeiros diríamos mesmo que, quando muito, é roliça. É por isso irrelevante, neste ícone de ícones, que do ponto de vista do Sr. Marquês as partes estejam trocadas, que a direita esteja à sua esquerda e a esquerda à sua direita, já que os salpicos humanos não têm lado, entrelaçam-se, revolvem-se, empolam como o sarampo, calçam sapatos de tacão alto, vestem meias acima do joelho, fazem uma vénia e trocam de costado. Mas o mesmo já não se pode dizer de quem se senta à popa, uma bela pintura ao estilo Velázquez, não são Las meninas, mas quase poderia ser, uma delas é, a outra parece ser a sua mãe que a traz ao colo, mas a menina é uma menina grande, aparenta ter mais de 50 anos, embora esteja vestida como uma niña, ornamentada com um laço de flores no cabelo e um vestido com uma dupla saia, largamente ultrapassando a mãe em volume, sendo esta visivelmente mais nova, com a beleza espontânea das flores de início da primavera. E para quem calhou em sorte ficar à popa, a esquerda não está trocada com a direita. Esta é a razão do mareo que nos invade quando passamos muito tempo a divagar pela galeria iconográfica Pinote. E quando disso nos apercebemos não podemos deixar de perguntar, quem é o seu autor? quem concebeu esta visão longitudinal da comédia humana? quem se arroga o direito de esvaziar o particular a bem do geral? quem submete um ícone que nega o que se sentiu nos outros ícones sem precisar de os negar? Façam uma vénia e deem meia volta ao sabor do software da Mindicon. Sim, do software da Mindicon!

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Natruca, la petite mort, segundo Roland Barthes

O ícone da Sra. Marquesa rapidamente perdeu a ligação à sua fonte de origem, dado o enorme valor simbólico que adquiriu na galeria iconográfica Pinote, passando antes a ser referido como Natruca, la petit mort, segundo Roland Barthes, num tributo da máquina ao simbólico. O ícone está colocado no seguimento do corpo estirado de A Morte do Sr. Capitão Armando Simões, curiosamente, posicionando-se em ambas as pontas, realçando os aspetos fortemente concetuais da obra, em permanente recusa de revelar uma forma, muito menos um corpo. De facto, é formado por um arco de letras esparsas, que, em nuvem, cobrem a morte caída, adensando-se, então, nas pontas em textos completos, de um lado poético, de uma rima tão infantil como emocional, e do outro de uma espessa narrativa, quase auto justificativa, como quem, à hora do chá, descreve um acontecimento incómodo em que se viu envolvido, exposição que, não cabendo na mesa onde se encontra o bule, se vai dispondo em camadas, auxiliando-se de repetições por forma a estabelecer uma continuidade, como num naperon os bordados reiterativos vão juntando os diversos panos de linho. Se na narrativa as repetições têm como objetivo o retomar do fôlego, na poética procuram atingir o coração com flechadas minimais. Mas, o que contêm estas duas pontas? De certeza que encontrareis com que as preencher, mas se vos tolhe a preguiça ou a falta de imaginação, podeis, na narrativa, colocar cada uma destas páginas, empilhadas umas sobre as outras, e, na poética, repetir destas aquelas que rimam, em particular uma delas, a do poema da Sra. Marquesa, mas, como vos disse, podem ser quaisquer outras, que uma vez tomando o seu lugar serão como estas, que disto é feita a crítica literária. Concentremo-nos então nas pequenas letras que pairam sobre o desditoso corpo imaginário do capitão Simões, que são de facto, sabe-se agora, a alma do ícone. Bailam elas diversas danças, desde a mazurca ao forró, para já não falar da valsa e da kizomba, mas sem nunca tomarem um sentido. Depreende-se daí que para isso servem, o mais das vezes, as letras, destinadas à baralhação, ainda que ritmada. Podem-se passar assim horas, senão dias, meses, ou anos, observando os diversos bailados, maravilhando-nos com a insaciável vida de um punhado de letras folionas, ainda que desprovidas de sentido. E é então que fortuitamente, num acaso coreográfico, se estabelece sobre o cadáver a palavra natruca, numa forma substantiva. E esta consonância casual não seria, por si só, fonte de qualquer surpresa, já que outra coisa não se esperaria de tão despojado referente, não fosse que depois desta figura, e através de nova inusitada combinação, mas agora num estilo mais refinado, em itálico, daquelas danças em que os dançarinos fazem uma roda com as mãos sobrepostas ao centro e levando os calcanhares à altura do traseiro, se dá à luz la petite mort. A primeira acusativa substantiva, a segunda declarativa sublimativa, fazem espernear o cavalo de pau entre as pernas do capitão Simões, de tal modo que a pergunta que nele tem escrita se enche de néon arroxeado.

sábado, 27 de abril de 2019

O dia da liberdade

Uma vez por ano decorrem as celebrações do dia da liberdade na galeria iconográfica Pinote. Participa-se em pé, ligado ao dispositivo virtual da Mindicon, e segurando na mão um objeto a que sejamos apegados. Por volta das 15 horas cai a noite. Somos colocados na penumbra até que os olhos se adaptam à luz do firmamento e as coisas em volta ganham uma textura de lã, como se a escuridão emprestasse uma macieza às formas. Damos então por nós junto a árvores, talvez meia dúzia delas, amontadas ao fundo de uma ladeira onde somos deixados prolongadamente sem que nada aconteça. Quando, devido ao tédio, o corpo começa a ser tomado de um formigueiro, os restantes sentidos são então ligados, e chega-nos o cheiro a humidade, do que poderá ser um insonoro regato, ao que são adicionados arrepios nas omoplatas que nos obrigam a um ou dois espirros. Ficamos a vibrar pela expulsão do ar enquanto a ressonância do som permanece como um borrifar de água sobre a paisagem invisível. Sentimos então os pés a moverem-se monte acima, tropeçando em arbustos e pedras, fletindo os joelhos de encontro ao chão, como se a cegueira do andar nos colocasse um peso nas costas. É nesse desconforto que nos começa a invadir uma sensação de medo, que na escuridão nos faz apressar o passo, subindo, deixando para trás a sombra das árvores, enquanto se vai impondo à nossa frente uma forma retangular, de superfície lisa e aspeto intransponível. É então que sentimos a dor na mão que não larga o objeto. É por altura do pulso. E estamos imobilizados em frente à grande parede, pressentido o amplo espaço da noite pelas costas. Quando a dor se torna insuportável, num pestanejar de olhos, percebemos que a parede é afinal de um casebre, por onde se abre uma porta meio derrocada. Enfiamo-nos por esse buraco e encostamo-nos a umas traves de madeira carcomida. Neste canto, cai um silêncio total e assustamo-nos, pois já não conseguimos ouvir a própria respiração. A única ligação com o exterior é este objeto, que levamos ao peito, procurando ouvi-lo e vê-lo pelo olfato. Cheira a nada. Apertamos as mãos e as unhas vão de encontro à carne das palmas. Essa é a única parte que se sente do corpo. Desligam-nos a mente e somos apenas aquela mão que abre e fecha como patas de aranha recém decepada. Anda pelo casebre, enterrando-se no pó amarelo da madeira e rebolando na terra batida do chão. Nesse momento acende-se a luz numa divisão quadrada com uma pequena mesa no centro e duas cadeiras frente a frente. Estamos sentados numa delas com a mão imobilizada sobre o tampo e corpo direito na cadeira. Na outra está o ícone do Hilário nu à máquina de escrever e, mais ao fundo, de costas para nós, o ícone do Hilário com o fato largueirão olhando por uma pequena janela. Por detrás, o ícone do Mouco começa-se a desfazer enrolando-nos em papel de jornal atado com fitas de filme a preto e branco. É quando os olhos nos saem órbitas afora que fixamos a minúscula caixa castanha de mogno avermelhado com o fecho dourado em reboliço que se eleva abrindo a tampa.

domingo, 21 de abril de 2019

Mouro, o caramelo, por estrelinha97

Estranhareis o extravasamento desta obra, pois sois de um tempo em que eram escritas na obsessão com o contexto, a que, numa atitude auto justificativa, apelidavam de coerência. Esta coerência é bem patente na precisão das descrições dos lugares, dos tempos, das personagens, dos linguajares, por forma a serem uma única coisa. Essa preocupação utilitária foi transversal a todas as atividades humanas até que, como já tive a oportunidade de referir, as máquinas passaram a garantir o sustento. Agora podemos dedicar-nos ao mapa que é da dimensão do mundo, se é que me entendeis. E que melhor prova disso que o ícone, Mouro, o caramelo, por estrelinha97. Um ícone cerebral feito por quem nunca privou com os personagens reais desta história, que sim, a terá lido no tempo para o qual a escrevo, provavelmente ainda jovem, e que agora, passados muitos anos, resolve submeter à galeria o seu ícone cerebral sobre o Mouro, um Mouro lido, e nem me preocupo em dizer se foi gerado com uma versão com atestado de veracidade da Mindicon, dado que já não consigo contar o número de referendos que houve sobre esta norma, cada qual com uma elaboração mais detalhada da pergunta, que mais parecia uma discussão sobre qual o significado de veracidade nos dias de hoje do que um ato de decisão política. E tenho que realçar que este ícone não é como o de romeu77santana, e perdoai-me alguma imprecisão, se é que a há, onde podem ser detetados sinais de convivência com quem efetivamente privou com os personagens reais, e, deixai-me lançar um pouco mais de água na vossa fervura, se é que eles efetivamente existiram. É, inicialmente, um ícone bucólico, com a sua marca de ternura, onde não falta um porco amigo, irrealmente caminhando com o Mouro, lado a lado, como que se imbuídos do mesmo destino, especialmente quando sabemos da história que a intenção de um era comer o outro, digo-o sem presunção, sendo por isso essa caminhada em conjunto, se a tivesse havido, puramente circunstancial, e de curta duração. Por outro lado, a cor rósea do animal denuncia as falhas desta obra na descrição de pocilgas, como se para se poder dirigir a palavra a um porco ele tenha de estar, pelo menos, bem lavado e escovado. Depois, conforme nos vamos afastando e aproximando do ícone, dando passinhos virtuais, o Mouro surge coberto por uma folha de papel colorido, chamativo, papel de caramelo, torcido acima como um cabelo à Elvis, e a abaixo como um rabo de sereia, e se agora nos movermos um pouco à direita vemos o porco torcendo o pescoço e encarando o Mouro com uns olhos gulosos, um pouco sôfregos, babando-se, com uma baba de porco, deliciosa, diz quem já teve a felicidade de a provar, notando-se um desconforto debaixo do papel, um manear de ombros e ancas, agora que o Mouro se tornou num gordo paralelepípedo entra neste bambolear démodé, que já teve os seus dias, nos idos dos finais dos anos 50, sendo mesmo capaz de suscitar a exclamação, gostoso. E perguntais-vos vós, o porquê deste ícone cerebral na galeria Pinote? Bom, parece-me que não conseguis ver o mapa do tamanho do mundo.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante

Entre os 3 Pinotes e os 2 Hilários acompanhados de 1 Mouco, jaz no chão da galeria o ícone cerebral, A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante. Tendo sido um homem esguio e seco, trajado para a guerra como o padre para o celibato, não deixou descendência digna desse nome, uma vez que como tal não se pode considerar um mestiço num musseque de Luanda, se é que o há, como também não são merecedores dessa classificação os filhos de um padre, se é que os há, sendo pois dois seres que de igual se alimentam do imaginário, como se a vida fosse apenas um sonho, incapazes de deixar uma pegada física, pelo que, na ausência de qualquer prova de sucessão material, nada melhor do que as histórias da antiga cavalaria andante para produzir o seu ícone. Suspeita-se mesmo que possa ser obra do software da Mindicon, responsável pela gestão social da galeria, que, como um curador, decide acerca do inter-relacionamento entre os ícones, com vista a pronunciar o seu impacto, não sendo, nesse caso, A morte do Sr. Capitão Simões, um verdadeiro ícone, aproximando-se mais de uma parede, ou um projetor, no que são os elementos de uma galeria como vós a conheceis. Sendo sintético, difere também do Pinote por josedigitalgalvao, pela despretensão de ser coisa alguma, a não ser uma súmula. Traça, portanto, o corpo estendido, violáceo do garrote, uma linha imaginária que separa os dois bandos que se enfrentam de razões bem físicas, todas elas feitas da carne e das suas emoções subjacentes. Colocado ao nível do chão, é impercetível para quem entra na galeria, preso no olhar pelos ícones pendentes e pelas suas subtis interações. Mas passado um pouco, sente-se uma tensão, como se algo impedisse os dois grupos de se lançarem um contra o outro, e ao mesmo tempo não os deixa voltar costas e debandar. Diz-se que os cavaleiros andantes morrem da mesma febre que os tomou em vida, sendo apenas fatal a infelicidade de esta agora os apanhar na cama, incapazes de galgar a um cavalo e partir à aventura, e parece ser evidente esse efeito neste militar impecavelmente fardado, há anos confinado ao seu gabinete e ao despacho. Requerimentos, requerimentos, parece ter estampado no rosto vítima da asfixia, reproduzido em três cópias a papel químico, encaracoladas aos cabelos como os canudos de um judeu ortodoxo. Como pode um homem vocacionado para a guerra sobreviver a um ataque de papelada, ainda que química? Pode mesmo ser fatal trazer um homem à razão? Foi com falinhas mansas que o tiraram do Ultramar para o encerrar naquele vilarejo de província, como símbolo, é verdade, mas administrador de coisa nenhuma. Parece ter saudades da Luanda onde cavalgava o seu cavalo branco, a quem deu um tiro depois de partir uma perna numa noite de cacimba, e cuja reprodução, a pau pintado, se encontra agora entre as pernas estendidas do Capitão Simões, com a cabeça espalmada tombada, ainda que embelezada por duas tranças de fios de lã branca que não conseguem esconder o orifício deixado pela bala. Quem matou o Capitão Simões, pergunta-se ao longo do corpo do animal.

sábado, 6 de abril de 2019

Uma visita à galeria iconográfica

Tudo o que é irreal suscita atração. O Pinote segundo Dr. José Galvão desencadeou uma avalanche de visitas à galeria. E para isso, esclareço-vos já, desculpando-me, pelo lapso, dado com frequência me esquecer da época para que escrevo, que também é a única em que me podem ler, uma vez que, como já vos disse, a literatura morreu não muito depois do início do século XXI, e para isso, dizia, e desculpai-me mais uma vez destas interjeições que com frequência se intrometem na minha escrita, mas que é também um sinal dos tempos, em que os humanos se dedicam aos pensamentos divergentes, deixando os convergentes, aqueles que têm como único objetivo chegar a uma conclusão, às máquina, entretendo-nos nós na procura da perceção do todo, uma vez que a tecnologia nos abasta, e só não divaga quem não pode, como escreveu um dos últimos poetas de que há memória, e para isso, dizia, um poeta, desculpai-me de novo, que apagou toda a sua obra pouco depois de experimentar as transferências cerebrais, mais propriamente as visitas às galerias iconográficas, sim, e para isso, e perguntais-vos, talvez, como pode uma poeta apagar uma obra, não um manuscrito atirado para uma lareira num momento de despeito, mas uma obra publicada, uma obra completa, publicada, repito, e para isso, dizia, bastava ligarmo-nos a uma máquina de visita iconográfica, adquirir um acesso e dispormo-nos a nos deixar percorrer pelas imagens que são baixadas diretamente para o nosso cérebro, onde são temporariamente depositadas sobre as outras que nos habitam, e uso a palavra imagem sem propriedade, uma vez que no tempo em que viveis essa é a única forma como podereis entender o modo como se gravam impressões alheias no cérebro, sim, andaram durante anos os artistas a ter golpes de inspiração, pensava-se, a tirar cá para fora o que achavam estar lá profundamente incrustado, sim, a razão do ser, o ser, mesmo o ser, talvez tenha sido essa a razão do desalento do poeta, não um momento de raiva devido a um desentendimento com a crítica, mas um momento de prostração devido a um desentendimento consigo mesmo, talvez porque se tivesse convencido da sua obra, daquelas sibilações linguísticas, como quem se faz de um modelo externo de si mesmo, como os comentadores a que assistis nos programas de televisão, e para isso, perguntais-vos, desconfio, como pode ter apagado a obra, simples, respondo-vos, desligou-se, mas primeiro considerou-a pobre, parcial e imatura, uma coisa que representa uma coisa não pode nunca ser a própria coisa, é outra coisa, disse o poeta, mas já não o escreveu, ou diz-se que disse, pois, como disse, ele apagou-se, mas, desculpai-me, o Pinote segundo Dr. José Galvão sobrecarregou a galeria de descargas, pois suscitou-se a curiosidade sobre como seria o ícone cerebral de uma máquina, admirais-vos vós, que o que vos descrevi como uma estátua de bronze, disforme, possa ter despertado tanto furor, sois como o poeta, prendeis-vos da forma, onde procurais encontrar o ser, nunca visitastes uma galeria iconográfica cerebral.

domingo, 31 de março de 2019

Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao

É incerta qual a proveniência do ícone Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao. Certo é que à época se fizeram experiências de construção de personagens sintéticos por processamento de toda a informação acerca de uma pessoa já falecida, onde não poucas vezes se incluía também a inferência de qual o seu ADN, a partir do dos seus descendentes, senão mesmo, embora considerado eticamente reprovável, por exumação dos seus corpos. Na realidade, chegaram-se a gerar personagens para cada um dos dias da sua existência, dado que no conjunto da informação se incluía o ambiente que o envolvia, desde os dados meteorológicos disponíveis sobre os locais onde se sabia ter estado, até às notícias de jornal que teria presumivelmente lido. Podiam estas sequências de personagens ser depois folheadas como as páginas de um livro, onde por entre a rapidez da passagem das arestas se obtinha uma impressão de vida. Crê-se que houve quem começasse a gerar iconografias cerebrais a partir destes seres de aparência real. Muitas foram as dúvidas suscitadas. Que acrescento poderia produzir um objeto digital na produção de um outro objeto digital? Qual a mais valia de um Pinote segundo Dr. José Galvão, por um qualquer josedigitalgalvao, sobre um Pinote por joaquimdigitalpinote? Argumentavam naquela época os defensores da base biológica, o que em síntese se pode resumir à questão, o que é a vida sem a putrefação? Mas tais ícones se fizeram, e não se tornaram menos merecedores de fazer parte da galeria iconográfica Pinote, do que um grafíti de uma galeria do final do século XX. É uma peça em bronze, colocada à frente aos dois outros Pinotes, obras de um forte pendor emocional, mas que podem ser cinicamente consideradas como obras de um Hilário, concebidas para o Bem da Nação, já que neste mundo não há causa que não seja efeito. Claramente, do convencimento deste saber surtiu este Pinote, em que o único ardor foi o da fundição, que agora arrefeceu em tons de verde frio. Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao, é um ser disforme, produzido a partir de fora e para fora. Está ali porque lá estão também os dois Hilários, obras tão ricas de emoção como os Pinotes da mãe e da filha. Este Pinote é como um fantasma preenchido a zeros e uns, de um verde claro escorrido sobre o bronze mais escuro, como se a partir do passado se pudesse gravar um firmware capaz da insónia. Se por duas vezes para ele se olhar, não se capta a mesma imagem, e mesmo esta é uma impressão da qual se dúvida, já que nem sequer se consegue encontrar na memória a primeira delas para comparar com a segunda. O que contrabalança com a imponência que prende o olhar. Sim, a presença desta figura, que não se deixa perceber como um todo, é avassaladora, está ali para negar a humanidade aos ícones Hilário, para romper o ciclo, da comiseração do fim de um homem que apenas cumpriu o seu dever, de um deles, e da exaltação do macaco vestido, do outro. E se é verdade que não dá descanso aos dois Hilários, quando Joaninha, pela primeira vez o viu, sussurrou, este não é o meu pai.

domingo, 24 de março de 2019

Mouco segundo Armindo, por umbertsetentaoito

Eu que já tive vários homens nos braços, que já os enlacei com os meus seios, que já lhes fiz perguntas sobre pais e irmãos que nunca conheci, que nunca quis conhecer, sempre saí da cama julgando-me mais rica, embora um pouco envergonhada dos estratagemas a que o meu cérebro recorre para saber o que existe para além do seu corpo, mas assim que coloco os dois pés no chão, e passa a breve tontura do levantar repentino, logo ele, lá em cima, se apropria com vaidade e desfaçatez, se julga dono, e se veste com eles, como se os momentos deitados não bastassem para preencher a ausência. Duvidei, contudo, que assim pudesse ser entre dois homens, em que se carece do lampejo dos seios, pelo que de tal o meu corpo silenciosamente se convenceu em contraponto à arrogância do cérebro. Mas no momento em que, na galeria iconográfica Pinote, dei com Mouco segundo Armindo, por umbertsetentaoito, colocado entre os dois Hilários, ocorreu-me, com o desencanto natural de quem perde um pouco do ser, que talvez estivesse enganada. E ao ícone cerebral, produzido com a ajuda do software da Mindicon, parecia mesmo faltar qualquer possibilidade de interpretação artística, assemelhando-se mais uma notícia de telejornal, do início do século, sobre violência doméstica, uma intermediação de mazelas físicas e comentários dos vizinhos. Bastante fragmentário, feito de recortes irregulares de vídeo sobre telas e-ink old, todas elas amarelecidas, como o papel gasto, num tom que só o papel de jornal parece possuir, uma vez que é a única obra escrita que não nasceu convencida da sua imortalidade, em que o jornalista escreve a notícia de hoje já a pensar na de amanhã, que com intenção mais perene se soma e subtrai num livro de deves e haveres. Sim, é essa vicissitude que nos convence da veracidade da obra. Num dos recortes, onde ao cimo ainda figura a letras maiores a palavra Gazeta, surge a foto do Mouco, de perfil, desfazendo-se de tal forma que se duvida se o pedaço de orelha foi comido pelos porcos se pelo tempo. A notícia fala dos maus tratos cometidos sobre a mulher e o filho, como se estivesse convencida da simultaneidade dos acontecimentos, como se tivesse sido notícia. Já num outro recorte, sobre o mesmo fundo amarelecido, o Mouco golpeia, a preto e branco, ao ralenti de uma película antiga, e ao som da máquina de projetar, como num filme mudo, golpeia repetidamente um Pinote imóvel, onde o sangue que lhe sai do rosto vai progressivamente cobrindo a película de cinzento, borrando ambos, até que tudo fica negro de luz. Recomeça então de novo o recorte, como um qualquer vídeo com milhões de visualizações, os mesmo perfis apagados, mas ainda incólumes, recomeçando o corpo de Pinote a fragmentar-se até cobrir de novo a película de negro. Abaixo, uma caixa de comentários, ainda mais breves que a notícia, embora imensamente mais intensos, com a força das convicções. Diz-se que foi com malícia que umbertsetentaoito colocou o seu ícone entre os Hilários, como se quisesse que estes lhe vestissem a pele.

domingo, 17 de março de 2019

Hilário, por romeu76santana

No cérebro a única coisa que é é o corpo que o possui, tudo o resto é imaginado. Hilário, por romeu76santana, é uma obra de claro pendor realista. Iconografado à revelia, com uma versão ilegal do software da Mindicon, onde não pode ser atestada a veracidade cerebral, é um ícone do aqui e do agora. É um corpo tridimensional sobre o qual, na galeria iconográfica Pinote, cai um feixe de luz branca que lhe perfura a pele abrindo-lhe os poros por onde saem pelos curtos, de um loiro quase branco, que lhe varrem os ombros como uma minúscula seara. Está completamente nu, sentado a uma secretária. Em cima desta, uma máquina de escrever com uma folha enrolada no cilindro onde se acabou de bater, A Bem da Nação. O dedo indicador da mão direita, de unha baça, encontra-se a abandonar a tecla o, estando, contudo, ainda emergido num círculo de botões pretos circunscritos a branco. Na unha transparecem as movimentações sanguíneas desencadeadas pelo aliviar da pressão que traz o branco de volta ao centro. O dedo esguio faz a ponte com o corpo, já que os restantes estão recolhidos para não se intrometerem na visão. É um dedo cuidado ao mais ínfimo pormenor, onde as articulações são bem marcadas pelas rugas da pele, não da idade, que o ícone representa um homem no final dos seus trinta, início dos quarenta, mas como manifestações exteriores das rodas dentadas de um mecanismo que se encontra naquele preciso momento a retirar o dedo para trás, cortando toda e qualquer ligação à máquina de escrever. Nesse movimento armam-se os pelos como espigões que impedem quem quer que se aventure a chegar ao corpo durante esta manobra de retirada. A cabeça do ícone está ligeiramente fletida, com os olhos vítreos colados ao que acabou de escrever, à janela aberta pelo baixar da fita. As pálpebras semicerradas, cozidas por um fio de pestanas que as corre de um lado ao outro, acentuam a atitude concentrada, reforçada pela contração dos lábios, em tudo semelhante à das pálpebras, a não ser por estes serem mais carnudos e, como tal, se lhes poder atribuir mais expressão, como se tivessem acabado de projetar para a folha as palavras que os dedos bateram. Em redor dos lábios o mesmo asseio que encontrámos nos dedos, uma superfície asfaltada pelo passar criterioso da lâmina de barbear sobre pelos que já forem imberbes e agora se robusteceram de um cinzento áspero que envolve os lábios róseos. Entre o lábio inferior e o queixo, uma ruja exagerada pelo puxar da boca para fora. Visto de perfil, o ícone está levemente fletido para a frente, como um s mais aberto em cima. Os pés estão juntos, esticados para trás, contrabalançando o fletir da cabeça à frente, como se a figura se encontrasse num momento de oração, no mais próximo da posição fetal que permite uma tarefa de trabalho. O único ponto de apoio desta massa é o tampo da cadeira, onde as nádegas brancas se espalmam, derramando-se do tronco em direção às bordas. A concentração da figura é sublinhada pelo apertar das pernas, de carne branca pintada de compridos pelos negros, por onde assoma uma inofensiva glande vermelha.

domingo, 10 de março de 2019

Hilário segundo Olímpia, por teresinhaxxxxx

O enorme sucesso da Mindicon deveu-se não propriamente ao software de iconografia, cujas funcionalidades foram copiadas passado algum tempo, embora tenha sido determinante ser o primeiro disponível no mercado, mas sim ao conceito de galeria iconográfica onde os ícones foram sendo colocados, e a uma outra funcionalidade, que identificava pegadas cerebrais relacionadas com os ícones expostos, quer aquando das visitas virtuais, quer em dados sobre a época de cada um dos iconografados, enviando depois convites incentivando à contribuição debaixo da sugestão, ícone cerebral, contribua para a história como um artista. Assim, não admira que os dois ícones de Pinote, o de cores geométricas estampado na parede virtual, e a caixa de madeira rodopiando gentilmente em frente a este, com todo o atrevimento de uma representação de uma representação, viessem a ser encarados pelo Hilário segundo Olímpia, por teresinhaxxxxx, naquilo que parece ter sido um autor espontâneo, movido por um impulso, como são caraterizados no modelo de negócio da Mindicon, agora que a versão Home1.0 do software possibilita a iconografia sem a presença de um técnico especializado, ainda que com menor qualidade. Este ícone apresenta um homem a corpo inteiro. Um homem de idade, que o software assegura iconografar Hilário Mendes, agente da P.I.D.E.. É como que um retrato a preto e branco, tirado de imprevisto, em que o alvo da objetiva se vira, sem pretensão que não seja a procura da origem do ruído da máquina fotográfica. Veste um fato cinzento claro, aquele que trajaria um cameleão sobre o fundo do ícone. Mesmo o rosto, já enrugado pela idade, tem um tom que não difere do da camisa, na zona onde as peles pendentes do papo magro tocam os botões apertados do colarinho, numa compostura a que só faz falta a gravata. E, contudo, a figura não passa desapercebida no fundo, pois o fato é moldado por variações de luz que o relevam, como se o corpo modesto pela idade se elevasse acima do ícone. Tem, portanto, uma presença física muito superior à que a falta de cor faria supor, pelo que sobressai a autoridade para interpelar os dois Pinotes presentes, ainda que Hilário segundo Olímpia tenha chegado mais tarde. No corte do fato transparece a humildade de homem escorreito, daqueles que não morrem de doença nenhuma, pois são duros por dentro e por fora, mas sim por um lento esvair do corpo, onde se vão impondo as formas ósseas, já num prenúncio de sepultura em que o fim acontece quando a pele finalmente se une ao esqueleto. Impossível não pensar numa múmia, mas onde naquela as tiras ajeitam e apertam, aqui o fato largueirão dá existência ao corpo que se esfuma. Se do fato sai ação, do rosto sai brandura. Uma brandura a preto e branco, dos abençoados por Deus por chegarem a tão avançada idade. E é isso que espanta o visitante da galeria iconográfica, o fato projeta o ícone para fora, enquanto que o rosto nos puxa para dentro, a determinação do primeiro na interpelação dos Pinotes coadjuvada pela brandura no rosto de Hilário envelhecido.

terça-feira, 5 de março de 2019

Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917

O ícone cerebral Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917, surgido alguns anos mais tarde, através de uma funcionalidade que apenas ficou disponível a partir da versão 5.3 do software da Mindicon, a qual permite localizar no cérebro, nas zonas chamadas de sedimentares, informação que, uma vez armazenada, permanece relativamente imutável, a não ser pela pressão provocada pelo acondicionamento de outros dados, por camadas, ainda que interpenetrando-se, mas nunca perdendo a sua identidade, e que apenas se costuma manifestar explicitamente como memórias longínquas, mas já nas fases adiantadas da vida, em que damos pelas pessoas mais próximas a relatarem factos de uma existência que já não é a nossa, e, informação esta, que alguns cientistas acreditam ser fundamental no comportamento afetivo, irrefletido, para não usar a palavra irracional, que já há algum tempo foi liberta de significado, e agora costuma apenas ser usada no sentido de ignorância. Esta funcionalidade, presente na versão 5.3, chamada de inverted life periscope, permite capturar, com alguma pureza, das impressões mais primordiais do ser, numa fase eminentemente recetiva, em que no cérebro as capacidades de armazenamento se impõem, de sobremaneira, às de processamento. Mas o verdadeiro sucesso desta nova funcionalidade desenvolvida pela Mindicon, para além de um complexo e muito fino mecanismo de localização e agrupamento da informação cerebral, resulta do desenvolvimento de um sistema de filtros encadeados, que dinamicamente se compõem e recompõem, permitindo ao autor do ícone cerebral a seleção e eliminação de informação, usando apenas uma técnica de foco cerebral, também desenvolvida pelos engenheiros da Mindicon, que não necessita de treino exaustivo, e que pode de facto ser completamente dominada nos primeiros 30 minutos de uma sessão de iconografia cerebral. Desta forma, o autor pode-se focar em impressões que residem no seu cérebro e que, devido a se encontrarem nas zonas sedimentares, se pode dizer, quase não lhe pertencem. Foi assim que foi gerado o ícone Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917, que procurou em si o que de sua mãe Deolinda havia sobre seu pai Pinote. O ícone é tridimensional, feito de uma caixa de madeira, de um castanho avermelhado forte, mogno, todo ele liso, ainda que com as marcas dos fortes veios da madeira nobre, distinta, da árvore de tronco grosso que com um orgulho reto se alonga em direção ao sol. A primeira impressão, dada a sua dimensão, quase uma miniatura, daquelas onde com afeição se guardam recordações do que foi fisicamente grande, e que agora se conserva na memória como a mais delicada das matérias humanas. Uma caixa de senhora, portanto, toda encastrada, sem um prego, nem uma marca de intrusão, como se tivesse sido escavada da própria árvore, não fosse o cheiro a cânfora nos dar a certeza de ser também feita de outras madeiras. Cheiro que indiscutivelmente escapa do seu interior por uma ranhura irregular, selada por um pequeno fecho dourado que se debruça perpendicularmente.

domingo, 3 de março de 2019

Pinote, por joaninha1917

Dele sabe-se muito pouco, e mesmo a sua existência levantou dúvidas. Existiu realmente, ou é obra da imaginação do seu criador? O ícone foi gerado pela versão 1.3 do software da empresa Mindicon, numa altura em que ainda não tinha obtido a certificação de veracidade, que apenas veio a ocorrer aquando do lançamento da 3.0. De facto, nem sequer nessa altura ainda se tinha manifestado o impacto social provocado pela irrealidade dos ícones cerebrais, fenómeno que veio ser conhecido como disrupted reality. Assim, muito se discutiu, inicialmente, se seria um produto da imaginação da sua presumida filha, que o suscitou enquanto ligada ao software iconográfico com o avatar joaninha1917. Não era de todo infrequente os filhos de pais desconhecidos procurarem usar a iconografia cerebral para produzirem imagens de progenitores com quem nunca privaram ou de quem nem sequer sabiam o nome, levados por uma crença, nunca confirmada, que no cérebro se podiam formar reminiscências por intermédio de vivências partilhadas com terceiros, na maior parte dos casos o outro progenitor. O que diferenciou este ícone, quando colocado nas redes de partilha, foi a força da imagem de um homem pequeno, uma figura minúscula num enquadramento onde se impunha à ambiguidade que o envolvia, feita de formas geométricas traçadas a cor, onde indistintamente, para não dizer alternadamente, se podiam ver retângulos lavrados e linhas de barra de prisão. E, contudo, e talvez fosse essa a sua principal força, a figura central em si quase nada diferia da sua envoltura. Era um homem, podia-se perceber mais pelo triângulo largo que constituía os ombros, que por um qualquer outro sinal de masculinidade vestida, dada a composição banal de figuras geométricas, onde apenas a cor permitia discernir as formas umas das outras, em particular as da figura das restantes. Mas, tinha uma presença no rosto, dividido em quatro por um vermelho barrento e um branco transparente, onde olhos, nariz e boca eram mínimos, como se misteriosamente o humano brotasse da geometria. E essa era a caraterística que era repetida na maior parte dos comentários, devendo-se realçar que, na altura, já a sua visualização era filtrada por software de equanimidade, que garantia uma proporcionalidade dos mesmos, por forma a reduzir o reforço positivo que leva a situações de preconceito induzido. E quem era a sua autora? Mesmo antes de qualquer pesquisa, já o software de classificação automática, responsável pela análise crítica dos ícones, indicava, com um elevado grau de certeza, que a sua autora deveria ter formação em matemática, uma vez que já eram bem conhecidas, nessa época, as típicas constelações neuronais provocadas pelo seu exercício. Assim se veio a confirmar, mas Joaninha sempre se recusou a falar sobre o ícone atribuído a Pinote, não obstante os muitos seguidores que o adotaram como o arquétipo de um pai distante, e várias vezes afirmou que o ícone teria sido publicado à sua revelia. Ademais, soube-se que conviveu pouco com o pai, sendo que apenas o viu algumas vezes, na prisão.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Albergue espanhol

E pretendo agora, Ivone, responder à tua segunda pergunta, aquela que me fazes sobre as transferências cerebrais. Um assunto a que, deves achar, me tenho vindo a escapulir, embora ele esteja na génese do negacionismo, e, no entanto, a nossa conversa tem-se focado, quase exclusivamente, nas querelas com o puritanismo, como se ele tivesse sido colocado no encalço do negacionismo para nos distrairmos das questões fundamentais. Mas sobre montanhas e tempestades estamos falados. Sabes bem que o negacionismo luta contra a possibilidade de a tecnologia nos classificar, pretendendo saber mais de nós do que nós próprios. Recordo-te as palavras de ordem fundamentais, vamos dissolver os padrões no grande oceano da alma humana, e, a única verdade tangível está no paradoxo. Por isso empreendemos o nosso caminho de divergência, irracional, dirão os que não nos querem entender, e fá-lo-ão para nos classificar, mas, disperso-me, das montanhas e das tempestades estamos falados. Pões, então, Ivone, esperança na possibilidade de as transferências cerebrais terem uma função libertadora. Mas diz-me, que liberdade é essa? Que liberdade pode ter aquele que é perscrutado no seu íntimo? Que liberdade tem aquele que recebe transferências cerebrais alienígenas? Falas de um dicionário, da possibilidade de ele ser visitado internamente, de viagens feitas todas por dentro. Mas dentro do quê? Dentro do corpo? Ou dentro da mente? É isso que não aceito, nem sequer penso poder vir a ser possível. Essa nova tecnologia enferma das mais antigas ratoeiras teológicas, aquelas que separam o corpo da mente, elevando tanto a segunda como rebaixam a primeira, Ivone. É uma toda uma religião, a que se encontra subentendida quando nos falam das transferências cerebrais. Um medo de morrer. Como se o corpo pudesse ser um albergue espanhol, um lugar onde se instalam, a seu belo prazer, todos os caminhantes. Que corpo é esse? De que é feito? Será que existe realmente? E já nem te questiono se será descartável, pois, uma vez que a teoria ganhe raízes, facilmente o será. Não há liberdade nas transferências cerebrais porque não há corpo. Como poderiam coexistir no mesmo corpo duas mentes, uma dali mesmo e a outra convidada? Quando convidas alguém a tua casa, atribuis-lhe um quarto, forneces-lhe toalhas, e, se por alguma razão ele deixa de se comportar como uma visita, se se senta no teu lugar do sofá, toma o comando da televisão e muda de canal a seu belo prazer, o que fazes? Perguntas-te quanto tempo falta para ir embora, não é? Do mesmo problema padecerá um corpo com duas mentes. Qual delas mapeará as pernas? A mesma que será senhora dos braços? A daquele corpo ou a importada? A liberdade não está na mente, Ivone, está no corpo, em podermos experienciar com ele, não apesar dele. Por isso, quando falamos do oceano da alma humana, é do corpo que falamos, quando falamos de o paradoxo ser a única verdade tangível, falamos do corpo possuir a mente e de esta estar cheia de classificações acerca do corpo, cheia de si própria, como um cavalo com o freio nos dentes.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Das montanhas e das tempestades

Ivone, Ivone, Ivone, repetiu três vezes o Afonso, a do Gonçalo, acrescentou ele sem ponta de ironia. Pelo menos eu não o senti assim, e o que lhe vi no rosto foi a cumplicidade desinteressada dos companheiros de viagem, nos antípodas do olhar dos amantes a meias, que partilham uma vivência arrendatária, cheia de altos e baixos, no gume da cessação do contrato. Como posso responder à tua pergunta? Perguntou-me. Atribuis-me poderes do que não possuo, saberes do que desconheço. E pelo seu rosto perpassaram as permutações que assaltam os homens que não se fecham em convicções. Achas que me cabe a mim definir o destino. Achas que se a um homem, numa caminhada, por muito que saiba aonde o levam as pernas, lhe surge inesperadamente à frente uma alta montanha, ou cai sobre ele uma forte tempestade, achas que tudo decorrerá como planeado? Achas que não parará, não hesitará, não se questionará? Achas que no fim, como se tal coisa existisse, não estará lá a montanha, não estará lá a tormenta? É certo que os seus biógrafos, tais como os romancistas, ou os cineastas, lhe darão uma significação que a enquadrará de início, como uma prova a superar, por forma a engrandecer o feito. Mas, como te digo, Ivone, a biografia é como a literatura, e o cinema, faz-se detrás para a frente. Parte-se do ponto de chegada de forma a que tudo faça sentido deste o ponto de partida. Percebes, Ivone, não é a mim que deves perguntar aonde quero chegar, não é a mim que deves perguntar qual é a vitória do negacionismo, é aos biógrafos, aos historiadores, a todos aqueles que um dia resolvam contar esta história. Eles enquadrarão a montanha como um elemento central no entendimento do objetivo do movimento negacionista, logo na sua origem, pois é assim que se constroem as narrativas. Também nisso diferimos do puritanismo, pergunta-lhes e eles dir-te-ão, sem dúvida, o que é a sua vitória. E, ironicamente, será, o fim do negacionismo. Sim, o negacionismo é a montanha que surgiu no caminho do puritanismo. Por isso, historicamente, o negacionismo e o puritanismo não são diferentes, ambos se constroem detrás para a frente. Mas, Ivone, essencialmente, diferimos na convicção. Estão os puritanistas tão fortalecidos das suas razões que não olharão aos meios para atingir os seus fins, enquanto que a nós, aos negacionistas, apenas nos resta embasbacar pelos sortires das montanhas e das tempestades. Diremos, Ivone, não com revolta, mas com iluminação, ao que chegou o puritanismo. Percebeste mais uma vez a ironia, Ivone. Deus é um gigantesco comediante. O que para os puritanistas são obstáculos a ultrapassar, são para nós os negacionistas, objeto de abismamento, pois os puritanistas querem fazer a história e nós, que, sabemos como a história é feita, trazemos connosco o estigma da derrota. Mas, não é isso que nos faz desistir, não é por sabermos como é feita a história que as nossas pernas não deixam de caminhar. E, claro, sabendo o que sabemos, tudo isso é paradoxal. Pois, é. Por alguma razão, e deixa-me adivinhar, Ivone, estes poderão ser chamados, os loucos anos 60.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Perante a esfinge

Aquelas palavras com laivos de intimidade que poderiam queimar, quando gorgolejadas do rosto imóvel do Afonso, abrem um oceano, pelo que em vez de me correram escaldantes pelas veias, sinto-as como se me lambessem os pés. Deixo-me estar perante a esfinge, não pensando no que contra argumentar, ocorrendo-me em vez disso o encontro de dois rios que seguem na mesma direção, ombro a ombro, sem se misturar, e que esta discussão com o Afonso ocorre nas superfícies que se tocam, sendo por isso feita de empurrões que, por maior que seja a sua força, poucos centímetros arrancam ao leito do outro. Quando regresso, não sei se passou muito ou pouco tempo, encontro o Afonso como o deixei, e dou comigo a sorrir-lhe sem intenção, perguntando-lhe, qual é o fim que pretendes alcançar? E não interpretes mal a minha questão, acrescento, sorrindo abertamente perante a esfinge e sentindo pela primeira vez com ele uma satisfação que não depende do que digo ou penso ser certo. Aceito o paradoxo da tua entrega individual pelo bem do individualismo do todo. Aceito que seja um duplo paradoxo, pois incorporas nos teus argumentos as ideias da luta de classes mais tradicional, em que o individual se deve naturalmente sacrificar ao bem do grupo, e, no entanto, o que defendes é o individualismo, e queres, paradoxalmente, sacrificar um indivíduo a bem do individualismo. Aceito que te tenhas incumbido dessa missão. Mas a pergunta é sobre onde pretendes chegar? Como definirias a vitória do negacionismo, Afonso? É a derrota do puritanismo ou o fim da tecnologia de transferências cerebrais. Como será esse mundo inclassificável em que cada um pode ser o que quiser? É sem dúvida a morte do puritanismo, da classificação como uma manifestação do poder. Por ventura de um poder social, como muito bem tens feito notar, e que está de acordo com a aplicação da teoria marxista aos movimentos de género e identitários. Dizes, pois, que estamos a alargar o espaço de nomes. Embora eu não esteja totalmente certa disso, Afonso, sorrio-lhe sem desassossego. Já reparaste como o homossexual fala do seu marido ou da sua esposa. Não criou um novo nome, exige sim ser abrigado perante um outro. Nessa perspectiva, o resultado da luta entre o negacionismo e o puritanismo ocorreria no dicionário, não por novas entradas, mas pelo alargar das definições, uma luta de classes, como já falámos. E qual poderá ser a relação com o advir das transferências cerebrais? Tornar-se-ão elas inócuas num contexto em que os dicionários se transformaram em esponjas que absorvem a diversidade, como se tivéssemos retornado ao tempo dos enciclopedistas, e a obra nunca estivesse terminada? Deixará assim a transferência cerebral de ser uma ferramenta repressiva, como muito temem hoje em dia, quer pela sua infinita possibilidade de perscrutação, quer pela sua capacidade de interferir, por poder introduzir alternativas alienígenas no corpo, para se tornar, em vez disso, num mecanismo libertador que permitirá viajar corporalmente pelo dicionário? Perguntei eu perante a esfinge.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Continuou o Afonso

E depois, continuou o Afonso, tomando folgo com os olhos, mas mantendo o rosto estático, como no ligeiro movimento helicoidal da lente de uma máquina fotográfica que retrocede e avança, aos poucos, para se assegurar da precisão de foco. Depois, continuou o Afonso, na tua argumentação há um pressuposto basilar, que talvez as diferenças entre o puritanismo e o negacionismo sejam ténues, que não difiram no essencial, que sejam apenas duas manifestações do mesmo princípio, como se constata quando se descarna os corpos de dois seres que se odeiam, e talvez até te ocorra, nas tuas demandas de sentido, se daí não advirá alguma espiritualidade entre os canibais. E, desculpa repetir-me, Ivone, o que de facto te norteia é essa busca da verdade na forma de um princípio, de um modelo. Por isso te refiro a tua necessidade de justificação nos átomos, nas partículas fundamentais. E é bonito, é. Entretém-te e satisfaz-te, ao mesmo tempo. Se fosse noutro tempo, diria que sofrerias dos desvios pequeno burgueses, e dos seus sonhos. Fazer o que se gosta, de modo que o trabalho se transforma de tal forma num prazer que se esquece da necessidade de lutar para comer, da nossa, e, por perigoso subjetivismo, da dos outros. Porque não fazem eles o que gostam?, seria o leve pestanejo que enxota os vicissitudes que não são as nossas. Essa paz, que gostarias de alcançar, essa torre de marfim, onde gostarias de te instalar para perceber o mundo, para o reduzir às suas leis fundamentais, permite-te pretender imaginar que o puritanismo e o negacionismo são a mesma coisa, embebidas nos mesmos princípios e nas mesmas leis. E eu, Ivone, respondo-te, é verdade e é mentira. Tens razão e a razão que tens é estéril e quase fantasmagórica, lançando sobre a realidade uma sombra asfixiante. Tens razão, quando falas da inveja que o negacionismo pode ter dos filmes do puritanismo. Tens razão, quando dizes que talvez não estejamos perante outra coisa que não sejam jogos de classificação. Mas não te podes reduzir à forma, quando a função dos corpos deve imperar sobre a sua estrutura. É importante perceber onde é que estas novas tecnologias nos poderão levar e quem tem o poder de as utilizar. Não poderás discordar de mim, que o corpo do escravo não difere do do seu amo e que, contudo, em tudo o resto divergem, e se duvidas, ou se subitamente te ocorre mais alguma aguda formulação, pergunta ao escravo. E para que verdadeiramente o entendas em ti, Ivone, arriscar-me ia a dizer que tu, Ivone, dedicaste a tua vida à procura do amor, e que sempre menosprezaste a função, ou pelo menos assim o pensaste. Que em cada relação procuraste aprofundar o essencial, as miudezas das manifestações intensas, engrandecendo momentos e descurando o dia a dia, e todo o simbolismo aí envolvido. E que com alguma benevolência procuras-me atribuir também a mim esse desprendimento, julgando-me julgas-te, pois questionas-te a ti mesma se fizeste bem, se terá sido esse o melhor caminho. Classificaste o amor, desclassificando-o como elemento funcional, convencida, quiça, numa resiliência.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Esfíngico

Se bem percebo o que dizes, Ivone, dizes duas coisas, fita-me o Afonso, colocando um rosto esfíngico onde a fealdade ganha uma postura soberana. A primeira, que existe uma incoerência entre o que defendo e como o defendo. E aí falas abertamente, com a força da argumentação, vasculhando aqui e ali, estimulando diversas extremidades com vista a desencadear choques contraditórios, da mesma forma que se demostra o absurdo que existe no cerne de uma teoria. Mas a segunda é mais sub-reptícia, sugeres que as diferenças entre o negacionismo e o puritanismo são apenas de forma, que o segundo tirou temporariamente partido de uma tecnologia, mas que ambos os movimentos estão condenados. Como se uma entidade externa tivesse munido de armas um dos grupos do planeta com vista a gerar um desiquilíbrio cujo desígnio final é exterminação total. E por isso, por ambas as coisas, fazes uma interpretação messiânica da minha atitude. Apontas-me sinais de entrega total, como se eu fosse um deus, e contrapões a isso os princípios básicos que estão na génese do negacionismo. Mas, Ivone, o que se passa é que esqueces a ordem das coisas, que te interpões ao processo histórico, que o analisas antes como se já soubesses do seu devir. Sim, Ivone, depois de uma guerra é fácil perceber da sua miséria, do seu sem sentido. Mas, é estúpido ignorar a guerra ela própria, as suas origens, quando a ela ainda não foram entregues os corpos em tributo. É estúpido dizer, a guerra é estúpida. Se fosse estúpida, Ivone, aconteceria apenas uma vez ou duas, não se repetiria. Dizer que a guerra é estúpida, é dizer que é estúpida a acumulação de paz, de dia a dia, do destino singular de cada um. Porque, Ivone, é nesse estado que se fermenta a guerra. Sim, é absurda, mas não é estúpida. Mesmo quando agora já não se trate de uma guerra convencional, em que se perdem corpos, mas sim uma guerra em que se perdem nomes. Imagina, Ivone, na guerra convencional, cada corpo tinha um destino, estava prometido a ser qualquer coisa, mas uma só coisa, a ser carteiro, a ser padeiro, e depois chega a guerra e reduz esse destino a nada, e tu dizes, Ivone, a guerra é estúpida, olha como interrompe os destinos, olha as cartas que deixaram de ser entregues. E eu digo-te, olha como depois da guerra as pessoas largam as questões complicadas e se entregam às coisas simples. É absurdo, mas é assim. Assim também é com os nomes, Ivone, quando eu tomo todos os nomes, faço-o pelo negacionismo, pelo direito a cada um poder escolher o seu. Faço para que no fim da guerra, se possa olhar com nojo, e dizer, olha como se diluiu em todos os nomes, olha como ele deixou de ser uma única coisa, olha como se perdeu. E é aí que diferimos profundamente, Ivone. Tu estás constantemente a olhar para dentro, a procurar pequenas justificações nos átomos, e eu estou constantemente olhar para fora, e sabes porquê, Ivone? Porque lá dentro não há nada, porque estive um ano em coma, porque tive oportunidade de estar um ano comigo, e quando regressei tinha passado um ano.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Negar o negacionismo

Afonso, disse, procurando sair daquela cave para onde me deixei ir enfeitiçada. E aqui até me obrigas a fazer uso da tua retórica, da tua dialética, que até parece que a perdeste desde que resolveste beber o vinho, que eu bem reparei, e se calhar quiseste que eu reparasse, como uma representação da negação. Afonso, acho que por um lado exageras, e que por outro perdes a coerência. Repara que não é possível que o que afirmas seja verdade, esse desprendimento, essa entrega, não faz sentido, está bem nas intenções, mas sabemos que as coisas não são assim, saímos do corpo atrás das ideias e ali vamos nós, uma atrás da outra, e quando regressamos perdemos o contacto com a realidade, e damos por nós a amar ou a odiar outros corpos, só porque sim, só porque estivemos muito tempo fora. É por isso que os amantes jovens, e repara que não são necessariamente os jovens amantes, Afonso, têm pavor à distância, porque passam muito tempo a imaginar, com saudades, dizem, pelo que quando regressam há um frenesim, uma ansiedade, de saber se as suas efabulações foram convergentes ou divergentes e só voltam a obter a serenidade depois de cruzarem os corpos. De deixarem as teorias, Afonso. Disso são feitos os movimentos de massas e as guerras civis. Achas mesmo, Afonso, que te atraem todas as mulheres e que todas te aborrecem? Sim, é o píncaro do negacionismo, mas é verdade? Porque necessitas de entregar o teu corpo à tua causa? Porque te martirizas? E este é a segundo aspeto, aquele em que perdes a coerência. Não é o negacionismo um movimento para fazer frente ao puritanismo? Não é o objetivo do negacionismo a preservação da liberdade do indivíduo, da sua capacidade de decidir do seu próprio destino para além de um conjunto de destinos preestabelecidos? Sim, responder-me-ás, e acrescentarás, o seu magno objetivo é poder ser para além da classificação, e por isso te despes de toda a roupa e te entregas ao devaneio. Mas, Afonso, e isso é que é contraditório, o resultado é um indivíduo que não tem liberdade de decidir, porque pura e simplesmente deixou de existir. Essa estratégia de fazer o todo, de percorrer todos os caminhos, para dar aos homens a liberdade de escolherem o seu, um qualquer, é meritória, mas está feita para os deuses, não para um único homem, ainda que líder de um movimento, ainda que admirado, consagrado e entronizado. Receio, Afonso, que ao lutares desta forma pelo negacionismo, ao te entregares a ele desta forma, ao quereres seres a sua representação, ao tornares o teu corpo num símbolo, ao negares o teu eu, a possibilidade do teu caminho, negas o negacionismo. E sim, Afonso, sei que há uma beleza nessa loucura, uma grandiosidade, uma totalidade, daquela que se consegue apenas perceber num flash, que essa ideia nos agarra por dentro, não nos larga, nos dá um fervor, uma determinação, quase cega, que nos orienta, de nos faz entregar ao sacrifício como um ato de extrema beleza, Afonso, como as estátuas de heróis imberbes mortos em guerras, mas Afonso, não negues o negacionismo.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Uma estranha forma de amor

O Afonso agarrou o pé do copo de vinho com o punho fechado e levou-o à boca, bebendo de um só trago, como se de um penálti se tratasse. Depois, e é-me muito fácil descrever este momento, pois ele ficou-me gravado na memória, de tal forma que terei de recorrer às liberdades literárias, que não há outras que permitam, na ausência da iconografia cerebral, que vós que me ledes desconheceis, e assim, não há outras que permitam, dizia, uma total capacidade de descrever o que lentamente se encastra na memória e que por isso se enriquece de detalhes, tornando a recordação desse particular momento o centro de um vórtice para onde sugamos tudo o que diz respeito à pessoa ou situação em causa. Depois, olhou-me com o rosto descarnado, não colocando nele a menor necessidade de empatia social, nenhuma frequência no espetro do amor ou da raiva, branco, vermelho, descarnado, abriu a boca, e se houvesse em Afonso alguma intenção corporal, uma necessidade de marcar o seu lugar, como nas costas de uma cadeira se coloca um casaco antes de ir buscar a comida ao buffet, diria, abriu a boca sem maneiras, expondo os dentes carcomidos pelos anos de chinesinhas e lambidos pelos restos de vinho acabado de por lá passar. Sei que não é possível, que o vinho tinto, ainda que acabado de beber, não pode deixar umas marcas tão intensas nos dentes como estas que recordo, mas são as que recordo, que estão lá sempre que recordo, e mais, são espessas, como um gel que traça cintilantes contornos, dando à boca uma luminosidade que me convida, e de onde não retiro mais os olhos, pelo menos tanto quanto me lembro, fixo-me na cavidade bucal, enorme, eternizada pela cera, e de onde as palavras vão sair uma a uma, ordeiras e retumbantes, abalroando-me a alma, se é que tenho tal coisa. Falas de vestir paradoxos, Ivone, e dizes com ironia que ninguém os veste, que o paradoxo é um não ser, que só é o que se classifica, que para ser temos que vestir uma etiqueta, ivesanlaurent, soletrou trambolhando a língua entre os dentes, e sim, concordas que o paradoxo é a vida, mas que é inútil, que o bebé quando nasce não quer saber de paradoxos, come e evacua, sem se questionar, e que se tiver uma vida saudável, continuará assim até à morte, apenas cobrindo estes dois atos das etiquetas da cultura, um chateauiquemsauterns para o primeiro, e um de retiro de silêncio para o segundo, e desculpa-me a ironia, a mim também, Ivone, diz, abrindo a boca por onde lhe vislumbro a úvula, húmida, balançando brilhante, provocando um jogo de sombras nas amígdalas, mas eu, tal como me atraem as mulheres belas, esguias, de harmoniosos traços, também me sinto cativado pelas feias, por aquelas em quem ninguém repara a não ser para não reparar, todas me extasiam, me deixam fora de mim, e a todas dou o meu amor, intensamente, de igual forma, e como classificarias este meu ser?, parece-te paradoxal?, mas podes estar certa que é intencional, e és capaz de pensar, não é, o que te classifica é o amor, Afonso, és como um homem santo, mas o que dirás, Ivone, se te dizer que também me enchem de aborrecimento?

domingo, 13 de janeiro de 2019

Do fim da história

Concordo, Afonso. Sim, é verdade que, se apenas alguns puderem ler a mente, será uma típica questão de poder, e isso a que chamas luta de classes, que se te estou a perceber bem, não é mais do que uma luta de nomes, ou direi melhor se dizer, de nomeações, isso resume-se ao que sempre a história fez, o poder de quem é quem determinar quem é o quê. Mas, tu bem sabes que a tecnologia se banaliza rapidamente e chega o momento em que todos terão acesso à capacidade de ler a mente, qualquer mente, pelo que quem é quem não se diferenciará de quem é o quê. O fim da história, se assim quiseres, acontecerá no preciso momento em que a roupa se tornar supérflua, essa pretensão que colocamos sobre o quê para sermos quem. O fim desse lento processo que iniciámos quando descemos das árvores, quando começámos a intermediar o movimento da mão em direção ao fruto com as vestes da cultura. E, oh, como nos tornámos exímios nessa arte, digo-lhe enquanto levanto o copo de vinho tinto e fico a balanceá-lo em frente dos olhos, fitando o Afonso com um sorriso, porventura condescendente, através do fino vidro abaulado, tendo como pano de fundo os tons ondulantes de vermelho. E ocorre-me acentuar, é a distância, Afonso, que vai deste copo aos frutos das plantas que tiveram de ser domesticadas para vir a ser videiras que ameaça eclipsar de um momento para o outro. O fim da história, insisto. Porque a história não gosta de empates. Acaba por se aborrecer, definha e eventualmente morre. E tu dirás, Afonso, que depois desta tecnologia virá uma outra, e que ela criará diferenciação, fará a história dar mais um passo em frente, mas o que poderá ser vendado quando tudo estiver desvendado? Pergunto-lhe, enquanto ele hesita em levantar o copo cujo pé aperta entre o indicador e o médio, debruçado que está para a mesa baixa do bar. Nisso o negacionismo pode já estar à frente, e pelas razões erradas, continuo, senão vejamos. Repara como todo o movimento se faz em desvendar, em exaurir o espaço das possibilidades, em vestir todas as vestes, e não há ninguém mais vazio do que um ator, Afonso. Que pensas que sente quem já sentiu tudo? Aborrece-se, se não se tiver tornado sátiro, e mesmo isso, o que não é senão um aborrecimento, um impasse. Mesmo o elogio do paradoxo, talvez o ato maior do movimento negacionista, é a prova rematada do anúncio do fim da história. Já viste alguém vestir um paradoxo? Sim, olhamos para os outros, vemos o seu comportamento e dizemos, repara como é paradoxal, por isto e por aquilo. E o movimento negacionista diz, muito provavelmente com verdade, que o paradoxo está no cerne da vida. Mas já viste alguém vestir um paradoxo? Levantar-se de manhã da cama, abrir o armário, passar a mão pelos cabides perguntando-se, que paradoxo levo hoje vestido? E como um vestido de gala? Como um smoking para ir a um casamento. Conheço quem tenha ido de palhaço, mas logo arranjou oportunidade para dizer, desculpando-se, sou amigo do noivo. Digo-lhe, fitando-o e levando o copo à boca, sentido o vinho tinto a subir pelas narinas e a descer pela garganta.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Mente aberta

Mas vamos ver Afonso, digo-lhe após um prolongado silêncio em que nos olhámos pela primeira vez demoradamente, isso não é de todo possível. Esse livro, ou devo dizer a mente, não é fechado. Ou seja, marco uma pausa agora que ele volta a colocar os olhos para dentro, no próprio momento em que ele é lido já lá tem outra coisa. Parece-me, Afonso, que o negacionismo radical sofre do mesmo defeito do puritanismo, a ideia que as coisas existem tal como parecem, que podemos estar a olhar algo sem o modificar nesse preciso momento. Tudo o que observamos, Afonso, vai sempre um pouco à nossa frente. A dialética é a maior falácia do pensamento ocidental, arrisco, agora que o sinto absorto, quase como que enfeitiçado pelas minhas palavras, que, confesso, eu própria não tenho a cautela de pesar com o cuidado devido antes de as pronunciar. Ele volta-me a olhar, primeiro surpreendido, depois com o sorriso de quem tem prazer de ser apanhado nessa situação. Dá-me satisfação tê-lo assim, e resolvo jogar no seu próprio território. Sabes, Afonso, se os puritanistas gostam de fazer filmes que possam arrumar tudo no seu lugar, que sejam basilares acerca do que está bem e o que está mal, que os possam mostrar às suas crianças, como quadros representativos do que sempre foi e do que sempre será. Então, Afonso, estou em crer, que os negacionistas também estão convencidos que assim seja, apenas estão contra aqueles filmes, e, por isso, pretendem entrar pela sala de cinema adentro e partir tudo o que lá está. E depois temos os puritanistas a fazer um novo filme sobre o assalto ao cinema, e irão com certeza classificar com exímia esse desmando, quiçá irrefletido, dos negacionistas. A dialética é como uma droga, pede-nos sempre mais. Pois é, Afonso, procuro desferir num golpe final, parece-me que os negacionistas defendem um livro aberto apenas por impotência, mas na realidade, ao darem tanto ênfase ao estado do livro não estão longe dos puritanistas, apenas lhes faltam os meios para o esconder eficazmente. O Afonso olha-me com o sorriso amigo, de quem apreciou a argumentação, o raciocínio, e indulgente, de quem olha para uma criança que acabou de dizer algo que se aproxima da realidade, mas continua muito longe da mesma. Pois é Ivone, tens razão, mas o que é que pretendes? Que nos entreguemos à contemplação dessa mente aberta, enquanto os puritanistas nos comem? Pretendes que os observemos tragando-nos e que vejamos como é que a nossa mente se vai metamorfoseando? Sim, é verdade, que a diferença está em que nós não conseguimos ler o livro deles, mas eles leem o nosso. É essa a diferença de classe, não de classes. Percebes, Ivone, pergunta-me com um sorriso. Quem pode classifica como quer, quem não pode é classificado. Ou porque é que achas que os pretos são pretos? Porque os brancos podem! Pudessem os pretos, percebes Ivone. Por isso, a solução não é a contemplação do constante fluxo da mente, a solução é a dialética. Só a mente aberta pode definitivamente provocar uma verdadeira revolução, uma viragem na luta de classes.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Do negacionismo radical

Considera então, explica-me o Afonso, a situação em que das mais variadas formas, seja pela iconografia cerebral ou uma outra técnica, começam a aceder diretamente ao teu cérebro. O que pensas que poderá acontecer nesta situação? Não, supõe antes, de uma forma mais simples, que tens um pequeno livro onde tomas as tuas notas, coisas pessoais, ou não, e não sabes se alguma vez as irás transmitir a alguém, mas estão para já ali, apenas ali, no papel, no livrinho fechado, dentro de uma gaveta. Imagina, Ivone, que um dia suspeitas que alguém abre essa gaveta e perscruta o que escreves. Não sabes qual a razão pelo que o fará, mas isso também não tem importância. A questão é, Ivone, e finalmente Afonso tira os olhos do vazio, dirigindo-se a mim, a questão é, repete, não sei se para tomar fôlego, ou porque se distrai com a minha face. Devemos esconder o livrinho? Devemos deixar de escrever? Ivone, que te parece? Pergunta com os olhos apontados acima das minhas sobrancelhas. Primeiro talvez o escondas, continua perante o meu silêncio, mas a incerteza já se instalou em ti, e passas o tempo a mudar de local, ficando, por um lado, com a sensação que o esconderijo onde esteve antes talvez fosse melhor e, por outro, que há cada vez menos locais para o esconder, de forma que ao fim de algum tempo desistes, resolves desfazer-te do livro e deixar de escrever. É isso o puritanismo, Ivone. Vives então assim conformado, aborreces-te e depois revoltas-te. Por que razão não podes ter um livro numa gaveta onde escreves o que te apetecer. Então, Ivone, tomas uma decisão mais radical, retomas à escrita, começando a escrever tudo o que te apetece e simulando que te preocupas em esconder o livrinho. E não simulas por astúcia, mas por direito próprio. Aventuras-te pois a escrever mesmo tudo, até o que antes nunca te tinha ocorrido, e dessa forma pretendes intoxicar aqueles que supostamente te leem, enchê-los de contradições, de vai e vens, e acima de tudo, o mais importante, nunca podes dizer que o que lá escreves seja mentira, porque não o é. Isso, Ivone, é o negacionismo. Agora vem o mais importante, o corolário deste teu desaforo é começares a sofrer as consequências pelo que escreves num livro que não dás a ler a ninguém. De quem é a culpa, Ivone? Questiona-me com o ar inflamado de quem após uma longa refrega se prepara para levantar a bandeira que traz nas mãos. De quem é a culpa, Ivone, por se enfurecerem por aquilo que escreves e escondes dentro de uma gaveta? De ti que escreves ou deles que leem? Insiste especado, esperando pela minha resposta para levantar bem alto a bandeira do negacionismo. Procuro dizer algo que lhe retire a exaltação a que chegou, e que sem o querer contradizer permita encontrar um meio termo, uma conciliação, e de repente ocorre-me aquilo que parece ser um bom compromisso. Digo-lhe. Acho, Afonso, que os que leem muito em breve vão perceber que está a ser escrito o está para ser apenas lido por quem o escreve e, por isso, aos poucos irão ignorar. Aí, numa exclamação, o Afonso diz, acreditas nisso, Ivone? Tens de tirar o livro da gaveta.