sábado, 17 de setembro de 2016

Do David Hume ao Senhor Palomar

Encontra David Hume o Senhor Palomar. Dada a sua avançada idade, David Hume, quando fala, é já uma memória de si próprio. Por isso repete-se, eventualmente alterando apenas o nome do seu interlocutor. Meu caro Senhor Palomar, diz, sabe que todo o nosso conhecimento é baseado nas nossas experiências. O Senhor Palomar fica-se absorto observando David Hume. Tem um rosto velho de empirismo, onde as experiências se vão acumulando em camadas, umas sobre as outras, comprimindo-se sem verdadeiramente se misturarem. Poderá haver uma síntese da experiência? Questiona-se Palomar. Será possível captá-la num relance só ao rosto de David Hume, ou é necessário ir com o bisturi e a precisão do cirurgião cautelosamente separar camada a camada e de seguida analisar cada uma com a obsessão do cientista, numa cirurgia estética com fins metafísicos. Sendo um empirista militante, o Senhor Palomar prefere debruçar-se sobre a segunda possibilidade, já que as sínteses são as armadilhas do pensamento, e por isso foge de abstrações e generalizações como o diabo da cruz. Contudo, como o Senhor Palomar é também avesso à intervenção, pois nela suspeita a geração de mais camadas, prefere proceder à observação dos sulcos das rugas que oportunamente trazem ao de cima as passadas experiências. Quando lhe ocorre esta estratégia logo uma outra questão se levanta. O que provocas as rugas? Porque é que as experiências mais antigas não se conformam? Sentir-se-ão subjugadas pelas novas experiências? Será o rosto velho o campo de batalha das experiências? O Senhor Palomar decide descartar esta hipótese pois habitou-se a encontrar paz numa cara cheia de rugas e esta sua experiência parece-lhe mais verdadeira que qualquer uma das suas anteriores conjeturas. Mas, logo uma outra dúvida assalta o Senhor Palomar. Sim, talvez seja a paz dos campos de batalha, de depois do estrondo das explosões e dos gritos da estupidez. Se assim for, o rosto de David Hume terá afinal uma síntese feita de uma harmonia de corpos sem identidade que se lamentam lado a lado. Aqui, o Senhor Palomar tem a noção que está a ser vítima de uma experiência que não é sua, uma experiência lida nas descrições que o Senhor Tolstói faz dos campos de batalha Napoleónicos. Guerras que aconteceram após o desaparecimento factual de David Hume. Um calafrio percorre então o Senhor Palomar. E se o rosto cheio de rugas de David Hume foi um anúncio profético das convulsões que viriam, das guerras a que se entregariam as experiências futuras, e que ao estar o Senhor Tolstói a descrevê-las, estava a descrever duas coisas numa só, o rosto de David Hume e o ocaso do campo de batalha, a misturar camadas. Tendo o Senhor Palomar ficado satisfeito por ter chegado a um paradoxo, é trazido de volta pelo que tem à frente. Meu caro Senhor Palomar, diz-lhe David Hume, porque não me responde? O Senhor Palomar apercebe-se que passaram umas dezenas de anos desde que David Hume o interpelou, que se encontra agora em 1983 e está a ser terminado por Italo Calvino.

17/9/2016

domingo, 4 de setembro de 2016

Estória – Afonso e Catarina

Nem toda a gente entende a história, ou está preparada para a entender. Por isso existem as estórias feitas de valores de carne e osso, de símbolos individuais capazes de inspirar. Vejam a força de uma padeira de Aljubarrota a amassar espanhóis fugitivos. Sentem o papel destinado ao povo na formação da nação? Oiçam agora de uma rainha que transforma as infidelidades do marido em rosas. Não vos extasiais com a imagem de uma mulher de onde brota a harmonia social? Dirão então os mal-intencionados que a estória é parcial, mentirosa até. A esses respondo-lhes eu, mas é piedosa! Vede o que acontece à turba quando se lhe permite interpretar os textos sagrados. É como uma criança a brincar com uma faca, acaba por se magoar. É um ato de carinho, senão mesmo de cautela, mastigar esses textos, torná-los num bolo alimentar, que a ave mãe deposita nos bicos sedentos de certezas das suas crias. Já dizia Almada, mãe é tudo tão verdade quando passas a tua mão pela minha cabeça. Pois é. Seja história ou textos sagrados, não interessa, ai deles se não forem ministrados passando a mão pela cabeça. Ai deles? Dos homens? De todos! História, homens, textos sagrados, todos saem maltratados por igual como num encontro entre canibais. Sou por isso a salvação. Como explicar ao Afonso e à Catarina o que aconteceu ao tio Gonçalo? Falar-lhes da revolução? Dos estados depressivos? Da lei da gravidade? Estás loucos! Do que eles necessitam é de uma estória. E, tende cuidado, não deve ser a mesma estória. O pior que uma estória deve temer é ser tomada como sendo uma estória da carochinha. A mim só de pensar nisso dá-me calafrios. Por isso, para cada humano, criança ou adulto, há uma estória que ele percebe logo como verossímil e as outras como da carochinha. E não deve ter a ver apenas com a mãe de cada um, senão veja-se os nossos dois irmãos. Para o Afonso talvez baste que o tio Gonçalo saia a voar, mas a Catarina, embora mais nova, não vai nessa estória. Mas não cai? Sim Catarina cai, mas levanta-se. Prestai atenção, levanta-se, ou qualquer dos seus sinónimos, são as palavras que nunca levantam dúvidas em nenhuma estória. De pé ó vítimas da fome. Levantou-se da morte. A diferença está apenas em que cada ser acredita no seu levantar e desdenha o dos outros. Mas se as estórias explicam o que aconteceu a Gonçalo, já é mais difícil de explicar a discussão entre o Zé e a Joaninha. Uma vez sozinhos, Afonso toma o partido da mãe e teima que o Gonçalo é como um super-homem dos oprimidos que combate os exploradores deste mundo indo pelos ares conduzindo multidões de homens de fatos de macaco que o seguem iluminados. Já Catarina olha para o irmão com incredulidade e pergunta-lhe, quando é que vão parar? O Afonso fica surpreendido, pois, quem quereria parar de voar. O mundo é redondo, explica Catarina, e se estiverem sempre a seguir o Gonçalo vão andar às voltas. Por isso Catarina defende que é melhor não sair do mesmo sítio, que Gonçalo tem mesmo é de levantar-se do chão e voltar a ser Gonçalo. Pois é, só a estória salva.

sábado, 3 de setembro de 2016

A História – Joaninha

A queda de um revolucionário está perfeitamente enquadrada no movimento de massas. A História explica isso muito bem. Sim, temos os nossos mártires, que são da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Seres que se sacrificaram, não para a comezinha salvação da sua alma, feita do medo de morrer, mas sim para a dignidade dos seus camaradas neste mundo. Camaradas de família, de profissão, de classe. Mas quando um revolucionário se atira de uma janela já é outra coisa. Nisso estou de acordo com a Joaninha, não é revolucionário. Ainda se fosse um daqueles suicídios que ajudam a ultrapassar um obstáculo, então poderia ser visto à luz de uma realpolitik qualquer, que não raramente surge ao ideal revolucionário numa encruzilhada, ou à luz de uma limpeza interna, porque o movimento de massas é um ser gigantesco que por vezes é atacado de artroses, sendo necessário eliminar os elementos entrópicos e olear as cartilagens. Infelizmente, esse não parece ser o caso do Gonçalo. Andava transtornado. Tinha descuidado a militância. Aburguesou-se. Quem diria, um operário, um gráfico que nunca virou as costas ao piquete. A revolução encontrou-o com a quarta classe no Alentejo. A Joaninha e o Zé trouxeram-no para Lisboa. Aprendeu para gráfico. À consciência do camponês explorado juntou a militância do operário. Tinha a generosidade do revolucionário. É verdade que teve as suas derivas extremistas. A juventude puxou-o para a emoção que faz esquecer a estruturação da ação. Mas isso pode acontecer a qualquer um. Veja-se o grande Che na sua aventura Boliviana, uma loucura que o leva a deixar-se morrer às mãos do imperialismo. Mas, não se atira inutilmente de uma janela. É isso que magoa. A futilidade das ações humanas sem impacto na transformação social que faz avançar a História. Para mim, a História, a ação humana é como o ato sexual para outros, deve dar fruto. Mas um fruto social, de um mundo melhor. Disso padecia Gonçalo nestes últimos tempos, deixou o mundo para se fechar numa redoma feita de uma inutilidade que diria preguiçosa. A lascívia amolece primeiro e empedernece depois. Claro que a Joaninha sofreu quando soube. O Gonçalo era como um filho ideológico. Vindo do Alentejo, viveu com eles nos primeiros tempos, ajudou o Afonso e a Catarina a crescer. Eles também irão sentir a sua falta. Mas, é o Zé que me preocupa. Ficou a remoer, a afundar-se num pântano. Parece esquecer a necessidade primária de se assegurar um saudável funcionamento da máquina. Em vez disso, conjetura. Pode ser o início de uma deriva. A consciência de classe, esta minha magna construção, deve estar atenta à consciência do indivíduo que, por não ter sido gerada por um processo lógico, é dada a perturbações. A revolução não se faz com o canto da cigarra. É sim obra da formiga que laboriosamente executa a sua tarefa, minuciosamente, sem exaltações do coração, aceitando as realpolitiks que se atravessam no caminho. Por isso, quando a Joaninha e o Zé discutiram sobre o Gonçalo, a Joaninha primeiro estranhou o Zé e depois ficou alerta.