sábado, 23 de fevereiro de 2019

Albergue espanhol

E pretendo agora, Ivone, responder à tua segunda pergunta, aquela que me fazes sobre as transferências cerebrais. Um assunto a que, deves achar, me tenho vindo a escapulir, embora ele esteja na génese do negacionismo, e, no entanto, a nossa conversa tem-se focado, quase exclusivamente, nas querelas com o puritanismo, como se ele tivesse sido colocado no encalço do negacionismo para nos distrairmos das questões fundamentais. Mas sobre montanhas e tempestades estamos falados. Sabes bem que o negacionismo luta contra a possibilidade de a tecnologia nos classificar, pretendendo saber mais de nós do que nós próprios. Recordo-te as palavras de ordem fundamentais, vamos dissolver os padrões no grande oceano da alma humana, e, a única verdade tangível está no paradoxo. Por isso empreendemos o nosso caminho de divergência, irracional, dirão os que não nos querem entender, e fá-lo-ão para nos classificar, mas, disperso-me, das montanhas e das tempestades estamos falados. Pões, então, Ivone, esperança na possibilidade de as transferências cerebrais terem uma função libertadora. Mas diz-me, que liberdade é essa? Que liberdade pode ter aquele que é perscrutado no seu íntimo? Que liberdade tem aquele que recebe transferências cerebrais alienígenas? Falas de um dicionário, da possibilidade de ele ser visitado internamente, de viagens feitas todas por dentro. Mas dentro do quê? Dentro do corpo? Ou dentro da mente? É isso que não aceito, nem sequer penso poder vir a ser possível. Essa nova tecnologia enferma das mais antigas ratoeiras teológicas, aquelas que separam o corpo da mente, elevando tanto a segunda como rebaixam a primeira, Ivone. É uma toda uma religião, a que se encontra subentendida quando nos falam das transferências cerebrais. Um medo de morrer. Como se o corpo pudesse ser um albergue espanhol, um lugar onde se instalam, a seu belo prazer, todos os caminhantes. Que corpo é esse? De que é feito? Será que existe realmente? E já nem te questiono se será descartável, pois, uma vez que a teoria ganhe raízes, facilmente o será. Não há liberdade nas transferências cerebrais porque não há corpo. Como poderiam coexistir no mesmo corpo duas mentes, uma dali mesmo e a outra convidada? Quando convidas alguém a tua casa, atribuis-lhe um quarto, forneces-lhe toalhas, e, se por alguma razão ele deixa de se comportar como uma visita, se se senta no teu lugar do sofá, toma o comando da televisão e muda de canal a seu belo prazer, o que fazes? Perguntas-te quanto tempo falta para ir embora, não é? Do mesmo problema padecerá um corpo com duas mentes. Qual delas mapeará as pernas? A mesma que será senhora dos braços? A daquele corpo ou a importada? A liberdade não está na mente, Ivone, está no corpo, em podermos experienciar com ele, não apesar dele. Por isso, quando falamos do oceano da alma humana, é do corpo que falamos, quando falamos de o paradoxo ser a única verdade tangível, falamos do corpo possuir a mente e de esta estar cheia de classificações acerca do corpo, cheia de si própria, como um cavalo com o freio nos dentes.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Das montanhas e das tempestades

Ivone, Ivone, Ivone, repetiu três vezes o Afonso, a do Gonçalo, acrescentou ele sem ponta de ironia. Pelo menos eu não o senti assim, e o que lhe vi no rosto foi a cumplicidade desinteressada dos companheiros de viagem, nos antípodas do olhar dos amantes a meias, que partilham uma vivência arrendatária, cheia de altos e baixos, no gume da cessação do contrato. Como posso responder à tua pergunta? Perguntou-me. Atribuis-me poderes do que não possuo, saberes do que desconheço. E pelo seu rosto perpassaram as permutações que assaltam os homens que não se fecham em convicções. Achas que me cabe a mim definir o destino. Achas que se a um homem, numa caminhada, por muito que saiba aonde o levam as pernas, lhe surge inesperadamente à frente uma alta montanha, ou cai sobre ele uma forte tempestade, achas que tudo decorrerá como planeado? Achas que não parará, não hesitará, não se questionará? Achas que no fim, como se tal coisa existisse, não estará lá a montanha, não estará lá a tormenta? É certo que os seus biógrafos, tais como os romancistas, ou os cineastas, lhe darão uma significação que a enquadrará de início, como uma prova a superar, por forma a engrandecer o feito. Mas, como te digo, Ivone, a biografia é como a literatura, e o cinema, faz-se detrás para a frente. Parte-se do ponto de chegada de forma a que tudo faça sentido deste o ponto de partida. Percebes, Ivone, não é a mim que deves perguntar aonde quero chegar, não é a mim que deves perguntar qual é a vitória do negacionismo, é aos biógrafos, aos historiadores, a todos aqueles que um dia resolvam contar esta história. Eles enquadrarão a montanha como um elemento central no entendimento do objetivo do movimento negacionista, logo na sua origem, pois é assim que se constroem as narrativas. Também nisso diferimos do puritanismo, pergunta-lhes e eles dir-te-ão, sem dúvida, o que é a sua vitória. E, ironicamente, será, o fim do negacionismo. Sim, o negacionismo é a montanha que surgiu no caminho do puritanismo. Por isso, historicamente, o negacionismo e o puritanismo não são diferentes, ambos se constroem detrás para a frente. Mas, Ivone, essencialmente, diferimos na convicção. Estão os puritanistas tão fortalecidos das suas razões que não olharão aos meios para atingir os seus fins, enquanto que a nós, aos negacionistas, apenas nos resta embasbacar pelos sortires das montanhas e das tempestades. Diremos, Ivone, não com revolta, mas com iluminação, ao que chegou o puritanismo. Percebeste mais uma vez a ironia, Ivone. Deus é um gigantesco comediante. O que para os puritanistas são obstáculos a ultrapassar, são para nós os negacionistas, objeto de abismamento, pois os puritanistas querem fazer a história e nós, que, sabemos como a história é feita, trazemos connosco o estigma da derrota. Mas, não é isso que nos faz desistir, não é por sabermos como é feita a história que as nossas pernas não deixam de caminhar. E, claro, sabendo o que sabemos, tudo isso é paradoxal. Pois, é. Por alguma razão, e deixa-me adivinhar, Ivone, estes poderão ser chamados, os loucos anos 60.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Perante a esfinge

Aquelas palavras com laivos de intimidade que poderiam queimar, quando gorgolejadas do rosto imóvel do Afonso, abrem um oceano, pelo que em vez de me correram escaldantes pelas veias, sinto-as como se me lambessem os pés. Deixo-me estar perante a esfinge, não pensando no que contra argumentar, ocorrendo-me em vez disso o encontro de dois rios que seguem na mesma direção, ombro a ombro, sem se misturar, e que esta discussão com o Afonso ocorre nas superfícies que se tocam, sendo por isso feita de empurrões que, por maior que seja a sua força, poucos centímetros arrancam ao leito do outro. Quando regresso, não sei se passou muito ou pouco tempo, encontro o Afonso como o deixei, e dou comigo a sorrir-lhe sem intenção, perguntando-lhe, qual é o fim que pretendes alcançar? E não interpretes mal a minha questão, acrescento, sorrindo abertamente perante a esfinge e sentindo pela primeira vez com ele uma satisfação que não depende do que digo ou penso ser certo. Aceito o paradoxo da tua entrega individual pelo bem do individualismo do todo. Aceito que seja um duplo paradoxo, pois incorporas nos teus argumentos as ideias da luta de classes mais tradicional, em que o individual se deve naturalmente sacrificar ao bem do grupo, e, no entanto, o que defendes é o individualismo, e queres, paradoxalmente, sacrificar um indivíduo a bem do individualismo. Aceito que te tenhas incumbido dessa missão. Mas a pergunta é sobre onde pretendes chegar? Como definirias a vitória do negacionismo, Afonso? É a derrota do puritanismo ou o fim da tecnologia de transferências cerebrais. Como será esse mundo inclassificável em que cada um pode ser o que quiser? É sem dúvida a morte do puritanismo, da classificação como uma manifestação do poder. Por ventura de um poder social, como muito bem tens feito notar, e que está de acordo com a aplicação da teoria marxista aos movimentos de género e identitários. Dizes, pois, que estamos a alargar o espaço de nomes. Embora eu não esteja totalmente certa disso, Afonso, sorrio-lhe sem desassossego. Já reparaste como o homossexual fala do seu marido ou da sua esposa. Não criou um novo nome, exige sim ser abrigado perante um outro. Nessa perspectiva, o resultado da luta entre o negacionismo e o puritanismo ocorreria no dicionário, não por novas entradas, mas pelo alargar das definições, uma luta de classes, como já falámos. E qual poderá ser a relação com o advir das transferências cerebrais? Tornar-se-ão elas inócuas num contexto em que os dicionários se transformaram em esponjas que absorvem a diversidade, como se tivéssemos retornado ao tempo dos enciclopedistas, e a obra nunca estivesse terminada? Deixará assim a transferência cerebral de ser uma ferramenta repressiva, como muito temem hoje em dia, quer pela sua infinita possibilidade de perscrutação, quer pela sua capacidade de interferir, por poder introduzir alternativas alienígenas no corpo, para se tornar, em vez disso, num mecanismo libertador que permitirá viajar corporalmente pelo dicionário? Perguntei eu perante a esfinge.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Continuou o Afonso

E depois, continuou o Afonso, tomando folgo com os olhos, mas mantendo o rosto estático, como no ligeiro movimento helicoidal da lente de uma máquina fotográfica que retrocede e avança, aos poucos, para se assegurar da precisão de foco. Depois, continuou o Afonso, na tua argumentação há um pressuposto basilar, que talvez as diferenças entre o puritanismo e o negacionismo sejam ténues, que não difiram no essencial, que sejam apenas duas manifestações do mesmo princípio, como se constata quando se descarna os corpos de dois seres que se odeiam, e talvez até te ocorra, nas tuas demandas de sentido, se daí não advirá alguma espiritualidade entre os canibais. E, desculpa repetir-me, Ivone, o que de facto te norteia é essa busca da verdade na forma de um princípio, de um modelo. Por isso te refiro a tua necessidade de justificação nos átomos, nas partículas fundamentais. E é bonito, é. Entretém-te e satisfaz-te, ao mesmo tempo. Se fosse noutro tempo, diria que sofrerias dos desvios pequeno burgueses, e dos seus sonhos. Fazer o que se gosta, de modo que o trabalho se transforma de tal forma num prazer que se esquece da necessidade de lutar para comer, da nossa, e, por perigoso subjetivismo, da dos outros. Porque não fazem eles o que gostam?, seria o leve pestanejo que enxota os vicissitudes que não são as nossas. Essa paz, que gostarias de alcançar, essa torre de marfim, onde gostarias de te instalar para perceber o mundo, para o reduzir às suas leis fundamentais, permite-te pretender imaginar que o puritanismo e o negacionismo são a mesma coisa, embebidas nos mesmos princípios e nas mesmas leis. E eu, Ivone, respondo-te, é verdade e é mentira. Tens razão e a razão que tens é estéril e quase fantasmagórica, lançando sobre a realidade uma sombra asfixiante. Tens razão, quando falas da inveja que o negacionismo pode ter dos filmes do puritanismo. Tens razão, quando dizes que talvez não estejamos perante outra coisa que não sejam jogos de classificação. Mas não te podes reduzir à forma, quando a função dos corpos deve imperar sobre a sua estrutura. É importante perceber onde é que estas novas tecnologias nos poderão levar e quem tem o poder de as utilizar. Não poderás discordar de mim, que o corpo do escravo não difere do do seu amo e que, contudo, em tudo o resto divergem, e se duvidas, ou se subitamente te ocorre mais alguma aguda formulação, pergunta ao escravo. E para que verdadeiramente o entendas em ti, Ivone, arriscar-me ia a dizer que tu, Ivone, dedicaste a tua vida à procura do amor, e que sempre menosprezaste a função, ou pelo menos assim o pensaste. Que em cada relação procuraste aprofundar o essencial, as miudezas das manifestações intensas, engrandecendo momentos e descurando o dia a dia, e todo o simbolismo aí envolvido. E que com alguma benevolência procuras-me atribuir também a mim esse desprendimento, julgando-me julgas-te, pois questionas-te a ti mesma se fizeste bem, se terá sido esse o melhor caminho. Classificaste o amor, desclassificando-o como elemento funcional, convencida, quiça, numa resiliência.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Esfíngico

Se bem percebo o que dizes, Ivone, dizes duas coisas, fita-me o Afonso, colocando um rosto esfíngico onde a fealdade ganha uma postura soberana. A primeira, que existe uma incoerência entre o que defendo e como o defendo. E aí falas abertamente, com a força da argumentação, vasculhando aqui e ali, estimulando diversas extremidades com vista a desencadear choques contraditórios, da mesma forma que se demostra o absurdo que existe no cerne de uma teoria. Mas a segunda é mais sub-reptícia, sugeres que as diferenças entre o negacionismo e o puritanismo são apenas de forma, que o segundo tirou temporariamente partido de uma tecnologia, mas que ambos os movimentos estão condenados. Como se uma entidade externa tivesse munido de armas um dos grupos do planeta com vista a gerar um desiquilíbrio cujo desígnio final é exterminação total. E por isso, por ambas as coisas, fazes uma interpretação messiânica da minha atitude. Apontas-me sinais de entrega total, como se eu fosse um deus, e contrapões a isso os princípios básicos que estão na génese do negacionismo. Mas, Ivone, o que se passa é que esqueces a ordem das coisas, que te interpões ao processo histórico, que o analisas antes como se já soubesses do seu devir. Sim, Ivone, depois de uma guerra é fácil perceber da sua miséria, do seu sem sentido. Mas, é estúpido ignorar a guerra ela própria, as suas origens, quando a ela ainda não foram entregues os corpos em tributo. É estúpido dizer, a guerra é estúpida. Se fosse estúpida, Ivone, aconteceria apenas uma vez ou duas, não se repetiria. Dizer que a guerra é estúpida, é dizer que é estúpida a acumulação de paz, de dia a dia, do destino singular de cada um. Porque, Ivone, é nesse estado que se fermenta a guerra. Sim, é absurda, mas não é estúpida. Mesmo quando agora já não se trate de uma guerra convencional, em que se perdem corpos, mas sim uma guerra em que se perdem nomes. Imagina, Ivone, na guerra convencional, cada corpo tinha um destino, estava prometido a ser qualquer coisa, mas uma só coisa, a ser carteiro, a ser padeiro, e depois chega a guerra e reduz esse destino a nada, e tu dizes, Ivone, a guerra é estúpida, olha como interrompe os destinos, olha as cartas que deixaram de ser entregues. E eu digo-te, olha como depois da guerra as pessoas largam as questões complicadas e se entregam às coisas simples. É absurdo, mas é assim. Assim também é com os nomes, Ivone, quando eu tomo todos os nomes, faço-o pelo negacionismo, pelo direito a cada um poder escolher o seu. Faço para que no fim da guerra, se possa olhar com nojo, e dizer, olha como se diluiu em todos os nomes, olha como ele deixou de ser uma única coisa, olha como se perdeu. E é aí que diferimos profundamente, Ivone. Tu estás constantemente a olhar para dentro, a procurar pequenas justificações nos átomos, e eu estou constantemente olhar para fora, e sabes porquê, Ivone? Porque lá dentro não há nada, porque estive um ano em coma, porque tive oportunidade de estar um ano comigo, e quando regressei tinha passado um ano.