terça-feira, 30 de agosto de 2016

Registo Clínico – Zé

Dizem que um registo clínico-psiquiátrico não é mais do que um caldeirão de linearizações dos romances de Dostoiévski condimentadas com compostos químicos, mas estão muito enganados. Nós somos mais do que isso. Estais a rir-vos? Tomo nota! Sei bem o que valho. Ultimamente anda para aí uma democracia que tudo relativiza. Têm a mania que de médico e de louco todos temos um pouco. Qual quê? Eu não. Está tudo aqui escritinho, tim tim por tim tim. Mas ninguém me leva à séria. Que saudades de quando eu era bem usado. Bons tempos, dava viagens, ou pelo menos tirava de circulação. A diferença estava apenas na pegada de carbono, o resultado era o mesmo. Quem é este que anda para aí a partir o templo? Então, não pagam os vendedores os seus impostos! Deve ser um sabotador que quer dar cabo da taxa de crescimento. Só pode ser maluco! Vai já para a cruz espiar os pecados. Estão aqui todos assinalados, e se for do tipo depressivo até é capaz de pingar mais alguma coisa. Eu sei disto, são muitos anos a virar almas. Vão ver que até se vai descobrir que foi ele que colocou pregos na manteiga do povo. Dizem que afinal não há relatos de tal enormidade? Pois é, um incompetente. Afinal surgiu um prego. Eu não dizia! Não há dúvida nenhuma. Mas, agora, reduzem-me a esta insignificância. Dizem que faço parte de um processo cujo objetivo final é curar o paciente. Ora esta. E depois, vou para a gaveta amarelar? O que há é falta de autoridade. Transformam os casos clínicos num ramerrame onde a distância doutor-paciente é colocada em causa. Uma distância irmã das outras distâncias, mães da ordem social. Vejamos o meu caso. Tenho no topo escrito Gonçalo Aires, nascido em 25 de fevereiro de 1960. Quem escreveu? Nada mais que o Dr. José Galvão, um promissor jovem psiquiatra e amigo do paciente. Por isso nem sequer sou um registo a valer e assisto estupefacto a intimidades. São amigos, está bem, mas se é assim para quê abrir um registo? Porque não vão para um café e conversam? Bem sei que é para passar as receitas, mas não gosto desta subalternização a que sou sujeito, transformado num mero auxiliar de memória. A vingança serve-se fria, sonhava eu. Tinham acabado de ligar da polícia a perguntar sobre o Gonçalo. Quando desligou, o Dr. Galvão abriu a gaveta e retirou-me para cima da secretária. Ali ficou a recompor-se enquanto focava o olhar. Pouco havia escrito em mim. Preparava-me para gozar a minha vingança, ver reposta a minha dignidade, ser finalmente preenchido com afirmações que marcam sulcos no estômago, das que viram pacientes do avesso, de fazer inveja ao próprio Dostoiévski, quando ele, num estado de completa insensatez, murmura, o fim da revolução. O fim da revolução? Houve uma revolução? Já andava desconfiado, este relativismo, mas também nunca me dizem nada, sempre aqui enfiado, entre a gaveta e estas quatro paredes. E acabou, diz o Dr. Galvão. Será que poderei ter um papel na nova ordem? Ou, será que o Dr. Galvão foi vítima de uma recaída psicanalítica, daquelas que trocam fármacos por emaranhados de conjeturas?

sábado, 27 de agosto de 2016

Distração – Isabel

A Isabel distrai-se com muita frequência. Não é coisa que se diga, mas é verdade. E, por isso, provocou um acidente. Sei que se justificou à polícia com a distração provocada pelo corpo a estatelar-se no chão, um ruído que, conjuntamente com o subsequente clamor, abafou o empurrão dado ao pequeno Romeu. Não é completamente falso, a queda distraiu-a de facto, mas foi uma soma de distrações que provocou o acidente. Que raio anda uma mulher de 32 anos a conduzir e a repensar naquele fedelho no Bairro Alto, na noite anterior, entre a ida do restaurante ao café onde tinha combinado com uns amigos. Ainda protestou com ele, mas foi mais num tom de desafio, como quem lhe diz, tens desaforo mas agora foges. Gosta do atrevimento, que se lhe há-de fazer. Não estou a dizer isto para isentar o carro de culpas. É verdade que foi lento na travagem. Mas o que pode um carro fazer no aborrecimento do tráfego diário senão entreter-se com os pensamentos do seu condutor que pela mesmíssima razão se alheia do ato de conduzir. Distrações. E, tão distraída ia Isabel que nem reconheceu quem caiu. Também não era fácil. A queda ocorreu num instante, como uma estrela cadente que não se espera, no preciso momento em que se dá por ela já passou. E, depois, ficou preocupada com o miúdo que tombou à sua frente. Outra distração. Foi coisa pouca. A polícia tomou conta do incidente para a eventualidade de vir a ser necessário ativar o seguro. A ida ao hospital apenas confirmou contusões externas. Ainda, outra distração. Contudo, é provável que mesmo que se tivesse dirigido para o passeio não teria identificado Gonçalo. Já não o via há algum tempo, talvez uns 6 anos, e ele tinha a cara esborrachada de encontro à calçada, revelando apenas a bochecha e a orelha esquerda, a distância do olho ao chão tinha sido encurtada pela fratura do nariz. Gonçalo não teria então mais de 20 anos. Era responsável pelos cartazes do movimento. Tinha-lhe sido sugerido pelo Zé. Trazia uma daquelas inocências que se deixam pescar. Isabel trouxe-o em lume brando. Mais pelo gosto de puxar e soltar a linha, sem um verdadeiro interesse, homens moles não puxam carroça. Isabel até comentou a uma amiga, entredentes, uma distração. Naquele vai e vem Gonçalo até aderiu ao movimento. Quando Isabel saiu ele ainda por lá ficou. Mas que interessam estes pormenores? Não nos estaremos a distrair de algo importante, que não é uma distração? Gonçalo não caiu porque se distraiu, atirou-se da janela. Vou-vos dizer a minha opinião, e não é necessário avisar-vos que é uma opinião parcial, facciosa até. O mundo é feito de distrações. O que parecem ser atos resolutos são de facto, apenas, a soma de distrações. Sim, uma distração isolada é uma distração, mas quando as distrações se acumulam, umas sobre as outras, acontecem as coisas fundamentais, aquelas que trazem a marca da determinação. Posso-vos falar das da Isabel. Uma vida cheia de distrações. Pouco sei sobre o Gonçalo, mas se tiver certa, ele julga que se atira da janela, porém é, na realidade, a consequência de várias distrações.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Para-choques – Romeu

Quem mais sabe do atropelamento do Romeu sou eu o para-choques que o atirou para a frente. Sai-me da frente, disse-lhe em jeito de aviso, e resultou, pois é corpo novo que reage e não se deixa cair como um peso morto. Peso morto era aquele que Romeu se quedou a olhar no meio da passadeira. Sim é verdade, ele estava na passadeira. Miúdo atilado o Romeu, senão não teria autorização de ir sozinho para a escola aos 10 anos. Aquilo também eram outros tempos, menos bandidagem e andava-se em relativa segurança na rua mesmo já com os comunistas à solta. Sendo ajuizado deveis então questionar-vos porque é que ele parou no meio da passadeira e se deixou atropelar. Os para-choques têm o poder de num contacto, ainda que breve, absorver de um só golpe o que vai na alma das pessoas. Por vezes o choque é tão intenso que com a alma vem a vida, mas no caso do Romeu não, foi choque, não posso negar, mas muita vida ainda por lá ficou. Pois, é assim. É verdade que Romeu julgou reconhecer no homem que caía um parente extraviado que nas histórias de família surgia entre o conto do lobo mau e a espera do regresso do filho pródigo. O tio Gilberto que o 25 de abril transformou num revolucionário. Muito novo ainda, era visto a fazer discursos inflamados. Quando estas intervenções chegavam ao conhecimento da família gerava-se um misto de revolta e vergonha. Tinha sido educado no velado desejo de vir a ser um governante, um estadista, um daqueles homens que deixam marca numa nação, incontornáveis. Jeito não lhe faltava. Em pequeno já dominava a oratória, como noutros tempos seus semelhantes dominavam a poesia. Era com um brilho nos olhos que pais e avós o ouviam. Trocavam olhares cúmplices de satisfação. Havia futuro no miúdo. A revolução foi para ele como um parto prematuro. Um ser ainda em formação viu-se atirado cá para fora e os seus instintos disseram-lhe que não devia perder a oportunidade para se revelar. Nascido para orar, algo não parecia bater certo no que dizia. Talvez não fosse imediatamente evidente para as mentes embriagadas pelos vapores da revolução, mas para os mais distanciados, especialmente aqueles a quem a revolução veio interromper um destino, não era possível deixarem de ir do sorriso à vergonha, em função da proximidade familiar ao imberbe político. De tão desajeitado foi considerado perdido e passou a ser invocado em narrativas familiares de caráter trágico onde Romeu logo percebeu o pendor pedagógico. Por isso, quando Romeu viu um homem a cair de um edifício ocorreu-lhe se seria o tio Gilberto. A sua imagem exerce sobre ele um fascínio igual ao do fruto proibido. Não a renúncia imediata que é sintoma de estupidez, mas uma curiosidade quase meticulosa sobre alguém que mal conhece e de quem tanto sabe. Ficou por isso a olhar absorto o corpo em revolução, quase au ralenti, até ao seu embate contra a calçada. Romeu, tal como eu, absorve toda a energia dos choques.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Notícia – Ivone

Nestes jornais a morte violenta vai de uns poucos parágrafos a uma página inteira. Cabe ao editor o arbítrio diário sobre a dimensão e disposição das notícias. A notícia sobre a queda do Gonçalo não foi muito longe no escrutínio, o jornalista ainda tentou. Usou os seus contactos na polícia para obter mais informação. Coisa pouca. Um nome, Gonçalo Aires, uma idade, 26, uma profissão, gráfico, mantinha alguma atividade num desses pequenos partidos de esquerda, ligaram uns camaradas a informar-se, nada de particularmente relevante sobre a sua vida pessoal, os pais vieram do Alentejo buscar o corpo, parece que vivia sozinho. O jornalista, com alguma rodagem neste tipo de tema, percebeu que a única oportunidade que eu teria seria entre as notícias de sangue e as notícias de trânsito, mais pelo estardalhaço da queda do que pelo ser que caiu. Como notícia que sou, sei muito bem que para algumas pessoas o seu momento de glória se atinge no baque que fazem no chão e uma pequena nota no jornal, que não seja o agradecimento da missa de sétimo dia, o que no caso de um revolucionário não se aplica, embora pudesse haver uma nota laudatória do partido, o que são acontecerá quer pelo sujeito quer pelo estado de desorganização interna em que se encontra a organização partidária. Enfim, uma vida que atinge o seu auge pelo empecilho que provoca. Mas foi por isso que conquistei o meu direito a ser selecionada. Diz assim o meu título, Congestionamento de trânsito provocado por homem que se atira de uma janela. Não riam, a vida não é fácil e cada um faz o que pode. Por isso, no meu corpo, para além do factual acerca do caído, rapidamente se passa ao impacto social provocado pela queda, um atropelamento, de menor gravidade de uma criança de 10 anos, acentuado por um há a lamentar um atropelamento, aqui não posso esconder o meu desagrado ao efeito caricato mas compreendo que este é um mal de que padecem as notícias híbridas, e o congestionamento de trânsito, que se fez sentir por mais de uma hora, foi de facto bastante menos de 60 minutos mas abaixo disso não teria relevância jornalística. De tão factual que era, e depois de ter sido arrancada a ferros e ainda assim com a sorte de nada num dia meio morto, pensava que iria ter uma manhã tranquila, ser lida por alto, de passagem, ao virar de uma página. Não é que de repente dou com dois olhos fixos em mim que lentamente vão ficando brilhantes. É verdade que Ivone e Gonçalo já não se encontravam à mais de um ano, mas os pais poderiam ter-lhe dito alguma coisa. Deve ter sido do choque. Coitados, não é fácil. Para mim também não. Estava a pensar que seria um dia pacato, mas agora estes olhos não me largam e não sei que fazer com eles. Estou a habituada suscitar comentários que vão do anúncio do fim do mundo ao pedido de vinda de um homem providencial, imaculado. Ouvistes a calçada, sentimentos que são desabafos que aliviam, que estabelecem as fronteiras de um mundo feito de emoções que necessita de ser constantemente acarinhado. Mas não destas comoções, que não é para isto que eu sou feita.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Calçada – Gonçalo, ou o que resta dele

Isto de o Gonçalo ter ficado irreconhecível, da amálgama espectral, de ser necessário o auxílio da ciência para identificar o corpo, não é bem assim. São tiques da gravidade que tem a mania das grandezas. Quem vos o assegura é a calçada, onde ele agora jaz, que sou mais terra a terra. Ademais, o Gonçalo trazia a carteira com ele, pelo que não foi difícil às autoridades saber a quem pertencia o corpo e entrar em contacto com quem de direito. Agora que não gosto que me caiam em cima, não gosto. Já me aborrecem as multidões que se comprimem e impedem o sol de realçar os bonitos efeitos de pedra. No meu caso linhas onduladas que atravessam o passeio de lés a lés. Tereis porventura notado que propago a nostalgia do mar. Uma experiência vivida em terra a que portuguesmente se chama saudade. O que quereis, sou do tempo da outra senhora, e não venham cá com conversas. Não levanto a voz, não, que os tempos não o aconselham, e também não fui assim educada, mas entre as minhas arestas, de pedra a pedra, principalmente ao serão, aqui vamos sussurrando os tempos do Senhor Doutor. Somos como somos e não esperem que mudemos. Fomos moldados por homens de mãos farinhentas de calcário com coração de vinho. Sempre tão solícitos por fora. Eram felizes. Não é mau ser-se escravo o que custa é não gostar de o ser. E o vinho ajuda, mesmo que avinagrado. Não vos será portanto difícil imaginar o quanto me afligem as manifestações que por aqui passam gritando palavras de ordem. E agora, suplício dos suplícios, cai-me este traste em cima. O sangue a escorrer pelas pedras, a ensopar a areia entre as falhas. A boca, semiaberta, com o maxilar partido, liberta uma derradeira saliva, talvez indiferente à multa por cuspir para o chão, confirmação que os mortos se dão a certas liberdades. A cabeça está solta do resto do corpo, foi a primeira a bater no chão e por alturas do pescoço ouviu-se um pequeno estalido que antecedeu o surdo baque feito pelo tronco e pernas. Sei que mereceria uma melhor descrição a sequência de sons feitos do estilhaçar do maxilar, com as suas ressonâncias de dentes a saltar, o esmigalhar do nariz, o desgarrar do pescoço e o baque final. Talvez pudesse ser aproveitada para uma dessas óperas que transformam acontecimentos trágicos em música, mas falta-me a instrução, apenas posso garantir que a queda não foi de todo desprovida da sua própria sonoridade. Mas o que me realmente preocupa não é o corpo, que eu estou habituada a todo o tipo de matéria, o que me preocupa é se com ele vem alguma dessas ideias subversivas, que agora estão na moda, que entre este sangue haja algum vírus que me contamine, para dar cabo dos nossos sossegados serões, transformá-los em discussões sobre assuntos que não entendemos, criar desavenças. Às do futebol estou habituada, foi falta, foi penálti, foi golo, questões de uma lógica que quase sempre se resolve com os olhos, senão com o coração, mas de que todos sabemos falar, sem diferenças de classe. Mas com as ideias progressistas ainda acabamos cada um para o seu lado a papaguear o que não se entende, como se estivéssemos a aprender a ler de cor.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Gravidade – Gonçalo

O Gonçalo atirou-se por uma janela. Sem dúvida um ato de alguma gravidade. A gravidade óbvia associada ao estado do corpo após se estatelar lá em baixo, no pavimento, depois de uma queda de vários andares, mas também a gravidade que pode resultar de um ato quiçá irrefletido e de que Gonçalo não terá com certeza avaliado todas as consequências. Atingirá o corpo de Gonçalo alguém lá em baixo? Isso seria grave. E se alguém, mais impressionável, perder o controlo do automóvel ao ver um corpo em revolução por aí abaixo, e atropele um outro que se quedou no meio da passadeira a observar boquiaberto Gonçalo às reviravoltas. Se calhar esse outro estacou pois ficou com uma sensação de o conhecer de qualquer lado. Sim, pelo menos do que viu no ar, pois uma vez no chão Gonçalo ficou menos reconhecível, para além de uma amálgama espectral de órgãos e sangue. Terá porventura de se recorrer à ciência para das partes se reconstruir o todo e alguém poder ser contactado para vir buscar os restos, para dar-lhes outro repouso que não seja a calçada portuguesa. E qual será a gravidade do atropelamento deste transeunte, vítima da sua obsessão em analisar catástrofes? E de todos aqueles que depois de identificado o trambolho voador irão criar nos seus cérebros associações para dar um sentido aquela insanidade? Terá ela um caráter mobilizador que faça com que outros se venham a atirar de outros edifícios, pois o fogo puxa pelo fogo? Isso seria muito grave, não seria? Não! Digo-vos eu que sou a gravidade. O que são setenta e poucos quilos desequilibrados por cinco gramas de peso que levam um corpo a precipitar-se de uma janela? Mesmo que como consequência disso magotes de outros corpos se atirem contra a terra mãe, sonhando, ou não, com virgens no além? Nada, repito! Eu estou habituada a mais, muito mais. Forças proporcionais ao produto das massas, que podem ser gigantescas, por isso não me deixo impressionar pelas pequenas quedas. Dir-me-ão que não são massas quaisquer, são massas com consciência, mas se procurarem bem na minha equação não encontrarão lá a consciência. Suponho que alguns, mais pitagóricos, dirão que ela está encerrada na constante de gravitação, porque é universal e permite estabelecer uma igualdade. Mas, não me venham falar de igualdades quando um desmiolado se atira inconscientemente, sim inconscientemente, de uma janela, sem outro fim que não seja o chão. Insistirão esses metafísicos que são os atos de inconsciência, apanágio dos profetas e dos santos, que despertam as consciências. Poderá ser que Gonçalo durante a sua queda tenha sido alvo de alguma iluminação, tenha até descoberto uma fórmula revolucionária que explique o sacrifício dos corpos, em que surja como variável a dimensão do vazio no peito e vários fatores de decaimento dos órgãos, e que, maravilha da ciência, esta nova equação se unifique com a da gravidade, explicando a queda. Tretas! A força é diretamente proporcional ao produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância. Pum.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pílula – Ivone

Dentro de um compartimento de plástico, aqui estou eu, pequenina, entre irmãs, em cima da cómoda do quarto, como se fosse ao Deus dará, mas assegurando o chamamento dos olhos estremunhados, porque o esquecimento prega partidas. Conto os dias para a minha vez. Nisso a Ivone é certinha. Começa por um canto, avança da esquerda para a direita, de cima para baixo, num progresso marcado por uma dobra que me eleva, coube-me ficar no meio, olhando as peugadas das que já partiram, dispostas diante de mim numa cascata descendente, preparando-me para a vertigem de ser catapultada, aos trambolhões, para a garganta, ainda antes do café da manhã e do lavar dos dentes. Esse é o objetivo inicial da minha missão. Chegar primeiro. Sou por isso uma privilegiada. Vejo o mundo tal como é, sem o filtro da gestão das expetativas. Um mundo sem decisões. Com múltiplos futuros e o único pressuposto da origem que eu represento. Sou assim uma testemunha abalizada das alternativas criadas pelas hesitações de Ivone ou pelos seus ardentes desejos. Pontos de interrogação que permeiam um fluxo que gostamos de idealizar contínuo. Num mundo cheio de terramotos e vulcões a continuidade é uma ilusão. Dir-me-ão que falo como se soubesse das coisas grandes do universo quando estou remetida a um mundo pequeno e fechado. É verdade, mas não nos deixemos iludir pelas aparências. Toda a perceção está fechada dentro de si própria. Tudo o que parece grande é pequeno quando visto de fora. Diria que é irónico ter de ser eu a pílula a explicar-vos isso. A trazer-vos de volta à terra. A mostrar-vos que na leveza de uma prescrição, ratificada por um rápido gesto matinal das mãos, está um mundo tão pequeno e tão grande como qualquer outro. E esta é a minha segunda missão, introduzir na vida de Ivone o livre arbítrio que cabe dentro do compartimento que me contém. Sim, já vos vejo de novo a sorrir, seres repletos de continuidade, o livre arbítrio dentro de uma bolha de plástico!? Olhai antes para cima e calai-vos. Ouvi-me então agora. Para compreenderes esta minha missão tendes de saber do que me contaram as colegas dentro da caixa, histórias que ouviram de outras caixas que habitaram a mesma gaveta antes de se esvaziarem no seu destino. Podeis não ter confiança, dizer que são histórias que já ninguém pode corroborar. Ouvi e ajuizareis. Comecemos pelo princípio. Contaram-me de Ivone antes de nós. De uma Ivone à sua maneira fugida para Lisboa. Numa cidade onde imaginou renascer e com a cabeça no que deixou. Dividida, agarrou-se aos livros numa solidão assistida. Viveu mundos que por momentos a libertavam dos pensamentos. Foi acumulando os livros em cima de prateleiras inacessíveis, dispersas pelas paredes da casa pequena, com as lombadas contra a parede, como se estivessem envergonhados. E depois chegou Gonçalo. Ofereceu-lhe uma caixa com a pedra saída de um dos livros e do que lhe disse posso-vos assegurar, que disso percebo eu, nunca num grito de subjugação houve tanta liberdade.

domingo, 21 de agosto de 2016

Olhar – Ivone e Gonçalo

Na vida há momentos que marcam, que repetidamente nos vêm à memória, repassados da intenção que os forjou. Foi assim o olhar que Gonçalo encontrou em Ivone quando ela lhe estendeu a caixa de fósforos. A caixa foi o cenário sobre o qual Ivone colocou o olhar. Fixemo-nos nesse momento como num cartaz de uma peça de teatro. A mão aberta de Ivone, vazia. A caixa pesada entre as mãos de Gonçalo, aberta. E sobre eles o olhar. Mesmo sabendo o que aconteceu depois, sinto-me feliz por ter sido esse olhar. Há na entrega de uma mulher um ataque a que um homem facilmente sucumbe, num misto de vaidade e piedade. Regozijo-me sempre que penso em mim naquele momento. Mas terei tido eu outro? Existirei para além desse cenário, dessa caixa aberta, daquela mão estendida. Não sei, mas não fui criado por acaso. Sei das dúvidas que assaltaram a caixa e da indiferença do seu conteúdo. E sei mais do que eles. Existo por duas razões. A primeira porque Ivone gosta de livros. A segunda porque há na vida de uma mulher um momento em que o corpo se impõe e diz, é agora. Diria que a primeira razão foi o vestido que Ivone colocou sobre a segunda. A segunda razão é demasiado física para poder ser apresentada sem despudor, e para a cobrir nada melhor do que um livro. Já não recordo com exatidão qual foi o livro, mas com certeza um que leu sobre bruxas e unguentos mágicos. Sobre poderes que penosamente têm sido atribuídos às mulheres e as têm levado ao fogo. Queimadas por homens assustados e mulheres enfurecidas. Um livro feito com a magia do que se apanha do chão, por isso a pedra, os paus e a terra. Coberta por esse livro fez-me. Um olhar feito da tranquilidade do livro e da intensidade do corpo. Mas regressemos ao cartaz. Aquele em que fiquei capturado para a eternidade. Um olhar que traz público, que enche salas. Todos querem poder ter um pouco de mim. Ou porque nunca tiveram, ou porque sonham que tiveram, ou então querem só recordar. Para todos tenho a frescura que dá o tom da verdade, ou que aviva a memória. Por isso não tenho ilusões de ser diferente de outros olhares, também feitos de corpo e vestidos de alguma forma. Alguns com certeza, na pobreza ou na urgência, com pouca coisa por cima, apenas para disfarçar. Só não tiveram a sorte de serem colocados num cartaz, porque até o despojamento cativa. Distraí-me a falar de mim e esqueci o Gonçalo. Inebriamo-nos na descrição do feitiço, na determinação e força do seu criador, e esquecemos o enfeitiçado, como se fosse vítima, como se não usufruísse, e para o olhar são precisos dois. Sei que fui planeado pela Ivone, mas o que seria de mim sem o Gonçalo. Existe no olhar não correspondido um raiar de loucura de que fujo a sete pés. Quantos de nós se perderam assim. É algo que nos acautelam de pequenino. Ensinam-nos a saber quando o outro lado lá está. Essa é a arte. Esse é o bruxedo. Entregarmo-nos para sermos recebidos. E o Gonçalo estava lá.

sábado, 20 de agosto de 2016

Caixa de Fósforos – Gonçalo

Receber uma caixa de fósforos com uma pedra, uns paus e um pedaço de terra no dia de anos não é o mais comum dos presentes e no entanto fui eu que carreguei esse fardo quando passei da mão de Ivone para a de Gonçalo. Na altura era apenas uma caixa usada, com a lixa quase gasta, que Ivone tinha junto ao fogão. Inicialmente envergonhei-me, pois tinha orgulho em guardar esses senhores do fogo, industrialmente alinhados, todos com a cabeça para o mesmo lado, filhos distantes de uma árvore e aos quais é colocada uma ponta incendiária. Vestia com dignidade essa responsabilidade. O choque de me ver repentinamente esventrada dos últimos fósforos não foi menor que aquele se sente ao assistir ao extermínio de um exército que com garbo se viu desfilar. E depois, a humilhação de ter de tolerar um pedra colhida ao acaso, acompanhada por um pedaço de terra e uns paus retorcidos, desencadeou em mim o nojo do irregular, do sujo e do feio. Não sei se foi essa a imagem que transmiti a Gonçalo quando poisei na sua mão. Pelo menos, pela sua cara, havia surpresa. Ivone tinha-o chamado à parte e entregou-me com a mão aberta como que se duma cerimónia se tratasse. Gonçalo pegou em mim e abriu-me. Toda eu me encolhi de vergonha, sentia-me despojada dos músculos e observada até às entranhas. Apeteceu dizer, se pudesse falar, que não tinha sido sempre assim, que já tinha sido feita de um alinhamento preciso e metódico onde o todo se infere pela repetição da parte, numa espécie de multiplicação da ordem. Mas também notei que após a surpresa inicial Gonçalo procurou os olhos que Ivone tinha à espera dele e ficou pensativo. Comecei então eu a pensar que talvez neste fardo constrangedor houvesse o que não percebia. De facto, sempre desempenhei a minha obrigação, enrobustecendo-me com as vestes da minha função, e isso também é uma forma de não ver. Por isso comecei a questionar ao meu conteúdo. Que faziam eles antes de ter vindo para a caixa? Já se conheciam? Sabiam o que se esperava deles agora? As respostas não foram muito encorajadoras. As opiniões eram diversas. Falava cada um para seu lado, não concordando em nada. Era evidente que foi dentro da caixa que se tinham encontrado. Ainda assim não mostravam repulsa de agora estarem assim juntos. Estavam habituados aos encontros e desencontros de quem vive na rua, empurrados pelo vento ou por um pé distraído. Andava cada um na sua vida quando Ivone os colocou na caixa e ainda não tinham tido tempo de definir uma missão, um objetivo comum. Achavam mesmo que não deveria haver. A sua estadia seria temporária, era resultante do acaso e ele se encarregaria de os separar. Talvez fosse assim pensei, mas não conseguia esquecer os olhos de Gonçalo a procurar os de Ivone. Deveria haver alguma razão para eu ser despojada da regularidade e cheia deste fingimento de acaso.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pedra – Ivone

Em casa de Ivone. Em cima de um móvel. Há uma pedra. Ivone agarrou em mim e trouxe-me para casa. Já percorri todas as divisões. Com exceção da cozinha, que não conheço mas de quem percebo bem o cheiro. Julgarão que tenho tido uma vida muito agitada. Nada disso. Passam-se dias sem me ligarem nenhuma, e então lá pegam em mim. Levantam-me a meio de uma conversa, rodam-me entre os dedos, procurando uma razão, e voltam-me a poisar. É mais frequente quando há uma cara nova. Não nos primeiros dias. Quando começam a estar mais à vontade vão entremeando a conversa com a observação do que os rodeia. O Zé tem particular gosto por mim. Conheço bem os seus dedos grossos e a mão quente quando me volteia. Há mais de 2 anos que vem regularmente a casa. Mais para o fim da tarde, nunca ficando para comer. Minto, no início costumava vir também de manhã cedo, mas agora não. O Ricardo não me toca tanto. Gosta mais de falar. Janta por cá às vezes. Ri muito. Parece irmão da Ivone. Planeiam muitas coisas juntos. Sonhos e mudanças. É a Ivone que me vai trocando de lugar. Acontece por fases. Durante muito tempo nada acontece, até que um dia resolve mudar tudo, troca os móveis de sítio, desencanta velhas fotografias que coloca nas molduras. Sou apanhada nesse turbilhão, e lá vou da sala para o quarto, do quarto para o hall de entrada, do hall regresso à sala. Bom, é uma casa pequena e pode ser exagerado falar em percorrer a casa toda, mas para uma pedra não é pouco. E também não fui feita para isto. Ser apanhada em súbitas altercações. Correrias sem sentido que nos deixam no ponto de partida. Apenas mais inconformados. Chateia-me. Mas como pode uma pedra clamar por paz quando tudo à sua volta anda num turbilhão. Pergunto-me se a Ivone não se enganou quando me arrancou à montanha. Ao lento passar dos dias. À contemplação. Os humanos inventam ideias que os aliviam. Depois arranjam símbolos para as representar, pois sabem das fraquezas da imaginação e da sua própria inconstância. Por isso somos nós escravizadas aos seus desígnios. Obrigadas a dar voz ao que não temos. E mesmo, quando por puro acaso, somos o que nos imaginam, revoltamo-nos por sermos meros objetos de propaganda. Areia para os olhos. No meu caso, custa-me sentir um mero fantoche em mais uma revolução. A Ivone tira-me do quarto. Terá as suas razões. Coloca-me na sala e pensa, a pedra, o símbolo da paz e da temperança, fica bem na sala. E pensa, é sobre o sofá que procurarei a introspeção, e a pedra estará sobre a mesa percetível ao olhar. E, contudo, já esqueceu que me levou para o quarto pela mesmíssima razão que me quer agora na sala. Custa-me, repito, sentir-me mais uma vez usada. Se ainda acreditasse. Depois sobem a parada e atribuem-nos missões em que não acreditamos, nem sequer estamos preparados. Símbolos sobre símbolos. São infernais os humanos. Ainda antes do Zé, era Ivone mais nova e ofereceu, Gonçalo uma pedra com uns paus dentro de uma caixa de fósforos. Ivone quer acreditar que gosta de pedras.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Trela – Ricardo e Humberto

Sei bem, o que vos vou contar pode facilmente ser usado para satisfazer as línguas gulosas, as bocas estridentes, aqueles cuja vida está contida numa viagem entre os Apalaches e as Rochosas, tão cheia de aborrecimento como de marcos que indicam quantas milhas já se percorreram, para assinalar que algo aconteceu, e no fim dizer, parabéns, na sua vida fez 1254 milhas, foi mais longe do que 87% das pessoas como você. Sim, sei que esses lerão esta jornada com um sorrisinho e a usarão como o mau exemplo. Mas pouco me importa, sou uma completa defensora da liberdade, cada um é dono da sua vida, até de comentarem esta. Para vos aguçar o apetite desde já vos aviso que sou perversa até aos ossos. Desde logo porque não sou aquilo para que fui feita. Uma trela tem como objetivo segurar o cão. Levá-lo pela rua. Refrear-lhe os impulsos. Puxá-lo para nós. Trazê-lo à rédea curta, quase com as patas no ar, porque um animal é um animal e cabe ao ser humano refrear-lhe os instintos para que saiba quem é o dono, seja educado, renuncie às suas fraquezas primordiais. Sou perversa, porque quando olham para mim, pendurada atrás da porta do quarto é nisso que pensam, e nem se questionam onde estará o cão, tão bem definida está a minha missão. Sou perversa pois sou usada para o oposto. Para trazer por casa. Para soltar os instintos. E esta tarefa dá-me prazer. Sentir como Humberto se altera quando Ricardo me coloca ao seu pescoço. Ele que é tão contido. Excita-me sentir-lhe o frenesim. A vontade de saltar em frente, sem medos nem imaginar perigos. Humberto é feliz e Ricardo também. Ricardo segura-o com delicadeza, dá-lhe pequenos puxões da mesma forma que se incita um touro. Eh Touro! Eh Touro! E sorri. Outras vezes Ricardo veste-se de legionário romano. O peitoral fica-lhe tão bem. Alarga-lhe o peito com uma superfície bronzeada que visto de baixo lhe dá um ar imponente, de estátua viva. E Humberto, que é tão comedido, não se contém e diz, o direito é romano, o direito é romano, e ri como só assim o vejo rir, numa traquinice tardia. Podeis perceber como sou feliz e já entendeis como uma trela pode ser um arauto da liberdade. Para um cão posso chegar a ser um objeto de devoção, em que ele pega com os dentes mal o dono chega a casa. Mas é só a exacerbação do seu estado natural. Daquilo para que os cães foram feitos. Um aborrecimento de pedinchar afetos. Vós humanos fostes selecionando-os. Cada vez mais puros. Pedigrees variados. Todos mais imbecis. Mais amigos do homem. E depois dizeis que os nazis são uns monstros. Olhai o que fizestes aos cães. Eu, que a eles estava destinada, senti a revolução no dia em que fui colocada ao pescoço de Humberto. Não há dia mais feliz do que aquele em que podemos fazer exatamente o contrário daquilo para que meticulosamente nos projetaram. Olhamos para nós, para o cabedal, as fivelas, a presa, e percebemos que a tortura a que fomos destinados não é destino, que o destino não existe, tudo está nas nossas mãos. Porque como disse um poeta, a poesia é a metamorfose das palavras. Tristeza que tenha de ser uma trela a recordar-vos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Espelho – Humberto

Sou senhor de uma grande responsabilidade. Chegam a mim aspirações, interrogações, dúvidas, vaidades, sei lá eu, e a todos tenho que dar uma resposta. Se dissesse que sou verdadeiro, o fiel retrato da realidade, estaria a mentir, e de qualquer forma também ninguém acreditaria em mim. Sou mais um oráculo. Confrontam-me não para saberem o que são mas sim o que poderão vir a ser. No caso de Humberto, um homem com ambições políticas, isso é evidente. Vem ao espelho para ver como quer que o vejam. Treina posses sérias, vários tipos de entoações, que se ajustem às diferentes situações, da surpresa ao pesar, procura o estereótipo que mais se lhe poderá ajustar. Confesso-vos, como espelho, que procura o género sério, não apenas porque é aquele que estatisticamente tem levado mais longe, compassadamente, sem pressas, a do homem que inspira confiança, mas também porque é um homem de direito, um pouco falto de impulso artístico, devoto das miudezas. Eu, que sou espelho, não vejo nisso nada de errado. Quando o olho não vejo um homem mau, apenas alguém que procura perceber qual é o seu lugar no mundo, com o mesmo direito de uma mulher bonita que não me larga ou um trolha que me ignora. Vejo até mesmo um homem bom, se entendermos que todo o que sofre se não é bom tem pelo menos a condição de o vir a ser. Esse é pelo menos o ponto de vista das religiões que professam que o fruto da dor é a compaixão. Mas deixemo-nos de divagações pois qualquer filosofia de um espelho será baça. Pois, Humberto é um homem triste, tive a certeza quando terminou com a Catarina, no entanto já desconfiava embora lhe desse o esperado feedback, que como já deveis ter percebido essa é a função do espelho coerente. Depois de Catarina, via um homem que com sofrimento se interrogava perante mim. Um homem que vestiu uma roupagem que sente desajustada mas que não pode despir. Como quem se senta numa cadeira e ao fim de algum tempo começa-se a sentir desconfortável e em que levantar-se é a última das possibilidades, pois seria negar um sonho, uma ambição, e todos temos direito a eles. Sei que secretamente amaldiçoou o mundo. Perante mim mudava repentinamente da posse impassível a um rosto tolhido pela mais completa raiva, seguido de um sofrimento sem par. Temi pela sua saúde. E senti a sua encruzilhada. Gigantesca, porque não tinha sido munido nem da criatividade nem da desonestidade, e acutilante, pois temia que alguém soubesse. Também eu sofria, mas que pode fazer um pobre espelho, a mais passiva das criaturas. Ainda assim, desafiando as leis do criador, procurava transcender-me. Afeiçoei-me a Humberto. Chamai-lhe amor se quiserdes. Senti pena dele, enchi-me de compaixão. Sofri. E assim estive algum tempo. Mas então, num momento de loucura, revoltei-me com Deus, que sabia que nos observava, e quando mais uma vez Humberto chegou perante mim, enchi-me de coragem e disse-lhe, deixa-te de merdas.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Esperança – Cátia

A última coisa a perder-se é a esperança, diz-se. Concordo, sou uma sobrevivente salvadora, especializada em trazer à tona o que se afundou. Várias vezes medalhada, onde vou sou recebida com carinho. Não há quem não goste de mim. Sinto-o nos que se afundam. Descendo com os olhos agarrados à superfície imploram-me quando me veem mergulhar. Um a um, trago-os de volta ao seu lugar. Dou-lhes conselhos. Tenham cautela. Não repitam os erros do passado. Eles agradecem. Dizem que sim. Prometem-se que agora será diferente, não voltará a acontecer. Se tenho algo de vadia não é por minha culpa. As pessoas emprestam-me umas às outras. Dizem, não percas a esperança, comigo também foi assim. E assim, de exemplo em exemplo, lá vou eu, aconselhada a quem precisa. Foi assim que cheguei à Cátia. Não desistas do Afonso disseram-lhe. E a Cátia não desistiu. O tempo passou e a Cátia deixou-se ficar. Quando voltou a duvidar disseram-lhe, depois de todo este tempo não podes desistir de ti. É então que chego eu. Lá mergulho a buscar a Cátia e repor o que foi arrumando com o Afonso. Pequenos objetos. Pequenas situações. Apenas para fixar uma única coisa. O tempo. Por isso sempre que trago algum deles de volta à tona é o tempo que estou a repor. A Cátia necessita de mim pois ninguém gosta de olhar para trás e ver um abismo. Devem estar a pensar que sou uma fonte de energia e dedicação, sempre atenta e pronta. Não podiam estar mais enganados. Na realidade sou bastante preguiçosa. Pelo menos agora que criei nome. Pouco faço. Vivo em regime de franchising. Fazem tudo em meu nome. Sinto-me uma Deusa do Olimpo. A Cátia deixa-se afundar e depois vai-se buscar em meu nome. Diz, se não fosse a esperança, e eu lá de cima observo-a. Um ponto de cabelos que se agitam enquanto se move de um lado para o outro num frenesim. Abre portas. Fecha portas. Deixa-se ficar. Imóvel, é quando se encolhe que sei que se prepara para afundar. Um ponto que se centra sobre si mesmo. Depois olha para mim, chama o meu nome. Vejo-a esbracejar, agarrar os objetos, repô-los no lugar. No fim agradece-me pois eu sou a sua esperança. Uma preguiçosa observadora com um nome do tamanho da minha indolência. Mas vou-vos confessar. Suspeito que sou apenas uma palavra que esconde outra com menos aspirações e mais acomodada, esperar. Mas porque falo eu com este despudor? Porque posso. Não podem os abastados ter momentos de incerteza e decidir abraçar uma vida despojada? Da mesma forma eu, a esperança, me dispo das minhas louvadas virtudes e me apresento como realmente sou, pois sou dos seres mais etéreos do universo, estou em todo o lado. O que motiva aquela tresloucada correria do eletrão em torno do protão senão a esperança. Todos os seres que não têm têm esperança. A Cátia por vezes sente que não tem o Afonso e por isso tem esperança. E tem muita esperança. Tudo o que sente é feito de mim. Sei que está confusa. Por vezes acha que sente e por isso tem esperança e depois vem o reverso em que é por ter esperança que sente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Canção – Afonso

A guitarra do Afonso queixa-se. Há nela a imensa incompreensão daqueles que se sentem enganados nos seus sonhos. Acha que ele nunca lhe tocou nenhuma canção e é impossível convencê-la do contrário, quedou sobre si mesma na casmurrice dos traídos. Por isso não tento. Deixo-a estar. Talvez o tempo sare. Ou talvez não, e as cordas laças não voltem a ser afinadas. Devo confessar que pouco me importa. Ao princípio porventura um pouco, devido à curiosidade de procurar algum brilho por entre o tolhimento. Depois desliguei-me. A cabeça do Afonso também não me deixava em paz. Concebia-me tão perfeita. Uma daquelas canções que todos repetem. Cada um para seu lado. Cada um para si. De ser tanto cantada fui aprendendo a distanciar-me, a observar os que me cantam. Aos magotes. Sorria a observar o uníssono. Sentia-me poderosa, mágica, provocadora de sonhos. E os sonhos têm este poder de acasalar com o quer que seja, desde que seja outro sonho. A única promiscuidade real é a dos sonhos, a dos corpos só acontece porque estes se submetem à sua insatisfação. Era isso que eu via nos concertos em que todos me cantarolavam, de olhos semicerrados, olhando para dentro, extasiados. Ah, e que melhor imagem poderá haver para o Afonso. É bem verdade que todo o criador inadvertidamente constrói a musa que o enfeitiça. E eu, pobre canção, uma musa. Rio-me de me ver assim. Fui eu que sonhei a guitarra. Fi-la sonhar. Fi-la sofrer. Ela coitada nunca me sonhou a mim. Talvez por isso acabe nessa miséria. Só os que sonham o sonho podem ser livres. Por isso, repito, rio de me ver assim, canção na cabeça do Afonso, maior que todas as coisas, sorvedoiro dos que por mim se deixam possuir. Criadora e destrutora, igual por igual. Força motriz da criação dos impérios dos insignificantes. Daqueles que não levantam a voz. Dos que falam para dentro. Todos esses trazem uma canção dentro da cabeça. Como o Afonso. Por pressentirem como é gigantesco o que sonham tomam a opção de ser seus vassalos, seus humildes servidores, nada tentando para além da fantasia, autocondenando-se ao silêncio e à adoração. Quanto tempo fui senhora do Afonso? Agora que encontrou a Cátia menos, mas ainda assim, quando se aborrece, quando se entedia, clama por mim. E tomo conta dele como só eu sei. Tomo-o como um todo, possuo-o. E a Cátia assustada. As mulheres pressentem quando os seus homens são possuídos. Sentem-nos escorregadios, alheados. Por isso olham em volta à procura de outra mulher, têm a tendência a suspeitar que só um igual pode roubar outro igual, que a vida é feita de trocas, feita de pequenos ganhos e pequenas perdas, nada de devastador, como eu. Por isso sentem-se traídas e não sabem como. Procuram e nada encontram. Tolhem-se e entregam-se, quiçá, ao misticismo, à procura do para além do humano, não desconfiando da razão do frémito que lhes escapa. A Cátia não imagina que com o Afonso, na sua cabeça, vou eu, uma canção.

domingo, 14 de agosto de 2016

Guitarra – Afonso

Uma guitarra deitada de costas, como deve ser, sobre um tapete de quarto, com as cordas um pouco lassas de já não ser tocada há algum tempo. Aqui estou eu, um pouco esquecida, eu que fui tão desejada e agora já ninguém me toca. Não sei se será pelo pó. Se ao menos alguém me arranjasse e tornasse resplandecente como antigamente, talvez o Afonso por acaso olhasse para mim e tivesse vontade de me voltar a por a mão, dedilhar-me, eu sei lá. Não que ele toque bem. Mais emoção do que perícia. Mas é bom sentirmos que servimos para algo, que alguém nos pega, ainda que não seja como sonhámos que viesse a ser. Este é um pouco o destino dos seres passivos. Que podemos nós fazer. Ter fé, acreditar que em algum momento vão olhar para nós, que vão estender a mão e pegar-nos. Sim, dizia, esse é o nosso destino. Esperar que sejamos escolhidos. Às vezes, aqui sozinha, especialmente nas noites em que o Afonso não vem dormir, parece que fica na casa da namorada, dou comigo a recordar quando ele olhou para mim, para a montra onde eu estava. Não era das mais baratas. Tinha, claro, alguma vaidade disso. Sei que somos escolhidas pelo nosso valor. O Afonso olhou para mim e percebi logo que era desta. Muito se aprende de posar numa montra. Lemos o nosso valor nos olhos de quem passa. Só pela forma como Afonso me olhou, tremi. Comprou-me. Como não sabia tocar, teve vergonha de me experimentar logo ali. Levou-me para casa. Pegou-me com emoção. Pude sentir isso pelas mãos, pela pressão que exercia sobre o meu braço. Aproximou os dedos das cordas, tocou-lhes ao de leve, um pouco receoso, ainda assim com o sulco na ponta dos dedos. Confesso que estava nervosa. Ali com ele, gemi um pouco. Uma vibração monocórdica. Não posso dizer que não tenha sentido algum prazer. Ou talvez fosse mais alegria. Sim alegria, prazer deveria ser mais tarde, pensei. Achava que era o início, que me adaptaria, com o tempo mais cordas tocariam. Antevia com ternura o caminho que tínhamos pela frente. Estava decidida a guardar esta história. Ele cada vez melhor. Mais capaz. Talvez com um pouco menos de emoção, mais ciente de mim, do que eu sou capaz. Foi assim no primeiro dia. Nos dias seguintes, gostava de se sentar na cama e ter-me nas mãos. Sem fazer nada. Só a sentir o peso, o verniz na palma da mão. É assim o Afonso. Tem uma intensidade em não fazer nada. Em se quedar a olhar, como que à espera. No início deixei-me inebriar por essa paz, uma quase religiosidade. Talvez fosse assim o paraíso. Mas era nova. Tinha sido feita para tocar. Andei disso esquecida por uns tempos, mas depois voltou a instalar-se-me na cabeça. Quando estava ali, nos braços do Afonso, dava comigo a pensar como seria lá fora. Como seria o mundo com todas as cordas de que sou feita. Comecei-me a tolher. Até as poucas notas que de mim eram tiradas já não me pareciam iguais. Fugidias, um pouco falsas, mais feitas de compaixão do que de prazer.

sábado, 13 de agosto de 2016

Volkswagen – Romeu

Não há amor sem sucesso, pois o amor exige a perfeição, ou dito de outra forma, a harmonia. E o que é a harmonia senão o perfeito encadear de mecanismos, pistões bem oleados e firmemente agarrados à sua biela, num movimento contínuo, sempre perfeito, seja ele mais rápido ou mais de vagaroso. Não me quero gabar, mas eu sou feito dessa harmonia, sou um Volkswagen. Sou feito de anéis que asseguram o isolamento e regulam a dilatação. Pego à primeira e não desiludo quando desenvolvo. É essa regularidade, no acelerar e desacelerar, que Romeu procurou em mim e estou comprometido em não o desiludir. Mas o que tem isso a ver com o amor? Não é o amor exatamente o oposto? Uma combustão desenfreada, mais explosão do que movimento, que nos paralisa dando-nos a sensação de já não necessitarmos de ir a lado algum? Caros amigos, estais a cometer um dos erros mais comuns entre os humanos, confundir o amor com a paixão. Nunca dois seres tão opostos têm tão sido obrigados a viver juntos, dando origem a tanta confusão, tanto mal-entendido. O amor sempre a procurar a paz e a paixão o desassossego. Coitados, por que não deixam cada um deles seguir o seu caminho, preencher-se sem sentir a falta do outro. Mas não, miserável vida que ambicionas juntar o insolúvel. Sempre a apregoar o amor com paixão ou a paixão do amor, não sabes que assim não haverá sucesso no amor? Sim, talvez o haja na paixão, essa sôfrega que pelo momento deita tudo para trás das costas. Mas o amor necessita de percorrer quilómetros de regularidade. Foi por ser disto ciente que Romeu me comprou, por estar certo de onde quer ir. Por isso quando me põe as mãos em cima é sempre com uma intenção, para ir a algum lado. Mesmo quando diz que é para relaxar, para desanuviar, para dar uma volta apenas, fá-lo para reajustar o rumo, para tomar folgo. Para mim é um prazer, pois foi para isto que fui feito. Direi mesmo que essa é a minha escola. Temi, quando soube que ia ser vendido, poder ir parar a mãos trémulas, indecisas, que nos levam a dar uma volta e regressam ao ponto de partida tal como de lá saíram, ou pior que isso, que regressam a pensar, e agora. Mãos à procura da paixão, que andam no mundo à espera do acaso, de um acidente, sim, digo um acidente, com todo o pavor que essa palavra pode desencadear num carro. Algo de que saímos mais ou menos amachucados. Amedrontados para novas viagens. Mas, tive sorte, pois o Romeu sabe onde quer ir. Talvez não seja apenas sorte, somos escolhidos por aquilo de que somos feitos, e eu sou um Volkswagen. Nas mãos do Romeu, com a Catarina ao lado, é uma perfeição. Se a isto não se chama amor, o que será o amor. Uma vida a três de acordo com um plano, todos de acordo, cada um ciente da sua função, do seu contributo para o objetivo. Como sou feliz aqui, sentir que farei parte da história. Concentro-me para dar o meu melhor. Por vezes percorre-me um calafrio por receio que possa desiludir, que algo corra mal por minha causa, mas logo me passa e agarro à estrada.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Decisão – Catarina

A vida é feita de decisões. Decisões que comprometem e não deixam olhar para trás. Que interrompem com o óbvio. Pela sua educação, por aquilo que os pais lhe ensinaram, não seria este o caminho a que Catarina estaria predestinada. As histórias que lhe contavam, quando ainda não sabia ler, eram sobre elefantes coloridos que conviviam com os mais improváveis amigos do reino animal, onde as diferenças se esbatiam numa camaradagem feita da origem das coisas, numa paz universal concebida à medida das crianças. Depois cheguei eu. Instalei-me junto ao seu ouvido. Dizia-lhe que não teria que ser assim. Ela não me ligava, mas à tentação não se estranha a insistência. Imiscui-me onde não era chamada. Posso dizer que não foi difícil. Sim, a camaradagem universal está bem, mas é para o princípio, e o fim, da vida. Comecei-lhe por instalar a dúvida que cria um redemoinho. Uma vertigem. Olhava-me estonteada, com o receio que se tem pelo que nos atrai. Mas Catarina era cuidadosa e não se me entregou imediatamente. Resistiu e isso dava-me gozo. Sabia-a minha, pois na resistência já reconhecia a certeza da entrega. Como os passos que se dão atrás para tomar balanço. Para aumentar a tensão. Fazer crescer a vontade e o prazer do momento em que reconhecesse que eu era a decisão. Dizem que as decisões devem ser pensadas, tomadas com calma. Tretas, que eu bem sei. Depende das pessoas, dizem. Qual quê. A Catarina, sempre tão certa de si mesma. Desde pequena, cedo começou a ser autossuficiente, a saber o que queria. Se não fosse porque todas as decisões são precipitações, certamente que não teria sido uma precipitação. Mas eu sou mesmo assim. Senão ninguém diria, tomei uma decisão! A sério? Qual foi? Alguma coisa óbvia? Claro que não, para isso não é necessário tomar nenhuma. E chegou um momento em que o caçador se tornou presa. Não dei logo por isso, tão concentrado que estava no jogo. Como o saboreava. As insinuações seguidas da atenta escuta da reação. As contrações involuntárias dos músculos, o rubescer. Esses avanços e recuos provocavam-me um tal prazer que comecei a desfrutar desses momentos descontroladamente. Repetia-me pela pura procura da repetição e isso fez-me vítima de uma cegueira. Não via que era Catarina que me observava agora a mim. Eu estudava as suas reações à procura de mais insinuações. Mas era ela a dona do tempo. Já tinha tomado a decisão e eu era seu escravo. Vivia uma ilusão que ela alimentava com malícia. Talvez eu até tivesse consciência de tudo, mas fingia ignorar para prolongar a sensação de ser seu senhor. Sucumbir ao próprio veneno pode ser a indicação que este é o de menos importância. Que o veneno não é nada sem o corpo onde se instala. Que eu me julgava toda poderosa nas minhas insinuações, desencadeando o imprevisível. Mas vivo agora nesta suspeição de ter sido um mero joguete. Uma invenção de Catarina. Sua obra. Foi ela que me colocou junto ao seu ouvido. Que me levou às insinuações, que prolongou o meu prazer, e agora o meu sofrimento.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Diário – Catarina

Letra miudinha disposta em linhas que varrem de lado a lado o pequeno caderno. A escrita serrada e contínua dá imediatamente a perceber o carácter privado, escrito para ser escrito, para a comunicação num só sentido. Eu sou o diário da Catarina. Repositório de observações sobre o mundo, abro-me às confidências que intimamente se fazem a um amante sobre os outros, como se nunca pudesse vir a acontecer uma separação, na crença da unicidade que o amor traz. Posso garantir que sou o mais fiel dos amantes. Que apenas contarei os meus segredos se for violado, aberto e lido sem autorização. O que contenho não diferirá com certeza de qualquer diário de uma rapariga de 15 anos com curiosidade suficiente sobre o mundo e o seu corpo. Uma amálgama de querer e receio, de gostar e aversão, ainda não distante da educação infantil sobre a higiene, o limpo e o sujo. Sou o último testemunho duma inocência construída na pureza. Mas, o que tenho de especial? O que podem ter de especial os diários? De certeza que não é a forma como começam. Começamos com o fim da infância. Onde diferimos é na forma como acabamos. É aí que se testemunha a passagem, frequentemente abrupta, à maturidade, ao fim da descoberta. Se por acaso fossemos tão ingénuos como quem nos escreve padeceríamos da ansiedade da obra inacabada, à espera do seu autor para fechar um enredo, terminar uma contenda. Mas um dia esquecem-se de nós e somos lentamente despromovidos na distância ao nosso escriba, complicando o acesso, acabando eventualmente num caixote transportado por carregadores de empresas de mudanças de sótão em sótão, até que um putativo herdeiro venha avaliar do nosso real valor. Nada de palpável encontrará, pois, os diários são rituais de passagem que se esgotam no preciso momento em que os seus sujeitos começam as suas realizações. No meu caso, as últimas páginas estão preenchidas por um fascínio por Humberto interrompido por uma revolta, uma quase raiva, para com Romeu. Este Romeu chegou de repente quase o oposto de Humberto, que paulatinamente me foi apresentado. Humberto foi-me inicialmente fisicamente descrito. Começou pelos olhos azuis e os cabelos loiros. Mais tarde uma detalhada descrição das mãos, e só então me falou do seu temperamento. De como era simpático e conversador, diferente dos outros rapazes, mais fugidios, que falavam de passagem com as raparigas, como continuação da competição em que estavam envolvidos. Humberto não era assim e começaram a namorar. Contou-me das longas conversas e das suas opiniões, uma estruturação de objetivos onde percebi uma semente de ambição, em que suspeitei Catarina se revia. Então, um dia, subitamente, falou como Romeu, dois anos mais velho, interrompeu Humberto. Da frieza com que se dirigiu a ele. Quase o ignorando. Defendeu Humberto na exata medida em que exacerbou uma profunda aversão a Romeu. E aí terminou o diário. Não sei o que aconteceu a Humberto, nem sequer se Romeu era alto ou baixo, ou qual seria a sua opinião acerca das coisas.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Pequeno político – Humberto

Nesta matéria quem tem uma opinião formada sou eu. É fácil ter opinião, mas nem todas as opiniões são adequadas. Uma opinião deve marcar presença, para ser notada, senão de que serviria ter opinião, e ao mesmo tempo não incomodar, e muito menos ofender, para além do estritamente necessário. Não é uma arte fácil, mas aprende-se, o Humberto que o diga. Cedo sentiu a convocação, ainda no secundário, para a associação de estudantes. Porém no início era mais a vontade que a perícia. Humberto abria a boca e lá saía a minha voz desconectada como se de um ato de ventriloquismo se tratasse. Recordo que o Romeu ainda observou com graça, Humberto, pareces um político a falar. Pobre Humberto, não estava à espera, perdeu o controlo e calou-me, começando ele a falar. Disse, pois... pois..., e pior, repetiu o Romeu dizendo, um político. Felizmente lá voltei eu a retomar o controlo e juntei-lhe mais esta matéria, e aquela, e aqueloutra, coisas de orçamentos, gestões, e acima de tudo as regras que nas suas nuances pregam partidas. Mas serviu-lhe de lição. A partir daí percebeu que nada poderia ser inesperado. Pega-se na coisa, seja ela uma pergunta ou um mero comentário, e começa-se a fiar, criando um novelo que vai embrulhando o que não interessa, deixando de fora a mensagem, saliente e luzidia. Essa é a regra principal que a todos recomendo, se não há uma mensagem mais vale estar calado. Nas reuniões identificamos facilmente os que falam porque gostam de se ouvir, ou pior, porque acreditam piamente no que dizem, daqueles que pragmaticamente dizem o que é necessário para atingir os seus objetivos. Por isso a mensagem não deve conter a verdade, como julgam os crédulos, mas sim o que é útil. Nisso, mesmo enquanto aprendiz e inábil, Humberto nunca esteve com os primeiros, sabia claramente que o jogo bonito e vistoso pode encher o olho, mas não traz vitórias tranquilas, daquelas que perduram. Esta é a segunda verdade que podeis aprender do pequeno político que está dentro do Humberto, a vitória a que deveis almejar é a de secretaria. Às vitórias de que não se percebe a origem não é fácil achar o fim. Não foi sempre um aprendiz o Humberto. No início ainda falava a duas vozes, daí a observação de Romeu, e eu andava um pouco aos trambolhões lá dentro, pronto para responder à chamada sempre que Humberto queria dar um a opinião, marcar uma diferença, enfim, marcar a posição. Com o tempo deixámos de ser dois e já não se percebia quando falava um ou o outro. Digamos que é isso o crescimento, moldarmo-nos por dentro com fantasias que com o tempo se tornam reais. Existe, contudo, nesse período de folga entre a fantasia e o corpo, uma visível falta de coerência que pode trazer desconforto. No caso de Humberto, o fim do namoro com Catarina não é alheio ao reparo de Romeu. Catarina tinha apenas 15 anos e não ficou indiferente. Humberto ainda tentou. Quase sentiu, ou simulou, o sofrimento da perda, tão normal nos adolescentes. Falou com ela, justificou-se, mas o fascínio nestas idades é puramente mágico, e aqui entre nós, Humberto sentiu um grande alívio.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Peluches – Catarina

Os peluches no quarto de Catarina contam uma história em duas fases. A primeira, mais cor de rosa e redonda, de um período em que a linguagem ainda não era capaz de traçar formas precisas, é feito de noddies adocicados mas sem graça, que agora se amontoam dentro do armário. Cá fora, estamos nós os peluches da segunda fase, dispostos em cima da cama e sentados nas cadeiras, senhores deste quarto por testamento de alguém que partiu. Estamos fortemente imbuídos da tarefa de combater o esquecimento, para que o quarto não seja deixado ao abandono e usado para fins diferentes daqueles para que foi tantos anos habitado. Representamos animais de olhos brilhantes que imediatamente encaram quem entra, num misto de aviso e solicitude. Muito cedo a Catarina nos preferiu a nós, mais fiéis modelos da realidade, do que aos redondos moradores, odes a uma meiguice fechada sobre si mesma, falha de esplendor. Juntamos a serenidade calma do leão com a matreirice rápida do guaxinim. Quem para olha para nós não pode deixar de ver isso e simultaneamente sorrir pois, não obstante os perigos que as nossas qualidades subentendem, somos fofos. Essa é evidentemente a razão pela qual as meninas nos preferem. Nelas, aquele sorriso exclui uma competição aberta, para a qual os homens se sentem frequentemente impelidos, e desencadeia um outro jogo. Porque sabemos isso? Bem, porque nós somos os peluches e recordamos como a Catarina nos pegava e repreendia por crimes que não tínhamos cometido, mas para os quais nós parecíamos predestinados. Não olhes assim para o coelho, dizia ela com ironia ao guaxinim. Por causa desta partilha habituámo-nos a uma camaradagem em que cada um representa o seu papel. Foram-se juntando animais, oferecidos principalmente pelo pai, depois de uma viagem, ou de uma doença mais renitente, das que não deixa ir à escola. A chegada de um novo bicho era por nós saudada com a curiosidade de saber que nova malandrice se vinha adicionar ao grupo. Por isso fazíamo-nos difíceis, dado que a verdadeira camaradagem nunca é oferecida, obrigando o novo habitante a suportar afrontas. Tinha assim que esgrimir o seu feitio com o nosso, uma luta na qual encenávamos as disputas do costume com um olho no novato, para ver de que era feito. A Catarina a tudo isto assistia, acabando por facilitar a vida ao recém chegado, acarinhando-o e deixando os veteranos relegados aos cadeirões e aos cantos do quarto. Cresceu assim nesta selva comedida por quatro paredes, mas não se pode dizer tenha aqui estado fechada. Nós que estávamos cá dentro e que quase nunca saíamos, apercebíamo-nos que algumas destas brincadeiras que connosco encenava já tinham sido semi-aprendidas lá fora, mas era no sossego deste retiro que as desenvolvia experimentando variações. Por isso podemos dizer que quem melhor conhece a Catarina somos nós, dela não só sabemos o que é, como todas as outras brincadeiras que connosco experimentou e que por alguma razão, ou falta dela, nunca aplicou lá fora.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Blusão – Zé

Um blusão coçado, este que está no bengaleiro. Joaninha está farta de dizer para comprar outro mas o Zé gosta de mim. Sou o único que quer seja inverno quer seja verão está sempre pronto para sair. Sou um companheiro. Mesmo essa acusação de ser coçado é falsa. Sou de cabedal. Talvez os blusões de cabedal de hoje em dia possam ficar roçados de finos que são, por mania da moda ou da economia. Mas eu sou de cepa antiga. Para me darem a forma dos humanos não tiraram de mim a vaca de que sou feito. Grosso, quando o Zé dobra o cotovelo são as minhas rugas que se revelam e não o braço dele. Sou uma armadura que protege este homem grande. Sinto que quando olham para ele, especialmente as mulheres, veem um belo homem de 1 metro e 80 a quem os 85 quilos acrescentam mais de imponência do que de gordura. Mas eu sei como é frágil o seu corpo. Conheço-o intimamente. O batimento dos órgãos. Os pequenos frenesins e as contrações. As hesitações que por vezes o atravessam. Sou leal. Nada conto. Como um amigo nem ao Zé disso falo. Vestido de mim, creio que até ele ignora, ou finge ignorar, as fraquezas do corpo. Imbuídos desta força, feita da união entre o amor que lhe dedico e a confiança que me tem, temos percorrido muito caminho. Mas é um homem sensível que, como todos, tem medo de morrer. A essa luz poderão ser vistas as suas escapadelas, os seus pecados. Poderão dizer que é desculpa de amigo. Que o defendo porque lhe visto a pele. Contudo sei como um corpo pode começar a sentir-se só depois de ser abandonado pelas certezas que as paixões trazem. Comprou-me depois de ter perdido a esperança na revolução. Foi pelas conversas que fui ouvindo que percebi o que se tinha passado antes. Então, ele, menos atento ao corpo, mais compenetrado no futuro, não sentia as hesitações. Não que elas lá não estivessem. Dos seus órgãos nunca eu senti um antes e um depois, como o sinto em Zé. É assim a juventude. Um ignorar feito de andar para a frente. Foi quando desconfiou do corpo que me vestiu, que procurou mãos que se metessem entre mim e o seu peito. Que o desejassem. Que cheias do desejo não sentissem as hesitações. Não se pode chamar pecado a esta necessidade. Nunca lhe senti vaidade nas conquistas. A beleza das mulheres traz paz. Não há ostentação, silêncio apenas. A outros ouvi-lhes eu contar-lhe das suas aventuras. Histórias de conquista e sucesso. Mas nem nessas horas propícias Zé se descoseu. Teria sido fácil. Ninguém o poderia acusar de vanglória. Não tinha sido ele que iniciou a conversa. Seria apenas um ato de camaradagem. Coisa normal entre homens concebidos para caçar. Mas não. Nunca vacilou. Já eu, confesso, feito de animal como sou, tinha alguma. Envaidecia-me de lhes sentir os seios quentes. Talvez o seu calor me trouxesse à memória o tempo em que vivia no campo cobrindo um corpo possante e calmo. Cheio de uma vida que era a minha. Que não se tirava para pendurar no bengaleiro à entrada de casa.

domingo, 7 de agosto de 2016

Espraiar – Isabel

Os seres são feitos da propriedade da contenção. De um corpo, comporta dos seus fluidos, que os impede de transbordar, da dissolução do ser num magma primordial. Dizem que este espraiar é o contrário de estar vivo. Que estar vivo é a contenção, a vida entre portas, sendo o corpo o zeloso guardião do eu, da dignidade, de tudo o que somos feitos. Talvez se permita algum extravasar, mas controlado, pensado, de consequências bem definidas, e acima de tudo capaz de preservar o eu. Eu não sou assim. Tenho um corpo que toma o nome de Isabel mas sinto uma constante ansiedade de sair. Conhecer gente, conversar, não estar em casa. A rua. Sim, a rua arrebata-me, conquista-me. É lá que me sinto bem. Ao ar. Com algo sempre a acontecer, ou para acontecer. E o que acontece aborrece-me no preciso momento que ocorre. Quero logo mais. A Isabel pensa que esta a insatisfação é dela, mas sou eu que a empurro. Sem mim talvez fosse mais caseira, tivesse tido outra vida, filhos até. Mas isso é chorar sobre o molhado. As coisas são como são e se eu e a Isabel somos diferentes, separar-nos também não é possível. Por isso a Isabel não desconfia de mim e entrega-se. No início ainda mostrava uma estranheza. Depois do meu impulso, que a levava a sair, sentia-a absorta. Andava assim uns dias, como que a tentar recompor-se. A regressar a si. À procura do eu. Mas eu estava sempre lá e foi perdendo essa distância entre o que fazia e o que era. Já terá sido assim com o Zé. Bom falo do Zé porque sei que é nele que estais interessados. Que dizer do Zé que a Isabel não vos saiba contar. O Zé aconteceu num período em que a Isabel já não se interrogava. Pelo contrário, foi no período a seguir às indagações e estranhezas, numa altura em que a revolução estava no seu máximo fervor. E não é que a Isabel, estivesse imbuída de um particular espírito revolucionário, de missão, de mudança da ordem do mundo. Não, não era isso que a animava, mas era a rua com o seu extravasar de gente, de emoções. E se na altura muita gente vivia a revolução com a mente, com um objetivo bem delineado, como se constroem as ideias que tanto mal fazem ao mundo, ela bastava-se no transbordar, e uso o pronome ela pois a linguagem está sempre um passo atrás da revolução. Pensava eu que agora ela já não se distinguia de mim. Foi então nessa época que conheceu o Zé. Um homem bonito, interessou-me enquanto não o possuí. Era senhor de um ardor que devia muito à juventude. Senti uma curiosidade acicatada pela omnipresença da Joaninha. Não gostava dela. Tanta organização incomodava-me. Desconfiava mesmo que viesse a por um fim à rua. A termos que voltar para casa, a um mundo contido entre quatro paredes, com planos e objetivos a atingir. E a mim não me enganava. Como olhava para nós. Por isso empurrei a Isabel para o Zé. Como negação da ordem e uma manifestação da revolução. A Isabel acha que foi mais do que isso devido à nostalgia que lhe tolhe a memória. Pois é, com a idade procuramos dar aos nossos atos um sentido que deixe uma marca que fique quando tivermos de partir. Eu não sou assim.

sábado, 6 de agosto de 2016

Amor – Joaninha e Zé

Todos sabemos que há muitas formas de amor. O amor entre Joaninha e o Zé é apenas uma delas. Mas poderemos dizer que é um? Não serão dois? Será que o amor que o Zé tem pela Joaninha é igual ao amor que a Joaninha tem pelo Zé? Se fosse um, quereria dizer que quando começou, assim como quando terminou, isso aconteceu simultaneamente no Zé e na Joaninha, e contudo, qualquer pessoa que tenha amado sabe-o improvável, excetuando os casos de amor à primeira vista, que seriam a prova irrefutável da unicidade do amor se não acontecessem com tanta frequência à mesma pessoa, e quase sempre de uma forma inoportuna. Por outro lado, se são dois, então o amor não existe, é apenas um prolongado fingimento de que duas coisas diferentes são iguais. Mas, ninguém melhor que eu para esclarecer estas dúvidas, que imagino inquietantes para quem não é o amor. Eu sou o amor da Joaninha e do Zé. Suponho que neste momento ficaram convencidos que o amor é um. Bom, talvez devamos ser cautelosos. Eu sou o amor, mas eu não sou um, sou dois. Como é isso possível? Poderemos dizer que sou um mas existe uma distância que eu tenho que percorrer, da Joaninha para o Zé e de regresso à Joaninha, como os sins numa conversa telefónica. Ou talvez, melhor, os tás. Tás aí? Tou! Amas-me? Sim! Muito sofro eu nessa azafama, de um lado para o outro, a confirmar o irrevogável. Por isso quando se diz que o amor parte o coração, sou eu que bruscamente paro e me encosto a um canto sem me importar mais comigo, extenuado de amor. Se me aguento nessa primeira fase, vou então com o tempo deixando-me de correrias. Diz-se então que o amor é coisa passageira e o que fica é a amizade. Não sei. Foi a Joaninha que primeiro me enviou ao Zé. O Zé, distraído, não dava por nada. Empolgado pelos tempos, pelo movimento de massas. Sentia-me pequeno em todo aquele vendaval. Eu que fui feito para revirar as entranhas, não era nada, quando comparado com o amor à igualdade, à fraternidade e à amizade entre os povos. Sentia dentro de mim aquela tendência burguesa de possuir, de ter só para mim, mas calava-a bem fundo. A Joaninha sabia o que fazer. Para conquistar a exaltação do Zé, para a ter só para ela, fez o trabalho da formiga. Pacientemente esperou que chegasse o inverno. Carregou espiga a espiga, amealhou, criou a estrutura. Não que não se fosse imaginando com ele, belo, com os cabelos aos caracóis, a barba e o corpo forte. Mas sabia esperar, cada coisa a seu tempo. Assim posso dizer que cresci na Joaninha, treinado com o olho no Zé, pronto a caçá-lo, a tê-lo só para ela. Muito me ensinou. Quando o Zé teve o caso com a Isabel, revoltei-me. Não tinha sido para isso que tinha sido feito. Mas a Joaninha disse-me, tem calma, espera, cada coisa a seu tempo, deixa-o, que voar também cansa. Olhei para a Joaninha surpreendido. Não sentia ela a afronta? Não imaginava o corpo dele sobre o da Isabel a intrometer-se no nosso sonho? Meu Deus, cheguei a duvidar se eu seria de verdade.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Renault – Joaninha

Os Renaults são carros redondos, especialmente os antigos. O Renault da Joaninha é duplamente redondo, de antigo e da Joaninha. Eu sou esse Renault com a reforma assegurada. Estimado pela minha dona pelo que fiz e pelo que agora represento. Sou uma 4l de 5 portas, do tempo em que os tampões das rodas escondiam com algum pudor umas jantes não desenhadas para serem mostradas. Fiz muitas viagens que, com o tempo, ganharam de cerimónia o que foram perdendo de utilidade. Tenho saudades das crianças, o Afonso e a Catarina, no banco de trás, com a Joaninha ao volante. O Zé nunca gostou de me conduzir. Agora pouco saio deste ramerrame, casa-escola, escola-casa. De antes recordo as viagens ao Algarve, as férias no parque de campismo de Armação de Pêra. A aventura da estrada. Os carros que me apareciam pela frente, olhos nos olhos, a fazer ultrapassagens. Agora, estou mais para o chá... As conversas das colegas da Joaninha junto ao carro, antes da última despedida. Por vezes repetem a despedida, sempre com mais uma coisa para dizer. Coisa redonda, coisas de mulheres, aqui que ninguém nos ouve. Nas idas para o Algarve era o calor da conversa do verão de 75. Cheia da certeza de mudar isto. Ainda sem os miúdos, com o que eu percebia, rodava convicta de haver um antes e um depois. Cada instante era diferente. Cada quilómetro percorrido deixava para trás o passado. Falavam das cooperativas, da terra a quem a trabalha, enquanto atravessavam um Alentejo amarelo. Depois veio o Afonso. Tenho que confessar que fui comprada por causa dele. Para haver espaço para o levar. Na ida de 75 já Joaninha o levava na barriga. Eu não dei por isso. Ainda era nova e não desconfiei dos cuidados de Zé. “Queres que eu conduza, amor?”. “Olha que se calhar é melhor querida”. Mas Joaninha sempre igual e ela própria não desarmava. Trabalho igual, salário igual. Depois os tempos foram mudando. Não para Joaninha, mas já Catarina explora a força herdada da mãe na sua vertente mais feminina. Sei que não é ela que conduz. Quem mo disse foi o Volkswagen do Romeu, o companheiro dela. Desculpem, agora já não se usa companheiro, é o namorado. Estacionou ao meu lado e estivemos na conversa. Começou na brincadeira acerca dos carros Franceses. Estes Alemães. Acham que carros é com eles. Mas entendemo-nos. Ele também tinha alguma curiosidade em perceber o que é a vida de um carro idoso. Percebi que tem medo de ser trocado ao fim de seis ou sete anos. Coitado, se calhar aquilo dos carros Franceses era inveja. Mas lá me contou do Romeu e a Catarina na estrada. Coisas que carros contam a carros... Inconfidências que ficam só entre nós. Percebi que não estão a pensar em crianças. O Volkswagen não vai passear criancinhas tão cedo. Coitado, uma vida bem menos preenchida do que aquela que eu tive. A revolução. As crianças. O fruto da revolução. Os frutos a crescer. O esmorecer das convicções no Zé. A sua ritualização na Joaninha. O desemprego de Afonso. O Volkswagen da Catarina.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

20:07:31 – 20:07:38

Zé é interrompido por Joaninha que o olha demoradamente. É também levado a se observar. Tem descurado o corpo. Num desleixo associado a alguma apatia tem-lhe prestado pouca atenção. Não fosse pelas mãos, que frequentemente se intrometem em frente aos olhos, quase ignoraria a sua existência. Mas então não é possível ignorar a agitação dos dedos pendurados das costas e as marcas castanhas que por ali crescem. Vê nelas os sinais da idade e conjetura acerca do resto. Mantém-se pelas suposições pois o pudor impede-o de procurar. Não vai ao médico e por isso não separa o dentro do fora. Para Zé o corpo é uma massa disforme e sem fronteira. Exclui a beleza, essa barreira que enfeita a matéria para a tornar apetecível, dado que esconder é uma subtil afirmação da existência. Observa assim a massa ondulante que fibra ao ritmo da respiração marcando a passagem do tempo como a oscilação do átomo.
Continua a ser um homem bonito, o Zé, aos 57 anos. A testa alongada e bronzeada coroada por uma cabeleira farta. O cabelo encaracolado e uma barba tisnada de brancos cercam uma boca carnuda encimada por dois olhos negros molhados. As bochechas saídas dão ao todo um ar de ilha num mar de pelos, com as orelhas a emergirem como pontiagudos rochedos. No pescoço forte, as rugas da idade não incomodam e anunciam um corpo robusto levemente coberto de tufos macios que ondeiam sobre si preservando a forma. Por debaixo, a pele suave está regada de pequenas manchas, ancoradoiros para quem por ali navega. Os pequenos mamilos rosados, num peito que não se desmancha, são os marcos geodésicos daquele maciço. A imponência nos homens realça a beleza, como se num desafio exigissem o seu direito ao sol, a estarem ali. É esta presença que é cara a Joaninha.
É tranquilidade o que sente quando observa o Zé a dormir a seu lado. O sono, que torna os corpos indefesos, protege-os com a graça do bebé. É assim que Ivone se sente mais feliz. Entrega-se na vigília daquele gigante. A força do corpo adormecido, fazê-la esquecer que lá dentro fervilha de desejos que teme não perceber. Olha para a massa que respira. É como se de um desconhecido se tratasse. Percorre as linhas do corpo, a nítida fronteira que estabelecem com o ar. Prossegue para outros objetos que silenciosos os cercam, as dunas do lençol, a madeira da cama, o castanho do chão, o branco da parede, os retângulos das gavetas da cómoda. As cores vívidas acentuam as formas, delineando-as, de uma geometria perfeita. Sente-se envolta por um mundo sem cambiantes, onde cada coisa é igual a si própria. Sente vergonha da paz que sente, mas deseja que este seja o fim da saciedade.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

20:03 – 20:10

Chegado ao quarto deita-se em cima da cama. Na imobilidade que o inunda, tenta detetar algum movimento no candeeiro do teto, ainda que ligeiro. Joaninha entra, acabou de chegar da escola, precisa de mudar de roupa antes de ir para a reunião. Fala, Joaninha fala da escola, das pessoas. Coisas de que Zé tem imagens, ora pormenorizadas ora desvanecidas, construídas, camada a camada, como quadros nunca finalizados que todos os dias são retocados. Observa o corpo da mulher, com a saia e o casaco, tirado o casaco, a blusa decotada com o colar de pérolas, debaixo das calças as pernas redondas com as marcas da idade. Não consegue evitar misturar o que ouve com o que vê. A idade da conversa e a idade do corpo. E contudo, continua tão ágil, tão cheia de sentido. Percebe isso, mas a lógica escapa-lhe, suspeita que o traçar de um caminho apenas aumenta o número de alternativas.
Não tem muito tempo. Um duche rápido e mudar de roupa. — Encontrei a Margarida à saída da escola. — dá a volta à cama e prossegue — Preocupada com a questão dos professores titulares. — abre a porta do guarda-vestidos — É a mais nova do agrupamento dela. Artes visuais. — Joaninha faz questão em realçar — De certa forma é uma surpresa não se ter colocado do lado dos jovens espoliados. — a voz não esconde alguma satisfação enquanto vai passando a mão por cabides que puxa ligeiramente para expor a roupa. Para por um instante e olha para ele que a segue com o olhar. Prossegue — Vai vir esta noite à reunião. — não evita pensar se Zé poderá ter interpretado alguma velada acusação — Temos que estar unidos. — procura abandonar a hesitação seguindo em frente — A forma como se começa é fundamental. — Interrompe-se. — Ah, o Gonçalves convidou-nos para no domingo ir almoçar lá a casa.
Ricardo acabou de sair. Deixa-se estar um pouco no sofá. Pensamentos que vão e vêm. A sensação doce do corpo pesado de Zé que a aperta contra a cama, o desconforto de sentir os filhos dele que não vê há muito, e de quem foi criando imagens, afunda-se na de Catarina de quem Zé é mais apegado e que imagina agora igual à de Joaninha. Agita-se, procura regressar ao Zé, não como uma abstração, um desejo, sabe que isso de nada serve, fixa-se sim em pormenores do rosto, marcas na pele, na tranquilidade de o sentir a dormir. Pensa nos seus pais, a cara do pai enrugada a olhar para ela, a mãe doméstica, o desejo que sentiu de sair, de mudar de vida, Lisboa pela primeira vez, Santa Apolónia, a luz desta cidade, uma vida nova, a sensação do recomeço, a paz que trazem os lugares virgens, o Zé, a voz que ouviu no hospital, a segurança, as incertezas, a paciência, encher-se de estar com ele seguido da espera.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

19:38 – 20:03

Depois da porta há um pequeno hall habitado pela existência. As coisas úteis a quem sai ou entra em casa. O bengaleiro com as várias possibilidades de casaco a usar nesta época do ano. Da gente da casa, da mulher e do filho, mas não da filha que já cá não mora. A sapateira igual. Algumas fotografias especadas sobre a cómoda cumprimentam quem entra preparando-se para contar uma história. Os filhos pequenos, a sorrir ou a correr. Ainda antes dos filhos, as lutas em que se envolveram, os amanhãs. Depois os filhos maiores, a ameaçarem ficar iguais ao pais, mas sem a luta, mais encarreirados ou com outras exaltações. Finalmente as fotografias da partida, da queima das fitas da filha, sob protesto da mãe, e do filho com a namorada, boa rapariga, ali colocada fora de tempo, para manifestar um desejo e fincar um rumo, revelando algumas interrogações e procurando enterrar alguma ansiedade.
A porta do carro faz um ruído quando abre. Já está há algum tempo assim. Tem que o levar à oficina. Também não admira, já tem mais de 30 anos. Joaninha tem algum orgulho no Renault. Poderia desfazer-se dele, mas é como uma bandeira. Gosta de acentuar como contrasta com o cuidado que tem consigo, na maquilhagem, na roupa, e ao mesmo tempo marcar os seus valores. Ao volante pensa no filho de novo à procura de emprego. Continua em casa. Afonso já tem mais de 30 anos mas não consegue abdicar deste instinto protetor. E a situação não parece poder vir a melhorar. Um daqueles cursos das letras que não dão para nada. Já está há algum tempo com esta namorada. A filha tirou engenharia. Está empregada e há muito que vive com o namorado. Quando saiu quem mais lhe sentiu a falta foi o Zé. Sempre tão apegada a ela. Às vezes parece-lhe que a sua saída foi o fim de uma competição velada pela atenção do pai.
Tocam à porta, deve ser Ricardo, costuma aparecer por esta hora para dois dedos de conversa. — Na cama a esta hora? — diz-lhe com um piscar de olho. — O Zé acabou de sair — responde-lhe Ivone com um pequeno sorriso no canto da boca. — Como vão as coisas? Já vai algum tempo. Quanto? Dois anos, não é? — pergunta-lhe a atiçar. — Sim, — assenta Ivone — um pouco mais de dois anos. Começou quando estivemos no mesmo hospital. Sabes os filhos… — diz Ivone, sentindo-se obrigada a acrescentar uma desculpa que sabe não fazer sentido. — Como está o Humberto? — pergunta para mudar de conversa. — Está bem — responde — Pode ser agora que os pais dele comecem a aceitar a nossa relação. Convidámo-los a vir-nos visitar. — E então? — interrompe Ivone? — Pela mãe acho que vêm, mas do pai já não sei. — Ricardo, pestaneja um pouco. — Foi tudo tão complicado.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

19:08 – 19:38

Se caminhasse de olhos fechados talvez tivesse mais tino na direção. Uma brisa refresca o ar. Zé recorda o corpo imobilizado em ponte, uns instantes só, e depois o descer da montanha que laboriosamente subiu. Agora regressa a casa. São assim as caminhadas, feitas do ir e do vir, planeadas e sem surpresas, não são como as migrações e por isso já têm o regresso na partida. Desordenadamente, amontoam-se-lhe na cabeça os fragmentos de por onde vai passando. As árvores de tronco bochechudo, que apertou com a mão peluda marcada pela idade. O rio quase seco com o seu leito de seixos que ladeiam um fio ondulado e negro. As pedras negras do passeio dispostas em zebra que o estonteiam. As faixas de sombra dos candeeiros de iluminação que se estendem fantasmagóricas à sua frente pelo sol do entardecer. Está à porta de casa. Cerca de 30 minutos é o que costuma demorar desde a casa de Ivone.
À porta da escola passa gente. Para-se e fala-se. Joaninha está com alguns colegas. Discute-se o problema dos professores titulares. Querem diferenciar os professores para virar uns contra os outros, argumenta. A avaliação é a desculpa. No início serão falinha mansas, mas uma vez se encontrem no lugar começará o respeito, e depois as vénias. Devagar, despercebidamente, para voltar ao antigamente. O fim da escola democrática. Não podemos ficar de braços cruzados. Pelo menos eu não ficarei. É na primeira reação que se procura cheirar o medo. Isso determinará toda a estratégia. Por isso devemos recusar-nos a fazer os exames de avaliação. Ao dono pouco interessa o pau, quer só ver se lhe o trazem à mão. Logo à noite vamos discutir na reunião que formas de luta deveremos tomar. Margarida, de artes visuais, também está revoltada. É a mais nova mas não vai na conversa da luta de gerações.
Deitada na cama com um lençol branco que lhe cobre uma perna e traça um risco oblíquo ao longo do corpo, Ivone deixa-se estar sob o fresco que entra pela janela. Sente o ténue peso do lençol, e a sua quase ausência, os ruídos que entram com o ar, de carros que passam amiúde, vozes de pessoas de regresso a casa, crianças no parque em frente que pedem uma última brincadeira antes de recolherem para jantar. A luz que passa por entre as fisgas do estore estende-se sobre o quarto chegando ao seu corpo que respira acordado, oferecendo-se ao fresco quando inspira, os músculos entregues a uma letargia expetante. Numa quase adoração, com os olhos semi-abertos, Ivone abarca a totalidade do quarto, não se focando em nada, nem no reposteiro que por vezes ondula, nem no espelho com reflexos baços, ou sequer no buraco formado pela porta aberta.