sábado, 26 de maio de 2018

Nestas matérias – Humberto

Talvez já não te lembres, triste Armindo, do tempo que passávamos sozinhos, entre os lençóis brancos de linho, e sem mácula, de início, talvez já não te lembres, ó colosso, das horas que passámos estendidos, por entre uns raios alinhados, que sobre a cama traçavam caminhos, e muito a meu contento tomava de assalto o teu corpo, alto e baixo, de mansinho, que o cabeço tem que ser conquistado, quando repousa em desalinho, no teu peito acampei, a coberto de pelos revoltos, e por eles rastejei, até encontrar os mamilos, doces horas de espera essas, continuamente fitando o abismo, pois, quem nestas lides prima, não lhe cabe baixar a guarda, talvez já te esquecesses, desaprumado Armindo, de como me tranquilizaste, agarrando-me pelos ombros, contra o teu peito me esparramaste, já não era eu, era tu, e não tinha tino no que fazia, osculei o teu pénis, todo ele purpurino, e as horas de êxtases pareciam minutos, pois esses silêncios eram momentos absolutos, e não falavas então, com os olhos fixos no teto, fechava e abria eu os meus, para marcar o tempo, por isso, querido Armindo, flor do campo não existe, com um perfume tão ténue, que guie o besouro mais pela intuição, que pelos raios de ouro, e tenho a dizer-te agora, se é que ainda me ouves, amor recordado, que quando eu farejava invejoso, odores de outros homem no teu corpo, não me queixava, imaginava, que se o mundo é tão grande, não tenho o direito de o pedir todo, mas leva-me contigo, por favor, não porque tenha medo de ficar sozinho, mas porque sendo eu tu e já não eu, devo presenciar o destino, como quem olha para a montanha que nos configura o trilho, subo por isso, regresso ao teu rosto, retribuindo de beijos o que ainda não me destes, pois aqui não se encontram as causas dos efeitos, e se assim não fosse, não me demoraria, mergulhando nestes lençóis, da mais límpida água, mas traria um relógio para contar a história, como os mergulhadores fazem agora no computador, e conseguem explicar todas as horas de esplendor, posso, mas não quero, Armindo, estas horas não têm preço nem sentido, enfio-me por isso uma vez mais, nestes lençóis, mantos de eros, e juro-te com a boca que sou um apêndice do teu corpo, com estas asas grandiosas, dá-me tempo, meu amor, que irei fazer levantar a cama, sairemos então deste quarto de segredo, onde nos encontramos sem saber, pondo fim a um degredo, inventado por todos os que não querem ver, iremos então muito juntinhos, ao encontro do campo do Cesário, que acredito como o teu, e eu, que sou da cidade, desejo-o como o li no poema, ainda não te tinha descortinado, Armindo, pudesse eu, e prometia-te uma casinha, caiada, junto a um ribeiro remansoso, onde passássemos a eternidade, enchendo-te eu de cuidados, e lá me transformaria nas coisas pequenas, cada uma com o seu recado, para tu cresceres, até te dissolveres no espaço, e quando alguém lá por acaso passasse, sentir-nos ia ali aos dois, e se subitamente virasse a cabeça, nos procurando, desenharíamos um sorriso nos seus lábios, mas de tudo certamente te esqueceste, porque tudo no mundo morre e muda.

domingo, 20 de maio de 2018

Angola é nossa – Romeu

A tia-avó Roberta era como um almanaque, sabia tudo de pouca coisa. Do Salazar ao Ultramar era com ela. Fizeram as circunstâncias que fosse duplamente vítima do tempo, daquele que fazia avançar a sociedade e do que lhe retrocedia o corpo, como dois comboios que se cruzam em sentidos opostos. Não foi sem algum saudosismo que o resto da família a viu de janela a janela, lá vai a tia-avó Roberta, disseram com a brevidade imposta pela soma das velocidades. Foi por isso confinada a um quarto onde as visitas eram filtradas pelos parâmetros da cautela e da pedagogia. Para a primeira, as recentes ambições políticas dos mais jovens membros da família desaconselhavam a partilha de impressões menos caras aos valores democráticos, que na política, da esquerda à direita, não se vinga sem camaradagem. Para a segunda, era um instrumento de íntima formação, numa altura em que era necessário combater o perigo da desagregação, trazido pela correria dos tempos, com a estabilidade das origens. Tornou-se assim o seu quarto local de peregrinação com um pendor mais de romaria que de santuário, dada a forma mordaz com que lançava as suas invetivas. E é verdade que era useira de alegorias campestres. Quando dizia, essa vaca sagrada vai um dia deixar de dar leite e depois vão implorar pelo regresso do senhor doutor, era certo e sabido que se referia à democracia e a Salazar. E, se por não ser plausível que no universo da tia-avó uma entidade sagrada pudesse dar leite, gerava-se nas suas testemunhas algum mal-estar, receando tudo o que pudesse questionar a credibilidade e autoridade moral da tia Roberta, mas rapidamente acabavam por interpretar a aparente contradição como sendo um recorte da mais fina ironia. Era nesse afã de doutrinação que Romeu era convidado, conjuntamente com os primos, a entrar e fazer um pouco de companhia à tia, coitada, sempre fechada naquele quarto, mas com a nota de que o que ali se dizia não era para ser repetido, por ventura sussurrado entre dentes pelos romeiros daquele lugar. Para o jovem Romeu o quarto da tia-avó tornou-se no santuário de transgressão da sua infância, de tal forma que, o que outros alcançavam no recreio, no convívio com os colegas, através do b a bá iniciático de palavras porcas, era para ele ouvindo a tia-avó que atingia o pós-torpor de quem cospe cá para fora vilipêndios agitando todos os membros simultaneamente como se debaixo de uma descarga elétrica. Tia, pedia-lhe Romeu, fale-me do Ultramar, éramos grandes, meu filho, até que o cigano do Mário Soares entregou tudo aos pretos, e aquela gente só sabe é fornicar. Convenhamos que nesta altura já Romeu tinha que se surripiar para o quarto, pois o piorar do estado de saúde da tia levantava objeções ao seu convívio com os mais jovens. Mas Romeu não se perturbava com os espasmos, mesmo quando na última vez que a viu, arrancando a camisa de dormir com ambas as mãos, expondo as carnes flácidas trilhadas por veios roxos escuros, os seios alongados junto à barriga e tombando da cadeira com os dentes cadavéricos de encontro ao chão, Angola é nossa.

sábado, 12 de maio de 2018

Barba e cabelo – Catarina

Este é um assunto delicado, pelo que nada mais me resta do que me despojar da roupa e assim, todo nu, dizer um poema. Era bom, era. Até pareceria então que dava sentido às coisas, com a barriga ligeiramente para fora e tudo o demais pendente, e que o assunto não tinha sido um arremedo momentâneo, incapaz de se repetir a não ser por outra imitação, tão imperfeita como a primeira, e que mesmo que elas se repetissem com frequência não caraterizariam o sujeito, a não ser pela passagem dos anos pelo corpo, os riscos dos pelos pelo puxar da roupa, que nestas situações de improviso saem por cima, a braços com uma rendição, enredadas, por desabotoar, como se impelidas pela urgência do sexo, e afinal, tão só um poema, meia dúzia de palavras cujo único propósito é virem umas a seguir às outras, em carreirinho, disciplinadas, cada uma como anúncio de previsibilidade da seguinte, que o parceiro se não o diz pensa, prometeste-me tempestade e afinal é tudo só acalmia, enquanto ali se está escorado, imobilizado com o que se tem para dizer, como se possuído por dentro. São diabruras toleradas na juventude, feita de peles escorreitas, mas a idade aconselha à cautela e esta leva à decência, e sendo assim, porquê? Pensais que a vida de criar personagens é fácil, que é um regalo, somos donos e senhores, sentamo-nos e lá vamos nós colorindo-os como uma criança a um desenho, ou uma menina veste e reveste uma boneca. Não. Sonhamos, abrimos os olhos e dói-nos diferença. Tinha depositado tanto na Catarina, tinha-a tão bem guardada que pouco dela vos tinha ainda contado. Para vós quase uma figurante, como se não existisse, um mero enquadramento do Romeu. Para mim, uma santa, se bem me entendeis, que a sujeitei às mais difíceis provas, ao vómito do marido, às suas infidelidades, à Amália, à Madalena, à Sílvia, à Splash!, sim, à Splash!, que neste mundo só o mundano dói. E em boa verdade vos digo que nunca me dececionei, muito menos desconfiei, mas andava distraído. As personagens no início não são nada, depois vão ganhando espessura. Errei. Não devia ter colocado aquelas três mulheres na dilatação da pupila de Romeu, quando era Catarina que o amparava. Ninguém gosta de se saber desprezado. É esta uma pena das narrativas, por muito que amemos um personagem, ou lhe damos provas no texto, ou essa afeição não serve de nada, quanto livro anda por aí a apodrecer em prateleiras cheios de homens e mulheres de amor descuidado, não vos admireis, portanto, que estejam desterrados para esses cantos de esquecimento. Por isso, com o mal feito, e para tentar salvar esta obra, só me resta tirar a roupa e dizer o meu poema. No dia seguinte conheceu Catarina um homem. Se conhecer se aplica a uma curta troca de palavras. Casual no início. Intencional depois. Foi das circunstâncias que pouco depois estava à porta do seu apartamento. Uma vez lá dentro, quando a porta se fecha sobre as suas costas, Catarina disse com uma voz que não lhe reconheço, e, por favor, olhai para o meu corpo despojado, há certas mulheres que gostam de fazer de putas, mas eu não.

sábado, 5 de maio de 2018

Maio, maduro maio – Ivone

A ilusão da multidão. O delírio de um corpo ungido de uma vontade, membro a membro, desfilando em uníssono, caminhando, solavancando a uma ordem maior, prescrita lá mais à frente, impondo uma disciplina imaginada aos seguintes, que a aceitam tão pura como sendo a primeira. A ilusão de corpos no corpo da multidão. As caramboladas com efeitos de fantasia, gente que na marcha ricocheta à frente e a atrás, vai até às grandes paredes rendilhadas de janelas que comprimem o movimento e regressam para mais um ressalto, porque todos se queixam da força da corrente e ninguém menciona as margens que a oprimem. A ilusão dos corpos próprios. Acondicionados neste mês de maio, pendurados de árvores que vergam ao peso dos frutos maduros, num desfilar de odores pairando na brisa indecisa, aventurando-se aqui e ali sem nunca abandonar o conforto da copa, porque todos se deleitam com os atrevimentos que desencadeiam, mas ninguém se lembra sofrimento que é manter os odores em forma. A ilusão do sofrimento dos frutos maduros. No auge da existência, mas já antevendo a decadências das formas, procuram ganhar tempo e por isso afiliam-se a um ritual vodu, pintam a cara de branco, beauty sleep, desculpam-se com um tom quase doce, mas procedem ao esvair sistemático do sangue na privacidade da relação com o próprio corpo, condicionando a decomposição dos odores, recuperando alguma frescura, professando uma amnésia calculada para voltar a atingir uma plenitude absorta. A ilusão da frescura contínua. Como numa grande superfície, onde a fruta de agora é exatamente igual à de ontem, e já se sabe com o que contar amanhã, e assim meses a fio, a mesma textura ao tato, o mesmo escorrer pelos dentes à mordida, até que se fartem por aborrecimento, pois negar o tempo tem limites, e ao fim de algum tempo desconfia-se. A ilusão da desconfiança. Como uma pedra no sapato que não magoa, incomoda, e que já descalçaram várias vezes, reviraram e nada encontraram, voltando a calçar com uma leve sensação de incompetência, pois estava lá, de certeza que é ela que se rebola, escapa à vista, inventou-se para se manifestar quando nela não se pensa. A ilusão da incompetência. Das tentativas repetidas, do calcorrear dos mesmos caminhos, profetizando logo no início ao outro o que se vai passar, num momento de fraqueza, concede-se, mas que não deixa de ser um momento de vaidade, pois jogam ao ioió entre o esquecimento e a consciência, ora vai, ora vem, movido à energia da juventude produzida com um ligeiro toque de pulso, quer no ir, quer no vir, e é assim que a Ivone encontrou o Gonçalo Aires naquele mar de gente, quando a força da vaga levava num único sentido, um turbilhão, disse-se nalguns jornais da época, aqueles que ainda insistiam em colocar na primeira página os crimes do capitalismo, mas convenhamos que era já uma réplica da onda, mas ainda assim iam carambolando com os calores de maio, e a Ivone sente o frio dos cabelos espessos de Gonçalo entre os dedos, sim, aí, Gonçalo, e raiava o sol já no sul.