domingo, 30 de julho de 2017

Últimos Dias – Susana

Últimos Dias. Não, são não aqueles que vedes a letra branca sobre o fundo vermelho de uma faixa, garrafais, a uma porta por onde prometem camisas baratas ou salvação eterna, e se os questionais com as promessas passadas, euforias, quase clímaces, reasseguram com uma confiança tranquilizadora, não, agora é que é. Últimos Dias. Não, não são eles que formam o vórtice do homem tântrico, escravo de um códice, estonteado, hesitante, entre o dever, o não dever e o prazer. Últimos Dias. Nem sequer são os de uma morte anunciada, bem real, corridos com revolta e incompreensão. Dias que se sentem passar cheios de minúcia, de detalhes asfixiantes que clamam a sua existência quase com maldade. Estes últimos dias de que vos falo são mais esparsos, perfurados pelos buracos das ausências, quase sempre a dois. Dois corpos estirados, cada um para seu lado, formando um rendilhado por onde a luz do sol vai passando, traçando linhas no chão, que se movem, lentas, colapsando ao fim do dia na parede do quarto. Dia, noite, amanhecer, anoitecer, manhã, tarde, claro, escuro, não interessa. São dias que se alongam como se fossem um único, onde a passagem do tempo é marcada pelo esvaziamento do pacote de heroína e sequências de figuras geométricas. No quarto de Susana tudo o resto é desordem. Enormes bocas de papel escancaradas sobre o chão, repassadas de marcas de gordura e de um ou outro triângulo arredondado, já frio, que tendo sobrevivido a ser engolido deteriora-se como um pedaço de comida preso entre os dentes. Por entre as caixas, roupas derrubadas por súbitos fervilhares, corridas ao sprint, entusiasmos tombados com as formas do acaso. Calças cujas pernas tropeçaram uma na outra, umas, semi do avesso, outras, expondo um rabo branco sobre pernas azuis, bronzeadas pelo ardor químico do corante. T-shirts deixadas cair em ondas que se sobrepõem sobre si mesmas desenhando sulcos cuja adição forma pequenas colinas. Desfavorecidos pontos de observação, de onde se pode almejar quanto muito um pé gigantesco, descalço, o dedo grande à frente criando a ilusão de uma cordilheira de montanhas que se perfilam à distância. O dedo mindinho, longínquo, assomando fugidio ao fundo dos restantes, como o destino mais desafiante. O que se verá desde lá? Pergunta-se daqui. Deste aglutinado de t-shirt. A questão é interrompida por uma trepidação vulcânica, pelo deslizar do pé de encontro ao chão, esmagando os dedos, sujeitando-os a numa pressão anunciadora de novas réplicas. O pé atira-se então de borco para a frente, libertando os dedos, expondo-os como iguais, revelando uma passagem para o corpo desmedido descoberto pelo deslocamento. A perna de Susana transformada numa subida em duas partes. A primeira, de uma doce inclinação sobre uma superfície lisa onde um ligeiro planalto nos oferece o deslumbramento da segunda, um espanto dos olhos, um desafio à vontade dos que almejam experimentar, não livre de perigos, das avalanches, dos tremores de terras que agora lhe contraem os músculos.

domingo, 9 de julho de 2017

Selva – Madalena

Certas mulheres são como a selva, são dos aventureiros. Dos aventureiros? Questionais-me vós. Não será que queria dizer dos aventurados, sugeris. Mas qual é a diferença? Pergunto-vos. Quem pode estar mais convencido de possuir o dom da ventura que o aventureiro, para se lançar ao desconhecido, desbravando luxuriante vegetação, à catanada, se necessário, na demanda de safiras, esmeraldas, rubis, diamantes. Todas pedras em bruto, à espera de serem delapidadas, libertarem-se da aspereza da natureza para rodopiar em refrações sobre a palma da mão, despertando a cobiça refinada, e serem possuídas pelos bem-aventurados. Ah, pelos aventurados, não pelos aventureiros, exclamais vitoriosos. A teimosia não vos trará boa fortuna e, nesta matéria, por aqui me fico. Repito, certas mulheres são como a selva, são dos aventureiros. E vede, as vossas interrupções fazem-nos chegar atrasados. Madalena e Romeu já não estão sentados lado a lado no sofá longo. Madalena atentamente ouvindo Romeu, desejando que no desfolhar da conversa vão surgindo as referências, à pele dos ombros, ao canto dos lábios, à curvatura das nádegas. Não, já não falam pausadamente. Melhor, Romeu já não fala. Madalena agita-se em pé, impondo-se intransponível para um Romeu que a olha apreensivo, sentado. Estou farta de te ouvir falar do Tavares. Nos últimos tempos quando vens ter comigo só falas do Tavares. E eu? Pergunta, apontando simultaneamente com ambos os cotovelos para as ancas bem rodadas, ao fundo de um ventre que insiste em se esconder, como o parente pobre, e envergonhado, do corpo de Madalena. Sabes que não é bem assim, Romeu procura tranquilizá-la. Não? Mas falaste de alguma outra coisa desde que aqui chegaste? Que o Tavares te fez a folha. Que devias ter suspeitado. Que bem te avisaram. Que as sugestões dele apenas te prejudicaram. E eu, aqui sozinha, à tua espera, com vontade que viesses, e agora essa conversa. De certeza que não é disso que falas com a Catarina. A última palavra é puxada por um soluço que desata em choro. Rapidamente as lágrimas lhe percorrem as faces, precipitando-se do queixo para a camisola onde deixam marcas que colam a blusa de alças ao corpo. Romeu sente-se incomodado pela erupção daquele ambiente húmido que tenta se intrometer nos seus pensamentos, se soubesse não tinha vindo. És um egoísta, diz Madalena, numa forte bátega de lágrimas que agora alcançam mais longe por se lançarem dos lábios retorcidos. Se soubesses os homens que estariam aqui se eu quisesse, atira já em desespero de causa, dado o silêncio de Romeu. Alguns nem sequer és capaz de imaginar, e tu preocupado com o Tavares, diz num riso escarninho que enche Romeu com os calafrios do desconhecido. Não devia ter vindo. O apartamento tornou-se inóspito, tem que sair rapidamente dali. Levanta-se e diz, tu hoje estás impossível, assim não se pode conversar contigo. Num instante está do lado de lá da porta, descendo pelas escadas, vai pensando, a culpa disto tudo é de terem cancelado a novela, e esse Tavares vai ver como elas doem.

domingo, 2 de julho de 2017

Suzanne – Afonso

Arroz de cabidela tem que ser de galo. De galo pica no chão. Como aquele que se presta a ser servido no restaurante santa isabel de abrantes. Pois só um galo tem sangue na veia. Imaginem uma música dos anos 80 tocada melodiosamente no século xxi, com o consentimento, senão gáudio, daqueles que a ouviram então, porque les bourgeois c’est comme les cochons, e não é demais repetir, comme les cochons, em refrão, pois a barriga, atirando-se por cima do cinto, é como uma barreira insonorizada. Uma língua como a dos porcos dos Rolling Stones. Sim, esses que se revigoram com transfusões de sangue. Está tudo bem? Tudo. Responde-se tentando apertar as nádegas, procurando trazer a barriga para uma onda harmónica, mas nada mais inestético do que a satisfação, e logo ali vamos rua abaixo. Felizes, porque para baixo todos os santos ajudam. Não é assim com o Afonso, e muito menos com a Susana. Melodia, sim. Muita. Sussurros. Confissões entre orgasmos. Não sei se da coca se do sexo. Que interessa. Quando se quer é fácil. Companheirismo, como camaradas de combate. E depois os frémitos. As revoltas da Susana com a Clara, uma falsa. Um rufar de tambor. Seguido de laranjas e de desprendimento, pois o apego mata, e vai mais um chuto. Les bourgeois... não preciso repetir. Para que é preciso amor quando há fervor. Nem se percebe bem a diferença. Quero-te comer, está tudo dito. Afonso deixa-se extasiar com a palavra salva-me. Tira-me daqui. Leva-me contigo. O instinto de fazer ninho ao deus dará. Para esplendor da mãe natureza. Esplendor na relva. Se bem percebem. Tudo muito rápido. Como se tivessem sido atirados para dentro duma caixa contendo simultaneamente todos os êxtases e todas as contenções. Ainda falam do cinema. Bah, o cinema. Esse remédio dado em pequenas doses de 24 imagens por segundo, durante duas horas. E isso são os filmes bons. Os maus, placebo. Mas nem sequer é mau, quando se atira para a veia até a seringa dá tusa. Uff, só de imaginar. Imaginem, disse, uma música dos anos 80, ou dos anos 90, ou do fim dos anos 60. Ainda o Afonso não tinha nascido, muito menos a Susana. Mas que interessa. O importante é a pele. Tocar o corpo perfeito, liso e sedoso, antes que encarquilhe. E esse é imortal. Disso são feitos os rituais. Cada volta uma perspetiva. Esplendor na relva, se ainda não vos esquecestes. Só o galo tem sangue na veia, disse. Coisa mais redutora. Desculpo-me de então estar com a barriga cheia. O que interessa é o mar. De que serve o sangue da veia do galo se não desaguar no arrozal, ser aspergido de vinagre. Mais um pouco, perguntam. Há quem goste de mais vinagre. Para mim está bem assim. A conta certa, nem mais nem menos. Ah, Afonso, como olhas para mim. Quanta reprovação há na adolescência. A conta certa. Les bourgeois c’est comme les cochons. O que é isso da conta certa. Será que é preciso repetir vezes sem conta, les bourgeois c’est comme les cochons, comme les cochons. Parece que já esqueceste quando visitavas a Susana junto ao rio. De que serve o sangue na veia se não desaguar no oceano.

sábado, 1 de julho de 2017

O que os olhos não veem – Amália

Ter duas mulheres é sinal de hombridade, mais é devoção. Senão vejamos o culto Mariano e a sua obsessão com a castidade. Mas deixemo-nos de abstrações. Amália tem os seios volumosos, o que não é de somenos importância, e não pelas razões que podereis prontamente ponderar. A boca a saber a papéis, diz-se. Eu não sei, mas se não foi assim que Romeu acordou pela manhã, então um qualquer outro incomum gosto o terá despertado. Áspero, surpreendido primeiro, envergonhado depois, arrependido então, justificado finalmente. Não pela boca, pois tudo terá ocorrido na solidão do leito, à semi-luz que não deixa adivinhar a hora do dia, mas pelo pensamento que aproveita estes vazios de conjuntura para se desenfrear em relações tão lógicas como absurdas. Contudo, assim não foi com Romeu. A justificação saiu bem equilibrada, e capaz de ser repetida pela língua a Catarina, que já teve de sair a esta hora. Já a decisão que tomou de seguida foi irrefletida e, se for surpreendida, terá fraca justificação. Mas o que os olhos não veem o coração não sente e por isso resolveu ligar a Amália para a convidar para jantar. Falar com um colega, para perceber o porquê de terem cancelado a novela, disse a Catarina. Vontade de voltar a vê-la, disse a Amália. Obter a compreensão de Amália, desejou para si. Amália ficou surpreendida. Tinham decidido que seria melhor deixarem de se ver por algum tempo. Tinham é uma força de expressão. Foi Romeu que decidiu ser o melhor. E Amália não é mulher para colocar pressão num homem. É uma mulher de recursos. A surpresa foi o tempo que passou desde que Romeu teve esse longo e cauteloso monólogo, em que lhe explicou o porque de se separem. Um emaranhado raiado por flores oferecidas à sua beleza, à sua paciência e, finalmente, à sua compreensão. Algumas semanas apenas e estão de novo sentados frente a frente. Uma pequena sala de restaurante, daqueles onde para se entrar é necessário descer alguns degraus. É Romeu que fala. Gesticula mais do que habitualmente. Amália ouve atentamente. A luta de espadachins, repete Romeu pela terceira vez, que problema ouve com a luta de espadachins, insiste. Subentendidos? Mas com o Tavares a querer o meu lugar qualquer coisa que filmasse seria vítima de um subentendido. Sim, já te falei do Tavares, o sobrinho do Dr. Osório, filho de uma irmã casada com o Tavares, o da banca. Impingiu-mo como assistente de realização. Eu devia ter desconfiado. Começou a meter o bedelho na história. Começou a dizer, Romeu precisamos de mais ação. O duelo foi por sugestão dele. Depois soube que andou a dizer que era irracional, que não fazia sentido, que era mais desenhos animados do que novela. Isto sei porque me o disseram. Que ele não é menino para isso. Soube que até afirmou que eu não tinha solução para o crime do Capitão Simões. Que a história andava aos empurrões. Agora compreendo as perguntas que me fazia. Eu respondia-lhe, não tenha pressa. Mas ele, pelas costas, insistia que faltava ação. A civilidade mantém Amália atenta, mas nos seios percebe-se um indisfarçável enfado.