sábado, 17 de dezembro de 2016

natruca – Marquesa

Se o verbo é fugaz, o substantivo perdura. Nasci, da boca do Hilário para o ouvido do Mouro, um verbo com o sujeito subentendido, por cautela do meu criador. Fiz-me frase na cabeça do Mouro e fui colocado na boca do Pinote para chegar ao ouvido da Marquesa. Tudo ficaria por aqui, mas entusiasmei-me com as minhas sete letras, n a t r u c a, o que levou a repetir-me com frequência. Era visto nos mais variados trejeitos de lábios. Desde o natruca serrado, próprio dos cautelosos, pronunciado com os olhos a atirar ao longe para garantir o segredo, ao natruca jovial e brincalhão em que os interlocutores se miram diretamente desafiando o sorriso à desgarrada. Não posso dizer que tenha percorrido mundo, pois os humanos apenas se interessam por aquilo que conhecem. Mas no lugarejo era já uma frase substantiva. Quando o Pinote passava eu era citado em uníssono, fosse por murmúrios ou por pensamentos. Não vos posso dizer o que sentia, pois era ainda uma criatura recente, e se dizem que esse é o período mais importante na formação de qualquer ser, não deixa de ser irónico o pouco que nos recordamos dele. Como vedes, se comecei por ser lexical, os meus sentidos brotaram do uso que me foi dado. Sou um verdadeiro filho da experiência. Se duvidais, procurai-me no dicionário e vede se me encontrais. Eu próprio lá fui de início. Sofria nessa altura a angústia dos filhos de pais incógnitos, afogueados na ideia que o caráter é hereditário. Do desconsolo de nem sequer encontrar uma raiz, que não fosse além do mundo mineral, qualquer coisa feita de sódio, resolvi aceitar o meu destino. Fui percebendo que o meu significado dependia do contexto. Como qualquer criança, fui um ser brincalhão. Repetido na taberna, quando o espírito ainda não foi substituído pelo vinho, num incitamento a mais um copo. Experienciei aí uma existência saltitona, amiga da camaradagem. Não preciso de dizer que gostamos de nos ver assim, e o Pinote também desfrutava, embora sem perceber porquê. Mas já quando passava a Sra. Marquesa tocava outra orquestra. Senti o desdém que na primeira oportunidade é atirado aos poderosos. A latente vingança que os rodeia, e que excecionalmente os pode levar à guilhotina ou ao pelotão de fuzilamento. Não gostei de me ver assim. Esqueci a jovialidade e senti-me ácido. Os mesmo que na taberna comigo gracejavam, quando o vinho tomava conta das suas entranhas retomavam a mim com a revolta com que num beco se insulta a parede em frente. E se eu não era indiferente imaginem a Sra. Marquesa que começou a imaginar-me nos lábios dos que a cercavam. Foi assim que um dia trocou um olhar com Olímpia, a mulher de Hilário. Não posso jurar que estivesse nesse momento na boca de Olímpia, mas isso é um pormenor. Aconteceu. Estava já convencido que a minha sina neste mundo era trazer a desventura quando cheguei ao ouvido do Sr. Padre. Aquele homem esboçou um olhar pausado e interrogativo quando me pronunciou, como que para medir a situação, natruca, e foi então que lhe ouvi, com uma paz na voz, própria dos homens de fé tranquila, santa senhora.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Mangual – Hilário

Passar de camponês a feitor é um privilégio, parece que o mundo sorri. Deixar de fixar o chão sempre à cata do que a terra dá, para olhar os homens de frente, dizer-lhes olhos nos olhos, não faças ronha no malhar, ó Zé, e eles baixam a cabeça para o pau estirado entre o grão, vergam o tronco para regressar ao vaivém de braços, como que se auto punindo por terem ousado querer escapar à terra. Para o feitor é uma libertação a consciência deste mundo de redomas geradas pelos movimentos do mangual. Pode até enternecer-se, por força da memória, com as gravuras que a sobrevivência desenha nas suas paredes, mas respeita o desígnio de uma ordem que, talvez por o ter favorecido, não se questiona. Mas, se assim foi com o pai de Hilário, não o foi para o filho, que cresceu a ver esses homens estranhos, porque não é um deles, em volta da casa, encerrados nos maguais, a bater à porta com a cabeça dobrada e o chapéu na mão, pedindo instruções, apresentando uma queixa, ou procurando mesmo granjear uma opinião sobre uma disputa para regressar, depois, revigorados à refrega. Em vez do dom da graça, sentiu-se dilacerado por uma injustiça, que contrariamente ao que seria de esperar, não surgiu da revolta sobre a condição dos camponeses, mas sim da sua. Sentia-a à mesa, quando o pai se queixava de mais uma intervenção do Dr. Galvão porque a jorna não era paga a um mandrião. Revoltava-se, pois, a amizade do Sr. Marquês pelo Dr. Galvão atribuía ao feitor a causa dos problemas e a obrigação de os solucionar. O pai lá resolvia tudo a bem, comprometendo a sua honra, este é tormento dos que servem um homem emocional, e, muitas vezes, mesmo contra o que achava serem os interesses do patrão. Já o filho, desenvolveu uma exaltação dormente na qual não há sequer um pestanejar. Instruiu-se na arte da espera. Começou cedo. Com os filhos dos camponeses, prontos a reforçar os argumentos com os punhos, aprendeu que, pela gestão das erupções alheias, dois pode ser menos do que um. Foi assim construindo um mundo baseado num denominador comum gerador de pequenas quantidades. Como a aprendizagem do mangual, esmigalhando ao bater forte no chão, concebeu que o universo seria apenas a combinação de dois ou três princípios básicos, e, se no pintor esta revelação serve para construir ilusões, em Hilário resultou no cuidado de reduzir os fenómenos ao ínfimo, ainda que tendo como paga o amargo desengano de quem chega sempre ao mesmo. Talvez para não se ver igual aos que batiam à porta de seu pai, fechados numa mistura de pó e palha, engalanou-se com a ideia de um outro filho de feitor a quem por devoção não quis reduzir ao absurdo. E, não existe dever mais arrebatador que o nascido da dedicação de um homem pela sua projeção num outro que imagina grande. Por isso, se hierarquicamente Hilário responde ao capitão Simões, navega com um desprezo solicito as ordens e opiniões daqueles que o cercam. Sabe que quando chega a hora do chá, Simões, Marquês, Galvão, Macedo, são mesma lavra e por isso apenas responde ao Senhor Doutor.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Cunha – Marquês

Falam mal da cunha, mas eu sou apenas uma manifestação da inteligência emocional. Posso é ser mais ou menos pontiaguda. Isso sim. Diria que uma cunha predominantemente aguçada tem um problema de ética. Mas não aquela que não fere, que é mesmo até um pouco aveludada, e que vai entrando com pequenas pancadinhas, veja lá o que pode fazer, sabe bem que eu não sou destas coisas. E, enquanto me vão vendo abrindo caminho, dão loas com um, sempre agradecido, já sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, muito obrigado, mas eu não necessito de nada, qual quê, a vida dá as suas voltas, mais tarde ou mais cedo, sabe-se lá, enfim, mas já sabe que pode contar comigo, quer para a coisa ela própria, ou para levar o seu problema a alguém, que, mais do que eu o consiga resolver, por amor de Deus, sabe bem que nunca o iria incomodar com tais coisas. Uma lengalenga. Um prolongar do prazer do catar, em que o esborrachar de microscópicos seres serve de escusa para a troca de pequenas carícias com a ponta dos dedos. Mas eu não fui concebido assim, lembro-me bem. Foi no intervalo do bridge em casa dos marqueses, quando as senhoras os interromperam para o chá, que o Sr. Marquês chamou à parte o Dr. Galvão para lhe mostrar uns charutos que acabou de receber de Cuba, deixando o capitão Simões com o Dr. Macedo, cujas enraizadas opções ideológicas incapacitaram para o desfrute de alguns dos prazeres da vida, à conversa sobre os recentes problemas com os ceifeiros. Meu caro José disse-lhe o Marquês, ando preocupado com um rapaz que casou com uma criada aqui da casa. Ela está cá desde pequena, é quase da família, sabe, e agora com uma filha acabada de nascer. Corre por aí o rumor que o Hilário Mendes anda de olho nele. Se ocorrer algo a rapariga irá ter consigo, mas peço-lhe a máxima descrição neste assunto. Como vedes não sou uma cunha qualquer, sou um jeito que um monárquico pede a um republicano para ajudar um comunista. Dito de outra forma, aquela como gosto de me ver ao espelho, visto-me com um veludo azul monárquico, tenho a têmpera do aço comunista por dentro e sou ajudada a entrar com a retórica republicana, eu sou única. Concebida nessa tarde de domingo de final de junho no gabinete do Sr. Marquês, enquanto na varanda o Dr. Macedo, juiz na comarca, pede ao capitão Simões que não hesite mais, se cada um cumprir o seu dever tudo correrá bem, o Hilário que não esteja com mais delongas. Como sou diferente desta combinação de circunstância, tão institucional, tão pequenina, como este Estado Novo, feito da uniformidade da raça, modesto e sem cor, sem graça. Uma cunha escrava do dever, de gabinete, com a vida facilitada, nem sequer é uma verdadeira cunha, é o desenrolar de mecanismos instalados por onde passam outras, indistintas, mais uma apenas, sem a pujança, o dinamismo e o tormento das formas, que me dão um ímpeto de fantasia e de paixão, que me enleva e me deixa em arco, convencida do meu poder, que tudo irá correr bem, na verdade, na determinação, na justiça, na oratória, e que nunca, nunca, serei engavetada.

domingo, 27 de novembro de 2016

Caramelo – Pinote

O caramelo parece duro ao contacto do dedo. Mas quando se desembrulha mostra a forma imperfeita suscetível ao calor. E se na boca se agarra aos dentes, é sol de pouca dura, pois o banho de saliva rapidamente o transforma numa criatura doce e solicita que quanto mais se aperta mais suco liberta. Foi assim que Hilário respondeu às dúvidas do Mouro. O Pinote é um caramelo, disse-lhe. Convence-te disso, um caramelo. Mas o Mouro não se deixa convencer, é companheiro de ceifa do Pinote, conhece-o bem. Costumam estar do mesmo lado na tração da corda. Sabe do que ele é capaz. Recorda inclusive o dia que teve um desentendido com o Melenas, e não foi bonito de se ver, saíram ambos cheios de sangue e na boca o Pinote trazia um bocado da orelha daquele que passou a ficar conhecido como o Mouco. Bem o tinham avisado. Tivesse ele dado ouvidos. Mas não. Fez insinuações sobre a mulher, a Deolinda, e vai que o Pinote não se ficou e no fim disse, com a dobra da orelha entre dentes, vou dá-la aos porcos, cabrão. Por isso o Mouro não se quer deixar convencer. Mas como foi que se deixou apanhar pelo Hilário? Na corte do Sr. Morgado a tentar roubar um porco. Não é muito esperto o Mouro, uma galinha ainda vá que não vá, torce-lhe o pescoço e já não pia mais, mas um porco? Como estava a pensar levá-lo? Com falinhas mansas, não. O pobre animal deve ter achado chegada a hora da matança e entrou num berreiro que, se nas manhãs de novembro traz logo ao paladar o gosto ao guisado do soventre, a meio da noite sobressaltou o Morgado com um, quem é que me quer roubar o porco. Como um azar nunca vem só, o Hilário estava na guarda, e sabendo do companheirismo entre o Mouro e o Pinote, convenceu o Sr. Morgado a não apresentar queixa. Disse-lhe, deixe estar que com este peixe apanhamos um maior. Há muito que traz o Pinote debaixo de olho, mas desde que casou com a Deolinda ficou protegido do Marquês. Não é muito o que lhe pede o Hilário. Cimentar a amizade com o Pinote, ser visto a falar com ele em grande camaradagem, quando mais próximo melhor. E depois, perguntou o Mouro. Depois falamos, disse-lhe o Hilário. Mas o Mouro não está convencido. Não custa nada, e até parece que queres ir para a choldra, ó Mouro, recorda-lhe o outro. Se pudesse não aceitava este caramelo, mas que remédio. Lá me mete na boca e vai-me cautelosamente macerando com os dentes enquanto saliva. Saliva mais por medo do que por vontade, como se procurasse colocar uma camada protetora entre mim e a sua boca, evitando magoar-se. Pois é, remédio é remédio, mesmo quando vem com uma película doce. Raio do porco, pensou, para quê aquele berreiro todo, ele é mais dia menos dia, e comigo até seria uma aventura. Mas não, pôs-se naqueles propósitos. Não percebe que é assim a vida. Que mania esta de se deixar comer por aquele que o alimentou. Se calhar imaginou alguma ternura na lavadura. Convenceu-se que o Morgado gostava dele. Como andas enganado amigo. Mais vale uma fuga de liberdade que vianda toda a vida! Insurge-se o Mouro, enquanto me vou derretendo na sua boca.

domingo, 13 de novembro de 2016

Baile – Deolinda e Pinote

Não consigo imaginar as danças de todo o ano, feitas da esterilidade da eletricidade e do preservativo. Baile, é na primavera tardia, quando as árvores já empunham frutos maduros. Ao descoberto, com a brisa fresca a aproveitar viajar pela calada. À noite, por entre a luz rasteira da pequena fogueira que abre um manto rosado para a lua. Na eira, rodeada do tremulado das copas das árvores feito de flutuações de luz. Sobre as lajes, onde o rodopiar levanta uma poeira fina que envolve os dançarinos. Com rapazes e raparigas, a quem o vinho áspero amaciado pelo barro faz levantar a voz. Sim, isso é baile, isso sou eu. Sou uma excentricidade do Sr. Marquês que se regala em autorizar estas celebrações pagãs, contra a opinião do padre e a vontade da mulher. Também de fora vem gente respondendo ao chamamento da fogueira. O Pinote, pequenino, fazendo jus ao dito, é dos melhores dançarinos destes lugares. Tem fama de atrevido. A sua chegada é saudada pelo enrubescer das raparigas, como se tivessem bebido uma malga de vinho de um só trago. Trocam olhares entre si, porque a socialização do desejo silencia o pecado. Esperam a sua vez, suspensas do rodopiar rápido de Pinote ao som da concertina. Esta noite também veio a Deolinda. Costuma ficar sentada olhando distraída os pares. Tem a cabeça noutro lado, dizem. Mas, como é da casa, não se aventuram com ela. Vontade não lhes falta, pois quando a quantidade de vinho na cabeça ultrapassa o que resta no pote a visão da beleza provoca deslumbramentos. Sempre que Pinote dançou com Deolinda sentiu-se insignificante. A atitude dela desarmava-o, como se fosse incólume aos seus truques e maneirismos. Dançava envolta na beatitude de quem não está. Porém, esta noite, saudou a chegada do Pinote com um olhar, como se estivesse à espera dele. Depois, tomou mais vinho do que o provar. Pinote nunca tinha visto Deolinda assim. Do desfazer do véu surgiu uma presença corporal com uma descompostura altiva. Pinote foi buscá-la para dançar. Do que aconteceu já nenhum deles se recorda com exatidão. Cabe-me por isso a mim a narrativa pois, como ireis ver, ultrapassa o espaço físico onde decorreu e apenas pode ser explicada pelo baile. A eira é retangular, sobre ela os pares giram sobre si enquanto se transladam em círculo. De um lado, a luz da lua recorta as faces com um traço escorreito. Do oposto, a fogueira esbate a diferenças entre os corpos dando-lhes o fingimento de uma única massa. Entre um lado e o outro, o revelar e o esconder. Em baixo, por entre o manto de poeira avermelhada, os pés agitam-se à procura de coincidirem num único ponto. Em cima, os troncos atiram-se para trás agarrando-se e deixando-se fugir com os braços. Os círculos começam-se a alargar ultrapassando o espaço da eira. Pinote e Deolinda vão girando por entre uma terra salpicada pelas sombras das árvores e a luz da lua. O fuso dos pés marca um risco que se vai afundando em sulco. A mão de Pinote procura a terra molhada. Dizem. Dizem, que eu disso nada sei, que, naquele dia, quando Deolinda chegou, já vinha tocada.
In 25 de abril sempre (2016) (Leonard Cohen 1934-2016)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Rapa - Joaninha

Pertenço ao grupo daqueles que, de esquecidos, precisam de ser pormenorizadamente descritos, como se estivessem agora a ser concebidos pela primeira vez. Primeiro que tudo a minha função. Tenho por objetivo arrebanhar os restos que se agarram às paredes dos recipientes onde se bateu uma massa que deve seguir viagem para a cozedura. São pedaços que, suspeitando do destino de fogo, tentam sorrateiramente ficar ao fresco, enquanto os seus irmãos vão dar com os costados a uma forma cheia a três quartos para deixar atuar a levedura. O meu aspeto é um pouco ridículo, confesso, quando empunhado na mão da cozinheira, passo mesmo por ser uma caricatura de rato, um pau esbranquiçado com duas orelhas de borracha. Mas é nestas orelhas que está a minha arte. Feitas de uma borracha dura que se agarra ao cabo para absorver a energia que se propaga das pontas pela pressão exercida sobre o recipiente. As pontas, essas sim, têm uma macieza sempre pronta para se ajustar a qualquer superfície que o recipiente possa vir a apresentar, desde que seja arredondada, claro, que para as retorcidas, feitas de arestas cortantes, está o Hilário. No palácio dos Marqueses fui recebido com desconfiança. Preferiam um Rei, evidentemente, daqueles que distribuem favores pela nobreza. Ainda assim, uma desconfiança mediada pela esperança. Talvez, após um período inicial, possam voltar os outros tempos, pensaram. Pelo meu ar afável tenho este dom de suscitar expetativas. Mas, uma vez instalado na minha gaveta, focado no meu objetivo, sistematicamente, dia a dia, não passo no exame do Sr. Marquês, que comenta à noite ao deitar, tire daí a ideia, ele traz uma agenda própria. A Sra. Marquesa, mulher que se habitou a ser pragmática, respondeu-lhe, do mal o menos. O Sr. Marquês ainda se incomodou a recordar que não há como um Rei, pois até o povo gosta de um Rei, é uma questão de afetos. Mas eu não sou de afetos e desde então o Sr. Marquês evita passar pela cozinha. Quem por aqui anda é a Deolinda, que dizem ser mulher de um comunista, o Pinote. Assim que soube fiquei logo com as orelhas a arder, colocarem-me junto a um familiar de um comunista, mas enfim, serão idiossincrasias da nobreza, acham-se com direitos próprios. O Pinote, nunca o vi, está preso, mas presencio a devoção que a Deolinda lhe tem quando sobre ele fala à filha que por aqui vai cirandando. Eu tento salvar o que resta desta família, incutir-lhe os valores que a possam levar a bom porto. Procuro, por isso, explorar os silenciosos suspenses com que a miúda me observa quando besuntado de chocolate viajo do tacho para a forma. Digo-lhe que a força da vontade é como a charrua que rasga a terra. Mas ela parece não me ouvir, fascinada pelo brilho do chocolate quente que escorre. Tenho a vantagem que me permite insistir, mas, compadecida, a mãe tira um pouco do chocolate com o dedo e oferece-o à filha. Vi o franzir de sobrolho da Sr. Marquesa, que de fora da cozinha nos observa, quando a boca gulosa de Joaninha suga os restos do chocolate, e pensa exatamente o mesmo que eu, coitada, filha de um comunista.

domingo, 30 de outubro de 2016

Carta - Zé

Hoje em dia as cartas, se é que ainda existe tal coisa, não são o que eram. Nem sequer eu sou como foram antes de mim. Digo-vos com frontalidade, eu sou uma carta da Primeira República! Substitui o adocicado escorregadio da carta monárquica, cheio de adulações, de um liberalismo eivado da divindade da constituição, por um fim mais terra a terra. Sou feita de uma hombridade racional, que sem fazer desfeita à boa sociabilidade, não anda com rodeios e diz o que pensa a bem do progresso social. Foi pelo menos assim que o Dr. José Galvão, digníssimo advogado da comarca desta vila alentejana, me escreveu, muito embora o tempo da República já fosse e vivêssemos sob os auspícios, não necessariamente bons, pelo menos na opinião do meu signatário, do Sr. Doutor, cujo nome aqui não necessito pronunciar dada a sua omnipresença. O Dr. Galvão é um homem de causas, e até a sua esposa costuma comentar com graça que, se tivesse tantos contos de réis como galinhas oferecidas em jeito de paga pelas defesas que o marido faz de pobres na barra do tribunal, teria dinheiro suficiente para mandar fazer um palácio igual ao dos marqueses. Mas não um necessariamente igual, ajuntava imediatamente o Dr. Galvão, fazendo graça sobre a graça da mulher, teria a magnificência do progresso, trocaria os salões, salas e salinhas, desenhados por decalque de hierarquias e protocolos, por espaços funcionais onde a vénia fosse trocada pela curiosidade. Houvesse verba, e acrescentar-lhe-ia com certeza um pequeno observatório astronómico, que o Dr. Galvão, embora sendo um homem do direito, não enjeita o gosto, e a esperança, que tem na ciência. Mas, enquanto não se depositam os proveitos do seu trabalho neste sonho positivista, é o Zequinha, o seu neto, que fica com a responsabilidade de transformar a galinha, salva por argumentos jurídicos de terminar como canja de defunto de pobre, numa massa alimentar que lhe proporciona um crescimento saudável arredando o espetro das enfermidades que enchem as igrejas de devotos. É a matéria orgânica destas mesmas galinhas que alimenta de energia o punho do Dr. Galvão quando com convicção me endereça ao Sr. Capitão Simões, responsável pela ordem neste recanto de Portugal. Questiono Vossa Excelência sobre o paradeiro do Sr. Joaquim Pinote. Não questiono a ordem estabelecida antes sobre ela construo a minha alegação. O desaparecimento do Pinote, como é saudado entre os seus, logo após ter encabeçado os protestos por terem trazidos os ratos da Beira Baixa para a ceifa, gente submissa e cujos horizontes ideológicos cabem dentro de uma côdea de pão, isto pensou, mas não escreveu, o Dr. Galvão, sem ter sido presente a tribunal é um ato ilegal que ofende os básicos princípios do direito. Partilho com Vossa Excelência a preocupação pela ordem pública, mas caso se confirme que o Sr. Joaquim Pinote foi levado pelo Sr. Hilário Mendes, como alguns dos seus companheiros se prestam a testemunhar, deve Vossa Excelência esclarecer onde se encontra o Sr. Joaquim Pinote e de que é acusado. Escusado será recordar-lhe da angústia da mulher e da filha.

domingo, 9 de outubro de 2016

Mata-moscas – Joaninha

Sou da cepa antiga, feita de homens que corajosamente enfrentam os seus inimigos, olhos nos olhos, sem subterfúgios. Enojam-me os ataques cobardes, feitos de gases assassinos que matam com lufada perfumada. Dir-me-eis, mas, o que são as disputas palacianas senão a rigorosa dosagem veneno com a palavra gentil? Sim, é verdade. Por isso mesmo o Sr. Marquês há muito tempo se remeteu ao isolamento do seu palacete no Alentejo. Não procurou a reclusão do povo, mas a da sociedade, a que o Sr. Marquês naturalmente pertence por nascimento. A quem estas veleidades custaram foi à Sra. Marquesa. Mas, há muitas gerações que nesta família os homens se atiram a cavalo a cometer imprudências, ficando as mulheres à guarda das ameias. São, como vedes, da linhagem mais antiga, sem as perturbações do romantismo. Sinto-o quando o Sr. Marquês abre portadas e janelas do grande salão deixando entrar a luz, e as moscas. Todo eu me encho de excitação. Embora saiba que é pura imaginação minha, mas não posso de deixar de ouvir os trompetes festivos, o latejar dos cães e a azafama dos homens imbuídos nos detalhes que distinguem os pequenos dos grandes caçadores. E o Sr. Marquês é dos grandes. Como me empunha! A exatidão do ângulo entre a palmatória e a janela ou parede, feito de dois outros ângulos, o maior no cotovelo e o menor no punho, que constantemente se recalculam durante a aproximação ao alvo, equilibrando-se no momento crucial, quando num movimento lento da mão, para trás primeiro, e rápido depois para a frente, sinto o sacudir que antecede a vertigem da descida. Mas não nos precipitemos. Estávamos nos preparativos. Nas moscas que com impunidade entram com o sol. Não sabem no que se metem. Coitadas, está na sua natureza, e o Sr. Marquês sabe criar as condições para se revelarem, para mostrarem quem realmente são. Quem resiste ao chamamento de um palácio cheio de sol? Resistiriam, talvez, se fossem de outra estripe, mas moscas são moscas e essa foi há muito a decisão do Senhor. Andam a cirandar. Voos de alegria entre os pesados reposteiros, onde poisam cheias de volúpia, enterrando as patitas nos cerrados pelos do veludo. E o Sr. Marquês observa-as com meio sorriso, impassível. Meio sorriso, pois desde a trombose que ficou ligeiramente paralisado do lado esquerdo. Por isso, quando agora caminha, vai balanceando a velha altivez da direita com um leve arrastar do pé esquerdo. Determinado, fecha janelas e portadas trazendo o escuro de volta ao salão e levantando o pano ao início da caçada. Vou agarrado na mão direita quando o Sr. Marquês parte para a sua missão. Poisa o bastão com suavidade no chão, ainda que a mão esquerda trema. Arrasta sorrateiramente o pé esquerdo. Do lado direito tudo perfeito. Fita uma mosca que trazia debaixo de mira há algum tempo. Quando a tem em frente, numa figura acrobática, equilibra-se no pé direito para ganhar precisão afastando os tremores da esquerda, e, zás. A mosca fica presa na minha rede e o Sr. Marquês vê os olhos da Joaninha, que o fitam. Murmura com tristeza, morre bolchevique.

domingo, 2 de outubro de 2016

Vulcão – Romeu

De repente sobre uma terra verde rompe uma força que a rasga com o terramoto e a enche do fogo do vulcão. Ficamos admirados e pensamos que é algo infernal que aí vem, que nunca cá tinha estado. Mas não é assim, posso-vos assegurar que sobre o verde, o pacífico, existe uma energia dormente. Essa energia sou eu e não há nada de mais errado que supor que sou o oposto da paz que destruo. Eu sou a ordem. Por isso a marca do vulcão está no sossego. Podeis estar certos disso. Sei como me deleito em ver o verde surgir sobre os sulcos que tracei. A percorrer-me as encostas, a encher-se de raízes que se me agarram firmemente, de acordo com os meus nós. Mas há um dia, que ao deitar os olhos, vejo-a a negar-me, julgando-se autossuficiente, e isso põe-me fora de mim. Como é que a obra pode ignorar o seu criador? Como é que pode encher-se de si e virar as costas aquilo de que foi feita? A sua traição desencadeia-me uma raiva que vou contendo. Devem perceber que se me refreio é porque quando vemos um filho tresmalhado não podemos deixar de olhar para ele como sendo o nosso fruto. No início até lhe achamos graça. Julgamos até ver na sua irreverência a nossa marca. Depois, quando nos ignora, e é isso que magoa, a paz esquecer o fogo que a originou, então fica insuportável e tudo o que está dentro de nós sai em catadupa. Mas, porque é que eu estou no Romeu? Porque o escolhi a ele? Não fui eu o procurei, mas sim ele que inevitavelmente veio ter comigo. Essa é a sina de todo o criador. Esta novela que está a dirigir tem-me na sua génese. Sim, o texto. Um texto bruto, feito de línguas de fogo, pequenos transes, erupções de sentimentos capazes de envergonhar pelas nódoas que deixam na toalha. Um magma primordial, indisciplinado, de consequências imprevisíveis, que engole tudo à sua volta. Cabe à produção canalizar o fogo, dar-lhe rosto, colocá-lo em cenários empolgantes onde possa ser digerido em manjares que deleitem os atores e os encham de convicção. Romeu sabe que um ator arrebatado é como um frango do campo, apenas necessita de 81 dias de completa liberdade. Então, deixa-se ficar na sua cadeira a ver a obra tomar forma. Olha com ternura os acontecimentos feitos de coisas que já não escreveu, mas poderia ter escrito. Uma espontaneidade feita da sua ordem. A sua paz. Com tudo isto vai o Romeu dirigindo L’Ancien Régime. Iludindo-se pelo construir do dia a dia. Pela forma como o tempo vai correndo, sem sobressaltos, coisa sobre coisa, tudo encaixando, tudo fazendo sentido, numa harmonia que parece universal. Num estado de nirvana do criador, convence-se que nunca mais necessitará de mim, que o fogo apenas acontece uma vez. Quase me ignora, e prefere a palavra natural. A ordem natural. Como se a paz fosse gerada pela paz, num fluxo estéril e sem sentido. Eu, que já vivi mais tempo, sorrio, deixo-o estar. Há no auge da criação uma libertação de endorfinas que propicia irrealidades e capacita clausuras narcísicas. Mas, da felicidade nasce o crepúsculo e o no seu âmago o criado deseja renunciar ao criador.

sábado, 1 de outubro de 2016

São Sebastião – Ricardo

Servi o Imperador na sua guarda pretoriana. Contudo sei, agora, que a palavra servir não diz nada do que se presta a dizer. Mas, creditava então nas palavras que ouvia a minha boca pronunciar. Algumas delas, se mais repetidas, embutiam-se-me como um dever, ou uma devoção. Pensei, por isso, poder juntar o amor ao Imperador com o amor a Deus. Mas se o meu Deus me dizia ser único, o Imperador escarnecia dele obrigando-me a fazer sacrifícios em altares profanos. Poderia ter tido a sensatez que se deve aos loucos e aos poderosos, a de não os contrariar, mas recaí na temeridade dos mártires, daqueles que orientam a sua vida por um não querer ver. Fui julgado e condenado a ser trespassado por setas. Ensanguentado, o meu corpo atraiu os olhos de uma mulher, menos dada a excessos, que o lavou e sarou. Foi então que entendi como amava o Imperador, como tinha que o salvar. Voltei a ele pedindo que reconhecesse os seus pecados, que, como eu, venerasse Deus. O Imperador não viu o meu amor mas sim uma impertinência que tinha que ser exemplarmente castigada, pois são os poderosos quem mais sofre com os altares que constroem, primeiro, e onde, depois, se obrigam a viver para todo o sempre. Puniu-me, por isso, a ser morto da forma mais vil, aquela onde o pau substitui o aço. Por essa razão sou invocado na ocorrência de corpos amassados, nas mortes falhas de elegância, quando a alma abandona corpos sem nervo, espapaçados. Fazem-no para trazer alívio, para procurar a paz numa beleza etérea e fugidia. Senti logo a invocação de Ricardo quando a sua ida para a aula de metafísica é interrompida pelo corpo de Gonçalo sobre o passeio. Um chamamento forte. Havia em Ricardo uma força filha da necessidade. Fiz por isso a caminhada da paixão. Primeiro visitei Gonçalo. Revi-me no atordoamento do pau que vai turvando enquanto amassa. Chorei de compaixão. Depois fui convocado pelo corpo de Ricardo. Paralisado. Fremente. Trouxe-lhe o amor intenso dos companheiros de caminho, feito de um breve encontro, repleto da explosão da natureza, e condenado ao amanhecer, ao bifurcar que a luz revela. Assim fui deixando Ricardo, ascendendo, impelindo-o a levantar os olhos do chão. Disso se faz a minha gratidão. Vou, entretanto, recobrando forma. As mossas do pau convertendo-se nas pequenas fendas que a mulher inutilmente lavou. Realojando as setas de uma morte digna. Lá em baixo, Ricardo fita o meu corpo, de novo belo e jovem. Já não dá pela presença de Gonçalo. Sei o que lhe vai pelo pensamento. Como temeu o destino de Gonçalo. Foi no fim do secundário. Não se virou. Talvez tivesse sido melhor. Tê-lo olhado nos olhos. Teria sido um, ou foram vários. Não sabe. E quem não vê imagina. Por isso construiu uma fatalidade sem responsável. Feita de uma ameaça apenas. Pronunciada num tubo de som, que se arremessa na distância em direção ao alvo. Transportando uma indiscrição íntima entre o que diz e o que ouve. Como uma declaração. Eu sei o teu segredo, eu sei o teu segredo, foi o que golpeou Ricardo quando ouviu atrás de si, paneleiro de merda.

sábado, 17 de setembro de 2016

Do David Hume ao Senhor Palomar

Encontra David Hume o Senhor Palomar. Dada a sua avançada idade, David Hume, quando fala, é já uma memória de si próprio. Por isso repete-se, eventualmente alterando apenas o nome do seu interlocutor. Meu caro Senhor Palomar, diz, sabe que todo o nosso conhecimento é baseado nas nossas experiências. O Senhor Palomar fica-se absorto observando David Hume. Tem um rosto velho de empirismo, onde as experiências se vão acumulando em camadas, umas sobre as outras, comprimindo-se sem verdadeiramente se misturarem. Poderá haver uma síntese da experiência? Questiona-se Palomar. Será possível captá-la num relance só ao rosto de David Hume, ou é necessário ir com o bisturi e a precisão do cirurgião cautelosamente separar camada a camada e de seguida analisar cada uma com a obsessão do cientista, numa cirurgia estética com fins metafísicos. Sendo um empirista militante, o Senhor Palomar prefere debruçar-se sobre a segunda possibilidade, já que as sínteses são as armadilhas do pensamento, e por isso foge de abstrações e generalizações como o diabo da cruz. Contudo, como o Senhor Palomar é também avesso à intervenção, pois nela suspeita a geração de mais camadas, prefere proceder à observação dos sulcos das rugas que oportunamente trazem ao de cima as passadas experiências. Quando lhe ocorre esta estratégia logo uma outra questão se levanta. O que provocas as rugas? Porque é que as experiências mais antigas não se conformam? Sentir-se-ão subjugadas pelas novas experiências? Será o rosto velho o campo de batalha das experiências? O Senhor Palomar decide descartar esta hipótese pois habitou-se a encontrar paz numa cara cheia de rugas e esta sua experiência parece-lhe mais verdadeira que qualquer uma das suas anteriores conjeturas. Mas, logo uma outra dúvida assalta o Senhor Palomar. Sim, talvez seja a paz dos campos de batalha, de depois do estrondo das explosões e dos gritos da estupidez. Se assim for, o rosto de David Hume terá afinal uma síntese feita de uma harmonia de corpos sem identidade que se lamentam lado a lado. Aqui, o Senhor Palomar tem a noção que está a ser vítima de uma experiência que não é sua, uma experiência lida nas descrições que o Senhor Tolstói faz dos campos de batalha Napoleónicos. Guerras que aconteceram após o desaparecimento factual de David Hume. Um calafrio percorre então o Senhor Palomar. E se o rosto cheio de rugas de David Hume foi um anúncio profético das convulsões que viriam, das guerras a que se entregariam as experiências futuras, e que ao estar o Senhor Tolstói a descrevê-las, estava a descrever duas coisas numa só, o rosto de David Hume e o ocaso do campo de batalha, a misturar camadas. Tendo o Senhor Palomar ficado satisfeito por ter chegado a um paradoxo, é trazido de volta pelo que tem à frente. Meu caro Senhor Palomar, diz-lhe David Hume, porque não me responde? O Senhor Palomar apercebe-se que passaram umas dezenas de anos desde que David Hume o interpelou, que se encontra agora em 1983 e está a ser terminado por Italo Calvino.

17/9/2016

domingo, 4 de setembro de 2016

Estória – Afonso e Catarina

Nem toda a gente entende a história, ou está preparada para a entender. Por isso existem as estórias feitas de valores de carne e osso, de símbolos individuais capazes de inspirar. Vejam a força de uma padeira de Aljubarrota a amassar espanhóis fugitivos. Sentem o papel destinado ao povo na formação da nação? Oiçam agora de uma rainha que transforma as infidelidades do marido em rosas. Não vos extasiais com a imagem de uma mulher de onde brota a harmonia social? Dirão então os mal-intencionados que a estória é parcial, mentirosa até. A esses respondo-lhes eu, mas é piedosa! Vede o que acontece à turba quando se lhe permite interpretar os textos sagrados. É como uma criança a brincar com uma faca, acaba por se magoar. É um ato de carinho, senão mesmo de cautela, mastigar esses textos, torná-los num bolo alimentar, que a ave mãe deposita nos bicos sedentos de certezas das suas crias. Já dizia Almada, mãe é tudo tão verdade quando passas a tua mão pela minha cabeça. Pois é. Seja história ou textos sagrados, não interessa, ai deles se não forem ministrados passando a mão pela cabeça. Ai deles? Dos homens? De todos! História, homens, textos sagrados, todos saem maltratados por igual como num encontro entre canibais. Sou por isso a salvação. Como explicar ao Afonso e à Catarina o que aconteceu ao tio Gonçalo? Falar-lhes da revolução? Dos estados depressivos? Da lei da gravidade? Estás loucos! Do que eles necessitam é de uma estória. E, tende cuidado, não deve ser a mesma estória. O pior que uma estória deve temer é ser tomada como sendo uma estória da carochinha. A mim só de pensar nisso dá-me calafrios. Por isso, para cada humano, criança ou adulto, há uma estória que ele percebe logo como verossímil e as outras como da carochinha. E não deve ter a ver apenas com a mãe de cada um, senão veja-se os nossos dois irmãos. Para o Afonso talvez baste que o tio Gonçalo saia a voar, mas a Catarina, embora mais nova, não vai nessa estória. Mas não cai? Sim Catarina cai, mas levanta-se. Prestai atenção, levanta-se, ou qualquer dos seus sinónimos, são as palavras que nunca levantam dúvidas em nenhuma estória. De pé ó vítimas da fome. Levantou-se da morte. A diferença está apenas em que cada ser acredita no seu levantar e desdenha o dos outros. Mas se as estórias explicam o que aconteceu a Gonçalo, já é mais difícil de explicar a discussão entre o Zé e a Joaninha. Uma vez sozinhos, Afonso toma o partido da mãe e teima que o Gonçalo é como um super-homem dos oprimidos que combate os exploradores deste mundo indo pelos ares conduzindo multidões de homens de fatos de macaco que o seguem iluminados. Já Catarina olha para o irmão com incredulidade e pergunta-lhe, quando é que vão parar? O Afonso fica surpreendido, pois, quem quereria parar de voar. O mundo é redondo, explica Catarina, e se estiverem sempre a seguir o Gonçalo vão andar às voltas. Por isso Catarina defende que é melhor não sair do mesmo sítio, que Gonçalo tem mesmo é de levantar-se do chão e voltar a ser Gonçalo. Pois é, só a estória salva.

sábado, 3 de setembro de 2016

A História – Joaninha

A queda de um revolucionário está perfeitamente enquadrada no movimento de massas. A História explica isso muito bem. Sim, temos os nossos mártires, que são da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Seres que se sacrificaram, não para a comezinha salvação da sua alma, feita do medo de morrer, mas sim para a dignidade dos seus camaradas neste mundo. Camaradas de família, de profissão, de classe. Mas quando um revolucionário se atira de uma janela já é outra coisa. Nisso estou de acordo com a Joaninha, não é revolucionário. Ainda se fosse um daqueles suicídios que ajudam a ultrapassar um obstáculo, então poderia ser visto à luz de uma realpolitik qualquer, que não raramente surge ao ideal revolucionário numa encruzilhada, ou à luz de uma limpeza interna, porque o movimento de massas é um ser gigantesco que por vezes é atacado de artroses, sendo necessário eliminar os elementos entrópicos e olear as cartilagens. Infelizmente, esse não parece ser o caso do Gonçalo. Andava transtornado. Tinha descuidado a militância. Aburguesou-se. Quem diria, um operário, um gráfico que nunca virou as costas ao piquete. A revolução encontrou-o com a quarta classe no Alentejo. A Joaninha e o Zé trouxeram-no para Lisboa. Aprendeu para gráfico. À consciência do camponês explorado juntou a militância do operário. Tinha a generosidade do revolucionário. É verdade que teve as suas derivas extremistas. A juventude puxou-o para a emoção que faz esquecer a estruturação da ação. Mas isso pode acontecer a qualquer um. Veja-se o grande Che na sua aventura Boliviana, uma loucura que o leva a deixar-se morrer às mãos do imperialismo. Mas, não se atira inutilmente de uma janela. É isso que magoa. A futilidade das ações humanas sem impacto na transformação social que faz avançar a História. Para mim, a História, a ação humana é como o ato sexual para outros, deve dar fruto. Mas um fruto social, de um mundo melhor. Disso padecia Gonçalo nestes últimos tempos, deixou o mundo para se fechar numa redoma feita de uma inutilidade que diria preguiçosa. A lascívia amolece primeiro e empedernece depois. Claro que a Joaninha sofreu quando soube. O Gonçalo era como um filho ideológico. Vindo do Alentejo, viveu com eles nos primeiros tempos, ajudou o Afonso e a Catarina a crescer. Eles também irão sentir a sua falta. Mas, é o Zé que me preocupa. Ficou a remoer, a afundar-se num pântano. Parece esquecer a necessidade primária de se assegurar um saudável funcionamento da máquina. Em vez disso, conjetura. Pode ser o início de uma deriva. A consciência de classe, esta minha magna construção, deve estar atenta à consciência do indivíduo que, por não ter sido gerada por um processo lógico, é dada a perturbações. A revolução não se faz com o canto da cigarra. É sim obra da formiga que laboriosamente executa a sua tarefa, minuciosamente, sem exaltações do coração, aceitando as realpolitiks que se atravessam no caminho. Por isso, quando a Joaninha e o Zé discutiram sobre o Gonçalo, a Joaninha primeiro estranhou o Zé e depois ficou alerta.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Registo Clínico – Zé

Dizem que um registo clínico-psiquiátrico não é mais do que um caldeirão de linearizações dos romances de Dostoiévski condimentadas com compostos químicos, mas estão muito enganados. Nós somos mais do que isso. Estais a rir-vos? Tomo nota! Sei bem o que valho. Ultimamente anda para aí uma democracia que tudo relativiza. Têm a mania que de médico e de louco todos temos um pouco. Qual quê? Eu não. Está tudo aqui escritinho, tim tim por tim tim. Mas ninguém me leva à séria. Que saudades de quando eu era bem usado. Bons tempos, dava viagens, ou pelo menos tirava de circulação. A diferença estava apenas na pegada de carbono, o resultado era o mesmo. Quem é este que anda para aí a partir o templo? Então, não pagam os vendedores os seus impostos! Deve ser um sabotador que quer dar cabo da taxa de crescimento. Só pode ser maluco! Vai já para a cruz espiar os pecados. Estão aqui todos assinalados, e se for do tipo depressivo até é capaz de pingar mais alguma coisa. Eu sei disto, são muitos anos a virar almas. Vão ver que até se vai descobrir que foi ele que colocou pregos na manteiga do povo. Dizem que afinal não há relatos de tal enormidade? Pois é, um incompetente. Afinal surgiu um prego. Eu não dizia! Não há dúvida nenhuma. Mas, agora, reduzem-me a esta insignificância. Dizem que faço parte de um processo cujo objetivo final é curar o paciente. Ora esta. E depois, vou para a gaveta amarelar? O que há é falta de autoridade. Transformam os casos clínicos num ramerrame onde a distância doutor-paciente é colocada em causa. Uma distância irmã das outras distâncias, mães da ordem social. Vejamos o meu caso. Tenho no topo escrito Gonçalo Aires, nascido em 25 de fevereiro de 1960. Quem escreveu? Nada mais que o Dr. José Galvão, um promissor jovem psiquiatra e amigo do paciente. Por isso nem sequer sou um registo a valer e assisto estupefacto a intimidades. São amigos, está bem, mas se é assim para quê abrir um registo? Porque não vão para um café e conversam? Bem sei que é para passar as receitas, mas não gosto desta subalternização a que sou sujeito, transformado num mero auxiliar de memória. A vingança serve-se fria, sonhava eu. Tinham acabado de ligar da polícia a perguntar sobre o Gonçalo. Quando desligou, o Dr. Galvão abriu a gaveta e retirou-me para cima da secretária. Ali ficou a recompor-se enquanto focava o olhar. Pouco havia escrito em mim. Preparava-me para gozar a minha vingança, ver reposta a minha dignidade, ser finalmente preenchido com afirmações que marcam sulcos no estômago, das que viram pacientes do avesso, de fazer inveja ao próprio Dostoiévski, quando ele, num estado de completa insensatez, murmura, o fim da revolução. O fim da revolução? Houve uma revolução? Já andava desconfiado, este relativismo, mas também nunca me dizem nada, sempre aqui enfiado, entre a gaveta e estas quatro paredes. E acabou, diz o Dr. Galvão. Será que poderei ter um papel na nova ordem? Ou, será que o Dr. Galvão foi vítima de uma recaída psicanalítica, daquelas que trocam fármacos por emaranhados de conjeturas?

sábado, 27 de agosto de 2016

Distração – Isabel

A Isabel distrai-se com muita frequência. Não é coisa que se diga, mas é verdade. E, por isso, provocou um acidente. Sei que se justificou à polícia com a distração provocada pelo corpo a estatelar-se no chão, um ruído que, conjuntamente com o subsequente clamor, abafou o empurrão dado ao pequeno Romeu. Não é completamente falso, a queda distraiu-a de facto, mas foi uma soma de distrações que provocou o acidente. Que raio anda uma mulher de 32 anos a conduzir e a repensar naquele fedelho no Bairro Alto, na noite anterior, entre a ida do restaurante ao café onde tinha combinado com uns amigos. Ainda protestou com ele, mas foi mais num tom de desafio, como quem lhe diz, tens desaforo mas agora foges. Gosta do atrevimento, que se lhe há-de fazer. Não estou a dizer isto para isentar o carro de culpas. É verdade que foi lento na travagem. Mas o que pode um carro fazer no aborrecimento do tráfego diário senão entreter-se com os pensamentos do seu condutor que pela mesmíssima razão se alheia do ato de conduzir. Distrações. E, tão distraída ia Isabel que nem reconheceu quem caiu. Também não era fácil. A queda ocorreu num instante, como uma estrela cadente que não se espera, no preciso momento em que se dá por ela já passou. E, depois, ficou preocupada com o miúdo que tombou à sua frente. Outra distração. Foi coisa pouca. A polícia tomou conta do incidente para a eventualidade de vir a ser necessário ativar o seguro. A ida ao hospital apenas confirmou contusões externas. Ainda, outra distração. Contudo, é provável que mesmo que se tivesse dirigido para o passeio não teria identificado Gonçalo. Já não o via há algum tempo, talvez uns 6 anos, e ele tinha a cara esborrachada de encontro à calçada, revelando apenas a bochecha e a orelha esquerda, a distância do olho ao chão tinha sido encurtada pela fratura do nariz. Gonçalo não teria então mais de 20 anos. Era responsável pelos cartazes do movimento. Tinha-lhe sido sugerido pelo Zé. Trazia uma daquelas inocências que se deixam pescar. Isabel trouxe-o em lume brando. Mais pelo gosto de puxar e soltar a linha, sem um verdadeiro interesse, homens moles não puxam carroça. Isabel até comentou a uma amiga, entredentes, uma distração. Naquele vai e vem Gonçalo até aderiu ao movimento. Quando Isabel saiu ele ainda por lá ficou. Mas que interessam estes pormenores? Não nos estaremos a distrair de algo importante, que não é uma distração? Gonçalo não caiu porque se distraiu, atirou-se da janela. Vou-vos dizer a minha opinião, e não é necessário avisar-vos que é uma opinião parcial, facciosa até. O mundo é feito de distrações. O que parecem ser atos resolutos são de facto, apenas, a soma de distrações. Sim, uma distração isolada é uma distração, mas quando as distrações se acumulam, umas sobre as outras, acontecem as coisas fundamentais, aquelas que trazem a marca da determinação. Posso-vos falar das da Isabel. Uma vida cheia de distrações. Pouco sei sobre o Gonçalo, mas se tiver certa, ele julga que se atira da janela, porém é, na realidade, a consequência de várias distrações.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Para-choques – Romeu

Quem mais sabe do atropelamento do Romeu sou eu o para-choques que o atirou para a frente. Sai-me da frente, disse-lhe em jeito de aviso, e resultou, pois é corpo novo que reage e não se deixa cair como um peso morto. Peso morto era aquele que Romeu se quedou a olhar no meio da passadeira. Sim é verdade, ele estava na passadeira. Miúdo atilado o Romeu, senão não teria autorização de ir sozinho para a escola aos 10 anos. Aquilo também eram outros tempos, menos bandidagem e andava-se em relativa segurança na rua mesmo já com os comunistas à solta. Sendo ajuizado deveis então questionar-vos porque é que ele parou no meio da passadeira e se deixou atropelar. Os para-choques têm o poder de num contacto, ainda que breve, absorver de um só golpe o que vai na alma das pessoas. Por vezes o choque é tão intenso que com a alma vem a vida, mas no caso do Romeu não, foi choque, não posso negar, mas muita vida ainda por lá ficou. Pois, é assim. É verdade que Romeu julgou reconhecer no homem que caía um parente extraviado que nas histórias de família surgia entre o conto do lobo mau e a espera do regresso do filho pródigo. O tio Gilberto que o 25 de abril transformou num revolucionário. Muito novo ainda, era visto a fazer discursos inflamados. Quando estas intervenções chegavam ao conhecimento da família gerava-se um misto de revolta e vergonha. Tinha sido educado no velado desejo de vir a ser um governante, um estadista, um daqueles homens que deixam marca numa nação, incontornáveis. Jeito não lhe faltava. Em pequeno já dominava a oratória, como noutros tempos seus semelhantes dominavam a poesia. Era com um brilho nos olhos que pais e avós o ouviam. Trocavam olhares cúmplices de satisfação. Havia futuro no miúdo. A revolução foi para ele como um parto prematuro. Um ser ainda em formação viu-se atirado cá para fora e os seus instintos disseram-lhe que não devia perder a oportunidade para se revelar. Nascido para orar, algo não parecia bater certo no que dizia. Talvez não fosse imediatamente evidente para as mentes embriagadas pelos vapores da revolução, mas para os mais distanciados, especialmente aqueles a quem a revolução veio interromper um destino, não era possível deixarem de ir do sorriso à vergonha, em função da proximidade familiar ao imberbe político. De tão desajeitado foi considerado perdido e passou a ser invocado em narrativas familiares de caráter trágico onde Romeu logo percebeu o pendor pedagógico. Por isso, quando Romeu viu um homem a cair de um edifício ocorreu-lhe se seria o tio Gilberto. A sua imagem exerce sobre ele um fascínio igual ao do fruto proibido. Não a renúncia imediata que é sintoma de estupidez, mas uma curiosidade quase meticulosa sobre alguém que mal conhece e de quem tanto sabe. Ficou por isso a olhar absorto o corpo em revolução, quase au ralenti, até ao seu embate contra a calçada. Romeu, tal como eu, absorve toda a energia dos choques.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Notícia – Ivone

Nestes jornais a morte violenta vai de uns poucos parágrafos a uma página inteira. Cabe ao editor o arbítrio diário sobre a dimensão e disposição das notícias. A notícia sobre a queda do Gonçalo não foi muito longe no escrutínio, o jornalista ainda tentou. Usou os seus contactos na polícia para obter mais informação. Coisa pouca. Um nome, Gonçalo Aires, uma idade, 26, uma profissão, gráfico, mantinha alguma atividade num desses pequenos partidos de esquerda, ligaram uns camaradas a informar-se, nada de particularmente relevante sobre a sua vida pessoal, os pais vieram do Alentejo buscar o corpo, parece que vivia sozinho. O jornalista, com alguma rodagem neste tipo de tema, percebeu que a única oportunidade que eu teria seria entre as notícias de sangue e as notícias de trânsito, mais pelo estardalhaço da queda do que pelo ser que caiu. Como notícia que sou, sei muito bem que para algumas pessoas o seu momento de glória se atinge no baque que fazem no chão e uma pequena nota no jornal, que não seja o agradecimento da missa de sétimo dia, o que no caso de um revolucionário não se aplica, embora pudesse haver uma nota laudatória do partido, o que são acontecerá quer pelo sujeito quer pelo estado de desorganização interna em que se encontra a organização partidária. Enfim, uma vida que atinge o seu auge pelo empecilho que provoca. Mas foi por isso que conquistei o meu direito a ser selecionada. Diz assim o meu título, Congestionamento de trânsito provocado por homem que se atira de uma janela. Não riam, a vida não é fácil e cada um faz o que pode. Por isso, no meu corpo, para além do factual acerca do caído, rapidamente se passa ao impacto social provocado pela queda, um atropelamento, de menor gravidade de uma criança de 10 anos, acentuado por um há a lamentar um atropelamento, aqui não posso esconder o meu desagrado ao efeito caricato mas compreendo que este é um mal de que padecem as notícias híbridas, e o congestionamento de trânsito, que se fez sentir por mais de uma hora, foi de facto bastante menos de 60 minutos mas abaixo disso não teria relevância jornalística. De tão factual que era, e depois de ter sido arrancada a ferros e ainda assim com a sorte de nada num dia meio morto, pensava que iria ter uma manhã tranquila, ser lida por alto, de passagem, ao virar de uma página. Não é que de repente dou com dois olhos fixos em mim que lentamente vão ficando brilhantes. É verdade que Ivone e Gonçalo já não se encontravam à mais de um ano, mas os pais poderiam ter-lhe dito alguma coisa. Deve ter sido do choque. Coitados, não é fácil. Para mim também não. Estava a pensar que seria um dia pacato, mas agora estes olhos não me largam e não sei que fazer com eles. Estou a habituada suscitar comentários que vão do anúncio do fim do mundo ao pedido de vinda de um homem providencial, imaculado. Ouvistes a calçada, sentimentos que são desabafos que aliviam, que estabelecem as fronteiras de um mundo feito de emoções que necessita de ser constantemente acarinhado. Mas não destas comoções, que não é para isto que eu sou feita.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Calçada – Gonçalo, ou o que resta dele

Isto de o Gonçalo ter ficado irreconhecível, da amálgama espectral, de ser necessário o auxílio da ciência para identificar o corpo, não é bem assim. São tiques da gravidade que tem a mania das grandezas. Quem vos o assegura é a calçada, onde ele agora jaz, que sou mais terra a terra. Ademais, o Gonçalo trazia a carteira com ele, pelo que não foi difícil às autoridades saber a quem pertencia o corpo e entrar em contacto com quem de direito. Agora que não gosto que me caiam em cima, não gosto. Já me aborrecem as multidões que se comprimem e impedem o sol de realçar os bonitos efeitos de pedra. No meu caso linhas onduladas que atravessam o passeio de lés a lés. Tereis porventura notado que propago a nostalgia do mar. Uma experiência vivida em terra a que portuguesmente se chama saudade. O que quereis, sou do tempo da outra senhora, e não venham cá com conversas. Não levanto a voz, não, que os tempos não o aconselham, e também não fui assim educada, mas entre as minhas arestas, de pedra a pedra, principalmente ao serão, aqui vamos sussurrando os tempos do Senhor Doutor. Somos como somos e não esperem que mudemos. Fomos moldados por homens de mãos farinhentas de calcário com coração de vinho. Sempre tão solícitos por fora. Eram felizes. Não é mau ser-se escravo o que custa é não gostar de o ser. E o vinho ajuda, mesmo que avinagrado. Não vos será portanto difícil imaginar o quanto me afligem as manifestações que por aqui passam gritando palavras de ordem. E agora, suplício dos suplícios, cai-me este traste em cima. O sangue a escorrer pelas pedras, a ensopar a areia entre as falhas. A boca, semiaberta, com o maxilar partido, liberta uma derradeira saliva, talvez indiferente à multa por cuspir para o chão, confirmação que os mortos se dão a certas liberdades. A cabeça está solta do resto do corpo, foi a primeira a bater no chão e por alturas do pescoço ouviu-se um pequeno estalido que antecedeu o surdo baque feito pelo tronco e pernas. Sei que mereceria uma melhor descrição a sequência de sons feitos do estilhaçar do maxilar, com as suas ressonâncias de dentes a saltar, o esmigalhar do nariz, o desgarrar do pescoço e o baque final. Talvez pudesse ser aproveitada para uma dessas óperas que transformam acontecimentos trágicos em música, mas falta-me a instrução, apenas posso garantir que a queda não foi de todo desprovida da sua própria sonoridade. Mas o que me realmente preocupa não é o corpo, que eu estou habituada a todo o tipo de matéria, o que me preocupa é se com ele vem alguma dessas ideias subversivas, que agora estão na moda, que entre este sangue haja algum vírus que me contamine, para dar cabo dos nossos sossegados serões, transformá-los em discussões sobre assuntos que não entendemos, criar desavenças. Às do futebol estou habituada, foi falta, foi penálti, foi golo, questões de uma lógica que quase sempre se resolve com os olhos, senão com o coração, mas de que todos sabemos falar, sem diferenças de classe. Mas com as ideias progressistas ainda acabamos cada um para o seu lado a papaguear o que não se entende, como se estivéssemos a aprender a ler de cor.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Gravidade – Gonçalo

O Gonçalo atirou-se por uma janela. Sem dúvida um ato de alguma gravidade. A gravidade óbvia associada ao estado do corpo após se estatelar lá em baixo, no pavimento, depois de uma queda de vários andares, mas também a gravidade que pode resultar de um ato quiçá irrefletido e de que Gonçalo não terá com certeza avaliado todas as consequências. Atingirá o corpo de Gonçalo alguém lá em baixo? Isso seria grave. E se alguém, mais impressionável, perder o controlo do automóvel ao ver um corpo em revolução por aí abaixo, e atropele um outro que se quedou no meio da passadeira a observar boquiaberto Gonçalo às reviravoltas. Se calhar esse outro estacou pois ficou com uma sensação de o conhecer de qualquer lado. Sim, pelo menos do que viu no ar, pois uma vez no chão Gonçalo ficou menos reconhecível, para além de uma amálgama espectral de órgãos e sangue. Terá porventura de se recorrer à ciência para das partes se reconstruir o todo e alguém poder ser contactado para vir buscar os restos, para dar-lhes outro repouso que não seja a calçada portuguesa. E qual será a gravidade do atropelamento deste transeunte, vítima da sua obsessão em analisar catástrofes? E de todos aqueles que depois de identificado o trambolho voador irão criar nos seus cérebros associações para dar um sentido aquela insanidade? Terá ela um caráter mobilizador que faça com que outros se venham a atirar de outros edifícios, pois o fogo puxa pelo fogo? Isso seria muito grave, não seria? Não! Digo-vos eu que sou a gravidade. O que são setenta e poucos quilos desequilibrados por cinco gramas de peso que levam um corpo a precipitar-se de uma janela? Mesmo que como consequência disso magotes de outros corpos se atirem contra a terra mãe, sonhando, ou não, com virgens no além? Nada, repito! Eu estou habituada a mais, muito mais. Forças proporcionais ao produto das massas, que podem ser gigantescas, por isso não me deixo impressionar pelas pequenas quedas. Dir-me-ão que não são massas quaisquer, são massas com consciência, mas se procurarem bem na minha equação não encontrarão lá a consciência. Suponho que alguns, mais pitagóricos, dirão que ela está encerrada na constante de gravitação, porque é universal e permite estabelecer uma igualdade. Mas, não me venham falar de igualdades quando um desmiolado se atira inconscientemente, sim inconscientemente, de uma janela, sem outro fim que não seja o chão. Insistirão esses metafísicos que são os atos de inconsciência, apanágio dos profetas e dos santos, que despertam as consciências. Poderá ser que Gonçalo durante a sua queda tenha sido alvo de alguma iluminação, tenha até descoberto uma fórmula revolucionária que explique o sacrifício dos corpos, em que surja como variável a dimensão do vazio no peito e vários fatores de decaimento dos órgãos, e que, maravilha da ciência, esta nova equação se unifique com a da gravidade, explicando a queda. Tretas! A força é diretamente proporcional ao produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância. Pum.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pílula – Ivone

Dentro de um compartimento de plástico, aqui estou eu, pequenina, entre irmãs, em cima da cómoda do quarto, como se fosse ao Deus dará, mas assegurando o chamamento dos olhos estremunhados, porque o esquecimento prega partidas. Conto os dias para a minha vez. Nisso a Ivone é certinha. Começa por um canto, avança da esquerda para a direita, de cima para baixo, num progresso marcado por uma dobra que me eleva, coube-me ficar no meio, olhando as peugadas das que já partiram, dispostas diante de mim numa cascata descendente, preparando-me para a vertigem de ser catapultada, aos trambolhões, para a garganta, ainda antes do café da manhã e do lavar dos dentes. Esse é o objetivo inicial da minha missão. Chegar primeiro. Sou por isso uma privilegiada. Vejo o mundo tal como é, sem o filtro da gestão das expetativas. Um mundo sem decisões. Com múltiplos futuros e o único pressuposto da origem que eu represento. Sou assim uma testemunha abalizada das alternativas criadas pelas hesitações de Ivone ou pelos seus ardentes desejos. Pontos de interrogação que permeiam um fluxo que gostamos de idealizar contínuo. Num mundo cheio de terramotos e vulcões a continuidade é uma ilusão. Dir-me-ão que falo como se soubesse das coisas grandes do universo quando estou remetida a um mundo pequeno e fechado. É verdade, mas não nos deixemos iludir pelas aparências. Toda a perceção está fechada dentro de si própria. Tudo o que parece grande é pequeno quando visto de fora. Diria que é irónico ter de ser eu a pílula a explicar-vos isso. A trazer-vos de volta à terra. A mostrar-vos que na leveza de uma prescrição, ratificada por um rápido gesto matinal das mãos, está um mundo tão pequeno e tão grande como qualquer outro. E esta é a minha segunda missão, introduzir na vida de Ivone o livre arbítrio que cabe dentro do compartimento que me contém. Sim, já vos vejo de novo a sorrir, seres repletos de continuidade, o livre arbítrio dentro de uma bolha de plástico!? Olhai antes para cima e calai-vos. Ouvi-me então agora. Para compreenderes esta minha missão tendes de saber do que me contaram as colegas dentro da caixa, histórias que ouviram de outras caixas que habitaram a mesma gaveta antes de se esvaziarem no seu destino. Podeis não ter confiança, dizer que são histórias que já ninguém pode corroborar. Ouvi e ajuizareis. Comecemos pelo princípio. Contaram-me de Ivone antes de nós. De uma Ivone à sua maneira fugida para Lisboa. Numa cidade onde imaginou renascer e com a cabeça no que deixou. Dividida, agarrou-se aos livros numa solidão assistida. Viveu mundos que por momentos a libertavam dos pensamentos. Foi acumulando os livros em cima de prateleiras inacessíveis, dispersas pelas paredes da casa pequena, com as lombadas contra a parede, como se estivessem envergonhados. E depois chegou Gonçalo. Ofereceu-lhe uma caixa com a pedra saída de um dos livros e do que lhe disse posso-vos assegurar, que disso percebo eu, nunca num grito de subjugação houve tanta liberdade.

domingo, 21 de agosto de 2016

Olhar – Ivone e Gonçalo

Na vida há momentos que marcam, que repetidamente nos vêm à memória, repassados da intenção que os forjou. Foi assim o olhar que Gonçalo encontrou em Ivone quando ela lhe estendeu a caixa de fósforos. A caixa foi o cenário sobre o qual Ivone colocou o olhar. Fixemo-nos nesse momento como num cartaz de uma peça de teatro. A mão aberta de Ivone, vazia. A caixa pesada entre as mãos de Gonçalo, aberta. E sobre eles o olhar. Mesmo sabendo o que aconteceu depois, sinto-me feliz por ter sido esse olhar. Há na entrega de uma mulher um ataque a que um homem facilmente sucumbe, num misto de vaidade e piedade. Regozijo-me sempre que penso em mim naquele momento. Mas terei tido eu outro? Existirei para além desse cenário, dessa caixa aberta, daquela mão estendida. Não sei, mas não fui criado por acaso. Sei das dúvidas que assaltaram a caixa e da indiferença do seu conteúdo. E sei mais do que eles. Existo por duas razões. A primeira porque Ivone gosta de livros. A segunda porque há na vida de uma mulher um momento em que o corpo se impõe e diz, é agora. Diria que a primeira razão foi o vestido que Ivone colocou sobre a segunda. A segunda razão é demasiado física para poder ser apresentada sem despudor, e para a cobrir nada melhor do que um livro. Já não recordo com exatidão qual foi o livro, mas com certeza um que leu sobre bruxas e unguentos mágicos. Sobre poderes que penosamente têm sido atribuídos às mulheres e as têm levado ao fogo. Queimadas por homens assustados e mulheres enfurecidas. Um livro feito com a magia do que se apanha do chão, por isso a pedra, os paus e a terra. Coberta por esse livro fez-me. Um olhar feito da tranquilidade do livro e da intensidade do corpo. Mas regressemos ao cartaz. Aquele em que fiquei capturado para a eternidade. Um olhar que traz público, que enche salas. Todos querem poder ter um pouco de mim. Ou porque nunca tiveram, ou porque sonham que tiveram, ou então querem só recordar. Para todos tenho a frescura que dá o tom da verdade, ou que aviva a memória. Por isso não tenho ilusões de ser diferente de outros olhares, também feitos de corpo e vestidos de alguma forma. Alguns com certeza, na pobreza ou na urgência, com pouca coisa por cima, apenas para disfarçar. Só não tiveram a sorte de serem colocados num cartaz, porque até o despojamento cativa. Distraí-me a falar de mim e esqueci o Gonçalo. Inebriamo-nos na descrição do feitiço, na determinação e força do seu criador, e esquecemos o enfeitiçado, como se fosse vítima, como se não usufruísse, e para o olhar são precisos dois. Sei que fui planeado pela Ivone, mas o que seria de mim sem o Gonçalo. Existe no olhar não correspondido um raiar de loucura de que fujo a sete pés. Quantos de nós se perderam assim. É algo que nos acautelam de pequenino. Ensinam-nos a saber quando o outro lado lá está. Essa é a arte. Esse é o bruxedo. Entregarmo-nos para sermos recebidos. E o Gonçalo estava lá.

sábado, 20 de agosto de 2016

Caixa de Fósforos – Gonçalo

Receber uma caixa de fósforos com uma pedra, uns paus e um pedaço de terra no dia de anos não é o mais comum dos presentes e no entanto fui eu que carreguei esse fardo quando passei da mão de Ivone para a de Gonçalo. Na altura era apenas uma caixa usada, com a lixa quase gasta, que Ivone tinha junto ao fogão. Inicialmente envergonhei-me, pois tinha orgulho em guardar esses senhores do fogo, industrialmente alinhados, todos com a cabeça para o mesmo lado, filhos distantes de uma árvore e aos quais é colocada uma ponta incendiária. Vestia com dignidade essa responsabilidade. O choque de me ver repentinamente esventrada dos últimos fósforos não foi menor que aquele se sente ao assistir ao extermínio de um exército que com garbo se viu desfilar. E depois, a humilhação de ter de tolerar um pedra colhida ao acaso, acompanhada por um pedaço de terra e uns paus retorcidos, desencadeou em mim o nojo do irregular, do sujo e do feio. Não sei se foi essa a imagem que transmiti a Gonçalo quando poisei na sua mão. Pelo menos, pela sua cara, havia surpresa. Ivone tinha-o chamado à parte e entregou-me com a mão aberta como que se duma cerimónia se tratasse. Gonçalo pegou em mim e abriu-me. Toda eu me encolhi de vergonha, sentia-me despojada dos músculos e observada até às entranhas. Apeteceu dizer, se pudesse falar, que não tinha sido sempre assim, que já tinha sido feita de um alinhamento preciso e metódico onde o todo se infere pela repetição da parte, numa espécie de multiplicação da ordem. Mas também notei que após a surpresa inicial Gonçalo procurou os olhos que Ivone tinha à espera dele e ficou pensativo. Comecei então eu a pensar que talvez neste fardo constrangedor houvesse o que não percebia. De facto, sempre desempenhei a minha obrigação, enrobustecendo-me com as vestes da minha função, e isso também é uma forma de não ver. Por isso comecei a questionar ao meu conteúdo. Que faziam eles antes de ter vindo para a caixa? Já se conheciam? Sabiam o que se esperava deles agora? As respostas não foram muito encorajadoras. As opiniões eram diversas. Falava cada um para seu lado, não concordando em nada. Era evidente que foi dentro da caixa que se tinham encontrado. Ainda assim não mostravam repulsa de agora estarem assim juntos. Estavam habituados aos encontros e desencontros de quem vive na rua, empurrados pelo vento ou por um pé distraído. Andava cada um na sua vida quando Ivone os colocou na caixa e ainda não tinham tido tempo de definir uma missão, um objetivo comum. Achavam mesmo que não deveria haver. A sua estadia seria temporária, era resultante do acaso e ele se encarregaria de os separar. Talvez fosse assim pensei, mas não conseguia esquecer os olhos de Gonçalo a procurar os de Ivone. Deveria haver alguma razão para eu ser despojada da regularidade e cheia deste fingimento de acaso.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pedra – Ivone

Em casa de Ivone. Em cima de um móvel. Há uma pedra. Ivone agarrou em mim e trouxe-me para casa. Já percorri todas as divisões. Com exceção da cozinha, que não conheço mas de quem percebo bem o cheiro. Julgarão que tenho tido uma vida muito agitada. Nada disso. Passam-se dias sem me ligarem nenhuma, e então lá pegam em mim. Levantam-me a meio de uma conversa, rodam-me entre os dedos, procurando uma razão, e voltam-me a poisar. É mais frequente quando há uma cara nova. Não nos primeiros dias. Quando começam a estar mais à vontade vão entremeando a conversa com a observação do que os rodeia. O Zé tem particular gosto por mim. Conheço bem os seus dedos grossos e a mão quente quando me volteia. Há mais de 2 anos que vem regularmente a casa. Mais para o fim da tarde, nunca ficando para comer. Minto, no início costumava vir também de manhã cedo, mas agora não. O Ricardo não me toca tanto. Gosta mais de falar. Janta por cá às vezes. Ri muito. Parece irmão da Ivone. Planeiam muitas coisas juntos. Sonhos e mudanças. É a Ivone que me vai trocando de lugar. Acontece por fases. Durante muito tempo nada acontece, até que um dia resolve mudar tudo, troca os móveis de sítio, desencanta velhas fotografias que coloca nas molduras. Sou apanhada nesse turbilhão, e lá vou da sala para o quarto, do quarto para o hall de entrada, do hall regresso à sala. Bom, é uma casa pequena e pode ser exagerado falar em percorrer a casa toda, mas para uma pedra não é pouco. E também não fui feita para isto. Ser apanhada em súbitas altercações. Correrias sem sentido que nos deixam no ponto de partida. Apenas mais inconformados. Chateia-me. Mas como pode uma pedra clamar por paz quando tudo à sua volta anda num turbilhão. Pergunto-me se a Ivone não se enganou quando me arrancou à montanha. Ao lento passar dos dias. À contemplação. Os humanos inventam ideias que os aliviam. Depois arranjam símbolos para as representar, pois sabem das fraquezas da imaginação e da sua própria inconstância. Por isso somos nós escravizadas aos seus desígnios. Obrigadas a dar voz ao que não temos. E mesmo, quando por puro acaso, somos o que nos imaginam, revoltamo-nos por sermos meros objetos de propaganda. Areia para os olhos. No meu caso, custa-me sentir um mero fantoche em mais uma revolução. A Ivone tira-me do quarto. Terá as suas razões. Coloca-me na sala e pensa, a pedra, o símbolo da paz e da temperança, fica bem na sala. E pensa, é sobre o sofá que procurarei a introspeção, e a pedra estará sobre a mesa percetível ao olhar. E, contudo, já esqueceu que me levou para o quarto pela mesmíssima razão que me quer agora na sala. Custa-me, repito, sentir-me mais uma vez usada. Se ainda acreditasse. Depois sobem a parada e atribuem-nos missões em que não acreditamos, nem sequer estamos preparados. Símbolos sobre símbolos. São infernais os humanos. Ainda antes do Zé, era Ivone mais nova e ofereceu, Gonçalo uma pedra com uns paus dentro de uma caixa de fósforos. Ivone quer acreditar que gosta de pedras.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Trela – Ricardo e Humberto

Sei bem, o que vos vou contar pode facilmente ser usado para satisfazer as línguas gulosas, as bocas estridentes, aqueles cuja vida está contida numa viagem entre os Apalaches e as Rochosas, tão cheia de aborrecimento como de marcos que indicam quantas milhas já se percorreram, para assinalar que algo aconteceu, e no fim dizer, parabéns, na sua vida fez 1254 milhas, foi mais longe do que 87% das pessoas como você. Sim, sei que esses lerão esta jornada com um sorrisinho e a usarão como o mau exemplo. Mas pouco me importa, sou uma completa defensora da liberdade, cada um é dono da sua vida, até de comentarem esta. Para vos aguçar o apetite desde já vos aviso que sou perversa até aos ossos. Desde logo porque não sou aquilo para que fui feita. Uma trela tem como objetivo segurar o cão. Levá-lo pela rua. Refrear-lhe os impulsos. Puxá-lo para nós. Trazê-lo à rédea curta, quase com as patas no ar, porque um animal é um animal e cabe ao ser humano refrear-lhe os instintos para que saiba quem é o dono, seja educado, renuncie às suas fraquezas primordiais. Sou perversa, porque quando olham para mim, pendurada atrás da porta do quarto é nisso que pensam, e nem se questionam onde estará o cão, tão bem definida está a minha missão. Sou perversa pois sou usada para o oposto. Para trazer por casa. Para soltar os instintos. E esta tarefa dá-me prazer. Sentir como Humberto se altera quando Ricardo me coloca ao seu pescoço. Ele que é tão contido. Excita-me sentir-lhe o frenesim. A vontade de saltar em frente, sem medos nem imaginar perigos. Humberto é feliz e Ricardo também. Ricardo segura-o com delicadeza, dá-lhe pequenos puxões da mesma forma que se incita um touro. Eh Touro! Eh Touro! E sorri. Outras vezes Ricardo veste-se de legionário romano. O peitoral fica-lhe tão bem. Alarga-lhe o peito com uma superfície bronzeada que visto de baixo lhe dá um ar imponente, de estátua viva. E Humberto, que é tão comedido, não se contém e diz, o direito é romano, o direito é romano, e ri como só assim o vejo rir, numa traquinice tardia. Podeis perceber como sou feliz e já entendeis como uma trela pode ser um arauto da liberdade. Para um cão posso chegar a ser um objeto de devoção, em que ele pega com os dentes mal o dono chega a casa. Mas é só a exacerbação do seu estado natural. Daquilo para que os cães foram feitos. Um aborrecimento de pedinchar afetos. Vós humanos fostes selecionando-os. Cada vez mais puros. Pedigrees variados. Todos mais imbecis. Mais amigos do homem. E depois dizeis que os nazis são uns monstros. Olhai o que fizestes aos cães. Eu, que a eles estava destinada, senti a revolução no dia em que fui colocada ao pescoço de Humberto. Não há dia mais feliz do que aquele em que podemos fazer exatamente o contrário daquilo para que meticulosamente nos projetaram. Olhamos para nós, para o cabedal, as fivelas, a presa, e percebemos que a tortura a que fomos destinados não é destino, que o destino não existe, tudo está nas nossas mãos. Porque como disse um poeta, a poesia é a metamorfose das palavras. Tristeza que tenha de ser uma trela a recordar-vos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Espelho – Humberto

Sou senhor de uma grande responsabilidade. Chegam a mim aspirações, interrogações, dúvidas, vaidades, sei lá eu, e a todos tenho que dar uma resposta. Se dissesse que sou verdadeiro, o fiel retrato da realidade, estaria a mentir, e de qualquer forma também ninguém acreditaria em mim. Sou mais um oráculo. Confrontam-me não para saberem o que são mas sim o que poderão vir a ser. No caso de Humberto, um homem com ambições políticas, isso é evidente. Vem ao espelho para ver como quer que o vejam. Treina posses sérias, vários tipos de entoações, que se ajustem às diferentes situações, da surpresa ao pesar, procura o estereótipo que mais se lhe poderá ajustar. Confesso-vos, como espelho, que procura o género sério, não apenas porque é aquele que estatisticamente tem levado mais longe, compassadamente, sem pressas, a do homem que inspira confiança, mas também porque é um homem de direito, um pouco falto de impulso artístico, devoto das miudezas. Eu, que sou espelho, não vejo nisso nada de errado. Quando o olho não vejo um homem mau, apenas alguém que procura perceber qual é o seu lugar no mundo, com o mesmo direito de uma mulher bonita que não me larga ou um trolha que me ignora. Vejo até mesmo um homem bom, se entendermos que todo o que sofre se não é bom tem pelo menos a condição de o vir a ser. Esse é pelo menos o ponto de vista das religiões que professam que o fruto da dor é a compaixão. Mas deixemo-nos de divagações pois qualquer filosofia de um espelho será baça. Pois, Humberto é um homem triste, tive a certeza quando terminou com a Catarina, no entanto já desconfiava embora lhe desse o esperado feedback, que como já deveis ter percebido essa é a função do espelho coerente. Depois de Catarina, via um homem que com sofrimento se interrogava perante mim. Um homem que vestiu uma roupagem que sente desajustada mas que não pode despir. Como quem se senta numa cadeira e ao fim de algum tempo começa-se a sentir desconfortável e em que levantar-se é a última das possibilidades, pois seria negar um sonho, uma ambição, e todos temos direito a eles. Sei que secretamente amaldiçoou o mundo. Perante mim mudava repentinamente da posse impassível a um rosto tolhido pela mais completa raiva, seguido de um sofrimento sem par. Temi pela sua saúde. E senti a sua encruzilhada. Gigantesca, porque não tinha sido munido nem da criatividade nem da desonestidade, e acutilante, pois temia que alguém soubesse. Também eu sofria, mas que pode fazer um pobre espelho, a mais passiva das criaturas. Ainda assim, desafiando as leis do criador, procurava transcender-me. Afeiçoei-me a Humberto. Chamai-lhe amor se quiserdes. Senti pena dele, enchi-me de compaixão. Sofri. E assim estive algum tempo. Mas então, num momento de loucura, revoltei-me com Deus, que sabia que nos observava, e quando mais uma vez Humberto chegou perante mim, enchi-me de coragem e disse-lhe, deixa-te de merdas.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Esperança – Cátia

A última coisa a perder-se é a esperança, diz-se. Concordo, sou uma sobrevivente salvadora, especializada em trazer à tona o que se afundou. Várias vezes medalhada, onde vou sou recebida com carinho. Não há quem não goste de mim. Sinto-o nos que se afundam. Descendo com os olhos agarrados à superfície imploram-me quando me veem mergulhar. Um a um, trago-os de volta ao seu lugar. Dou-lhes conselhos. Tenham cautela. Não repitam os erros do passado. Eles agradecem. Dizem que sim. Prometem-se que agora será diferente, não voltará a acontecer. Se tenho algo de vadia não é por minha culpa. As pessoas emprestam-me umas às outras. Dizem, não percas a esperança, comigo também foi assim. E assim, de exemplo em exemplo, lá vou eu, aconselhada a quem precisa. Foi assim que cheguei à Cátia. Não desistas do Afonso disseram-lhe. E a Cátia não desistiu. O tempo passou e a Cátia deixou-se ficar. Quando voltou a duvidar disseram-lhe, depois de todo este tempo não podes desistir de ti. É então que chego eu. Lá mergulho a buscar a Cátia e repor o que foi arrumando com o Afonso. Pequenos objetos. Pequenas situações. Apenas para fixar uma única coisa. O tempo. Por isso sempre que trago algum deles de volta à tona é o tempo que estou a repor. A Cátia necessita de mim pois ninguém gosta de olhar para trás e ver um abismo. Devem estar a pensar que sou uma fonte de energia e dedicação, sempre atenta e pronta. Não podiam estar mais enganados. Na realidade sou bastante preguiçosa. Pelo menos agora que criei nome. Pouco faço. Vivo em regime de franchising. Fazem tudo em meu nome. Sinto-me uma Deusa do Olimpo. A Cátia deixa-se afundar e depois vai-se buscar em meu nome. Diz, se não fosse a esperança, e eu lá de cima observo-a. Um ponto de cabelos que se agitam enquanto se move de um lado para o outro num frenesim. Abre portas. Fecha portas. Deixa-se ficar. Imóvel, é quando se encolhe que sei que se prepara para afundar. Um ponto que se centra sobre si mesmo. Depois olha para mim, chama o meu nome. Vejo-a esbracejar, agarrar os objetos, repô-los no lugar. No fim agradece-me pois eu sou a sua esperança. Uma preguiçosa observadora com um nome do tamanho da minha indolência. Mas vou-vos confessar. Suspeito que sou apenas uma palavra que esconde outra com menos aspirações e mais acomodada, esperar. Mas porque falo eu com este despudor? Porque posso. Não podem os abastados ter momentos de incerteza e decidir abraçar uma vida despojada? Da mesma forma eu, a esperança, me dispo das minhas louvadas virtudes e me apresento como realmente sou, pois sou dos seres mais etéreos do universo, estou em todo o lado. O que motiva aquela tresloucada correria do eletrão em torno do protão senão a esperança. Todos os seres que não têm têm esperança. A Cátia por vezes sente que não tem o Afonso e por isso tem esperança. E tem muita esperança. Tudo o que sente é feito de mim. Sei que está confusa. Por vezes acha que sente e por isso tem esperança e depois vem o reverso em que é por ter esperança que sente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Canção – Afonso

A guitarra do Afonso queixa-se. Há nela a imensa incompreensão daqueles que se sentem enganados nos seus sonhos. Acha que ele nunca lhe tocou nenhuma canção e é impossível convencê-la do contrário, quedou sobre si mesma na casmurrice dos traídos. Por isso não tento. Deixo-a estar. Talvez o tempo sare. Ou talvez não, e as cordas laças não voltem a ser afinadas. Devo confessar que pouco me importa. Ao princípio porventura um pouco, devido à curiosidade de procurar algum brilho por entre o tolhimento. Depois desliguei-me. A cabeça do Afonso também não me deixava em paz. Concebia-me tão perfeita. Uma daquelas canções que todos repetem. Cada um para seu lado. Cada um para si. De ser tanto cantada fui aprendendo a distanciar-me, a observar os que me cantam. Aos magotes. Sorria a observar o uníssono. Sentia-me poderosa, mágica, provocadora de sonhos. E os sonhos têm este poder de acasalar com o quer que seja, desde que seja outro sonho. A única promiscuidade real é a dos sonhos, a dos corpos só acontece porque estes se submetem à sua insatisfação. Era isso que eu via nos concertos em que todos me cantarolavam, de olhos semicerrados, olhando para dentro, extasiados. Ah, e que melhor imagem poderá haver para o Afonso. É bem verdade que todo o criador inadvertidamente constrói a musa que o enfeitiça. E eu, pobre canção, uma musa. Rio-me de me ver assim. Fui eu que sonhei a guitarra. Fi-la sonhar. Fi-la sofrer. Ela coitada nunca me sonhou a mim. Talvez por isso acabe nessa miséria. Só os que sonham o sonho podem ser livres. Por isso, repito, rio de me ver assim, canção na cabeça do Afonso, maior que todas as coisas, sorvedoiro dos que por mim se deixam possuir. Criadora e destrutora, igual por igual. Força motriz da criação dos impérios dos insignificantes. Daqueles que não levantam a voz. Dos que falam para dentro. Todos esses trazem uma canção dentro da cabeça. Como o Afonso. Por pressentirem como é gigantesco o que sonham tomam a opção de ser seus vassalos, seus humildes servidores, nada tentando para além da fantasia, autocondenando-se ao silêncio e à adoração. Quanto tempo fui senhora do Afonso? Agora que encontrou a Cátia menos, mas ainda assim, quando se aborrece, quando se entedia, clama por mim. E tomo conta dele como só eu sei. Tomo-o como um todo, possuo-o. E a Cátia assustada. As mulheres pressentem quando os seus homens são possuídos. Sentem-nos escorregadios, alheados. Por isso olham em volta à procura de outra mulher, têm a tendência a suspeitar que só um igual pode roubar outro igual, que a vida é feita de trocas, feita de pequenos ganhos e pequenas perdas, nada de devastador, como eu. Por isso sentem-se traídas e não sabem como. Procuram e nada encontram. Tolhem-se e entregam-se, quiçá, ao misticismo, à procura do para além do humano, não desconfiando da razão do frémito que lhes escapa. A Cátia não imagina que com o Afonso, na sua cabeça, vou eu, uma canção.

domingo, 14 de agosto de 2016

Guitarra – Afonso

Uma guitarra deitada de costas, como deve ser, sobre um tapete de quarto, com as cordas um pouco lassas de já não ser tocada há algum tempo. Aqui estou eu, um pouco esquecida, eu que fui tão desejada e agora já ninguém me toca. Não sei se será pelo pó. Se ao menos alguém me arranjasse e tornasse resplandecente como antigamente, talvez o Afonso por acaso olhasse para mim e tivesse vontade de me voltar a por a mão, dedilhar-me, eu sei lá. Não que ele toque bem. Mais emoção do que perícia. Mas é bom sentirmos que servimos para algo, que alguém nos pega, ainda que não seja como sonhámos que viesse a ser. Este é um pouco o destino dos seres passivos. Que podemos nós fazer. Ter fé, acreditar que em algum momento vão olhar para nós, que vão estender a mão e pegar-nos. Sim, dizia, esse é o nosso destino. Esperar que sejamos escolhidos. Às vezes, aqui sozinha, especialmente nas noites em que o Afonso não vem dormir, parece que fica na casa da namorada, dou comigo a recordar quando ele olhou para mim, para a montra onde eu estava. Não era das mais baratas. Tinha, claro, alguma vaidade disso. Sei que somos escolhidas pelo nosso valor. O Afonso olhou para mim e percebi logo que era desta. Muito se aprende de posar numa montra. Lemos o nosso valor nos olhos de quem passa. Só pela forma como Afonso me olhou, tremi. Comprou-me. Como não sabia tocar, teve vergonha de me experimentar logo ali. Levou-me para casa. Pegou-me com emoção. Pude sentir isso pelas mãos, pela pressão que exercia sobre o meu braço. Aproximou os dedos das cordas, tocou-lhes ao de leve, um pouco receoso, ainda assim com o sulco na ponta dos dedos. Confesso que estava nervosa. Ali com ele, gemi um pouco. Uma vibração monocórdica. Não posso dizer que não tenha sentido algum prazer. Ou talvez fosse mais alegria. Sim alegria, prazer deveria ser mais tarde, pensei. Achava que era o início, que me adaptaria, com o tempo mais cordas tocariam. Antevia com ternura o caminho que tínhamos pela frente. Estava decidida a guardar esta história. Ele cada vez melhor. Mais capaz. Talvez com um pouco menos de emoção, mais ciente de mim, do que eu sou capaz. Foi assim no primeiro dia. Nos dias seguintes, gostava de se sentar na cama e ter-me nas mãos. Sem fazer nada. Só a sentir o peso, o verniz na palma da mão. É assim o Afonso. Tem uma intensidade em não fazer nada. Em se quedar a olhar, como que à espera. No início deixei-me inebriar por essa paz, uma quase religiosidade. Talvez fosse assim o paraíso. Mas era nova. Tinha sido feita para tocar. Andei disso esquecida por uns tempos, mas depois voltou a instalar-se-me na cabeça. Quando estava ali, nos braços do Afonso, dava comigo a pensar como seria lá fora. Como seria o mundo com todas as cordas de que sou feita. Comecei-me a tolher. Até as poucas notas que de mim eram tiradas já não me pareciam iguais. Fugidias, um pouco falsas, mais feitas de compaixão do que de prazer.

sábado, 13 de agosto de 2016

Volkswagen – Romeu

Não há amor sem sucesso, pois o amor exige a perfeição, ou dito de outra forma, a harmonia. E o que é a harmonia senão o perfeito encadear de mecanismos, pistões bem oleados e firmemente agarrados à sua biela, num movimento contínuo, sempre perfeito, seja ele mais rápido ou mais de vagaroso. Não me quero gabar, mas eu sou feito dessa harmonia, sou um Volkswagen. Sou feito de anéis que asseguram o isolamento e regulam a dilatação. Pego à primeira e não desiludo quando desenvolvo. É essa regularidade, no acelerar e desacelerar, que Romeu procurou em mim e estou comprometido em não o desiludir. Mas o que tem isso a ver com o amor? Não é o amor exatamente o oposto? Uma combustão desenfreada, mais explosão do que movimento, que nos paralisa dando-nos a sensação de já não necessitarmos de ir a lado algum? Caros amigos, estais a cometer um dos erros mais comuns entre os humanos, confundir o amor com a paixão. Nunca dois seres tão opostos têm tão sido obrigados a viver juntos, dando origem a tanta confusão, tanto mal-entendido. O amor sempre a procurar a paz e a paixão o desassossego. Coitados, por que não deixam cada um deles seguir o seu caminho, preencher-se sem sentir a falta do outro. Mas não, miserável vida que ambicionas juntar o insolúvel. Sempre a apregoar o amor com paixão ou a paixão do amor, não sabes que assim não haverá sucesso no amor? Sim, talvez o haja na paixão, essa sôfrega que pelo momento deita tudo para trás das costas. Mas o amor necessita de percorrer quilómetros de regularidade. Foi por ser disto ciente que Romeu me comprou, por estar certo de onde quer ir. Por isso quando me põe as mãos em cima é sempre com uma intenção, para ir a algum lado. Mesmo quando diz que é para relaxar, para desanuviar, para dar uma volta apenas, fá-lo para reajustar o rumo, para tomar folgo. Para mim é um prazer, pois foi para isto que fui feito. Direi mesmo que essa é a minha escola. Temi, quando soube que ia ser vendido, poder ir parar a mãos trémulas, indecisas, que nos levam a dar uma volta e regressam ao ponto de partida tal como de lá saíram, ou pior que isso, que regressam a pensar, e agora. Mãos à procura da paixão, que andam no mundo à espera do acaso, de um acidente, sim, digo um acidente, com todo o pavor que essa palavra pode desencadear num carro. Algo de que saímos mais ou menos amachucados. Amedrontados para novas viagens. Mas, tive sorte, pois o Romeu sabe onde quer ir. Talvez não seja apenas sorte, somos escolhidos por aquilo de que somos feitos, e eu sou um Volkswagen. Nas mãos do Romeu, com a Catarina ao lado, é uma perfeição. Se a isto não se chama amor, o que será o amor. Uma vida a três de acordo com um plano, todos de acordo, cada um ciente da sua função, do seu contributo para o objetivo. Como sou feliz aqui, sentir que farei parte da história. Concentro-me para dar o meu melhor. Por vezes percorre-me um calafrio por receio que possa desiludir, que algo corra mal por minha causa, mas logo me passa e agarro à estrada.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Decisão – Catarina

A vida é feita de decisões. Decisões que comprometem e não deixam olhar para trás. Que interrompem com o óbvio. Pela sua educação, por aquilo que os pais lhe ensinaram, não seria este o caminho a que Catarina estaria predestinada. As histórias que lhe contavam, quando ainda não sabia ler, eram sobre elefantes coloridos que conviviam com os mais improváveis amigos do reino animal, onde as diferenças se esbatiam numa camaradagem feita da origem das coisas, numa paz universal concebida à medida das crianças. Depois cheguei eu. Instalei-me junto ao seu ouvido. Dizia-lhe que não teria que ser assim. Ela não me ligava, mas à tentação não se estranha a insistência. Imiscui-me onde não era chamada. Posso dizer que não foi difícil. Sim, a camaradagem universal está bem, mas é para o princípio, e o fim, da vida. Comecei-lhe por instalar a dúvida que cria um redemoinho. Uma vertigem. Olhava-me estonteada, com o receio que se tem pelo que nos atrai. Mas Catarina era cuidadosa e não se me entregou imediatamente. Resistiu e isso dava-me gozo. Sabia-a minha, pois na resistência já reconhecia a certeza da entrega. Como os passos que se dão atrás para tomar balanço. Para aumentar a tensão. Fazer crescer a vontade e o prazer do momento em que reconhecesse que eu era a decisão. Dizem que as decisões devem ser pensadas, tomadas com calma. Tretas, que eu bem sei. Depende das pessoas, dizem. Qual quê. A Catarina, sempre tão certa de si mesma. Desde pequena, cedo começou a ser autossuficiente, a saber o que queria. Se não fosse porque todas as decisões são precipitações, certamente que não teria sido uma precipitação. Mas eu sou mesmo assim. Senão ninguém diria, tomei uma decisão! A sério? Qual foi? Alguma coisa óbvia? Claro que não, para isso não é necessário tomar nenhuma. E chegou um momento em que o caçador se tornou presa. Não dei logo por isso, tão concentrado que estava no jogo. Como o saboreava. As insinuações seguidas da atenta escuta da reação. As contrações involuntárias dos músculos, o rubescer. Esses avanços e recuos provocavam-me um tal prazer que comecei a desfrutar desses momentos descontroladamente. Repetia-me pela pura procura da repetição e isso fez-me vítima de uma cegueira. Não via que era Catarina que me observava agora a mim. Eu estudava as suas reações à procura de mais insinuações. Mas era ela a dona do tempo. Já tinha tomado a decisão e eu era seu escravo. Vivia uma ilusão que ela alimentava com malícia. Talvez eu até tivesse consciência de tudo, mas fingia ignorar para prolongar a sensação de ser seu senhor. Sucumbir ao próprio veneno pode ser a indicação que este é o de menos importância. Que o veneno não é nada sem o corpo onde se instala. Que eu me julgava toda poderosa nas minhas insinuações, desencadeando o imprevisível. Mas vivo agora nesta suspeição de ter sido um mero joguete. Uma invenção de Catarina. Sua obra. Foi ela que me colocou junto ao seu ouvido. Que me levou às insinuações, que prolongou o meu prazer, e agora o meu sofrimento.