sábado, 27 de abril de 2019

O dia da liberdade

Uma vez por ano decorrem as celebrações do dia da liberdade na galeria iconográfica Pinote. Participa-se em pé, ligado ao dispositivo virtual da Mindicon, e segurando na mão um objeto a que sejamos apegados. Por volta das 15 horas cai a noite. Somos colocados na penumbra até que os olhos se adaptam à luz do firmamento e as coisas em volta ganham uma textura de lã, como se a escuridão emprestasse uma macieza às formas. Damos então por nós junto a árvores, talvez meia dúzia delas, amontadas ao fundo de uma ladeira onde somos deixados prolongadamente sem que nada aconteça. Quando, devido ao tédio, o corpo começa a ser tomado de um formigueiro, os restantes sentidos são então ligados, e chega-nos o cheiro a humidade, do que poderá ser um insonoro regato, ao que são adicionados arrepios nas omoplatas que nos obrigam a um ou dois espirros. Ficamos a vibrar pela expulsão do ar enquanto a ressonância do som permanece como um borrifar de água sobre a paisagem invisível. Sentimos então os pés a moverem-se monte acima, tropeçando em arbustos e pedras, fletindo os joelhos de encontro ao chão, como se a cegueira do andar nos colocasse um peso nas costas. É nesse desconforto que nos começa a invadir uma sensação de medo, que na escuridão nos faz apressar o passo, subindo, deixando para trás a sombra das árvores, enquanto se vai impondo à nossa frente uma forma retangular, de superfície lisa e aspeto intransponível. É então que sentimos a dor na mão que não larga o objeto. É por altura do pulso. E estamos imobilizados em frente à grande parede, pressentido o amplo espaço da noite pelas costas. Quando a dor se torna insuportável, num pestanejar de olhos, percebemos que a parede é afinal de um casebre, por onde se abre uma porta meio derrocada. Enfiamo-nos por esse buraco e encostamo-nos a umas traves de madeira carcomida. Neste canto, cai um silêncio total e assustamo-nos, pois já não conseguimos ouvir a própria respiração. A única ligação com o exterior é este objeto, que levamos ao peito, procurando ouvi-lo e vê-lo pelo olfato. Cheira a nada. Apertamos as mãos e as unhas vão de encontro à carne das palmas. Essa é a única parte que se sente do corpo. Desligam-nos a mente e somos apenas aquela mão que abre e fecha como patas de aranha recém decepada. Anda pelo casebre, enterrando-se no pó amarelo da madeira e rebolando na terra batida do chão. Nesse momento acende-se a luz numa divisão quadrada com uma pequena mesa no centro e duas cadeiras frente a frente. Estamos sentados numa delas com a mão imobilizada sobre o tampo e corpo direito na cadeira. Na outra está o ícone do Hilário nu à máquina de escrever e, mais ao fundo, de costas para nós, o ícone do Hilário com o fato largueirão olhando por uma pequena janela. Por detrás, o ícone do Mouco começa-se a desfazer enrolando-nos em papel de jornal atado com fitas de filme a preto e branco. É quando os olhos nos saem órbitas afora que fixamos a minúscula caixa castanha de mogno avermelhado com o fecho dourado em reboliço que se eleva abrindo a tampa.

domingo, 21 de abril de 2019

Mouro, o caramelo, por estrelinha97

Estranhareis o extravasamento desta obra, pois sois de um tempo em que eram escritas na obsessão com o contexto, a que, numa atitude auto justificativa, apelidavam de coerência. Esta coerência é bem patente na precisão das descrições dos lugares, dos tempos, das personagens, dos linguajares, por forma a serem uma única coisa. Essa preocupação utilitária foi transversal a todas as atividades humanas até que, como já tive a oportunidade de referir, as máquinas passaram a garantir o sustento. Agora podemos dedicar-nos ao mapa que é da dimensão do mundo, se é que me entendeis. E que melhor prova disso que o ícone, Mouro, o caramelo, por estrelinha97. Um ícone cerebral feito por quem nunca privou com os personagens reais desta história, que sim, a terá lido no tempo para o qual a escrevo, provavelmente ainda jovem, e que agora, passados muitos anos, resolve submeter à galeria o seu ícone cerebral sobre o Mouro, um Mouro lido, e nem me preocupo em dizer se foi gerado com uma versão com atestado de veracidade da Mindicon, dado que já não consigo contar o número de referendos que houve sobre esta norma, cada qual com uma elaboração mais detalhada da pergunta, que mais parecia uma discussão sobre qual o significado de veracidade nos dias de hoje do que um ato de decisão política. E tenho que realçar que este ícone não é como o de romeu77santana, e perdoai-me alguma imprecisão, se é que a há, onde podem ser detetados sinais de convivência com quem efetivamente privou com os personagens reais, e, deixai-me lançar um pouco mais de água na vossa fervura, se é que eles efetivamente existiram. É, inicialmente, um ícone bucólico, com a sua marca de ternura, onde não falta um porco amigo, irrealmente caminhando com o Mouro, lado a lado, como que se imbuídos do mesmo destino, especialmente quando sabemos da história que a intenção de um era comer o outro, digo-o sem presunção, sendo por isso essa caminhada em conjunto, se a tivesse havido, puramente circunstancial, e de curta duração. Por outro lado, a cor rósea do animal denuncia as falhas desta obra na descrição de pocilgas, como se para se poder dirigir a palavra a um porco ele tenha de estar, pelo menos, bem lavado e escovado. Depois, conforme nos vamos afastando e aproximando do ícone, dando passinhos virtuais, o Mouro surge coberto por uma folha de papel colorido, chamativo, papel de caramelo, torcido acima como um cabelo à Elvis, e a abaixo como um rabo de sereia, e se agora nos movermos um pouco à direita vemos o porco torcendo o pescoço e encarando o Mouro com uns olhos gulosos, um pouco sôfregos, babando-se, com uma baba de porco, deliciosa, diz quem já teve a felicidade de a provar, notando-se um desconforto debaixo do papel, um manear de ombros e ancas, agora que o Mouro se tornou num gordo paralelepípedo entra neste bambolear démodé, que já teve os seus dias, nos idos dos finais dos anos 50, sendo mesmo capaz de suscitar a exclamação, gostoso. E perguntais-vos vós, o porquê deste ícone cerebral na galeria Pinote? Bom, parece-me que não conseguis ver o mapa do tamanho do mundo.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante

Entre os 3 Pinotes e os 2 Hilários acompanhados de 1 Mouco, jaz no chão da galeria o ícone cerebral, A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante. Tendo sido um homem esguio e seco, trajado para a guerra como o padre para o celibato, não deixou descendência digna desse nome, uma vez que como tal não se pode considerar um mestiço num musseque de Luanda, se é que o há, como também não são merecedores dessa classificação os filhos de um padre, se é que os há, sendo pois dois seres que de igual se alimentam do imaginário, como se a vida fosse apenas um sonho, incapazes de deixar uma pegada física, pelo que, na ausência de qualquer prova de sucessão material, nada melhor do que as histórias da antiga cavalaria andante para produzir o seu ícone. Suspeita-se mesmo que possa ser obra do software da Mindicon, responsável pela gestão social da galeria, que, como um curador, decide acerca do inter-relacionamento entre os ícones, com vista a pronunciar o seu impacto, não sendo, nesse caso, A morte do Sr. Capitão Simões, um verdadeiro ícone, aproximando-se mais de uma parede, ou um projetor, no que são os elementos de uma galeria como vós a conheceis. Sendo sintético, difere também do Pinote por josedigitalgalvao, pela despretensão de ser coisa alguma, a não ser uma súmula. Traça, portanto, o corpo estendido, violáceo do garrote, uma linha imaginária que separa os dois bandos que se enfrentam de razões bem físicas, todas elas feitas da carne e das suas emoções subjacentes. Colocado ao nível do chão, é impercetível para quem entra na galeria, preso no olhar pelos ícones pendentes e pelas suas subtis interações. Mas passado um pouco, sente-se uma tensão, como se algo impedisse os dois grupos de se lançarem um contra o outro, e ao mesmo tempo não os deixa voltar costas e debandar. Diz-se que os cavaleiros andantes morrem da mesma febre que os tomou em vida, sendo apenas fatal a infelicidade de esta agora os apanhar na cama, incapazes de galgar a um cavalo e partir à aventura, e parece ser evidente esse efeito neste militar impecavelmente fardado, há anos confinado ao seu gabinete e ao despacho. Requerimentos, requerimentos, parece ter estampado no rosto vítima da asfixia, reproduzido em três cópias a papel químico, encaracoladas aos cabelos como os canudos de um judeu ortodoxo. Como pode um homem vocacionado para a guerra sobreviver a um ataque de papelada, ainda que química? Pode mesmo ser fatal trazer um homem à razão? Foi com falinhas mansas que o tiraram do Ultramar para o encerrar naquele vilarejo de província, como símbolo, é verdade, mas administrador de coisa nenhuma. Parece ter saudades da Luanda onde cavalgava o seu cavalo branco, a quem deu um tiro depois de partir uma perna numa noite de cacimba, e cuja reprodução, a pau pintado, se encontra agora entre as pernas estendidas do Capitão Simões, com a cabeça espalmada tombada, ainda que embelezada por duas tranças de fios de lã branca que não conseguem esconder o orifício deixado pela bala. Quem matou o Capitão Simões, pergunta-se ao longo do corpo do animal.

sábado, 6 de abril de 2019

Uma visita à galeria iconográfica

Tudo o que é irreal suscita atração. O Pinote segundo Dr. José Galvão desencadeou uma avalanche de visitas à galeria. E para isso, esclareço-vos já, desculpando-me, pelo lapso, dado com frequência me esquecer da época para que escrevo, que também é a única em que me podem ler, uma vez que, como já vos disse, a literatura morreu não muito depois do início do século XXI, e para isso, dizia, e desculpai-me mais uma vez destas interjeições que com frequência se intrometem na minha escrita, mas que é também um sinal dos tempos, em que os humanos se dedicam aos pensamentos divergentes, deixando os convergentes, aqueles que têm como único objetivo chegar a uma conclusão, às máquina, entretendo-nos nós na procura da perceção do todo, uma vez que a tecnologia nos abasta, e só não divaga quem não pode, como escreveu um dos últimos poetas de que há memória, e para isso, dizia, um poeta, desculpai-me de novo, que apagou toda a sua obra pouco depois de experimentar as transferências cerebrais, mais propriamente as visitas às galerias iconográficas, sim, e para isso, e perguntais-vos, talvez, como pode uma poeta apagar uma obra, não um manuscrito atirado para uma lareira num momento de despeito, mas uma obra publicada, uma obra completa, publicada, repito, e para isso, dizia, bastava ligarmo-nos a uma máquina de visita iconográfica, adquirir um acesso e dispormo-nos a nos deixar percorrer pelas imagens que são baixadas diretamente para o nosso cérebro, onde são temporariamente depositadas sobre as outras que nos habitam, e uso a palavra imagem sem propriedade, uma vez que no tempo em que viveis essa é a única forma como podereis entender o modo como se gravam impressões alheias no cérebro, sim, andaram durante anos os artistas a ter golpes de inspiração, pensava-se, a tirar cá para fora o que achavam estar lá profundamente incrustado, sim, a razão do ser, o ser, mesmo o ser, talvez tenha sido essa a razão do desalento do poeta, não um momento de raiva devido a um desentendimento com a crítica, mas um momento de prostração devido a um desentendimento consigo mesmo, talvez porque se tivesse convencido da sua obra, daquelas sibilações linguísticas, como quem se faz de um modelo externo de si mesmo, como os comentadores a que assistis nos programas de televisão, e para isso, perguntais-vos, desconfio, como pode ter apagado a obra, simples, respondo-vos, desligou-se, mas primeiro considerou-a pobre, parcial e imatura, uma coisa que representa uma coisa não pode nunca ser a própria coisa, é outra coisa, disse o poeta, mas já não o escreveu, ou diz-se que disse, pois, como disse, ele apagou-se, mas, desculpai-me, o Pinote segundo Dr. José Galvão sobrecarregou a galeria de descargas, pois suscitou-se a curiosidade sobre como seria o ícone cerebral de uma máquina, admirais-vos vós, que o que vos descrevi como uma estátua de bronze, disforme, possa ter despertado tanto furor, sois como o poeta, prendeis-vos da forma, onde procurais encontrar o ser, nunca visitastes uma galeria iconográfica cerebral.