domingo, 29 de julho de 2018

Quarta Lição – A digestão tout court

Aqui já fica o aviso, esta quarta lição bem pode vir a ser uma desilusão, onde predomine o imprevisto em vez do nunca visto. Íamos nós na anterior, esófago abaixo, em direção ao inferior, esfíncter de passagem, nó oculto de entrada para a câmara dilacerante, onde se espera o horror arrepiante, da corrosão. Mas não, desenhei eu esta lição, a bem da pedagogia, de forma diferente, em vez de vos perderdes no detalhe, quero que vos concentreis na grandeza da digestão. Imaginai pois uma cobra estirada, pelo chão, acabou de engolir uma vaca, toda de uma assentada. Está a pobre lá dentro, inteirinha, acabada de ser tragada sem ter sido alvo de uma única dentada, chupada até ao tutano, e, contudo, o ainda estar com a pele vestida é um espanto. Formulo pois a questão, como achais vós que irá a cobra proceder à assimilação de tão grande animal, e que lhe provoca tal má-formação, abaulada como está, irá chupá-la até ao osso, como diz o povo, ou macerá-la até à medula, como diz o químico, cuja opinião, nestes assuntos, é a mais abalizada. Ai, meu menino, não quero cá galhofa, pare de fazer essa cara à sua colega, não imita a refeição de uma jiboia simulando uma aflição de ventre, ainda que essa cara entediada, não seja de todo despropositada, pois tal é a enormidade da fruição que a cobra se desliga do exterior e só por dentro há ação. Era essa a pergunta, mas leio-vos nos olhos que andais a leste, por isso aqui vai uma pista, a ver se à sala regressais, ainda que cobra tão grande não se encontre aqui, mas é esta a dica que tenho para vós, o estômago da cobra é todo feito de piquinhos e pregas que como minúsculas línguas dão ao bicho uma grande esfrega. Pobre bovídeo, que vai ser tão falado, de certeza que o deixarão num estado que irá exacerbar a sua vocação para a ruminação. Como irá então o réptil rastejante processar o vacum possante? Então, não ouço nada dos vossos lábios, nem um assomo de resposta, que se passa convosco, e se continuo a ajudar lá vai a pedagogia pelo ar. Então, imaginem a vaca ali imobilizada e todas aquelas línguas em consonância a penteá-la para um lado, e depois, se não fica bem no retrato, para o oposto, e nesta ênfase de lhe tirar a fotografia, se for necessário, até lhe fazem a marrafinha. Com um salto de heureca, que faz abanar as carteiras, um menino emocionado, exclama, é o que diz a minha mãe, são as... ai, meu menino, iluminado, bem pode ir dizer uma verdade, mas não é assim que o rastejante consome o gigantesco bicho aprisionado. Mas insiste o miúdo, eu sei, eu sei, que a minha mãe tem razão, ainda que o meu pai lhe diga, cala-te mulher que ainda acabas nessas línguas bifurcadas. Mas, riposta a minha mãe, que não é mulher que se cale, eu falo com essas... ai, meu menino, mais uma vez não, tenha tento na língua, que estamos na lição, pois é professor, é bem capaz de ser verdade, a cara que o meu pai faz é de silêncio, mas tem compreensão e amor. Ah, afinal chegamos a bom porto, tem disto a docência, se deixarmos fluir os assuntos, logo surge matéria que ajuda à conclusão. O que o bom marido insinuou à doce esposa é que não vale a pena interpelar o ofídio durante a digestão.

sábado, 21 de julho de 2018

Terceira Lição – A dança dos contabilistas

Depois da segunda lição vem a terceira, não há que enganar, na narração desta viagem, até ao final, o dobrar de muitos esfíncteres ireis testemunhar. Pois, meus meninos, espero eu, de vós a máxima correção, uma vez que, por cada erro que no futuro vireis a dar, serei eu o patrono da vossa desatenção. Mas vamos ao corpo do tema de hoje, todo ele feito de safanões, que quer se queira, sim ou não, agora que se passou a epiglote, nada mais se lhe pode desejar que muita, muita, sorte. Os movimentos são todos peristálticos, levando a comida amarfalhada, quer se faça o pino, sim ou não, em direção ao esfíncter esofágico inferior, nome comprido e anunciador de infortúnios, por onde muitas vezes escapa um ardor, uma azia, um fedor, que nos faz recuar importunados. Mas, coitados dos que já lá estão, que num único sentido vão, em direção ao desconhecido, que tudo o que por aí passou quase nunca regressou, a não ser azedo e indigno. Por isso de nada nos serve o que pudesse contar, uma vez que vem possuído por um ácido que nos leva a duvidar de ali viver aquele que ainda não há muito apreciámos. E, vamos então ao cerne da lição, da mais profunda humanidade, que vos descreve como este bicho se entretém, cantando e dançando, quando se aproxima da infelicidade. Estranho comportamento esse, mas uma vez que já vão todos no mesmo barco, esquecem até como foram recrutados, e o que deixaram antes de ingressarem no mar alto, ovas, crias, cópulas, e agora, filhos desta aflição, matraqueiam com os pés o chão, enquanto vão rodopiando em direção ao desalumiado. Eis, pois, o que tendes de aprender, se quereis ser líderes, senhores, capazes de traçar destinos, que no mundo andam apenas dois seres, os que determinam e os determinados. Prestai, pois, a máxima atenção, que o que agora vou dizer é fundamental, então não é que em vez de questionarem a sua missão, para a qual foram astutamente alistados, vestem com redobrada emoção a useira roupagem, e prometem continuada vassalagem. É amor, só pode ser, até vós exclamais senhores, com que perfeição fez Deus a sua obra, que tudo aquilo que lhe vestimos lhe assenta com primor. E da dança apenas posso dizer, que graças a Deus que não são escoceses, pois seria muito atrevimento agitar assim os penduricalhos. De braços entendidos, fazem tudo certinho, no convés da embarcação, assim foram ensinados, estes marinheiros dos três costados. Um dois três, e repete, um dois três, que tudo somado já é um número bem salgado. Quero isto muito bem contado, que não há dança sem marcação, cada passo bem ensaiado, que à vista do estertor, enchem-se de furor os finados a bem de seu patrão. Portanto aprendei meus meninos, mais esta lição, que eu não duro sempre, basta financiares a embarcação que do resto trata a corrente. Dancem, dancem, em direção à ligeira rugosidade, que ela logo se abrirá e vos revelará o que ireis aprender na próxima lição. Esta por aqui fica singela, que de viagem apenas se tratou, comprimida certamente, ao sabor da tremenda torrente, atentai, portanto, que basta montar casa a amante para terdes um segundo lar.

sábado, 14 de julho de 2018

Segunda Lição – Custa a engolir

Meus queridos meninos bem-vindos à segunda lição, que da primeira com certeza vos recordais com emoção, e deveis agora continuar com toda a vossa aplicação. Não é fácil o que vos tenho a dizer, por isso tereis que decorar, sei que sois da escola dos que gostam de entender, mas o que vos tenho a ensinar não é fácil de assimilar. Diz-se na minha terra que ainda tereis que comer muito feijão até lá chegar, e que o saber não se faz apenas de estudar. Sim, sim, eu sei, não fica bem a um professor isto dizer, mas o que é que havemos nós de fazer se não podeis entender. Deixemo-nos de preâmbulos e vamos já ao cerne da lição, que explanar depois tim-tim por tim-tim será a minha segunda missão. Sumariza-se muito bem assim o que vos tenho a ministrar, a consciência é disfuncional, sofre de dislexia, onde por vezes devia estar o tempo de um verbo entra outro à revelia. Vejo bem pela vossa cara que não estais a perceber patavina, fechai por isso os olhos e repeti comigo, a consciência é disfuncional, sofre de asfixia, onde por vezes devia passar o tempo de um verbo entrava-se outro à revelia. Ai, ai, ai, que desafinação que por aí vai, assim não conseguireis obter a aprovação, repeti, pois, mais uma vez, a consciência é disfuncional, sofre com a tirania, onde por vezes reina o tempo de um verbo grita outro à revelia. Que desânimo que desinteresse, já trazeis os olhos por tetos e paredes, olhai para mim meninos, onde está essa sede de aprender, até parece que vos custa a engolir. Ah, ah, agora sim, consegui a vossa atenção, o que vos acabei de dizer, percebeis vós bem com o coração. Come a sopa que te faz bem, já chega de mastigar, não gostas? vá, fecha os olhos, engole, e não quero cá mais conversa. Essa é que é essa, meus meninos, toda a gente engole, e não anda cá com desvarios, engole o rei e a rainha, e até engole a concubina, engole mesmo o imperador, esse rei de reis de olho esbugalhado, que anda no mar sem saber que até cardeal pode ser. E assim, vos digo, porque não haveríeis vós de também engolir? Bem podeis alegar que de peixe não gostais, ou então, pela mesma razão, que tanto o estimais que nenhum mal lhe ousais. Conversas, digo-vos eu sem delongas, vem-vos esse arrependimento, já depois de o terdes saboreado. Mas não penseis que o mal está em vós, nem sequer no que acabaste de deglutir, o mal está na garganta, esse órgão da consciência. Na garganta?, logo havia de durante a lição o professor ensandecer, todos sabem que a consciência está no cérebro ou no coração, conforme a doutrina, mas nunca na garganta, cuja função é de passagem e repentina. Bem dizia meus meninos que o melhor seria decorar, repeti, pois, outra vez comigo, a consciência é disfuncional, sofre da epiglote, onde por vezes devia passar o ar passa a comida a trote. Engasgais-vos, eu sei, e por isso ganhastes medo de engolir, pobre do peixe, coitado, sentis dó agora dele, mas só depois de o terdes mastigado. E para terminar esta lição, já que bem tenho que me apressar, pois está quase na hora do toque, mas não posso finalizar sem vincar algo que também vem mesmo a remoque, quem te manda engolir ama-te. Repeti comigo.

sábado, 7 de julho de 2018

Primeira Lição – Pela boca morre o peixe

Sendo peixe, prefiro-o grelhado, tostadinho, mas não demasiado seco, não, que gosto de lhe meter a faca junto à espinha e fazer-lhe saltar as carnes baforentas, que o danado já não perneia escorregadio, mas ajeita-se côncavo ao olhar, atiçando-nos com uma ponta de superfície, fumegante, branca e entreaberta, enquanto o resto se alonga para baixo, em direção ao corpo esparramado no prato, enlevado por duas ou três batatinhas reboliças, aperaltadas por umas flores de brócolos. Um peixe com os vapores, sim. Bem que o escuto, coitado, que agora que se vê em prato limpo, dá-se ares de alguma importância e tuteia-me, a mim, que o encaro com garfo e faca na mão, mais em posse de ourives do que com disposição guerreira. Eh pá, já viste, diz-me naturalmente, sem desaforo, mas com o à vontade de quem bebeu um ou dois copos de vinho, deste branco fresco com que eu próprio já espevitei as papilas gustativas, em curta dose, é claro, e apenas como um pequeno introito ao grande espetáculo que se avizinha. E podeis ter a certeza que lá por dentro todo o bicho se espevita, tocam tambores, correrias, da boca ao ânus é um ver se te avias. Mas porque não fica ele caladinho?, penso eu para comigo, que disfrute do leito e não se ponha a alvitrar, e eu que até sou amigo, ainda lhe dou um ou dois toques, quando diz algum dislate, com os olhos lhe faço notar que o que vem da sua boca é tudo para contar. Mas, não, não se cala, e quanto mais o como mais ele se empolga. Meto-o por isso na boca, na língua é fofinho, e ele dócil, dócil, deixa-se todo enlambuzar com saliva antes de o mastigar. Ah, como se rebola, gostoso, quase dente não é preciso, basta apertá-lo ao céu da boca para se fazer deglutido. E aí ainda me diz mais uma ou duas, que eu não quero acreditar, que ser tão sensível, tão ingénuo, vivia com certeza no fundo do mar. Mas aqui vos digo meus amigos, que o melhor que ele tem é o coração, bom, bom, como aquele é bem difícil de encontrar. Como se afeiçoa a mim, nesta hora da refeição, todo ele delicadeza, mas a verdade é esta, e bem dura ela é, coração como aquele não quero eu tragar, fica com as tripas a um canto do prato, negras, escorridas e feias ao olhar. É destes segredos feito o mundo, vai a alma para a boca mas não nos agrada ao paladar. Estou seguro que já sabeis, pois tendes ar de estudar, que na boca se forma o bolo alimentar, essa bola saborosa em que um outro ser se deixa amassar. Pois é, é assim, pudéssemos nós ao nascer, como ao comprar a pastilha, poder escolher o sabor com que por cá devêramos andar. E dois juízos seriam necessários, gostaríamos de ser agradáveis e deliciosos, ou trombudos e amargos, qual das vidas preferiríamos para nos apresentar. Olha ali vai fulano, uma doçura de pessoa, e ali sicrano, que não é flor de se cheirar. Espero não vos desiludir, mas a verdade é esta, qualquer que seja o sabor com que vos inteirais alguém se vos irá papar. Mas a grande questão aqui fica, se se tem um coração tão bom, porque é que ele não gosta ao paladar?, esta é a lição, meus meninos, que para a vida deveis levar.

domingo, 1 de julho de 2018

Intestinto – Alvares

Há palavras que nos vêm à cabeça, palavras desacertadas, é certo, mas quando nos apercebermos da sua erradez já nos afeiçoámos tanto a elas que não conseguimos arranjar-lhes substitutas. Bem que procuramos no dicionário, para a frente e para trás, como quem vai swipando caras no tinder, para a direita e para a esquerda, mas a mesma insatisfação, e apenas digo isto para colocar um toquezinho de moral, o que também tem o seu charme, e ficará bem em qualquer perfil, como o sal na comida, nem muito, nem pouco, mas adiante, lemos-lhes o retrato, tintim por tintim, popas surfistas, fofas milus, bustos sorridentes, dentes, muitos dentes, a não ser que se prefira o estilo coolado, daqueles que deixam uma pessoa grudada, e aí vai-se bem com uns óculos escuros, à aviador, a posse que certamente tomará o primeiro robô verdadeiramente inteligente, como um adolescente apresentando a sua candidatura à idade adulta, que o primeiro direito inalienável do dono de sua própria carne, e osso, é levantar voo, muita coolado, para pente, tão a ver, as já supracitadas popas, mas confesso-vos que isto é tudo um pouco intestinto, pelo menos é o que pareceu ao Alvares após a conversa do Tavares e da sua máquina diabólica, quando ficou sem eira nem beira, a máquina bem lhe trazia algo à memória, mas não sabia bem o quê, era algo de intestinto. Sim, foi essa a palavra que se lhe fixou na cabeça, e não houve entrada no grande livro das palavras tabeladas que lhe enchesse as medidas, intestinto como o universo, pensou o Alvares. Uma máquina verdadeiramente orgíaca, capaz de reduzir tudo ao mínimo denominador comum, mas como?, interroga-se o Alvares. Do resultado está ele satisfeito, claro que não sem um certo sabor amargo, intestinto, se quisermos ser mais precisos, pois é possível olhar para o mecanismo de duas formas completamente distintas, a primeira é de ordem puramente prática, imediata e contendo os resultados satisfatórios atempadamente realçados pelo Tavares, ou mais prosaicamente, eh pá, deixa estar, não te preocupes, tudo o que o Romeu lá meter nós encarregamo-nos de transformar em merda, pois é, lembrou-se o Alvares, já ouvi uma anedota sobre isso, até acho que tinha uma moral, ora aí está, a outra ótica, a que atormenta o Alvares, o técnico de imagem, a de ordem teórica, é essa mania que a moral tem em se soberanizar, eh pá, é assim, pá, já diria, o Tavares, foi azar, não correu como esperávamos e foi tudo pelo cano abaixo, e antes tu do que eu, já sabes como é, itchmeneforimeselfe, mas regozija-te, pelo menos ficou provado que a máquina existe, é fenomenal, não é conjuntural, não andámos para aqui enganados, erámos nós ou eram eles, essa é que é essa, seria estúpido ignorar a realidade, e se existe tem apenas que ser estudada, essa é a missão do ser inteligente, deixarmo-nos de merdas, Alvares, estudar, estudar, perceber os seus mais recônditos mecanismos para depois nos alavancarmos a manobrar a besta, pôr-lhe as mãos em cima, e depois quem tem unhas tem unhas quem tem dentes tem dentes, já reparaste que no tinder é mais dentes e menos unhas, ridículo, meu caro Alvares.