sábado, 25 de novembro de 2017

Avô – Avô

Quem foi então que matou o Sr. Capitão Simões, perguntou inexpressivo o avô, enquanto mordia ruidosamente um pedaço de nabo. Digo inexpressivo, pois o nabo ao sentir-se apertado liberta uma água adocicada, rica em sais, que enche a boca com o sabor das nascentes de montanha. Um gosto frio a seixos ladeados de bolhas de ar, na eminência de serem empurrados encosta abaixo, devido a um súbito aumento de caudal, como aquele que agora brotava dos dentes do avô, pelas gengivas, tombando sobre a língua, circundando momentaneamente por debaixo desta, numa pequena lagoa onde o Dr. Galvão especialmente se concentrava para sentir o suco ainda gelado e relativamente livre de saliva. Era apenas quando estas glândulas, obcecadas pela a sua missão funcional, num processo a que devem a sua existência, começavam a bombear calor e matéria pastosa, que o avô engolia. Fez-se um silêncio glacial. O avô, com uma feição estanque, onde pairava uma interrogação que encobria um sorriso, mantinha o olhar no neto enquanto que, com a mão cega, retirava o miolo do pão com que gostava de enxugar a boca depois do ritual do nabo. O Zé nem sequer procurou palavras, cansado que estava das que tinha proferido, pois, ainda que apenas as tenha pronunciado uma única vez no ar, lá dentro foram tão repetidas que agora não tinha outras. Com a mão alcançou o pequeno prato onde a avó coloca as rodelas de nabo à disposição do marido e, sem hesitar, precipitou para a boca a que estava acima, bem grande por sinal, extraída da parte mais bochechuda do tubérculo, lá onde a cor rósea está paredes meia com o branco marfim, provocando-lhe um sufoco libertador, obrigando-o a ajeitar a rodela com pequenos movimentos, encaixando-a finalmente entre os molares. Fez tudo isto sem lhe sentir o sabor, tão atarefada estava a boca na gestão do volume. E, se antes nada poderia ter dito, agora, que se concretizava um antigo receio, aquele em que, desconfiando de um cheiro que lhe arrepiava as pupilas gustativas, temia de algum dia ter de vir a tragar tal coisa, o calce que tinha entre os dentes imobilizava-lhe os maxilares, dando-lhe uma expressão bolachuda, paralisando-lhe o rosto enquanto os olhos firmes ganhavam umas pontas avermelhadas. Se apertou os dentes, foi para respirar. Foi como se um forte aguaceiro se precipitasse sobre o seu corpo. Água apenas, que a fibra, essa, deixou-se espremer mas não de desfez, ficando como uma nuvem enxuta entre os dentes. Se não foi o Pinote, então quem terá matado o Capitão Simões, questionou-se incomodado com os restos de nabo que, soltos da opressão dos dentes, se entregavam à liberdade de vadiar. Depois de uma resposta há uma pergunta para qual apenas conseguimos ficar calados. A avó veio em ajuda do neto, a comer nabo cru, estás a ficar igualzinho ao teu avô, disse procurando equilibrar a dose de graça com a de elogio. Foi ainda com os olhos fixos que o Zé levou à boca o pedaço de pão que tentou apanhar com naturalidade da mesa, quando ouviu do avô, numa cumplicidade masculina, é bom, não é?

sábado, 11 de novembro de 2017

A hora da refeição é sagrada – Dr. José Galvão, Esposa e Zé

Como qualquer homem treinado na barra de um tribunal, o Dr. José Galvão gere com precisão as suas expressões faciais. O rosto é como um cão amestrado, sentado, com os olhos abertos e a língua esgueirando-se pela boca entreaberta, preparado para receber uma ordem, fazer uma graça. Tem, por isso, um ar patusco, a que facilmente nos afeiçoamos, e que os incautos sentenciam ser inofensivo. Mas lá dentro está uma máquina bem oleada, recebendo informação detalhada através de globos oculares um pouco debruçados para fora, como uma velha à janela. É por causa desse olhar, que não consegue disfarçar um pendor esbugalhado, que aqueles que o enfrentaram, aqueles que de alguma forma tiveram de com ele esgrimir alguma razão, seja no tribunal ou na política, afirmem em privado, e apenas para os de confiança, aquele ar é uma armadilha. Mas todos sabemos que com vinagre não se apanham moscas, e, das intenções, nada há a apontar ao Dr. Galvão. Pelo menos eu, que partilho as suas opiniões, mesmo não podendo dizer com toda a certeza quais são, só vos posso assegurar que não há, até ao momento, neste relato, nenhum outro homem, ou mulher, que me inspire mais confiança, e que eu não abdique de qualquer atividade ou compromisso, para poder partilhar uns momentos com ele, trocar uns pareceres, deleitar-me como me perscruta enquanto falo, seja do tempo ou das pessoas, com um sorriso que me inspira a continuar. E não encontro melhor forma de figurar o Dr. Galvão fora da prisão do corpo, que pouco deixa acrescentar a um par de olhos, um nariz e uma boca, delimitados por duas orelhas, do que uma mesa posta, pronta para a refeição, para receber os convivas. Aí sim o posso descrever em plenitude, expandindo-se por todo o tampo, com os pratos vazios, sorridentes, recetivos, os de sopa por concavados, rechonchudos, encimando os rasos, como pétalas de uma flor expetante, os debaixo por silenciosos, sorrateiros, aguardando a sua vez, para depois do desfolhar do acolherar do creme, pouco a pouco, até ficar apenas a pequena película, que da loiça se diz suja, nota de um estômago começado a aconchegar, dum amaciar dos modos, um escorrer das educações, das empatias, queres mais sopa, pergunta a avó, que o que primeiro foi regulado foi a partilha, na génese da moral. E o avô silencioso, todo ouvidos, porque a hora da refeição é sagrada, que a ele coube a honra de a concretizar, lá fora colheu os frutos para agora os plantar sobre a mesa, observante, expetante, sorri, deixa acontecer. E o Zé que trazia aquilo guardado, ali por alturas do diafragma, onde o estômago e os pulmões se acotovelam, toques simpáticos, brincalhões, na hora da refeição, porque a hora da refeição é sagrada, diatribes inocentes, sem sarcasmos, da mesma forma que se podem tolerar brincadeiras de crianças na hora da missa, e ainda assim, ali andava a coisa, que teimava em não sair, empurrada para cima, empurrada para baixo, torneada em todas as possíveis variações com que poderia ser dita, e quando desarmou a guarda saiu tal qual a ouviu de Zalo, não foi o pinote que matou o capitão simões.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Sétimo Céu – Armindo

Aquele deixai o Zalo em paz entrou pelo Armindo adentro como um trovão. Paralisou-o. Dos pés à cabeça. Foi um relampejar frio que lhe subiu pelas pernas acima, seguido de um aumento instantâneo do metabolismo que lhe colocou o corpo em chamas, e a culpa de tudo estava no coração que se atirou numa cega corrida em frente, sem razão, por isso, os membros, mais sensatos, não tugiram nem mugiram, deixaram-se estar, milhões de anos de evolução deu-lhes a sabedoria que dali só podia vir asneira. Já os companheiros estavam estupefactos. O gigante Armindo. Não entendiam. Há nas diferenças de idades mistérios que só a química pode explicar, e num grupo de formação tão recente, onde o líder, por questões de autoridade, recrutou membros mais novos, estes são desprovidos de ambos os atributos necessários ao entendimento, a idade e a química, já para não falar do conhecimento dos seus efeitos, que a adesão à causa do Armindo marca um rumo onde o saber não ocupa espaço. O próprio não dava conta de si, as primeiras manifestações químicas são como os vulcões, lançam a poeira que esconde a lava. Não é, com certeza, nas corridas à volta da mesa que nos preparamos para estas eventualidades. Quantas vezes não terão os cidadãos de Pompeia passeado à volta do Vesúvio, usufruindo da bela paisagem das encostas onde as videiras prometem o doce vinho. E Joaninha, embora fizesse fé de ignorar o que é belo, não podia lutar contra a própria natureza. Isso entrou pelos olhos de Armindo de forma nublosa. O que primeiro viu foi o desaforo, o desafio, a ele, chefe de pandilha, engalanado nos seus próprios sucessos, feito em frente do seu exercício, em pleno campo de batalha, quando se preparava para uma investida, tendo já prometido aos da sua trupe o desfrute do saque, que da divisão de dividendos se fazem as organizações fortes. O que temeu primeiro foi o descalabro de uma ordem, feita à chapada, é certo, mas uma ordem tout court, uma paz romana exportada de casa, que deixa todos dormir tranquilos sabendo com o que podem contar no dia seguinte. Por isso sentiu ódio por Joaninha, reviveu-lhe o seu pior pesadelo, alguém a quem não se pode dar um par de sopapos, pedra basilar da sua construção cotidiana. E em segundo lugar, e isso sim foi devastador, e a razão última porque foi incapaz de esboçar uma retirada estratégica, virando costas e entoando com desdém para os seus seguidores, raparigas, foi aquela sensação doce que a imobilização muscular lhe trouxe, uma magia que os poetas enchem de palavras, mas que Armindo não verbalizou para além de dois ou três grunhires, que a língua, sorrateiramente avisada pelos membros, resolveu não levar adiante, destravando-se do cérebro. Foi a rapariga que o soltou dizendo-lhe, que estás para aí pasmado. Deu corda aos sapatos, afastando-se atabalhoadamente, pressentindo algum desconforto nas suas hostes, um abaixamento de moral resultante de uma crise de liderança, que teve de resolver nos dias seguintes aplicando corretivos, enquanto ia descortinando que uma coisa como esta não deve ser deste mundo.