sábado, 29 de abril de 2017

Spellbound – Susana

Não se consegue separar o som da luz. A sua intermitência mergulhada em fumo. Fumo que se agarra ao suor dos corpos, apanhado entre os encontrões. Sou testemunha da descontinuidade. Afonso viu Susana num clarão. Depois fez-se escuro de novo. Esperou até voltar a haver luz. Ela já lá não estava. Fechou os olhos antes de se fazer noite outra vez. Concentrou-se nas guitarras e numa voz que repete uma palavra mágica. Quando reabre os olhos está ao seu lado. O que fazes aqui? Vim com a minha irmã. Onde está ela? Foi à casa de banho fazer um caldinho. Ah. E tu? Eu não. Não? Não. Fez-se noite de novo de novo. Afonso fecha os olhos. Ondula o corpo. Reabre os olhos e Susana continua à frente dele. Séria. Diz-lhe, salva-me. De quê? Não sei. Preferia ter ficado em casa. São empurrados, ficando lado a lado. Na música repete-se again, and again. Onde já ouvi isto, pensa Afonso. Quem ficou em tua casa? Ninguém. Porque viestes? Tenho medo de ficar sozinha. Uma bateria bate em cadência de combate. É só disso que tens medo? Não. Uma luz atravessa os olhos de Susana. Grita-se um refrão qualquer em unanimidade. Costumas vir aqui? Às vezes. Às vezes. Às vezes. A resposta reverbera. Afonso faz tenção de ir embora. Susana não se move. Afonso fecha os olhos. Deixa que tremores lhe percorram os músculos. Entreabre os olhos para que alguma luz vá entrando. Solta o corpo ao compasso da música, deixando-se surpreender por cada novo acorde. Susana pergunta-lhe. E tu, costumas vir aqui? Às vezes. Queres uma cerveja. Sim. Serpenteia em direção ao bar. Quando regressa, a Susana não está. Deixa-se ficar. Pouco há no que acabastes de que presenciar, mas são disso feitos os feitiços. Se tivessem substância não seriam feitiços. Os feitiços, como os ardis, contêm um pedido de ajuda seguido de uma espera. No pedido exalta-se a matéria. Na espera forma-se o caráter. Como se forja uma espada, com fogo e água. Sei que levantais dúvidas. Dizeis, pobre rapariga, pobre rapaz. Quem os deixou lá ir. Dizeis isso porque nunca lá estivestes. Ignorais o êxtase de um cão que se deita no chão, de barriga para o ar, com uns olhos suplicantes ao fundo de um focinho molhado. Ou o ardor de seguir um desconhecido pelas intrincadas ruelas duma cidade marroquina para nos levar a um vago lugar prometido. Tudo coisas que o bom senso não aconselharia. Mas voltemos ao feitiço. Imaginemos um feitiço cheio de bom senso. Como uma aventura paga. Empolgada no cartaz. Inócua e assética na realidade. Como uma prostituta legalizada. Tudo by the book. Sem o mais ligeiro ameaço de ardor. Sem um assomo de súplica. Que feitiço é esse? Com que fogueiras podereis intimidar tais feiticeiras? As do IVA, talvez. Achais mesmo que o que atormenta a alma de Afonso é o IVA. Que quando a sua mão aperta a garrafa molhada da cerveja o que sente escorrer por entre os dedos é a percentagem do imposto. Que por isso passa horas sem fazer nada. Deixando-se perturbar por todas as músicas que vai ouvindo. Achais mesmo? E da Susana? Uma miúda ainda atrapalhada com o fogo. Uma aprendiza de feiticeira.

sábado, 22 de abril de 2017

Zona de Conforto – Catarina

Envolvo a carraça bem encrustada sob o pelo do cão. Podem dizer mal dela. Apontar-lhe a acomodação. Mas qual é o bicho que quer deixar a sua zona de conforto? Andam agora por aí com essa conversa. Até parece que pretendem que se transformem em melgas e partam à aventura, a sugar por aqui e por ali. Não sabem que é assim que se apanham as doenças? O próprio Napoleão tinha mais respeito por uma corrente de ar que por um batalhão de cossacos. Um inimigo bem mais traiçoeiro, dizia, que de manhas percebia ele. Não deveis estranhar, por isso, que a carraça se aconchegue lá fundo, junto à raiz dos pelos, como um vinhedo costeiro protegido por um canavial. E depois é toda uma impossibilidade construída pelo hábito. Acomodou-se, criou rotinas, arredondou-se, passou a almoçar sempre no mesmo restaurante, às quintas, tripas à moda do Porto, por vezes, que uma vez não são vezes, ou melhor, quase sempre, a tarte de coco, hum, delícia, tome lá uma ginjinha para ajudar, bem bom. Devido a tanto divinal suco, tornou-se mais sangue que músculo. Malditos hábitos que nos fazem fracos. Soubesse e teria sido pirata toda a vida. Não passava agora por isto. Perder peso. Ganhar asas. Mas eu não abandono os meus. Por isso, ali vou, feita passarola, vela enfunada, bandeira desfraldada, a caveira com os ossinhos a fazer um laçarote. Ou pensáveis que a iria deixar ficar sozinha? Exposta. Não, comigo é até que a morte nos separe. Afeiçoei-me a ti minha carraça, meu pirata. Também os estúdios se tinham tornado a zona de conforto de Romeu. Mas, quando saiu não levava vontade de regressar, tanta era a revolta. Mantendo uma aparente compostura, quem dele se acercasse poderia sentir uma vibração resultante de um linguajar interior, indistinguível. Um zunzum, em que discorria razões, inconformado com a decisão de cancelar a novela. Uma enorme injustiça. As audiências estavam altas. É verdade que o tio bem o tinha avisado, naquele dia em que o apresentou ao Dr. Magalhães Osório. Há mais para além do Dr. Osório, disse-lhe, quando saíram. Ligou ao tio, agora já não há nada a fazer, assegurou-lhe, desculpa, mas eu próprio me devo manter afastado. O regresso a casa é feito aos ziguezagues. Já duas vezes se enganou no caminho e voltou atrás. Quando abre a porta, Catarina imediatamente se apercebe como vem. Lança-lhe um olhar interrogativo. Não lhe apetece falar. Vai à cozinha, recusa o copo de vinho e retira a garrafa do gin. Apenas se ouvem os ruídos da rua abafados pelas janelas de vidro duplo. Serve-se outra vez de gin. Catarina está expectante. Romeu tomba sobre os joelhos e senta-se no chão, encostando-se às pernas da mesa. Catarina junta-se a ele. Romeu bebe o resto deste segundo gin de um trago, enquanto estica o braço para trazer a garrafa. Serve-se de novo. Então? Pergunta-lhe Catarina. Cancelaram a novela. Mas as audiências não estavam boas? Estavam. Então? Dizem que exagerei. Exageraste nada! Vais ver que é um mal-entendido e que tudo se resolve. Abraça-o. Romeu coloca a cabeça entre os seios de Catarina.

sábado, 15 de abril de 2017

Chama – Afonso

Quando abre a mão revela uma chama bem no meio da palma, que vai do azul junto à pele ao laranja das extremidades. Sou como a chama que arde no coração de Cristo, em antigas gravuras que ornamentavam casas modestas. Um Cristo belo. Sim, o fogo fascina, eu sei. As chamas têm chamamento. Atração que captura os olhos. Chama que desperta uma loucura que se quer calada, como um amor secreto, escondido dos comentários comezinhos dos outros. Por isso vivo no segredo guardado pelo punho fechado de Afonso. Sou uma pontada de calor bem no centro, onde as linhas se cruzam. Dormente, persevero-me na ânsia do oxigénio que me dá forma. Afonso sente-me ali como um incómodo, mas mantém a mão cerrada. Sou a presença constante que o acompanha ao longo do dia. Por isso é ligeiro. Sorri. Não se atormenta perante as dificuldades pois sabe que mais tarde soltará a mão e abrirá os olhos à minha chama. Talvez por isso, por ter a felicidade periclitante dos que acreditam, o pai não procure mais. Dirão que é desleixo para um psiquiatra, mas na azáfama de concertar as almas dos outros, com os próximos, tal como consigo próprio, vive numa espécie de alheamento. O enfado de quem por cautela não traz trabalho para casa. Já da mãe não poderei dizer o mesmo. As mulheres não se conseguem desligar dos seus rebentos. Mas prefere não saber. Engendra uma multitude de pequenas causas que expliquem o que suspeita. Causas sociais. Objetivas. Alicerçadas num materialismo dialético que coloca tudo numa rede lógica que traga os novos factos e os digere em velhas associações. Mas Joaninha está enganada. Como vos disse a minha origem é de uma ordem religiosa, que não se explica. Não que não se tenha tentado. A religião é o ópio do povo. Ah, ah, ah. Não posso deixar de crepitar de riso. O que seria do Afonso sem mim? Como seriam os seus dias se não tivesse a garantia da celebração da chama. De se ajoelhar perante a minha redenção. Pobre Joaninha, sempre tão perspicaz e tão cega para o essencial. Deveis estar a pensar que sou como a canção na cabeça do Afonso. Sim é verdade, não sou é tão passageira. A canção é a fuga do Afonso, eu sou o Afonso. Dou-lhe o desprendimento que faz a camaradagem. Um afastamento do material consubstanciado numa desambição mãe da partilha. Quem não é generoso depois de um farto almoço? Ou, após soltar a alma numa adoração? Tudo isso eu dou a Afonso e há, contudo, nele um sofrimento de ter de fechar a mão. De se sentir obrigado a esconder a chama. Não, não sou eu que, como uma amante possessiva, o atormento com a necessidade de declarar publicamente o seu amor. Não sou vítima dessa insegurança. Não há no fogo condições para a consciência. O sofrimento do Afonso advém da minha força. A dúvida atormenta qualquer relação e Afonso teme que possa abrir a mão e já lá não encontrar a chama. Por isso a dor na palma da mão. A forma como ele não a consegue separar de mim. A inquietação de não perceber claramente onde termina a dor e começa a paixão. Como se de uma crise de fé se tratasse.

domingo, 9 de abril de 2017

Mercado – Romeu

Ficastes pendentes do homicídio do Capitão Simões? Tenho então más notícias para vós. L’Ancien Regime não terá continuação, fica-se por uma única temporada. E não é por causa das audiências, essas até são razoáveis. Romeu esmerou-se a colocar todos ingredientes necessários. Nem sequer necessito de vos dizer quais, uma vez que chegastes até aqui, semana após semana, vítimas das ênfases, insinuações, ausências e prolongamentos. Por conseguinte, quando soube da notícia, que não tiveram a gentileza de lhe comunicar pessoalmente, Romeu sentiu-se injustiçado. Andava tão entusiasmado a conceber a novela, a acrescentar-lhe fios narrativos, a atar-lhe as pontas, criando uma rede sem princípio nem fim, feita para durar, fadada a apenas desaparecer por enjoo, por excesso, quando os espetadores já são dependentes, e não necessariamente poucos, mas doentes, e, como tal, quando a sua conclusão pode ser justificada como um ato de saúde pública. Nessa situação, até o realizador está de acordo, pois, o píncaro do sucesso de um ilusionista é desmontar o truque, mostrando a sua grandeza. A grandeza da criação e a grandeza da renúncia, juntas numa só. Quando finalmente ouviu da boca do Dr. Magalhães Osório, diretor de programas da estação de televisão, pois é, meu caro, as coisas nem sempre são como nós gostaríamos, Romeu apenas conseguiu balbuciar, mas, e as audiências? As audiências, ai as audiências, repetiu abanando a cabeça o Dr. Osório, com alguma incredulidade. Olhe, sabe o que eu acho? O Romeu entusiasmou-se. Mas deixe estar, é frequente, especialmente no princípio. Todos gostamos que gostem de nós, e depois as audiências sobem, e lá vamos repetindo o que resultou, aumentando-lhe a amplitude. Sabe, fica o realizador tão viciado como o seu público. Mas qual é o problema? Insistiu Romeu. Não são as audiências que atraem a publicidade, que dá lucro, que viabiliza a estação? Meu caro Romeu, nunca pensei, saiu-me um neoliberal. Bom eu, também o sou, mas você é do tipo ingénuo. Como é que pensa que funciona o mercado? Julga que funciona sozinho? O mercado tem que ser regulado, senão é o caos, e começa a tragar as pessoas. Romeu, mostra-se surpreendido. Ai Romeu, Romeu, um neoliberal ingénuo é pior que um comunista. Sei que foi o que apendeu na escola. Compreendo, uma boa educação faz-se com uma base teórica sólida. Mas tem que ser cimentada na prática. Quer dizer que não foi por causa audiências que cancelaram a próxima temporada? Interrompe Romeu. Olhar só para as audiências é muito redutor, caro Romeu, responde-lhe pedagogicamente o Dr. Osório. Mas eu coloquei tudo o que era necessário, justificou-se Romeu, como um bom aluno numa revisão de provas. Não nego que se esforçou, Romeu, mas exagerou, frisou o Dr. Magalhães Osório, está tudo de acordo com a teoria, feito como deve ser feito, não nego, até lhe dou os parabéns. Mas, vejo-me obrigado a repetir-lhe a pergunta, como pensa que funciona o mercado? E perante a expressão espantada de Romeu, explica-lhe. São as forças vivas da sociedade civil que fazem do mercado o mercado.

domingo, 2 de abril de 2017

in extremis –

Uns grunhidos? In extremis? Não é coisa bonita. Estávamos à espera de mais. Uma carta dedicada a uma causa não pode deixar que as suas últimas palavras sejam uns grunhidos. Se a Igreja se regozija com a conversão in extremis dos não crentes, uns grunhidos não poderão com certeza ser interpretados como uma conversão, um arrependimento no momento da partida, mas dão margem ao pequeno comentário. Pobre diabo, tanta conversa e lá foi como todos os outros. Se calhar pediu para ser recebido do lado de lá. Lá está. Se calhar. Venho por isso em defesa da carta republicana. Não, não houve arrepiar de princípios. Achais porventura que uma carta fadada para ser engolida pela boca negra de um diabo vermelho teme a morte, ou parte na esperança de um além. Ah, dizeis vós, pois é, mas entram com a certeza de serem entregues ao Destinatário. Tendes aí um ponto, concedo, mas isso é porque usais as imagens deste mundo para inventar um outro. Dir-vos-ei mais. Apenas podeis empregar esse argumento porque é o progresso que garante a entrega da mensagem. É a vitória da civilização, da máquina racional, que com os seus bem oleados mecanismos assegura que chegam ao destino. Nessa idade média, de que éreis senhores, poucas missivas escapavam à intempérie, à desventura, ao acaso. E o que dizíeis então? Vede como as mensagens do homem para o homem são nada. E tínheis então um ponto. O que perfaz dois pontos. Mas não vos parece que foram somados com alguma batota? Dais agora uma volta sobre as vossas razões, revoltados, e atirais que um homem sem alma é como um animal. Por isso grunhiu. Não, não foi falta de alma, foi falta de ar. Pois foi, vireis vós de volta, mas se tivesse alma, teria a vontade que não cala, não precisaria de ar para falar. Mas que falar é esse sem ar? Um milagre? Bom, contra milagres já nada posso. Desdenhais dos milagres, dizeis a rir, esperai o momento da morte e depois falamos. Acho que voltámos ao princípio. Um elo, como o que enlaça a carta republicana no seu leito. Coitada, perdeu a cor rósea, está lívida, presa na mão do Sr. Capitão Simões, que jaz no chão. Tombado da cadeira, tem em volta do pescoço o garrote com que foi estrangulado. A polícia diz que deve ter sido alguém em que ele tivesse confiança, para se ter colocado por detrás do capitão antes de este dar o alarme. Não costumava estar no gabinete aquela hora. Era um homem de hábitos. Alguma situação excecional o deve ter levado a romper a rotina. Foi um encontro combinado, com certeza. Uma amante? Para o garrote é necessário um pulso forte, determinado a não parar. Um golpe certeiro. O corpo foi deixado no local onde ficou, paralisado com a falta de ar. Não há sinais luta ou de ter sido arrastado. Também não se deu pela falta de nada, gavetas e armários não têm aspeto de terem sido mexidos. Qual seria o motivo do encontro? Um assunto pessoal? O que ocorreu in extremis? Terá percebido a razão do seu triste destino? O que terá dito? Com a carta do Dr. José Galvão na mão, esse ateu confesso.