domingo, 24 de março de 2019

Mouco segundo Armindo, por umbertsetentaoito

Eu que já tive vários homens nos braços, que já os enlacei com os meus seios, que já lhes fiz perguntas sobre pais e irmãos que nunca conheci, que nunca quis conhecer, sempre saí da cama julgando-me mais rica, embora um pouco envergonhada dos estratagemas a que o meu cérebro recorre para saber o que existe para além do seu corpo, mas assim que coloco os dois pés no chão, e passa a breve tontura do levantar repentino, logo ele, lá em cima, se apropria com vaidade e desfaçatez, se julga dono, e se veste com eles, como se os momentos deitados não bastassem para preencher a ausência. Duvidei, contudo, que assim pudesse ser entre dois homens, em que se carece do lampejo dos seios, pelo que de tal o meu corpo silenciosamente se convenceu em contraponto à arrogância do cérebro. Mas no momento em que, na galeria iconográfica Pinote, dei com Mouco segundo Armindo, por umbertsetentaoito, colocado entre os dois Hilários, ocorreu-me, com o desencanto natural de quem perde um pouco do ser, que talvez estivesse enganada. E ao ícone cerebral, produzido com a ajuda do software da Mindicon, parecia mesmo faltar qualquer possibilidade de interpretação artística, assemelhando-se mais uma notícia de telejornal, do início do século, sobre violência doméstica, uma intermediação de mazelas físicas e comentários dos vizinhos. Bastante fragmentário, feito de recortes irregulares de vídeo sobre telas e-ink old, todas elas amarelecidas, como o papel gasto, num tom que só o papel de jornal parece possuir, uma vez que é a única obra escrita que não nasceu convencida da sua imortalidade, em que o jornalista escreve a notícia de hoje já a pensar na de amanhã, que com intenção mais perene se soma e subtrai num livro de deves e haveres. Sim, é essa vicissitude que nos convence da veracidade da obra. Num dos recortes, onde ao cimo ainda figura a letras maiores a palavra Gazeta, surge a foto do Mouco, de perfil, desfazendo-se de tal forma que se duvida se o pedaço de orelha foi comido pelos porcos se pelo tempo. A notícia fala dos maus tratos cometidos sobre a mulher e o filho, como se estivesse convencida da simultaneidade dos acontecimentos, como se tivesse sido notícia. Já num outro recorte, sobre o mesmo fundo amarelecido, o Mouco golpeia, a preto e branco, ao ralenti de uma película antiga, e ao som da máquina de projetar, como num filme mudo, golpeia repetidamente um Pinote imóvel, onde o sangue que lhe sai do rosto vai progressivamente cobrindo a película de cinzento, borrando ambos, até que tudo fica negro de luz. Recomeça então de novo o recorte, como um qualquer vídeo com milhões de visualizações, os mesmo perfis apagados, mas ainda incólumes, recomeçando o corpo de Pinote a fragmentar-se até cobrir de novo a película de negro. Abaixo, uma caixa de comentários, ainda mais breves que a notícia, embora imensamente mais intensos, com a força das convicções. Diz-se que foi com malícia que umbertsetentaoito colocou o seu ícone entre os Hilários, como se quisesse que estes lhe vestissem a pele.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Perante a esfinge

Aquelas palavras com laivos de intimidade que poderiam queimar, quando gorgolejadas do rosto imóvel do Afonso, abrem um oceano, pelo que em vez de me correram escaldantes pelas veias, sinto-as como se me lambessem os pés. Deixo-me estar perante a esfinge, não pensando no que contra argumentar, ocorrendo-me em vez disso o encontro de dois rios que seguem na mesma direção, ombro a ombro, sem se misturar, e que esta discussão com o Afonso ocorre nas superfícies que se tocam, sendo por isso feita de empurrões que, por maior que seja a sua força, poucos centímetros arrancam ao leito do outro. Quando regresso, não sei se passou muito ou pouco tempo, encontro o Afonso como o deixei, e dou comigo a sorrir-lhe sem intenção, perguntando-lhe, qual é o fim que pretendes alcançar? E não interpretes mal a minha questão, acrescento, sorrindo abertamente perante a esfinge e sentindo pela primeira vez com ele uma satisfação que não depende do que digo ou penso ser certo. Aceito o paradoxo da tua entrega individual pelo bem do individualismo do todo. Aceito que seja um duplo paradoxo, pois incorporas nos teus argumentos as ideias da luta de classes mais tradicional, em que o individual se deve naturalmente sacrificar ao bem do grupo, e, no entanto, o que defendes é o individualismo, e queres, paradoxalmente, sacrificar um indivíduo a bem do individualismo. Aceito que te tenhas incumbido dessa missão. Mas a pergunta é sobre onde pretendes chegar? Como definirias a vitória do negacionismo, Afonso? É a derrota do puritanismo ou o fim da tecnologia de transferências cerebrais. Como será esse mundo inclassificável em que cada um pode ser o que quiser? É sem dúvida a morte do puritanismo, da classificação como uma manifestação do poder. Por ventura de um poder social, como muito bem tens feito notar, e que está de acordo com a aplicação da teoria marxista aos movimentos de género e identitários. Dizes, pois, que estamos a alargar o espaço de nomes. Embora eu não esteja totalmente certa disso, Afonso, sorrio-lhe sem desassossego. Já reparaste como o homossexual fala do seu marido ou da sua esposa. Não criou um novo nome, exige sim ser abrigado perante um outro. Nessa perspectiva, o resultado da luta entre o negacionismo e o puritanismo ocorreria no dicionário, não por novas entradas, mas pelo alargar das definições, uma luta de classes, como já falámos. E qual poderá ser a relação com o advir das transferências cerebrais? Tornar-se-ão elas inócuas num contexto em que os dicionários se transformaram em esponjas que absorvem a diversidade, como se tivéssemos retornado ao tempo dos enciclopedistas, e a obra nunca estivesse terminada? Deixará assim a transferência cerebral de ser uma ferramenta repressiva, como muito temem hoje em dia, quer pela sua infinita possibilidade de perscrutação, quer pela sua capacidade de interferir, por poder introduzir alternativas alienígenas no corpo, para se tornar, em vez disso, num mecanismo libertador que permitirá viajar corporalmente pelo dicionário? Perguntei eu perante a esfinge.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Quarto

Sei quando podes vir. A senhoria é muito chata. Cheia de regras e proibições. O duche, dez minutos. Nada de visitas. Mas eu sei quando podes vir. Todas as semanas, à quarta-feira, vai visitar uma tia, que ainda deve ser mais velha do que ela. Fica lá a tarde toda, e então tu podes vir. Temos a tarde toda para nós. E a velha na conversa com a outra velha. E nós os dois. Devem passar a tarde a beber chá. Devem falar de quando eram novas. Ou então de outras velhas como elas. Ah, a cama é de solteira, mas vais ver que nos ajeitamos. O colchão faz um pouco de barulho, mas àquela hora não deve estar mais ninguém, e se for preciso eu falo à Clara. Não há problemas com a Clara. A Clara é fixe. Costumo falar muito com a Clara. Fartamo-nos de rir com as coisas da senhoria. No outro dia, a Clara estava indisposta, com o período, e ela disse-lhe logo que lhe fazia um chazinho. Eh, eh, resolve tudo com um chazinho. Aquilo da cama fazer barulho deve ser de propósito. Coisas de velha, pelo menos é o que a Clara acha. A dela também range. É como um alarme que colocou e que agora a deixa em alvoroço. Colocam portas para terem medo de ser roubados, diz a Clara, que é anarquista. É muito engraçada a Clara. No outro dia a Clara começou a fazer barulho de propósito com o colchão e ela bateu à porta do quarto dela e com uma voz muito fraca, quase que sussurrava, quem está aí, quem está aí, diz a Clara que quando lhe abriu a porta estava branca como cal, parecia que lhe dava um chilique. O que rimos as duas. Mas a velha é desconfiada. No dia seguinte, quando estávamos a tomar o pequeno-almoço, perguntou à Clara, a menina Clara colocou-se de propósito aos saltos em cima do colchão? Havias de ver como disse aquilo e como olhava para ela, a ver se se descosia. Em nova devia ser fresca. Mas a Clara só disse que teve uma quebra de tensão e se deixou cair em cima da cama. E agora há uma nova proibição, é proibido andar em pé em cima da cama. A Clara disse que esta história é uma ode ao anarquismo, até já está a pensar escrever um artigo lá para o jornal deles. Bom, e depois não prestes muita atenção ao quarto. Não tem muita luz. Mas na opinião da senhoria é um dos melhores que se pode encontrar na Almirante Reis. Para estudar não é grande coisa, muitas vezes tenho que ir para a sala, ou ficar na biblioteca da escola. Mas para se estar eu até gosto. Depois vês. Tem uma luz difusa, que chega através da marquise, com umas cores prateadas, cheias das sombras dos vidros martelados. Fico em cima da cama a vê-las andar pelas paredes e a pensar em ti. E depois lá vem ela bater à porta a dizer, menina Ivone, menina Ivone, não fique para aí fechada no quarto, venha para a sala. No melhor quarto da Almirante Reis. Coitada, gosta de companhia, se não fôssemos nós passava o dia sozinha, que a gata já faz pouca companhia, tem quinze anos e passa o tempo enroscada. Mas que interessa isso. Que bom. Na quarta-feira podes vir. Não vai haver problema, podemos passar a tarde toda no meu quarto, e eu falo com a Clara e vai ser como se o apartamento fosse nosso.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Nona Lição – O sentido da vida

Agora que já sabeis um pouco do que acontece ao longo do tubo digestivo, é o momento de refletir se tudo isto faz sentido. Dividem-se as teorias por duas ideias básicas, umas dizem que se come para viver e outras que se vive para comer. As primeiras embelezam o mundo de forma tão gigantesca e elaborada, que sobre o processo de comer, pouco se passa da entrada. É um mundo feito de chefes, que com os seus barretes e salamaleques transformaram o comer num festim de coquetes. Já os outros com a mania, de serem mais assertivos do que urbanos, dizem que a vida é o conjunto de manifestações em volta do tubo que liga a boca ao ânus. E vocês que gostais de ficar bem, e que ambicionais um dia vir a receber, de certeza que vos ficais pelos primeiros, que preferem nem tudo ver. Para isso existe a privacidade, não porque seja uma verdadeira necessidade, mas para permitir ao comum dos mortais vestir vestes vestais. Criam-se assim dois campos, que com ardor se digladiam, elevam-se uns nos mais refinados sabores enquanto acerca dos outros coscuvilham. Descrevem-lhes as entranhas com esmero, realçando-lhes os odores agrestes, enquanto se cobrem dos mais finos tecidos e se limpam com toalhetes. Já os outros, coitados, que se agarram aos factos como a lapa à rocha, dizem que somos todos iguais aos nossos pais fundacionais. Encontrareis entre estes, sacerdotes sacramentais, que depois de muito refletir, chegaram à conclusão da existência de uma espécie de união que justifica o existir. Alguns até se vestem de castanho, com uma corda à cintura, andam descalços e pretendem espalhar pelo mundo ternura. De porcos a tontos, dizem os primeiros, as coisas mais elevadas não podem brotar da observação dos pardieiros. Falar assim, dizem os segundos, não tem nada de perspicaz, mas revela a disposição para se distinguirem desdenhando conforme lhes apraz. E esta descrição, se fica bem em rima, e vos penetra que nem um trovão, pois é feita de opostos, ignora um aspeto, que não posso deixar sem tinta. Não consegue o nu o sustento, nem o vestido sobrevive sem ingerir o provimento. Reveste-se assim o mundo, de um maior cuidado, pois se assim não fosse nem seria necessário escrever este relato. É por isso que antes de pensardes tomar partido, quer pelos descalços, quer pelos em calçados, deveis estudar a digestão, e o que fazer desse conhecimento, é essa a lição desta lição. Podeis, sabendo do que são feitos os humanos, revestindo este tubo, manipular as vontades, alimentando-os de tudo. Aos vestidos proporcionai lugares, se possível os mais elevados, e aos descalços valores, que lhes encham os pratos. Vereis então, que qualquer que seja a opinião, e por muito forte que ela lhes esteja alicerçada, todos eles se orientam pela digestão, e de acordo com os vossos desejos se fazem à estrada. Ou então, como poucos, podeis do conhecimento não tirar proveito, a não ser a satisfação de vos recostares na cadeira depois de uma boa refeição. Fechei os olhos e desfrutai, com tamanho mistério, que do molusco mais sensível ao bicho mais infernal, todos se regalam de forma igual.

domingo, 20 de maio de 2018

Angola é nossa – Romeu

A tia-avó Roberta era como um almanaque, sabia tudo de pouca coisa. Do Salazar ao Ultramar era com ela. Fizeram as circunstâncias que fosse duplamente vítima do tempo, daquele que fazia avançar a sociedade e do que lhe retrocedia o corpo, como dois comboios que se cruzam em sentidos opostos. Não foi sem algum saudosismo que o resto da família a viu de janela a janela, lá vai a tia-avó Roberta, disseram com a brevidade imposta pela soma das velocidades. Foi por isso confinada a um quarto onde as visitas eram filtradas pelos parâmetros da cautela e da pedagogia. Para a primeira, as recentes ambições políticas dos mais jovens membros da família desaconselhavam a partilha de impressões menos caras aos valores democráticos, que na política, da esquerda à direita, não se vinga sem camaradagem. Para a segunda, era um instrumento de íntima formação, numa altura em que era necessário combater o perigo da desagregação, trazido pela correria dos tempos, com a estabilidade das origens. Tornou-se assim o seu quarto local de peregrinação com um pendor mais de romaria que de santuário, dada a forma mordaz com que lançava as suas invetivas. E é verdade que era useira de alegorias campestres. Quando dizia, essa vaca sagrada vai um dia deixar de dar leite e depois vão implorar pelo regresso do senhor doutor, era certo e sabido que se referia à democracia e a Salazar. E, se por não ser plausível que no universo da tia-avó uma entidade sagrada pudesse dar leite, gerava-se nas suas testemunhas algum mal-estar, receando tudo o que pudesse questionar a credibilidade e autoridade moral da tia Roberta, mas rapidamente acabavam por interpretar a aparente contradição como sendo um recorte da mais fina ironia. Era nesse afã de doutrinação que Romeu era convidado, conjuntamente com os primos, a entrar e fazer um pouco de companhia à tia, coitada, sempre fechada naquele quarto, mas com a nota de que o que ali se dizia não era para ser repetido, por ventura sussurrado entre dentes pelos romeiros daquele lugar. Para o jovem Romeu o quarto da tia-avó tornou-se no santuário de transgressão da sua infância, de tal forma que, o que outros alcançavam no recreio, no convívio com os colegas, através do b a bá iniciático de palavras porcas, era para ele ouvindo a tia-avó que atingia o pós-torpor de quem cospe cá para fora vilipêndios agitando todos os membros simultaneamente como se debaixo de uma descarga elétrica. Tia, pedia-lhe Romeu, fale-me do Ultramar, éramos grandes, meu filho, até que o cigano do Mário Soares entregou tudo aos pretos, e aquela gente só sabe é fornicar. Convenhamos que nesta altura já Romeu tinha que se surripiar para o quarto, pois o piorar do estado de saúde da tia levantava objeções ao seu convívio com os mais jovens. Mas Romeu não se perturbava com os espasmos, mesmo quando na última vez que a viu, arrancando a camisa de dormir com ambas as mãos, expondo as carnes flácidas trilhadas por veios roxos escuros, os seios alongados junto à barriga e tombando da cadeira com os dentes cadavéricos de encontro ao chão, Angola é nossa.

sábado, 28 de outubro de 2017

plosAires – Zalo

Lá vai o Zalo plosaires! Lá vai o Zalo plosaires! Grita um grupo de rapazes, distintamente chefiados pelo Armindo, um grandalhão de calções de alças, desproporcionados para o corpo que cobrem, filho do Mouco, exemplarmente educado pelo pai numa dura disciplina de porrada sem eira nem beira, isenta de qualquer sentido lógico, ainda que o pai anuncie cada nova sessão com irrefutáveis argumentos, e mesmo que o miúdo insista em ensaiar umas voltas em torno da mesa, puxando mais pelo progenitor do que abrindo a porta a uma qualquer escapadela, enquanto a mãe observa com algum alívio por para já não ser chegada a sua hora, e de quem o professor desistiu de educar, desde que quase teve uma síncope depois de lhe arrear com a régua no traseiro, pois não arrancava da tabuada do dois, enquanto o matulão mostrava um risinho escarninho para o resto da classe, ainda insistiu o educador, ah, estás a rir, disse, aumentando a intensidade e frequência da tábua de madeira, até que finalmente percebeu quanto os seus métodos pedagógicos estavam aquém dos do progenitor, resolvendo passar a tratá-lo com a um adulto, então quando vais trabalhar, disse-lhe, já numa linguagem de gente crescida, e contudo o Armindo gostava da escola, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair, no recreio um rei, pondo em prática o que aprendia em casa, que na sala de aula divagava, o que irá naquela cabeça, pensava o professor, sonharia quando pairava os olhos pela janela, mas isso era o professor, dado a poesias, desterrado para aqueles lados por imposição do destino, que até a lei da régua surgiu por adaptação à realidade, realpolitik, chamou-se lhe mais tarde, que esta gente já chegava à escola formada, com frequência sazonal, modelada pelas colheitas e pelo tempo, com a chuva eram mais assíduos, não o Armindo, que vinha sempre, o pai não era muito dado a obrigações, nem um pedaço tinha para si, que os outros sempre se iam dedicando a um cantinho, próprio ou emprestado, muitas vezes nem emprestado, consentido, mas a escola era tudo para ele, sempre que chumbava ficava mais próximo do professor, inconscientemente percebendo a teoria dos dois poderes, o da força do conhecimento e a do conhecimento da força, por isso facilmente formou uma pandilha, mesmo que nas regras de admissão fizesse parte levar uma coça do líder, mas era uma única vez, à entrada, era da praxe, Roma e Pavia não se fizeram num dia, e depois já se podia começar a meter a colher na sopa, desgraçados são os que não vão em grupos, como o Zalo, filho de pastor, que nem à escola ia, ceifeiro é homem, pastor é pastor, não se dá com gente, não vai à taberna, não opina, não comenta, pasta, cheira a bicho, não cheira a suor, e é opinião formada a superioridade do vinho sobre o leite, o próprio senhor doutor disse, o vinho dá de comer, portanto, coitado do Zalo, despojado de ambos os poderes, quando na mirada desta pandilha, continua caminho como se não fosse nada, mas desta vez, talvez por ser início do dia, talvez por uma sinergia de grupo ainda por perceber, vinham mesmo por ele, não fosse a Joaninha lhes ter gritado, deixai o Zalo em paz!

domingo, 9 de julho de 2017

Selva – Madalena

Certas mulheres são como a selva, são dos aventureiros. Dos aventureiros? Questionais-me vós. Não será que queria dizer dos aventurados, sugeris. Mas qual é a diferença? Pergunto-vos. Quem pode estar mais convencido de possuir o dom da ventura que o aventureiro, para se lançar ao desconhecido, desbravando luxuriante vegetação, à catanada, se necessário, na demanda de safiras, esmeraldas, rubis, diamantes. Todas pedras em bruto, à espera de serem delapidadas, libertarem-se da aspereza da natureza para rodopiar em refrações sobre a palma da mão, despertando a cobiça refinada, e serem possuídas pelos bem-aventurados. Ah, pelos aventurados, não pelos aventureiros, exclamais vitoriosos. A teimosia não vos trará boa fortuna e, nesta matéria, por aqui me fico. Repito, certas mulheres são como a selva, são dos aventureiros. E vede, as vossas interrupções fazem-nos chegar atrasados. Madalena e Romeu já não estão sentados lado a lado no sofá longo. Madalena atentamente ouvindo Romeu, desejando que no desfolhar da conversa vão surgindo as referências, à pele dos ombros, ao canto dos lábios, à curvatura das nádegas. Não, já não falam pausadamente. Melhor, Romeu já não fala. Madalena agita-se em pé, impondo-se intransponível para um Romeu que a olha apreensivo, sentado. Estou farta de te ouvir falar do Tavares. Nos últimos tempos quando vens ter comigo só falas do Tavares. E eu? Pergunta, apontando simultaneamente com ambos os cotovelos para as ancas bem rodadas, ao fundo de um ventre que insiste em se esconder, como o parente pobre, e envergonhado, do corpo de Madalena. Sabes que não é bem assim, Romeu procura tranquilizá-la. Não? Mas falaste de alguma outra coisa desde que aqui chegaste? Que o Tavares te fez a folha. Que devias ter suspeitado. Que bem te avisaram. Que as sugestões dele apenas te prejudicaram. E eu, aqui sozinha, à tua espera, com vontade que viesses, e agora essa conversa. De certeza que não é disso que falas com a Catarina. A última palavra é puxada por um soluço que desata em choro. Rapidamente as lágrimas lhe percorrem as faces, precipitando-se do queixo para a camisola onde deixam marcas que colam a blusa de alças ao corpo. Romeu sente-se incomodado pela erupção daquele ambiente húmido que tenta se intrometer nos seus pensamentos, se soubesse não tinha vindo. És um egoísta, diz Madalena, numa forte bátega de lágrimas que agora alcançam mais longe por se lançarem dos lábios retorcidos. Se soubesses os homens que estariam aqui se eu quisesse, atira já em desespero de causa, dado o silêncio de Romeu. Alguns nem sequer és capaz de imaginar, e tu preocupado com o Tavares, diz num riso escarninho que enche Romeu com os calafrios do desconhecido. Não devia ter vindo. O apartamento tornou-se inóspito, tem que sair rapidamente dali. Levanta-se e diz, tu hoje estás impossível, assim não se pode conversar contigo. Num instante está do lado de lá da porta, descendo pelas escadas, vai pensando, a culpa disto tudo é de terem cancelado a novela, e esse Tavares vai ver como elas doem.

domingo, 9 de outubro de 2016

Mata-moscas – Joaninha

Sou da cepa antiga, feita de homens que corajosamente enfrentam os seus inimigos, olhos nos olhos, sem subterfúgios. Enojam-me os ataques cobardes, feitos de gases assassinos que matam com lufada perfumada. Dir-me-eis, mas, o que são as disputas palacianas senão a rigorosa dosagem veneno com a palavra gentil? Sim, é verdade. Por isso mesmo o Sr. Marquês há muito tempo se remeteu ao isolamento do seu palacete no Alentejo. Não procurou a reclusão do povo, mas a da sociedade, a que o Sr. Marquês naturalmente pertence por nascimento. A quem estas veleidades custaram foi à Sra. Marquesa. Mas, há muitas gerações que nesta família os homens se atiram a cavalo a cometer imprudências, ficando as mulheres à guarda das ameias. São, como vedes, da linhagem mais antiga, sem as perturbações do romantismo. Sinto-o quando o Sr. Marquês abre portadas e janelas do grande salão deixando entrar a luz, e as moscas. Todo eu me encho de excitação. Embora saiba que é pura imaginação minha, mas não posso de deixar de ouvir os trompetes festivos, o latejar dos cães e a azafama dos homens imbuídos nos detalhes que distinguem os pequenos dos grandes caçadores. E o Sr. Marquês é dos grandes. Como me empunha! A exatidão do ângulo entre a palmatória e a janela ou parede, feito de dois outros ângulos, o maior no cotovelo e o menor no punho, que constantemente se recalculam durante a aproximação ao alvo, equilibrando-se no momento crucial, quando num movimento lento da mão, para trás primeiro, e rápido depois para a frente, sinto o sacudir que antecede a vertigem da descida. Mas não nos precipitemos. Estávamos nos preparativos. Nas moscas que com impunidade entram com o sol. Não sabem no que se metem. Coitadas, está na sua natureza, e o Sr. Marquês sabe criar as condições para se revelarem, para mostrarem quem realmente são. Quem resiste ao chamamento de um palácio cheio de sol? Resistiriam, talvez, se fossem de outra estripe, mas moscas são moscas e essa foi há muito a decisão do Senhor. Andam a cirandar. Voos de alegria entre os pesados reposteiros, onde poisam cheias de volúpia, enterrando as patitas nos cerrados pelos do veludo. E o Sr. Marquês observa-as com meio sorriso, impassível. Meio sorriso, pois desde a trombose que ficou ligeiramente paralisado do lado esquerdo. Por isso, quando agora caminha, vai balanceando a velha altivez da direita com um leve arrastar do pé esquerdo. Determinado, fecha janelas e portadas trazendo o escuro de volta ao salão e levantando o pano ao início da caçada. Vou agarrado na mão direita quando o Sr. Marquês parte para a sua missão. Poisa o bastão com suavidade no chão, ainda que a mão esquerda trema. Arrasta sorrateiramente o pé esquerdo. Do lado direito tudo perfeito. Fita uma mosca que trazia debaixo de mira há algum tempo. Quando a tem em frente, numa figura acrobática, equilibra-se no pé direito para ganhar precisão afastando os tremores da esquerda, e, zás. A mosca fica presa na minha rede e o Sr. Marquês vê os olhos da Joaninha, que o fitam. Murmura com tristeza, morre bolchevique.

sábado, 17 de setembro de 2016

Do David Hume ao Senhor Palomar

Encontra David Hume o Senhor Palomar. Dada a sua avançada idade, David Hume, quando fala, é já uma memória de si próprio. Por isso repete-se, eventualmente alterando apenas o nome do seu interlocutor. Meu caro Senhor Palomar, diz, sabe que todo o nosso conhecimento é baseado nas nossas experiências. O Senhor Palomar fica-se absorto observando David Hume. Tem um rosto velho de empirismo, onde as experiências se vão acumulando em camadas, umas sobre as outras, comprimindo-se sem verdadeiramente se misturarem. Poderá haver uma síntese da experiência? Questiona-se Palomar. Será possível captá-la num relance só ao rosto de David Hume, ou é necessário ir com o bisturi e a precisão do cirurgião cautelosamente separar camada a camada e de seguida analisar cada uma com a obsessão do cientista, numa cirurgia estética com fins metafísicos. Sendo um empirista militante, o Senhor Palomar prefere debruçar-se sobre a segunda possibilidade, já que as sínteses são as armadilhas do pensamento, e por isso foge de abstrações e generalizações como o diabo da cruz. Contudo, como o Senhor Palomar é também avesso à intervenção, pois nela suspeita a geração de mais camadas, prefere proceder à observação dos sulcos das rugas que oportunamente trazem ao de cima as passadas experiências. Quando lhe ocorre esta estratégia logo uma outra questão se levanta. O que provocas as rugas? Porque é que as experiências mais antigas não se conformam? Sentir-se-ão subjugadas pelas novas experiências? Será o rosto velho o campo de batalha das experiências? O Senhor Palomar decide descartar esta hipótese pois habitou-se a encontrar paz numa cara cheia de rugas e esta sua experiência parece-lhe mais verdadeira que qualquer uma das suas anteriores conjeturas. Mas, logo uma outra dúvida assalta o Senhor Palomar. Sim, talvez seja a paz dos campos de batalha, de depois do estrondo das explosões e dos gritos da estupidez. Se assim for, o rosto de David Hume terá afinal uma síntese feita de uma harmonia de corpos sem identidade que se lamentam lado a lado. Aqui, o Senhor Palomar tem a noção que está a ser vítima de uma experiência que não é sua, uma experiência lida nas descrições que o Senhor Tolstói faz dos campos de batalha Napoleónicos. Guerras que aconteceram após o desaparecimento factual de David Hume. Um calafrio percorre então o Senhor Palomar. E se o rosto cheio de rugas de David Hume foi um anúncio profético das convulsões que viriam, das guerras a que se entregariam as experiências futuras, e que ao estar o Senhor Tolstói a descrevê-las, estava a descrever duas coisas numa só, o rosto de David Hume e o ocaso do campo de batalha, a misturar camadas. Tendo o Senhor Palomar ficado satisfeito por ter chegado a um paradoxo, é trazido de volta pelo que tem à frente. Meu caro Senhor Palomar, diz-lhe David Hume, porque não me responde? O Senhor Palomar apercebe-se que passaram umas dezenas de anos desde que David Hume o interpelou, que se encontra agora em 1983 e está a ser terminado por Italo Calvino.

17/9/2016

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Gravidade – Gonçalo

O Gonçalo atirou-se por uma janela. Sem dúvida um ato de alguma gravidade. A gravidade óbvia associada ao estado do corpo após se estatelar lá em baixo, no pavimento, depois de uma queda de vários andares, mas também a gravidade que pode resultar de um ato quiçá irrefletido e de que Gonçalo não terá com certeza avaliado todas as consequências. Atingirá o corpo de Gonçalo alguém lá em baixo? Isso seria grave. E se alguém, mais impressionável, perder o controlo do automóvel ao ver um corpo em revolução por aí abaixo, e atropele um outro que se quedou no meio da passadeira a observar boquiaberto Gonçalo às reviravoltas. Se calhar esse outro estacou pois ficou com uma sensação de o conhecer de qualquer lado. Sim, pelo menos do que viu no ar, pois uma vez no chão Gonçalo ficou menos reconhecível, para além de uma amálgama espectral de órgãos e sangue. Terá porventura de se recorrer à ciência para das partes se reconstruir o todo e alguém poder ser contactado para vir buscar os restos, para dar-lhes outro repouso que não seja a calçada portuguesa. E qual será a gravidade do atropelamento deste transeunte, vítima da sua obsessão em analisar catástrofes? E de todos aqueles que depois de identificado o trambolho voador irão criar nos seus cérebros associações para dar um sentido aquela insanidade? Terá ela um caráter mobilizador que faça com que outros se venham a atirar de outros edifícios, pois o fogo puxa pelo fogo? Isso seria muito grave, não seria? Não! Digo-vos eu que sou a gravidade. O que são setenta e poucos quilos desequilibrados por cinco gramas de peso que levam um corpo a precipitar-se de uma janela? Mesmo que como consequência disso magotes de outros corpos se atirem contra a terra mãe, sonhando, ou não, com virgens no além? Nada, repito! Eu estou habituada a mais, muito mais. Forças proporcionais ao produto das massas, que podem ser gigantescas, por isso não me deixo impressionar pelas pequenas quedas. Dir-me-ão que não são massas quaisquer, são massas com consciência, mas se procurarem bem na minha equação não encontrarão lá a consciência. Suponho que alguns, mais pitagóricos, dirão que ela está encerrada na constante de gravitação, porque é universal e permite estabelecer uma igualdade. Mas, não me venham falar de igualdades quando um desmiolado se atira inconscientemente, sim inconscientemente, de uma janela, sem outro fim que não seja o chão. Insistirão esses metafísicos que são os atos de inconsciência, apanágio dos profetas e dos santos, que despertam as consciências. Poderá ser que Gonçalo durante a sua queda tenha sido alvo de alguma iluminação, tenha até descoberto uma fórmula revolucionária que explique o sacrifício dos corpos, em que surja como variável a dimensão do vazio no peito e vários fatores de decaimento dos órgãos, e que, maravilha da ciência, esta nova equação se unifique com a da gravidade, explicando a queda. Tretas! A força é diretamente proporcional ao produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância. Pum.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Pequeno político – Humberto

Nesta matéria quem tem uma opinião formada sou eu. É fácil ter opinião, mas nem todas as opiniões são adequadas. Uma opinião deve marcar presença, para ser notada, senão de que serviria ter opinião, e ao mesmo tempo não incomodar, e muito menos ofender, para além do estritamente necessário. Não é uma arte fácil, mas aprende-se, o Humberto que o diga. Cedo sentiu a convocação, ainda no secundário, para a associação de estudantes. Porém no início era mais a vontade que a perícia. Humberto abria a boca e lá saía a minha voz desconectada como se de um ato de ventriloquismo se tratasse. Recordo que o Romeu ainda observou com graça, Humberto, pareces um político a falar. Pobre Humberto, não estava à espera, perdeu o controlo e calou-me, começando ele a falar. Disse, pois... pois..., e pior, repetiu o Romeu dizendo, um político. Felizmente lá voltei eu a retomar o controlo e juntei-lhe mais esta matéria, e aquela, e aqueloutra, coisas de orçamentos, gestões, e acima de tudo as regras que nas suas nuances pregam partidas. Mas serviu-lhe de lição. A partir daí percebeu que nada poderia ser inesperado. Pega-se na coisa, seja ela uma pergunta ou um mero comentário, e começa-se a fiar, criando um novelo que vai embrulhando o que não interessa, deixando de fora a mensagem, saliente e luzidia. Essa é a regra principal que a todos recomendo, se não há uma mensagem mais vale estar calado. Nas reuniões identificamos facilmente os que falam porque gostam de se ouvir, ou pior, porque acreditam piamente no que dizem, daqueles que pragmaticamente dizem o que é necessário para atingir os seus objetivos. Por isso a mensagem não deve conter a verdade, como julgam os crédulos, mas sim o que é útil. Nisso, mesmo enquanto aprendiz e inábil, Humberto nunca esteve com os primeiros, sabia claramente que o jogo bonito e vistoso pode encher o olho, mas não traz vitórias tranquilas, daquelas que perduram. Esta é a segunda verdade que podeis aprender do pequeno político que está dentro do Humberto, a vitória a que deveis almejar é a de secretaria. Às vitórias de que não se percebe a origem não é fácil achar o fim. Não foi sempre um aprendiz o Humberto. No início ainda falava a duas vozes, daí a observação de Romeu, e eu andava um pouco aos trambolhões lá dentro, pronto para responder à chamada sempre que Humberto queria dar um a opinião, marcar uma diferença, enfim, marcar a posição. Com o tempo deixámos de ser dois e já não se percebia quando falava um ou o outro. Digamos que é isso o crescimento, moldarmo-nos por dentro com fantasias que com o tempo se tornam reais. Existe, contudo, nesse período de folga entre a fantasia e o corpo, uma visível falta de coerência que pode trazer desconforto. No caso de Humberto, o fim do namoro com Catarina não é alheio ao reparo de Romeu. Catarina tinha apenas 15 anos e não ficou indiferente. Humberto ainda tentou. Quase sentiu, ou simulou, o sofrimento da perda, tão normal nos adolescentes. Falou com ela, justificou-se, mas o fascínio nestas idades é puramente mágico, e aqui entre nós, Humberto sentiu um grande alívio.

sábado, 30 de julho de 2016

Mobocracy

Agora que alguns apontam Donald Trump como os limites da democracia, num piscar de olhos a uma ordem a la Singapura, um artigo interessante, Donald Trump and the Myth of Mobocracy, para trazer alguma luz aos iluminados.

domingo, 15 de maio de 2016

quotidiano

o que há na forma de uma costela de vaca do animal de que fez parte               um naco de carne com um osso para pegar     esparramado sobre o prato branco      acastanhado pelo fogo     com uns laivos do vermelho que já foi sangue               um bicho volumoso     esquartejado por aí     alguns pedaços no espaço oco do paralelepípedo branco do meu frigorífico     outros por outras insuspeitáveis concavidades               deixava com certeza uma marca no chão que pisou     uns cascos arredondados de aerodinâmica ajustada     feitos para pastar por vontade e correr por necessidade                 no prato corta-se em pequenos pedaços com a faca e aperta-se levemente entre os dentes     liberta um suco que nos acorda para a vida     roda-se para o ajeitar ao gume     toma outra forma      a pega mais longe      deixada para o fim      para o caixote debaixo do lava loiças                  há na costela de vaca a alguns euros o quilo a razão da existência do bicho     os anos a rapar calmamente erva     uns olhos esbugalhados     um cenário de prados e árvores que viram outras vacas                  sentada     trazendo à boca os restos arrancados     agora pacientemente triturados     num exercício de dupla satisfação

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Trump Tower

A retitle of the old post Hi in Vegas by the force of circumstances

Hi Vegas
I'm in Vegas
I'm at the Harrahs
I'm at the Circus
I'm not downtown

Hi Mom
I'm in Vegas
I've been shopping
Walking stripdown and up
Having a lot of fun

Hi there
Ain't I gorgeous?
I know, I'm just a girl on a card
But if you wish
I can become for real

Hi 500 dollars babe
I'm just a 100 pounds boy
I've left home today
And I can dream
Hi I Hi I Hi I Hi I

Hi Dad
I'm in Vegas
I've been playing blackjack
I put on that poker face you taught me
But there was no girls on the cards

How can I get to power?
Enter at Bally's
Pass through the slot machines
Turn left where the blackjack tables are
Do a walkthrough charming Paris
Get out at the Arc de Triomphe
Turn right to the Eiffel Tower
And you'll see Cesars Palace
And then Trump Tower
The power back and forth
Back and forth

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Descendo a Avenida





David Hume disse

todo o nosso conhecimento é baseado nas nossas experiências

Mas não foi agora

que descemos a avenida

Creio que o afirmou já há algum tempo

quando ainda não havia a tua experiência

nem a minha

Primeiro teve-a o Hume

e foi o que conjeturou

Depois veio a minha

e finalmente chegou a tua

que vou percebendo diversa

Os três vamos descendo a avenida

embora o Hume cá não esteja

mas está a experiência

A do Hume?

Não, esta




17/9/2015

domingo, 23 de agosto de 2015

Quadragésimo primeiro dia

Tendo-nos apercebido ao quadragésimo dia que o calendário do ano da areia é pura imaginação, o quadragésimo primeiro dia é feito da mais completa liberdade. Tudo é possível, mesmo o que nunca antes foi pensado, dentro do calendário.

Cada novo dia expande o calendário com as suas conjeturas. Cada pensamento, cada opinião, alonga o calendário mas não nos faz sair dele. Um idealismo subordinado à matéria.

sábado, 22 de agosto de 2015

Taurus

A raiva com que arremetia tolhia-lhe a vista e contudo cada investida trazia-lhe um sabor a vitória.

Tudo começou com sussurros. Pequenas vozes insinuaram-se. Cada uma contava apenas uma pequena parte, um pormenor. Coube a Manuel juntá-las, construir o todo, descobrir a verdade. Quando a descobriu soube-a sua, ninguém lhe a tinha contado. Nessa certeza cresceu, fortaleceu o corpo e se preparou para a lide.

Sabia que iria acontecer apenas uma vez. Por isso tinha estudado o combate ao pormenor. Não apenas este combate, todos os combates possíveis. Todas as combinações de investidas e de como aparar os golpes. Mas nesta preparação algo prevalecia, algo visceral, inicial, a origem daquela raiva. Isso não tinha combinações, era como era, estaria lá no momento em que entrasse na arena, seria levada consigo, para não se enganar, para não dar azo a erros, a mal entendidos. Por vezes já dava consigo a sonhar no prazer único do combate.

Quando finalmente chegou a altura, e entrou com aquele misto de raiva e alegria, Manuel já tinha sido lidado.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Turdus merula

Aquele palhaço sempre a gargalhar, uma fonte de desordem, um empata gente séria. Era assim que se referiam a Lúcio.

Na aldeia havia gente séria, gente com dons divinatórios. Anteviam coisas que as pessoas percebiam. Por isso recorriam a eles. As respostas tinham mais solenidade do que as perguntas. As perguntas eram sobre a vida. Quando me vou casar? O meu marido vai deixar a Bezerrinha? Irei herdar o lameiro? As respostas apontavam para mais além, punham condições, obstáculos a ultrapassar, mezinhas para fazer bem feitas. E as pessoas lá regressavam a casa, com os seus temores confirmados, mas com uma adquirida grandeza e um caminho para percorrer.

Quando confrontado com estas grandezas, Lúcio gargalhava. Olhavam para ele, que não fosse palhaço. Mas ele dizia:

— Vão pequeninos e regressam grandes na mesma.

E depois gargalhava de novo. Por isso não o levavam a sério. A segunda gargalhada era idêntica à primeira, como se não tivesse dito nada.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Canis lupus familiaris

Era nos olhos que mais se sentia o António. Grandes, firmes e prestáveis, presidiam a uma cara que apenas existia para eles. Todos diziam, lá está o António com aquele olhar. Quando torcia os cantos da boca, ou enrugava a testa, os olhos permaneciam inalterados como um bric-a-brac de bijuterias adornado por uma jóia.

Em tudo o resto era simples o António. Muito amigo de seus amigos, nas coisas que a eles diziam respeito colocava um empenho pelo qual era admirado e estimado. Eram amigos de longa data, reuniam-se com regularidade disciplinada, duas vezes por ano. Os encontros eram um reviver transmutado em abraços e palmadas nas costas. Esses afetos, ainda que empolados pela lupa do tempo, traziam-lhe uma tranquilidade, a que se encostava com a satisfação afável de quem espera por mais. E as partidas eram como as chegadas.

Foi percorrendo as coisas da vida como deve ser. António teve mulheres e filhos. A primeira deu-lhe dois. Da segunda teve mais um, como confirmação. Cumpriu as sua obrigações, fez o que tinha de fazer e não se intrometeu no que não lhe dizia respeito. Aos filhos, depois de criados, deixou-os partir com naturalidade, sem sinal de resignação.

Era da caça que ele mais gostava. Uma coisa de família. Lembrava-se do avô e do pai regressarem com as perdizes penduradas do cinto e as caçadeiras abertas. É a do pai que ainda usa. É pela sua mira que as vê passar depois de soltar o cão. Dois gatilhos. Pum, e às vezes cai uma, pum, para confirmar. Abre sempre a arma, para ver saltar os cartuxos, antes de tirar o animal da boca do cão, com o cheiro da pólvora, o sangue da perdiz e a baba alegre.

Agora está aqui encostado a esta árvore a ver o tempo passar. Parece-lhe que passa muito lentamente, e cada vez mais lentamente. Enquanto vai fechando os olhos, a planície vai-se prolongando e as árvores sobrepondo-se. E contudo, o espaço entre elas continua a aumentar. Árvores mais esparsas, planície mais longe. Sente na boca um travo a vinho. Abre as mãos para o cão lamber.

In da Memória da Areia dos Bichos

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Corvus

Vicente, de seu nome completo Vicente António Baltazar de Carolina e David Eduardo Feliciano da Glória e Horácio Inácio Joaquim de Lúcio Manuel de Nicolau dos Nicolaus, mais conhecido por Vicente dos Nicolaus, nasceu insubmisso por natureza.

Tão negro de pele como obstinado de carácter, Vicente é daqueles para quem estar aqui é um direito. Bem lhe referem o que deve, mas ele persiste em ignorar. Acusam-no, com alguma razão, dada a miscelânea do seu nome, de que apenas pode ser fruto de uma monstruosa fornicação. Produto de um daqueles bacanais a que os Deuses do Olimpo se entregam por escárnio dos humanos, imitando-os para melhor os vilipendiarem. Durante essas orgias travestem-se com os nomes que os humanos escolhem e misturam-se em grande algazarra engendrando um novo nome. Repousados da festa, inventam um corpo e um humor, tão ridículos como o nome e insignificantes como os humanos. Juntos os três, atiram-nos para o mundo como um a feto abandonado.

Vicente teria sido o nome a que chegaram. Quanto ao corpo e ao humor, perfeitos Deuses são incapazes de conceber o absolutamente imperfeito. Juntando o pouco que tinha, no frio do abandono e na exposição ao sol teria desenvolvido a obstinação e a insubmissão que eram só suas. Mas isso não era tudo, na sua cabeça conviviam um diligente António com um irreverente Lúcio, havia um Joaquim Baltazar que vivia entre um mundo perfeito e a realidade da sua ausência, para já não falar de um David Feliciano, obcecado com poderes tão dissemelhantes, ou da encruzilhada de uma Glória Carolina. Dentro da sua cabeça todos esses Nicolaus coabitam.

Vendo tamanho tumulto numa obra que achavam sua, e enojados com a promiscuidade daí resultante, os Deuses quiseram impor ordem, mas perante a insubmissão de Vicente e o perigo de perderem a sua representação nos humanos, optaram, por impotência, a condená-lo a ser bicho, um e muitos.