No dia 28 de abril de 2026 às 21:30, no Teatro da Rainha, Caldas da Rainha: Manuel Portela apresenta 25 de Abril Sempre de António Rito Silva.
Curtas
domingo, 26 de abril de 2026
domingo, 26 de novembro de 2023
Sociedade Sem Classes
Esta é uma história sobre a sociedade sem classes. Se tudo correr bem deverá acabar assim: Era uma vez uma sociedade sem classes onde o lobo e o cordeiro se alimentarão juntos, e o leão comerá feno, do mesmo modo que os bovinos se alimentam, mas pó será a comida da serpente!
Contudo, não nos apressemos, como em todas as histórias devemos começar pelo princípio se queremos chegar ao fim. E no princípio o lobo, o cordeiro, o leão, os bovinos e a serpente vão num avião, e nem sequer vão sozinhos.
O voo está completamente cheio. Também não admira. Era o voo número 345 para a sociedade sem classes. Por isso logo os bilhetes se esgotaram. Quem não gosta de ir para uma sociedade sem classes?
Bom, o leão foi, mas um pouco a contragosto, convenhamos, depois de muito aduzir. Quem o persuadiu foi a sua esposa, a leoa, que já há algum tempo se tinha convencido que comer muita carne não é de todo saudável. E tanto disso se convenceu que ela própria acabou por não comer nenhuma. O leão, que no início não deu muita importância, pois pensou que seria uma mania passageira, como ela já teria tido outras, arrependeu-se tarde demais. É que a leoa, quando finalmente deixou de comer carne, achou por bem incitar o marido a fazer o mesmo.
Como deveis saber, não há problema nenhum em haver alguém que nos tenta convencer de algo que nós não queremos. Dizemos-lhe que não e pronto, de mais a mais sendo leão. Que o leão se diz o rei de todos os animais e não tem de dar explicações a ninguém. Só que não foi bem assim que se passou. Quem lhe pedia era a sua esposa, e podeis ter a certeza de que o leão amava profundamente a sua rainha, pelo que não era capaz de lhe dizer que não.
E não lhe disse, o que se passou foi que pediu para lhe levarem a carne ao quarto à noite. O rei e a rainha dormiam em quartos separados, pois, como viviam num palácio com muitos quartos, podiam-se dar a esse luxo, e ainda assim ficavam muitos quartos vazios.
De dia, à hora da refeição, lá o rei metia alguma salada na boca como prova do seu amor, e à noite banqueteava-se com as delícias de que ele gostava.
Deveis estar a perguntar-vos o leão amará mesmo a sua leoa...
In Histórias para Crianças (2023)
sábado, 3 de junho de 2023
opsinas e outras proteínas
domingo, 14 de maio de 2023
O Burro Castanho
Esta é a história do burro Castanho que tinha o nome mais óbvio que se pode ter, pois ele era de cor castanha. De uma cor castanha que não deixava dúvidas. Há burros de um castanho mais para o claro, sobre os quais se pode questionar se não serão antes cinzentos esbranquiçados, e aos quais se dá o nome de castanho para fincar uma certeza e não darem motivo a conversas que não levam a lado nenhum.
Assim, se ao passar pelas ruas da aldeia aqueles que estão à porta da taberna, e nada mais fazem do que zombar com quem passa, perguntarem:
- Ó Ti Maria, de que cor é o burro?
Já a Ti Maria pode responder:
- Quem, o Castanho? Então não se está mesmo a ver.
E pode assim a Ti Maria ir, sem mais demoras, migar as couves que traz da horta para dar às galinhas. Porque também nas aldeias há quem prefira passar o dia a conversar em vez de fazer coisa alguma.
Desta forma, o nome do Castanho não é uma afirmação, é uma realidade. Bom, ele não é todo castanho. O focinho até é bem branco, assim como as auréolas em volta dos olhos espertalhões e a barriga que é de neve, mas de resto é de um castanho carregado de burro jovem e saudável, mantendo ainda alguma daquela curiosidade estonteada que, não se sabe ainda por que razão, ataca os burrecos nos primeiros meses das suas vidas.
Não vos vou falar da vida do Castanho enquanto jovem, pois só isso daria uma história completa, ainda que fosse como aquelas histórias onde não há fio nem meada. Não sei se percebem. É aquele tipo de histórias em que estão sempre a acontecer situações muito agitadas e emocionantes, e, contudo, não se percebe a razão de cada uma delas.
Uma história tem tanto mais graça se ...
In Histórias para Crianças (2023)
domingo, 5 de março de 2023
de joelhos prostrados
domingo, 12 de fevereiro de 2023
O Homem que Vivia com Duas Formigas
domingo, 25 de dezembro de 2022
bailado dos deuses
o mancebo de torso rígido
tem o corpo coberto de pelo negro
revolto e entrelaçado como o vento conflituoso
que lhe molda as pernas curtas e grossas
e arbusta as nádegas de vestes agrestes
da moçoila pouco temos a realçar
tal é a juventude
daquela que nos faz respirar
de formas correntes
reservadas para despertar
ciranda o demónio a mocidade
finge esta deixar-se tentar
enquanto coscuvilha
ri nas costas do pé rachado
nada como a inocência para zombetear
é o mundo um gigantesco prato
onde os humanos são servidos
para deleite dos deuses
inteiros ou retalhados
puros ou aos pecados
deitados nos cotovelos apoiados
no éter vazio
seguram a cabeça as suas divindades
agradecidos do espetáculo
que momentaneamente os sustenta do infinito tombar
não têm os atores memória de tal história
ainda que continuamente a venham a representar
parece ela sempre renovada
muda-se o prato
fica o espetáculo
lá bem no centro da reinação
onde todos os olhos estão postos
dançam o moço e a moçoila
ao embalar de uma canção
que trauteiam os nobres senhores
eis não quando a raparigota
se sente enrubescer
espantada olha em volta
procurando explicação
para o que ainda não estava a ver
mais banzado está o moço
de ver assim avermelhada a donzela
mas como anda de cabeça à roda
ainda insiste em pegar nela
dizem que é do demónio a tentação
é nos momentos de maior aflição
que cada um reage à sua maneira
a donzela com precaução
o mancebo ilusionado com a asneira
ambos com derramamento
está a vestal assombrada
no meio do prato parada
boquiaberta e espantada
entre o contentamento e a alvorada
por se sentir alvo de tamanho cometimento
o efebo peludo
todo ele eriçado
olha-se sem sentido
como todo aquele que padece
de um empreendimento mal terminado
entra o pai da jovem
leva o rapaz de lado
também desse mal sofri eu
diz-lhe com sinceridade
não há moléstia que não tenha reparo
pega a mãe na rapariga
com ternas mãos maternais
para lhe sentir a pulsação
e saber de antemão
qual poderá ser desenlace da questão
o moço ouve saracoteado
pois ainda que perceba a razão
e tente ouvir com atenção
não há maneira de desaparecer
o que o levou ao final do primeiro ato
confidenciam o pai e a mãe
juntam o que até ali apreenderam
sobre a moçoila diz a progenitora
antecipa a alvorada
mas ainda não viveu o amanhecer
do rapaz até tem o pai boa impressão
fala pouco o que não é mau
quer dizer que não tem nada a esconder
o problema é que não lhe passa a maleita
o que não dá azo a outra consideração
entram cinco vestais amigas
da donzela não sei a qual a mais bela
a primeira a segunda ou as outras três
trazem no rosto um sorriso
com a marca de uma missão
cada uma à sua vez
com o moço bailam
tudo fazem para tirar de boa
uma solução final
e não mais uma ilusão
após cinco vezes rodopiado
está o mancebo no meio do prato abandonado
que cumprida a incumbência
foram as amigas com a donzela conferenciar
mas está bom de ver
está o peludo mancebo
que nem uma tábua de passar
não fosse o peito de rachar lenha
e os ombros de arquear
mas sem o mais leve sinal do mal
regozijam todos os presentes
por mais uma volta dada pelo prato ao universo
assim se cumpre mais uma vez o destino
e se quer dar for finda
a representação
cantam todos em coro
a ordem natural encerra destas maravilhas
para cada desafio
sabe o mundo encontrar um equilíbrio
de amor perfeito
galhofam os deuses
com o desenlace
rebolam-se no éden à gargalhada
esbracejando no vazio
transmitindo ao prato suaves bailares
não todos no entanto
um ou dois mantêm-se de cara fechada
são deuses que sacrificam
a sã camaradagem à sua verdade
vivem por isso irritados