sábado, 21 de dezembro de 2013

A Burlona do Amor, The End e Tao Te Ching

Dos testemunhos, até agora, alguma parra mas pouca uva.

Talvez o mais interessante seja o da Burlona do Amor, uma história que andou pelos jornais e televisões no início deste ano. Uma pesquisa no google permite obter um conjunto de notícias sobre este caso mas uma boa síntese destes testemunhos está na Deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERCS).  Que vão desde a caracterização da "burlona":

- "...nunca se contentou com pouco. Habituada a uma vida de luxos e mordomias, a burlona, de 44 anos, nunca quis trabalhar. Sem fontes de rendimento, tinha ainda o vício do jogo. Tudo graças aos homens que enganara".
- "…, de 44 anos, seduzia os homens para conseguir uma vida luxuosa. Aproveitou também para saldar dívidas de jogo".
- "A burlona, que até hoje nunca foi detida, adorava viajar. Passava longas temporadas em Inglaterra e as passagens de ano eram festejadas nas ilhas Canária".

Até à sugestão de alguma promiscuidade com o seu progenitor:

- "…, pai da burlona, sabia das farsas da filha. Era apresentado aos homens e mostrava-se conivente com todas as mentiras. Vivem juntos em Setúbal".

E, claro, a garantia policial:

- "Está a ser investigada pela PJ de Setúbal"

Estes são os testemunhos que presumivelmente bebem da fonte. Quanto aos testemunhos que se constroem sobre testemunhos, a deliberação descreve duas situações diferentes. A primeira é a transcrição de parte da entrevista onde o Dr. Moita Flores (F.M.F.), que, segundo o meio de comunicação social em causa, no uso das suas competências profissionais, traça o perfil psicológico alegada Burlona:

J.P.: Para já, uma história que também já é conhecida, a “Burlona do Amor” continua a ser notícia.
(…)
F.M.F.:  A “burlona do amor” é engraçado.
J.P.: (risos) A “burlona do amor” é bonito, não é?
F.M.F.: É bonito!
(…)
F.M.F.: E aliás, esta senhora com a prática que tem, se calhar também vai fazer carreira internacional, não é?
J.P.: (risos) Um dia destes está noutro sítio a fazer estas burlas.
F.M.F.: Ou a polícia que lhe deite a mão e para com isto de uma vez por todas porque a gente diverte-se, mas isto são crimes sérios. 
J.P.: São crimes sérios. Ó Francisco, nós estamos a sorrir e a contar, no fundo, a história, mas o que nos deixa… o que fez com que nós hoje trouxéssemos de novo este assunto aqui tem a ver com o facto de esta senhora até há algum tempo atrás… houve um jornal que disse que ela… portanto, publicou a fotografia dela inclusive e dizendo que a senhora estaria desaparecida ou a monte… fugida, digamos assim, e esse próprio jornal, enfim, desmentindo-se a si próprio dá conta se não estou em erro hoje, que afinal de contas ela está … é perfeitamente possível encontrá-la e fotografaram-na naquilo que julgo ser o local onde habita. Esta senhora não devia ser presa? Ou não devia ser inquirida pela polícia, não devia haver uma investigação...?
(…)
F.M.F.: As circunstâncias levam muitas vezes a que estes crimes fiquem sem queixa, não é? Mas quando tem queixa isto são crimes públicos, que obrigam a uma ação séria da polícia, não é? Agora, muitas vezes… porque eu sei que ela… julgo que sei, que ela já foi presa, um ou duas vezes e foi posta em liberdade, não é? Isto então é…, é mesmo o cacarejar sempre fora do galinheiro, está sempre à vontade. 
J.P.: (risos) Já se sente muito à vontade, não é?
F.M.F.: Consegue dar um golpe de 400 ou 500 mil euros, epá, pode tirar umas férias, quer dizer… Tira umas fériazitas porque sabe que depois haverá mais um otário que vai acreditar nas pernas, nas mamas, no sorriso, no fascínio, no olhar, na história. Ela tem as suas histórias.
J.P.: E encanta?!
F.M.F.: Encanta e encanta de tal maneira, que cantando os leva!
J.P.: (risos) Esperemos que mais ninguém, enfim, que mais ninguém… Aparece sempre um, não é? Mas está feito o alerta. A senhora está perfeitamente identificada”.
F.M.F.: E no ativo. (risos)
J.P.: (risos) Está por aí. Tenham cuidado, tenham cuidado. E portanto, esta matéria… seguramente um dia destes teremos mais notícias sobre ela e seguramente também teremos a informação, espero eu, que tenha sido de novo investigada pela polícia. 

Se neste testemunho se faz o espírito com pessoas de Fernando Pessoa, já a segunda situação está mais próxima de uma metafísica do testemunho, segundo Paul Ricouer. Nela o testemunho da "Burlona" sobre ela própria é inserido no "livro" de testemunhos:

- No dia 7 de março, o <jornal> publicou um direito de resposta exercido pela ora queixosa, tendo o jornal intitulado o Direito de Resposta de “Carta de ‘Burlona do Amor’”. No final do texto surge a seguinte nota: “Nota da Direção: o <jornal> esclarecerá amanhã alguns pontos sobre este direito de resposta”.

Ou seja, o testemunho da "Burlona" é usado para confirmar os testemunhos que "bebem" da fonte, e aqui começa a metafísica, pois o louco não pode provar que não está louco pois é louco.

Mas ainda assim, para encontrar uma metafísica do mal, é pouco. Por isso ocorre-me uma frase que li em The End, de Ian Kershaw, sobre o último ano da segunda guerra mundial: "goza a guerra pois a paz vai ser pior". Como é possível tal afirmação? De acordo com o autor deve-se à identificação entre o destino de Hitler e o destino da Alemanha. A não separação entre os dois levou ao fortalecer da resistência mas, eventualmente, à queda de ambos. Num poema do Tao Te Ching poderá estar alguma pista para perceber como se gera este inferno:

Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.

Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.

Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.

Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.

Parece ser neste copular entre o bem e o mal que se poderá encontrar uma metafísica do mal.

Continuo à procura de testemunhos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Kizombas de sempre

Nisto das Kizombas há as más, as assim assim, e as de sempre. O Jeito Dela, http://www.youtube.com/watch?v=HyZmUf4yJu4, do Moçambicano Gasso, pertence ao conjunto destas últimas. Num estilo ultra-romântico, por vezes a roçar o pimba, e com um excelente video oficial, que faz lembrar a corrente expressionista do cinema Alemão, vejam-se os grandes planos dos rostos, deve ser dançada tomando as respetivas pausas.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Inferno

Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

Num dos seus contos, Italo Calvino descreve um planeta terra vazio onde os mais variados objetos vão caindo do céu. Numa parábola à criação, os seus dois únicos habitantes vão zelosamente juntando o que encontram - fogões, vasos, árvores, … -  e meticulosamente arrumando cada coisa no seu lugar. Também eu não resisto à tentação a ir encaixando o que vou encontrando.

Agora que se aproxima do fim o meu terceiro livro quero abraçar algo mais ambicioso, uma narrativa sobre o Inferno. Para isso tenho vindo a juntar pequenos apontamentos que aqui apresento como se uma ordem tivessem.

Se um início houvesse, diria que ocorreu à mais de três anos, quando me foi anunciado o Inferno. Daí a imaginar todas as possíveis combinações de Inferno foi um passo. Depois, foi o tempo de perceber da sua inevitabilidade. Então juntei-lhe a citação que ouvi há dias de Alberto Caeiro: sou do tamanho daquilo que vejo. Desta conjugação entre o que aconteceu há três anos e o que ouvi há dias nasceu a intenção de escrever um livro sobre o Inferno.

Contudo, não basta ter os olhos abertos e observar o que nos cerca, é necessário ter uma estrutura. O primeiro passo foi a procura de um condenado ao Inferno. Encontrei La Gloire num livro de Boris Vian lido na adolescência. Condenado a recolher cadáveres com os dentes do fundo rio em troca do ouro dos habitantes, La Gloire encarna um Inferno aquático sem fogo.

Mas para haver um Inferno tem que haver um conceito de mal absoluto. Para isso procurei o conceito de bem absoluto no trabalho de Paul Ricouer sobre a hermenêutica do testemunho. De acordo com Ricoeur existe uma metafísica relativamente ao testemunho que vai para além da experiência e da ideia do bem. Acorreu-me então que o livro poderia ser feito apenas de testemunhos sobre o condenado para daí surgir uma metafísica do mal.

A seguinte questão coloca-se sobre quais são os testemunhos que contêm essa capacidade metafísica de geração da consciência do mal absoluto. Lembrei-me a seleção feitas dos Evangelhos e a sua depuração dos apócrifos. Assim, uma narrativa sobre o Inferno poderia descrever o processo de seleção dos testemunhos verdadeiros, aqueles que consubstanciam e emanam o mal, na perspetiva de uma das pessoas incumbida dessa seleção. Focar-se-ia o livro em uma única pessoa e na sua (re)leitura dos testemunhos, as dúvidas que se lhe levantam, e as estratégias e modelos mentais subjacentes à seleção que vai construindo.

Finalmente, recentemente li a frase de Fernando Pessoa, com que encabeço este texto: Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas. Creio haver alguma contradição entre a pobreza do espírito feito apenas com pessoas e a metafísica do testemunho, mas aceitei este como um desafio que poderá enriquecer o livro. Contudo, para poder continuar gostaria de obter um extenso conjunto de testemunhos do mal sobre os quais possa trabalhar. Para isso peço aos meus leitores que achem que têm histórias que valha a pena contar que me enviem. Estou particularmente interessado em testemunhos que sejam construídos sobre testemunhos, em que não tenha havido contacto direto com a origem do mal, mas que possam conter essa experiência metafísica emergente da interação com um testemunho.

Agradeço todas as contribuições que me possam enviar para Antonio.Rito.Silva@gmail.com. Obrigado.


domingo, 24 de novembro de 2013

Dissensus

Saio do Everest Montanha e decido caminhar para deixar discorrer pelos membros os calores que alguns pratos Nepaleses emprestam ao corpo. Ao passar pelo Júlio de Matos vejo-me na obrigação de agarrar uma folha de papel que esvoaçando quase se me entrega nas mãos. Nesta folha leio, escrevinhado, as atuais notícias da minha sanidade são tão exageradas como as, anteriores, acerca da minha loucura.

Estaco, e, enquanto o ar frio da noite me entra pelo nariz num brado de refrigeração solicitada pelo corpo, ocorre-me que este deve ser mais um daqueles ineficazes gritos com pretensões literárias, em que o grito empobrece a pretensão e o estilo literário abafa o grito. Foi com certeza escrito por um dos loucos que aqui habita, penso.

Entretanto, começa a tomar conta do meu corpo uma sensação de dissensus. Não sei se se deve à folha entre mãos ou à comida que ingeri. Nesta imobilidade dou comigo a imaginar o psiquiatra deste pobre louco, entre compêndios, gerando o consensus, agarrando-se a todos os possíveis factos e, em desespero de causa, criando, aqui e ali, o que faz falta. Imagino também os sucessivos construídos universos de que o louco se entretém a divergir.

Retomando o passo, vou-me afastando e sinto comiseração pelo pobre psiquiatra.

domingo, 29 de setembro de 2013

Memória

(publicado em 24 de Setembro de 2013)

O que seria da memória se não fosse o esquecimento? Tal como na senilidade o esquecimento nos enche das texturas da memória também neste livro procurei juntar tudo o que vou encontrando por entre o que já não recordo. E não posso negar ter abrilhantado, com mais ou menos cuidado, o que vai surgindo, tal como a memória o faz para não se deixar cair no abismo olvidar.

Mentiria, também, se dissesse que não há uma teoria por detrás, uma linha onde penduro esta memória. Sou incapaz de escapar à obsessão da ordem, mesmo quando o nego. Por isso, este pequeno livro procura fazer um todo, esgotar a memória, fechar nestas páginas tudo o que pudesse vir a recordar. Mais uma vaidade de duvidosa concretização, mas se não fosse assim este objeto não existiria. Agora que desisto do todo, para o livro poder existir, o que aqui não fica com certeza se virá a manifestar debaixo de outros nomes e de outras formas, pois para isso serve a memória.

Amazon: http://www.amazon.co.uk/Mem%C3%B3ria-Portuguese-Ant%C3%B3nio-Rito-Silva/dp/1492363774

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Conjugar o verbo Querer na China Capitalista Comunista Budista Taoista Confucionista

Presente:
Eu não quero
Tu não queres
Ele não quer
Nós queremos
Vós não quereis
Eles não querem

Futuro Indicativo Capitalista:
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos

Pretérito Perfeito Comunista:
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo

Conjuntivo Budista:
Se eu quisesse nós não quereríamos
Se tu quisesses nós não quereríamos
Se ele quisesse nós não quereríamos
Se eu não quisesse nós quereríamos
Se vós quisésseis nós não quereríamos
Se eles quisessem nós não quereríamos

Pretérito mais que Perfeito Taoista:
Nós quiséramos suprema harmonia
Nós quiséramos central harmonia
Nós quiséramos preservar harmonia
Nós quiséramos harmonia celestial
Nós quiséramos eterna harmonia
Nós quiséramos completa harmonia

Imperativo Confucionista:
Queiramos nós antepassados
Queiramos nós lealdade
Queiramos nós regras
Queiramos nós estabilidade
Queiramos nós ordem
Queiramos nós harmonia social

Interrogativo Dezasseistista:
Porquê deixar de eu querer e ainda assim fazer?

17 de Setembro de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ainda os mesmos Bichos

Ainda os mesmos Bichos (publicado em 8 de Agosto de 2013)

O que gosto em Bichos de Miguel Torga são as frases que não esbanjam e o Portugal de Trás-os-Montes, que suspeito não será muito diferente de uma Beira Baixa que conheci. Uma terra que obrigava homens e animais a serem bichos. O cão, o gato e o burro que por ali andam fingindo ser nossos.
Por acaso, surgiu a possibilidade de o reler.
Desse reencontro com os Bichos, escritos aos pedaços, um por cada conto de Miguel Torga, mais três outros à laia de fecho, surgiram estes fragmentos que agora aqui junto. A sua releitura mostrou-me que já tinha esquecido o suficiente para agora não me atrever alterá-los para além de algumas ligeiras pinceladas. Tal como os bichos, podem ainda fingir ser meus, mas, já não me pertencem.
Outros bichos haverá, mas no momento, que se repetiu no correr dos dias do Outono, foram estes que encontrei. Agora, aqui juntos, gostaria que a leitura de cada um seja um relampejo imediatamente seguido de um esquecimento, como as manifestações dos bichos.
Neste rearranjo voltei a verificar que gosto destes bichos. Espero que também goste.

Amazon: http://www.amazon.co.uk/Ainda-mesmos-Bichos-Ant%C3%B3nio-Silva/dp/1491071893

domingo, 28 de outubro de 2012

Os blogues, segundo Fernando Pessoa

Ah, que inveja que eu tenho do blogue seguinte. Tão cheio de ódio, amor ou raiva. Tão certo do que deve ser, ou cheio de vazio e a suplicar que aconteça algo a seguir.

Como me emociono com a verdade que encontro neste blogue e por uns instantes dou-me ao luxo de esquecer que eu sou o que não está lá, o que não a quer encontrar. Ah, que inveja.

Que inveja que eu tenho do teu corpo, que não é o meu e pressinto nesse blogue, um corpo que insinuas cheio de chuva e flores. Um corpo que eu quero para sentir inveja.

Como invejo as cadeiras do relvas e à socapa me sento numa delas. Respiro fundo e permito-me pensar que este reino é meu, até que o autor vem a correr comigo, dizendo que esta cadeira é do relvas, não é minha, que posso sentir inveja, mas não posso estragar o blogue. Ah, que inveja.

Sinto inveja desse teu pequeno poema que ninguém comenta, por inveja. Imagino essas palavras na minha boca. Palavras que a tão enchem que basta mover as mandíbulas para se propagarem como um post num blogue. Que inveja.

E arrasto a inveja de um blogue para o blogue seguinte. E a inveja vai-se partindo aos bocados. Um pouco fica neste blogue, mas tento guardar algo para poder continuar a caminhada. E é um contrassenso isto que andar com a inveja aos pedaços. Ela quer-se forte, junta, sentida. Ai que inveja.

sábado, 27 de outubro de 2012

Central Tejo

O livro de fotografia Central Tejo - Imagens de um Tempo Ausente de António Paixão, com um voltímetro na capa, um amperímetro na contracapa e o volume de um objeto industrial, contém o resultado de uma veneração intemporal, sem medida.

É uma veneração pelos objetos construídos pelo homem que, desprovidos de função ou na sua ignorância, se tornam objeto de culto. Uma veneração feita das mesmas impressões que terá um humano ao chegar a um planeta alienígena, ainda que cheio de vida e em funcionamento.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

como um ovo

como um ovo
de aspeto sólido
arredondado e liso
facilmente se quebra e escorre entre os dedos

também as palavras fortes
diretas e sem adornos
facilmente se rompem e escorrem
como um ovo

sábado, 22 de setembro de 2012

humildade

um dedo do pé
um dedo do pé afunda-se numa cama
uma cama no meio de um quarto
uma cama no meio de um quarto onde um dedo do pé
um quarto dentro de uma casa
um quarto dentro de uma casa onde uma cama
uma casa num prédio
uma casa num prédio onde num quarto
uma escada rasga um prédio
uma escada rasga um prédio e leva de uma porta a uma casa
uma rua onde uma porta
uma rua onde uma porta se abre para uma escada
um bairro de gente
um bairro de gente onde uma rua
uma cidade cheia
uma cidade cheia de um bairro
um país com mar
um país com mar onde uma cidade tem um nome

um país com mar e uma cidade cheia com nome e um bairro de gente onde uma rua tem uma porta que se abre para uma escada que rasga um prédio e desemboca numa casa onde num quarto sobre uma cama um dedo de pé se afunda com um imenso peso

- Humility - Wim Mertens

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Evondres

Tomar o avião
Primeiro em pequenas doses
Para criar habituação
Depois em cruzeiro
Para cumprir o roteiro

NorthFields
Green Park
Southwark
Bermondsey
Canary Wharf

Wharf, Wharf, Wharf disse Canary
Nestas docas se fizeram navios
That, That, That disse Cher
Deste porto financeiro
Nunca partiremos à deriva

Comer sushi no chão
Também em pequenas doses
Para criar habituação
Aqui entre a terra e o rio
Por vezes sente-se algum frio

Heron Quays
Canary Wharf
West India Quay
Shadwell
Tower Hill

Do tapete rolante
Veem-se as jóias da coroa
Espantadas caras
Passam pelo andor
Num grande fervor

Monument
Cannon Street
Mansion House
Blackfriars
Westminster

Seis mulheres teve o oitavo
E como eram todas giras
Ficou tão de pantanas
Que teve de ir à igreja
Separar-se

E a Zabete?
Num tempo de shake e inspiração
Tinha ciúmes da Maria
Que de uma outra religião
Tinha a cabeça mais bonita

Cortem-lhe a cabeça!
Qual delas Vossa Senhoria?
Aquela que ela ainda agora tinha
Que é dela, com mil raios
Rolou por aí abaixo

Espeta-a num pau
Que é para aprenderem
A pensar com a cabeça
Não vão eles achar que a minha
É como a dela com certeza

Westminster
Embankment
Charing Cross
Trafalgar Square
National Portrait Gallery

Pintou a avó nua
Com tal crueza
E delicadeza
Que está agora na Gallery
Exposta

O Mexicano arde na boca sem dó
Queima que é um disparate
Apaga o fogo com 7up
Ufa, que alívio, agora já rio
Mas ainda tenho os lábios em desvario

Charing Cross
Piccadilly Circus
Leicester Square
Convent Garden
Holborn

1 morto, 2 morto, 3 morto, 4 morto, 5 morto, 6 morto, 7 morto, 8 morto, 9 morto
Diz um morto
Com um ligeiro sotaque egípcio
Would you like a cup of tea?
Very British, indeed

Holborn
Oxford Circus
Green Park
Victoria
St. James Park

Focinho pontiagudo
E cauda comprida
Nas tardes de amendoins
O esquilo vai à mão
Mas a mão não chega ao esquilo

St. James Park
Westminster
Embankment
Temple
Mansion House

Modern art is like

An unfinished sentence
You have to fill the gaps
Tate on you brother

Que saudades
Do Vietnamita
Da beef noodle soup
Mas eu noodle quero
Queres ou não queres?

Mansion House
Embankment
Oxford Circus
Regent's Park
Baker Street

Aqui também há uma Madame
Feita da cera
De todas as formas
Com que eu quero ser fotografada
Será Mrs, Miss ou apenas Ms?

17 de Setembro de 2012

domingo, 2 de setembro de 2012

Dia 15 - The Dead

Abandonámos o local com um cansaço feito de músculos descontraídos. A descida era feita do descair do corpo. Descíamos aos sobressaltos. As distâncias entre nós iam variando, formando-se um corpo desengonçado que parecia descer a montanha aos trambolhões controlados. A cada momento prestes a lançar-se no abismo, a cada momento a se agarrar de novo ao chão.

Observado com mais detalhe, podia-se imaginar neste corpo uma longa coluna de onde se prendiam semi-arcos. Era entre estes semi-arcos que nós nos movíamos e que nos impediam sair de dentro do corpo que configurávamos. Não, de facto, nós eram os semi-arcos e os nossos movimentos marcavam o respirar ofegante de um animal acabado de ressuscitar.

Era a cabeça, feita de um enormes buracos sem olhos, que nos atirava para a frente. As gigantescas mandíbulas, premiadas de uns dentes que já foram úteis, dão ao animal um ar sedento de vida. A cabeça bamboleia-se de um lado para o outro, de cima para baixo, e pelos buracos dos olhos passa tudo o que está à volta. A conjugação dos buracos nos olhos e das mandíbulas abertas dão ao animal uma expressão de incredibilidade.

Eveline caminha com os olhos nos olhos do animal, procurando ver tudo o que ele vê. Há na sua cara uma expressão de contentamento que não lhe tínhamos visto antes. A sua respiração é consonante com a respiração do animal e, caminhando entre nós, é o seu movimento que marca a deslocação lateral daquela desmedida massa. Sempre que chegamos a um ponto, já ela se move na direção oposta, levando-nos atrás.

O caminhar de James é marcado pelo alheamento de Eveline. Inicialmente ainda procura olhar pelos olhos do animal, mas acaba a observar o corpo que nos envolve. É um extraordinário monumento que avança no tempo e onde James tenta encontrar o seu lugar. Vai fazendo isso experimentando diferentes formas de andar. Aquela que lhe parecia mais óbvia era a de Eveline, mas ela, ou o corpo, estão sempre um pouco depois, ou um pouco antes. Enquanto vai procurando acertar, dá então consigo a imaginar como teria sido imponente esse animal, como a sua presença deveria impor respeito e forjar vontades. Mas de tantos desacertos, James começa a ficar para trás. Sente passar-lhe pelas costas um fio frio, como um arrepio. É a longa cauda do animal que passa por ele. Já sem obrigações fica sentado a observar-nos na descida.

Viro-me e pergunto-lhe, Então James, não vens?

- Inspirado em The Dead de James Joyce, num esqueleto de dinossauro no Natural History Museum  e nos monumentos funerários no British Museum em Londres.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

14 dias a caminhar

Estes 14 dias de caminhada, mais ou menos imaginária, foi escrito entre os dias 1 e 16 de Agosto de 2012 ao passo de um conto de Dubliners de James Joyce e de recordações de lugares:

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Dia 14 - base, fuste, capitel,

À nossa frente, as torres de granito saindo de uma luva de neve sem dedos. Finalmente chegámos. Nem queríamos acreditar. Quatorze dias. As torres eram massivas rochas que se estreitavam lado a lado.

Estendemos-nos no chão, cada um para o seu lado. Entre nós um mar de pedras roliças. Virando a cabeça víamos os corpos entrecortados pelas pedras. Eram corpos deformados por inesperadas barrigas.

James via as pedras das torres a entrar pelas nuvens que se desfaziam quando as tocavam. Esticou-se um pouco mais. Os pés calçaram uns sapatos de pedra. As mãos enviaram-se dentro de umas luvas castanhas. A cabeça estava fixa nas torres. Não pestanejava, mas de dentro da sua boca saía um corpo azul, irregular, que ía variando de tonalidade e forma com a luz do sol e a sombra das nuvens. O tamanho do corpo aumentava conforme respirava.

De Eveline não se via a cabeça. No seu lugar um pedregulho, um pouco maior que os restantes. Entre este e as pernas, ausentes pela presença de uma outra pedra, uma barriga onde se notava a respiração. A respiração era irregular e começou a propagar-se ao solo. Primeiro foram as pedras que escondiam Eveline que começaram a tremer, mas depois o tremor começou a propagar-se em círculos concêntricos.

A corpo azul reluzente de James e a respiração de Eveline tomaram conta de todo o local. As pedras começam a rebolar e a saltar. Misturam-se com o corpo azul. O azul tingiu-se de castanhos. Agora a sucessão de tremores já não deixa as pedras regressar ao chão, atirando-as cada vez mais alto. Saltam no topo das torres, como capiteis. No chão, volto a ver os corpos de James e Eveline por inteiro. De onde me encontro, parecem suster as torres.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Dia 13 - Língua

O que se passou no dia de hoje, ou deverei dizer noite, pela presença do fantástico, ou deverei dizer do passado, é bastante irreal. Quando penso neste dia parece-me mais um sonho que uma caminhada. Poderia descrevê-lo como o primeiro, mas vou fazê-lo como a segunda.

O segundo dia a caminhar na trajetória ecliptíca, com o horizonte a prolongar-se, a cada passo, um pouco mais para lá, conjuntamente com a mescla de entusiasmo e cansaço que nos possuía, deve ter criado em nós um torpor gerador de visões. Era dia e, por obra do que James alega ter sido um eclipse, vez-se noite. Já segundo Eveline tudo se deveu a James, no seu deambular, se ter entreposto entre ele e a crista cerrada. Não sou capaz de concordar com um ou discordar do outro, nem de distinguir com clareza o que cada um viu, ou supôs ver, pelo que não me irei preocupar com isso.

Houve sim um momento em que as pedras sobre as quais pensávamos caminhar se revelaram serem pequenos corpos com uma desproporcionada cabeça. Eram graníticos, polidas de lábios grossos e olhos sem fundo. Foi então que deixámos de ouvir os nossos passos e das cabeças saíram sons incompreensíveis. E contudo, aos poucos, conforme continuámos a caminhar, os pés começaram a encontrar sentidos nesses sons.

Depois, reparámos em gigantescas figuras de pedra que marcavam o caminho. Silenciosas, de longos braços, em diferentes posturas, pareciam tocar os sons que dançávamos. Nesse momento, o receio que sentíamos consubstanciou-se nos passos a que começámos a dar nomes. Um, a que chamámos aproximação, era feito de pequenos avanços e recuos, num outro, a que demos o nome de descida, o corpo atirava-se na direção da pendente mas não saía do lugar. No ponto, quedávamos-nos a ver Eveline rodar sobre nós, já na espiral tínhamos que a suster enquanto ela girava.

Suspeitei que estes passos formavam uma língua. A isso não é de todo estranho o ter verificado que cada um dançava os passos de forma diferente. Por exemplo, como era diferente a forma como eu e James executávamos a aproximação. E James era exímo nos labirintos, colocava os pés entre as cabeças no chão e subitamente desaparecia entre as figuras de pedra, reaparecendo depois, mais à frente, ou atrás. Ah... e como era Eveline graciosa em linhas e arcos.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Dia 12 - Trajetória eclíptica

Após termos estado no ponto resolvemos circundar a montanha para alcançar o outro lado, aquele que tínhamos observado. Seguimos assim ao longo da encosta, com a presença constante da inexpugnável crista de pedras do topo.

Os nossos passos, embora aparentemente enérgicos e determinados de chegar, eram marcados por um indisfarçável deambular. Seguíamos em frente com a rapidez de quem está preso por uma corda que nos segura, mas que por vezes fica lassa e nos dá a sensação de caminhar no vazio.

Eveline seguia agora visivelmente à frente. O caminho que percorríamos não estava marcado, guiávamos-nos pela crista, procurando manter a distância relativamente a ela, e pelo horizonte da encosta que encurvava lentamente. Naquele caminho inventado, os pés resvalavam à procura de apoio e tentávamos nos próximos passos restabelecer a distância ao topo.

A conversa entre James e Eveline era entrecortada pelo vacilar da caminhada.

- Quanto faltará...
- Talvez depois daquela rocha já vejamos...
- O outro lado.
- Sim, talvez.
- Fiquei surpreendida...
- Com o quê?
- Com a paisagem do outro lado.
- Sim, também não estava à espera.
- Já se veem os cumes.
- Há um grande desnível até ao desfiladeiro.
- Já dali se consegue ver como são perfeitos.
- Lá a floresta é muito densa.
- Ainda têm alguma neve.
- Seria por não haver sol que o verde era tão escuro...
- É magnífico!
- Sim, é!

domingo, 12 de agosto de 2012

Dia 11 - Ponto

Hoje, após mais um dia a subir, chegámos ao ponto. Não é fácil descrever um ponto. A única forma de o fazer é dizendo como nos aproximámos dele, que forma tomou perante os nossos olhos, e depois, o que vimos e como nos sentimos quando lá estivemos.

Estes dois dias a subir foram dirigidos para esse ponto. A subida foi feita pela encosta nordeste. Embora procurássemos atingir o ponto, fomos-nos entretendo a observar a paisagem lá me baixo. Mas isso também contribuiu para construir uma expetativa de como ela seria o outro lado. O que se veria ao atingir o ponto? E como seria poder rodar a cabeça e trocar os olhos entre as duas paisagens? Como é que essas duas imagens se encontrariam no cérebro, nesse ponto?

A subida não foi fácil e estávamos cansados como finalmente vimos o ponto. A reação imediata foi lançarmos-nos para ele, mas o acesso não era fácil e acabámos a acotovelarmos-nos, sem maldade, sem conseguir avançar. E aquele ponto era o único que nos permitiria ver o lado sudoeste, o restante cume era um escarpado fio de navalha. Mesmo o acesso a uma pessoa só não era fácil, Eveline desequilibrou-se e só não caiu pois James a segurou.

E agora que já lá estivemos, o que se vê naquele ponto, depois da canseira da subida? Há efetivamente duas paisagens que ali se encontram, cortadas por um risco de pedras aguçadas. Mas é impossível descrevê-las com precisão, pois apenas lá esteve um de cada vez, e quem pode assegurar que não fomos traídos por um piscar de olhos ao rodar da cabeça ou devido a um desfasamento entre o ponto no cérebro e o ponto sob os pés. Sim, partilhámos depois essas experiências singulares, mas quem pode assegurar que uma vez de volta não efabulávamos já sobre o ponto.