sábado, 3 de junho de 2023
opsinas e outras proteínas
domingo, 14 de maio de 2023
O Burro Castanho
Esta é a história do burro Castanho que tinha o nome mais óbvio que se pode ter, pois ele era de cor castanha. De uma cor castanha que não deixava dúvidas. Há burros de um castanho mais para o claro, sobre os quais se pode questionar se não serão antes cinzentos esbranquiçados, e aos quais se dá o nome de castanho para fincar uma certeza e não darem motivo a conversas que não levam a lado nenhum.
Assim, se ao passar pelas ruas da aldeia aqueles que estão à porta da taberna, e nada mais fazem do que zombar com quem passa, perguntarem:
- Ó Ti Maria, de que cor é o burro?
Já a Ti Maria pode responder:
- Quem, o Castanho? Então não se está mesmo a ver.
E pode assim a Ti Maria ir, sem mais demoras, migar as couves que traz da horta para dar às galinhas. Porque também nas aldeias há quem prefira passar o dia a conversar em vez de fazer coisa alguma.
Desta forma, o nome do Castanho não é uma afirmação, é uma realidade. Bom, ele não é todo castanho. O focinho até é bem branco, assim como as auréolas em volta dos olhos espertalhões e a barriga que é de neve, mas de resto é de um castanho carregado de burro jovem e saudável, mantendo ainda alguma daquela curiosidade estonteada que, não se sabe ainda por que razão, ataca os burrecos nos primeiros meses das suas vidas.
Não vos vou falar da vida do Castanho enquanto jovem, pois só isso daria uma história completa, ainda que fosse como aquelas histórias onde não há fio nem meada. Não sei se percebem. É aquele tipo de histórias em que estão sempre a acontecer situações muito agitadas e emocionantes, e, contudo, não se percebe a razão de cada uma delas.
Uma história tem tanto mais graça se ...
In Histórias para Crianças (2023)
domingo, 5 de março de 2023
de joelhos prostrados
domingo, 12 de fevereiro de 2023
O Homem que Vivia com Duas Formigas
domingo, 25 de dezembro de 2022
bailado dos deuses
o mancebo de torso rígido
tem o corpo coberto de pelo negro
revolto e entrelaçado como o vento conflituoso
que lhe molda as pernas curtas e grossas
e arbusta as nádegas de vestes agrestes
da moçoila pouco temos a realçar
tal é a juventude
daquela que nos faz respirar
de formas correntes
reservadas para despertar
ciranda o demónio a mocidade
finge esta deixar-se tentar
enquanto coscuvilha
ri nas costas do pé rachado
nada como a inocência para zombetear
é o mundo um gigantesco prato
onde os humanos são servidos
para deleite dos deuses
inteiros ou retalhados
puros ou aos pecados
deitados nos cotovelos apoiados
no éter vazio
seguram a cabeça as suas divindades
agradecidos do espetáculo
que momentaneamente os sustenta do infinito tombar
não têm os atores memória de tal história
ainda que continuamente a venham a representar
parece ela sempre renovada
muda-se o prato
fica o espetáculo
lá bem no centro da reinação
onde todos os olhos estão postos
dançam o moço e a moçoila
ao embalar de uma canção
que trauteiam os nobres senhores
eis não quando a raparigota
se sente enrubescer
espantada olha em volta
procurando explicação
para o que ainda não estava a ver
mais banzado está o moço
de ver assim avermelhada a donzela
mas como anda de cabeça à roda
ainda insiste em pegar nela
dizem que é do demónio a tentação
é nos momentos de maior aflição
que cada um reage à sua maneira
a donzela com precaução
o mancebo ilusionado com a asneira
ambos com derramamento
está a vestal assombrada
no meio do prato parada
boquiaberta e espantada
entre o contentamento e a alvorada
por se sentir alvo de tamanho cometimento
o efebo peludo
todo ele eriçado
olha-se sem sentido
como todo aquele que padece
de um empreendimento mal terminado
entra o pai da jovem
leva o rapaz de lado
também desse mal sofri eu
diz-lhe com sinceridade
não há moléstia que não tenha reparo
pega a mãe na rapariga
com ternas mãos maternais
para lhe sentir a pulsação
e saber de antemão
qual poderá ser desenlace da questão
o moço ouve saracoteado
pois ainda que perceba a razão
e tente ouvir com atenção
não há maneira de desaparecer
o que o levou ao final do primeiro ato
confidenciam o pai e a mãe
juntam o que até ali apreenderam
sobre a moçoila diz a progenitora
antecipa a alvorada
mas ainda não viveu o amanhecer
do rapaz até tem o pai boa impressão
fala pouco o que não é mau
quer dizer que não tem nada a esconder
o problema é que não lhe passa a maleita
o que não dá azo a outra consideração
entram cinco vestais amigas
da donzela não sei a qual a mais bela
a primeira a segunda ou as outras três
trazem no rosto um sorriso
com a marca de uma missão
cada uma à sua vez
com o moço bailam
tudo fazem para tirar de boa
uma solução final
e não mais uma ilusão
após cinco vezes rodopiado
está o mancebo no meio do prato abandonado
que cumprida a incumbência
foram as amigas com a donzela conferenciar
mas está bom de ver
está o peludo mancebo
que nem uma tábua de passar
não fosse o peito de rachar lenha
e os ombros de arquear
mas sem o mais leve sinal do mal
regozijam todos os presentes
por mais uma volta dada pelo prato ao universo
assim se cumpre mais uma vez o destino
e se quer dar for finda
a representação
cantam todos em coro
a ordem natural encerra destas maravilhas
para cada desafio
sabe o mundo encontrar um equilíbrio
de amor perfeito
galhofam os deuses
com o desenlace
rebolam-se no éden à gargalhada
esbracejando no vazio
transmitindo ao prato suaves bailares
não todos no entanto
um ou dois mantêm-se de cara fechada
são deuses que sacrificam
a sã camaradagem à sua verdade
vivem por isso irritados