sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Observador compulsivo

acho que ele deve ser do tipo obsessivo, então?, reparei que rapa a cabeça aos sábados de manhã sempre aos sábados de manhã, como assim? como podes ter a certeza disso?, então é fácil notei várias vezes que na sexta ao fim da tarde tem uma leve penugem e no sábado de manhã surge completamente rapado, mas se calhar só observaste uma vez e agora estás a generalizar, não por acaso depois de ver a primeira vez fiquei com a dúvida e procurei vir à esplanada pelo fim de tarde de sexta e depois na manhã de sábado e verifiquei que é assim, oh Humberto fizeste isso mas disseste que não vens cá há algum tempo, sim era na época em que cá vinha ele já por aqui estava e parece que os seus comportamentos não mudaram nada como qualquer obsessivo, mas mesmo assim não podes estar completamente certo pode cortar o cabelo ao fim da tarde de sexta umas vezes e outras de manhã, é verdade mas tem que ser mesmo antes de se deitar pois quando o via a passear à sexta à noite ao longo da marginal ainda levava a penugem, engraçado estou a notar que ou está a escrever ou a ler traz sempre um livro com ele?, sim deve também ser um leitor obsessivo, oh Humberto e tu a dar-lhe, porquê?, se calhar não é obsessivo é só compulsivo é um leitor compulsivo, mas qual é a diferença?, então vou-te explicar de uma forma que um político entende dizer que se é leitor compulsivo pode arrecadar votos mas se se disser que se é um leitor obsessivo não, não?, ai o sol Humberto, um leitor compulsivo é também um comprador compulsivo e isso tem um contributo social e económico claro e indiscutível enquanto que um leitor obsessivo anda sempre à volta dos mesmos livros e desconfia dos restantes o que é muito pior do que dizer que não gosta deles já o compulsivo passeia-se pela literatura onde o obsessivo chafurda, ah?! pois?! a diferença entre o Ulisses do Joyce e a Biografia do Churchill!, isso mesmo olha ele parou de escrever e está a olhar para nós, sim sim costuma fazer isso é um observador obsessivo, compulsivo mas pronto o que fazemos agora, não faças nada enquanto ele estiver a olhar, está bem, continua a observar?, não já regressou à escrita oi oi Humberto já começo a perceber porque é que ele te desperta assim tanto interesse que até cá vinhas de propósito ao fim da tarde e depois logo de manhã, então?, é giro!, não é nada!, não é nada?, não! olha voltou a observar-nos olha intensamente é um olhar desprendido será que está mesmo a olhar para nós?, não faças nada enquanto ele estiver a olhar, está bem, já parou Cátia?, ainda não, continua?, retomou a escrita agora podemos falar?, sim, quando dizes que não é nada queres dizer que ele não é giro ou que não foi por isso que começaste a ter esse comportamento obsessivo Humberto?, qual comportamento obsessivo?, não desconverses voltou a olhar para nós, então não digas nada continua?, voltou ao teclado, qual comportamento obsessivo? achas que a mera curiosidade pode ser apelidada de comportamento obsessivo?, isso já me parece ser mais do que curiosidade Humberto..., Cátia tu é que desde que aqui chegámos não tens tirado os olhos dele,

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

A esplanada

engordou e amarelou, aburguesou-se? queres tu dizer, sim, olha que não pois eu ainda recordo uns sofás a pano panados colocados na parte frontal com umas mesas baixas e já nem sei se teriam alguns revistas daquelas cor-de-rosa, é verdade sim mas isso foi já na parte final aquela em que os infortúnios do negócio a levaram a abandonar o orgulho de quem sabe o que vale e não se dobra a cativar o comprador passador incauto com um piscar de olho venha tomar uma bebidinha e bem se pode dizer que duas dignidades eram respeitadas a do comprador e a do vendedor dado que o primeiro é antes de tudo um passador e o segundo presta serviço sim mas sem ser um oferecido, não passas de um antiquado de um tempo em que para se ter um negócio não era necessário ser um sedutor olha como agora tudo mudou desde logo este pedestal de madeira onde é disposto o cliente horizontalizado taipado em vidro frequentemente lavado uma esplanada contida no regaço do estabelecimento mãe marcando-se diferenciando-se da rua do jardim quem paga quer-se elevado, então que dizes tu às mesas e cadeiras para cá dos vidros sobre o empedrado padecentes da inclinação de pernas entre pedras algumas seguras por um pedacinho apenas sujeitas aos desaires do peso do movimento do cliente raspando nos bordos dos calhaus paralelepipédicos será que já denotam o enfado do novo e buscam um revivalismo da esplanada que foi destronada por esta anunciando já a outra após o uso e fruto desta uma esplanada gourmet disposta à moda antiga mas servida nutrida com os rigores comerciais do tempos modernos, não iria tão longe que os avanços da economia fazem-se dia a dia quem tem um produto para vender não pode ter outra ideia quem adquire quer o autêntico o verdadeiro já que comprar é incorporar no ser quem compra é são antes gorduras do sucesso da incapacidade de conter todos os clientes no regaço e por isso alguns poucos que não podendo ser compreendidos entre as abas se encostam aos muros como migrantes na ânsia de entrar que estar perto ainda não é ser mas já é estar, é então por isso que as taipas são transparentes para alimentar a vontade dos que estão fora em permanecer que os tempos podem ser duros mas do outro lado é elparaíso amadeirado direitinho arrumado enquanto deste lado do muro impera o empedrado não recuso gostava da outra mais transbordada do estabelecimento para fora desconchavada balanceada como o convés de um navio sujeito a um ondular amigo orbitante de cabeças balanceadas enquanto da terra deitamos os olhos ao mar, creio que estás possuído dos males da memória que tudo embelezam e limpam desde o mais arregaçado até ao mais descurado desfrutas sim aqui agora sentado com o estômago regalado meditando no passado passado, costumavas vir a esta esplanada?, sim mas mudou um pouco, então, eram apenas umas mesas fora do café dedicava-se à venda de bebidas agora ficou mais como um restaurante, gostavas mais de antes?, não sei poderia dizer que sim mas a memória é traiçoeira de qualquer forma em comum apenas tem aquele careca lá em baixo não olhes a escrever num computador,

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Sim, não, pois, sim

tomaste banho, tomei, também?, sim, onde, lá mais á frente, estava fria?, um pouco, também achei, aqui costuma estar melhor, não estava mal ainda assim, acolá sente-se mais o mar, como?, o cheiro, cheira mais a mar?, sim, mas é mais fria e tem umas ondinhas, foste até às dunas?, não fui voltei um pouco antes de chegar, qual a distância?, até onde? até mesmo às dunas?, sim, três ou quatro quilómetros mas não tenho a certeza, ida e volta?, não só ida aqui a água estava boa?, fria como disse mas não sou muito friorenta, nadaste?, não nadei mergulhei e saí logo, com a maré cheia é engraçado ir até às boias, ah!?, vais descobrindo zonas mais quentes e mais frias, como?, como a água não é muito agitada não tem uma temperatura muito uniforme?, porquê?, o quê?, qual a razão de se formarem zonas com temperatura diferente?, não sei mas deve ser por ser pouco agitada que se mantêm, não dei por isso, também estiveste pouco tempo, sim, não reparaste que se boiares a água é mais quente à superfície, sim?, sim e a diferença é grande, não dei por isso foi só quase entrar e sair e tu nadaste?, dei umas braçadas, a água é mais clara?, sim revigora mais mas apenas dei as braçadas e saí, havia mais alguém lá a tomar banho?, não era apenas eu, não há mais ninguém naquela parte da praia?, a tomar banho não só pessoas a passar, ventoso?, sim um pouco mas nadar aquece, quando sais deves sentir muito frio com o vento?, um pouco e tu tens frio?, agora?, sim?, não agora não?, tu?, agora já não mas quando saí sim, pois, parece que já passou muito tempo desde que chegámos à praia, hoje?, sim hoje acho que é de se estar sem fazer nada deitado na areia, a apanhar sol?, sim a apanhar sol, recordas as horas a que chegámos?, deve ter sido pelas três, que horas são agora?, não faço ideia queres que veja?, não é necessário também ainda não deve ser muito tarde, não, alguma vez subiste às dunas, sim muitas, é difícil?, de seguida é, parando?, parando não gostavas de lá subir?, talvez, talvez outro dia?, talvez, hoje já é tarde, a vista é bonita?, sim é um ponto mais alto, pois, costumavas lá ir quando era miúdo? sim muitas vezes, mas não foste hoje?, não disse não, gostavas?, sim é muito engraçado descer a correr mas era maior, o que era maior?, a duna, a duna?, sim, ah porquê?, muita gente a subir e a descer menos vegetação, a vegetação segura a areia?, pois mas pode ser impressão minha, não deve ser faz sentido, pois por isso colocaram uma cerca, ah para impedir de aceder à duna, não para ir mais para dentro para onde estão as árvores e a vegetação, não estou a ver árvores e vegetação na duna, na duna mas lá mais atrás, aqui na praia também há vedação lá mais à frente entre a praia e a marginal, sim mas não foi sempre assim antigamente não era mas começou a desparecer a vegetação e a areia a vir para a marginal e colocaram a cerca, há muito tempo?, sim era miúdo, quando?, não sei talvez uns trinta anos, e parou?, parou o quê?, a erosão, acho que sim creio que agora há menos areia na marginal mas já cá não venho tão frequentemente, ah?! há quanto tempo?, há algum ou pelo menos não costumo estar durante muito, pois, queres até à esplanada, pode ser,

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Separação

está bem, vou caminhar até às dunas, queres vir?, hum, onde?, lá ao fundo, junto à foz do rio, não, obrigado, prefiro ficar aqui na toalha, então até já, até já, começa a caminhar pela areia molhada junto à borda onde os pés marcam um baixo-relevo que é galgado de água assim que é abandonado pela palma, vira-se de barriga para baixo esticando ambas as pernas empurrando a areia com a ponta dos dedos dos pés e enfiando a cabeça na areia de encontro à toalha, bate com a palma das mãos nos calções amarelos em movimentos amplos cadenciados de braços e dedos estendidos marchando, inspira profundamente da areia através da toalha um pó ar filtrado húmido fétido comichando as narinas esborrachadas com a força com que empurra a cana do nariz de encontro ao chão, vira o rosto para a abertura de mar agora que o vento lhe começa a chegar através dessa nesga aberta nas ravinas onde o mar ao longe faz assomos de vida e deixa que o aflorar dos pelos do peito pela ação do vento se lhe intrometam pelos olhos também, abocanha a toalha agigantando a boca mordendo a areia que se esvai entre os dentes formando uma bola que conserva entre os lábios grossos rangendo os maxilares enquanto abana lateralmente a cabeça soltando depois a toalha de lábios revirados e dentes descobertos espalmados no chão, fita a mínima onda que lambe a areia com uma espuma branca escura espalhando bolinhas de sabão baço amarelado ponteado de bolinhas mais pequenas iguais a pairar sobre um fina superfície molhada ao sabor do vento, solta-se do rosto enfiado no chão repousando a cabeça de lado com a orelha contra o molhado da saliva da boca da fome do morder e olha para longe para a duna onde pontos escuros entre o amarelo sombreado da tarde estacam subindo e descem saltitando, torce o tronco para trás medindo a distância percorrida já depois do passar das barracas imaginando onde estarão as duas toalhas enquanto aumenta a passada deslizando em direção ao chapinhar ténue da água abaixo dos tornozelos devido ao desvio imposto pela torção, deita os olhos ao encontro da água com a areia e percorre metodicamente o fio oscilante desde onde se encontra procurando encontrar um dorso terminado por uns calções amarelos compridos até aos joelhos acima de duas pernas que supõe andantes avistando de novo a duna não os calções trazendo agora os olhos em sentido inverso até onde se encontra sem sucesso, afigura-se-lhe a água mais límpida as ondas mais virtuosas engalanadas pelo vento que agora sopra mais forte já que aqui encontra toda a abertura permissão que não descura, dobra os joelhos de encontro ao peito traz as mãos à frente de ambos roda com o apoio dos braços ajoelha-se na areia antes de totalmente se erguer olhando a marginal com as costas sopradas por um bafo protegido pelas ladeiras castanho verdes casas, muda de rumo deixa a areia enfrenta perpendicularmente o mar esventra-se na água que sobe pelas pernas imobilizando-se quando sente o frio nos testículos, vira-se e desce lentamente para a água escura que lhe sobe pela pernas até à vagina imobiliza-se, mergulha, mergulha,

terça-feira, 20 de agosto de 2019

E depois as coisas ficam azedas

estás a dizer isso de propósito para me irritar?, sabes que eu sou crente, a igreja para mim é importante, mas o quê?, esse comentário acerca dos padres já não gostarem de mulheres, foi?, mas foste tu que disseste para ir à procura nas filas do voluntariado, e depois uma coisa puxa a outra, e ademais acho que podemos falar sobre isto de forma objetiva, sem ter nada de pessoal, estou certa que, de facto, os padres já não gostam de mulheres, lá estás tu, não, repara, qual era o crime do padre amaro?, nós não somos dessa época, mas recordo do meu pai contar anedotas antigas sobre casos de padres com mulheres, onde quase sempre havia essa figura que era o filho do padre, não é bem assim, sabes que também naquela altura tudo era mais tolerado, a sociedade era mais permissiva aos desvios, entre aspas, e por desvios quero dizer a uma coexistência entre dois tipos de comportamentos, um mais formal, de acordo com a norma, e outro informal, de acordo com as necessidades, deixa-me dar-te um exemplo, antigamente era normal atirar papéis para o chão, já para não falar cuspir ou escarrar, ninguém levava a mal, e hoje em dia se alguém faz isso sente logo uma pressão social, mas o que é que isso tem a ver com a dualidade de comportamentos?, está bem, talvez este exemplo não tenha sido o mais adequado, de qualquer forma, percebes o que quero dizer, era mais aceitável por exemplo a pequena corrupção, do tipo cunha, ninguém tinha vergonha de dizer que tinha oferecido algo ao professor, ouvi falar de histórias em que oferecer uma garrafa de uísque ao professor evitava o chumbo, por exemplo, ou ninguém reclamar quando se dava vinho às crianças, nunca ouviste falar das sopas de cavalo cansado?, desculpa, estás a dizer que hoje os padres também sentem mais a pressão social e é por isso que não se ouve falar de casos de filhos de padres, pode ser, e não só, repara que antigamente muita gente ia para padre por pobreza, por necessidade, hoje vai-se por vocação, ai, Humberto, acreditas mesmo nisso?, repara, o papa Francisco tentou lançar o tema do casamento dos padres e foi a igreja que não mostrou interesse, lá vem o padre Francisco como um santo na boca dos não crentes, ele é o favorito da esquerda, achas que ele é de esquerda?, claro que sim, então porque não fazem nada?, achas que a igreja existe há 2000 anos com levantamentos de rancho?, é por isso que são subservientes e depois não fazem o que ele quer?, mas voltando à questão, porque é que na maioria da igreja não há interesse no casamento dos padres quando é o próprio papa que levanta a discussão?, a resposta é simples, é porque os padres não estão interessados em casar, imagina, se o casamento se torna possível, e depois poucos ou nenhuns padres se casam?, os fiéis vão questionar-se, porque é que o nosso padre não se casa? será que ele é esquisito?, percebes?, é isso que irrita, quando colocas essa ironia, por vezes pareces muito ingénua, mas outras és bem sarcástica, Cátia, estou certo que o celibato é mesmo uma vocação, entendes?, tudo bem, não te chateies, tudo isto só por causa do Bernardo falar da tua infância,

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Sobre o coração do homem de ferro

quem é o Bernardo?, então não vês?, é um fala-barato, oh, o Humberto não gostou de rever um amigo de infância... não é isso, mas vê-se bem que ele não se cala, uma princesa, ora, ora, e tu o homem de ferro, quem diria, como foi que ele disse?, reservado e frio, Humberto o thatcher aqui do areal, perito a cortar a bola, não ligues muito ao que ele diz, sabes que eu até nem gostava muito de futebol, por isso é que cortava bem a bola, era por desdém, estás a gozar, isso não faz sentido nenhum, como não gostavas de futebol?, são estas coisas de grupo, és rapaz, tens que ser como os outros rapazes, joga-se à bola, joga-se com os outros, por isso era defesa, eles queriam ser todos avançados, para mim o que me dava satisfação era cortar-lhes o jogo, retirar-lhes a emoção que tinham e que me obrigava a jogar, eu jogava, mas eles não marcavam, ui, isso já é muita psicologia, aqui o Humberto não é pera doce, as esquerdas que se ponham a pau, ainda que não tenha sido essa ideia com que fiquei quando me falaste da Catarina, parecias mais um cordeirinho com das tuas idas à casa dela a comer bolo de chocolate e a beber limonada, um rapaz muito educado..., pois é, lembras-te de tudo, foi da conversa da Joaninha na exposição do Banksy, claro, uma princesa anda sempre a tentar encontrar onde está o coração do seu homem de ferro, resguarda-se, não pode andar por aqui por desdém, não sei se é muito boa estratégia procurar um coração no homem de ferro, não seria melhor encontrar logo daqueles de carne e osso que já anda com o coração na mão, sei lá, inscreveres-te num voluntariado qualquer e depois ver os homens que por lá andam, teria a vantagem de que à partida já teriam todos coração e depois poderias ir acrescentando algumas caraterísticas adicionais, tipo serem giros, ou ricos, ou outra coisa qualquer, como se diz, toppings?, pois é, mas eu gosto de riscos e essa abordagem seria muito comezinha, sabes que uma mulher que ser preze gosta de construir o seu homem, possui-se mais o que se constrói do que o que já existe, ah, muito bem, deixa ver, é a diferença entre comprar ações de uma empresa ou ter as ações por ser o seu fundador?, isso mesmo, o Humberto está sempre a puxar para os temas liberais, mas isso não é muito abonador da liberdade que queres dar ao outro, como assim?, então, se ele é a tua construção o pobre coitado pouco existe para além do que dele fazes, ai, Humberto, não percebes nada de mulheres, não percebes que nós somos muito cuidadoras, e para além disso, eu não disse que o coração não estava lá, disse que somos capazes do o revelar, e sim, é um egoísmo, pois é um coração só para nós que o descobrimos, queremos que ele continue a ser um homem ferro fora de casa, enquanto que esses que andam com o coração sempre nas mãos, sempre a praticar o bem nos outros, quase que não se podem mostrar às amigas, sabes, é como ser a mulher de um padre, aqui em Portugal não, que os padres já não gostam de mulheres, mas já reparaste bem nas mulheres dos pastores anglicanos?, digo isto pelo que vejo na televisão, parecem-te felizes?, como mulheres, claro,

domingo, 18 de agosto de 2019

Humberto, o homem de ferro

ó meu amigo, esta é uma praia séria, não vê as crianças?, então Bernardo!, estás bom?, ah, Humberto, estava a brincar, a tua mãe já me tinha dito que estavas por cá, quem é a princesa?, é a Cátia, este é o Bernardo, um amigo de infância aqui da praia, então foi você que desviou o Humberto das tarefas de oposição ao governo e o trouxe de regresso às origens?, não é que a censure, já há algum tempo que ele está dado como desaparecido entre este círculo de amigos, se o quisermos ver tem de ser na televisão, até já estava a estranhar que nesta semana nem isso, e afinal vens aqui para a areia incógnito, será que passaste para a clandestinidade?, olha que as esquerdas, que como todos sabemos, gostam muito pouco de trabalhar, resolveram não tirar férias, nada como uma greve para as baralhar, mas já viste que ninguém se levanta para apoiar os pobres dos motoristas, Humberto, Humberto, não seria de fazer mais alguma coisa, sim, sei que princípios são princípios, mas por princípio nunca se deve dar descanso aos adversários políticos, senão para o que é que serve a democracia?, esta generalidade do bem de Portugal é o normal dos estados totalitários, se não houver oposição qualquer governo consegue governar para o bem da nação, é como ter um campeonato de futebol de uma só equipa, ganha sempre o campeonato e não há quem jogue como ela, nem sabes como acertaste, Bernardo, olha que era isso mesmo que a Cátia me estava a dizer, quando tu chegaste, muito bem!, estou a ver que ela, para além de ser capaz de te tirar do saco, ainda de trouxe de volta às origens e para além disso também te dá bons conselhos, os meus parabéns, Cátia, o Humberto desta vez acertou em cheio, assim tem desculpa este interregno, até te desculpo o preparo em que estavas, já há um pouco que estava ali em cima e pensava, que é aquilo, e depois parecias tu, mas não parecias tu, é o Humberto, não pode ser o Humberto, nunca vi o Humberto tão entusiasmado, sabe que ele era conhecido entre aqui os amigos como o homem de ferro, isso claro foi no tempo da dama de ferro, da Thatcher, ainda não tínhamos nós 10 anos, mas o Humberto sempre foi muito reservado e frio, e claro que gostava do cognome, jogava futebol à defesa e era perito em cortar a bola, por isso é que não me parecia o Humberto, ao princípio pensei, não pode ser o Humberto, mas se é o Humberto, de certeza que saiu da caixa, pois é Cátia, aqui o Bernardo continua o mesmo brincalhão de sempre, é imparável, não era eu que era reservado, era o Bernardo que falava por todos, olha que não tenho a certeza disso, quem agora te houve a falar, és uma máquina, como foi que aquele comentador te apelidou?, ah, já sei, o logiciel politique, e acho que o facto de ser em francês foi um indireta às suas origens, que o Humberto aprendeu francês e a tocar piano, e agora tem uma lógica que arrasa, achas que foi?, Bernardo, ah, ah, ah, estou a brincar, até parece que não me conheces, olha, ainda vais estar por cá mais algum tempo?, temos que combinar nos encontrar, está por cá a malta, e de certeza que te vão querer voltar a ver, e aqui à Cátia, claro, que trouxe o Humberto de volta,

sábado, 17 de agosto de 2019

Merda, sou lúcido, ou não tanto

Humberto, Humberto, Humberto, não devias ao menos fazer uma declaração, disse Cátia dando meia volta, colocando-se de lado sobre a toalha, virando as costas a Humberto, como quem mostra desagrado, ou pelo menos algum enfado, essa tua passividade, aqui sobre a toalha, esse teu ajuizar, que pode estar muito certo, mas já li algures que a lucidez é o principal inimigo da ação, quase que aposto que houve alguém que disse isto, quem?, terá dito algo do tipo, merda, sou lúcido?, sim, sim, acho que foi isso, pois, é do pessoa, que não ia à praia e deu a um pedinte tudo o que possuía no bolso onde tinha menos dinheiro, tentou declamar Humberto de barriga para o ar gesticulando com ambos os braços em gestos arredondados, sim, exatamente, animou-se Cátia, procurando entreolhar-se, sobre os ombros, com um Humberto que já se poderia ter levantado, ou fazer intenção disso, mas que continuava deitado com o sol no peito, queres dizer que essa declaração deve ser assim, dada com o que tenho no bolso onde tenho menos dinheiro?, ignorando o que tenho no outro?, onde está o que realmente sei?, reduzindo tudo a trocos?, levou Humberto as mãos aos grandes bolsos dos calções de banho amarelos, como dois pontos de interrogação, então não!?, acho que estás a apanhar muito sol e que estranhamente ele te enche de melancolia, parece que tenho de ser eu a ensinar-te política?, e agora até sou também capaz citar pessoa, imagina que é uma declaração para o Esteves sem metafísica nenhuma, o que queres?, estás aqui, és o líder!, o Esteves quer ouvir o que tens a dizer senão vai pensar que já não gostas dele, dele que é convicto por profissão, ah, percebo, Cátia, urges-me a falar para as bases, disse Humberto questionando-se, sim!, claro!, a política tem horror ao vazio e podes ter a certeza que não é com declarações dizendo que o que te move é o bem de Portugal que o preenches, Humberto ri alto, ri muito alto, erguendo-se sobre os antebraços por forma a conseguir olhar para o rosto de Cátia, ai Cátia, há quanto tempo estamos juntos?, mais ou menos desde as europeias, que foram em finais de maio, portanto ainda não há três meses, e já dizes que a política tem horror ao vazio, sabes?, olha com ternura Cátia enquanto se coloca sobre ela, fazendo uma ponte com os braços esticados, um de cada lado, e esta se aninha sobre a toalha com uma expressão indefesa infantilómalandra, diz-me, minha pestezinha, és bem capaz de ter razão, mas de onde te vem agora esse interesse pela política?, ai, não sei, deve ser de conviver com o grande Humberto Mascarenhas, da direita liberal, e depois, sabendo o que vou sabendo sobre o Dr. Mascarenhas, sussurra Cátia, juntando as mãozinhas à frente e fitando Humberto pelo canto do olho, e o que é que vai a minha menina sabendo?, Humberto dobra os cotovelos, ameaçando deixar cair o corpo sobre Cátia, sei lá, que quando quer o Dr. Mascarenhas também sabe ser impulsivo, ui, só de imaginar, que não precisa se deixar levar em melancolias, que é lúcido, e está muito bem, mas não fica mal colocar um bocadinho mais de emoção, diz Cátia acenando convictamente com a cabeça,

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Uma pequena escapadela de volta à política

mas estamos para aqui sobre as toalhas, com estas conversas sobre as interioridades, com a maré veraneante a subir na ronha, e do outro lado, logo ali acima, logo a partir da marginal, a ameaça do país ser paralisado pela greve dos camionistas, Humberto, não achas que seria de fazer alguma coisa?, vejo-te tão descansado, pois é, até parece que estás aqui a falar comigo e a ler os comentaristas, deixa-me adivinhar, estão agora a dizer que os motoristas até têm razão e que o carro do pardal é irrelevante e que a direita não faz nada, sim, é isso que dizem, sabes, para perceber os comentaristas não é preciso lê-los com frequência, necessitas apenas de saber de vez onde se encontram, depois é como um pêndulo, vão e vêm, a não ser que aconteça algo de verdadeiramente excecional, caso contrário sabemos que estão sempre a antecipar um pouco o movimento da realidade, sempre a dar uma pequena corridinha para preencher o vazio que se lhe abre adiante, não muito, claro, que não são filósofos, mas um pouco à frente, só quando acontece algo de verdadeiramente relevante é que temos que os observar de novo para saber qual a nova direção, que por imposição da realidade, foi imprimida ao movimento do pêndulo, e aí, coitados, és capaz de os surpreender a dizer exatamente o contrário do que lhes antes ouviste dizer, e lá passa o Boris de bestial a besta, e de volta a bestial quando chega a primeiro ministro, e de regresso a besta de novo a 31 de outubro, é o poder das palavras, entendes?, mas acima de tudo, e isso é o que qualquer político sabe, se tens o poder és bestial, quando o perdes és uma besta, mas se queres uma imagem mais próxima, é um pouco como a ronha desta maré que aqui vem a subir, tenho a certeza que me consegues dizer onde estará daqui a pouco, os comentaristas são um misto de adivinhadores do óbvio e alvitradores das vantagens do que nunca irá acontecer, a utilidade deste último caso é que nunca poderão ser desmentidos que a solução que propõem não resultaria, e sempre poderão dizer, eu bem dizia, mas olha que é uma capacidade fundamental para a sobrevivência e que, graças a deus, está embutida no código genético da espécie humana, é olhando pela janela que decidimos se levamos, ou não, guarda-chuva, ai, Humberto, deixa-te desta ironia de areia, achas mesmo que não deves tirar algum proveito desta greve?, logo em período pós-eleitoral, pois é Cátia, é triste, mas é verdade, o que pode fazer a direita quando uma greve no setor privado ameaça um governo de esquerda com uma grande possibilidade de poder vir as ganhar as eleições e ficar à frente da economia nos próximos quatro anos?, se houvesse alguma possibilidade de não ganharem então poderia talvez o setor privado exigir desregulamentação, e esta greve não era uns poucos a tender para zero, mas sim um mais um igual a dois, os trabalhadores a pedir mais condições e as empresas também, só que aqui ninguém é parvo e quem tomar conta da economia nos próximos anos tem muito para dar, é por isso que estamos nós os dois a falar de interioridades, sobre estas toalhas, no areal, entre o mar e a marginal,

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Ah, o Afonso, segundo Cátia, questionado por Humberto

onde está o Humberto pragmático?, perguntas tu, onde está a Cátia namorada do Afonso?, pergunto-te eu, ah, o Afonso, também era nova, como tu, talvez um pouco mais velha, teria 24 anos e o Afonso 30, parece-me agora, passado este tempo, que fui como uma praia que acolheu um naufrago, e sabes, uma praia é um areal, como este aqui, é um ponto intermédio, entre a maré lá em baixo que já começa a encher, com a água a avançar em direção aos nossos pés, e a marginal ali em cima imóvel, também ele, como tu, pelo que me contas, vinha de uma qualquer oração, esteve algum tempo em coma por causa de uma overdose, sabias?, sim, sei, a namorada dele morreu, uma Susana, sim, a Joaninha contou-me, ele não falava dela, para ele parecia não ter existido, tal como esse passado, não que o negasse, porém não falava dele, não parecia fazer parte da sua experiência, para além de um ou dois episódios anedóticos, pelo que quando ele abriu os olhos, depois de ser cuspido pelo mar, deve ter sido como acordar numa cama e não recordar como se lá chegou, e aconteceu ser a mim que viu, eu tinha 24 anos, como te disse, e deixei-me enfeitiçar por aquele olhar, tomei-o como meu, sabes, o espanto de um rosto cobre com um véu platónico o que vê, eu não era a Cátia, era uma enorme catedral, ou um gigantesco desfiladeiro, imagina se o grand canyon pudesse sentir o assombramento que provoca nos seus visitantes, o seu poder, contudo, por outro lado, e isso levei algum tempo a perceber, a sua impraticabilidade por ser grande demais, não é por desceres pelos seus desfiladeiros até lá abaixo junto ao rio, nem por o sobrevoares, que o tomas como teu, era platónica a relação?, talvez, mas era mais uma relação platónica comigo mesma, eu era simultaneamente aquela que admirava o desfiladeiro e, simultaneamente, era o desfiladeiro admirado, sabes, como num fenómeno de identificação com um filme, não te identificas com um dos personagens, identificas-te com toda a história, e o Afonso?, ah, o Afonso, como te disse, chegou à praia onde viveu por um tempo, passou por lá o dia a dia, tratou das tuas miudezas, e a pós-dependência do Afonso era obsessivamente metódica, a dependência é uma criação de hábitos, recordas a Joaninha dizer que ele era um pouco obsessivo, o Afonso contava uma história engraçada, tinha ido a um festival de verão e um dia acordou de manhã cedo com um tipo a gritar na tenda ao lado, foda-se!, estou farto de dizer que a faca do haxe não é para a manteiga, acho que de alguma forma isso descreve um pouco a nossa relação, depois de Afonso ter vindo de uma viagem arriscada ficou com pequenos tiques de sobrevivência, repetitivos e aborrecidos, regrados, que nos meus 24 anos eu tomei como formando as paredes, ruas, e esquinas do meu mundo, levei tempo a perceber que não tinha de ser assim, quantos anos estiveste com ele?, quase seis anos, e depois?, depois pode-se dizer que foi como tu, saí do armário, ah, Cátia, parece que temos algo em comum, talvez, mas eu tive de sair de um armário onde de livre vontade me deixei fechar e o teu foi feito de uma falta de alternativa,

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Oh, o Armindo, segundo Humberto, questionado por Cátia

quem é o Armindo, Humberto?, isso pergunto-te eu, que Armindo surge em o mistério, Cátia?, já li há algum tempo, mas pelo que recordo, é um adolescente, forte, abrutalhado, para o redondo, que revela uma sexualidade hesitante, entre o Zé e a Joaninha, embora a atração pela Joaninha desperte quando ela mostra que não o teme, filho de um bruto e uma mulher engelhada, curioso, ele nunca me falou do pai, mas falava frequentemente da mãe, foi teu namorado?, mais ou menos, há muitos anos, talvez mais de vinte, nessa altura fiz muita loucura, difícil dizer que era namorado, até porque ele tinha outros, sim?, e isso não te incomodava?, não, eu era muito novo, estava a descobrir a minha sexualidade, a sair do armário, como se diz, nessas alturas acabas demasiado concentrado com o que te está a acontecer, é como se a mente tivesse soltado o corpo e passasse depois todo o tempo a o observar, não se conseguindo concentrar em mais nada, a não ser no que lhe chega através dele, levei uns anos até que a mente voltasse a ser senhora, a retomar o comando, até lá a minha sexualidade foi puramente empírica, sintetizava as experiências que tinha, não conseguia, ou nem sequer procurava, impor um modelo, uma regra, mas, ele era abrutalhado, como o Romeu o descreve?, quando o conheci ele já tinha quarenta e muitos anos, quase cinquenta, mas continuava um diamante em bruto, com uma ternura infantil, por vezes pensei que ele pudesse ter qualquer coisa de idiota, havia uma intensidade tremenda e um desinteresse igual, não parecia querer possuir nada, para mim foi um choque, possuía intensamente e depois desaparecia, não sabia dele, e, como te disse, habituei-me a isso, embora não tivesse tido outro naqueles dois anos, como disse, não era namorado mas guardava-me para ele, mas isso não te deixava ansioso, ciumento?, sim, é engraçado, há estados de plenitude em que nem pensas nisso, mas também não tenho a certeza que tenha sido isso, talvez mais uma cegueira, como te disse a mente tinha soltado o corpo e apenas olhava para ele, para sentir ciúme talvez tivesse de imaginar outros corpos, o que te atraiu nele?, conheci-o por acaso, numa discoteca, ele era mais velho, mas foi o oposto daquelas atrações por homens mais velhos guiadas pelo status, sabes, tipo descapotável, o que recordo logo é o corpo, fazia musculação, um pequeno adónis, sim, é verdade, um pouco para o redondo que o ginásio mantinha maciço, silencioso, sim, acho que era isso, o silêncio do corpo dele, entendes o poder do silêncio para um corpo que está em ebulição, que não tem descanso, que não dá descanso, quando encontra outro que impõe respeito, é como um altar onde fazes a tuas preces, onde vais em tormento à procura da paz, ah, o Armindo, até na morte se manteve assim, silencioso, idiota, a única coisa que desapareceu foi o corpo, como uma religião que se expurga de representações, e para mim era muito fácil, sabes, é muito fácil amar o transcendente, talvez seja essa a resposta que te posso dar acerca da questão do ciúme e da ansiedade, surpreendes-me, onde está o Humberto pragmático, Humberto?,

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Agora sobre L’Ancien Regime, Humberto e Cátia

mas uma coisa que me surpreendeu foi como o Romeu acabou por fazer uma descrição tão à letra em l’ancien regime, pelo menos no que diz respeito à história da Joaninha e do Zé, não é preciso muito para perceber que é deles que se trata, mais ao menos, talvez pela história de antifascista do pai da Joaninha, e os nomes deles os dois e mais alguns dos outros personagens, os Aires, por exemplo, mas tudo o resto foi inventado, ele usou as pessoas reais para construir uma história que pouco ou nada corresponde à realidade, pelo menos segundo a Joaninha, recordo que era frequente, quando jantávamos juntos, ela se meter com ele, dizia-lhe, aqui o nosso Romeu é o oposto daquilo que os fotógrafos eram para alguns povos indígenas, ele roubou-nos os corpos e os locais para depois lá colocar as almas que lhe apraz, e então ria, e dizia, bom, no meu caso que sou materialista, só posso dizer que o Romeu nos roubou tudo, pelo que ele me atemoriza tanto como os fotógrafos atemorizavam os índios, veja-se só as obras do realismo soviético, acrescentava para o desafiar, ela gosta mesmo dele, como te disse, a sério?, ela disse isso?, achas mesmo que a história de l’ancien regime tem pouco a ver com a realidade?, sim, pelo menos era o que ela dizia, mas vá-se lá saber?!, e o Zé falava alguma coisa sobre esse tempo?, o Zé nunca falava do assunto, mas sempre que a Joaninha dizia que o Romeu tinha inventado toda a história, se o interrogávamos com o olhar, ele apenas retorquia ui!, ui!, ui!, ui!, sabes que eu apenas tive conhecimento que o Armindo era amigo deles anos mais tarde, depois de ele ter morrido, quando vi l’ancien regime, primeiro por ser do Romeu associei com o Zé a Joaninha, e depois fui recordando o que o Armindo me contava sobre a terra dele, os nomes das pessoas e algumas histórias, tu conhecias o Armindo?, sim, conhecia, ah!, mas então a história da morte do capitão simões nunca aconteceu?, acho que não, pelo menos a Joaninha dizia que o pai esteve preso por ser comunista, nunca foi acusado de ter morto alguém, embora tenha havido de facto um capitão simões que apareceu morto no chão junto à cadeira no posto da guarda onde era o comandante, mas não parece que tenha sido considerado um homicídio, a história do garrote foi completamente inventada, conheceste portanto o Armindo, sim, conheci, como disse, foi só quando vi na televisão que associei com algumas coisas que ele me contava sobre locais e pessoas que tinha conhecido, pelo que um dia encontrei a Catarina e perguntei-lhe se ela o conhecia, e ela recordou que os pais tinham comentado um dia, olha, o Armindo morreu, parece que foi sida, mas, olha, isso do capitão simões não ter morrido com um garrote tem piada, pois uma das partes mais engraçadas foi a disputa entre a carta e o bigode chinês, tem de se concordar que foi arrojado terem feito aquilo em televisão, ainda por cima numa novela, com que então o Humberto conheceu o Armindo..., como sabes tu do Armindo?, eu li a segunda parte, que vão filmar agora, o mistério, em que ele surge, mas, segundo a Joaninha, esta parte ainda é mais fantasiosa que a primeira,

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Humberto e Cátia acerca de Romeu

Sabes, comenta Cátia na maré baixa, que parece que vão fazer uma segunda temporada de l’ancien regime, creio que se vai chamar o mistério, o quê, aquela história do Romeu?, sim, parece que sim, já está escrita há muito tempo, na altura, quando a cancelaram ao fim da primeira temporada o Romeu ainda apareceu a falar da segunda, creio ser sobre o fim da infância, princípio da adolescência, da joaninha e do zé, acho que recordo alguma coisa, ele não fez algum burburinho quando cancelaram a segunda parte?, até se queixava de perseguição, mas depois tudo se desvaneceu naquelas insinuações que surgiram nas revistas cor-de-rosa acerca das amantes que tinha, de um caso com uma atriz francesa, não era?, sim, a famosa Sylvie, mas parece que era apenas a ponta do icebergue, sim, essa mesmo, pelo que vi numas fotos, uma matrona, uma balzaquiana, quem diria, o Romeu, quando o conheci no secundário era o certinho dos certinhos, ui, sim, na altura eu ainda andava com o Afonso, foi um problema e peras, nem imaginas, e não vais acreditar quem mais o defendeu, quem?, imagina só, a Joaninha, é uma mulher muito estranha, mas idolatra o genro, e o genro é de direita, mas é assim, ela com os homens tolera tudo, o Zé, o Afonso, o Romeu, com as mulheres é sempre mais complicado, nem imaginas como era comigo, então? viste-a na exposição do Banksy, só falava contigo, quando dizia algo referente a mim era como se já estivesse conversado, eu estava ali apenas como exemplo, tu eras quem ela se estava a medir, és capaz de ter razão, mas voltando ao Romeu, é-me difícil perceber como é que isso aconteceu, ainda recordo quando andava com a Catarina e ele apareceu, fiquei completamente arrasado pela certeza e segurança que ele tinha em tudo, fez com que a Catarina passasse de mim para ele pelo caminho das pedras, foi muito suave, eu quase que não dei por nada, quando foi já estava feito, pois, sim, creio que teve daquelas educações muito certinhas, muito corretas, sabes quem foi o tio dele?, ele foi educado por forma a nunca sair dos carris numa altura em que tudo andava a descarrilar, sim, sei, pois, então, acho que aquilo ou dá num pãozinho sem sal muito bem comportado, ou então é como um relógio disparatado, não avariou, continuou a trabalhar, esse foi o problema, mas depois as horas nunca batiam certas, mas quem é que ia dizer que ele não estava a funcionar bem?, tirava-se do bolso, olhava-se para ele e ouvia-se um tique-taque, tique-taque, bem certinho, mas depois levantava-se a tampa e andava completamente destrambelhado, e a Sylvie foi a mais mediática, mas houve outras bem mais selvagens, e a Catarina?, a Catarina é como a mãe, não vai abaixo facilmente e aquilo só se resolveu-se recorrendo uma conjugação de forças terrenas e celestes, a sério?, o quê?, estás a brincar comigo?, não estou nada, eu que na altura estive por dentro sei bem, foi hilariante, e uniu todo o espetro político, parece agora a greve dos motoristas de matérias perigosas, ah ah ah, e como está ele agora?, não sei, parece bem, parece fazer tique-taque,

domingo, 11 de agosto de 2019

Ainda sobre as toalhas, Humberto e Cátia

Ai, Cátia, também não é tanto assim. Humberto dá uma volta sobre a toalha, evitando colocar as mãos na areia, sentando-se com as pernas fletidas, cotovelos sobre os joelhos, queixo sobre os punhos fechados, de cara defronte ao mar. Isto é tão tranquilo. Foca a embocadura onde uma costura de espuma branca sela as escarpas descendentes, saltitantes, entrecortadas, em direção à água. Olha para as crianças a brincar, achas que não estão na praia? Gira ligeiramente a cabeça, deslizando o queixo sobre a passadeira rolante de dedos ajustados, varrendo com os olhos a pele escura de Cátia, toda de costas, os calcanhares, as costas das pernas, as costas das nádegas, as costas das costas, os omoplatas, os ombros de costas, as costas do pescoço arqueado, até às costas da cabeça com a testa de encontro à toalha. Não sabe bem estar aqui e sentir o calor do sol no corpo? Cátia apoia-se sobre os braços, dobrados pelos cotovelos, amplificando o arco, despegando o peito da toalha, primeiro, depois elevando ligeiramente as ancas, arrastando as pernas, deixando um sulco na areia fina, vira a cabeça na direção de Humberto, apoia lateralmente a cabeça sobre a toalha, contrai o rosto de cima para baixo, da testa para o queixo, alargando-o de lado para lado, de face para face, descrevendo um risco aumentando pelos lábios prolongados, e diz. Sou uma chata, não sou?, Humberto, e nos últimos dias, então, tenho andado impossível, não tenho? Humberto retira as mãos do queixo, leva a direita à procura da orelha, que aperta entre os dedos e resguarda com a concha da mão, segurando a cabeça, e com as pontas dos dedos da direita percorre o enorme sulco de arrependimento, e diz. Não és nada. E repete. Não tens sido nada, Cátia. Cátia, dá uma pequena reviravolta, levanta a cabeça da toalha, coloca-se de lado, apoia-se no antebraço, com a mão já sobre a areia, e o braço esquerdo ao longo do corpo com a palma da mão arqueada, os dedos pendentes, e as pontas das unhas marcando quatro pequenos sulcos na pele onde pousam, enquanto o polegar se entende sobre a coxa castanha regalando-se com a unha vermelha. Estás a ser simpático, sabes bem que nesta última semana nunca estive satisfeita com nada, sempre a implicar, até podia dizer que estava com o período, mas nem isso, não sei bem porquê, mas só me apetece chatear-te. Humberto deixa-se de lado, a perna direita sobre a esquerda, apoia a cabeça na mão, e diz. Não dei por nada. Não me parece que tenhas estado a chatear-me, mas se calhar foi alguma coisa que eu fiz, alguma coisa que não gostaste. Não sei Humberto, até agora encontrávamo-nos principalmente à noite, muitas vezes até mesmo no fim de semana, pois tu tens sempre coisas para fazer, e os breves momentos antes de dormir e depois de acordar eram particularmente preenchidos, com histórias para contar, comigo com curiosidade de saber da tua perspetiva sobre alguma coisa que tivesse acontecido, ou que se discutisse, mas agora passamos todo o dia juntos, acho que não estou habitada. Olha, olha, Cátia, não quero parecer preconceituoso, isso não parece ser coisa de mulher.

sábado, 10 de agosto de 2019

A praia de Humberto, segundo Cátia

Ai, Humberto, esta não é a minha praia. Gosto de areia, sim, mas de areia a sério. Esta aqui não tem personalidade, agarra-se entre os dedos com a falta de independência de quem vive na peugada de outro. Não nos larga. É uma sombra de areia, é o que ela é. Sim, já disseste que é depositada na baía pelo rio lá ao fundo, mas que interessa isso, justificações não fazem destinos. Ela é isso mesmo, uma pretensão de mar trazida de terra, uma areia de trazer por casa. E depois, claro, há esta ausência de mar. Mar rima com ondas onde te possas afogar, e aqui é tudo tão tranquilo. Estas lambidelas na areia são a submissão do fraco ao enfraquecido, e a maior prova deste conluio de vencidos é essa mistela que fica aqui a boiar turvando o olhar, a água e a areia enroladas, incólumes à força da gravidade, como que conspirando. Uma mão lava a outra e as duas lavam as costas. Pois, uma finge-se areia e a outra finge-se mar, e se não se denunciarem podem então afirmar que são praia, e não há quem as contradiga. É uma negação das leis da natureza, e esta encenação está para uma praia como um jardim zoológico está para a selva. Ai, Humberto, trouxeste-me e eu vim, e agora estamos aqui os dois sobre as toalhas com aquele lambe, lambe, lá em baixo, sem um ameaço de onda que nos faça dar um salto e puxar das roupas numa corrida. Sim, concordo que tem uma certa beleza geométrica, uma perfeita concha, mas é vista de fora. Foi o tato vendido pelo preço do olhar. Uma inevitabilidade, tu dirás, acostumado que estás ao compromisso político. E se calhar tens razão. O prazer pela harmonia das formas acabou por suplantar o do tato. Somos atraídos pelos olhos, eu sei, mas depois deviam colocar um aviso, como nas exposições de arte, por favor não tocar, não danifique a obra de arte, deixe que as futuras gerações possam também desfrutar. Ah, o prazer do olhar das futuras gerações e o enfado da universalidade. O futuro é puramente geométrico e deviam contratar japoneses para começar já a desenhá-lo. Uma elegância tão sadia como intocável. Tão suave como retilínea, até mesmo nas linhas curvas, que possuem a única retidão possível num mundo redondo. O futuro explicado por amplos movimentos de braços e leves acenares. Pronto, aquiesço, é uma concha perfeita, mas depois gostava de me atirar a ela, enterrar as mãos na areia e tirá-las para fora, não sujas pelos materiais utilizados pelo artista, mas a brilhar de pedrinhas de areia, convictas do corpo a corpo com as ondas, habituadas a serem engolidas e cuspidas de volta, é isso que as torna escorreitas, como um corpo moldado pela corrida. E depois gostava de me poder levantar desta toalha, Humberto, não para me banhar em belas formas, não para me submergir matematicamente, de acordo com uma fórmula qualquer, que equacione o suave declive com a brandura do ondular, mas para me afundar pelo súbito declive baralhado pelos picos das ondas. E aqui estamos nós sobre as toalhas, Humberto, contando o tempo com os dedos dos pés, empurrando a areia de encontro ao encher do mar.

domingo, 28 de julho de 2019

Humberto e Cátia entram na Silly Season

Desculpa-me que te diga Humberto, mas parece que tu entraste na silly season ainda em julho. Como assim? Então, onde foste desencantar aquele artigo de opinião que escreveste para o Opinião Publicada? Qual?, o da Direita e as Espécies Autóctones? Porquê?, escreveste outro?, não me digas que foi na Playboy?, deixa-me adivinhar... sobre a direita e as mulheres de leste com mais de um metro e setenta e cinco de altura. Lá estás tu na brincadeira. Então não, ateiam o fogo às espécies autóctones, e com a vantagem de fazer correr as populações para as labaredas, e não das labaredas, a se virem queixar será apenas delas próprias, lá está o princípio da responsabilidade individual, quem não tem unhas não toca guitarra, embora não sei o que dirá o senhor bispo, mas, tirando isso, assenta bem à direita, já que é um negócio bem liberal, não pagam impostos, se querem saúde têm de ir ao privado, que presta um muito melhor serviço, como elas próprias, que sabem como é, o sexo sem a muleta do amor, num ambiente verdadeiramente concorrencial, é à séria, sem a ajudinha do estado a amparar a ineficiência com os seus contratos de trabalho, a coisa menos bem feita e o cliente não fica satisfeito e não volta, e o seu patronato rege-se pelas regras do mercado, se o negócio corre mal também não vêm cá pedir a ajuda do estado, têm é que resolver as coisas com uma mais eficaz gestão da sua força de trabalho em vez de concorrem a algum subsídio da europa, mas com a vantagem de não haver cá regulamentações para atrapalhar, podem despedir as preguiçosas que apenas sabem abrir as pernas e fechar os olhos. Ui, tu hoje acordaste com a corda toda, passaste a noite a sonhar isso, ontem quando nos deitámos não estavas assim, parece-me que já sei quem foi que entrou na silly season. Ai, desculpa-me Humberto, acho que deve ser inveja, se não fosse morena gostaria de ser uma loira volátil, acho que é um dos meus fetiches sexuais. Ai sim? Sim, não sei, se calhar o que sonhei esta noite foi que pegavas em mim pela cintura, dava-me a volta, dobravas-me sobre o teu colo, de rabo para o ar e me davas umas valentes palmadas só para veres o meu rabo vermelho de fogo e a cabeleira loira a esvoaçar em labaredas azuis, violeta, amarelas, com tal violência que não haveria bombeiro com coragem de lá aproximar sequer a mangueira. Ui, isto está mesmo mal, onde foste desencadear isso do bombeiro. Ai, Humberto, não percebes nada, o que quer uma loira volátil senão um senhor que saiba conter o seu fogo, que não a deixe andar para aí ao deus dará. Faixas de contenção? Lá estás tu com burocracias, pareces mais da direita salazarista do que da liberal, não há faixa que contenha o fogo de que falo, a história está cheia de histórias de valas galgadas, muros trepados e varandas escaladas, nunca leste o Boccaccio, o que são os fogos florestais ao pé dos ardores de carne humanos?, a não ser a aparente paz que deixam depois de passarem, a ilusão que não voltam. Ui, estou a ver que a silly season vai ser animada. Não sei não, tens é de te ir preparando para uma nova ordem, para o fim desta norma patriarcal.

sábado, 27 de julho de 2019

Humberto Mascarenhas e as espécies autóctones. Opinião de José de Mendonça

A direita vive numa encruzilhada à qual Humberto Mascarenhas, num artigo de opinião neste jornal, procurou dar resposta. Em boa verdade, é louvável o franco interesse que demonstrou para abordar com profundidade assuntos que ficam, na maior parte das vezes pelas caixas de comentários dos jornais, deixando-se de generalidades, quando deve haver um debate sério. O artigo de Mascarenhas, intitulado A Direita e as Espécies Autóctones, constrói-se como uma grande metáfora sobre o ordenamento do território, e não só, agora que a questão dos fogos ressurge, com engenhos ou não, no dia a dia televisivo dos portugueses, a escassos dois meses das eleições e perante o espetro de uma maioria absoluta dos socialistas. Tem Humberto Mascarenhas a coragem de dizer, todas as espécies ardem, os pinheiros e os sobreiros tal como os eucaliptos. E acrescentou, e todos sabemos que o papel é importante, que o digam os jornais, até mesmo os digitais, acentuou. Por isso, para verdadeiramente se combater as labaredas é necessário um eficaz ordenamento do território, onde a exclusividade não seja dada às espécies autóctones, e aí a direita tem um papel único face ao conservadorismo anti progresso da esquerda, que não tem nada a acrescentar, pois sempre que chega o momento de decidir mostra a sua preferência pelos que sempre aqui estiveram, conclui. Muito bonito. Temos de tirar o chapéu a Humberto Mascarenhas que como que num golpe de ilusionista procura fazer escapulir a direita por uma fisga do canto onde se deixou encurralar pela geringonça. Aquilo que pergunto é, será que escapa mesmo? Que espaço é este para onde Mascarenhas pretende reposicionar a direita? Será para o lamaçal do multiculturalismo que recusa comparar o sobreiro ao eucalipto, arguindo que se ardem por igual e em tudo o resto são singulares. Será que pretende dizer que para ele tanto lhe faz manjar migas de porco preto como barbecue de canguru? Pode ser para ele, mas não para a direita para quem a família é primordial e as migas da infância o supremo referencial, e tão mais superior quanto mais fartas tiverem sido. É certo que Humberto Mascarenhas realça que as forças de progresso são liberais e de direita, que deve ser o mercado a determinar o caminho, pois todos sabemos que só o mercado tem a capacidade promover a inovação para solucionar os problemas se que colocam, como o fogo. Sim, nunca é demais relembrar que a Direita é o Progresso e a Esquerda o Comodismo. Vejam-se as empresas públicas, as escolas e os hospitais, e esta sociedade cheia de interesses pessoais, favores e familygates. Acabe-se com o SNS e logo todos teremos melhores cuidados de saúde, basta colocar o mercado a funcionar. Mas é preciso ter cuidado com as metáforas, uma vez que o sobre o que não dissermos podem dizer os outros por nós. E, no que diz respeito aos eucaliptos, a metáfora permite à esquerda a contra argumentar que a floresta de eucaliptos necessitas de nómadas aborígenes, e lá voltamos facilmente ao tema sensível para a direita dos ciganos, e as consequências serão calamitosas.

sábado, 13 de julho de 2019

Humberto e Cátia e agora pode-se

O polegar da mão esquerda de Humberto roça a testa de Cátia enquanto os restantes dedos, estendidos, pairam como a asa de uma águia sobre os desfiladeiros de uma montanha. Pareces preocupado? Interroga-se Cátia com uns enormes olhos abertos e brilhantes, como só os japoneses são capazes de imaginar. Humberto sorri e leva lentamente o polegar a esquiar a encosta do nariz até ao planalto debaixo do olho. O que te preocupa? Repete a interrogação agora apenas com o olhar. Estou a pensar naquela história do podemos?, não, não podemos. O dedo de Humberto imobiliza-se. Achas que o racismo possa estar a aumentar? Pergunta-lhe Cátia com uns lábios que se projetam para fora, grandes e repolhudos. Não sei, e não é essa a questão. O dedo de Humberto abeira-se da cavidade ocular de Cátia, pressionando levemente o osso, coreografando um vai e vem sobre o cume. Não? A face de Cátia contrai-se. Não, o que interessa saber é o que se pode falar e o que não se pode falar, a moral é primeiro um consenso e depois uma questão de pudor. Humberto tomba o dedo de modo a se arrastar na superfície macia. E então, qual é o problema? Cátia fecha os olhos para se entregar ao dedo. O problema é que agora parece que se pode, e quando se pode falar de algo que se receava falar é como um barco que se coloca em movimento, e os barcos têm muita inércia. Humberto imobiliza-se e fecha também os olhos. Mas o que é que isto tem a ver contigo? Cátia abre os olhos com brandura. Tem a ver com a direita em geral, tem a ver com a decisão se vamos ou não no barco. Humberto contrai os lábios e abre os olhos para o dedo imobilizado, como um travessão. E porque que terias de ir? Cátia levanta ligeiramente a cabeça, traçando um emaranhado de fios ondulados de cabelos pretos em direção à almofada. Pois, como te disse, uma vez que se perca o pudor o barco facilmente se enche daqueles que antes tinham vergonha, e agora será só para isto que estarão despertos. Humberto afaga a face de Cátia entre o polegar e o indicador. Mas tu não tens de embarcar. Há na expressão de Cátia uma dúvida. Não, claro que não, mas há uma libertação que resulta do soltar do reprimido, e essa libertação tem socialmente muita energia. Traz os dedos ao longo da cara até junto aos lábios de Cátia. Sabes. Continua. As pessoas não contam nos movimentos sociais, as pessoas apanham os movimentos sociais, não há grandes líderes pessoais, há pessoas que cavalgam os movimentos sociais, como se cavalga um cavalo selvagem. A palma da mão de Humberto poisa sobre os lábios de Cátia, escondendo-os. Mas isso tem algo a ver comigo, com eu ser de cor? Ressoa debaixo da mão de Humberto. Não, estes movimentos até adoram exibir os seus espécimes, que neguem as generalizações de que se alimentam, é a sua quadratura do círculo. Sorri, levando a palma da mão ao queixo de Cátia. Mas porque não abordas o tema de uma forma racional, sem embarcar, marcando a tua posição? Cátia ergue-se sobre os cotovelos. É possível, mas não podemos esquecer que é um cavalo selvagem. Responde Humberto.

domingo, 7 de julho de 2019

Humberto, Cátia e Joaninha na Cordoaria Nacional

Parece-me que viemos os dois ao engano. A voz está ali ao lado de Humberto, colocada à altura do seu peito. O Afonso insistiu tanto que deveria vir, que remédio tive eu, suspeito que também deva ser uma vítima. Joaninha passa o olhar para o outro lado de Humberto, para Cátia. Olhe que quando o comecei a ver na televisão, Humberto Mascarenhas, não o reconheci, mas depois foi a Catarina que me disse, sabes quem é o Humberto Mascarenhas?, é aquele namorado que eu tive na adolescência. Levantou a cabeça em direção a Humberto. Aquele antes do Romeu?, um muito educado?, perguntei-lhe eu. Balanceou a cabeça. Sim, que vinha cá lanchar, bebia limonada e adorava o bolo de chocolate da mãe, confirmou-me ela. Sorri desafiadora. Continua um belo rapaz, bom, agora já um homem. Encara Cátia. Li que descobriu o amor?, nunca é tarde. Observa a menina com um balão vermelho exposta na parede. Sabe que o meu pai esteve preso, um preso político, vi-o muito pouco em toda a minha infância e adolescência. Queda-se absorta. O Afonso gosta muito disto, mas parece-me que estas crianças que surgem por estas paredes são todas filhas de pais separados, os balões que lhes escapam das mãos são pura imaginação. Retira o pensamento do quadro. O Afonso agora passa o tempo a ler sobre os sistemas de vigilância eletrónico, sobre a recolha de dados, não fala de outra coisa, sempre foi um pouco obsessivo. Retorna a Cátia. Talvez seja por isso que gosta tanto disto, por ser tão exageradamente antissistema. Roda a cabeça em volta. Só aqui entre nós, senhor da direita, isto é um pouco Bloco de Esquerda, não concorda?, inflamado e inconsequente. Sorri, procurando concordância, para Humberto. Nós, e vós, sabemos para onde ir, o nosso protesto é um meio, a vossa reação a reação, mas aqui o protesto parece ser o fim. Olha Humberto nos olhos. Está tudo no título da exposição, génio ou vândalo? Ri. Que raio de pergunta, nem uma coisa nem outra, se me é permitido, não concorda? Roda o corpo levando Humberto e Cátia a girarem com ela. Um iconoclasta, dizem, treze euros a entrada, respondo eu. Dirigem-se em direção a um quadro com o acidente da carruagem da Cinderela. Que destruição de imagem existe aqui?, com esta imagem tão forte. Estacam em frente aos flashes que capturam o corpo distendido da princesa. Quando era pequeno, o Afonso considerava-se um libertador voador dos oprimidos, aquilo fazia-me confusão, o Zé dizia que não podíamos contrariar o tempo, dizia que voava, mas ao menos era para libertar os oprimidos, não para prender os assaltantes de bancos, isto já foi há muito tempo, como devem imaginar, agora são os bancos que assaltam o estado. Levanta ambos os braços em exclamação. Pareço-lhe muito antiquada, senhor da direita? Aponta para a princesa falecida. Talvez tenha tido o azar de nascer antes da princesa do povo, as princesas de que ouvia falar eram aquelas que foram fuziladas para libertar o povo, sem necessidade de asas, apenas pelo cano das armas. Para subitamente, procurando o impacto em Humberto. Estou a brincar, mas é para não esquecer que ainda estamos aqui. Ri.

sábado, 6 de julho de 2019

Humberto e Cátia acerca de Banksy

Que tal irmos hoje à tarde ver a exposição do Banksy? Cátia está deitada de barriga para o ar, de cabeça enterrada na almofada. Qual exposição? Humberto abre os olhos deitado sobre o lado esquerdo com a cabeça meio flectida, queixo junto ao peito. A que está na Cordoaria Nacional. As pestanas estendidas nos olhos semiabertos de Cátia dão-lhe a tonalidade de lagarto de quem acabou de acordar. Banksy é muito Bloco de Esquerda, não sei porque o deixam expor na Cordoaria Nacional. A barba loira prolonga-se peito abaixo em tentaculares ondas japonesas. Não gostas, é isso? As mãos de Cátia cruzadas sobre o peito, debaixo do lençol, formam um perfeito patamar retangular que divide o seu corpo em duas partes, como num número de ilusionismo. Pessoalmente não me faz diferença nenhuma, é mais pelo simbólico, um local que representa a nossa saga marítima, uma intersecção, tardia, é certo, entre o nosso espírito de aventura mercantilista quinhentista e a industrialização iluminista setecentista, e acima de tudo pela pretensão de desafio do tempo dado pela imponência austera do edifício. O corpo longo de Humberto encontra-se descoberto, estendido, com as pernas sobrepostas, indefectíveis à aplicação do fio de prumo. Incomoda-te então essa intromissão? Os pés de Cátia entreabertos provocam uma falha que lhe percorre o lençol até aos joelhos. Sim, claro, o simbólico é o alento do conservador e o seu aviltamento obra da arruaça, o que é da rua deve ficar na rua. O punho fechado de Humberto, sobre as cuecas rectangulares, define uma cúpula de uma simetria a três tempos, conjuntamente com a proeminência da cabeça arredondada e dos pés bicudos apontados para o fosso aberto pela beira da cama. Incomoda-te um pouco como a geringonça, ou o acordo ortográfico? O cotovelo esquerdo de Cátia, bem junto ao corpo, é base do trapézio retângulo que sustenta o patamar e se alinha na perfeição com o resto do corpo de Humberto, como duas paredes paralelas face a face. Como te disse, pessoalmente não me fazem diferença, os resultados são os mesmos, como vês, o controlo do défice da geringonça é uma política de direita, e, objectivamente, nada difere depois do acordo ortográfico, a não ser, claro, o simbólico. A cama onde se encontram deitados é o quarteirão onde o amanhecer encontrou os corpos depositados. Mas, então porquê essa insistência, porquê essa aversão? Os olhos de Cátia são dois caroços de azeitona sob as meias pálpebras. Sabes, eu próprio aderi no início ao acordo ortográfico, mas depois percebi que não era aí onde estavam as forças do simbólico. As ondas encapeladas da barba de Humberto possuem um movimento estático pronto para lamber o edifício do seu corpo. Como assim?, não tens receio que depois te possam desmascarar, que não és coerente? Os cabelos de Cátia sobem por ambas as ladeiras da almofada. Não, a política é a arte do presente projectado no futuro onde o passado não existe para além do simbólico. O rosto de Humberto irradia a luz de um Cristo, possui os seus olhos, a sua boca, a sua tranquilidade.