Desculpa-me que te diga Humberto, mas parece que tu entraste na silly season ainda em julho. Como assim? Então, onde foste desencantar aquele artigo de opinião que escreveste para o Opinião Publicada? Qual?, o da Direita e as Espécies Autóctones? Porquê?, escreveste outro?, não me digas que foi na Playboy?, deixa-me adivinhar... sobre a direita e as mulheres de leste com mais de um metro e setenta e cinco de altura. Lá estás tu na brincadeira. Então não, ateiam o fogo às espécies autóctones, e com a vantagem de fazer correr as populações para as labaredas, e não das labaredas, a se virem queixar será apenas delas próprias, lá está o princípio da responsabilidade individual, quem não tem unhas não toca guitarra, embora não sei o que dirá o senhor bispo, mas, tirando isso, assenta bem à direita, já que é um negócio bem liberal, não pagam impostos, se querem saúde têm de ir ao privado, que presta um muito melhor serviço, como elas próprias, que sabem como é, o sexo sem a muleta do amor, num ambiente verdadeiramente concorrencial, é à séria, sem a ajudinha do estado a amparar a ineficiência com os seus contratos de trabalho, a coisa menos bem feita e o cliente não fica satisfeito e não volta, e o seu patronato rege-se pelas regras do mercado, se o negócio corre mal também não vêm cá pedir a ajuda do estado, têm é que resolver as coisas com uma mais eficaz gestão da sua força de trabalho em vez de concorrem a algum subsídio da europa, mas com a vantagem de não haver cá regulamentações para atrapalhar, podem despedir as preguiçosas que apenas sabem abrir as pernas e fechar os olhos. Ui, tu hoje acordaste com a corda toda, passaste a noite a sonhar isso, ontem quando nos deitámos não estavas assim, parece-me que já sei quem foi que entrou na silly season. Ai, desculpa-me Humberto, acho que deve ser inveja, se não fosse morena gostaria de ser uma loira volátil, acho que é um dos meus fetiches sexuais. Ai sim? Sim, não sei, se calhar o que sonhei esta noite foi que pegavas em mim pela cintura, dava-me a volta, dobravas-me sobre o teu colo, de rabo para o ar e me davas umas valentes palmadas só para veres o meu rabo vermelho de fogo e a cabeleira loira a esvoaçar em labaredas azuis, violeta, amarelas, com tal violência que não haveria bombeiro com coragem de lá aproximar sequer a mangueira. Ui, isto está mesmo mal, onde foste desencadear isso do bombeiro. Ai, Humberto, não percebes nada, o que quer uma loira volátil senão um senhor que saiba conter o seu fogo, que não a deixe andar para aí ao deus dará. Faixas de contenção? Lá estás tu com burocracias, pareces mais da direita salazarista do que da liberal, não há faixa que contenha o fogo de que falo, a história está cheia de histórias de valas galgadas, muros trepados e varandas escaladas, nunca leste o Boccaccio, o que são os fogos florestais ao pé dos ardores de carne humanos?, a não ser a aparente paz que deixam depois de passarem, a ilusão que não voltam. Ui, estou a ver que a silly season vai ser animada. Não sei não, tens é de te ir preparando para uma nova ordem, para o fim desta norma patriarcal.
In 25 de abril sempre (2019)