Numa recente entrevista, daquelas que surgem nos suplementos de fim de semana dos jornais, em que os políticos são convidados a fazer um pouco de sala, pode-se dizer que Humberto Mascarenhas não se saiu mal, falando de assuntos que aparentemente não têm a ver com a política, mas que mostram o seu lado humano, dizendo mesmo coisas muito nobres e louváveis. Primeiro, referiu a mãe idosa, onde colocou notas de ternura e reconhecimento, tendo nós ficado a saber da forte ligação que lhe tem, como acompanha a sua velhice, as visitas regulares que lhe faz, revelando mesmo minudências de origem, como ser um filho tardio, que, quer se queira quer não, muito agradarão aos reformados, numa altura em que o seu voto nas legislativas é cada vez mais relevante para a direita, dado que os socialistas já arrecadaram os funcionários públicos. Depois, um pouco em arco, porque todos sabemos que as eleições não se ganham apostando num só cavalo, e agora falando mais para a cidade cosmopolita, aquela que procria de noite e gera riqueza de dia, falou da sua relação amorosa, uma relação que disse ser já quase de facto, atestou mesmo ter encontrado o amor, que não o procurou, que lhe bateu inesperadamente à porta, sentindo-se agora abençoado pelo espírito de afeto e compreensão que o envolve, que, quer se queira quer não, chegará a um eleitorado jovem para quem o casamento já não é o primeiro passo, e a um eleitorado conservador para quem a relação homem mulher se maximiza no entendimento. Falou ainda da grande amizade que o liga a um ou dois líderes de audiência do nosso cotidiano, sendo esta parte acompanhada por uma fotografia em que ouve atentamente, com um sorriso nos lábios, um conhecido comediante, conseguindo agora chegar a todos, fazendo o périplo da esquerda à direita, cativando absolutamente, pois na nossa sociedade gregária é fundamental a irracional necessidade de estar no grupo certo. Muito bonito. É pena é ser tão evidente o pendor eleitoralista. Mas, em boa verdade, eu diria que num aspeto não necessitou Mascarenhas de usar da sua sinceridade em proveito próprio, e foi quando referiu a amizade que o liga a um conhecido gestor, passavam férias juntos, agora acusado nos casos de corrupção, tendo sido muito claro acerca da sua extraordinária competência, pecando apenas pela inevitabilidade do contexto em que se move, foi afinal corrupto por não haver alternativa, não o ser seria incompetência, foi, concluindo com uma figura de estilo, o sacrifício da competência. Aquilo que pergunto é, será que é mesmo? Aqui creio que, embora concordando no essencial sobre a avaliação, Humberto Mascarenhas tem a infelicidade de usar um argumento da esquerda, que é o contexto que molda o homem, e aí não posso estar mais em desacordo, pois a partir de agora vamos assistir à repetição ad nauseam do coitadinho que não tinha outra hipótese senão ser pobre por ser descuidado, senão ser descuidado por ser pobre, como se a Nação sofresse de uma gastrenterite. Se esta forma de pensar contaminar a sociedade portuguesa, as consequências serão calamitosas.
In 25 de abril sempre (2019)