quinta-feira, 20 de junho de 2019

Humberto, onze da noite

Amanhã volta a ser feriado, depois dos programas de comentário político dessa noite, sem muitas novidades, no arrefecimento das europeias, com as legislativas ainda distantes, discutindo crises, como quem, nas boxes, antes da corrida, debaixo do capot, vai apontando partes do motor e discorrendo sobre as suas potencialidades e, sobretudo, fraquezas, quando Humberto chegou ao quarto já estava Cátia deitada, com um livro aberto nas mãos, sobre qualquer coisa de neurociências, recostada na almofada, estendida, recebe Humberto com um sorriso, até já parecemos um casal, diz, porquê?, pergunta Humberto, porque cada um vem para a cama quando lhe apetece e não só porque apetece vir para a cama, diz com um toquezinho de cumplicidade, pois é, concorda Humberto, o que estás a ler?, pergunta-lhe com um movimento de queixo, de baixo para cima, na direção do livro que Cátia tem na mão, é sobre o cérebro estético, não sei se é esta a melhor tradução para português, é sobre como o cérebro constrói a beleza, também não sei se constrói é o melhor termo, se calhar esse é o cerne da questão, ri com o livro momentaneamente fechado apertando o dedo indicador, volteando-o, como se o movimento permitisse soltar algum do seu conteúdo, e então?, pergunta-lhe Humberto enquanto se dobra para tirar as calças, ainda estou no início, mas já se sabe, parece haver uma vantagem competitiva em se ser belo, diz Cátia com os olhos nas pernas bem torneadas de Humberto, agora levantado, correndo os olhos acima, tomando as proporções, até às nádegas escondidas pela fralda, pois é, responde Humberto, deitando a ponta dos dedos aos botões da camisa para os tirar da casa, já dizia Platão, a beleza, a bondade e a verdade são os valores máximos, sim, sorri Cátia, olhando para os ombros de Humberto sobre os quais a camisa descai, enquanto os botões se soltam de cima para baixo, essa citação surge no livro, acrescenta, já leste a República de Platão?, pergunta-lhe Humberto, agora com o corpo todo descoberto, de perfil para Cátia, com as mãos a enviar-se entre as cuecas, lateralmente, para as puxar para baixo, não, não sei se teria paciência, responde Cátia apertando com maior intensidade o cérebro estético contra o dedo indicador, apercebendo-se da pressão solta um sorriso suspirado, substituindo o indicador pelo polegar, rodando o dedo avermelhado, com uma marca do rebordo das páginas, levantando os olhos para Humberto, com os braços ao longo do corpo, as mãos de dedos estendidos, relaxados junto aos quadris, as nádegas fortes, e o pénis repousado no ângulo dos testículos, tu sabes que és muito bonito, diz-lhe num murmúrio, de verdade?, pergunta-lhe a cabeça de Humberto virada, queixo sobre o ombro, onde a barba loira debaixo do sorriso depõe umas insígnias, sim, assente Cátia permitindo-se um deslumbramento, e achas que também tenho a qualidade da bondade?, diz-lhe Humberto de modo tão neutro que é impossível saber se é uma pergunta ou uma ironia, Cátia respira fundo, penso que sim, mas no que é que isso interessa?, diz.

domingo, 16 de junho de 2019

Humberto, quatro da manhã

Na segunda-feira de madrugada, no dia 17 de junho de 2019, aí pelas quatro horas da manhã, Humberto Mascarenhas irá abrir os olhos, perceber que está no apartamento da Cátia, no quarto da Cátia, na cama da Cátia, com a Cátia deitada ao seu lado, verá que não passa nenhuma transparência pelos estores corridos, pensará que deverá ser de madrugada e não resistirá a perguntar baixinho, estás acordada? Cátia sentirá a voz de Humberto, vinda de longe, e murmurará, hummsim. Humberto, então, perguntará, o que achas do José de Mendonça? Quem é o josédemendonça?, arrastará Cátia com a boca abafada pela almofada. O cronista, responderá, meio incrédulo, Humberto. Ahhhh, suspirará longamente Cátia. Não sabes mesmo quem ele é?, é um dos mais lidos, é de direita e é liberal, há quem diga que temos posições muito parecidas, embora, claro, ele tenha de manter alguma independência, claro, é cronista, dirá, sussurrando. É um cásvezes aparece nas revistas?, sempre bemdispostoedivertido, procurará esclarecer-se Cátia. Revistas?, que revistas?, questionará, absorto, Humberto. Alto, aí plos trintas, bonito?, insistirá então a Cátia. Não, está mais próximo dos cinquentas, mas sim é bonito, concordará Humberto. Ah, deve ser então um quetemulher e umfilho, né? Não, acho que está divorciado, é até conhecido como sendo um Dom Juan. Deixtar, dirá Cátia, quetprocupa? Tem escrito sobre mim, sobre as minhas posições, sobre a importância da ética e do caráter, e embora parecendo concordar comigo, não sei, ainda assim tem uma certa dose de ambiguidade?, ironia, sim, dizem que ele usa de alguma ironia. Humm, assentirá Cátia, e depois? Depois, sabes, é importante saber o impacto que temos, e os cronistas são opinion makers, hoje a mensagem política passa muito pelo seu lado, mas, claro, eles também têm de estar com a onda certa, ser cronista é uma profissão como outra qualquer, é necessário gerar valor. E tem valor oquelescreve?, irá então perguntar a Cátia. Claro que tem, se não tivesse não estaria a pensar nisso, como te disse é um dos mais lidos, é muito seguido, e as opiniões que dá são frequentemente discutidas, influenciando as tomadas de decisão, hoje em dia um político não pode deixar de ler os cronistas, pelo timing, pelo impacto, explicará o Humberto. Qualéentãoadiferençaentreumcronistaeumpolítico?, perguntará Cátia num assomo de consciência. Humm, sorrirá Humberto, vejo que foi boa ideia falar contigo, bem, de alguma forma não é muita, se não estiveres no poder, apenas que eles não vão a votos. Assim, quédizer quelestão em vantagem, se vcês perderem as eleições ficam cavossa posição em risco, virá a dizer, às quatro e dez minutos da manhã Cátia, na sua frase mais longa, no seu pensamento mais completo. Uma gargalhada soará no quarto, da garganta de Humberto, gosto de ti, dirá, com carinho para a Cátia, és tão inspiradora, vou-te dizer uma coisa, Cátia, que vais achar graça, se nós perdermos eleições podemos sempre passar a ser cronistas. E rirão alegremente os dois, Cátia e Humberto, às quatro e onze da manhã, na cama da Cátia, no seu apartamento.

Mascarenhas e o triunfo do caráter. Opinião de José de Mendonça

Quando apela à indiferenciação entre a esquerda e a direita, Humberto Mascarenhas exalta acima de tudo o triunfo do caráter, ou, se me é permitida a liberdade, o surgimento de um homocharacter, e que se colocarmos nas mãos deste supra-homosapiens o dinheiro dos nossos impostos, podemos finalmente deixar de nos preocupar com a política, pois podemos ficar certos do ótimo funcionamento das empresas públicas, das escolas e dos hospitais, podendo passar a dedicar-nos apenas àquilo que realmente somos, agricultores, engenheiros, jornalistas, pedreiros, sendo esta, mesmo, a machadada final no populismo. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, será mesmo? Será que podemos dedicar-nos a ser apenas aquilo que somos, agricultores, engenheiros, jornalistas, pedreiros, e deixar a gestão da coisa pública ao homocharacter? Em boa verdade, eu diria que depende muito de sabermos como se forma este homocharacter, e em última análise do que é feito. Uma coisa é um homocharacter todo forrado a ética, transparente como a verdade, branco como a virgem, terno como um pai, meigo como uma mãe, que gosta de crianças, é afável com o vizinho, e determinado com o bandalho e com o gabiru. E, não deixa de ser curioso, todos estes homocharacteres são, historicamente, avessos à política, estão onde estão porque ouviram um chamamento, ou tiveram de fazer a rodagem ao automóvel, ou, embora sejam muito populares, estão sempre indecisos se devem continuar, colocando condições, pois não gostam de política, exercem a sua função com sacrifício, gostariam sim de estar a fazer aquilo que realmente são, agricultores, engenheiros, jornalistas, pedreiros, mas tiveram a infelicidade de nascer homocharacter, e por isso têm que cumprir um destino. E nós, seus filhos, seus fervorosos seguidores, pedimos-lhes dos nossos locais de trabalho, das nossas escolas, das nossas famílias, pedimos-lhe encarecidamente, não nos deixeis, continuai, sacrificai-vos um pouco mais por nós, que prometemos continuara a trabalhar com afinco para o bem comum. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, estes homocharacteres são o fim do populismo pois são como nós, os que trabalham, os que pagam impostos, os agricultores, os engenheiros, os jornalistas, os pedreiros, e não são como eles, os políticos, embora tenham infelizmente que o ser não sendo. São por isso providenciais e, simultaneamente, transcendentais. Só que depois existe um homocharacter espertalhão, que sabe como funciona o populismo, que vive na obsessão com a sua imagem, com o que se pensa deles, que até têm um gabinete só para isso, que são capazes de tudo para brilharem, e por isso são feitos de ética por fora e vicissitudes por dentro, que dizem o que o povo quer ouvir, que quando dizem nós estão e pensar neles, e que quando dizem eles também e que, em momentos de sinceridade, dizem que são assim apenas porque os verdadeiros homocharateres não existem, provando que são é descrentes do futuro da Nação. Se o homocharacter que não acredita contaminar Portugal, poderá ter consequências calamitosas.

sábado, 15 de junho de 2019

Mascarenhas sem esquerda nem direita com ética. Opinião de José de Mendonça

Após apelar à união da direita, vem agora Humberto Mascarenhas afirmar que as diferenças entre esquerda e direita não são assim tão importantes, adiantando mesmo os valores sobre o quais essas diferenças se esbatem, os quais, desde já afirmo, me parecem louváveis. O primeiro não parece merecer grande discussão, está na altura, disse, da ética orientar a vida política, acrescentando, sobre o primado da ética esbatem-se as diferenças entre esquerda e direita, e a discussão de como devem ser geridos os nossos impostos, nas empresas públicas, nas escolas e nos hospitais, tem uma resposta simples e clara, e não é com medidas de direita ou de esquerda, é com ética. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, será mesmo? Será que a ética floresce de igual modo na esquerda e na direita? Em boa verdade, eu diria que depende muito de sabermos o que está na génese do estado ético, e em última análise do ser ético. Neste país, a ética corresponde a duas realidades completamente distintas. Uma coisa é a ética capitalista, uma ética darwiniana, capaz de evoluir e se adaptar, e que por um constante processo de seleção natural vai banindo da sua pool de genes os seres portadores das caraterísticas do oportunismo, do amiguismo, da convivência nefasta entre o poder político e o poder económico. E que melhor exemplo temos do que o ocorrido recentemente em Portugal, onde na sequência dos casos financeiros pudemos verificar que o capitalismo podre é efémero e morre, tendo-se chegado a um estado em que a banca é gerida por seres onde os genes da ética são dominantes, onde não há favores, nem há familygates. Veja-se esta maravilha da depuração genética fruto do capitalismo, onde o gene da geração de capital se sobrepõe ao próprio gene da reprodução física, e aqui, em boa verdade o digo, não é menor o papel da igreja, ou não possuísse em si as enzimas polimerases capazes de desencadear o processo daquilo é que, injustamente, descrito como o casamento de conveniência. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, é fundamental o primado da ética, e o capitalismo possui no seu ADN esta capacidade de geração de seres eticamente mais puros, e não vou aqui agora discutir as questões associadas à seleção de grupo. Só que depois existe uma realidade associada à outra ética, que é uma ética socialista, incapaz de evoluir, que idolatra a estagnação, ou seja, que é contra a expurgação dos genes nefastos da pool. Veja-se a recente multiplicação de casos de corrupção ao nível do poder local público. E não me venham com o argumento de estamos a falar de milhares de milhões contra centenas de milhares. Quem assim pensa tem vistas curtas e esquece o custo dos processos darwinianos, de milhões de anos, e agora extraordinariamente acelerados pelo capitalismo. Sim, para se gerar uma verdadeira ética são necessários milhares de milhões, mas a evolução acontece, já após as corrupções que custam centenas de milhares, fica tudo na mesma, não há seleção, num estado onde se continuam a produzir ad nauseam seres sem ética nenhuma. Se esta ética socialista contaminar Portugal, poderá ter consequências calamitosas.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Humberto questiona-se

O dia de Santo António, 13 de junho de 2019, passa-se bem na cama, ainda com algum cheiro a fumo de peixe e a Cátia ao lado, no apartamento dela, na cama dela, com a luz da manhã a entrar silenciosa por entre os estores, de barriga para o ar, olhando para o teto, Humberto tem algumas perguntas presas na garganta, de uma curiosidade que traz na parte superior do estômago, oprimindo o diafragma, fala-me do Afonso, diz. Cátia vira-se na cama, coloca a mão direita sobre a ponta da almofada para poder ver a cara de Humberto, expõe na face um sorriso de surpresa, de agrado, o que queres saber sobre o Afonso, diz. Humberto permanece imóvel, move apenas a pupila para o canto do olho, para a direita, por forma perceber a expressão de Cátia, respira duas vezes, sentindo a opressão do diafragma, ele é de esquerda, não é?, diz. O rosto de Cátia ilumina-se, o que lhe relaxa o sorriso, perdendo o vigor da contração, ficando mais perene, e quase sem mover os lábios abertos, acho que sim, diz, no espaço de uma expiração, como se tivesse acabado de acordar. Sente-se de novo o silêncio no quarto, apenas entrecortado pelas respirações, como se ambos tivessem voltado a cair no sono, Cátia, de olhos agora fechados, retoma, e isso de ser de esquerda é importante?. Humberto é tomado por uma voz funda, com um peso de verdade, e que ressoando entre aquelas paredes ganha um tom de homília, não com intenção, mas foi como saiu, assim projetada para o ar, como se para a eternidade, não, se calhar as diferenças entre a esquerda e a direita não são assim tão importantes, o importante é a ética e o caráter, diz. O rosto de Cátia desfaz-se por um momento, como quem vai à procura de qualquer coisa lá dentro, já volto, espera só um bocadinho, o que não faz mal, pois Humberto quedou-se a perceber o impacto do que acabou de dizer, não só ali naquele quarto, mas lá fora, na rua, em Portugal, nos possíveis rumos da sua vida política, onde palavras como estas são mãos que procuram apoio numa escalada, procuram uma saliência onde agarrar, e se a encontram definem uma direção, e entretanto o rosto de Cátia regressa, imparcial, sim, o Afonso é do mais inofensivo que existe, diz. Humberto, gira levemente a cabeça sobre a almofada, para poder abarcar a totalidade do rosto de Cátia, fitá-la nos olhos, ainda que um pouco de viés, enquanto que a face de Cátia vai ganhando as tonalidades da expetativa, e Humberto solta as palavras em arco para a almofada de Cátia, inofensivo?, ninguém é inofensivo, diz. Sim, responde Cátia, fazendo regressar o sorriso, e continua falando pausadamente, trazendo uma a uma as palavras da memória, de certa forma, o Afonso faz muitas perguntas, mesmo quando chega a uma resposta ela é-lhe de pouco utilidade, a não ser para originar novas perguntas. E na cama?, pergunta Humberto, também é inofensivo?. Ah, deixa escapar a Cátia, estendendo o corpo e puxando a cabeça atrás na almofada, focando-se nos cabelos loiros de Humberto, junto às orelhas, sim, Humberto, o Afonso é de esquerda, mas com ele era sempre mais pró missionário, diz, num tom compassivo.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Humbinho toma uma decisão

Não quero acreditar, vens a cheirar a perfume de mulher. Não, Ricardo, impressão a tua. Ai cheiras, cheiras, onde estiveste? Estive num bar, já te disse, não se conseguia estar em casa, ou não reparaste. Desculpa Humbinho, mas o que me disseste não se diz, depois de todo este tempo juntos, parece que não sou importante para ti, que a nossa relação de anos não vale nada. Não é isso, é a forma como tu levas as coisas, tão a peito, interpretas tudo da pior forma, e, por favor, não me chames Humbinho, eu não sou Humbinho. Só se já não queres ser Humbinho, estiveste com uma mulher?, não acredito, como conseguiste fazer uma coisa dessas? Não estive, já te disse, estive num bar, havia lá mulheres, claro, aquilo estava apertado, não insistas, está bem. Esse cheiro..., essas gajas têm a mania que por colocarem um perfume exótico e se transformam numas odaliscas, são é umas deslavadas a quem falta imaginação, só por terem um par de mamas e uma rata acham que já têm tudo. Sabes, Ricardo, o que eu acho, acho que estás a ser muito inconveniente, a dizer coisas desagradáveis, no mínimo, acho que estás demasiado apegado a mim, e depois começas a imaginar coisas, sei lá, cheiras perfumes onde eles não estão, já imaginas, como disseste?, odaliscas?, onde raio foste buscar essa ideia, parece que tiras ciúmes do ar, devias ser mais independente, e de certa forma a culpa é minha que não criei espaço na nossa relação. Não era isso que dizias, Humberto, quando corrias atrás de mim, não me largavas, recordas, tu é que insististe que vivêssemos juntos, eu nunca falei nisso, foste tu, mas agora, por causa da política és capaz de tudo. Porra, Ricardo, para com essas merdas, amanhã tenho um dia complicado, tenho que me levantar cedo para viajar, e tu não te calas, desculpa, mas pareces uma bicha histérica, a imaginar coisas, agora até trazes a política para isto, tudo te serve para me chateares, só porque sentistes qualquer coisa nas narinas, já pensaste fazer umas inalações, a ver se ficas mais limpo. Poupa-me ao sarcasmo, Humberto, quem é que tu pensas que eu sou, a tua puta?, que usas quando queres e depois deitas fora?, é isso que tu pensas? Pronto, acho que não vale a pena conversar, não é aos berros que conseguimos ir a algum lado, olha se tu quiseres dormes no quarto, que eu fico no sofá. Não, Humberto, não me faças isto, tu sabes que eu te amo, que eu gosto muito de ti, não faças isto, peço-te. Eu também gosto de ti Ricardo, mas estás a ver que as coisas não estão a funcionar bem entre nós, já tínhamos tido os nossos desentendimentos, mas agora está a ficar pior, assim não vale a pena, temos que dar um espaço. Sim, eu prometo que vou ter mais calma, mas vem deitar-te comigo, não fiques no sofá, está bem? Ricardo, amanhã tenho que me levantar muito cedo para ir às comemorações, dá-me um pouco de espaço, está bem?, peço-te por favor. Está bem, eu amo-te tanto Humberto, sabes isso, não sabes? Sim, eu sei, agora vamos descansar, está bem? Está, querido. Cátia queres ir amanhã comigo a Portalegre? saio pelas 6:30. se quiseres passo pela tua casa a apanhar-te

domingo, 9 de junho de 2019

Mascarenhas e o entendimento. Opinião de José de Mendonça

A direita perdeu as eleições para as europeias e Humberto Mascarenhas, já a pensar nas legislativas, apelou à união da direita, como tive possibilidade de comentar numa crónica anterior, mas agora vai mais longe, e vem mesmo a falar de entendimento, é preciso um entendimento na direita, disse, e precisou, como que extremando a necessidade, se os comunistas engoliram sapos para a eleição de Mário Soares, e agora apoiam este governo em troca de favores sindicais, nós, a Direita, que desde o 25 de abril tem revelado uma notável capacidade de convergir, podemos alcançar consensos de cabeça limpa e sem ter de fechar os olhos, acabou por ironizar. Adiantou mesmo os princípios estratégicos sobre o quais deverá assentar este entendimento, os valores e a aceitação das diferenças, os quais, desde já adianto, me parecem louváveis. Sobre o primeiro já aqui também me pude referir, sobre uma certa esquizofrenia eleitoral, mas que ainda assim entendo, pois não se fazem omeletes sem partir ovos, e se o fim do estado social, apresentado a frio, não ganha votos, melhor resultado terá a sua visível degradação, bem patente nas empresas públicas, nas escolas e nos hospitais, como contraponto ao privado. É por isso sim necessário assegurar um maior financiamento público do privado, porque este é mais eficaz, e essa é hoje em dia a linha divisória que separa a direita da esquerda, pois, como todos sabem, dos Lusíadas a Santa Maria vai apenas um dedo. Mas o meu objetivo não é estar aqui a discutir a Lei de Bases da Saúde, nem esta proposta insípida dos socialistas, que parecem querer passar a ser responsáveis pelo equilíbrio do sistema político, no pior sentido do termo, claro, o da ausência de reformas, ou dito de outra forma, o do engonhanço, mas sim a parte em que Mascarenhas disse que o consenso tem que ser construído sobre a aceitação das diferenças. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, quais são essas diferenças a que se refere Humberto Mascarenhas? Em boa verdade, eu diria que depende muito daquilo que entendermos por este entendimento. Neste país, esta direita corresponde a duas realidades completamente distintas. Uma coisa é uma direita jovem, citadina, herdeira da antiga direita bem formada, de médicos e advogados proeminentes cujo nome denota uma estirpe, um cuidado, formado por anos de bem cultivada convivência burguesa, quiçá até com um cheirinho nas artes, nas formas mais nobres de não fazer dinheiro, como usufruto das mais valias geradas pelo corpo familiar central. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, esta é uma direita rica e diversificada em que a aceitação das diferenças até tem um toque de classe. Só que depois existe uma outra realidade associada à outra direita, que é uma direita da província, mesmo vivendo na cidade, uma direita indistinta, que idolatra o Quim Barreiros, repetindo ad nauseam que quer cheirar o bacalhau, sem um entendimento cosmopolita, de vistas curtas, arriscaria a dizer. Se este seu entendimento contaminar a direita portuguesa, a tentativa que ela aceite as diferenças poderá ter consequências calamitosas.

sábado, 8 de junho de 2019

O Dr. Humberto Mascarenhas fecha os olhos

Considerando a teoria e a prática das relações de poder, é estonteante, quase contranatura, a facilidade com que um homossexual fala para o coração de uma mulher, pelo que as consequências podem ir desde a mais completa harmonia, em que ele se torna para ela numa mulher-homem, onde uma intensa intimidade afetiva se materializa no corpo masculino, como uma torneada conversa num porto seguro, desarredondado e peludo, até ao mais avassalador cenário, em que ele se torna para ela num homem-mulher, onde a intensidade da atração esquisitóide de duas almas gémeas esbarra constantemente com o desatino dos corpos que não encaixam, como se o mais enlevado espírito acabasse vítima de esgotamento por falta de matéria onde repousar. E, se a juntar a esta capacidade de chegar perto, de gerar sons que fazem eco, que ficam a ressoar lá dentro, que demoram a se dissipar, entre as pernas e a cabeça, pulsando por ali, se juntarmos a ilusão do fortuito, como aquele encontro ocasional entre o Humberto e a Cátia, num bar, na zona da Assembleia da República, depois de Humberto ter deixado Ricardo a chorar em casa, implorando-lhe que não o deixasse, o tipo de encontro que tem uma fugacidade tranquilizadora, primeiro, por ser uma segunda vez, a primeira foi há alguns anos atrás, em que quase não falaram, Cátia foi-lhe apresentada pelo namorado, o Afonso, o irmão de uma amiga de adolescência, a Catarina, foram cinco minutos, dez, se tanto, segundo, por ser um encontro fortuito e isso gerar na cabeça de algumas mulheres uma sensação libertadora, de uma ordem onde o destino era uma moeda de troca, uma coisa de milénios, a liberdade de escolher, o livre arbítrio, a democracia. Mas, terceiro, pela abordagem direta, completamente descomprometida, e, ao mesmo tempo, quase como se o encontro estivesse combinado, passado todos aqueles anos, o Humberto disse, Cátia, há algum tempo, a Cátia surpreendida, conhecia o Humberto, claro, a televisão é um dispositivo de reavivamento da memória, não se esqueçam de votar no domingo, várias refeições ao dia, saia de casa, não fique no sofá, lembras-te de mim, sim, claro, um político não esquece uma cara, não esquece um nome, respondeu Humberto, e riram enquanto pediam um gin, o Humberto não gosta de gin, e quando bastantes palavras mais à frente Humberto lhe toca na mão, como se a ajudando a levantar o copo do balcão, a Cátia sussurra-lhe muito baixinho, com um sorriso, mas tu não és homossexual?, ao que o Humberto lhe responde, mas tu não és a namorada do Afonso?, era, responde, e, no apartamento de Cátia, com as luzes da rua a entrar pela janela, meio embriagados do álcool e da sintonia das almas, tiram a roupa sem a rapidez dos amantes, mas os corpos são belos, não há outra beleza que não seja a dos corpos, dos músculos do Humberto, dos seios rijos do ginásio da Cátia, beijam-se porque estão vivos, deitam-se um sobre o outro, olham-se demoradamente, Humberto fecha os olhos e vê o Ricardo, um homem de cinquenta anos, sim, isso, não pares, diz-lhe Cátia.

domingo, 2 de junho de 2019

Humberto Mascarenhas, e agora? Opinião de José de Mendonça

Humberto Mascarenhas perdeu as eleições para as europeias e, embora este resultado não fosse de todo inesperado, dadas as sondagens, mas sondagens são apenas sondagens e o que conta é o resultado do voto expresso nas urnas, aproveitou o discurso feito nessa noite, para refletir sobre o futuro da direita em Portugal, e aquela que pretende ser a sua estratégia, tendo deixado alguns conselhos louváveis. O primeiro não merece grande discussão, este é o momento, mais do que nunca, disse, de não desanimarmos perante os resultados, é o momento de reforçar o acreditar nos nossos princípios, nos valores que defendemos. É um excelente conselho, que o próprio Humberto Mascarenhas deveria talvez seguir quando fez campanha, onde muitas das suas intervenções pareciam um nim, sim, falando da iniciativa privada, mas não, nunca colocando em causa um estado social, que sabemos é a causa do muito que vai mal neste país. Mas o meu objetivo não é estar aqui a discutir imediatistas estratégias pós-eleitorais, vertidas a quente, primeiro ao lume brando das estimativas dos telejornais das 20 horas, depois na ebulição dos resultados consumados, mas sim a parte em que Mascarenhas disse que estes resultados não são o fim da direita, de uma direita que já várias vezes teve a maioria absoluta em Portugal, acentuou, que o que faltou foi não se ter respondido cabalmente às ansiedades do povo de direita, que existe, está lá, ainda que dormente nestas eleições. De seguida, convidou a Direita a unir-se para reconquistar os valores de Portugal, e declarou que se ultrapassarmos as nossas diferenças, para em vez disso nos focarmos aspetos reais do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor, sem a extrema-esquerda no poder. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, será que vamos mesmo? Em boa verdade, eu diria que depende muito daquilo que entendermos pela união da direita. Neste país, essa direita corresponde a duas realidades completamente distintas. Uma coisa é a essa direita que já nos deu tantas alegrias, onde se pode mesmo encontrar uma raiz identitária, e historicamente mais alinhada com o Portugal real, aquele que tem 700 anos de história. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, é uma pena que a divisão da direita faça com que não esteja condignamente representada no Parlamento, e que os seus valores não passem para as empresas públicas, para as escolas e para os hospitais, numa sociedade onde não há cá interesses pessoais, não há favores, não há familygates, onde nenhuma vaidade pessoal resiste ao interesse comum. Só que depois existe uma outra realidade associada a esta mesma direita, e que são as várias direitas, ou melhor, as pessoas que fazem a direita, pessoas, por vezes, quase idolatradas, e em que todo este tempo puseram a mão por debaixo deste governo de esquerda, que nos momentos fulcrais lhe suavizaram o caminho, repetindo ad nauseam o bem de Portugal, e que agora se propõem ser os salvadores da direita. Se a sua força contaminar a direita portuguesa, as consequências serão calamitosas.

sábado, 1 de junho de 2019

A derrota, Humberto e Ricardo

Humbinho, deixa eu tê tu, não fica assim Humbinho, eu qué tê tu, vá lá, eu sei que tu gosta. Agora não, Ricardo, desculpa, mas eu não me sinto bem, não tenho vontade. Há quanto tempo estás assim? já passou quase uma semana, Humbinho, ias ver que te fazia bem, deixavas de pensar nisso, e sabes, eu também preciso. Eu sei, Ricardo, desculpa, mas não me consigo concentrar, não ia correr bem, não é assim que queres, pois não? Sim, Humbinho, claro que não, mas se calhar as coisas não são tão más como as pintam, é apenas a conversa dos comentadores, sabes como eles são, têm que escrever todas as semanas, e quando apanham um filão descascam-no até ao tutano, Humbinho, agora é o fim da direita, vais ver que quando chegarem ao osso, começam a escrever sobre o renascer da direita, Humbinho, tu é o renascer da direita Humbinho, ai sinto isso tanto, dá-me um beijo na boca. Não é assim tão simples, Ricardo, e há a questão da liderança, nestes próximos dias muita coisa pode acontecer. É isso que te preocupa, Humbinho, não é? vais ver que não acontece nada, és líder há tão pouco tempo, quem é que iria avançar agora contra o meu Humbinho, deu-me tanta tusa abraçar-se durante a arruada da rua Augusta, pensei, vou fazer uma surpresa ao meu Humbinho, e tenho a certeza que ele vai ficar todo contente, não estavas à espera, pois não, Humbinho? Sim, gostei de te ver, de me abraçares assim, no meio da rua, com toda a gente a olhar, com as câmaras de televisão, mas é muito perigoso, Ricardo, especialmente agora, não sei qual foi a base que ficou, creio que estamos numa fase de retração, temos que ser muito cautelosos, pois são períodos onde se é naturalmente mais conservador, menos tolerante, percebes, Humbinho, lembras-te de La Fete de Babette? Sim, tu és o meu vinho, o meu manjar, a minha cozinha francesa, o desenhinho no meu prato branco, o gelado de frutos vermelhos assinado a chocolate, assim, escrito a letras doces, o Humbinho é do Ricky, é todo, todo, todo, do seu Ricky. Mas é o contrário disso, Ricardo, não houve festa, estamos em retração, as pessoas serão mais sensíveis aos seus preconceitos, o ser humano é um tubo digestivo envolto em espírito, Ricardo, e as emanações do espírito parecem livres, independentes, cheias de força e autossuficiência, mas a sua turbulência apenas depende do que lhe corre no tubo, e não houve festa, Ricardo, temos que ter muito cuidado, o menor descuido pode ser catastrófico, a base que ficou pode não ser liberal, pode ser de direita apenas, não sei, Ricardo. O que é que o meu Humbinho não sabe, o Humbinho sabe tudo, para o seu Ricky o Humbinho é um sabichão, o maior sabichão que existe, e olha que ele é mesmo grande, o Humbinho é muito grande. Não, Ricardo, não percebeste, estou realmente preocupado connosco, não sei, tenho andado preocupado com muitas coisas, mas por vezes ocorre-me que talvez, Ricardo, talvez, Ricardo, não leves a mal o que te vou dizer, Ricardo, mas tenho pensado muito nisso, sabes que eu gosto muito de ti, mas talvez devêssemos parar por uns tempos.

domingo, 26 de maio de 2019

A arruada do Dr. Humberto Mascarenhas

Diretamente da baixa pombalina, onde do alto destes edifícios 264 anos de história nos contemplam, parece ser o que quer dizer o Dr. Humberto Mascarenhas que neste momento, perante as câmaras de televisão vai olhando para o topo das fachadas da rua Augusta, estamos em direto da arruada organizada pelo partido do Dr. Humberto Mascarenhas, que se encontra ainda ao cimo da Rua Augusta, onde se vão juntando os simpatizantes, são muitas as bandeiras, há gente que se move em várias direções, pessoas que parecem se conhecer, que se cumprimentam, em direto da arruada deste partido de direita, que, nas palavras do seu líder, tem uma atitude frontal contra o populismo, há uma alternativa, disse-nos ainda há pouco Humberto Mascarenhas, numa pequena conversa que tivemos com ele, ainda não eram 12 horas, recordo que a arruada estava marcada para as 13, mas foi feito um compasso de espera, uma vez que tem vindo chegando mais gente, não posso dizer com precisão quantos são, são muitas as bandeiras, perguntei ao Dr. Mascarenhas porquê uma arruada, num partido principalmente reconhecido pelos seus quadros, por um certo elitismo, mas ele negou completamente esse juízo, o partido é um partido do povo e para o povo, disse, elitista é a esquerda, começaram neste momento a tocar os zés pereiras, em direto da arruada de Mascarenhas, desculpa, aí no estúdio, estar a falar mais alto, mas é um barulho ensurdecedor, o Dr. posiciona-se agora à frente, parece que sim, é agora que se vai começar a descer a rua Augusta, aqui, ainda entre a sucursal bancária e a antiga casa das meias, é ladeado pela comissão política, do lado direito, Vítor Amaral, conhecido economista, indicado por muitos como o homem das finanças desta direção política, o homem do choque fiscal, dadas as propostas que o partido avançou de redução drástica dos impostos das empresas, veja-se o caso da Irlanda, ainda há pouco me repetiu o Dr. Humberto Mascarenhas, muito jovem Vítor Amaral, gerar riqueza é o mote de partido de Humberto Mascarenhas, de resto como quase todos os membros desta nova direção, perguntei isso mesmo ao Dr. Humberto Mascarenhas, se entre tanta juventude não poderia faltar alguma experiência, mas o Dr. Mascarenhas foi perentório, com o seu sorriso, pelo que já foi considerado o líder político mais sexy desde o 25 de abril, disse que esta nova direita é jovem e liberal, sobretudo liberal, em direto da arruada na rua Augusta, neste momento um transeunte dirige-se ao Dr. Mascarenhas e abraça-o, é um homem também jovem, confesso que não consigo reconhecer quem possa ser, talvez um familiar, em direto da arruada, o líder dirige-se aos transeuntes para os cumprimentar, para apelar ao voto no seu partido, neste momento está a falar com uma mãe com uma criança pela mão, o Dr. Humberto Mascarenhas troca alguma palavras com o jovem mãe e dá um beijinho na criança, Dr. Humberto Mascarenhas, Dr. Humberto Mascarenhas, em direto para a televisão, qual é a sua posição acerca do populismo, temos uma atitude frontal contra o populismo, há uma alternativa.

sábado, 25 de maio de 2019

Humberto Mascarenhas e o populismo. Opinião de José de Mendonça

Humberto Mascarenhas ganhou as primárias do seu partido e aproveitou o discurso da vitória para refletir sobre o populismo e aquela que pretende ser a sua estratégia sobre este fenómeno, tendo deixado alguns conselhos louváveis. O primeiro não merece grande discussão, está na altura, disse, de não nos deixarmos levar pelas ondas do populismo. É um excelente conselho, que o próprio Humberto Mascarenhas deveria talvez seguir quando fez campanha, onde muitas das suas intervenções pareciam decalcadas daquelas que fez enquanto comentador televisivo, em solilóquio, a que nos habitou semanalmente. Uma campanha em que, dada a sua popularidade, comparativamente com os restantes candidatos, se pode dizer que foi feita a falar da fruta sem nunca ter tido a necessidade de lhe tocar. Mas o meu objetivo não é estar aqui a discutir estratégias eleitorais, mas sim a parte em que Mascarenhas disse que é preciso perceber que populismo é apenas populismo e que há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país pelas quais temos que lutar. De seguida, convidou os Portugueses a unirem-se para reconquistar os valores de Portugal, e declarou que se unirmos e substituirmos a força e a exigência fátua que perpassa o populismo para em vez disso nos focarmos aspetos reais do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor, sem populismo, sem demagogia. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, será que vamos mesmo? Em boa verdade, eu diria que depende muito daquilo que entendermos pela força motriz que, com felicidade, se extrai do populismo. Neste país, a mesma força é usada para gerar duas realidades completamente distintas. Uma coisa é a força enquanto emoção partilhada por milhares, se não milhões de pessoas, em uníssono. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, é uma pena que essa energia partilhada não seja transposta para o Parlamento, para as empresas públicas, para as escolas e para os hospitais, numa sociedade onde não há cá interesses pessoais, não há favores, não há familygates, nenhum amiguismo resiste ao interesse comum. Nesse aspeto, esta força faz maravilhas pelo enaltecimento do liberalismo puro e duro, a soma da energia do egoísmo de cada indivíduo transformado numa formidável força motriz que faz avançar Portugal. Só que depois existe uma outra realidade associada a essa mesma energia que move o populismo, e da qual ela não pode ser, infelizmente, extraída, é a análise do mundo, feita das ondas cerebrais que estão na base das emanações que geram este movimento coletivo que Mascarenhas idolatra, mas que estão enraizadas em cada cabeça, em cada cantinho, gerando painéis de discursos interiores apopléticos, a repetição ad nauseam da mulher de cara velada no bairro, ali mesmo ao lado, com o homem barbudo que já parece ser o dono disto tudo. Esta deprimente cabeça de cada um já não está à altura dos desejos de Humberto Mascarenhas. Pelo contrário. Se a sua força contaminar a sociedade portuguesa, as consequências serão calamitosas.

domingo, 19 de maio de 2019

O Dr. Humberto Mascarenhas abafa a palhinha, faz o trólóró

O Dr. Humberto Mascarenhas abafa a palhinha, faz o trólóró, joga à macaca como as meninas, ora gira para cá, ora gira para lá, antes de ir fazer o óó. Do que gosta ele sei eu, é do carapau, e de certeza que o prefere com o azeitinho avinagrado, à moda do molho de escabeche. Nã, ele deve é gostar do robalo enfornado, já todo estaladiço, com a pele a saltar, já quase a perder o viço. E porque não o pernil no forno, com as suas partes gelatinosas, em torno do osso nodoso. Ouvi dizer, e apenas aqui vos o repito, que do que ele gosta mesmo é de bacalhau com todos, que não lhe bastam as lascas escorregadiças do gadídeo, também tem que encher a boca com o grão, como um ouriço. Mas olha que não foi isso que ouvi, embora acredite piamente que também seja verdade, mas de um restaurante de que ele é useiro e vezeiro, contou-me um empregado, que não larga a porta para comer o cozido, e do que mais gosta é da morcela, para já não falar da farinheira. Ah, então, se o que ele gosta é de enchidos, sem temor me deito aqui a adivinhar, que de certeza os maranhos o farão delirar, que muito deverá ele de gostar de mordiscar os grãos de arrozinho. Agora que falas de maranhos, por alguma razão, vem-me à ideia o Brasil, onde não sei se há veado, mas se o houver, quando lá vai em viagem de estado, deve-o comer estufado. Pois, é o doutor muito viajado, que se for à Hungria enche o papo de gulache, que é um caldo de carnes baloiçantes, e dizem que bem picantes. Mas, olha que de lá já correram com os turcos, mas ainda assim, o Dr. Humberto Mascarenhas que é todo liberal, de certeza não perde a oportunidade de dar um saltinho mais a sul para comer um kebab. E agora que anda pela Turquia, é homem de meter o bedelho, se não mesmo a bilha, no conflito israelo-árabe, nem que seja para se deleitar com húmus. Na sua ânsia de estadar, muito mais para leste ele deve gostar de viajar, só parando quando encontrar uma gastronomia em que para comer sejam necessários dois pauzinhos. Ui, ui, ui, já o imagino com o sashimi, do mais vermelhusco salmão, quase ainda vivo e derretidiço, apertadinho entre dedos em direção à boca. Para mim, e olhando para a figurinha, tem gostinhos mais refinados, sobe de certeza à Rússia, onde o Putin lhe dá a sorver bolinhas de caviar entre os lábios apertados e bem amanteigados. Qual caviar qual carapuça, para ele até com gasosa gosta de levar na fuça. Deixai-me discordar, que andais para aí a deambular, o Dr. Humberto Mascarenhas é um homem que pode percorrer o mundo a experimentar, mas do que ele gosta mesmo é do nosso bom pão, pois sei de fonte fidedigna, que em terras pátrias, não descura encher a cesta de regueifas. Deve-se achar muito fino, com certeza, é por esta e por outras, por assim andar a nossa direita, que se voltasse cá o pobre do Salazar, morria logo outra vez da desfeita. Eu não sou destas coisas, mas não consigo controlar a revolta, deixarem entrar tal traste, como deputado da nação. Pois é, o Dr. Humberto Mascarenhas deve-se achar uma grande espingarda, mas tem a rosca avariada e sempre que quer dar um tiro, sai-lhe pela culatra.

sábado, 18 de maio de 2019

O Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um liberal

O Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um liberal. Não, permite-me discordar, o Humberto Mascarenhas é, fundamentalmente, um conservador, um conservador de uma direita à moda antiga, que tem mais raízes na máquina do estado, no antigo cooperativismo, do que na iniciativa privada. Bom, quanto ao partido a que pertence estamos de acordo, mas é sabido que o Humberto Mascarenhas não é o espelho do seu partido, são públicas as dificuldades internas que tem tido, e reconhecido como é por mérito próprio, pelas suas próprias capacidades, que consegue ter a voz que tem dentro do seu partido, ainda que contra a corrente. Permite-me, não nego as suas competências, mas não estou tão certo que esse papel de enfant terrible não seja convenientemente explorado, se não mesmo incentivado, no interesse da imagem do partido, o qual necessita de se suavizar, de se tornar mais apetecível, para seguir, até ver, com o barco dos tempos, enfim, um rebranding, para sermos mais precisos. Queres então dizer que o que ele defende é apenas circunstancial, que não é o que efetivamente pensa, quando diz defender posições mais liberais, sobretudo nos aspetos dos costumes, como a liberalização do consumo de drogas leves ou as questões de género. Aqui tenho uma opinião diferente de vós, o Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um político, e como tal uma pessoa pragmática, pelo que já sabemos que nunca defenderá nada em que não acredite, em que não acredite que não resulte. Isso é muito geral, e pode ser dito em qualquer situação, até o já tens repetido aqui muitas vezes, mas quero voltar ao argumento do rebranding, pois se reduzirmos a nossa análise à formulação de cenários, o espaço de debate deixa de ser de análise para ser de política, dado que a mera formulação de um cenário tem a possibilidade de gerar um facto político, e eu, pessoalmente, quero estar aqui como analista, não como participante do jogo político. Deixai-me, a mim que ainda não tive oportunidade de dar a minha opinião sobre este assunto, e ficando bem claro que, e sem qualquer tipo de reserva, que conheço bem o Humberto Mascarenhas, por quem nutro uma grande consideração, quer pessoal, quer profissional, e de quem sou amigo, ainda esta semana estive a almoçar com ele, que na minha opinião, o Humberto Mascarenhas é, essencial e fundamentalmente, um liberal de direita, um homem do mercado e para o mercado, ou não se tenha ele especializado em direito empresarial, sendo um férreo defensor da iniciativa privada e dos negócios em geral. Pois é aí que discordo, e não nos desviando da iniciativa legislativa, que estamos a discutir, proposta pelo Humberto Mascarenhas, acho mesmo que a iniciativa privada e a iniciativa dos negócios estão em clara contradição, e é por isso que me parece que esta iniciativa tem pés de barro, pois sabemos que a proposta condicional da reposição dos rendimentos, nos termos em que é feita, não é exequível, é areia para os olhos, deixa o Humberto Mascarenhas, e o seu partido, bem na fotografia e nos resultados, que não serão nenhuns.

domingo, 5 de maio de 2019

Sr. Marquês, Water Music, segundo George Frideric Handel

Há relatos que uma ligação prolongada à galeria iconográfica Pinote suscita uma ligeira sensação de tontura, aquilo que em língua castelhana, mais precisamente, se chama de mareo. E se aqui uso esta palavra, não é por acaso, pois muitos defendem agora, numa luta desesperada de sobrevivência perante a língua inglesa, uma língua universal latina, onde em vez de se falar usando apenas as palavras que seguem na mesma barca, se possa escolher de entre as várias embarcações que, ao sabor da maré, sobem e descem o rio. Pois, surpreendei-vos, a galeria iconográfica não é mais do que uma enorme barca, de remos alçados, rio acima, rio abaixo, onde à proa vai sentado o Sr. Marquês, sem vaidade, só por condição. O ícone da sua esposa, a Sra. Marquesa, encontra-se bem no centro, como tivemos oportunidade de o descrever, literariamente enclausurado, dispondo-se os restantes ícones, adequadamente, os Hilários e seus consortes a estibordo, cabendo o bombordo aos Pinotes e seus compagnons de route. É a extrema largura da barca que propiciou que até agora possamos ter ignorado a presença deste ícone colossal. Sempre nos colocámos lateralmente, ora tomando um partido, ora tomando o outro, enganados por esse suposto primado do humano, segundo o qual cada ser é um ser, cada ser tem a sua perspetiva. Achámos que a linha traçada pelo corpo do Sr. Capitão Armando Simões estava lá para dividir as duas partes, e, nesta condição, posicionámo-nos ora de um lado, ora do outro, da contenta, esquecendo que a obra barroca não tem lado, e se fossemos brejeiros diríamos mesmo que, quando muito, é roliça. É por isso irrelevante, neste ícone de ícones, que do ponto de vista do Sr. Marquês as partes estejam trocadas, que a direita esteja à sua esquerda e a esquerda à sua direita, já que os salpicos humanos não têm lado, entrelaçam-se, revolvem-se, empolam como o sarampo, calçam sapatos de tacão alto, vestem meias acima do joelho, fazem uma vénia e trocam de costado. Mas o mesmo já não se pode dizer de quem se senta à popa, uma bela pintura ao estilo Velázquez, não são Las meninas, mas quase poderia ser, uma delas é, a outra parece ser a sua mãe que a traz ao colo, mas a menina é uma menina grande, aparenta ter mais de 50 anos, embora esteja vestida como uma niña, ornamentada com um laço de flores no cabelo e um vestido com uma dupla saia, largamente ultrapassando a mãe em volume, sendo esta visivelmente mais nova, com a beleza espontânea das flores de início da primavera. E para quem calhou em sorte ficar à popa, a esquerda não está trocada com a direita. Esta é a razão do mareo que nos invade quando passamos muito tempo a divagar pela galeria iconográfica Pinote. E quando disso nos apercebemos não podemos deixar de perguntar, quem é o seu autor? quem concebeu esta visão longitudinal da comédia humana? quem se arroga o direito de esvaziar o particular a bem do geral? quem submete um ícone que nega o que se sentiu nos outros ícones sem precisar de os negar? Façam uma vénia e deem meia volta ao sabor do software da Mindicon. Sim, do software da Mindicon!

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Natruca, la petite mort, segundo Roland Barthes

O ícone da Sra. Marquesa rapidamente perdeu a ligação à sua fonte de origem, dado o enorme valor simbólico que adquiriu na galeria iconográfica Pinote, passando antes a ser referido como Natruca, la petit mort, segundo Roland Barthes, num tributo da máquina ao simbólico. O ícone está colocado no seguimento do corpo estirado de A Morte do Sr. Capitão Armando Simões, curiosamente, posicionando-se em ambas as pontas, realçando os aspetos fortemente concetuais da obra, em permanente recusa de revelar uma forma, muito menos um corpo. De facto, é formado por um arco de letras esparsas, que, em nuvem, cobrem a morte caída, adensando-se, então, nas pontas em textos completos, de um lado poético, de uma rima tão infantil como emocional, e do outro de uma espessa narrativa, quase auto justificativa, como quem, à hora do chá, descreve um acontecimento incómodo em que se viu envolvido, exposição que, não cabendo na mesa onde se encontra o bule, se vai dispondo em camadas, auxiliando-se de repetições por forma a estabelecer uma continuidade, como num naperon os bordados reiterativos vão juntando os diversos panos de linho. Se na narrativa as repetições têm como objetivo o retomar do fôlego, na poética procuram atingir o coração com flechadas minimais. Mas, o que contêm estas duas pontas? De certeza que encontrareis com que as preencher, mas se vos tolhe a preguiça ou a falta de imaginação, podeis, na narrativa, colocar cada uma destas páginas, empilhadas umas sobre as outras, e, na poética, repetir destas aquelas que rimam, em particular uma delas, a do poema da Sra. Marquesa, mas, como vos disse, podem ser quaisquer outras, que uma vez tomando o seu lugar serão como estas, que disto é feita a crítica literária. Concentremo-nos então nas pequenas letras que pairam sobre o desditoso corpo imaginário do capitão Simões, que são de facto, sabe-se agora, a alma do ícone. Bailam elas diversas danças, desde a mazurca ao forró, para já não falar da valsa e da kizomba, mas sem nunca tomarem um sentido. Depreende-se daí que para isso servem, o mais das vezes, as letras, destinadas à baralhação, ainda que ritmada. Podem-se passar assim horas, senão dias, meses, ou anos, observando os diversos bailados, maravilhando-nos com a insaciável vida de um punhado de letras folionas, ainda que desprovidas de sentido. E é então que fortuitamente, num acaso coreográfico, se estabelece sobre o cadáver a palavra natruca, numa forma substantiva. E esta consonância casual não seria, por si só, fonte de qualquer surpresa, já que outra coisa não se esperaria de tão despojado referente, não fosse que depois desta figura, e através de nova inusitada combinação, mas agora num estilo mais refinado, em itálico, daquelas danças em que os dançarinos fazem uma roda com as mãos sobrepostas ao centro e levando os calcanhares à altura do traseiro, se dá à luz la petite mort. A primeira acusativa substantiva, a segunda declarativa sublimativa, fazem espernear o cavalo de pau entre as pernas do capitão Simões, de tal modo que a pergunta que nele tem escrita se enche de néon arroxeado.

sábado, 27 de abril de 2019

O dia da liberdade

Uma vez por ano decorrem as celebrações do dia da liberdade na galeria iconográfica Pinote. Participa-se em pé, ligado ao dispositivo virtual da Mindicon, e segurando na mão um objeto a que sejamos apegados. Por volta das 15 horas cai a noite. Somos colocados na penumbra até que os olhos se adaptam à luz do firmamento e as coisas em volta ganham uma textura de lã, como se a escuridão emprestasse uma macieza às formas. Damos então por nós junto a árvores, talvez meia dúzia delas, amontadas ao fundo de uma ladeira onde somos deixados prolongadamente sem que nada aconteça. Quando, devido ao tédio, o corpo começa a ser tomado de um formigueiro, os restantes sentidos são então ligados, e chega-nos o cheiro a humidade, do que poderá ser um insonoro regato, ao que são adicionados arrepios nas omoplatas que nos obrigam a um ou dois espirros. Ficamos a vibrar pela expulsão do ar enquanto a ressonância do som permanece como um borrifar de água sobre a paisagem invisível. Sentimos então os pés a moverem-se monte acima, tropeçando em arbustos e pedras, fletindo os joelhos de encontro ao chão, como se a cegueira do andar nos colocasse um peso nas costas. É nesse desconforto que nos começa a invadir uma sensação de medo, que na escuridão nos faz apressar o passo, subindo, deixando para trás a sombra das árvores, enquanto se vai impondo à nossa frente uma forma retangular, de superfície lisa e aspeto intransponível. É então que sentimos a dor na mão que não larga o objeto. É por altura do pulso. E estamos imobilizados em frente à grande parede, pressentido o amplo espaço da noite pelas costas. Quando a dor se torna insuportável, num pestanejar de olhos, percebemos que a parede é afinal de um casebre, por onde se abre uma porta meio derrocada. Enfiamo-nos por esse buraco e encostamo-nos a umas traves de madeira carcomida. Neste canto, cai um silêncio total e assustamo-nos, pois já não conseguimos ouvir a própria respiração. A única ligação com o exterior é este objeto, que levamos ao peito, procurando ouvi-lo e vê-lo pelo olfato. Cheira a nada. Apertamos as mãos e as unhas vão de encontro à carne das palmas. Essa é a única parte que se sente do corpo. Desligam-nos a mente e somos apenas aquela mão que abre e fecha como patas de aranha recém decepada. Anda pelo casebre, enterrando-se no pó amarelo da madeira e rebolando na terra batida do chão. Nesse momento acende-se a luz numa divisão quadrada com uma pequena mesa no centro e duas cadeiras frente a frente. Estamos sentados numa delas com a mão imobilizada sobre o tampo e corpo direito na cadeira. Na outra está o ícone do Hilário nu à máquina de escrever e, mais ao fundo, de costas para nós, o ícone do Hilário com o fato largueirão olhando por uma pequena janela. Por detrás, o ícone do Mouco começa-se a desfazer enrolando-nos em papel de jornal atado com fitas de filme a preto e branco. É quando os olhos nos saem órbitas afora que fixamos a minúscula caixa castanha de mogno avermelhado com o fecho dourado em reboliço que se eleva abrindo a tampa.

domingo, 21 de abril de 2019

Mouro, o caramelo, por estrelinha97

Estranhareis o extravasamento desta obra, pois sois de um tempo em que eram escritas na obsessão com o contexto, a que, numa atitude auto justificativa, apelidavam de coerência. Esta coerência é bem patente na precisão das descrições dos lugares, dos tempos, das personagens, dos linguajares, por forma a serem uma única coisa. Essa preocupação utilitária foi transversal a todas as atividades humanas até que, como já tive a oportunidade de referir, as máquinas passaram a garantir o sustento. Agora podemos dedicar-nos ao mapa que é da dimensão do mundo, se é que me entendeis. E que melhor prova disso que o ícone, Mouro, o caramelo, por estrelinha97. Um ícone cerebral feito por quem nunca privou com os personagens reais desta história, que sim, a terá lido no tempo para o qual a escrevo, provavelmente ainda jovem, e que agora, passados muitos anos, resolve submeter à galeria o seu ícone cerebral sobre o Mouro, um Mouro lido, e nem me preocupo em dizer se foi gerado com uma versão com atestado de veracidade da Mindicon, dado que já não consigo contar o número de referendos que houve sobre esta norma, cada qual com uma elaboração mais detalhada da pergunta, que mais parecia uma discussão sobre qual o significado de veracidade nos dias de hoje do que um ato de decisão política. E tenho que realçar que este ícone não é como o de romeu77santana, e perdoai-me alguma imprecisão, se é que a há, onde podem ser detetados sinais de convivência com quem efetivamente privou com os personagens reais, e, deixai-me lançar um pouco mais de água na vossa fervura, se é que eles efetivamente existiram. É, inicialmente, um ícone bucólico, com a sua marca de ternura, onde não falta um porco amigo, irrealmente caminhando com o Mouro, lado a lado, como que se imbuídos do mesmo destino, especialmente quando sabemos da história que a intenção de um era comer o outro, digo-o sem presunção, sendo por isso essa caminhada em conjunto, se a tivesse havido, puramente circunstancial, e de curta duração. Por outro lado, a cor rósea do animal denuncia as falhas desta obra na descrição de pocilgas, como se para se poder dirigir a palavra a um porco ele tenha de estar, pelo menos, bem lavado e escovado. Depois, conforme nos vamos afastando e aproximando do ícone, dando passinhos virtuais, o Mouro surge coberto por uma folha de papel colorido, chamativo, papel de caramelo, torcido acima como um cabelo à Elvis, e a abaixo como um rabo de sereia, e se agora nos movermos um pouco à direita vemos o porco torcendo o pescoço e encarando o Mouro com uns olhos gulosos, um pouco sôfregos, babando-se, com uma baba de porco, deliciosa, diz quem já teve a felicidade de a provar, notando-se um desconforto debaixo do papel, um manear de ombros e ancas, agora que o Mouro se tornou num gordo paralelepípedo entra neste bambolear démodé, que já teve os seus dias, nos idos dos finais dos anos 50, sendo mesmo capaz de suscitar a exclamação, gostoso. E perguntais-vos vós, o porquê deste ícone cerebral na galeria Pinote? Bom, parece-me que não conseguis ver o mapa do tamanho do mundo.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante

Entre os 3 Pinotes e os 2 Hilários acompanhados de 1 Mouco, jaz no chão da galeria o ícone cerebral, A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante. Tendo sido um homem esguio e seco, trajado para a guerra como o padre para o celibato, não deixou descendência digna desse nome, uma vez que como tal não se pode considerar um mestiço num musseque de Luanda, se é que o há, como também não são merecedores dessa classificação os filhos de um padre, se é que os há, sendo pois dois seres que de igual se alimentam do imaginário, como se a vida fosse apenas um sonho, incapazes de deixar uma pegada física, pelo que, na ausência de qualquer prova de sucessão material, nada melhor do que as histórias da antiga cavalaria andante para produzir o seu ícone. Suspeita-se mesmo que possa ser obra do software da Mindicon, responsável pela gestão social da galeria, que, como um curador, decide acerca do inter-relacionamento entre os ícones, com vista a pronunciar o seu impacto, não sendo, nesse caso, A morte do Sr. Capitão Simões, um verdadeiro ícone, aproximando-se mais de uma parede, ou um projetor, no que são os elementos de uma galeria como vós a conheceis. Sendo sintético, difere também do Pinote por josedigitalgalvao, pela despretensão de ser coisa alguma, a não ser uma súmula. Traça, portanto, o corpo estendido, violáceo do garrote, uma linha imaginária que separa os dois bandos que se enfrentam de razões bem físicas, todas elas feitas da carne e das suas emoções subjacentes. Colocado ao nível do chão, é impercetível para quem entra na galeria, preso no olhar pelos ícones pendentes e pelas suas subtis interações. Mas passado um pouco, sente-se uma tensão, como se algo impedisse os dois grupos de se lançarem um contra o outro, e ao mesmo tempo não os deixa voltar costas e debandar. Diz-se que os cavaleiros andantes morrem da mesma febre que os tomou em vida, sendo apenas fatal a infelicidade de esta agora os apanhar na cama, incapazes de galgar a um cavalo e partir à aventura, e parece ser evidente esse efeito neste militar impecavelmente fardado, há anos confinado ao seu gabinete e ao despacho. Requerimentos, requerimentos, parece ter estampado no rosto vítima da asfixia, reproduzido em três cópias a papel químico, encaracoladas aos cabelos como os canudos de um judeu ortodoxo. Como pode um homem vocacionado para a guerra sobreviver a um ataque de papelada, ainda que química? Pode mesmo ser fatal trazer um homem à razão? Foi com falinhas mansas que o tiraram do Ultramar para o encerrar naquele vilarejo de província, como símbolo, é verdade, mas administrador de coisa nenhuma. Parece ter saudades da Luanda onde cavalgava o seu cavalo branco, a quem deu um tiro depois de partir uma perna numa noite de cacimba, e cuja reprodução, a pau pintado, se encontra agora entre as pernas estendidas do Capitão Simões, com a cabeça espalmada tombada, ainda que embelezada por duas tranças de fios de lã branca que não conseguem esconder o orifício deixado pela bala. Quem matou o Capitão Simões, pergunta-se ao longo do corpo do animal.

sábado, 6 de abril de 2019

Uma visita à galeria iconográfica

Tudo o que é irreal suscita atração. O Pinote segundo Dr. José Galvão desencadeou uma avalanche de visitas à galeria. E para isso, esclareço-vos já, desculpando-me, pelo lapso, dado com frequência me esquecer da época para que escrevo, que também é a única em que me podem ler, uma vez que, como já vos disse, a literatura morreu não muito depois do início do século XXI, e para isso, dizia, e desculpai-me mais uma vez destas interjeições que com frequência se intrometem na minha escrita, mas que é também um sinal dos tempos, em que os humanos se dedicam aos pensamentos divergentes, deixando os convergentes, aqueles que têm como único objetivo chegar a uma conclusão, às máquina, entretendo-nos nós na procura da perceção do todo, uma vez que a tecnologia nos abasta, e só não divaga quem não pode, como escreveu um dos últimos poetas de que há memória, e para isso, dizia, um poeta, desculpai-me de novo, que apagou toda a sua obra pouco depois de experimentar as transferências cerebrais, mais propriamente as visitas às galerias iconográficas, sim, e para isso, e perguntais-vos, talvez, como pode uma poeta apagar uma obra, não um manuscrito atirado para uma lareira num momento de despeito, mas uma obra publicada, uma obra completa, publicada, repito, e para isso, dizia, bastava ligarmo-nos a uma máquina de visita iconográfica, adquirir um acesso e dispormo-nos a nos deixar percorrer pelas imagens que são baixadas diretamente para o nosso cérebro, onde são temporariamente depositadas sobre as outras que nos habitam, e uso a palavra imagem sem propriedade, uma vez que no tempo em que viveis essa é a única forma como podereis entender o modo como se gravam impressões alheias no cérebro, sim, andaram durante anos os artistas a ter golpes de inspiração, pensava-se, a tirar cá para fora o que achavam estar lá profundamente incrustado, sim, a razão do ser, o ser, mesmo o ser, talvez tenha sido essa a razão do desalento do poeta, não um momento de raiva devido a um desentendimento com a crítica, mas um momento de prostração devido a um desentendimento consigo mesmo, talvez porque se tivesse convencido da sua obra, daquelas sibilações linguísticas, como quem se faz de um modelo externo de si mesmo, como os comentadores a que assistis nos programas de televisão, e para isso, perguntais-vos, desconfio, como pode ter apagado a obra, simples, respondo-vos, desligou-se, mas primeiro considerou-a pobre, parcial e imatura, uma coisa que representa uma coisa não pode nunca ser a própria coisa, é outra coisa, disse o poeta, mas já não o escreveu, ou diz-se que disse, pois, como disse, ele apagou-se, mas, desculpai-me, o Pinote segundo Dr. José Galvão sobrecarregou a galeria de descargas, pois suscitou-se a curiosidade sobre como seria o ícone cerebral de uma máquina, admirais-vos vós, que o que vos descrevi como uma estátua de bronze, disforme, possa ter despertado tanto furor, sois como o poeta, prendeis-vos da forma, onde procurais encontrar o ser, nunca visitastes uma galeria iconográfica cerebral.