Amanhã volta a ser feriado, depois dos programas de comentário político dessa noite, sem muitas novidades, no arrefecimento das europeias, com as legislativas ainda distantes, discutindo crises, como quem, nas boxes, antes da corrida, debaixo do capot, vai apontando partes do motor e discorrendo sobre as suas potencialidades e, sobretudo, fraquezas, quando Humberto chegou ao quarto já estava Cátia deitada, com um livro aberto nas mãos, sobre qualquer coisa de neurociências, recostada na almofada, estendida, recebe Humberto com um sorriso, até já parecemos um casal, diz, porquê?, pergunta Humberto, porque cada um vem para a cama quando lhe apetece e não só porque apetece vir para a cama, diz com um toquezinho de cumplicidade, pois é, concorda Humberto, o que estás a ler?, pergunta-lhe com um movimento de queixo, de baixo para cima, na direção do livro que Cátia tem na mão, é sobre o cérebro estético, não sei se é esta a melhor tradução para português, é sobre como o cérebro constrói a beleza, também não sei se constrói é o melhor termo, se calhar esse é o cerne da questão, ri com o livro momentaneamente fechado apertando o dedo indicador, volteando-o, como se o movimento permitisse soltar algum do seu conteúdo, e então?, pergunta-lhe Humberto enquanto se dobra para tirar as calças, ainda estou no início, mas já se sabe, parece haver uma vantagem competitiva em se ser belo, diz Cátia com os olhos nas pernas bem torneadas de Humberto, agora levantado, correndo os olhos acima, tomando as proporções, até às nádegas escondidas pela fralda, pois é, responde Humberto, deitando a ponta dos dedos aos botões da camisa para os tirar da casa, já dizia Platão, a beleza, a bondade e a verdade são os valores máximos, sim, sorri Cátia, olhando para os ombros de Humberto sobre os quais a camisa descai, enquanto os botões se soltam de cima para baixo, essa citação surge no livro, acrescenta, já leste a República de Platão?, pergunta-lhe Humberto, agora com o corpo todo descoberto, de perfil para Cátia, com as mãos a enviar-se entre as cuecas, lateralmente, para as puxar para baixo, não, não sei se teria paciência, responde Cátia apertando com maior intensidade o cérebro estético contra o dedo indicador, apercebendo-se da pressão solta um sorriso suspirado, substituindo o indicador pelo polegar, rodando o dedo avermelhado, com uma marca do rebordo das páginas, levantando os olhos para Humberto, com os braços ao longo do corpo, as mãos de dedos estendidos, relaxados junto aos quadris, as nádegas fortes, e o pénis repousado no ângulo dos testículos, tu sabes que és muito bonito, diz-lhe num murmúrio, de verdade?, pergunta-lhe a cabeça de Humberto virada, queixo sobre o ombro, onde a barba loira debaixo do sorriso depõe umas insígnias, sim, assente Cátia permitindo-se um deslumbramento, e achas que também tenho a qualidade da bondade?, diz-lhe Humberto de modo tão neutro que é impossível saber se é uma pergunta ou uma ironia, Cátia respira fundo, penso que sim, mas no que é que isso interessa?, diz.
In 25 de abril sempre (2019)