A direita perdeu as eleições para as europeias e Humberto Mascarenhas, já a pensar nas legislativas, apelou à união da direita, como tive possibilidade de comentar numa crónica anterior, mas agora vai mais longe, e vem mesmo a falar de entendimento, é preciso um entendimento na direita, disse, e precisou, como que extremando a necessidade, se os comunistas engoliram sapos para a eleição de Mário Soares, e agora apoiam este governo em troca de favores sindicais, nós, a Direita, que desde o 25 de abril tem revelado uma notável capacidade de convergir, podemos alcançar consensos de cabeça limpa e sem ter de fechar os olhos, acabou por ironizar. Adiantou mesmo os princípios estratégicos sobre o quais deverá assentar este entendimento, os valores e a aceitação das diferenças, os quais, desde já adianto, me parecem louváveis. Sobre o primeiro já aqui também me pude referir, sobre uma certa esquizofrenia eleitoral, mas que ainda assim entendo, pois não se fazem omeletes sem partir ovos, e se o fim do estado social, apresentado a frio, não ganha votos, melhor resultado terá a sua visível degradação, bem patente nas empresas públicas, nas escolas e nos hospitais, como contraponto ao privado. É por isso sim necessário assegurar um maior financiamento público do privado, porque este é mais eficaz, e essa é hoje em dia a linha divisória que separa a direita da esquerda, pois, como todos sabem, dos Lusíadas a Santa Maria vai apenas um dedo. Mas o meu objetivo não é estar aqui a discutir a Lei de Bases da Saúde, nem esta proposta insípida dos socialistas, que parecem querer passar a ser responsáveis pelo equilíbrio do sistema político, no pior sentido do termo, claro, o da ausência de reformas, ou dito de outra forma, o do engonhanço, mas sim a parte em que Mascarenhas disse que o consenso tem que ser construído sobre a aceitação das diferenças. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, quais são essas diferenças a que se refere Humberto Mascarenhas? Em boa verdade, eu diria que depende muito daquilo que entendermos por este entendimento. Neste país, esta direita corresponde a duas realidades completamente distintas. Uma coisa é uma direita jovem, citadina, herdeira da antiga direita bem formada, de médicos e advogados proeminentes cujo nome denota uma estirpe, um cuidado, formado por anos de bem cultivada convivência burguesa, quiçá até com um cheirinho nas artes, nas formas mais nobres de não fazer dinheiro, como usufruto das mais valias geradas pelo corpo familiar central. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, esta é uma direita rica e diversificada em que a aceitação das diferenças até tem um toque de classe. Só que depois existe uma outra realidade associada à outra direita, que é uma direita da província, mesmo vivendo na cidade, uma direita indistinta, que idolatra o Quim Barreiros, repetindo ad nauseam que quer cheirar o bacalhau, sem um entendimento cosmopolita, de vistas curtas, arriscaria a dizer. Se este seu entendimento contaminar a direita portuguesa, a tentativa que ela aceite as diferenças poderá ter consequências calamitosas.
In 25 de abril sempre (2019)