domingo, 9 de junho de 2019

Mascarenhas e o entendimento. Opinião de José de Mendonça

A direita perdeu as eleições para as europeias e Humberto Mascarenhas, já a pensar nas legislativas, apelou à união da direita, como tive possibilidade de comentar numa crónica anterior, mas agora vai mais longe, e vem mesmo a falar de entendimento, é preciso um entendimento na direita, disse, e precisou, como que extremando a necessidade, se os comunistas engoliram sapos para a eleição de Mário Soares, e agora apoiam este governo em troca de favores sindicais, nós, a Direita, que desde o 25 de abril tem revelado uma notável capacidade de convergir, podemos alcançar consensos de cabeça limpa e sem ter de fechar os olhos, acabou por ironizar. Adiantou mesmo os princípios estratégicos sobre o quais deverá assentar este entendimento, os valores e a aceitação das diferenças, os quais, desde já adianto, me parecem louváveis. Sobre o primeiro já aqui também me pude referir, sobre uma certa esquizofrenia eleitoral, mas que ainda assim entendo, pois não se fazem omeletes sem partir ovos, e se o fim do estado social, apresentado a frio, não ganha votos, melhor resultado terá a sua visível degradação, bem patente nas empresas públicas, nas escolas e nos hospitais, como contraponto ao privado. É por isso sim necessário assegurar um maior financiamento público do privado, porque este é mais eficaz, e essa é hoje em dia a linha divisória que separa a direita da esquerda, pois, como todos sabem, dos Lusíadas a Santa Maria vai apenas um dedo. Mas o meu objetivo não é estar aqui a discutir a Lei de Bases da Saúde, nem esta proposta insípida dos socialistas, que parecem querer passar a ser responsáveis pelo equilíbrio do sistema político, no pior sentido do termo, claro, o da ausência de reformas, ou dito de outra forma, o do engonhanço, mas sim a parte em que Mascarenhas disse que o consenso tem que ser construído sobre a aceitação das diferenças. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, quais são essas diferenças a que se refere Humberto Mascarenhas? Em boa verdade, eu diria que depende muito daquilo que entendermos por este entendimento. Neste país, esta direita corresponde a duas realidades completamente distintas. Uma coisa é uma direita jovem, citadina, herdeira da antiga direita bem formada, de médicos e advogados proeminentes cujo nome denota uma estirpe, um cuidado, formado por anos de bem cultivada convivência burguesa, quiçá até com um cheirinho nas artes, nas formas mais nobres de não fazer dinheiro, como usufruto das mais valias geradas pelo corpo familiar central. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, esta é uma direita rica e diversificada em que a aceitação das diferenças até tem um toque de classe. Só que depois existe uma outra realidade associada à outra direita, que é uma direita da província, mesmo vivendo na cidade, uma direita indistinta, que idolatra o Quim Barreiros, repetindo ad nauseam que quer cheirar o bacalhau, sem um entendimento cosmopolita, de vistas curtas, arriscaria a dizer. Se este seu entendimento contaminar a direita portuguesa, a tentativa que ela aceite as diferenças poderá ter consequências calamitosas.

sábado, 8 de junho de 2019

O Dr. Humberto Mascarenhas fecha os olhos

Considerando a teoria e a prática das relações de poder, é estonteante, quase contranatura, a facilidade com que um homossexual fala para o coração de uma mulher, pelo que as consequências podem ir desde a mais completa harmonia, em que ele se torna para ela numa mulher-homem, onde uma intensa intimidade afetiva se materializa no corpo masculino, como uma torneada conversa num porto seguro, desarredondado e peludo, até ao mais avassalador cenário, em que ele se torna para ela num homem-mulher, onde a intensidade da atração esquisitóide de duas almas gémeas esbarra constantemente com o desatino dos corpos que não encaixam, como se o mais enlevado espírito acabasse vítima de esgotamento por falta de matéria onde repousar. E, se a juntar a esta capacidade de chegar perto, de gerar sons que fazem eco, que ficam a ressoar lá dentro, que demoram a se dissipar, entre as pernas e a cabeça, pulsando por ali, se juntarmos a ilusão do fortuito, como aquele encontro ocasional entre o Humberto e a Cátia, num bar, na zona da Assembleia da República, depois de Humberto ter deixado Ricardo a chorar em casa, implorando-lhe que não o deixasse, o tipo de encontro que tem uma fugacidade tranquilizadora, primeiro, por ser uma segunda vez, a primeira foi há alguns anos atrás, em que quase não falaram, Cátia foi-lhe apresentada pelo namorado, o Afonso, o irmão de uma amiga de adolescência, a Catarina, foram cinco minutos, dez, se tanto, segundo, por ser um encontro fortuito e isso gerar na cabeça de algumas mulheres uma sensação libertadora, de uma ordem onde o destino era uma moeda de troca, uma coisa de milénios, a liberdade de escolher, o livre arbítrio, a democracia. Mas, terceiro, pela abordagem direta, completamente descomprometida, e, ao mesmo tempo, quase como se o encontro estivesse combinado, passado todos aqueles anos, o Humberto disse, Cátia, há algum tempo, a Cátia surpreendida, conhecia o Humberto, claro, a televisão é um dispositivo de reavivamento da memória, não se esqueçam de votar no domingo, várias refeições ao dia, saia de casa, não fique no sofá, lembras-te de mim, sim, claro, um político não esquece uma cara, não esquece um nome, respondeu Humberto, e riram enquanto pediam um gin, o Humberto não gosta de gin, e quando bastantes palavras mais à frente Humberto lhe toca na mão, como se a ajudando a levantar o copo do balcão, a Cátia sussurra-lhe muito baixinho, com um sorriso, mas tu não és homossexual?, ao que o Humberto lhe responde, mas tu não és a namorada do Afonso?, era, responde, e, no apartamento de Cátia, com as luzes da rua a entrar pela janela, meio embriagados do álcool e da sintonia das almas, tiram a roupa sem a rapidez dos amantes, mas os corpos são belos, não há outra beleza que não seja a dos corpos, dos músculos do Humberto, dos seios rijos do ginásio da Cátia, beijam-se porque estão vivos, deitam-se um sobre o outro, olham-se demoradamente, Humberto fecha os olhos e vê o Ricardo, um homem de cinquenta anos, sim, isso, não pares, diz-lhe Cátia.

domingo, 2 de junho de 2019

Humberto Mascarenhas, e agora? Opinião de José de Mendonça

Humberto Mascarenhas perdeu as eleições para as europeias e, embora este resultado não fosse de todo inesperado, dadas as sondagens, mas sondagens são apenas sondagens e o que conta é o resultado do voto expresso nas urnas, aproveitou o discurso feito nessa noite, para refletir sobre o futuro da direita em Portugal, e aquela que pretende ser a sua estratégia, tendo deixado alguns conselhos louváveis. O primeiro não merece grande discussão, este é o momento, mais do que nunca, disse, de não desanimarmos perante os resultados, é o momento de reforçar o acreditar nos nossos princípios, nos valores que defendemos. É um excelente conselho, que o próprio Humberto Mascarenhas deveria talvez seguir quando fez campanha, onde muitas das suas intervenções pareciam um nim, sim, falando da iniciativa privada, mas não, nunca colocando em causa um estado social, que sabemos é a causa do muito que vai mal neste país. Mas o meu objetivo não é estar aqui a discutir imediatistas estratégias pós-eleitorais, vertidas a quente, primeiro ao lume brando das estimativas dos telejornais das 20 horas, depois na ebulição dos resultados consumados, mas sim a parte em que Mascarenhas disse que estes resultados não são o fim da direita, de uma direita que já várias vezes teve a maioria absoluta em Portugal, acentuou, que o que faltou foi não se ter respondido cabalmente às ansiedades do povo de direita, que existe, está lá, ainda que dormente nestas eleições. De seguida, convidou a Direita a unir-se para reconquistar os valores de Portugal, e declarou que se ultrapassarmos as nossas diferenças, para em vez disso nos focarmos aspetos reais do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor, sem a extrema-esquerda no poder. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, será que vamos mesmo? Em boa verdade, eu diria que depende muito daquilo que entendermos pela união da direita. Neste país, essa direita corresponde a duas realidades completamente distintas. Uma coisa é a essa direita que já nos deu tantas alegrias, onde se pode mesmo encontrar uma raiz identitária, e historicamente mais alinhada com o Portugal real, aquele que tem 700 anos de história. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, é uma pena que a divisão da direita faça com que não esteja condignamente representada no Parlamento, e que os seus valores não passem para as empresas públicas, para as escolas e para os hospitais, numa sociedade onde não há cá interesses pessoais, não há favores, não há familygates, onde nenhuma vaidade pessoal resiste ao interesse comum. Só que depois existe uma outra realidade associada a esta mesma direita, e que são as várias direitas, ou melhor, as pessoas que fazem a direita, pessoas, por vezes, quase idolatradas, e em que todo este tempo puseram a mão por debaixo deste governo de esquerda, que nos momentos fulcrais lhe suavizaram o caminho, repetindo ad nauseam o bem de Portugal, e que agora se propõem ser os salvadores da direita. Se a sua força contaminar a direita portuguesa, as consequências serão calamitosas.

sábado, 1 de junho de 2019

A derrota, Humberto e Ricardo

Humbinho, deixa eu tê tu, não fica assim Humbinho, eu qué tê tu, vá lá, eu sei que tu gosta. Agora não, Ricardo, desculpa, mas eu não me sinto bem, não tenho vontade. Há quanto tempo estás assim? já passou quase uma semana, Humbinho, ias ver que te fazia bem, deixavas de pensar nisso, e sabes, eu também preciso. Eu sei, Ricardo, desculpa, mas não me consigo concentrar, não ia correr bem, não é assim que queres, pois não? Sim, Humbinho, claro que não, mas se calhar as coisas não são tão más como as pintam, é apenas a conversa dos comentadores, sabes como eles são, têm que escrever todas as semanas, e quando apanham um filão descascam-no até ao tutano, Humbinho, agora é o fim da direita, vais ver que quando chegarem ao osso, começam a escrever sobre o renascer da direita, Humbinho, tu é o renascer da direita Humbinho, ai sinto isso tanto, dá-me um beijo na boca. Não é assim tão simples, Ricardo, e há a questão da liderança, nestes próximos dias muita coisa pode acontecer. É isso que te preocupa, Humbinho, não é? vais ver que não acontece nada, és líder há tão pouco tempo, quem é que iria avançar agora contra o meu Humbinho, deu-me tanta tusa abraçar-se durante a arruada da rua Augusta, pensei, vou fazer uma surpresa ao meu Humbinho, e tenho a certeza que ele vai ficar todo contente, não estavas à espera, pois não, Humbinho? Sim, gostei de te ver, de me abraçares assim, no meio da rua, com toda a gente a olhar, com as câmaras de televisão, mas é muito perigoso, Ricardo, especialmente agora, não sei qual foi a base que ficou, creio que estamos numa fase de retração, temos que ser muito cautelosos, pois são períodos onde se é naturalmente mais conservador, menos tolerante, percebes, Humbinho, lembras-te de La Fete de Babette? Sim, tu és o meu vinho, o meu manjar, a minha cozinha francesa, o desenhinho no meu prato branco, o gelado de frutos vermelhos assinado a chocolate, assim, escrito a letras doces, o Humbinho é do Ricky, é todo, todo, todo, do seu Ricky. Mas é o contrário disso, Ricardo, não houve festa, estamos em retração, as pessoas serão mais sensíveis aos seus preconceitos, o ser humano é um tubo digestivo envolto em espírito, Ricardo, e as emanações do espírito parecem livres, independentes, cheias de força e autossuficiência, mas a sua turbulência apenas depende do que lhe corre no tubo, e não houve festa, Ricardo, temos que ter muito cuidado, o menor descuido pode ser catastrófico, a base que ficou pode não ser liberal, pode ser de direita apenas, não sei, Ricardo. O que é que o meu Humbinho não sabe, o Humbinho sabe tudo, para o seu Ricky o Humbinho é um sabichão, o maior sabichão que existe, e olha que ele é mesmo grande, o Humbinho é muito grande. Não, Ricardo, não percebeste, estou realmente preocupado connosco, não sei, tenho andado preocupado com muitas coisas, mas por vezes ocorre-me que talvez, Ricardo, talvez, Ricardo, não leves a mal o que te vou dizer, Ricardo, mas tenho pensado muito nisso, sabes que eu gosto muito de ti, mas talvez devêssemos parar por uns tempos.

domingo, 26 de maio de 2019

A arruada do Dr. Humberto Mascarenhas

Diretamente da baixa pombalina, onde do alto destes edifícios 264 anos de história nos contemplam, parece ser o que quer dizer o Dr. Humberto Mascarenhas que neste momento, perante as câmaras de televisão vai olhando para o topo das fachadas da rua Augusta, estamos em direto da arruada organizada pelo partido do Dr. Humberto Mascarenhas, que se encontra ainda ao cimo da Rua Augusta, onde se vão juntando os simpatizantes, são muitas as bandeiras, há gente que se move em várias direções, pessoas que parecem se conhecer, que se cumprimentam, em direto da arruada deste partido de direita, que, nas palavras do seu líder, tem uma atitude frontal contra o populismo, há uma alternativa, disse-nos ainda há pouco Humberto Mascarenhas, numa pequena conversa que tivemos com ele, ainda não eram 12 horas, recordo que a arruada estava marcada para as 13, mas foi feito um compasso de espera, uma vez que tem vindo chegando mais gente, não posso dizer com precisão quantos são, são muitas as bandeiras, perguntei ao Dr. Mascarenhas porquê uma arruada, num partido principalmente reconhecido pelos seus quadros, por um certo elitismo, mas ele negou completamente esse juízo, o partido é um partido do povo e para o povo, disse, elitista é a esquerda, começaram neste momento a tocar os zés pereiras, em direto da arruada de Mascarenhas, desculpa, aí no estúdio, estar a falar mais alto, mas é um barulho ensurdecedor, o Dr. posiciona-se agora à frente, parece que sim, é agora que se vai começar a descer a rua Augusta, aqui, ainda entre a sucursal bancária e a antiga casa das meias, é ladeado pela comissão política, do lado direito, Vítor Amaral, conhecido economista, indicado por muitos como o homem das finanças desta direção política, o homem do choque fiscal, dadas as propostas que o partido avançou de redução drástica dos impostos das empresas, veja-se o caso da Irlanda, ainda há pouco me repetiu o Dr. Humberto Mascarenhas, muito jovem Vítor Amaral, gerar riqueza é o mote de partido de Humberto Mascarenhas, de resto como quase todos os membros desta nova direção, perguntei isso mesmo ao Dr. Humberto Mascarenhas, se entre tanta juventude não poderia faltar alguma experiência, mas o Dr. Mascarenhas foi perentório, com o seu sorriso, pelo que já foi considerado o líder político mais sexy desde o 25 de abril, disse que esta nova direita é jovem e liberal, sobretudo liberal, em direto da arruada na rua Augusta, neste momento um transeunte dirige-se ao Dr. Mascarenhas e abraça-o, é um homem também jovem, confesso que não consigo reconhecer quem possa ser, talvez um familiar, em direto da arruada, o líder dirige-se aos transeuntes para os cumprimentar, para apelar ao voto no seu partido, neste momento está a falar com uma mãe com uma criança pela mão, o Dr. Humberto Mascarenhas troca alguma palavras com o jovem mãe e dá um beijinho na criança, Dr. Humberto Mascarenhas, Dr. Humberto Mascarenhas, em direto para a televisão, qual é a sua posição acerca do populismo, temos uma atitude frontal contra o populismo, há uma alternativa.

sábado, 25 de maio de 2019

Humberto Mascarenhas e o populismo. Opinião de José de Mendonça

Humberto Mascarenhas ganhou as primárias do seu partido e aproveitou o discurso da vitória para refletir sobre o populismo e aquela que pretende ser a sua estratégia sobre este fenómeno, tendo deixado alguns conselhos louváveis. O primeiro não merece grande discussão, está na altura, disse, de não nos deixarmos levar pelas ondas do populismo. É um excelente conselho, que o próprio Humberto Mascarenhas deveria talvez seguir quando fez campanha, onde muitas das suas intervenções pareciam decalcadas daquelas que fez enquanto comentador televisivo, em solilóquio, a que nos habitou semanalmente. Uma campanha em que, dada a sua popularidade, comparativamente com os restantes candidatos, se pode dizer que foi feita a falar da fruta sem nunca ter tido a necessidade de lhe tocar. Mas o meu objetivo não é estar aqui a discutir estratégias eleitorais, mas sim a parte em que Mascarenhas disse que é preciso perceber que populismo é apenas populismo e que há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país pelas quais temos que lutar. De seguida, convidou os Portugueses a unirem-se para reconquistar os valores de Portugal, e declarou que se unirmos e substituirmos a força e a exigência fátua que perpassa o populismo para em vez disso nos focarmos aspetos reais do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor, sem populismo, sem demagogia. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, será que vamos mesmo? Em boa verdade, eu diria que depende muito daquilo que entendermos pela força motriz que, com felicidade, se extrai do populismo. Neste país, a mesma força é usada para gerar duas realidades completamente distintas. Uma coisa é a força enquanto emoção partilhada por milhares, se não milhões de pessoas, em uníssono. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, é uma pena que essa energia partilhada não seja transposta para o Parlamento, para as empresas públicas, para as escolas e para os hospitais, numa sociedade onde não há cá interesses pessoais, não há favores, não há familygates, nenhum amiguismo resiste ao interesse comum. Nesse aspeto, esta força faz maravilhas pelo enaltecimento do liberalismo puro e duro, a soma da energia do egoísmo de cada indivíduo transformado numa formidável força motriz que faz avançar Portugal. Só que depois existe uma outra realidade associada a essa mesma energia que move o populismo, e da qual ela não pode ser, infelizmente, extraída, é a análise do mundo, feita das ondas cerebrais que estão na base das emanações que geram este movimento coletivo que Mascarenhas idolatra, mas que estão enraizadas em cada cabeça, em cada cantinho, gerando painéis de discursos interiores apopléticos, a repetição ad nauseam da mulher de cara velada no bairro, ali mesmo ao lado, com o homem barbudo que já parece ser o dono disto tudo. Esta deprimente cabeça de cada um já não está à altura dos desejos de Humberto Mascarenhas. Pelo contrário. Se a sua força contaminar a sociedade portuguesa, as consequências serão calamitosas.

domingo, 19 de maio de 2019

O Dr. Humberto Mascarenhas abafa a palhinha, faz o trólóró

O Dr. Humberto Mascarenhas abafa a palhinha, faz o trólóró, joga à macaca como as meninas, ora gira para cá, ora gira para lá, antes de ir fazer o óó. Do que gosta ele sei eu, é do carapau, e de certeza que o prefere com o azeitinho avinagrado, à moda do molho de escabeche. Nã, ele deve é gostar do robalo enfornado, já todo estaladiço, com a pele a saltar, já quase a perder o viço. E porque não o pernil no forno, com as suas partes gelatinosas, em torno do osso nodoso. Ouvi dizer, e apenas aqui vos o repito, que do que ele gosta mesmo é de bacalhau com todos, que não lhe bastam as lascas escorregadiças do gadídeo, também tem que encher a boca com o grão, como um ouriço. Mas olha que não foi isso que ouvi, embora acredite piamente que também seja verdade, mas de um restaurante de que ele é useiro e vezeiro, contou-me um empregado, que não larga a porta para comer o cozido, e do que mais gosta é da morcela, para já não falar da farinheira. Ah, então, se o que ele gosta é de enchidos, sem temor me deito aqui a adivinhar, que de certeza os maranhos o farão delirar, que muito deverá ele de gostar de mordiscar os grãos de arrozinho. Agora que falas de maranhos, por alguma razão, vem-me à ideia o Brasil, onde não sei se há veado, mas se o houver, quando lá vai em viagem de estado, deve-o comer estufado. Pois, é o doutor muito viajado, que se for à Hungria enche o papo de gulache, que é um caldo de carnes baloiçantes, e dizem que bem picantes. Mas, olha que de lá já correram com os turcos, mas ainda assim, o Dr. Humberto Mascarenhas que é todo liberal, de certeza não perde a oportunidade de dar um saltinho mais a sul para comer um kebab. E agora que anda pela Turquia, é homem de meter o bedelho, se não mesmo a bilha, no conflito israelo-árabe, nem que seja para se deleitar com húmus. Na sua ânsia de estadar, muito mais para leste ele deve gostar de viajar, só parando quando encontrar uma gastronomia em que para comer sejam necessários dois pauzinhos. Ui, ui, ui, já o imagino com o sashimi, do mais vermelhusco salmão, quase ainda vivo e derretidiço, apertadinho entre dedos em direção à boca. Para mim, e olhando para a figurinha, tem gostinhos mais refinados, sobe de certeza à Rússia, onde o Putin lhe dá a sorver bolinhas de caviar entre os lábios apertados e bem amanteigados. Qual caviar qual carapuça, para ele até com gasosa gosta de levar na fuça. Deixai-me discordar, que andais para aí a deambular, o Dr. Humberto Mascarenhas é um homem que pode percorrer o mundo a experimentar, mas do que ele gosta mesmo é do nosso bom pão, pois sei de fonte fidedigna, que em terras pátrias, não descura encher a cesta de regueifas. Deve-se achar muito fino, com certeza, é por esta e por outras, por assim andar a nossa direita, que se voltasse cá o pobre do Salazar, morria logo outra vez da desfeita. Eu não sou destas coisas, mas não consigo controlar a revolta, deixarem entrar tal traste, como deputado da nação. Pois é, o Dr. Humberto Mascarenhas deve-se achar uma grande espingarda, mas tem a rosca avariada e sempre que quer dar um tiro, sai-lhe pela culatra.

sábado, 18 de maio de 2019

O Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um liberal

O Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um liberal. Não, permite-me discordar, o Humberto Mascarenhas é, fundamentalmente, um conservador, um conservador de uma direita à moda antiga, que tem mais raízes na máquina do estado, no antigo cooperativismo, do que na iniciativa privada. Bom, quanto ao partido a que pertence estamos de acordo, mas é sabido que o Humberto Mascarenhas não é o espelho do seu partido, são públicas as dificuldades internas que tem tido, e reconhecido como é por mérito próprio, pelas suas próprias capacidades, que consegue ter a voz que tem dentro do seu partido, ainda que contra a corrente. Permite-me, não nego as suas competências, mas não estou tão certo que esse papel de enfant terrible não seja convenientemente explorado, se não mesmo incentivado, no interesse da imagem do partido, o qual necessita de se suavizar, de se tornar mais apetecível, para seguir, até ver, com o barco dos tempos, enfim, um rebranding, para sermos mais precisos. Queres então dizer que o que ele defende é apenas circunstancial, que não é o que efetivamente pensa, quando diz defender posições mais liberais, sobretudo nos aspetos dos costumes, como a liberalização do consumo de drogas leves ou as questões de género. Aqui tenho uma opinião diferente de vós, o Humberto Mascarenhas é, essencialmente, um político, e como tal uma pessoa pragmática, pelo que já sabemos que nunca defenderá nada em que não acredite, em que não acredite que não resulte. Isso é muito geral, e pode ser dito em qualquer situação, até o já tens repetido aqui muitas vezes, mas quero voltar ao argumento do rebranding, pois se reduzirmos a nossa análise à formulação de cenários, o espaço de debate deixa de ser de análise para ser de política, dado que a mera formulação de um cenário tem a possibilidade de gerar um facto político, e eu, pessoalmente, quero estar aqui como analista, não como participante do jogo político. Deixai-me, a mim que ainda não tive oportunidade de dar a minha opinião sobre este assunto, e ficando bem claro que, e sem qualquer tipo de reserva, que conheço bem o Humberto Mascarenhas, por quem nutro uma grande consideração, quer pessoal, quer profissional, e de quem sou amigo, ainda esta semana estive a almoçar com ele, que na minha opinião, o Humberto Mascarenhas é, essencial e fundamentalmente, um liberal de direita, um homem do mercado e para o mercado, ou não se tenha ele especializado em direito empresarial, sendo um férreo defensor da iniciativa privada e dos negócios em geral. Pois é aí que discordo, e não nos desviando da iniciativa legislativa, que estamos a discutir, proposta pelo Humberto Mascarenhas, acho mesmo que a iniciativa privada e a iniciativa dos negócios estão em clara contradição, e é por isso que me parece que esta iniciativa tem pés de barro, pois sabemos que a proposta condicional da reposição dos rendimentos, nos termos em que é feita, não é exequível, é areia para os olhos, deixa o Humberto Mascarenhas, e o seu partido, bem na fotografia e nos resultados, que não serão nenhuns.

domingo, 5 de maio de 2019

Sr. Marquês, Water Music, segundo George Frideric Handel

Há relatos que uma ligação prolongada à galeria iconográfica Pinote suscita uma ligeira sensação de tontura, aquilo que em língua castelhana, mais precisamente, se chama de mareo. E se aqui uso esta palavra, não é por acaso, pois muitos defendem agora, numa luta desesperada de sobrevivência perante a língua inglesa, uma língua universal latina, onde em vez de se falar usando apenas as palavras que seguem na mesma barca, se possa escolher de entre as várias embarcações que, ao sabor da maré, sobem e descem o rio. Pois, surpreendei-vos, a galeria iconográfica não é mais do que uma enorme barca, de remos alçados, rio acima, rio abaixo, onde à proa vai sentado o Sr. Marquês, sem vaidade, só por condição. O ícone da sua esposa, a Sra. Marquesa, encontra-se bem no centro, como tivemos oportunidade de o descrever, literariamente enclausurado, dispondo-se os restantes ícones, adequadamente, os Hilários e seus consortes a estibordo, cabendo o bombordo aos Pinotes e seus compagnons de route. É a extrema largura da barca que propiciou que até agora possamos ter ignorado a presença deste ícone colossal. Sempre nos colocámos lateralmente, ora tomando um partido, ora tomando o outro, enganados por esse suposto primado do humano, segundo o qual cada ser é um ser, cada ser tem a sua perspetiva. Achámos que a linha traçada pelo corpo do Sr. Capitão Armando Simões estava lá para dividir as duas partes, e, nesta condição, posicionámo-nos ora de um lado, ora do outro, da contenta, esquecendo que a obra barroca não tem lado, e se fossemos brejeiros diríamos mesmo que, quando muito, é roliça. É por isso irrelevante, neste ícone de ícones, que do ponto de vista do Sr. Marquês as partes estejam trocadas, que a direita esteja à sua esquerda e a esquerda à sua direita, já que os salpicos humanos não têm lado, entrelaçam-se, revolvem-se, empolam como o sarampo, calçam sapatos de tacão alto, vestem meias acima do joelho, fazem uma vénia e trocam de costado. Mas o mesmo já não se pode dizer de quem se senta à popa, uma bela pintura ao estilo Velázquez, não são Las meninas, mas quase poderia ser, uma delas é, a outra parece ser a sua mãe que a traz ao colo, mas a menina é uma menina grande, aparenta ter mais de 50 anos, embora esteja vestida como uma niña, ornamentada com um laço de flores no cabelo e um vestido com uma dupla saia, largamente ultrapassando a mãe em volume, sendo esta visivelmente mais nova, com a beleza espontânea das flores de início da primavera. E para quem calhou em sorte ficar à popa, a esquerda não está trocada com a direita. Esta é a razão do mareo que nos invade quando passamos muito tempo a divagar pela galeria iconográfica Pinote. E quando disso nos apercebemos não podemos deixar de perguntar, quem é o seu autor? quem concebeu esta visão longitudinal da comédia humana? quem se arroga o direito de esvaziar o particular a bem do geral? quem submete um ícone que nega o que se sentiu nos outros ícones sem precisar de os negar? Façam uma vénia e deem meia volta ao sabor do software da Mindicon. Sim, do software da Mindicon!

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Natruca, la petite mort, segundo Roland Barthes

O ícone da Sra. Marquesa rapidamente perdeu a ligação à sua fonte de origem, dado o enorme valor simbólico que adquiriu na galeria iconográfica Pinote, passando antes a ser referido como Natruca, la petit mort, segundo Roland Barthes, num tributo da máquina ao simbólico. O ícone está colocado no seguimento do corpo estirado de A Morte do Sr. Capitão Armando Simões, curiosamente, posicionando-se em ambas as pontas, realçando os aspetos fortemente concetuais da obra, em permanente recusa de revelar uma forma, muito menos um corpo. De facto, é formado por um arco de letras esparsas, que, em nuvem, cobrem a morte caída, adensando-se, então, nas pontas em textos completos, de um lado poético, de uma rima tão infantil como emocional, e do outro de uma espessa narrativa, quase auto justificativa, como quem, à hora do chá, descreve um acontecimento incómodo em que se viu envolvido, exposição que, não cabendo na mesa onde se encontra o bule, se vai dispondo em camadas, auxiliando-se de repetições por forma a estabelecer uma continuidade, como num naperon os bordados reiterativos vão juntando os diversos panos de linho. Se na narrativa as repetições têm como objetivo o retomar do fôlego, na poética procuram atingir o coração com flechadas minimais. Mas, o que contêm estas duas pontas? De certeza que encontrareis com que as preencher, mas se vos tolhe a preguiça ou a falta de imaginação, podeis, na narrativa, colocar cada uma destas páginas, empilhadas umas sobre as outras, e, na poética, repetir destas aquelas que rimam, em particular uma delas, a do poema da Sra. Marquesa, mas, como vos disse, podem ser quaisquer outras, que uma vez tomando o seu lugar serão como estas, que disto é feita a crítica literária. Concentremo-nos então nas pequenas letras que pairam sobre o desditoso corpo imaginário do capitão Simões, que são de facto, sabe-se agora, a alma do ícone. Bailam elas diversas danças, desde a mazurca ao forró, para já não falar da valsa e da kizomba, mas sem nunca tomarem um sentido. Depreende-se daí que para isso servem, o mais das vezes, as letras, destinadas à baralhação, ainda que ritmada. Podem-se passar assim horas, senão dias, meses, ou anos, observando os diversos bailados, maravilhando-nos com a insaciável vida de um punhado de letras folionas, ainda que desprovidas de sentido. E é então que fortuitamente, num acaso coreográfico, se estabelece sobre o cadáver a palavra natruca, numa forma substantiva. E esta consonância casual não seria, por si só, fonte de qualquer surpresa, já que outra coisa não se esperaria de tão despojado referente, não fosse que depois desta figura, e através de nova inusitada combinação, mas agora num estilo mais refinado, em itálico, daquelas danças em que os dançarinos fazem uma roda com as mãos sobrepostas ao centro e levando os calcanhares à altura do traseiro, se dá à luz la petite mort. A primeira acusativa substantiva, a segunda declarativa sublimativa, fazem espernear o cavalo de pau entre as pernas do capitão Simões, de tal modo que a pergunta que nele tem escrita se enche de néon arroxeado.

sábado, 27 de abril de 2019

O dia da liberdade

Uma vez por ano decorrem as celebrações do dia da liberdade na galeria iconográfica Pinote. Participa-se em pé, ligado ao dispositivo virtual da Mindicon, e segurando na mão um objeto a que sejamos apegados. Por volta das 15 horas cai a noite. Somos colocados na penumbra até que os olhos se adaptam à luz do firmamento e as coisas em volta ganham uma textura de lã, como se a escuridão emprestasse uma macieza às formas. Damos então por nós junto a árvores, talvez meia dúzia delas, amontadas ao fundo de uma ladeira onde somos deixados prolongadamente sem que nada aconteça. Quando, devido ao tédio, o corpo começa a ser tomado de um formigueiro, os restantes sentidos são então ligados, e chega-nos o cheiro a humidade, do que poderá ser um insonoro regato, ao que são adicionados arrepios nas omoplatas que nos obrigam a um ou dois espirros. Ficamos a vibrar pela expulsão do ar enquanto a ressonância do som permanece como um borrifar de água sobre a paisagem invisível. Sentimos então os pés a moverem-se monte acima, tropeçando em arbustos e pedras, fletindo os joelhos de encontro ao chão, como se a cegueira do andar nos colocasse um peso nas costas. É nesse desconforto que nos começa a invadir uma sensação de medo, que na escuridão nos faz apressar o passo, subindo, deixando para trás a sombra das árvores, enquanto se vai impondo à nossa frente uma forma retangular, de superfície lisa e aspeto intransponível. É então que sentimos a dor na mão que não larga o objeto. É por altura do pulso. E estamos imobilizados em frente à grande parede, pressentido o amplo espaço da noite pelas costas. Quando a dor se torna insuportável, num pestanejar de olhos, percebemos que a parede é afinal de um casebre, por onde se abre uma porta meio derrocada. Enfiamo-nos por esse buraco e encostamo-nos a umas traves de madeira carcomida. Neste canto, cai um silêncio total e assustamo-nos, pois já não conseguimos ouvir a própria respiração. A única ligação com o exterior é este objeto, que levamos ao peito, procurando ouvi-lo e vê-lo pelo olfato. Cheira a nada. Apertamos as mãos e as unhas vão de encontro à carne das palmas. Essa é a única parte que se sente do corpo. Desligam-nos a mente e somos apenas aquela mão que abre e fecha como patas de aranha recém decepada. Anda pelo casebre, enterrando-se no pó amarelo da madeira e rebolando na terra batida do chão. Nesse momento acende-se a luz numa divisão quadrada com uma pequena mesa no centro e duas cadeiras frente a frente. Estamos sentados numa delas com a mão imobilizada sobre o tampo e corpo direito na cadeira. Na outra está o ícone do Hilário nu à máquina de escrever e, mais ao fundo, de costas para nós, o ícone do Hilário com o fato largueirão olhando por uma pequena janela. Por detrás, o ícone do Mouco começa-se a desfazer enrolando-nos em papel de jornal atado com fitas de filme a preto e branco. É quando os olhos nos saem órbitas afora que fixamos a minúscula caixa castanha de mogno avermelhado com o fecho dourado em reboliço que se eleva abrindo a tampa.

domingo, 21 de abril de 2019

Mouro, o caramelo, por estrelinha97

Estranhareis o extravasamento desta obra, pois sois de um tempo em que eram escritas na obsessão com o contexto, a que, numa atitude auto justificativa, apelidavam de coerência. Esta coerência é bem patente na precisão das descrições dos lugares, dos tempos, das personagens, dos linguajares, por forma a serem uma única coisa. Essa preocupação utilitária foi transversal a todas as atividades humanas até que, como já tive a oportunidade de referir, as máquinas passaram a garantir o sustento. Agora podemos dedicar-nos ao mapa que é da dimensão do mundo, se é que me entendeis. E que melhor prova disso que o ícone, Mouro, o caramelo, por estrelinha97. Um ícone cerebral feito por quem nunca privou com os personagens reais desta história, que sim, a terá lido no tempo para o qual a escrevo, provavelmente ainda jovem, e que agora, passados muitos anos, resolve submeter à galeria o seu ícone cerebral sobre o Mouro, um Mouro lido, e nem me preocupo em dizer se foi gerado com uma versão com atestado de veracidade da Mindicon, dado que já não consigo contar o número de referendos que houve sobre esta norma, cada qual com uma elaboração mais detalhada da pergunta, que mais parecia uma discussão sobre qual o significado de veracidade nos dias de hoje do que um ato de decisão política. E tenho que realçar que este ícone não é como o de romeu77santana, e perdoai-me alguma imprecisão, se é que a há, onde podem ser detetados sinais de convivência com quem efetivamente privou com os personagens reais, e, deixai-me lançar um pouco mais de água na vossa fervura, se é que eles efetivamente existiram. É, inicialmente, um ícone bucólico, com a sua marca de ternura, onde não falta um porco amigo, irrealmente caminhando com o Mouro, lado a lado, como que se imbuídos do mesmo destino, especialmente quando sabemos da história que a intenção de um era comer o outro, digo-o sem presunção, sendo por isso essa caminhada em conjunto, se a tivesse havido, puramente circunstancial, e de curta duração. Por outro lado, a cor rósea do animal denuncia as falhas desta obra na descrição de pocilgas, como se para se poder dirigir a palavra a um porco ele tenha de estar, pelo menos, bem lavado e escovado. Depois, conforme nos vamos afastando e aproximando do ícone, dando passinhos virtuais, o Mouro surge coberto por uma folha de papel colorido, chamativo, papel de caramelo, torcido acima como um cabelo à Elvis, e a abaixo como um rabo de sereia, e se agora nos movermos um pouco à direita vemos o porco torcendo o pescoço e encarando o Mouro com uns olhos gulosos, um pouco sôfregos, babando-se, com uma baba de porco, deliciosa, diz quem já teve a felicidade de a provar, notando-se um desconforto debaixo do papel, um manear de ombros e ancas, agora que o Mouro se tornou num gordo paralelepípedo entra neste bambolear démodé, que já teve os seus dias, nos idos dos finais dos anos 50, sendo mesmo capaz de suscitar a exclamação, gostoso. E perguntais-vos vós, o porquê deste ícone cerebral na galeria Pinote? Bom, parece-me que não conseguis ver o mapa do tamanho do mundo.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante

Entre os 3 Pinotes e os 2 Hilários acompanhados de 1 Mouco, jaz no chão da galeria o ícone cerebral, A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante. Tendo sido um homem esguio e seco, trajado para a guerra como o padre para o celibato, não deixou descendência digna desse nome, uma vez que como tal não se pode considerar um mestiço num musseque de Luanda, se é que o há, como também não são merecedores dessa classificação os filhos de um padre, se é que os há, sendo pois dois seres que de igual se alimentam do imaginário, como se a vida fosse apenas um sonho, incapazes de deixar uma pegada física, pelo que, na ausência de qualquer prova de sucessão material, nada melhor do que as histórias da antiga cavalaria andante para produzir o seu ícone. Suspeita-se mesmo que possa ser obra do software da Mindicon, responsável pela gestão social da galeria, que, como um curador, decide acerca do inter-relacionamento entre os ícones, com vista a pronunciar o seu impacto, não sendo, nesse caso, A morte do Sr. Capitão Simões, um verdadeiro ícone, aproximando-se mais de uma parede, ou um projetor, no que são os elementos de uma galeria como vós a conheceis. Sendo sintético, difere também do Pinote por josedigitalgalvao, pela despretensão de ser coisa alguma, a não ser uma súmula. Traça, portanto, o corpo estendido, violáceo do garrote, uma linha imaginária que separa os dois bandos que se enfrentam de razões bem físicas, todas elas feitas da carne e das suas emoções subjacentes. Colocado ao nível do chão, é impercetível para quem entra na galeria, preso no olhar pelos ícones pendentes e pelas suas subtis interações. Mas passado um pouco, sente-se uma tensão, como se algo impedisse os dois grupos de se lançarem um contra o outro, e ao mesmo tempo não os deixa voltar costas e debandar. Diz-se que os cavaleiros andantes morrem da mesma febre que os tomou em vida, sendo apenas fatal a infelicidade de esta agora os apanhar na cama, incapazes de galgar a um cavalo e partir à aventura, e parece ser evidente esse efeito neste militar impecavelmente fardado, há anos confinado ao seu gabinete e ao despacho. Requerimentos, requerimentos, parece ter estampado no rosto vítima da asfixia, reproduzido em três cópias a papel químico, encaracoladas aos cabelos como os canudos de um judeu ortodoxo. Como pode um homem vocacionado para a guerra sobreviver a um ataque de papelada, ainda que química? Pode mesmo ser fatal trazer um homem à razão? Foi com falinhas mansas que o tiraram do Ultramar para o encerrar naquele vilarejo de província, como símbolo, é verdade, mas administrador de coisa nenhuma. Parece ter saudades da Luanda onde cavalgava o seu cavalo branco, a quem deu um tiro depois de partir uma perna numa noite de cacimba, e cuja reprodução, a pau pintado, se encontra agora entre as pernas estendidas do Capitão Simões, com a cabeça espalmada tombada, ainda que embelezada por duas tranças de fios de lã branca que não conseguem esconder o orifício deixado pela bala. Quem matou o Capitão Simões, pergunta-se ao longo do corpo do animal.

sábado, 6 de abril de 2019

Uma visita à galeria iconográfica

Tudo o que é irreal suscita atração. O Pinote segundo Dr. José Galvão desencadeou uma avalanche de visitas à galeria. E para isso, esclareço-vos já, desculpando-me, pelo lapso, dado com frequência me esquecer da época para que escrevo, que também é a única em que me podem ler, uma vez que, como já vos disse, a literatura morreu não muito depois do início do século XXI, e para isso, dizia, e desculpai-me mais uma vez destas interjeições que com frequência se intrometem na minha escrita, mas que é também um sinal dos tempos, em que os humanos se dedicam aos pensamentos divergentes, deixando os convergentes, aqueles que têm como único objetivo chegar a uma conclusão, às máquina, entretendo-nos nós na procura da perceção do todo, uma vez que a tecnologia nos abasta, e só não divaga quem não pode, como escreveu um dos últimos poetas de que há memória, e para isso, dizia, um poeta, desculpai-me de novo, que apagou toda a sua obra pouco depois de experimentar as transferências cerebrais, mais propriamente as visitas às galerias iconográficas, sim, e para isso, e perguntais-vos, talvez, como pode uma poeta apagar uma obra, não um manuscrito atirado para uma lareira num momento de despeito, mas uma obra publicada, uma obra completa, publicada, repito, e para isso, dizia, bastava ligarmo-nos a uma máquina de visita iconográfica, adquirir um acesso e dispormo-nos a nos deixar percorrer pelas imagens que são baixadas diretamente para o nosso cérebro, onde são temporariamente depositadas sobre as outras que nos habitam, e uso a palavra imagem sem propriedade, uma vez que no tempo em que viveis essa é a única forma como podereis entender o modo como se gravam impressões alheias no cérebro, sim, andaram durante anos os artistas a ter golpes de inspiração, pensava-se, a tirar cá para fora o que achavam estar lá profundamente incrustado, sim, a razão do ser, o ser, mesmo o ser, talvez tenha sido essa a razão do desalento do poeta, não um momento de raiva devido a um desentendimento com a crítica, mas um momento de prostração devido a um desentendimento consigo mesmo, talvez porque se tivesse convencido da sua obra, daquelas sibilações linguísticas, como quem se faz de um modelo externo de si mesmo, como os comentadores a que assistis nos programas de televisão, e para isso, perguntais-vos, desconfio, como pode ter apagado a obra, simples, respondo-vos, desligou-se, mas primeiro considerou-a pobre, parcial e imatura, uma coisa que representa uma coisa não pode nunca ser a própria coisa, é outra coisa, disse o poeta, mas já não o escreveu, ou diz-se que disse, pois, como disse, ele apagou-se, mas, desculpai-me, o Pinote segundo Dr. José Galvão sobrecarregou a galeria de descargas, pois suscitou-se a curiosidade sobre como seria o ícone cerebral de uma máquina, admirais-vos vós, que o que vos descrevi como uma estátua de bronze, disforme, possa ter despertado tanto furor, sois como o poeta, prendeis-vos da forma, onde procurais encontrar o ser, nunca visitastes uma galeria iconográfica cerebral.

domingo, 31 de março de 2019

Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao

É incerta qual a proveniência do ícone Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao. Certo é que à época se fizeram experiências de construção de personagens sintéticos por processamento de toda a informação acerca de uma pessoa já falecida, onde não poucas vezes se incluía também a inferência de qual o seu ADN, a partir do dos seus descendentes, senão mesmo, embora considerado eticamente reprovável, por exumação dos seus corpos. Na realidade, chegaram-se a gerar personagens para cada um dos dias da sua existência, dado que no conjunto da informação se incluía o ambiente que o envolvia, desde os dados meteorológicos disponíveis sobre os locais onde se sabia ter estado, até às notícias de jornal que teria presumivelmente lido. Podiam estas sequências de personagens ser depois folheadas como as páginas de um livro, onde por entre a rapidez da passagem das arestas se obtinha uma impressão de vida. Crê-se que houve quem começasse a gerar iconografias cerebrais a partir destes seres de aparência real. Muitas foram as dúvidas suscitadas. Que acrescento poderia produzir um objeto digital na produção de um outro objeto digital? Qual a mais valia de um Pinote segundo Dr. José Galvão, por um qualquer josedigitalgalvao, sobre um Pinote por joaquimdigitalpinote? Argumentavam naquela época os defensores da base biológica, o que em síntese se pode resumir à questão, o que é a vida sem a putrefação? Mas tais ícones se fizeram, e não se tornaram menos merecedores de fazer parte da galeria iconográfica Pinote, do que um grafíti de uma galeria do final do século XX. É uma peça em bronze, colocada à frente aos dois outros Pinotes, obras de um forte pendor emocional, mas que podem ser cinicamente consideradas como obras de um Hilário, concebidas para o Bem da Nação, já que neste mundo não há causa que não seja efeito. Claramente, do convencimento deste saber surtiu este Pinote, em que o único ardor foi o da fundição, que agora arrefeceu em tons de verde frio. Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao, é um ser disforme, produzido a partir de fora e para fora. Está ali porque lá estão também os dois Hilários, obras tão ricas de emoção como os Pinotes da mãe e da filha. Este Pinote é como um fantasma preenchido a zeros e uns, de um verde claro escorrido sobre o bronze mais escuro, como se a partir do passado se pudesse gravar um firmware capaz da insónia. Se por duas vezes para ele se olhar, não se capta a mesma imagem, e mesmo esta é uma impressão da qual se dúvida, já que nem sequer se consegue encontrar na memória a primeira delas para comparar com a segunda. O que contrabalança com a imponência que prende o olhar. Sim, a presença desta figura, que não se deixa perceber como um todo, é avassaladora, está ali para negar a humanidade aos ícones Hilário, para romper o ciclo, da comiseração do fim de um homem que apenas cumpriu o seu dever, de um deles, e da exaltação do macaco vestido, do outro. E se é verdade que não dá descanso aos dois Hilários, quando Joaninha, pela primeira vez o viu, sussurrou, este não é o meu pai.

domingo, 24 de março de 2019

Mouco segundo Armindo, por umbertsetentaoito

Eu que já tive vários homens nos braços, que já os enlacei com os meus seios, que já lhes fiz perguntas sobre pais e irmãos que nunca conheci, que nunca quis conhecer, sempre saí da cama julgando-me mais rica, embora um pouco envergonhada dos estratagemas a que o meu cérebro recorre para saber o que existe para além do seu corpo, mas assim que coloco os dois pés no chão, e passa a breve tontura do levantar repentino, logo ele, lá em cima, se apropria com vaidade e desfaçatez, se julga dono, e se veste com eles, como se os momentos deitados não bastassem para preencher a ausência. Duvidei, contudo, que assim pudesse ser entre dois homens, em que se carece do lampejo dos seios, pelo que de tal o meu corpo silenciosamente se convenceu em contraponto à arrogância do cérebro. Mas no momento em que, na galeria iconográfica Pinote, dei com Mouco segundo Armindo, por umbertsetentaoito, colocado entre os dois Hilários, ocorreu-me, com o desencanto natural de quem perde um pouco do ser, que talvez estivesse enganada. E ao ícone cerebral, produzido com a ajuda do software da Mindicon, parecia mesmo faltar qualquer possibilidade de interpretação artística, assemelhando-se mais uma notícia de telejornal, do início do século, sobre violência doméstica, uma intermediação de mazelas físicas e comentários dos vizinhos. Bastante fragmentário, feito de recortes irregulares de vídeo sobre telas e-ink old, todas elas amarelecidas, como o papel gasto, num tom que só o papel de jornal parece possuir, uma vez que é a única obra escrita que não nasceu convencida da sua imortalidade, em que o jornalista escreve a notícia de hoje já a pensar na de amanhã, que com intenção mais perene se soma e subtrai num livro de deves e haveres. Sim, é essa vicissitude que nos convence da veracidade da obra. Num dos recortes, onde ao cimo ainda figura a letras maiores a palavra Gazeta, surge a foto do Mouco, de perfil, desfazendo-se de tal forma que se duvida se o pedaço de orelha foi comido pelos porcos se pelo tempo. A notícia fala dos maus tratos cometidos sobre a mulher e o filho, como se estivesse convencida da simultaneidade dos acontecimentos, como se tivesse sido notícia. Já num outro recorte, sobre o mesmo fundo amarelecido, o Mouco golpeia, a preto e branco, ao ralenti de uma película antiga, e ao som da máquina de projetar, como num filme mudo, golpeia repetidamente um Pinote imóvel, onde o sangue que lhe sai do rosto vai progressivamente cobrindo a película de cinzento, borrando ambos, até que tudo fica negro de luz. Recomeça então de novo o recorte, como um qualquer vídeo com milhões de visualizações, os mesmo perfis apagados, mas ainda incólumes, recomeçando o corpo de Pinote a fragmentar-se até cobrir de novo a película de negro. Abaixo, uma caixa de comentários, ainda mais breves que a notícia, embora imensamente mais intensos, com a força das convicções. Diz-se que foi com malícia que umbertsetentaoito colocou o seu ícone entre os Hilários, como se quisesse que estes lhe vestissem a pele.

domingo, 17 de março de 2019

Hilário, por romeu76santana

No cérebro a única coisa que é é o corpo que o possui, tudo o resto é imaginado. Hilário, por romeu76santana, é uma obra de claro pendor realista. Iconografado à revelia, com uma versão ilegal do software da Mindicon, onde não pode ser atestada a veracidade cerebral, é um ícone do aqui e do agora. É um corpo tridimensional sobre o qual, na galeria iconográfica Pinote, cai um feixe de luz branca que lhe perfura a pele abrindo-lhe os poros por onde saem pelos curtos, de um loiro quase branco, que lhe varrem os ombros como uma minúscula seara. Está completamente nu, sentado a uma secretária. Em cima desta, uma máquina de escrever com uma folha enrolada no cilindro onde se acabou de bater, A Bem da Nação. O dedo indicador da mão direita, de unha baça, encontra-se a abandonar a tecla o, estando, contudo, ainda emergido num círculo de botões pretos circunscritos a branco. Na unha transparecem as movimentações sanguíneas desencadeadas pelo aliviar da pressão que traz o branco de volta ao centro. O dedo esguio faz a ponte com o corpo, já que os restantes estão recolhidos para não se intrometerem na visão. É um dedo cuidado ao mais ínfimo pormenor, onde as articulações são bem marcadas pelas rugas da pele, não da idade, que o ícone representa um homem no final dos seus trinta, início dos quarenta, mas como manifestações exteriores das rodas dentadas de um mecanismo que se encontra naquele preciso momento a retirar o dedo para trás, cortando toda e qualquer ligação à máquina de escrever. Nesse movimento armam-se os pelos como espigões que impedem quem quer que se aventure a chegar ao corpo durante esta manobra de retirada. A cabeça do ícone está ligeiramente fletida, com os olhos vítreos colados ao que acabou de escrever, à janela aberta pelo baixar da fita. As pálpebras semicerradas, cosidas por um fio de pestanas que as corre de um lado ao outro, acentuam a atitude concentrada, reforçada pela contração dos lábios, em tudo semelhante à das pálpebras, a não ser por estes serem mais carnudos e, como tal, se lhes poder atribuir mais expressão, como se tivessem acabado de projetar para a folha as palavras que os dedos bateram. Em redor dos lábios o mesmo asseio que encontrámos nos dedos, uma superfície asfaltada pelo passar criterioso da lâmina de barbear sobre pelos que já forem imberbes e agora se robusteceram de um cinzento áspero que envolve os lábios róseos. Entre o lábio inferior e o queixo, uma ruja exagerada pelo puxar da boca para fora. Visto de perfil, o ícone está levemente fletido para a frente, como um s mais aberto em cima. Os pés estão juntos, esticados para trás, contrabalançando o fletir da cabeça à frente, como se a figura se encontrasse num momento de oração, no mais próximo da posição fetal que permite uma tarefa de trabalho. O único ponto de apoio desta massa é o tampo da cadeira, onde as nádegas brancas se espalmam, derramando-se do tronco em direção às bordas. A concentração da figura é sublinhada pelo apertar das pernas, de carne branca pintada de compridos pelos negros, por onde assoma uma inofensiva glande vermelha.

domingo, 10 de março de 2019

Hilário segundo Olímpia, por teresinhaxxxxx

O enorme sucesso da Mindicon deveu-se não propriamente ao software de iconografia, cujas funcionalidades foram copiadas passado algum tempo, embora tenha sido determinante ser o primeiro disponível no mercado, mas sim ao conceito de galeria iconográfica onde os ícones foram sendo colocados, e a uma outra funcionalidade, que identificava pegadas cerebrais relacionadas com os ícones expostos, quer aquando das visitas virtuais, quer em dados sobre a época de cada um dos iconografados, enviando depois convites incentivando à contribuição debaixo da sugestão, ícone cerebral, contribua para a história como um artista. Assim, não admira que os dois ícones de Pinote, o de cores geométricas estampado na parede virtual, e a caixa de madeira rodopiando gentilmente em frente a este, com todo o atrevimento de uma representação de uma representação, viessem a ser encarados pelo Hilário segundo Olímpia, por teresinhaxxxxx, naquilo que parece ter sido um autor espontâneo, movido por um impulso, como são caraterizados no modelo de negócio da Mindicon, agora que a versão Home1.0 do software possibilita a iconografia sem a presença de um técnico especializado, ainda que com menor qualidade. Este ícone apresenta um homem a corpo inteiro. Um homem de idade, que o software assegura iconografar Hilário Mendes, agente da P.I.D.E.. É como que um retrato a preto e branco, tirado de imprevisto, em que o alvo da objetiva se vira, sem pretensão que não seja a procura da origem do ruído da máquina fotográfica. Veste um fato cinzento claro, aquele que trajaria um cameleão sobre o fundo do ícone. Mesmo o rosto, já enrugado pela idade, tem um tom que não difere do da camisa, na zona onde as peles pendentes do papo magro tocam os botões apertados do colarinho, numa compostura a que só faz falta a gravata. E, contudo, a figura não passa desapercebida no fundo, pois o fato é moldado por variações de luz que o relevam, como se o corpo modesto pela idade se elevasse acima do ícone. Tem, portanto, uma presença física muito superior à que a falta de cor faria supor, pelo que sobressai a autoridade para interpelar os dois Pinotes presentes, ainda que Hilário segundo Olímpia tenha chegado mais tarde. No corte do fato transparece a humildade de homem escorreito, daqueles que não morrem de doença nenhuma, pois são duros por dentro e por fora, mas sim por um lento esvair do corpo, onde se vão impondo as formas ósseas, já num prenúncio de sepultura em que o fim acontece quando a pele finalmente se une ao esqueleto. Impossível não pensar numa múmia, mas onde naquela as tiras ajeitam e apertam, aqui o fato largueirão dá existência ao corpo que se esfuma. Se do fato sai ação, do rosto sai brandura. Uma brandura a preto e branco, dos abençoados por Deus por chegarem a tão avançada idade. E é isso que espanta o visitante da galeria iconográfica, o fato projeta o ícone para fora, enquanto que o rosto nos puxa para dentro, a determinação do primeiro na interpelação dos Pinotes coadjuvada pela brandura no rosto de Hilário envelhecido.

terça-feira, 5 de março de 2019

Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917

O ícone cerebral Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917, surgido alguns anos mais tarde, através de uma funcionalidade que apenas ficou disponível a partir da versão 5.3 do software da Mindicon, a qual permite localizar no cérebro, nas zonas chamadas de sedimentares, informação que, uma vez armazenada, permanece relativamente imutável, a não ser pela pressão provocada pelo acondicionamento de outros dados, por camadas, ainda que interpenetrando-se, mas nunca perdendo a sua identidade, e que apenas se costuma manifestar explicitamente como memórias longínquas, mas já nas fases adiantadas da vida, em que damos pelas pessoas mais próximas a relatarem factos de uma existência que já não é a nossa, e, informação esta, que alguns cientistas acreditam ser fundamental no comportamento afetivo, irrefletido, para não usar a palavra irracional, que já há algum tempo foi liberta de significado, e agora costuma apenas ser usada no sentido de ignorância. Esta funcionalidade, presente na versão 5.3, chamada de inverted life periscope, permite capturar, com alguma pureza, das impressões mais primordiais do ser, numa fase eminentemente recetiva, em que no cérebro as capacidades de armazenamento se impõem, de sobremaneira, às de processamento. Mas o verdadeiro sucesso desta nova funcionalidade desenvolvida pela Mindicon, para além de um complexo e muito fino mecanismo de localização e agrupamento da informação cerebral, resulta do desenvolvimento de um sistema de filtros encadeados, que dinamicamente se compõem e recompõem, permitindo ao autor do ícone cerebral a seleção e eliminação de informação, usando apenas uma técnica de foco cerebral, também desenvolvida pelos engenheiros da Mindicon, que não necessita de treino exaustivo, e que pode de facto ser completamente dominada nos primeiros 30 minutos de uma sessão de iconografia cerebral. Desta forma, o autor pode-se focar em impressões que residem no seu cérebro e que, devido a se encontrarem nas zonas sedimentares, se pode dizer, quase não lhe pertencem. Foi assim que foi gerado o ícone Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917, que procurou em si o que de sua mãe Deolinda havia sobre seu pai Pinote. O ícone é tridimensional, feito de uma caixa de madeira, de um castanho avermelhado forte, mogno, todo ele liso, ainda que com as marcas dos fortes veios da madeira nobre, distinta, da árvore de tronco grosso que com um orgulho reto se alonga em direção ao sol. A primeira impressão, dada a sua dimensão, quase uma miniatura, daquelas onde com afeição se guardam recordações do que foi fisicamente grande, e que agora se conserva na memória como a mais delicada das matérias humanas. Uma caixa de senhora, portanto, toda encastrada, sem um prego, nem uma marca de intrusão, como se tivesse sido escavada da própria árvore, não fosse o cheiro a cânfora nos dar a certeza de ser também feita de outras madeiras. Cheiro que indiscutivelmente escapa do seu interior por uma ranhura irregular, selada por um pequeno fecho dourado que se debruça perpendicularmente.

domingo, 3 de março de 2019

Pinote, por joaninha1917

Dele sabe-se muito pouco, e mesmo a sua existência levantou dúvidas. Existiu realmente, ou é obra da imaginação do seu criador? O ícone foi gerado pela versão 1.3 do software da empresa Mindicon, numa altura em que ainda não tinha obtido a certificação de veracidade, que apenas veio a ocorrer aquando do lançamento da 3.0. De facto, nem sequer nessa altura ainda se tinha manifestado o impacto social provocado pela irrealidade dos ícones cerebrais, fenómeno que veio ser conhecido como disrupted reality. Assim, muito se discutiu, inicialmente, se seria um produto da imaginação da sua presumida filha, que o suscitou enquanto ligada ao software iconográfico com o avatar joaninha1917. Não era de todo infrequente os filhos de pais desconhecidos procurarem usar a iconografia cerebral para produzirem imagens de progenitores com quem nunca privaram ou de quem nem sequer sabiam o nome, levados por uma crença, nunca confirmada, que no cérebro se podiam formar reminiscências por intermédio de vivências partilhadas com terceiros, na maior parte dos casos o outro progenitor. O que diferenciou este ícone, quando colocado nas redes de partilha, foi a força da imagem de um homem pequeno, uma figura minúscula num enquadramento onde se impunha à ambiguidade que o envolvia, feita de formas geométricas traçadas a cor, onde indistintamente, para não dizer alternadamente, se podiam ver retângulos lavrados e linhas de barra de prisão. E, contudo, e talvez fosse essa a sua principal força, a figura central em si quase nada diferia da sua envoltura. Era um homem, podia-se perceber mais pelo triângulo largo que constituía os ombros, que por um qualquer outro sinal de masculinidade vestida, dada a composição banal de figuras geométricas, onde apenas a cor permitia discernir as formas umas das outras, em particular as da figura das restantes. Mas, tinha uma presença no rosto, dividido em quatro por um vermelho barrento e um branco transparente, onde olhos, nariz e boca eram mínimos, como se misteriosamente o humano brotasse da geometria. E essa era a caraterística que era repetida na maior parte dos comentários, devendo-se realçar que, na altura, já a sua visualização era filtrada por software de equanimidade, que garantia uma proporcionalidade dos mesmos, por forma a reduzir o reforço positivo que leva a situações de preconceito induzido. E quem era a sua autora? Mesmo antes de qualquer pesquisa, já o software de classificação automática, responsável pela análise crítica dos ícones, indicava, com um elevado grau de certeza, que a sua autora deveria ter formação em matemática, uma vez que já eram bem conhecidas, nessa época, as típicas constelações neuronais provocadas pelo seu exercício. Assim se veio a confirmar, mas Joaninha sempre se recusou a falar sobre o ícone atribuído a Pinote, não obstante os muitos seguidores que o adotaram como o arquétipo de um pai distante, e várias vezes afirmou que o ícone teria sido publicado à sua revelia. Ademais, soube-se que conviveu pouco com o pai, sendo que apenas o viu algumas vezes, na prisão.