Humberto Mascarenhas ganhou as primárias do seu partido e aproveitou o discurso da vitória para refletir sobre o populismo e aquela que pretende ser a sua estratégia sobre este fenómeno, tendo deixado alguns conselhos louváveis. O primeiro não merece grande discussão, está na altura, disse, de não nos deixarmos levar pelas ondas do populismo. É um excelente conselho, que o próprio Humberto Mascarenhas deveria talvez seguir quando fez campanha, onde muitas das suas intervenções pareciam decalcadas daquelas que fez enquanto comentador televisivo, em solilóquio, a que nos habitou semanalmente. Uma campanha em que, dada a sua popularidade, comparativamente com os restantes candidatos, se pode dizer que foi feita a falar da fruta sem nunca ter tido a necessidade de lhe tocar. Mas o meu objetivo não é estar aqui a discutir estratégias eleitorais, mas sim a parte em que Mascarenhas disse que é preciso perceber que populismo é apenas populismo e que há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país pelas quais temos que lutar. De seguida, convidou os Portugueses a unirem-se para reconquistar os valores de Portugal, e declarou que se unirmos e substituirmos a força e a exigência fátua que perpassa o populismo para em vez disso nos focarmos aspetos reais do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor, sem populismo, sem demagogia. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, será que vamos mesmo? Em boa verdade, eu diria que depende muito daquilo que entendermos pela força motriz que, com felicidade, se extrai do populismo. Neste país, a mesma força é usada para gerar duas realidades completamente distintas. Uma coisa é a força enquanto emoção partilhada por milhares, se não milhões de pessoas, em uníssono. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, é uma pena que essa energia partilhada não seja transposta para o Parlamento, para as empresas públicas, para as escolas e para os hospitais, numa sociedade onde não há cá interesses pessoais, não há favores, não há familygates, nenhum amiguismo resiste ao interesse comum. Nesse aspeto, esta força faz maravilhas pelo enaltecimento do liberalismo puro e duro, a soma da energia do egoísmo de cada indivíduo transformado numa formidável força motriz que faz avançar Portugal. Só que depois existe uma outra realidade associada a essa mesma energia que move o populismo, e da qual ela não pode ser, infelizmente, extraída, é a análise do mundo, feita das ondas cerebrais que estão na base das emanações que geram este movimento coletivo que Mascarenhas idolatra, mas que estão enraizadas em cada cabeça, em cada cantinho, gerando painéis de discursos interiores apopléticos, a repetição ad nauseam da mulher de cara velada no bairro, ali mesmo ao lado, com o homem barbudo que já parece ser o dono disto tudo. Esta deprimente cabeça de cada um já não está à altura dos desejos de Humberto Mascarenhas. Pelo contrário. Se a sua força contaminar a sociedade portuguesa, as consequências serão calamitosas.
In 25 de abril sempre (2019)