domingo, 10 de fevereiro de 2019

Perante a esfinge

Aquelas palavras com laivos de intimidade que poderiam queimar, quando gorgolejadas do rosto imóvel do Afonso, abrem um oceano, pelo que em vez de me correram escaldantes pelas veias, sinto-as como se me lambessem os pés. Deixo-me estar perante a esfinge, não pensando no que contra argumentar, ocorrendo-me em vez disso o encontro de dois rios que seguem na mesma direção, ombro a ombro, sem se misturar, e que esta discussão com o Afonso ocorre nas superfícies que se tocam, sendo por isso feita de empurrões que, por maior que seja a sua força, poucos centímetros arrancam ao leito do outro. Quando regresso, não sei se passou muito ou pouco tempo, encontro o Afonso como o deixei, e dou comigo a sorrir-lhe sem intenção, perguntando-lhe, qual é o fim que pretendes alcançar? E não interpretes mal a minha questão, acrescento, sorrindo abertamente perante a esfinge e sentindo pela primeira vez com ele uma satisfação que não depende do que digo ou penso ser certo. Aceito o paradoxo da tua entrega individual pelo bem do individualismo do todo. Aceito que seja um duplo paradoxo, pois incorporas nos teus argumentos as ideias da luta de classes mais tradicional, em que o individual se deve naturalmente sacrificar ao bem do grupo, e, no entanto, o que defendes é o individualismo, e queres, paradoxalmente, sacrificar um indivíduo a bem do individualismo. Aceito que te tenhas incumbido dessa missão. Mas a pergunta é sobre onde pretendes chegar? Como definirias a vitória do negacionismo, Afonso? É a derrota do puritanismo ou o fim da tecnologia de transferências cerebrais. Como será esse mundo inclassificável em que cada um pode ser o que quiser? É sem dúvida a morte do puritanismo, da classificação como uma manifestação do poder. Por ventura de um poder social, como muito bem tens feito notar, e que está de acordo com a aplicação da teoria marxista aos movimentos de género e identitários. Dizes, pois, que estamos a alargar o espaço de nomes. Embora eu não esteja totalmente certa disso, Afonso, sorrio-lhe sem desassossego. Já reparaste como o homossexual fala do seu marido ou da sua esposa. Não criou um novo nome, exige sim ser abrigado perante um outro. Nessa perspectiva, o resultado da luta entre o negacionismo e o puritanismo ocorreria no dicionário, não por novas entradas, mas pelo alargar das definições, uma luta de classes, como já falámos. E qual poderá ser a relação com o advir das transferências cerebrais? Tornar-se-ão elas inócuas num contexto em que os dicionários se transformaram em esponjas que absorvem a diversidade, como se tivéssemos retornado ao tempo dos enciclopedistas, e a obra nunca estivesse terminada? Deixará assim a transferência cerebral de ser uma ferramenta repressiva, como muito temem hoje em dia, quer pela sua infinita possibilidade de perscrutação, quer pela sua capacidade de interferir, por poder introduzir alternativas alienígenas no corpo, para se tornar, em vez disso, num mecanismo libertador que permitirá viajar corporalmente pelo dicionário? Perguntei eu perante a esfinge.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Continuou o Afonso

E depois, continuou o Afonso, tomando folgo com os olhos, mas mantendo o rosto estático, como no ligeiro movimento helicoidal da lente de uma máquina fotográfica que retrocede e avança, aos poucos, para se assegurar da precisão de foco. Depois, continuou o Afonso, na tua argumentação há um pressuposto basilar, que talvez as diferenças entre o puritanismo e o negacionismo sejam ténues, que não difiram no essencial, que sejam apenas duas manifestações do mesmo princípio, como se constata quando se descarna os corpos de dois seres que se odeiam, e talvez até te ocorra, nas tuas demandas de sentido, se daí não advirá alguma espiritualidade entre os canibais. E, desculpa repetir-me, Ivone, o que de facto te norteia é essa busca da verdade na forma de um princípio, de um modelo. Por isso te refiro a tua necessidade de justificação nos átomos, nas partículas fundamentais. E é bonito, é. Entretém-te e satisfaz-te, ao mesmo tempo. Se fosse noutro tempo, diria que sofrerias dos desvios pequeno burgueses, e dos seus sonhos. Fazer o que se gosta, de modo que o trabalho se transforma de tal forma num prazer que se esquece da necessidade de lutar para comer, da nossa, e, por perigoso subjetivismo, da dos outros. Porque não fazem eles o que gostam?, seria o leve pestanejo que enxota os vicissitudes que não são as nossas. Essa paz, que gostarias de alcançar, essa torre de marfim, onde gostarias de te instalar para perceber o mundo, para o reduzir às suas leis fundamentais, permite-te pretender imaginar que o puritanismo e o negacionismo são a mesma coisa, embebidas nos mesmos princípios e nas mesmas leis. E eu, Ivone, respondo-te, é verdade e é mentira. Tens razão e a razão que tens é estéril e quase fantasmagórica, lançando sobre a realidade uma sombra asfixiante. Tens razão, quando falas da inveja que o negacionismo pode ter dos filmes do puritanismo. Tens razão, quando dizes que talvez não estejamos perante outra coisa que não sejam jogos de classificação. Mas não te podes reduzir à forma, quando a função dos corpos deve imperar sobre a sua estrutura. É importante perceber onde é que estas novas tecnologias nos poderão levar e quem tem o poder de as utilizar. Não poderás discordar de mim, que o corpo do escravo não difere do do seu amo e que, contudo, em tudo o resto divergem, e se duvidas, ou se subitamente te ocorre mais alguma aguda formulação, pergunta ao escravo. E para que verdadeiramente o entendas em ti, Ivone, arriscar-me ia a dizer que tu, Ivone, dedicaste a tua vida à procura do amor, e que sempre menosprezaste a função, ou pelo menos assim o pensaste. Que em cada relação procuraste aprofundar o essencial, as miudezas das manifestações intensas, engrandecendo momentos e descurando o dia a dia, e todo o simbolismo aí envolvido. E que com alguma benevolência procuras-me atribuir também a mim esse desprendimento, julgando-me julgas-te, pois questionas-te a ti mesma se fizeste bem, se terá sido esse o melhor caminho. Classificaste o amor, desclassificando-o como elemento funcional, convencida, quiça, numa resiliência.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Esfíngico

Se bem percebo o que dizes, Ivone, dizes duas coisas, fita-me o Afonso, colocando um rosto esfíngico onde a fealdade ganha uma postura soberana. A primeira, que existe uma incoerência entre o que defendo e como o defendo. E aí falas abertamente, com a força da argumentação, vasculhando aqui e ali, estimulando diversas extremidades com vista a desencadear choques contraditórios, da mesma forma que se demostra o absurdo que existe no cerne de uma teoria. Mas a segunda é mais sub-reptícia, sugeres que as diferenças entre o negacionismo e o puritanismo são apenas de forma, que o segundo tirou temporariamente partido de uma tecnologia, mas que ambos os movimentos estão condenados. Como se uma entidade externa tivesse munido de armas um dos grupos do planeta com vista a gerar um desiquilíbrio cujo desígnio final é exterminação total. E por isso, por ambas as coisas, fazes uma interpretação messiânica da minha atitude. Apontas-me sinais de entrega total, como se eu fosse um deus, e contrapões a isso os princípios básicos que estão na génese do negacionismo. Mas, Ivone, o que se passa é que esqueces a ordem das coisas, que te interpões ao processo histórico, que o analisas antes como se já soubesses do seu devir. Sim, Ivone, depois de uma guerra é fácil perceber da sua miséria, do seu sem sentido. Mas, é estúpido ignorar a guerra ela própria, as suas origens, quando a ela ainda não foram entregues os corpos em tributo. É estúpido dizer, a guerra é estúpida. Se fosse estúpida, Ivone, aconteceria apenas uma vez ou duas, não se repetiria. Dizer que a guerra é estúpida, é dizer que é estúpida a acumulação de paz, de dia a dia, do destino singular de cada um. Porque, Ivone, é nesse estado que se fermenta a guerra. Sim, é absurda, mas não é estúpida. Mesmo quando agora já não se trate de uma guerra convencional, em que se perdem corpos, mas sim uma guerra em que se perdem nomes. Imagina, Ivone, na guerra convencional, cada corpo tinha um destino, estava prometido a ser qualquer coisa, mas uma só coisa, a ser carteiro, a ser padeiro, e depois chega a guerra e reduz esse destino a nada, e tu dizes, Ivone, a guerra é estúpida, olha como interrompe os destinos, olha as cartas que deixaram de ser entregues. E eu digo-te, olha como depois da guerra as pessoas largam as questões complicadas e se entregam às coisas simples. É absurdo, mas é assim. Assim também é com os nomes, Ivone, quando eu tomo todos os nomes, faço-o pelo negacionismo, pelo direito a cada um poder escolher o seu. Faço para que no fim da guerra, se possa olhar com nojo, e dizer, olha como se diluiu em todos os nomes, olha como ele deixou de ser uma única coisa, olha como se perdeu. E é aí que diferimos profundamente, Ivone. Tu estás constantemente a olhar para dentro, a procurar pequenas justificações nos átomos, e eu estou constantemente olhar para fora, e sabes porquê, Ivone? Porque lá dentro não há nada, porque estive um ano em coma, porque tive oportunidade de estar um ano comigo, e quando regressei tinha passado um ano.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Negar o negacionismo

Afonso, disse, procurando sair daquela cave para onde me deixei ir enfeitiçada. E aqui até me obrigas a fazer uso da tua retórica, da tua dialética, que até parece que a perdeste desde que resolveste beber o vinho, que eu bem reparei, e se calhar quiseste que eu reparasse, como uma representação da negação. Afonso, acho que por um lado exageras, e que por outro perdes a coerência. Repara que não é possível que o que afirmas seja verdade, esse desprendimento, essa entrega, não faz sentido, está bem nas intenções, mas sabemos que as coisas não são assim, saímos do corpo atrás das ideias e ali vamos nós, uma atrás da outra, e quando regressamos perdemos o contacto com a realidade, e damos por nós a amar ou a odiar outros corpos, só porque sim, só porque estivemos muito tempo fora. É por isso que os amantes jovens, e repara que não são necessariamente os jovens amantes, Afonso, têm pavor à distância, porque passam muito tempo a imaginar, com saudades, dizem, pelo que quando regressam há um frenesim, uma ansiedade, de saber se as suas efabulações foram convergentes ou divergentes e só voltam a obter a serenidade depois de cruzarem os corpos. De deixarem as teorias, Afonso. Disso são feitos os movimentos de massas e as guerras civis. Achas mesmo, Afonso, que te atraem todas as mulheres e que todas te aborrecem? Sim, é o píncaro do negacionismo, mas é verdade? Porque necessitas de entregar o teu corpo à tua causa? Porque te martirizas? E este é a segundo aspeto, aquele em que perdes a coerência. Não é o negacionismo um movimento para fazer frente ao puritanismo? Não é o objetivo do negacionismo a preservação da liberdade do indivíduo, da sua capacidade de decidir do seu próprio destino para além de um conjunto de destinos preestabelecidos? Sim, responder-me-ás, e acrescentarás, o seu magno objetivo é poder ser para além da classificação, e por isso te despes de toda a roupa e te entregas ao devaneio. Mas, Afonso, e isso é que é contraditório, o resultado é um indivíduo que não tem liberdade de decidir, porque pura e simplesmente deixou de existir. Essa estratégia de fazer o todo, de percorrer todos os caminhos, para dar aos homens a liberdade de escolherem o seu, um qualquer, é meritória, mas está feita para os deuses, não para um único homem, ainda que líder de um movimento, ainda que admirado, consagrado e entronizado. Receio, Afonso, que ao lutares desta forma pelo negacionismo, ao te entregares a ele desta forma, ao quereres seres a sua representação, ao tornares o teu corpo num símbolo, ao negares o teu eu, a possibilidade do teu caminho, negas o negacionismo. E sim, Afonso, sei que há uma beleza nessa loucura, uma grandiosidade, uma totalidade, daquela que se consegue apenas perceber num flash, que essa ideia nos agarra por dentro, não nos larga, nos dá um fervor, uma determinação, quase cega, que nos orienta, de nos faz entregar ao sacrifício como um ato de extrema beleza, Afonso, como as estátuas de heróis imberbes mortos em guerras, mas Afonso, não negues o negacionismo.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Uma estranha forma de amor

O Afonso agarrou o pé do copo de vinho com o punho fechado e levou-o à boca, bebendo de um só trago, como se de um penálti se tratasse. Depois, e é-me muito fácil descrever este momento, pois ele ficou-me gravado na memória, de tal forma que terei de recorrer às liberdades literárias, que não há outras que permitam, na ausência da iconografia cerebral, que vós que me ledes desconheceis, e assim, não há outras que permitam, dizia, uma total capacidade de descrever o que lentamente se encastra na memória e que por isso se enriquece de detalhes, tornando a recordação desse particular momento o centro de um vórtice para onde sugamos tudo o que diz respeito à pessoa ou situação em causa. Depois, olhou-me com o rosto descarnado, não colocando nele a menor necessidade de empatia social, nenhuma frequência no espetro do amor ou da raiva, branco, vermelho, descarnado, abriu a boca, e se houvesse em Afonso alguma intenção corporal, uma necessidade de marcar o seu lugar, como nas costas de uma cadeira se coloca um casaco antes de ir buscar a comida ao buffet, diria, abriu a boca sem maneiras, expondo os dentes carcomidos pelos anos de chinesinhas e lambidos pelos restos de vinho acabado de por lá passar. Sei que não é possível, que o vinho tinto, ainda que acabado de beber, não pode deixar umas marcas tão intensas nos dentes como estas que recordo, mas são as que recordo, que estão lá sempre que recordo, e mais, são espessas, como um gel que traça cintilantes contornos, dando à boca uma luminosidade que me convida, e de onde não retiro mais os olhos, pelo menos tanto quanto me lembro, fixo-me na cavidade bucal, enorme, eternizada pela cera, e de onde as palavras vão sair uma a uma, ordeiras e retumbantes, abalroando-me a alma, se é que tenho tal coisa. Falas de vestir paradoxos, Ivone, e dizes com ironia que ninguém os veste, que o paradoxo é um não ser, que só é o que se classifica, que para ser temos que vestir uma etiqueta, ivesanlaurent, soletrou trambolhando a língua entre os dentes, e sim, concordas que o paradoxo é a vida, mas que é inútil, que o bebé quando nasce não quer saber de paradoxos, come e evacua, sem se questionar, e que se tiver uma vida saudável, continuará assim até à morte, apenas cobrindo estes dois atos das etiquetas da cultura, um chateauiquemsauterns para o primeiro, e um de retiro de silêncio para o segundo, e desculpa-me a ironia, a mim também, Ivone, diz, abrindo a boca por onde lhe vislumbro a úvula, húmida, balançando brilhante, provocando um jogo de sombras nas amígdalas, mas eu, tal como me atraem as mulheres belas, esguias, de harmoniosos traços, também me sinto cativado pelas feias, por aquelas em quem ninguém repara a não ser para não reparar, todas me extasiam, me deixam fora de mim, e a todas dou o meu amor, intensamente, de igual forma, e como classificarias este meu ser?, parece-te paradoxal?, mas podes estar certa que é intencional, e és capaz de pensar, não é, o que te classifica é o amor, Afonso, és como um homem santo, mas o que dirás, Ivone, se te dizer que também me enchem de aborrecimento?

domingo, 13 de janeiro de 2019

Do fim da história

Concordo, Afonso. Sim, é verdade que, se apenas alguns puderem ler a mente, será uma típica questão de poder, e isso a que chamas luta de classes, que se te estou a perceber bem, não é mais do que uma luta de nomes, ou direi melhor se dizer, de nomeações, isso resume-se ao que sempre a história fez, o poder de quem é quem determinar quem é o quê. Mas, tu bem sabes que a tecnologia se banaliza rapidamente e chega o momento em que todos terão acesso à capacidade de ler a mente, qualquer mente, pelo que quem é quem não se diferenciará de quem é o quê. O fim da história, se assim quiseres, acontecerá no preciso momento em que a roupa se tornar supérflua, essa pretensão que colocamos sobre o quê para sermos quem. O fim desse lento processo que iniciámos quando descemos das árvores, quando começámos a intermediar o movimento da mão em direção ao fruto com as vestes da cultura. E, oh, como nos tornámos exímios nessa arte, digo-lhe enquanto levanto o copo de vinho tinto e fico a balanceá-lo em frente dos olhos, fitando o Afonso com um sorriso, porventura condescendente, através do fino vidro abaulado, tendo como pano de fundo os tons ondulantes de vermelho. E ocorre-me acentuar, é a distância, Afonso, que vai deste copo aos frutos das plantas que tiveram de ser domesticadas para vir a ser videiras que ameaça eclipsar de um momento para o outro. O fim da história, insisto. Porque a história não gosta de empates. Acaba por se aborrecer, definha e eventualmente morre. E tu dirás, Afonso, que depois desta tecnologia virá uma outra, e que ela criará diferenciação, fará a história dar mais um passo em frente, mas o que poderá ser vendado quando tudo estiver desvendado? Pergunto-lhe, enquanto ele hesita em levantar o copo cujo pé aperta entre o indicador e o médio, debruçado que está para a mesa baixa do bar. Nisso o negacionismo pode já estar à frente, e pelas razões erradas, continuo, senão vejamos. Repara como todo o movimento se faz em desvendar, em exaurir o espaço das possibilidades, em vestir todas as vestes, e não há ninguém mais vazio do que um ator, Afonso. Que pensas que sente quem já sentiu tudo? Aborrece-se, se não se tiver tornado sátiro, e mesmo isso, o que não é senão um aborrecimento, um impasse. Mesmo o elogio do paradoxo, talvez o ato maior do movimento negacionista, é a prova rematada do anúncio do fim da história. Já viste alguém vestir um paradoxo? Sim, olhamos para os outros, vemos o seu comportamento e dizemos, repara como é paradoxal, por isto e por aquilo. E o movimento negacionista diz, muito provavelmente com verdade, que o paradoxo está no cerne da vida. Mas já viste alguém vestir um paradoxo? Levantar-se de manhã da cama, abrir o armário, passar a mão pelos cabides perguntando-se, que paradoxo levo hoje vestido? E como um vestido de gala? Como um smoking para ir a um casamento. Conheço quem tenha ido de palhaço, mas logo arranjou oportunidade para dizer, desculpando-se, sou amigo do noivo. Digo-lhe, fitando-o e levando o copo à boca, sentido o vinho tinto a subir pelas narinas e a descer pela garganta.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Mente aberta

Mas vamos ver Afonso, digo-lhe após um prolongado silêncio em que nos olhámos pela primeira vez demoradamente, isso não é de todo possível. Esse livro, ou devo dizer a mente, não é fechado. Ou seja, marco uma pausa agora que ele volta a colocar os olhos para dentro, no próprio momento em que ele é lido já lá tem outra coisa. Parece-me, Afonso, que o negacionismo radical sofre do mesmo defeito do puritanismo, a ideia que as coisas existem tal como parecem, que podemos estar a olhar algo sem o modificar nesse preciso momento. Tudo o que observamos, Afonso, vai sempre um pouco à nossa frente. A dialética é a maior falácia do pensamento ocidental, arrisco, agora que o sinto absorto, quase como que enfeitiçado pelas minhas palavras, que, confesso, eu própria não tenho a cautela de pesar com o cuidado devido antes de as pronunciar. Ele volta-me a olhar, primeiro surpreendido, depois com o sorriso de quem tem prazer de ser apanhado nessa situação. Dá-me satisfação tê-lo assim, e resolvo jogar no seu próprio território. Sabes, Afonso, se os puritanistas gostam de fazer filmes que possam arrumar tudo no seu lugar, que sejam basilares acerca do que está bem e o que está mal, que os possam mostrar às suas crianças, como quadros representativos do que sempre foi e do que sempre será. Então, Afonso, estou em crer, que os negacionistas também estão convencidos que assim seja, apenas estão contra aqueles filmes, e, por isso, pretendem entrar pela sala de cinema adentro e partir tudo o que lá está. E depois temos os puritanistas a fazer um novo filme sobre o assalto ao cinema, e irão com certeza classificar com exímia esse desmando, quiçá irrefletido, dos negacionistas. A dialética é como uma droga, pede-nos sempre mais. Pois é, Afonso, procuro desferir num golpe final, parece-me que os negacionistas defendem um livro aberto apenas por impotência, mas na realidade, ao darem tanto ênfase ao estado do livro não estão longe dos puritanistas, apenas lhes faltam os meios para o esconder eficazmente. O Afonso olha-me com o sorriso amigo, de quem apreciou a argumentação, o raciocínio, e indulgente, de quem olha para uma criança que acabou de dizer algo que se aproxima da realidade, mas continua muito longe da mesma. Pois é Ivone, tens razão, mas o que é que pretendes? Que nos entreguemos à contemplação dessa mente aberta, enquanto os puritanistas nos comem? Pretendes que os observemos tragando-nos e que vejamos como é que a nossa mente se vai metamorfoseando? Sim, é verdade, que a diferença está em que nós não conseguimos ler o livro deles, mas eles leem o nosso. É essa a diferença de classe, não de classes. Percebes, Ivone, pergunta-me com um sorriso. Quem pode classifica como quer, quem não pode é classificado. Ou porque é que achas que os pretos são pretos? Porque os brancos podem! Pudessem os pretos, percebes Ivone. Por isso, a solução não é a contemplação do constante fluxo da mente, a solução é a dialética. Só a mente aberta pode definitivamente provocar uma verdadeira revolução, uma viragem na luta de classes.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Do negacionismo radical

Considera então, explica-me o Afonso, a situação em que das mais variadas formas, seja pela iconografia cerebral ou uma outra técnica, começam a aceder diretamente ao teu cérebro. O que pensas que poderá acontecer nesta situação? Não, supõe antes, de uma forma mais simples, que tens um pequeno livro onde tomas as tuas notas, coisas pessoais, ou não, e não sabes se alguma vez as irás transmitir a alguém, mas estão para já ali, apenas ali, no papel, no livrinho fechado, dentro de uma gaveta. Imagina, Ivone, que um dia suspeitas que alguém abre essa gaveta e perscruta o que escreves. Não sabes qual a razão pelo que o fará, mas isso também não tem importância. A questão é, Ivone, e finalmente Afonso tira os olhos do vazio, dirigindo-se a mim, a questão é, repete, não sei se para tomar fôlego, ou porque se distrai com a minha face. Devemos esconder o livrinho? Devemos deixar de escrever? Ivone, que te parece? Pergunta com os olhos apontados acima das minhas sobrancelhas. Primeiro talvez o escondas, continua perante o meu silêncio, mas a incerteza já se instalou em ti, e passas o tempo a mudar de local, ficando, por um lado, com a sensação que o esconderijo onde esteve antes talvez fosse melhor e, por outro, que há cada vez menos locais para o esconder, de forma que ao fim de algum tempo desistes, resolves desfazer-te do livro e deixar de escrever. É isso o puritanismo, Ivone. Vives então assim conformado, aborreces-te e depois revoltas-te. Por que razão não podes ter um livro numa gaveta onde escreves o que te apetecer. Então, Ivone, tomas uma decisão mais radical, retomas à escrita, começando a escrever tudo o que te apetece e simulando que te preocupas em esconder o livrinho. E não simulas por astúcia, mas por direito próprio. Aventuras-te pois a escrever mesmo tudo, até o que antes nunca te tinha ocorrido, e dessa forma pretendes intoxicar aqueles que supostamente te leem, enchê-los de contradições, de vai e vens, e acima de tudo, o mais importante, nunca podes dizer que o que lá escreves seja mentira, porque não o é. Isso, Ivone, é o negacionismo. Agora vem o mais importante, o corolário deste teu desaforo é começares a sofrer as consequências pelo que escreves num livro que não dás a ler a ninguém. De quem é a culpa, Ivone? Questiona-me com o ar inflamado de quem após uma longa refrega se prepara para levantar a bandeira que traz nas mãos. De quem é a culpa, Ivone, por se enfurecerem por aquilo que escreves e escondes dentro de uma gaveta? De ti que escreves ou deles que leem? Insiste especado, esperando pela minha resposta para levantar bem alto a bandeira do negacionismo. Procuro dizer algo que lhe retire a exaltação a que chegou, e que sem o querer contradizer permita encontrar um meio termo, uma conciliação, e de repente ocorre-me aquilo que parece ser um bom compromisso. Digo-lhe. Acho, Afonso, que os que leem muito em breve vão perceber que está a ser escrito o está para ser apenas lido por quem o escreve e, por isso, aos poucos irão ignorar. Aí, numa exclamação, o Afonso diz, acreditas nisso, Ivone? Tens de tirar o livro da gaveta.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Sou a Ivone, a do Gonçalo.

E ele olhou-me com um ar surpreendido, tentando encontrar rapidamente um caminho na memória que o libertasse do embaraço. Gonçalo? Soletrou para dentro, iniciando uma procura interior. O Gonçalo Martins, do movimento em Leiria? Questionou, alçando os olhos, regressando à superfície, talvez perante uma bifurcação. Não, respondi-lhe. O Gonçalo, que era amigo dos seus pais quando o Afonso ainda era pequeno. Do Gonçalo?!, do Zalo!?. Interrogou-me de volta, puxando a cabeça ligeiramente atrás, como quem compara dois nomes a ver se são iguais. Sim, do Zalo. Confirmei-lhe. Eras Ivone? Sondou-me, com o rosto branco e os olhos ligeiramente desniveladas, como se acreditasse agora no corpo que tinha diante de si mas ainda tivesse dúvidas acerca do nome. Sim, sou Ivone, repeti. Ivone. Disse com um sorriso, ligando nomes não antes conexos. Sim, lembro-me de ti, desculpa, já foi há bastante tempo. Quarenta anos? Eu teria uns 10 quando ele morreu. E o raio do Linker, disse rapidamente, para retroceder daquele caminho, indicava-me haver uma tão forte ligação entre nós, que eu vim falar contigo apenas para mostrar que estava errado. E de facto parece haver, mas não faz muito sentido, como poderá saber?, naquela época ainda não eram recolhidos dados de forma sistemática. E o Zalo já morreu há tantos anos, retomou absorto. Embora haja suspeitas que começaram a recolher diretamente informação do cérebro das pessoas, por forma a reconstruir o passado, quase que sussurrou, cabeceando para os lados. Parece que o modelo de negócio se deve ao aumento da esperança de vida, passou para um tom mais coloquial. Há um número significativo de possíveis consumidores de quem possuem apenas informação parcial, e esse número não se está a reduzir de forma tão significativa, como era inicialmente expetável. Alegam que com um mapeamento completo podem proporcionar uma maior satisfação. A promessa da felicidade, Ivone, a promessa da felicidade, afinal tudo se resume a isso. A Ivone fez recentemente uma iconografia cerebral? Perguntou-me. interrompendo-se, ligeiramente desconfiado, levantando as pálpebras, expondo os globos oculares vítreos em todo o seu volume, e continuando sem me dar tempo de responder. Tornou-se moda iconografar a memória das pessoas falecidas. Dizem que supera os álbuns de fotografias. Para quê passar horas a zapar fotografias se pode dedicar-se à contemplação da mais bela síntese que o cérebro fez dos seus entes queridos, é a mensagem de marketing. Podemos entronizar os nossos falecidos, adorá-los como a ícone. Foi desenvolvido por uma empresa russa. Ah, não sei se sabes, o meu pai faleceu há cerca de seis anos. Lembraste do meu pai? E a minha irmã tem insistido com a minha mãe para ela fazer uma iconografia, que inclua os tempos que passaram no Alentejo. Diz que gostaria de poder visualizar o meu pai iconografado ainda com informação dos tempos antes do 25 de abril. Mas o que eu acho, é que é coisa do Romeu, o marido dela, sabes. Ele até sugeriu a possibilidade de iconografar o capitão Armando Simões e o Hilário Mendes.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Google Linker

Por vezes, um morto num hop, embora provoque o aumento da distância, propicia a aproximação. O Afonso tornou-se num dos símbolos do movimento negacionista. Não um líder, pois, como ele não se cansava de repetir, de líderes gostam os puritanistas, que até já têm um padrão bem definido e uma mão cheia de candidatos a preenchê-lo. Neste tom eram dadas as entrevistas. Quase sempre encimadas por aquela frase, que se foi tornando num dos slogans do movimento, vamos dissolver os padrões no grande oceano da alma humana. E claro, eram abundantes os comentários dos comentadores, abonatórios, até porque elogiar é uma forma de embarcar e estava-se na fase em que ninguém queria ficar de fora. Tinha tido a vida perscrutada e cada caraterística descortinada, qualquer que ela fosse, queixou-se me ele mais tarde, era razão de interesse e opinião. Os anos de dependência das drogas, e o navegar de outros mares. O ano em coma, e a importância da ausência. O ar despassarado, e a capacidade de surpreender. A atitude desprendida, com o seu quê de missionário. A mãe revolucionária, que era apontada como estando na génese da sua atitude inconformista, ainda que eu soubesse que ele tinha pouco a ver com ela. Tinha antes a persistência dos iluminados, bem mais próxima da desorientação do Zé, nada que se parecesse com a forma metódica como a Joaninha enfrentava as dificuldades. Estava do lado fácil, como se queixava a irmã Catarina, não é ele que tem que escrever os algoritmos, não é ele que tem que ganhar a vida à procura dos padrões, basta-lhe desdizer. E se ela tinha alguma razão, eu não resistia a ler cada uma das entrevistas. No início até isso me sabia um pouco a transgressão. Construir uma forma através das palavras lidas. O filho do Zé. Que conheci quando ainda era uma criança. Que adorava o Gonçalo. O Super Afonso, defensor dos oprimidos. O Afonso, a quem, estranho agora, nunca me liguei. De quem soube depois apenas através da voz do pai deitado. Quase sempre em solilóquio, que as conversas acerca da família dele eram dele para com ele. E teria ficado assim. Mas o pai morto abria uma distância. Permitia-me vê-lo como já não sendo o filho do Zé, o que possibilitava vê-lo como sendo o filho do Zé. Talvez por isso tenha começado a fazer parte do movimento. Participava nas reuniões de negação, em que se formulavam paradoxos. A única verdade tangível está no paradoxo, dizia o Afonso, tudo o resto é estatística, uma aproximação. E eu ficava a ouvir à distância, procurando perceber o que haveria do Zé. Era significativamente menos do que tinha imaginado. Era revolto como o pai. Mas no corpo não se lhe assemelhava. Parecia que lhe faltava algo. Alto, como o pai. Os olhos pareciam não encaixar bem nas órbitas. Sorria, como o pai. Mas era senhor de uma assimetria completa. Um dia veio ter comigo, como se me tivesse reconhecido, e disse, o Google Linker sugeriu-me conhecer a Ivone, diz que temos muito em comum, não acredito, como pode saber o que nós não sabemos, disse, meio a sério, meio a brincar, piscando os olhos enquanto falava, deve ser apenas uma aproximação, e riu.

domingo, 16 de dezembro de 2018

O puritanismo

O negacionismo talvez pudesse ter sido um fait-divers, um pequeno sobressalto social, banal e inconsequente, como é apanágio da normalidade. Mas assim não foi. E, sabemos hoje, por culpa do puritanismo. Mas não do puritanismo clássico, feito pelos puritanos, com raízes anteriores ao negacionismo. Não por um puritanismo que tivesse visto uma oportunidade para se manifestar, que estando de olho, naturalmente desconfiado da natureza deste e daquele, certo que só não prevaricariam porque não podiam, porque tinham medo, por serem uns dissimulados, e ser sabido como são atreitos ao descuido e ao desmazelo. Mas sim de um puritanismo a posteriori, construído como resposta ao negacionismo e fortalecido na reação a este. De qualquer forma, em comum, ambas as formas de puritanismo possuem uma absoluta confiança nos padrões. E, naquele estádio da evolução do ser humano, em que as mentes ainda eram disciplinadas pelo pensamento dialético, moldando-se por oposição, rapidamente se gerou um evidente mal-estar entre os que trabalhavam na identificação de padrões, quando pressentiram que cada uma das suas conclusões de hoje poderia seria negada pelos dados do dia seguinte, e que é o mesmo que dizer, pelos comportamentos. E, faço notar, como décadas depois ficou evidente pelos estudos realizados, que não é certo que os comportamentos negacionistas, se ignorados, pudessem alguma vez vir a conseguir alterar de forma significativa os dados. Mas bastou a suspeita, e o receio, para aguçar o engenho. E, se calhar, nem sequer era esse temor o verdadeiro problema, talvez fosse apenas uma necessidade de garantir a credibilidade, que toda a autoridade teme a arruaça, por muito reduzido que seja o seu real impacto, mesmo que se limite a apenas um simples bater de pé. Também é esse um sinal dos tempos, em que os mais racionais seres ainda não se tinham libertado do seu eu emotivo. Como mais tarde disse um dos principais envolvidos, nada mais importante do que o nosso bom nome. Isto, ironicamente, quando o desboroar do eu primitivo e difuso dava lugar a uma forte afirmação do estruturado eu puritanista, não confundi com os puritanos, estamos a falar de movimentos do segundo quartel do século XXI que, obviamente, ainda desconheceis. Sim, foi uma guerra de nomes, aquela em que se envolveram os negacionistas com os puritanistas. Disse alguém que, desde a fim da pré-história, nunca a arte poética tinha tido uma dimensão tão política. Aquilo que uns revelavam de manhã era logo de tarde negado pelos outros. Estudavam-se assim mutuamente, procurando os puritanistas incorporar as negações como variações ao padrão. Se os puritanistas declarassem que tinham encontrado uma correlação que indicava que a sinceridade numa relação era um dos principais indicadores da satisfação pessoal, e se disso tomassem conhecimento os negacionistas durante o almoço, logo a tarde era passada na concretização dos mais elaborados ardis capazes de justificar desde a mentira mais piedosa até à mais perversa, achando que assim dariam uma lição de humanidade ao puritanismo.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Os negacionistas

Tive que ir a um dicionário de 2018 para confirmar qual era então o significado da palavra negacionista. Este é um dos problemas de estarmos a escrever para o passado. E não é o único. Vivesse eu o sonho de todo o escritor, de vir a ser famosa, e viveria neste dilema de ter os meus leitores num tempo anterior ao da escrita, arriscando-me que o meu presente fosse a sobreposição entre a incerteza na solidão deste canto em frente ao teclado e as plateias de consonantes estados de alma por mim produzidos, pequenos clones da minha pena. Ou então, a sobreposição com o insucesso, em que as letras que me saem da mão logo mirram. Para vós que me ledes então, a melhor imagem que vos posso dar é a da sobreposição de estados de espírito de uma mente que ao escrever vai saltitando entre a euforia da genialidade e pavor da mediocridade. Mas não padeço desse sonho. Porque tenho 100 anos. Porque não há maneira de morrer. Porque no dicionário de 2060 na palavra escritor lesse, profissão desaparecida no início do século devido à introdução das transferências cerebrais. Sou, contudo, uma saudosista, e em vez de gozar de uma transferência, prefiro escrever para vós e procurar, depois, na constante reescrita do tempo uma referência ao meu nome, uma referência à minha narrativa. Tipo, Ivone Lourenço, escritora, foi considerada por alguns uma das vozes mais frescas da sua época, escreveu uma única obra, 25 de abril sempre. Nem sei, se em vez de saudosista não deverei dizer negacionista. Embora o negacionismo já lá vá. Foi um movimento estúpido, é certo. Retrógrado, é certo. Irracional, é certo. Mas temos que perceber que foi natural. Como hão de os seres reagir após milénios de loas ao esplendor do desconhecimento. Como hão de os seres reagir quando se procriaram e dizimaram porque um sentimento profundo tomava conta deles. Um sentimento tão total, que qualquer tentativa de o negar desencadeava as reações mais brutais. Como hão de os seres reagir quando uma bela manhã alguém lhes tira o eu. E não como resultado de um descalabro ocasional, de uma vicissitude da vida, daquelas que, porque o questionam, apenas o fortalecem, ainda que na turbulência dos vapores. Mas sim porque o eu foi escapulido com uma verdade demonstrável, a cada momento, a cada ação, e com um toque de sensatez. O algoritmo dizia, faz isto, que é o melhor para ti. E era. E isso é que era fodido. Talvez esta seja a melhor forma de vos explicar o eclodir do movimento negacionista. Como na época as pessoas se entregaram à negação. Faziam exatamente o contrário do que lhes era recomendado. Surgiram mesmo alguns teóricos do movimento. O Afonso foi um deles. Um homem de letras. Advogava ele, tínhamos de inundar os algoritmos com novos dados que contradissessem as suas conclusões. Dizia ele, li nos jornais, temos que dissolver os padrões no grande oceano da alma humana. Um homem de letras. Foram os nossos loucos anos 60, pois, raras exceções, como a do Afonso, fomos a geração bandeira do movimento. Recordo também ler a entrevista da Catarina, apresentada como a irmã do Afonso, que estava cheia de razão.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Devassa

Parece ridículo resolver escrever as memórias numa época em que a memória deixou de ser um problema. Quando por meia dúzia de moedas mensais se pode descarregar tudo o que temos na cabeça e colocar na nuvem. Sim, é verdade que no início ainda se questionou da sua pertinência, pelo menos até haver um completo entendimento do conteúdo de cada uma das partes do cérebro. Seria, dizia-se, como convidar um estranho para casa, desconhecendo os seus hábitos, e quem sabe o que poderia acontecer uma vez livre do invólucro a que esteve acostumado. Houve também quem alertasse para o perigo de separar a mente do corpo. Especialmente, quando posteriormente se procedesse à recarga, quando se desse a ressincronização entre o que permaneceu e o que regressava do exterior. Mas a curiosidade, e a vontade de experimentar, ultrapassa quase sempre a cautela. Sub-repticiamente, alguns laboratórios privados, não que não se suspeite que os governos não o tenham também tentado, começaram a fazer experiências. Afinal nem era uma tecnologia particularmente complicada. Conseguia-se montar com alguns componentes comuns em jogos de realidade virtual da época, desde, claro, que não se importassem de correr riscos. Por isso, ofereciam dinheiro aos supérfluos, quase sempre viciados em jogos, que aceitavam ter o cérebro duplicado, no início, por uns meros microssegundos, e recarregado de novo. Os primeiros resultados não foram particularmente entusiasmantes. Tonturas e falta de memória. Mas alguns aperfeiçoamentos permitiram alcançar uma sincronização mais eficaz, em que cada parte regressava com precisão ao lugar de onde tinha saído, o que levou a experiências com maior duração, tendo-se chegado à ordem dos minutos de coexistência separada. A partir daí começaram os indivíduos a descrever uma sensação de espanto quando se dava a fusão. Como um encontro entre estranhos com um cheiro a déjà-vu, em que duas almas gémeas se reencontram de forma inesperada. Chegou-se a afirmar que isso seria o amor. Como um sonho que atiramos ao ar e que quando dele nos damos conta se nos apoderou do corpo. Dizia-se na altura com emoção. Quando ainda não se tinha começado a forçar a separação por longos períodos, e a induzir cada uma das partes às mais dissemelhantes experiências, antes de as fundir de novo, que disso relatarei mais à frente. E conto-vos isto em adianto, como uma breve introdução, quiçá um resumo executivo, das minhas memórias, de como hoje a memória é completamente inútil. Para vos dizer de como recordo o Zé, deitado, com o corpo nu, descoberto sobre a cama, olhando o teto, falava, como se estivesse só, da estranheza do regresso do Afonso após um ano de coma. Repetiu várias vezes ao longo dos anos, não sei se disso tinha consciência, que o Afonso não tinha regressado o mesmo. Tinha algo dentro da cabeça que não entendia. Percebia melhor a sua fase de viciado. Percebia a dependência do corpo e a subserviência do cérebro, como ambos jogavam um jogo de subversão, mas agora parecia que a mente do Afonso regressava como se tivesse sido alvo de uma devassa.

sábado, 24 de novembro de 2018

Companion4Elderly7.5

Big data is taming you. Já lá vão mais de 30 anos desde que escrevi isso na parede, do outro lado da rua, em frente ao apartamento. Agora, aos 100 anos, olho com benevolência para a inscrição. Fui eu que pedi para não a apagarem. Uma vez por ano vou restaurá-la. A cidade está cheia de escritos deste género. Artificial intelligence is not intelligent ou The robot is not helping you. Eu acho que a minha pode ter sido uma das mais bem conseguidas. Mas cada um gosta da sua, pelo que são todas cuidadosamente preservadas por aqueles que as escreveram. Nisto se prova que esta revolução não foi como as outras, que mais tarde ou mais cedo caem no esquecimento. Esta foi a revolução. Foram muito loucos aqueles 60 anos. Dizemos, os da nossa geração, com alguma graça, que os nossos 60 anos foram os antigos anos 60, aqueles em que nascemos. Recordo como tudo começou. Revoltámo-nos quando percebemos que sabiam tudo sobre nós. O que fazíamos, quem éramos. É verdade que no início, quando surgiram os novos sistemas de apoio e suporte ao indivíduo, todos nós aderimos entusiasticamente. Corríamos a descarregar a última versão do sistema de recomendação, a adquirir o último robô de apoio pessoal. Mas, ao fim de algum tempo, começou a haver algum desconforto naquele conforto. Era um desagrado por tudo estar certo. De ser tudo tão previsível. Tornámo-nos como as crianças revoltadas filhas de pais perfeitos. Sabíamos que era aquela a melhor hora da refeição. Que não podíamos comer melhor comida. A hora para adormecer. A música para acordar. E irritávamo-nos quando atingíamos o êxtase. Foi então que alguns de nós começámos a fazer o contrário do que nos era recomendado. Por essa altura aumentaram os acidentes de trânsito, pois insistíamos em desligar o controlo automático dos carros autónomos e conduzíamo-los nós. Mas o trânsito já não estava concebido para humanos. Eu tive um acidente grave. Fui hospitalizada e aí, como já estava a fazer quase 70 anos, mais por desculpa do que por verdadeira necessidade, para servir de cobaia, instalaram-me o modelo Elderly do Companion, mais precisamente, o Companion4Elderly0.3Beta. Sim, a versão beta foi testada por mim. Foi nessa época que a psicologia perdeu a vertente de ciência social e passou a ser um ramo da biologia comportamental. Parece ter sido identificado um aspeto na biologia humana, uma tendência inata para a insatisfação que tinha sido ignorada. Chamaram-nos por isso a geração mimada. Foi a linha Companion concebida para colmatar essa anomalia. Dizem que está fortemente influenciada pela filosofia budista. Que os Companions desencadeiam um mecanismo de meditação induzida, diretamente implantado no cérebro. Detectam as ondas de desagrado que tomam conta do ser humano e desencadeiam imediatamente uma reação de reflexão. É por isso que me sento em silêncio à janela a olhar para a minha inscrição, a deixar passar o passar dos anos, e revejo-me com a lata de spray na mão, de cócoras, não fazendo verdadeira tensão de me esconder, a escrever Your companion is taming you.

sábado, 17 de novembro de 2018

Tinder

casados, deslizai para a esquerda. porque na vida acontece tudo muito rápido. passaram treze anos desde aquele encontro no hospital. treze anos em que perdi a noção se fui a mulher ou a amante. treze anos a pensar numa coisa e na outra. e fui ambas com muita convicção. mas nunca ao mesmo tempo. fui a melhor amante que ele alguma vez teve. tive a disponibilidade de esperar. de viver nos intervalos da vida dele. de planear as fisgas por onde nos escapávamos. e nisso era exímia. uma meia-hora conquistada ao quotidiano sabia a eternidade. até fui sua paciente. ia à consulta para o ter. e nunca me queixei. mas também fui sua mulher. treze anos é muito tempo para viver em aventura. surge um momento em que nos descuidamos e deixamos passar mais de meia-hora. e o quotidiano entra-nos pela eternidade a dentro. soube-me bem esse apoucamento do infinito. confesso que até vesti a roupa de esposa. saíamos para jantar com o Ricardo e com o Humberto. íamos ao restaurante. visitávamos a casa deles. eles vinham jantar a nossa casa. conversávamos muito. o Humberto tinha sido colega da Catarina e do Romeu e perguntava-lhe por eles. o mundo é uma bolota. e o Zé respondia sem hesitação. nunca soube se alguma vez comentou alguma coisa à filha e ao genro. apenas não fui a casa dele. mas que interessava isso. preferia não pensar. e ele dizia-me que já não estava com a Joaninha. era em casa que tinha a roupa. apenas isso. até ficava à noite comigo. que melhor prova de ser mulher e não amante. passava a noite comigo. não ao fim de semana. não como uma escapada ao Alentejo. disfarçada de ida a um congresso. passava a noite comigo. para se levantar de manhã para o trabalho. tomávamos banho. ele fazia a barba. os amantes não partilham os asseios. eu era a mulher. a Joaninha passava a noite sozinha. se calhar ia jantar com amigas. nunca nos cruzámos. pensar nisso bastava-me para ter a certeza que ele era meu. já não pelo fogo da conquista. mas pela força da circunstância. e depois ele desaparecia. eu passava alguns dias à espera. e ele sem nada dizer. tinha então de despir as roupas de mulher. mas em vez de me entregar ao sofrimento ia à consulta. e regressava como amante. andámos nisto treze anos. e não penses que uns momentos foram melhores do que outros. não penses que com o tempo deixei de acreditar. que me entregava com menos certeza. que era menos mulher quando tinha que ser mulher. que era menos amante quando tinha que ser amante. não era assim. nem isso pode ele me apontar. e passado treze anos diz-me que não pode deixar a Joaninha. isso sim foi demais. não podia ser apenas amante. habituei-me a também me imaginar esposa. a vida é rápida. sabes. ainda o fui encontrando uma ou duas vezes nestes últimos seis meses. mas já não é a mesma coisa. sabes. agora o que fica é uma espuma do vai e vem. não é a mesma coisa. acabou. quero viver a minha vida. a vida passa muito depressa. mas estou aqui apenas a falar de mim. desculpa. já te devo estar a aborrecer. mas tinha que te dizer isto. queria que me conhecesses. que soubesses porque é que estou aqui. e tu. fala-me de ti.

domingo, 11 de novembro de 2018

Um homem mais velho

Um homem mais velho, oito anos mais velho, mas agora não me parece fazer muita diferença, não quando o vi da última vez, há quase vinte anos atrás, no funeral do Gonçalo, despediram-se, é verdade, com garantias dadas de se encontrarem de novo, mas nem de um lado, nem do outro, acabou por haver um movimento de aproximação, não é verdade, a Joaninha ligou uma ou duas vezes, mas sempre renovei, e não cumpri, a promessa de os visitar, nem sequer os miúdos, ou talvez por causa dos miúdos, o fim da infância, ainda antes da intervenção da adolescência, dá-lhes um brilho de maçãs polidas numa cesta de vime, bonitas, muito apresentáveis, com uma vivacidade saudável na pele, golden, dizem, e a mim, nessa altura, aborrecia-me essa compostura, confesso que nunca me agradou, também já não os via há algum tempo, nem sequer privei com eles no ano que estive separada do Gonçalo, antes do acidente, e eles também não foram ao funeral, parece que a Catarina queria ir, disse a Joaninha, logo a mais pequena, teria uns oito anos, não o Afonso, mas não, não vieram, ainda bem, pensei na altura, o Gonçalo gostava deles, as visitas que lhes fazíamos eram quase sempre à volta das crianças, um miúdo com os miúdos, comentávamos, nem que fosse para dizer alguma coisa, mas sim, era assim, é assim a empatia, mas eu não, não sentia-a essa necessidade de aproximação, deixava ao Gonçalo toda a dedicação, acabava por me refugiar na conversa com a Joaninha, que o Zé era mais reservado, simpático sempre, mas com aquela distância dos psiquiatras, como enfermeira fui reconhecendo essa marca noutros psiquiatras, um distanciamento em relação às coisas, como se tivessem sido calejados por um segundo sentido das circunstâncias, como quem pega em panelas quentes sem um relampejo, e as retira do fogão para cima da mesa como se nada fosse, como se não houvesse fogo, sim parecia-me frio o Zé, por isso, fiquei contente que não viessem, não saberia o que lhes dizer, sem o Gonçalo para ocupar esse lugar, especialmente à Catarina, que tinha um olhar que trespassava, mesmo quando perguntava a coisa mais insignificante, porquê, dizia, e a mim parecia-me que sabia a resposta, que me estava a testar, por isso, nas visitas a casa deles, era com a Joaninha que conversava, mas já não sei do quê, e o Zé estava por ali, falava às vezes com o Gonçalo, e nunca me ocorreu nada, nem o mais leve fervor, e parecia-me tão mais velho, oito anos são muitos anos, a idade da Catarina, medimos as pessoas pelos filhos que têm, como travessas na passadeira da vida, o Afonso teria uns dez anos, e agora, vinte anos depois foi o Zé que me reconheceu, chamou-me no hospital, Ivone, és a Ivone, não és, e depois ficou calado, como se me coubesse a mim dizer algo, senti-me então como se eu fosse uma panela ao lume, como se tivesse estado toda a vida em cima de uma chama e nunca me tivesse apercebido disso, talvez fosse a altura de um homem pegar em mim e me colocar em cima da mesa, sem palavras, sem demonstrar emoção, e então percebi que oito anos não são muitos anos.

domingo, 4 de novembro de 2018

Amizade

O engraçado de caminhar à chuva, afastados pelo limite das varetas, que dão pequenos toques, libertando chispas de excitação pelo aflorar das pontas, ainda que por debaixo dos guarda-chuvas os corpos se mantenham à distância das abas, como dois andores alinhados numa procissão, que vão ameaçando-se abalroar pelo peso do fervor, num arrebatamento que por vezes quase provoca um acidente, não fosse pela elasticidade dos tecidos que amparam a emoção, como o cruzar de espadas, e a faz retroceder de volta ao chão. É engraçado caminhar assim à chuva, pelo vazio da rua, que nos dá a liberdade de versejar de um lado ao outro, carambolando nas paredes, dado que a distância ao destino é curta, e queremos ter todo o tempo do mundo, e por isso obrigamos o progresso a ser exíguo. E paramos, paramos várias vezes, rodamo-nos nos guarda-chuvas, encarando-nos com os punhos, prontos para uma saudação de camaradagem, e ficamos assim um bom bocado só para rir, só para concordar, olhos nos olhos, atirando o bafo quente, vaporoso, um ao outro, que cheira a ternura húmida, vagueando debaixo dos chapéus, como que uma chuva ainda mais fininha que teima em não cair ao chão, prolongando o momento, até que rodamos de novo, para dar um passo em frente, o primeiro desde há um pouco, e recomeçarmos a rimar para os lados, sentindo a distância entre os corpos como uma intimidade sagrada protegida pelo acolhimento dos guarda-chuvas. É engraçado caminhar assim à noite, com as luzes dos candeeiros a deixar auréolas no chão, uma luz molhada, um pouco escorregadia debaixo dos pés, que nos atira ainda mais para os lados, como se não andássemos, patinássemos, e para isso fosse fundamental esse empurrão lateral, como um barco bolinando, inclinando-se para o lado, atiçando sensualmente o vento. E à altura das faces chega a luz filtrada pelas abas, a minha aos quadrados, a outra uniformemente preta, mas ambas ponteadas, outros salpicos entre salpicos, onde passam pequenas bolas de água a rolar, e em que nos calamos um pouco, para nos embebecermos pela textura do tecido, quão perfeita, e agradecemos em silêncio a esses tecelões hipotéticos, agora incorporados nalguma máquina num país distante, que não descansa, que não transvia, que está neste momento a tecer, para pontilhar os olhos de milhões de seres, como eu e tu. E falamos, é claro, de homens. Como são engraçados os homens, como são gigantes quando os vemos ao longe, com o seu tronco ereto, cabeça erguida, membros baloiçantes, olhos retos ao planeta, e como vão encolhendo quando se aproximam e a intimidade os faz pequenos, seres insensíveis que nos corroem por dentro e depois, quando menos se espera, choram, e ficamos assim, como marinheiros que se fizeram ao mar na promessa de uma nova terra e somos apanhados pela tempestade, bem no meio do oceano, em terra de ninguém, e vamos ganhar força às nossa incertezas, rimos. Dizes tu, Ricardo, e digo eu, se pudéssemos passar sem eles, iríamos diretos para casa de vento em popa, como um homem e uma mulher.

sábado, 27 de outubro de 2018

O agora

As unhas dos pés pintadas de vermelho, e às vezes penso que estaria melhor se estivesse casada, com um bebé para criar, e penso isto assim, com os pés sobre a areia fina, semienterrados, mas com as unhas a aflorar, emergidas pelos dedos, como pequenas tartarugas, dez minúsculas tartarugas acabadas de sair dos ovos, a despontar por entre a areia quente, atiradas para a frente em direção à água, e penso que como seria vê-lo crescer, com a água que vem, depositando pós dourados sobre o vermelho das unhas, que cada vez se elevam mais, conforme os calcanhares se vão afundando, trazendo os tornozelos ao alcance da vista, e penso como seria o pai do meu filho, penso nele como um homem que sai de manhã para o trabalho, e a água que regressa ao mar, trazendo de volta o rigor do vermelho, e trançando na areia um sulco, como a marca de um rio que desagua no deserto, penso nele e no que ele é capaz, comigo ao seu lado, quando a água que vai chega ao ponto de encontro da pequena crista que apela ao regresso à areia, e penso na casa onde poderíamos viver, penso como poderiam ser aquelas paredes, e a água, depois de uma breve reunião, decide de novo vir lamber a areia fina, baralhando o rasto do rio que se sente traído pela sua própria ideia de deserto, desaparecendo, e penso como seria com o meu homem regressado a casa, ao fim do dia, falando deste e daquele colega, desta e daquela situação, e eu dou uns passos em direção à água que vem, enfiando maliciosamente as unhas na areia, para a obrigar a lamber-me o peito do pé, esbarrando na perna, e penso como seria partilhar esses pequenos sucessos, coisas de pormenor, mas sorvidos pelos dois como pequenos goles de vinho tinto, na varanda, ao entardecer, com o miúdo já lá fora, a brincar sozinho em frente à casa, entretido, enquanto o vai e vem da água já não descobre os pés, que continuo a fixar, deformados pelos reflexos de luz, agito agora os dedos, para desencadear uma tempestade de areia subaquática, e poder vislumbrar os laivos de vermelho, carregado, vistoso, lá dentro, e penso como seria ter a vida toda preenchida, depois do trabalho, pelo filho, pela escola, pelas atividades da tarde, levá-lo daqui para ali, ficar sentada no corredor da piscina, ao fim da tarde, à espera que ele regresse da natação, com a sandes e o sumo dentro do saco, e agora por vezes já não se sente a ondulação, manifesta-se sim lá para trás das costas, aqui tenho a água abaixo dos joelhos, com as pernas lisas da depilação, como se não tivessem poros, pintadas com uma única pincelada pela lâmina a desflorestar o creme, mas concentro-me no vermelho lá ao fundo, e penso no miúdo já crescido, adolescente, quase a entrar para a universidade, imagino como seria alimentar-me com outro pedaço de vida, a juntar ao do marido, claro, viver vários crescimentos numa vida só, começo a retroceder, confrontando com a barriga das pernas a água que quer regressar ao mar, vejo os pés a recuar, pé ante pé, e penso como teria sido com o Gonçalo, agora que as unhas vermelhas voltam à tona de água, e já passaram alguns anos, e agora.

domingo, 21 de outubro de 2018

A mãe e o pai Aires

Fomos visitar a mãe e o pai Aires. Se o sobrenome assenta bem ao pai, já na mãe é claro que ele lhe foi entregue por empréstimo. Assim que chegámos, olhou o Gonçalo de alto a baixo, como se inspeciona um carro alugado acabado de retornar. Uma a uma, fez todas as verificações, e de forma tão ostensiva que nem se pode dizer que se pudesse lá identificar algum sinal da sorrateira desconfiança, daquela capaz de gerar um jogo de gato e rato entre avaliador e avaliado. Não, para Alzira, procedimentos são procedimentos, diretos e claros, feitos de uma única frase, onde na maior parte dos casos nem sequer é necessário interpor uma vírgula, e para cuja resposta apenas é necessário um sim ou um não, arrumando as hesitações da existência a meia dúzia de máximas sobejamente demonstradas pelo teste da sobrevivência. Você é que é a Ivone, disse, mais afirmativamente do que interrogativamente, mastigando uma côdea de pão, e como quem começa por conferir o nome. Olhe que isto aqui não é como na Beira, aqui somos todos comunistas, acrescentou para encarrilar a conversa na direção certa e acabar de me tirar as medidas. Depois olhou mais uma vez para o Gonçalo, e quedou-se fitando-o estaticamente enquanto se dirigia a mim. O menino Zé Galvão e menina Joaninha levaram-me o daqui com promessas de um ofício, tipógrafo, ele já me explicou, trabalha lá nos livros e nos jornais, mas mesmo nisso não pense que é muito diferente de nós, também trabalha para os que sabem ler, e agora passam-se seis meses sem o ver. E depois chega-me aqui, assim, magrito. Você não cozinha? Não é que ele alguma vez tenha sido gordo, mas já se sabe como é lá por Lisboa, não ajuda. Enquanto isto o Gonçalo mantinha-se de cabeça ondeando no ar, percorrendo com os olhos o espaço em redor, como um bicho faz uma inspeção a um novo poiso, quiçá procurando atribuir aos locais as funções das futuras necessidades, como se planeia a disposição da mobília numa casa recém adquirida, ainda que com o Gonçalo o ar aéreo fosse sempre um mistério, e eu própria já me tivesse deixado de deitar a adivinhar. Então Zalo, gostas dela, é isso? Perguntou-lhe, continuando a falar para mim. O que mais para aí há é mulheres, filho, mas se gostas de uma está arrumado, arrematou, com a concordância do pai Aires, que se mantinha numa segunda linha, um pouco atrás da mulher, apequenado, diferindo do Gonçalo apenas na altura, mas com o mesmo sorriso monolísico, os cabelos pretos agora manchados de branco, mas desregrados como os do filho, com uma insubmissão que já nem sequer parecia ser com alvo da investida disciplinadora do pente, e formando uma parelha com a mulher, onde a estatura semelhante era transbordada pelo dobro do volume da companheira, entrando-me ambos pelos olhos como Dom Quixote e Sancho Pança, mas como se a lança estivesse agora nas mãos do terra-a-terra e a voz do bom senso fosse silenciosa, uma característica fluida, mais um ar do que uma atitude, plena de um bem fazer despojado da realidade na posse do pai Aires.

sábado, 6 de outubro de 2018

Anjozálo

Para vocês, só por terem nascido com uma coisa entre as pernas, é tudo muito fácil, andam cheios de confiança, não se questionam se são bonitos ou se são feios, se as pessoas gostam ou não de vocês, nem sequer se preocupam se os vossos amigos são mesmo vossos verdadeiros amigos, para vocês, só por causa de trazerem esse penduricalho dentro das cuecas, está sempre tudo bem, mas nós não somos assim, Gonçalo, percebes, nós temos dúvidas, deitamo-nos, fazemos amor, dormimos descansadas, e no outro dia acordamos com uma sensação esquisita, perguntamo-nos se foi mesmo assim, se não podia ter sido diferente, se não podia ter sido melhor, ou se já foi pior do que a primeira vez, se isto está a crescer ou se está a diminuir, sabes, e o pior é a sensação de estar tudo igual, isso é que atormenta, Gonçalo, e é normal ter essas dúvidas, as coisas mudam à nossa volta, é tudo muito rápido, de forma que mesmo que pareçam não ter mudado passam de facto a ser diferentes, a mesma coisa duas vezes já não é a mesma coisa, Gonçalo, eu sei que tu não tens a culpa, mas é mesmo assim, não faz sentido, eu sei, e não deixa de ser assim por não fazer sentido, adoro a rotina, mas depois aborrece-me, percebes, prefiro ficar em casa, quero uma relação estável, digo-te que quero ficar em casa à noite, só os dois, no sofá, a ver um filme na televisão, mas depois tens que me convidar para sair, sabes, Gonçalo, e tens que insistir, especialmente se eu disser convictamente que não, se parecer satisfeita com a vida de sofá, e quando me conseguires convencer a sair, Gonçalo, chateia-me que depois me convenças todas as noites, sabes, especialmente se me vires a divertir muito por estar com os nossos amigos, a passar a noite toda a fazer e dizer parvoíces com eles, deves então exigir-me ficar em casa, dizer-me que tu é que já não sais, é como esse teu ar ausente, sabes, adoro ver como és capaz de te ausentar, parece que andas no céu, pareces um anjo, não é isso que eu te chamo?, anjozálo, meu anjozálo, mas tens que tomar mais atenção, enerva-me que andes sempre no ar, às vezes, quando estamos a fazer amor e olho para ti a pairar lá em cima, com os olhos fechados, imagino-te na cúpula de uma igreja, arqueado, lá junto dos outros deuses, e admiro-te, Gonçalo, por seres assim, por te alheares, por parecer que nada te preocupa, por seres tão volátil, um corpo com os volumes da pintura, tão lindo, tão cheio de cores, e nesse momento o fazer amor parece-me uma brincadeira de crianças, tão simples e cheio de correrias e gargalhadas, mas depois, irrita-me, Gonçalo, que ali estejas em cima, que sejas tu, que não seja eu, que me ignores, a mim, cá em baixo, sim, tenho inveja, é verdade, Gonçalo, sei que tenho inveja, eu aqui em baixo também sou gente, Gonçalo, porra, sou gente, Gonçalo, e depois sinto vergonha, Gonçalo, e sei que não te devia estar a dizer isto, sinto vergonha Gonçalo, porque te sinto de novo tão bonito lá em cima, e é então que me viro e te peço que me dês palmadas nas nádegas, Gonçalo, mas não te estou a pedir para me bateres, percebes, Gonçalo.