Big data is taming you. Já lá vão mais de 30 anos desde que escrevi isso na parede, do outro lado da rua, em frente ao apartamento. Agora, aos 100 anos, olho com benevolência para a inscrição. Fui eu que pedi para não a apagarem. Uma vez por ano vou restaurá-la. A cidade está cheia de escritos deste género. Artificial intelligence is not intelligent ou The robot is not helping you. Eu acho que a minha pode ter sido uma das mais bem conseguidas. Mas cada um gosta da sua, pelo que são todas cuidadosamente preservadas por aqueles que as escreveram. Nisto se prova que esta revolução não foi como as outras, que mais tarde ou mais cedo caem no esquecimento. Esta foi a revolução. Foram muito loucos aqueles 60 anos. Dizemos, os da nossa geração, com alguma graça, que os nossos 60 anos foram os antigos anos 60, aqueles em que nascemos. Recordo como tudo começou. Revoltámo-nos quando percebemos que sabiam tudo sobre nós. O que fazíamos, quem éramos. É verdade que no início, quando surgiram os novos sistemas de apoio e suporte ao indivíduo, todos nós aderimos entusiasticamente. Corríamos a descarregar a última versão do sistema de recomendação, a adquirir o último robô de apoio pessoal. Mas, ao fim de algum tempo, começou a haver algum desconforto naquele conforto. Era um desagrado por tudo estar certo. De ser tudo tão previsível. Tornámo-nos como as crianças revoltadas filhas de pais perfeitos. Sabíamos que era aquela a melhor hora da refeição. Que não podíamos comer melhor comida. A hora para adormecer. A música para acordar. E irritávamo-nos quando atingíamos o êxtase. Foi então que alguns de nós começámos a fazer o contrário do que nos era recomendado. Por essa altura aumentaram os acidentes de trânsito, pois insistíamos em desligar o controlo automático dos carros autónomos e conduzíamo-los nós. Mas o trânsito já não estava concebido para humanos. Eu tive um acidente grave. Fui hospitalizada e aí, como já estava a fazer quase 70 anos, mais por desculpa do que por verdadeira necessidade, para servir de cobaia, instalaram-me o modelo Elderly do Companion, mais precisamente, o Companion4Elderly0.3Beta. Sim, a versão beta foi testada por mim. Foi nessa época que a psicologia perdeu a vertente de ciência social e passou a ser um ramo da biologia comportamental. Parece ter sido identificado um aspeto na biologia humana, uma tendência inata para a insatisfação que tinha sido ignorada. Chamaram-nos por isso a geração mimada. Foi a linha Companion concebida para colmatar essa anomalia. Dizem que está fortemente influenciada pela filosofia budista. Que os Companions desencadeiam um mecanismo de meditação induzida, diretamente implantado no cérebro. Detectam as ondas de desagrado que tomam conta do ser humano e desencadeiam imediatamente uma reação de reflexão. É por isso que me sento em silêncio à janela a olhar para a minha inscrição, a deixar passar o passar dos anos, e revejo-me com a lata de spray na mão, de cócoras, não fazendo verdadeira tensão de me esconder, a escrever Your companion is taming you.
In 25 de abril sempre (2018)