Nunca deixes de me dizer que eu sou bonita, mesmo que já não aches. Ele tinha uma cara branca de espanto. És tão bonita, és tão bonita, repetia lentamente com a sua cabeça sobrevoando a minha, pairando de um lado para o outro. Seria mesmo para mim? Temia que por detrás daquela expressão absorta estivesse outra coisa, que me transcendesse, que alguns homens procuram êxtases pouco terrenos, usando as mulheres como impulso. Mas, impossível não acreditar, tomar como meu aquele arrebatamento, e ficar imobilizada, agarrada ao colchão, a levitar debaixo do rosto final. Por isso não me contive, e disse o que não devia, efetuando uma acrobacia criadora, procurando transformar um ponto num espaço a quatro dimensões, e assim trazê-lo de volta à terra, ao dia a dia, ao levantar e ao deitar, e até ao enfado e ao aborrecimento, mesmo que já não aches. Ficou aquilo a fermentar em mim, que a vaidade, uma vez que se instale, é intemporal e exige a repetição de um espelho. E, desse exercício diário, foi brotando aos poucos um despudor, resultado de nos vermos constantemente reforçados, ignorando o que nos rodeia. E de tal forma estava receosa do seu suposto alheamento que, sem saber donde, comecei a inventar jogos, atrevimentos, pequenas travessuras. Primeiro apenas com a linguagem, histórias que acrescentavam ao quarto onde nos encontrávamos um mundo repleto de seres, gigantes, brutos, meigos e egoístas. Pessoas que conhecíamos e que eu ali enroupava de um peso e uma velocidade, com um mínimo de verossimilhança, é verdade, mas todos produto da minha imaginação, e posicionava-os em órbitas à nossa volta. Mas, era tudo muito instantâneo, tinham a duração de uma palavra, que, quando acabada de pronunciar, decaía, e por isso, por horror ao vazio, e a rever o espanto na sua cara, puxava por uma outra palavra, de maior massa, mais completa, mais aterradora, no afã de não o deixar regressar ao singular. Ia assim buscar personagens míticas, cuja síntese lia em velhas enciclopédias na biblioteca da faculdade, em colunas sobre um papel muito fino, amarelo, ilustradas por imagens retiradas da antiguidade clássica, de estátuas estáticas e robustas. Hércules, marte, vénus, uma constelação de deuses que colocava a girar à nossa volta, e que eram turbulentos e vingativos, como tinham que ser, para não darem descanso nem recolhimento. Construí, pois, no quarto, um universo, com as suas categorias e leis próprias, que governavam os movimentos e o passar do tempo, esperando ouvir dele as palavras mágicas, mas ditas agora num mundo às minhas ordens. E se é verdade que ele as repetia, e não havia motivo para duvidar da sua sinceridade, emerge, no entanto, pelo abuso do espelho uma desconfiança que nos deixa sem eira nem beira. Enfadava-me eu agora daquela armadilha que tinha montado. Achava-o previsível e o seu fervor parecia-me irrisório, rendido, menor à imagem dos deuses que havia criado. Dei por isso, por mim, fora daquele quarto, abandonando-o, levando comigo as histórias que li nas enciclopédias, e deixando-o a ele, certa, que me recordaria, como sou bonita.
In 25 de abril sempre (2018)