quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Gira-discos

Naquela noite de verão, depois de jantar, quando passei em frente da casa do povo, abrandei o passo para ouvir a música envolta de luz amarela que escapava pela porta. Quando depois, ao deitar, recordei o percurso, feito do atravessar da aldeia de lés a lés, do bebedouro das vacas até ao cemitério, com o calor da noite e o cantar dos grilos, essa parte surgiu-me num ralenti sem rival, destronando mesmo os momentos que idealizava quando ao sair de casa fechava atrás de mim o rugoso portão de ferro forjado preto, dizendo para os que ficavam, já volto. Ansiava chegar junto do bebedoiro, para me sentar com as outras raparigas na borda de granito e ficarmos a falar baixinho para não incomodar o ligeiro borbulhar da água a cair da bica, galgando as paredes do tanque e encharcando a terra com o cheiro da humidade na noite quente de verão. Mas agora, a imagem da porta aberta a verter de luz, das duas ou três oliveiras em frente com as copas iluminadas por baixo e o topo a desvanecer-se no céu escuro, dando a ideia que não tinham fim, conjuntamente com o ecoar de uma música melodiosa, cantada em francês, é o que me envolve quando me deito na minha cama com a janela aberta ao silêncio lá de fora. Gira-discos, foi o que me disseram que tocava aquela música e quem o trouxe foi um neto do José Manolo, que é de Lisboa. Sabia quem era, era o Carlos, que costumava sair com o grupo do meu irmão mais velho, quando visitava a aldeia durante o mês de agosto. Recordava um miúdo um pouco enfezado, com quem tinha trocado uma ou duas palavras quando vinha perguntar pelo Zé, mas quando no dia seguinte o procurei junto ao adro da igreja, onde os rapazes se juntavam ao fim da tarde, quase não o reconhecia. Tinha crescido. Tinha o cabelo comprido, liso, loiro, caindo-lhe sobre os ombros, e estava encostado à parede sorrindo com uma segurança que não lhe revia nas débeis batidas no portão. Não tive coragem de me aproximar, até porque era uma rapariga e miúda, e aquela parede estava atribuída aos rapazes, que a nós era permitido passar por ali, quanto muito abrandar um pouco o passo de forma a se trocarem alguns olhares de avaliação mútua, mas não havia conversa para ser trocada, a não ser a ditada pela necessidade, de irmão para irmão, de primo para primo, porém necessariamente curta e feita de umas poucas de instruções, sobre horas e obrigações, ditadas pelos mais velhos. Por isso, quando poucos dias depois soube que o Carlos tinha regressado a Lisboa, resolvi apoderar-me daquele sorriso, que não era meu, e guardá-lo com a paciência de quem vive numa aldeia, onde tudo acontece devagar, e o inesperado é um acontecimento longamente preparado. Agora, quando saio depois de jantar, acontece aborrecer-me junto ao bebedoiro, não prestar atenção ao sussurrar das minhas amigas no escuro, nem ao borbulhar da água. Como funciona um gira-discos?, deixei escapar uma noite, irrefletidamente, em voz alta, quando passávamos em frente à casa do povo que se encontrava às escuras e de porta fechada.

domingo, 19 de agosto de 2018

Bicho caldeireiro

Lá para os lados da mina anda um lagartão façanhudo, de dois palmos de comprimento e um verde claro escamudo, que, de gordo que é, chicoteia a cauda com o movimento das patas traseiras, para arrastar a barriga cheia de escaravelhos. Mas do que ele gosta mesmo sei eu, é de libelinhas, que as apanha quando se dirigem para a frescura da mina, estando ele sobre a parede quente do sol, estendendo o corpo preguiçoso sobre os musgos que nesta altura do ano deixaram de ser barbudos para cobrirem a pedra de uma rala pelugem amarela castanha vermelha. Revolta-me ver a moleza do lagartão, que enquanto se enche de sol, sem um único movimento, a não ser o abrir da boca e o estender da língua, apanha as libelinhas que vão na ânsia da frescura. E revolta-me mais, revolta-me o ar senhorio com que se veste esticando o pescoço e exibindo o papo, como se fosse dono da pedra, já para não dizer da mina, que é do meu pai e da minha mãe. Já me queixei, que ele anda por ali, perto da água que bebemos, aquela que é a mais afamada, que até o avô Pereira, pouco antes de partir, quando lhe apresentaram a canja de galinha, disse de uma forma que não percebi ninguém levar a mal, foda-se, quero é uma pouca d’água da mina. Não percebo o descanso do meu pai, que me respondeu não gostar o sardão de água mas sim de libelinhas, e que por nada deste mundo meteria as fuças onde nós mergulhamos a bilha. A sua desatenção não me deixa nada descansada e por isso frequentemente dou por mim para os lados do sobreiral, debaixo do qual se enfia a mina, sem uma razão que não seja certificar-me que a razão do meu temor ainda por ali habita. E temo, que da minha imprudência já o lagartão se fez notado, e me fita enquanto se entende ao sol com uns olhos calmos e frios de bicho que não tem sangue quente. Dia após dia, cresce em mim a certeza que já zomba comigo pois não há na minha aparência um bom senso, que não vou buscar água, nem levar ou trazer cabras. Encho-me por isso de raiva quanto mais insisto em procurar o lagartão de língua comprida. E digo-vos, que estes bichos, a única coisa que lhes vai pela cabeça é saberem quem manda, e por isso, de sempre me ficar pela sobreira, paralisada de avançar em direção aos meus pertences, o convenceram de ser o dono da pedra onde perneia. Durmo mal, de noite e de dia, que tenho de fazer alguma coisa. Encho-me por isso de ganas e dirijo-me a ele para reclamar o que é meu de direito. Oh, bicho caldeireiro, bicho caldeireiro, insulto-o alto e a bom som, enquanto vou determinada a correr com ele da pedra que é minha. Ele, fita-me de cima a baixo, como se me conhecesse por dentro, alçando levemente a cabeça. Bicho caldeireiro grito uma vez mais, procurando humilhá-lo. Então não é que, de repente, sai da pedra, mas na minha direção, de um salto tão alto, que vou numa correria por todos os caminhos, só parando chegando a casa. Mãe, digo com o coração aos saltos, o lagartão da mina atirou-se a mim, que parecia que me queria subir pelas pernas acima. Mostrou, agora sim, preocupação a minha mãe, que lhe olhou seriamente e me disse, isso não, minha filha.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Subir às árvores

Não te quero ver em cima das árvores, Ivone. Mas o Zé e o Zé Joaquim podem, replico eu. Uma menina não sobe às árvores, esclarece o meu pai. Uma menina não sobe às árvores, é a primeira coisa que me ocorre sempre que vejo o Zé, ou o Zé Joaquim, empoleirados de um ramo, a baloiçar sobre a barriga, com a folhagem a abanar em círculos e uma ou outra folha vem em direção ao chão, preparando-se para darem mais uma reviravolta, ou então puxarem as pernas para cima e continuarem para o próximo ramo. Eh, Joaquim, os teus rebentos saíram uns bons trepadores, diz o ti João em tom elogioso, enquanto passa com a junta dos bois. Uma menina não sobe às árvores, repito para mim mesma, e deixo-me ficar a vê-los na copa a tentarem chegar ao ramo mais alto, aquele que ameaça deixar de apontar para cima com o peso dos rapazes, agarrados a ele com as pernas apertadas e as mãos envolvendo-o, como uma bruxa numa vassoura a concentrar-se para um lançamento na vertical em direção à lua. Uma menina não sobe às árvores, e fico cá em baixo à espera que regressem, para poder passar as mãos pelos cabelos do Zé Joaquim, à cata de pedaços de raminhos e folhas que ele colhe sem querer, naquele trepar às cegas, feito de fé e vontade, em que a cabeça vai à frente, desbravando, empurrando os pequenos ramos, obrigando-os a afastar-se, e sentir o cheiro a verde e madeira fresca que se solta dos cabelos dele. O que é que se vê lá de cima?, pergunto-lhes, mas os rapazes não estão para este tipo de conversa, ficam-se por onde até conseguiram chegar e uma vez alcançado o objetivo voltam com a mesma pressa com que subiram. Não fosse pelos odores e não saberia o que lhes ia na cabeça. O que é que vai na cabeça das pessoas? É assim que me entretenho, enquanto os fico a ver deambular lá por cima, a inventarem metas, ora para chegar ao ponto mais alto, ora para atingir o ramo que está mais afastado, aquele que para lá chegar obriga a fazer um x de pernas e braços. Uma menina não sobe às árvores, mas eu fiz um pacto secreto com uma laranjeira frondosa que chega para esconder duas ou três meninas. Subo-a com muito cuidado, colocando os pés nos troncos de madeira preta em direção a um ramo suficientemente alto para não ser notada por quem passa por baixo. Apenas uma vez fui mais acima, quando tive a certeza que ninguém estava a ver, tirei a cabeça para fora da copa, olhei em volta e não me recordo do que vi, imaginei sim que o meu corpo estava vestido com a copa da laranjeira, um lindo vestido de escamas carregadas de verde, em tons oscilantes ao vento, que me caía sobre os ombros até lá abaixo, ao chão, onde está a caldeira de terra molhada. Não sei o que vai na cabeça das pessoas, sento-me no meu ramo esperando que as oscilações da subida passem e tudo fique como se eu lá não estivesse, e então vejo passar os meus irmãos, primeiro um, e depois o outro à sua procura. Surpreendem-me as cabeças a andar sobre os ombros, de um lado para o outro. O que é que vai na cabeça das pessoas? Uma menina não sobe às árvores, diz o meu pai, porque uma menina não tira os pés do chão.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

As sandálias

Mãe, tenho os pés apertados. Empurro com força o dedão grande contra o branco da sandália, sentindo a unha incomodada, e vejo-o revelar-se acima da linha marcada pelos pontos da cosedura. Mãe, posso descalçar as sandálias. A mãe tem o irmãozinho a sair-lhe do peito, estirado para trás, expondo-lhe a cabeça descoberta, olhando para mim com a cara vermelha. A sandália branca contrasta com a tábua de madeira cheia de dentadas, que ladeia a base da pia batismal de pedra. O padrinho coloca-me as mãos nos ombros e sussurra-me aos ouvidos, agora está caladinha que depois comes uma broa de leite. Mas dói-me o pé, e não é só um, são os dois. E é toda só para ti, ouço muito baixinho, enquanto retiro os olhos do chão e dou com o Cristo na cruz a fitar-me desconsolado. Posso descalçar, insisto tão baixinho que se calhar ninguém ouviu, fixando o olhar nos pés pregados. Eu bem avisei a mãe, quando fomos a casa da Dona Josefa pedir os sapatos emprestados, estão apertados. Foi o senhor padre que disse, a menina Ivone até pode vir calçada com uns sapatinhos brancos, que a Dona Josefa é uma santa senhora que de certeza lhe pode arranjar uns sapatos da filha mais nova. Tem os pés um sobre o outro como se tivesse frio, os dedos do de cima abrigando os debaixo, e eu levo de novo os olhos às sandálias, à procura do fuzilhão que prende a correia à fivela, ainda não, ainda não está a fazer sair sangue. Está com sorte o menino José Joaquim, disse a Dona Josefa, o batismo ainda vai ser em latim, o padre Pedro já recebeu ordens para no próximo mês passar a dizer a missa em português. O pai explicou-lhe tudo bem explicado, José, do pai do menino Jesus, e Joaquim, do pai do José Joaquim. Mas vamos chamar-lhe José ou Joaquim, perguntei-lhe eu? Se calhar Zé Joaquim, que cá em casa eu já sou Joaquim e o teu irmão já é José. A correia também me magoa, atravessa de um lado ao outro sobre o dorso do pé apertado à frente e atrás, sufocando-lhe a rebelião. Muito bom homem o padre Pedro, por ele continuava a dizer a missa em latim, mas. Procuro os pés do padre, são pretos os sapatos, esborratados com o pó da ida ao cemitério para o enterro da Ti Dora, todos rodados, solas altas, como uns tamancos de cabedal, mas não ficam bem com a cor dos saiotes verdes que traz vestidos. Deve ser porque as vestes quase lhe chegam ao chão que não tem de trazer uns de outra cor. Já eu, estou toda de branco, as meias brancas até aos joelhos e o vestido branco, que a Dona Josefa leva estas coisas a sério, e se leva os sapatos porque não levar o vestidinho e as meias também. Lá em cima o Zé Joaquim começa a chorar quando a água lhe escorre pela cabeça. Eu aproveito para colocar um pé sobre o outro, sentindo o nó do fuzilhão na fivela pela força do peso, pressiono com mais força como se tentasse aliviar a dor. O padre Pedro diz qualquer coisa em latim, eu desequilibro-me e agarro-me às suas vestes obrigando-o a dar um passinho para o lado. Quietinha Ivone, diz o meu pai com a vela acesa ao lado da minha mãe. O padre Pedro interrompe o latim e passa-me a mão pela cabeça. Depois comes uma broa de leite, diz.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Nona Lição – O sentido da vida

Agora que já sabeis um pouco do que acontece ao longo do tubo digestivo, é o momento de refletir se tudo isto faz sentido. Dividem-se as teorias por duas ideias básicas, umas dizem que se come para viver e outras que se vive para comer. As primeiras embelezam o mundo de forma tão gigantesca e elaborada, que sobre o processo de comer, pouco se passa da entrada. É um mundo feito de chefes, que com os seus barretes e salamaleques transformaram o comer num festim de coquetes. Já os outros com a mania, de serem mais assertivos do que urbanos, dizem que a vida é o conjunto de manifestações em volta do tubo que liga a boca ao ânus. E vocês que gostais de ficar bem, e que ambicionais um dia vir a receber, de certeza que vos ficais pelos primeiros, que preferem nem tudo ver. Para isso existe a privacidade, não porque seja uma verdadeira necessidade, mas para permitir ao comum dos mortais vestir vestes vestais. Criam-se assim dois campos, que com ardor se digladiam, elevam-se uns nos mais refinados sabores enquanto acerca dos outros coscuvilham. Descrevem-lhes as entranhas com esmero, realçando-lhes os odores agrestes, enquanto se cobrem dos mais finos tecidos e se limpam com toalhetes. Já os outros, coitados, que se agarram aos factos como a lapa à rocha, dizem que somos todos iguais aos nossos pais fundacionais. Encontrareis entre estes, sacerdotes sacramentais, que depois de muito refletir, chegaram à conclusão da existência de uma espécie de união que justifica o existir. Alguns até se vestem de castanho, com uma corda à cintura, andam descalços e pretendem espalhar pelo mundo ternura. De porcos a tontos, dizem os primeiros, as coisas mais elevadas não podem brotar da observação dos pardieiros. Falar assim, dizem os segundos, não tem nada de perspicaz, mas revela a disposição para se distinguirem desdenhando conforme lhes apraz. E esta descrição, se fica bem em rima, e vos penetra que nem um trovão, pois é feita de opostos, ignora um aspeto, que não posso deixar sem tinta. Não consegue o nu o sustento, nem o vestido sobrevive sem ingerir o provimento. Reveste-se assim o mundo, de um maior cuidado, pois se assim não fosse nem seria necessário escrever este relato. É por isso que antes de pensardes tomar partido, quer pelos descalços, quer pelos em calçados, deveis estudar a digestão, e o que fazer desse conhecimento, é essa a lição desta lição. Podeis, sabendo do que são feitos os humanos, revestindo este tubo, manipular as vontades, alimentando-os de tudo. Aos vestidos proporcionai lugares, se possível os mais elevados, e aos descalços valores, que lhes encham os pratos. Vereis então, que qualquer que seja a opinião, e por muito forte que ela lhes esteja alicerçada, todos eles se orientam pela digestão, e de acordo com os vossos desejos se fazem à estrada. Ou então, como poucos, podeis do conhecimento não tirar proveito, a não ser a satisfação de vos recostares na cadeira depois de uma boa refeição. Fechei os olhos e desfrutai, com tamanho mistério, que do molusco mais sensível ao bicho mais infernal, todos se regalam de forma igual.

sábado, 11 de agosto de 2018

Oitava Lição – Obstipação

Para nos falar deste mal, objeto desta lição, damos a boas vindas ao Dr. do Vale, perito em obstipação. Esteve ele para ter outro nome, pensei antes em convidar o Dr. da Conceição, mas como a rima saiu trocada, o Dr. do Vale será o especialista de eleição. Bom dia meus meninos, fui chamado de emergência, para vos falar do que sei, pois suspeita-se, que depois da lição de ontem alguns de vós padeceis de uma maleita. Tendes os olhos um pouco baços, como quem tem uma aflição, receio que andeis a braços com um problema na digestão. Das consequências estou eu certo, e das causas posso adivinhar, que por causa do que ouvistes ontem, vos pusestes a cogitar. Tem disto a mente humana, perturba-se o fundamental, e por razões bem acessórias desnorteia-se o trato intestinal. E da minha experiência vos digo, que quando aos outros vos comparais, vos sentis injustiçados pela mãe natureza, que não vos deixa andar com passos normais. Muitas vezes sou chamado à barra, para por uma ordem no mundo, mas sempre digo, e repito, sou médico não sou advogado, posso curar mas não dou reparo. Mas percebo com empatia, as vossas razões, o que para uns é célere, para os outros está cheio de entraves e travões. E se tentardes descortinar, de longos processos vos irão falar, metros e metros de intestino que é necessário percorrer até chegar ao destino. Todo ele cheio de curvas e contracurvas, foi o caminho desenhado para o que tem olho e é experimentado. Por isso não desesperam, andam sempre folgados, se a coisa corre depressa, logo interpõem um logos e um cajado. E se a matéria desperta, entram em modo de exceção, convidam um matulão, um homem de leis bem engendrado, capaz de questionar uma digestão. Homem esperto e preparado, quando fala a uma multidão, explica-lhes que daqui ninguém sai, pois está tudo interligado. Gera-se depois um rebuliço, gases para um e o outro lado, correndo a multidão em alvoroço de encontro às paredes que colocaram de reforço. De tamanha confusão, nada se pode esperar, são horas e horas de discussão, onde não se sai do lugar. É assim o mundo, e eu sou um privilegiado, porque me posso sentar em cima desta maleta, que é uma excelente bancada para se observar a opereta. Nisso tem o médico vantagem, sobre os restantes arranjadores, não necessita de inventar nada, basta-lhe repor os humores. Por isso se insistis comigo, que quereis recorrer à justiça, o que vos posso aconselhar é que deveis comer mais hortaliça. Ainda que aqui talvez não tenha sido o caso, pois hoje em dia não há pai nem mãe, que não preste atenção a uma boa alimentação, com legumes e fruta a cada passo. Intimamente culpais, se assim o posso dizer, esse verme escorregadio que aqui vos veio everter. Se calhar achais que as coisas que ocorrem lá dentro, são reais são, mas é nefasto trazê-las cá para fora, que só fazem ebulição. E agora questionais essa vontade de aprender, tendes dúvidas se vale a pena procurar tudo saber. A lição que tenho para vos dar, uma vez compreendais de que percalços é feito o assimilar, é que o saber nunca ocupou lugar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Sétima Lição – A bicha-solitária

Bom dia, para mais um dia, bem-vindos a esta lição, na qual temos um convidado surpresa de quem todos já ouviram falar de antemão. Como não carece de apresentações, dou-lhe por isso já a palavra, que do que irá falar sabe ele de sobra. Bom dia, não é meu costume aceitar estes convites, e andar aqui por fora, pois por muito se afirme que não vivo nas melhores condições, é lá onde me sinto bem aprumado e disposto para todas as ações. Mas já estou acostumado, a ser muito aviltado, sendo bem sabedor que o próprio nome que me deram dava para escrever ao provedor. Pois então, onde é que já se viu tamanha incoerência, se sou solitária como posso ser bicha também, só se for na imaginação, que gente que assim fala, com certeza está tão mal informada, e que efabula com desdém. Também vós me olhais enojados, e não deve ser pelo meu aspeto, que é transparente como a límpida água, mas sobre o que ouvistes a meu respeito. Mas não vim aqui para tirar teimas, e eu próprio me surpreendo ao olhar-vos assim inteirinhos por fora, que tão diferentes sois por dentro. De certeza que hoje de manhã, depois do cocó, a vossa mãe vos disse para lavardes as mãos e irdes beber o leitinho, com um pão com manteiga, e talvez algum docinho. Como sei eu isto, perguntais-vos, pois mais sei eu, eu vos digo, que à hora do almoço deveis insistir no bife bem passado, que não gosta de concorrência quem já tem um negócio bem montado. Como vedes sou solitária de vocação e só bicha de cognome, mas como já tive oportunidade de vos chamar à atenção, o a final é da maldade do costume. Bom, bom, lá de novo me descaí, que nisso devo ser muito cuidadosa, pois no lugar onde vivo é mortal escorregar pela escada. Estou eu para aqui a falar, destas banalidades, mas é porque ainda não me sinto em mim, com o que aqui vi. Olha, olha, como vós sois, bem podia ter puxado pela carola, que nunca teria concebido serdes assim tão secos, e redondinhos por fora. Sei bem que passais a vida, toda numa lufa-lufa, mas lá dentro, ao fim do dia, tudo acaba nas mesmas moléculas agrupadas como uma uva. Como dizia o grande Voltaire, que tenho o atrevimento de citar, com o pouco francês que aprendi de um cozinheiro, que nem sequer uma estrela Michelin tinha, je vois près de chez moi Genève en feu avec des querelles pour rien, et je ri encore. Disse-me o vosso professor que, se possível, deveria haver uma lição na lição, e que se fosse eu capaz, uma deveria deixar, vinda de lá dentro, onde impera a escuridão. Talvez como resumo, posso ajuntar ao que já sabeis, que embora aqui sejam muitas as formas, lá dentro tudo se esmiúça e dissolve, e se de gostos me interrogais, mais não vos posso dizer, que aos critérios cá de fora, tudo lá chega muito sensaborão. Pelo menos é assim que eu interpreto o dito do iluminado Voltaire, que passou a vida toda cá fora, e de lá dentro pouco sabia, mas se calhar suspeitava que rir era o melhor remédio para a azia. Eu próprio o tomo, sempre que me chega um bife da vazia, armado em carapau de corrida e pronto para a refrega.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Sexta Lição – Comezaina de fartar

Desculpem-me, meus queridos meninos, se na última lição me tomei de algumas liberdades, mas é assim o estômago, quando cheio leva-nos à boca o que então nos parecem ser apenas verdades, e mais vos digo, se tentes um inimigo, enfardai-o, avinhai-o, e dai-lhe conversa até que lá dentro tudo comece a rebolar, duas voltas para um lado, outras duas para o outro, que depois lhe virá um torpor, uma bonomia, que de certeza o levará a uma ou duas pitadas de filosofia. E repousarão eles, descansados, que a natureza é um gigantesco paradoxo, a barriga repleta enche-os de paz, de acalmia, e já nada parece ser um disparate, levando-os a baixar a guarda, onde facilmente entra uma faca, disfarçada de conhaque. Para ajudar à digestão, diz-se, ironia das ironias. Mas façamo-nos à vida, que Roma e Pavia não se fizeram num dia, e a quinta lição foi um percalço de contemplação, e ainda tendes muito de aprender se alguma coisa quereis ser para além de crescer, por isso hoje vos venho falar, de um facto que é prenhe a todo o ser vivo, por grande e complexa que seja a porção ingerida, no fim, tudo se faz no bacio. E por muito estranho vos pareça, é tudo por causa de um amor universal, a uma meia dúzia de moléculas, bonitinhas, perfeitinhas, que de mãozinhas dadas rodopiam muito bem aprumadinhas, e se pensastes que nos comemos uns aos outros por gostar de seres vivos, estais tão enganados como os homens das cavernas, que pensavam incorporar a alma dos seres que comiam, e da digestão nada percebiam. Esta é a ciência da coisa, se alguém quereis comer, nada do engrandecer, como fazia o australopiteco, habituado a agradecer a refeição de cada dia, mas deveis apequenar, pois essa é a função da digestão, e se for necessário de todas as poções vos deveis apetrechar. Ah, vós, alunos mais preocupados e prestes em aprender, já deveis estar a ver do que vos vou falar. É do fígado, pois claro, e do pâncreas, também, essas duas fontes de humores capazes de fazer do ser mais completo um concentrado alimentar, tão simples e inofensivo, que até o padre mais santo é capaz de o tomar, como a pílula que alimenta o astronauta quando divaga pelo ar. Mas não digo que em pesadelos, não lhe venha um terror ao baixo ventre, e se imagine, como o australopiteco, com um todo indivisível em partes, debatendo-se na barriga. Por isso, para o bom trato intestinal, e evitar essa vozinha da consciência, temos esses dois entes segregadores que tratam de minimizar todo o escolho a bem da absorção. Aprendei mais uma vez meus meninos, uma regra de ouro, há neste mundo quem tenha muitos pruridos no que está disposto a ingerir, mas são também eles os melhores certificadores da moral alimentar. Levai-lhes por isso a comidinha, toda ela partidinha, se possível à francesa, num grande asado prato onde predomine o branco, assim, sentirão paz ainda antes do ingerido, que a pequenez do conteúdo de certeza os fará sorrir sem rezar, e o vazio das bordas sonhar com as imensidões do ar, então podeis ter a certeza que quando se virem estes santos homens a manjar logo outros se lhes ajuntarão e será uma comezaina de fartar.

domingo, 5 de agosto de 2018

Quinta Lição – Da natureza das coisas

Contactaram-me os vossos encarregados preocupados com a educação, dizem-me que os assuntos abordados são exagerados no que diz respeito à digestão. E que em apenas quatro lições já cobrimos mais matéria, do que aquela que é necessária para descrever com exatidão, o que passa na curta viagem da boca ao..., interrompi-os eu, que, para além da boca, pouco mais do que a garganta e o esófago cobrimos e que se já lá vão tantas lições é porque cada assunto obriga à exposição de um outro, ainda que não vos seja óbvio a ele estar aparentado. Mas insistem os encarregados que o importante é saber o que pode sair nas provas, que a função do educador é preparar para corretamente se responder à avaliação. Respondi-lhes eu, tentando sustentar, que aprender é algo que nos deve levar a mudar de lugar. Mas os vossos responsáveis insistem em saber se o que aqui se ensina tem valor a valer. Bem lhes disse que vos iria então falar de Lucrécio, pois outro não conheço cuja pedagogia tenha maior préstimo. Mas continuam em questionar se com o que aprendestes ireis vingar, porque na vida vos distinguireis com aquilo que vireis a assimilar. Deixei-os com as suas queixas, que com eles já nada há a fazer, assim apoquentados continuarão, que desbravar mentalidades tão bem articuladas não é a minha função. É a vocês que me dedico, em desespero de causa, que tendes a mente fresca e airosa, já que os encarregados vêm naturalmente munidos com único plano para o fruto da sua fornicação. Bem sei que é da natureza das coisas, mas como sou teimoso, como já ireis ver, não resisto em vos trazer hoje um assunto para o qual não se desvenda resposta certa. Lanço já aqui a pergunta, que nunca pensei a vir a fazer tão depressa na aprendizagem, mas sou empurrado pelo rio contra esta margem. Pergunto-vos então, o que acontece à digestão do bovino durante a longa, e aparente, letargia do ofídio? Quereis aventar uma resposta? Pois é, pois é, esse é o problema da aprendizagem toda focada na avaliação, apenas estais dispostos a compreender aquilo que tem solução. Ou, perguntando de forma mais prosaica, porque é que nunca indagamos a nossa digestão, ainda que questionemos a do cobrão? Ou intentando de uma terceira forma, a pergunta para a qual não há resposta precisa, porque é que digerimos os outros com satisfação e fugimos a sete pés da nossa própria dissolução? Aqui estão três diferentes questões para as quais há as mesmas respostas imprecisas, incorretas e amargosas. Mas não quero terminar sem uma lição vos dar, para que a quinta não fique sem lugar no panteão da recordação. Digere a cobra com igual regalo o bovino que regurgita a folhagem satisfeito pela textura tenra, verde e aguada, de sabores acres soltados pelo rasgar da sua língua ponteada, e andamos nós a alvitrar qual deles tem razão, ignorando que ambos terminam na mesma decomposição, e que se quereis entender a digestão tereis que estudar esses átomos básicos em que cada coisa se vai tornar, por isso vos digo, e repito, se for necessário, que não há estudo sem resposta como o da digestão.

domingo, 29 de julho de 2018

Quarta Lição – A digestão tout court

Aqui já fica o aviso, esta quarta lição bem pode vir a ser uma desilusão, onde predomine o imprevisto em vez do nunca visto. Íamos nós na anterior, esófago abaixo, em direção ao inferior, esfíncter de passagem, nó oculto de entrada para a câmara dilacerante, onde se espera o horror arrepiante, da corrosão. Mas não, desenhei eu esta lição, a bem da pedagogia, de forma diferente, em vez de vos perderdes no detalhe, quero que vos concentreis na grandeza da digestão. Imaginai pois uma cobra estirada, pelo chão, acabou de engolir uma vaca, toda de uma assentada. Está a pobre lá dentro, inteirinha, acabada de ser tragada sem ter sido alvo de uma única dentada, chupada até ao tutano, e, contudo, o ainda estar com a pele vestida é um espanto. Formulo pois a questão, como achais vós que irá a cobra proceder à assimilação de tão grande animal, e que lhe provoca tal má-formação, abaulada como está, irá chupá-la até ao osso, como diz o povo, ou macerá-la até à medula, como diz o químico, cuja opinião, nestes assuntos, é a mais abalizada. Ai, meu menino, não quero cá galhofa, pare de fazer essa cara à sua colega, não imita a refeição de uma jiboia simulando uma aflição de ventre, ainda que essa cara entediada, não seja de todo despropositada, pois tal é a enormidade da fruição que a cobra se desliga do exterior e só por dentro há ação. Era essa a pergunta, mas leio-vos nos olhos que andais a leste, por isso aqui vai uma pista, a ver se à sala regressais, ainda que cobra tão grande não se encontre aqui, mas é esta a dica que tenho para vós, o estômago da cobra é todo feito de piquinhos e pregas que como minúsculas línguas dão ao bicho uma grande esfrega. Pobre bovídeo, que vai ser tão falado, de certeza que o deixarão num estado que irá exacerbar a sua vocação para a ruminação. Como irá então o réptil rastejante processar o vacum possante? Então, não ouço nada dos vossos lábios, nem um assomo de resposta, que se passa convosco, e se continuo a ajudar lá vai a pedagogia pelo ar. Então, imaginem a vaca ali imobilizada e todas aquelas línguas em consonância a penteá-la para um lado, e depois, se não fica bem no retrato, para o oposto, e nesta ênfase de lhe tirar a fotografia, se for necessário, até lhe fazem a marrafinha. Com um salto de heureca, que faz abanar as carteiras, um menino emocionado, exclama, é o que diz a minha mãe, são as... ai, meu menino, iluminado, bem pode ir dizer uma verdade, mas não é assim que o rastejante consome o gigantesco bicho aprisionado. Mas insiste o miúdo, eu sei, eu sei, que a minha mãe tem razão, ainda que o meu pai lhe diga, cala-te mulher que ainda acabas nessas línguas bifurcadas. Mas, riposta a minha mãe, que não é mulher que se cale, eu falo com essas... ai, meu menino, mais uma vez não, tenha tento na língua, que estamos na lição, pois é professor, é bem capaz de ser verdade, a cara que o meu pai faz é de silêncio, mas tem compreensão e amor. Ah, afinal chegamos a bom porto, tem disto a docência, se deixarmos fluir os assuntos, logo surge matéria que ajuda à conclusão. O que o bom marido insinuou à doce esposa é que não vale a pena interpelar o ofídio durante a digestão.

sábado, 21 de julho de 2018

Terceira Lição – A dança dos contabilistas

Depois da segunda lição vem a terceira, não há que enganar, na narração desta viagem, até ao final, o dobrar de muitos esfíncteres ireis testemunhar. Pois, meus meninos, espero eu, de vós a máxima correção, uma vez que, por cada erro que no futuro vireis a dar, serei eu o patrono da vossa desatenção. Mas vamos ao corpo do tema de hoje, todo ele feito de safanões, que quer se queira, sim ou não, agora que se passou a epiglote, nada mais se lhe pode desejar que muita, muita, sorte. Os movimentos são todos peristálticos, levando a comida amarfalhada, quer se faça o pino, sim ou não, em direção ao esfíncter esofágico inferior, nome comprido e anunciador de infortúnios, por onde muitas vezes escapa um ardor, uma azia, um fedor, que nos faz recuar importunados. Mas, coitados dos que já lá estão, que num único sentido vão, em direção ao desconhecido, que tudo o que por aí passou quase nunca regressou, a não ser azedo e indigno. Por isso de nada nos serve o que pudesse contar, uma vez que vem possuído por um ácido que nos leva a duvidar de ali viver aquele que ainda não há muito apreciámos. E, vamos então ao cerne da lição, da mais profunda humanidade, que vos descreve como este bicho se entretém, cantando e dançando, quando se aproxima da infelicidade. Estranho comportamento esse, mas uma vez que já vão todos no mesmo barco, esquecem até como foram recrutados, e o que deixaram antes de ingressarem no mar alto, ovas, crias, cópulas, e agora, filhos desta aflição, matraqueiam com os pés o chão, enquanto vão rodopiando em direção ao desalumiado. Eis, pois, o que tendes de aprender, se quereis ser líderes, senhores, capazes de traçar destinos, que no mundo andam apenas dois seres, os que determinam e os determinados. Prestai, pois, a máxima atenção, que o que agora vou dizer é fundamental, então não é que em vez de questionarem a sua missão, para a qual foram astutamente alistados, vestem com redobrada emoção a useira roupagem, e prometem continuada vassalagem. É amor, só pode ser, até vós exclamais senhores, com que perfeição fez Deus a sua obra, que tudo aquilo que lhe vestimos lhe assenta com primor. E da dança apenas posso dizer, que graças a Deus que não são escoceses, pois seria muito atrevimento agitar assim os penduricalhos. De braços entendidos, fazem tudo certinho, no convés da embarcação, assim foram ensinados, estes marinheiros dos três costados. Um dois três, e repete, um dois três, que tudo somado já é um número bem salgado. Quero isto muito bem contado, que não há dança sem marcação, cada passo bem ensaiado, que à vista do estertor, enchem-se de furor os finados a bem de seu patrão. Portanto aprendei meus meninos, mais esta lição, que eu não duro sempre, basta financiares a embarcação que do resto trata a corrente. Dancem, dancem, em direção à ligeira rugosidade, que ela logo se abrirá e vos revelará o que ireis aprender na próxima lição. Esta por aqui fica singela, que de viagem apenas se tratou, comprimida certamente, ao sabor da tremenda torrente, atentai, portanto, que basta montar casa a amante para terdes um segundo lar.

sábado, 14 de julho de 2018

Segunda Lição – Custa a engolir

Meus queridos meninos bem-vindos à segunda lição, que da primeira com certeza vos recordais com emoção, e deveis agora continuar com toda a vossa aplicação. Não é fácil o que vos tenho a dizer, por isso tereis que decorar, sei que sois da escola dos que gostam de entender, mas o que vos tenho a ensinar não é fácil de assimilar. Diz-se na minha terra que ainda tereis que comer muito feijão até lá chegar, e que o saber não se faz apenas de estudar. Sim, sim, eu sei, não fica bem a um professor isto dizer, mas o que é que havemos nós de fazer se não podeis entender. Deixemo-nos de preâmbulos e vamos já ao cerne da lição, que explanar depois tim-tim por tim-tim será a minha segunda missão. Sumariza-se muito bem assim o que vos tenho a ministrar, a consciência é disfuncional, sofre de dislexia, onde por vezes devia estar o tempo de um verbo entra outro à revelia. Vejo bem pela vossa cara que não estais a perceber patavina, fechai por isso os olhos e repeti comigo, a consciência é disfuncional, sofre de asfixia, onde por vezes devia passar o tempo de um verbo entrava-se outro à revelia. Ai, ai, ai, que desafinação que por aí vai, assim não conseguireis obter a aprovação, repeti, pois, mais uma vez, a consciência é disfuncional, sofre com a tirania, onde por vezes reina o tempo de um verbo grita outro à revelia. Que desânimo que desinteresse, já trazeis os olhos por tetos e paredes, olhai para mim meninos, onde está essa sede de aprender, até parece que vos custa a engolir. Ah, ah, agora sim, consegui a vossa atenção, o que vos acabei de dizer, percebeis vós bem com o coração. Come a sopa que te faz bem, já chega de mastigar, não gostas? vá, fecha os olhos, engole, e não quero cá mais conversa. Essa é que é essa, meus meninos, toda a gente engole, e não anda cá com desvarios, engole o rei e a rainha, e até engole a concubina, engole mesmo o imperador, esse rei de reis de olho esbugalhado, que anda no mar sem saber que até cardeal pode ser. E assim, vos digo, porque não haveríeis vós de também engolir? Bem podeis alegar que de peixe não gostais, ou então, pela mesma razão, que tanto o estimais que nenhum mal lhe ousais. Conversas, digo-vos eu sem delongas, vem-vos esse arrependimento, já depois de o terdes saboreado. Mas não penseis que o mal está em vós, nem sequer no que acabaste de deglutir, o mal está na garganta, esse órgão da consciência. Na garganta?, logo havia de durante a lição o professor ensandecer, todos sabem que a consciência está no cérebro ou no coração, conforme a doutrina, mas nunca na garganta, cuja função é de passagem e repentina. Bem dizia meus meninos que o melhor seria decorar, repeti, pois, outra vez comigo, a consciência é disfuncional, sofre da epiglote, onde por vezes devia passar o ar passa a comida a trote. Engasgais-vos, eu sei, e por isso ganhastes medo de engolir, pobre do peixe, coitado, sentis dó agora dele, mas só depois de o terdes mastigado. E para terminar esta lição, já que bem tenho que me apressar, pois está quase na hora do toque, mas não posso finalizar sem vincar algo que também vem mesmo a remoque, quem te manda engolir ama-te. Repeti comigo.

sábado, 7 de julho de 2018

Primeira Lição – Pela boca morre o peixe

Sendo peixe, prefiro-o grelhado, tostadinho, mas não demasiado seco, não, que gosto de lhe meter a faca junto à espinha e fazer-lhe saltar as carnes baforentas, que o danado já não perneia escorregadio, mas ajeita-se côncavo ao olhar, atiçando-nos com uma ponta de superfície, fumegante, branca e entreaberta, enquanto o resto se alonga para baixo, em direção ao corpo esparramado no prato, enlevado por duas ou três batatinhas reboliças, aperaltadas por umas flores de brócolos. Um peixe com os vapores, sim. Bem que o escuto, coitado, que agora que se vê em prato limpo, dá-se ares de alguma importância e tuteia-me, a mim, que o encaro com garfo e faca na mão, mais em posse de ourives do que com disposição guerreira. Eh pá, já viste, diz-me naturalmente, sem desaforo, mas com o à vontade de quem bebeu um ou dois copos de vinho, deste branco fresco com que eu próprio já espevitei as papilas gustativas, em curta dose, é claro, e apenas como um pequeno introito ao grande espetáculo que se avizinha. E podeis ter a certeza que lá por dentro todo o bicho se espevita, tocam tambores, correrias, da boca ao ânus é um ver se te avias. Mas porque não fica ele caladinho?, penso eu para comigo, que disfrute do leito e não se ponha a alvitrar, e eu que até sou amigo, ainda lhe dou um ou dois toques, quando diz algum dislate, com os olhos lhe faço notar que o que vem da sua boca é tudo para contar. Mas, não, não se cala, e quanto mais o como mais ele se empolga. Meto-o por isso na boca, na língua é fofinho, e ele dócil, dócil, deixa-se todo enlambuzar com saliva antes de o mastigar. Ah, como se rebola, gostoso, quase dente não é preciso, basta apertá-lo ao céu da boca para se fazer deglutido. E aí ainda me diz mais uma ou duas, que eu não quero acreditar, que ser tão sensível, tão ingénuo, vivia com certeza no fundo do mar. Mas aqui vos digo meus amigos, que o melhor que ele tem é o coração, bom, bom, como aquele é bem difícil de encontrar. Como se afeiçoa a mim, nesta hora da refeição, todo ele delicadeza, mas a verdade é esta, e bem dura ela é, coração como aquele não quero eu tragar, fica com as tripas a um canto do prato, negras, escorridas e feias ao olhar. É destes segredos feito o mundo, vai a alma para a boca mas não nos agrada ao paladar. Estou seguro que já sabeis, pois tendes ar de estudar, que na boca se forma o bolo alimentar, essa bola saborosa em que um outro ser se deixa amassar. Pois é, é assim, pudéssemos nós ao nascer, como ao comprar a pastilha, poder escolher o sabor com que por cá devêramos andar. E dois juízos seriam necessários, gostaríamos de ser agradáveis e deliciosos, ou trombudos e amargos, qual das vidas preferiríamos para nos apresentar. Olha ali vai fulano, uma doçura de pessoa, e ali sicrano, que não é flor de se cheirar. Espero não vos desiludir, mas a verdade é esta, qualquer que seja o sabor com que vos inteirais alguém se vos irá papar. Mas a grande questão aqui fica, se se tem um coração tão bom, porque é que ele não gosta ao paladar?, esta é a lição, meus meninos, que para a vida deveis levar.

domingo, 1 de julho de 2018

Intestinto – Alvares

Há palavras que nos vêm à cabeça, palavras desacertadas, é certo, mas quando nos apercebermos da sua erradez já nos afeiçoámos tanto a elas que não conseguimos arranjar-lhes substitutas. Bem que procuramos no dicionário, para a frente e para trás, como quem vai swipando caras no tinder, para a direita e para a esquerda, mas a mesma insatisfação, e apenas digo isto para colocar um toquezinho de moral, o que também tem o seu charme, e ficará bem em qualquer perfil, como o sal na comida, nem muito, nem pouco, mas adiante, lemos-lhes o retrato, tintim por tintim, popas surfistas, fofas milus, bustos sorridentes, dentes, muitos dentes, a não ser que se prefira o estilo coolado, daqueles que deixam uma pessoa grudada, e aí vai-se bem com uns óculos escuros, à aviador, a posse que certamente tomará o primeiro robô verdadeiramente inteligente, como um adolescente apresentando a sua candidatura à idade adulta, que o primeiro direito inalienável do dono de sua própria carne, e osso, é levantar voo, muita coolado, para pente, tão a ver, as já supracitadas popas, mas confesso-vos que isto é tudo um pouco intestinto, pelo menos é o que pareceu ao Alvares após a conversa do Tavares e da sua máquina diabólica, quando ficou sem eira nem beira, a máquina bem lhe trazia algo à memória, mas não sabia bem o quê, era algo de intestinto. Sim, foi essa a palavra que se lhe fixou na cabeça, e não houve entrada no grande livro das palavras tabeladas que lhe enchesse as medidas, intestinto como o universo, pensou o Alvares. Uma máquina verdadeiramente orgíaca, capaz de reduzir tudo ao mínimo denominador comum, mas como?, interroga-se o Alvares. Do resultado está ele satisfeito, claro que não sem um certo sabor amargo, intestinto, se quisermos ser mais precisos, pois é possível olhar para o mecanismo de duas formas completamente distintas, a primeira é de ordem puramente prática, imediata e contendo os resultados satisfatórios atempadamente realçados pelo Tavares, ou mais prosaicamente, eh pá, deixa estar, não te preocupes, tudo o que o Romeu lá meter nós encarregamo-nos de transformar em merda, pois é, lembrou-se o Alvares, já ouvi uma anedota sobre isso, até acho que tinha uma moral, ora aí está, a outra ótica, a que atormenta o Alvares, o técnico de imagem, a de ordem teórica, é essa mania que a moral tem em se soberanizar, eh pá, é assim, pá, já diria, o Tavares, foi azar, não correu como esperávamos e foi tudo pelo cano abaixo, e antes tu do que eu, já sabes como é, itchmeneforimeselfe, mas regozija-te, pelo menos ficou provado que a máquina existe, é fenomenal, não é conjuntural, não andámos para aqui enganados, erámos nós ou eram eles, essa é que é essa, seria estúpido ignorar a realidade, e se existe tem apenas que ser estudada, essa é a missão do ser inteligente, deixarmo-nos de merdas, Alvares, estudar, estudar, perceber os seus mais recônditos mecanismos para depois nos alavancarmos a manobrar a besta, pôr-lhe as mãos em cima, e depois quem tem unhas tem unhas quem tem dentes tem dentes, já reparaste que no tinder é mais dentes e menos unhas, ridículo, meu caro Alvares.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Uma máquina muito bem oleada – Tavares

Ah, a vossa curiosidade de saber o que disse o Romeu. E achais que continuando a ler vireis a saber. Que por muito que me coíba, mais tarde ou mais cedo, mas de preferência mais cedo, vá lá, não custa nada, aqui será colocado preto no branco. Pois, não sei não, não sei, com certeza, o que foi dito ao estilo da tia-avó Roberta. Como não o escrevi no momento certo, passou-se-me, e o pudor tem este duplo efeito, apaga do instante e, se for verdadeiramente intenso, apaga mesmo da memória, e agora, se o Romeu não voltar a repetir, não sei não. Mas o que, sim, vos posso dizer, foi o que o Tavares confidenciou ao Alvares, quando este regressou do pequeno almoço, um pouco hesitante, incomodado do que ouviu do Romeu, que o colocava numa posição desagradável, balouçante, onde não se tinha imaginado, evidenciando sinais de querer desistir, abandonar o barco, o que acendeu logo uma luz vermelha no Tavares, para quem numa guerra o bem mais forte é o moral das suas tropas, dizia mesmo, ao inimigo a convenção de Genebra!, mas para manter a unidade das nossas forças vale tudo!, é a guerra é a guerra, é a guerra psicológica, pelo que logo asseverou, para tranquilizar o Alvares e o re-encasquetar do seu espírito de missão, tem calma Alvares, vai tudo correr bem, que isto é uma máquina muito bem oleada, uma vez posta em marcha não há quem a pare. Ora, essa é que é essa, e cabe a este vosso humilde narrador, a tarefa de iniciar a descrição de tal máquina na síntese possível de como o Tavares a enalteceu, obra de génio, aporte de várias engenharias, da mecânica, obviamente, mas também da social. Pois é. Imaginem, antes de mais, um esguia boca de tubos, que se desembocam num alambique, como uma adorável balzaquiana de voz suave e ancas matreiras, onde os mais puros sucos da sedução se esgueiram através de um emaranhado de canais que se encaracolam para cima e para baixo, tentando, devido a restrições logísticas associadas à sua instalação, conter no menor espaço a maior extensão possível, por forma a que nele se produza o produto por fases. Uma outra caraterística, é a utilização de uma técnica chamada de incirculamento, e perdoai-me a inexistência da palavra, mas esta é uma luta constante com os termos, na qual cabe aos tubos mais grossos, aqueles por onde os resultados já passam no seu estado quase final, de fazer isso mesmo, incircular, lá está, os outros, mais especializados, e de algum modo mais suscetíveis, pois na engenharia, tal como nos seres vivos, o trabalho especializado é obra dos elementos mais sensíveis, mais tentados à interrogação. Deveis estar a pensar, mas o que tem de extraordinário esta máquina? Não está o universo pejado dos mais diversos artefatos, cada um com a sua função?, cada um com a sua forma?. E foi exatamente essa a questão levantada pelo Alvares. E a resposta foi-lhe muito bem dada pelo Tavares, meu caro Alvares, o que esta máquina tem de único, é que qualquer que seja o que lá introduzires, o resultado é sempre o mesmo, e confirmou a marosca com um piscar de olho ao Alvares que o sentiu como uma luz verde, de alívio.

domingo, 24 de junho de 2018

Poetisa – Susana

A Susana tem jeito para as palavras. Pega numa folha de papel e vai escrevendo uma a uma, de seguidinha, e, então, para, relê o que escreveu e começa a experimentar, trocando aqui, acrescentando acolá. E há palavras que encaixam muito bem, que parecem estar fadadas para o seu lugar. Estão lá na perfeição. Não no princípio. Da plenitude só se dirá mais tarde, quando elas até já tiverem perdido algum do seu brilho, quando pelo convívio se tenham tornado um pouco como as outras, tenham ido às mesmas festas, partilhado as mesmas companhias, procriado, quiçá, gerando palavrinhas, iniciando uma nova linhagem, uma escola própria, de plagiadores perfeccionistas, que por um dedicado trabalho de polimento definam as regras de um estilo. E não está mal, concordo, também a Susana se delicia a ler os bons espécimes, enquanto interiormente desmonta os princípios com uma precisão matemática, sorrindo, pressentindo como encaixam, por vezes sendo mesmo capaz de antever a próxima, perfilhada, certinha, mas depois chega-lhe um aborrecimento, uma náusea, e diz, foda-se, atira o livro para o chão, e sai a correr de casa, deixando a porta aberta, como quem não tem intenção de voltar. As palavras para que a Susana tem jeito, no princípio são estranhas, ficando mesmo ridículas naquela posição, naquela posição?, nem pensar!, não foram feitas para ali!, é da consonância geral, e as outras, claro, olham-nas desconfortáveis, como se elas tivessem mau cheiro, quem fez este alinhamento, perguntam, que estão elas aqui a fazer, quem as deixou entrar, e gera-se um mal-estar, pressente-se um sentimento de contágio, intranquilidade, que começa por ameaçar as mais frágeis, provocando-lhes arrebates, arfares de peito sob o espartilho, a que as mais conservadoras estão alerta, interpondo um jogo de interpretações que faça regressar a calma à frase, evitando que se faça deslizar os fios de seda pelos ilhós, trazendo cá para fora seios cheios, ansiosos de exposição. Não como os da Susana, que se conseguem esconder na palma da mão, e quando digo palma não digo mão, não sendo os dedos para aqui chamados. Talvez por isso a Susana não seja dada a oscilações do peito, e é com aparente indiferença que intromete as palavras, com uma emoção gelada, filha de um susto, daqueles que provocam arrepios de cima a baixo, paralisam. Ah, Susana. O próprio Afonso lhe disse uma vez, não sem uma ponta de ciúme, tu às vezes pareces possuída pelas palavras. E ele nem sabe bem do que está a falar, como um idiota à porta de um palácio, percebe a grandeza do que tem pela frente, mas não se atreve a entrar. A própria Susana sente que por vezes o Afonso não encaixa bem, mas é realmente difícil comparar quando a droga se intromete com o sexo, nos prazeres não há uma verdadeira soma, a não ser na ressaca, por isso o trouxe para o seu quarto, comprou as doses de heroína, intercalando-as com o sexo, buscando êxtases das ereções e alívios dos chutos, procurando formar frases onde algumas palavras fossem surpreendentes, ainda que fosse por uns instantes, e antes de se tornarem useiras e ter de atirar o livro ao chão.

domingo, 17 de junho de 2018

SIDA – Armindo

Consigo imaginar a anuência escorregadia com que morre um cristão, ou a insubmissão húmida com que morre um ateu, porque já por alguma vez me imaginei algum deles, mas como morre um maciço como o Armindo, uma estrutura óssea imponente, bem estufada de carnes trabalhadas, é para mim um mistério. Em particular se a morte não tem uma causa substantiva, de um peso semelhante, palpável, exterior, uma morte de que nos pudessem dizer, olha, o Armindo morreu, foi atropelado por um camião, não morreu logo, ainda esteve três dias em coma no hospital, perdeu o queixo quando foi de rastos pelo alcatrão, mas quando o visitei encontrei o seu corpo todo, tombado, é certo, mas era o Armindo, os braços moldados alinhados fora dos lençóis, com os dedo grossos onde costumava colocar os anéis. Agora, se o mal vem do interior, como uma térmita que corrói um edifício por dentro, pela calada, instalando-se lá, tornando-o oco, até que chega o momento em que não passa de uma majestosa figura de chocolate, uma figura de si mesmo, frágil ao contacto, onde facilmente se faz mossa, começando a ficar ridículo com as suas mazelas, vulnerável ao toque dos dedos, desfigurando-o de encontro ao vazio interior, ganhando um aspeto chupado, atrofiado, deixando de parecer o Armindo, então pergunto-me, o que é que está a acontecer ao Armindo, que merda de morte é esta, este retrocesso, este amesquinhamento, e por que não adopta ele uma posição, um ponto de vista em que se apoiar, por que não mostra a resignação de quem vai partir e junta os amigos à sua volta, imensos, como num funeral, ou então a revolta de quem não aceita e solta um brado aos céus, fodeste-me, mas para a próxima vais ver, uma blasfémia que está na base da ciência, mas nada, está tão calado como o bicho que o escava, mingua. Vou visitando-o ao longo dos dias, em cada um deles levo um Armindo e trago outro, menor, menos igual ao anterior, e aflige-me não se afligir. Por isso resolvo carregar um fardo que não é meu e monto uma tenda ao lado da sua cama, uma grande tenda de circo onde interiormente presencio as mais variadas palhaçadas, malabarismos, números com animais e fogo, tudo junto, números de que não consigo perceber o princípio nem o fim, em zapping, e enquanto o Armindo continua impávido, esvaziando-se lentamente como um boneco de borracha, eu, por dentro, entrego-me aos mais desmesurados assombramentos, cheios de risos aparvalhados, fedor de animais submissos que se oferecem ao gosto do chicote, belos trapezistas, cruzando o céu debaixo do toldo em encaracolados mortais, em sequência, e quando colocam solidamente os pés de regresso à base o público, constituído apenas por belos Adónis, solta uma exultação orgásmica cá em baixo, imagino também os palhaços enxovalhando-se, pregando-se partidas, rindo-se na cara uns dos outros, exageradas caras brancas e vermelhas, ninguém ri assim, pode dizer quem está junto da morte, mas eu, Humberto, é assim que estou junto à cama até que um dia olho e está vazia, o Armindo desapareceu, não existe, já não chupa um caralho.

domingo, 10 de junho de 2018

Riff – Gonçalo

Na primeira vez há sempre algum risco, mas quem não arrisca na primeira arrisca-se a não arriscar nunca, essa é que é essa. Como num concerto, no palco, com as caras cheias de euforia lá em baixo, braços no ar, estendidos, de dedos esticados, bocas estiradas em prolongados ais, e os músicos perfilados em silêncio. Começa-se, então, com um riff de guitarra, devagar, quase a medo, com tudo o mais ausente, talvez se sinta o agitar do coração do baterista a oxigenar por entre a catedral de pratos, pedais e tambores, com a pulsação a chegar às baquetas que pressentem o cheiro a adrenalina, enquanto o público se silencia de pescoço estendido como grandes lagartos alongando-se lentamente em direção a uma presa, acariciando com as línguas compridas o fio de notas que vai passando em fila indiana, bem comportadas, como um grupo de bailarinos cadenciando uma sequência de passos, e vão eles lambendo o ar à volta delas, uma a uma, sentindo-lhes a harmonia, um monstro com gostos gourmet, diria. Depois, repentinamente, desaba uma trovada tropical, com os pratos a relampejar exaltando de vibrações de luz o espaço, tornando-o descontínuo, fragmentário, pelo que os lagartos aproveitam para se atirar ao ar efetuando mirabolantes acrobacias nos pequenos cubos luminosos que julgam a eles ser destinados, talvez com reminiscências de teletransporte do Star Trek, cubos arrancados do chão pelo baixo, tornados translúcidos pelas guitarras, enquanto sobre o palco o vocalista pronuncia uma ou duas ininteligíveis palavras que os lagartos repetem entrelaçando as línguas e girando uns sobre os outros, aos dois e aos três de cada vez, como multi-pontiagudos dardos. E é o Gonçalo que está lá em cima. Sim o Gonçalo Aires, com a cabeça de cabelos desgrenhados, pretos, tronco nu, o peito escuro mas quase totalmente rapado, não fosse por alguns pelos apenas, por alturas dos mamilos, ponteando-os, pequenos repuxos de um jardim barroco rodeando um minúsculo tanque onde habita uma franzina planta aquática, como o Gonçalo ele todo, ossos jovens sobre carne jovem e pele sedosa, sustendo-se com as mãos sobre os pulsos, com a Ivone por baixo, com a garganta em v, atirada para cima, trazendo um arrasto de cabelos, como o véu de uma noiva, rendilhado, deixando uma mancha de clara de ovo, estrelado, por onde irrompem os olhos de Ivone, a boca, a língua, esticada, a cheirar o ar em volta, devagar Gonçalo, consegue dizer sem esconder a língua, projeta mais o pescoço, atirando os olhos lá para trás, onde as mão empurram a parede, provocando uma vibração nos seios que teima em não desaparecer, os mamilos nitidamente maiores que os de Gonçalo, provavelmente com outras ambições, se desmedidas apenas o tempo o dirá, rápido agora Gonçalo, dos cabelos desengancham-se línguas dardejantes, projetando-se em direção às paredes, ricocheteando, entrelaçando-se e deslaçando-se extenuadas no chão, as dos cabelos do Gonçalo encaracoladas, saem como bumerangues procurando trazer de volta as de Ivone, dobradas, rendidas, agora um riff apenas, Gonçalo.

sábado, 9 de junho de 2018

Inferno – Romeu

Anda Romeu azucrinado com dois diabinhos, um em cada ouvido, que à competição, como num fado à desgarrada, vão declamando das suas razões. Nunca os viu, e bem pode virar a cabeça de repente, procurando pôr os olhos onde antes estavam as orelhas, que nem um rabinho lhes avista. Mas que lá estão lá estão, e de uma outra coisa está Romeu certo, um parece ser bom e o outro mau. O bom perfilha a cartilha humanista, pois no seu julgamento a condição humana vem sempre à baila. Já o mau é egoísta e pensa apenas nele, que, neste caso, tratando-se de diabinhos conselheiros, é no Romeu, o que faz com que mesmo sendo um diabinho mau não seja mau de todo. Mas vamos ao que interessa, L’Ancien Régime, a novela interrompida, a enorme injustiça de que se sente vítima Romeu, e agora o esforço colocado na escrita de uma segunda parte, Mistério, com esperança que venha a despertar o interesse dos produtores, mas que continua enguiçada e ameaça nunca vir a sair do papel. E nada melhor para perceber o quanto azoado anda Romeu com estes dois diabinhos do que vos descrever o que aconteceu num pequeno almoço, em que o Alvares, o técnico de imagem, aparecendo como que vindo do nada, puxa à conversa um suposto comentário do Tavares sobre a putativa sequela, mistério, disse ele, Alvares, sobre o que teria dito o outro, Tavares, quando leu o manuscrito, mas isto é uma aventura ou um mistério, nós estamos com atenção, terá assinalado o Tavares. O diabinho mau, que mais parece um garoto com bichos-carpinteiros, ainda não tinha o Alvares terminado e já estava a invetivar o Romeu, este tipo vem à pesca, dá-lhe de comer, vai ficar dececionado se não levar nada para casa. Já diabinho bom procura colocar água na fervura, contrabalançando, diz, repara como ele está em sofrimento, coitado, fala, é verdade, mas não consegue disfarçar a tristeza nos olhos, não nasceu para ser mau. Mau, claro que não, repreende-o o diabinho da mesma qualidade, achas que se fosse mau o mandariam vir aqui, a maldade tresanda a enxofre e este ainda cheira a Johnson, diz com desdém. Estás a ver, até ele concorda que ele não é mau tipo, aproveita o diabinho antónimo, vem de certeza imbuído de um motivo nobre. Eh, eh, ri com escarninho o diabinho antónimo do antónimo, queres ver que ainda vai para o céu. E porque não? Cai na ratoeira o diabinho oposto. Eh, eh, insiste, o oposto do oposto, tal coisa não existe, vão todos para o inferno, a única diferença é que os maus ficam na gestão. Não lhe prestes atenção Romeu, esse filho ilegítimo de Satanás não acredita em nada, se tratares bem o Alvares vais ver que ele irá reconhecer e estimar-te. Qual quê, exclama o outro, se lhe deres o que quer irá de volta convencido da sua nobre missão, e então repararás como a tristeza inicial se transformará num alívio ético, espólio da vitória, senão ficará revoltado com o seu desaire e podes ter a certeza que se sentará à mesa do teu próximo pequeno almoço com redobrada raiva. O Romeu, talvez pela convivência com a sua tia-avó Roberta, não se contém e exclama o que a falta de espaço e o pudor me impedem de escrever.

sábado, 2 de junho de 2018

Oblívio – Zé

Um sistema de posições meticulosamente desenhadas num contínuo, onde a variação de um milímetro conta, numa prova irrefutável que entre quaisquer dois pontos existe uma infinidade de outros, prontos para a aproximação, prontos para revelarem o abismo entre eles, sugerirem coisas incontáveis, inarráveis em poucas palavras, por mais que nos precipitemos sobre elas com frases sintaticamente corretas, que a semântica não vai lá com gramáticas, frases maravilhosamente blindadas, das quais pensamos, não falta ali nada, nem um de, nem um a, nem um o, nem um da, nem mesmo um e, nada, como os dentes cerrados que rasgam o fio dental, como uma criança se recusa a obedecer, se fecha sobre si própria, protegendo-se, crescendo, entrando na fase em que se cimentam as paredes, se tapam as rachas entre os tijolos, se coloca maquilhagem sobre a cara, negando a existência do umbigo, essa reentrância que se retorce sobre si mesma, em espiral, por onde enfiamos a língua, à procura de um ponto, de um choque original, e vamos entretanto acomodando os olhos ao gigantesco pequeno, com o nariz para ali enfiado, como a câmara de um drone planando sobre as crateras formadas pelos poros, num contínuo, que aqui ora se estende, ora encolhe, longas planuras alvas onde andamos perdidos, sem um ponto de referência, para frente e para trás, como autistas no desempenho de uma tarefa, estendendo a língua idiota, lambendo, molhando, balbuciando com o infinito, um mantra, dizem os mais letrados justificando os movimentos repetitivos da nuca, não interessa, um muro de lamentações sobre o ventre liso, bamboleante como um rede acrobática, para onde atiramos o rosto, inspirando inspirados, pois para além dos olhos só o nariz está desperto, aprecia o trabalho da língua, não a traidora que cospe belas palavras, as que nos trouxeram aqui, a esta cama, não, aquela que humedece, que faz exaltar os odores, e vamos sentindo todo o seu espetro enquanto a cabeça vai e vem, e o nariz sempre atento não quer perder pitada, que agora até já os olhos se turvam, é assim em todas as celebrações, chamam-lhe o estado de transe, atinge-se uma forma de amnésia, esquecem-se as posição há tanto tempo desenhadas, fruto de num trabalho persistente, minucioso, como uma estrutura algébrica, com um fecho qualquer, feito do saber de séculos acumulados, mas é esse o culminar de toda a obra, quando se incrusta no leitor, perde-se a necessidade do seu suporte em papel, entra pelos corpos a dentro e já podemos mandar queimar os livros, não interessa, e depois, claro, a penetração, um ritual próprio, capaz das encenações mais grandiosas, às vezes, outras, parece mais um sussurro, um pedido de desculpa, implorado, entre o anteceder de um grande segredo e a revelação mais banal, despertando uma curiosidade puramente sintática, facial, prega-se no cérebro, lá bem atrás, onde as máquinas de inferência não chegam, salvaguardada, protegida, junto a outras, por categorizar, e a coisa prossegue, como costuma ser, e quando o Zé quer fazer acompanhar o transvasamento de um nome, esquece-se de qual é, oblívio.