domingo, 29 de julho de 2018

Quarta Lição – A digestão tout court

Aqui já fica o aviso, esta quarta lição bem pode vir a ser uma desilusão, onde predomine o imprevisto em vez do nunca visto. Íamos nós na anterior, esófago abaixo, em direção ao inferior, esfíncter de passagem, nó oculto de entrada para a câmara dilacerante, onde se espera o horror arrepiante, da corrosão. Mas não, desenhei eu esta lição, a bem da pedagogia, de forma diferente, em vez de vos perderdes no detalhe, quero que vos concentreis na grandeza da digestão. Imaginai pois uma cobra estirada, pelo chão, acabou de engolir uma vaca, toda de uma assentada. Está a pobre lá dentro, inteirinha, acabada de ser tragada sem ter sido alvo de uma única dentada, chupada até ao tutano, e, contudo, o ainda estar com a pele vestida é um espanto. Formulo pois a questão, como achais vós que irá a cobra proceder à assimilação de tão grande animal, e que lhe provoca tal má-formação, abaulada como está, irá chupá-la até ao osso, como diz o povo, ou macerá-la até à medula, como diz o químico, cuja opinião, nestes assuntos, é a mais abalizada. Ai, meu menino, não quero cá galhofa, pare de fazer essa cara à sua colega, não imita a refeição de uma jiboia simulando uma aflição de ventre, ainda que essa cara entediada, não seja de todo despropositada, pois tal é a enormidade da fruição que a cobra se desliga do exterior e só por dentro há ação. Era essa a pergunta, mas leio-vos nos olhos que andais a leste, por isso aqui vai uma pista, a ver se à sala regressais, ainda que cobra tão grande não se encontre aqui, mas é esta a dica que tenho para vós, o estômago da cobra é todo feito de piquinhos e pregas que como minúsculas línguas dão ao bicho uma grande esfrega. Pobre bovídeo, que vai ser tão falado, de certeza que o deixarão num estado que irá exacerbar a sua vocação para a ruminação. Como irá então o réptil rastejante processar o vacum possante? Então, não ouço nada dos vossos lábios, nem um assomo de resposta, que se passa convosco, e se continuo a ajudar lá vai a pedagogia pelo ar. Então, imaginem a vaca ali imobilizada e todas aquelas línguas em consonância a penteá-la para um lado, e depois, se não fica bem no retrato, para o oposto, e nesta ênfase de lhe tirar a fotografia, se for necessário, até lhe fazem a marrafinha. Com um salto de heureca, que faz abanar as carteiras, um menino emocionado, exclama, é o que diz a minha mãe, são as... ai, meu menino, iluminado, bem pode ir dizer uma verdade, mas não é assim que o rastejante consome o gigantesco bicho aprisionado. Mas insiste o miúdo, eu sei, eu sei, que a minha mãe tem razão, ainda que o meu pai lhe diga, cala-te mulher que ainda acabas nessas línguas bifurcadas. Mas, riposta a minha mãe, que não é mulher que se cale, eu falo com essas... ai, meu menino, mais uma vez não, tenha tento na língua, que estamos na lição, pois é professor, é bem capaz de ser verdade, a cara que o meu pai faz é de silêncio, mas tem compreensão e amor. Ah, afinal chegamos a bom porto, tem disto a docência, se deixarmos fluir os assuntos, logo surge matéria que ajuda à conclusão. O que o bom marido insinuou à doce esposa é que não vale a pena interpelar o ofídio durante a digestão.

sábado, 21 de julho de 2018

Terceira Lição – A dança dos contabilistas

Depois da segunda lição vem a terceira, não há que enganar, na narração desta viagem, até ao final, o dobrar de muitos esfíncteres ireis testemunhar. Pois, meus meninos, espero eu, de vós a máxima correção, uma vez que, por cada erro que no futuro vireis a dar, serei eu o patrono da vossa desatenção. Mas vamos ao corpo do tema de hoje, todo ele feito de safanões, que quer se queira, sim ou não, agora que se passou a epiglote, nada mais se lhe pode desejar que muita, muita, sorte. Os movimentos são todos peristálticos, levando a comida amarfalhada, quer se faça o pino, sim ou não, em direção ao esfíncter esofágico inferior, nome comprido e anunciador de infortúnios, por onde muitas vezes escapa um ardor, uma azia, um fedor, que nos faz recuar importunados. Mas, coitados dos que já lá estão, que num único sentido vão, em direção ao desconhecido, que tudo o que por aí passou quase nunca regressou, a não ser azedo e indigno. Por isso de nada nos serve o que pudesse contar, uma vez que vem possuído por um ácido que nos leva a duvidar de ali viver aquele que ainda não há muito apreciámos. E, vamos então ao cerne da lição, da mais profunda humanidade, que vos descreve como este bicho se entretém, cantando e dançando, quando se aproxima da infelicidade. Estranho comportamento esse, mas uma vez que já vão todos no mesmo barco, esquecem até como foram recrutados, e o que deixaram antes de ingressarem no mar alto, ovas, crias, cópulas, e agora, filhos desta aflição, matraqueiam com os pés o chão, enquanto vão rodopiando em direção ao desalumiado. Eis, pois, o que tendes de aprender, se quereis ser líderes, senhores, capazes de traçar destinos, que no mundo andam apenas dois seres, os que determinam e os determinados. Prestai, pois, a máxima atenção, que o que agora vou dizer é fundamental, então não é que em vez de questionarem a sua missão, para a qual foram astutamente alistados, vestem com redobrada emoção a useira roupagem, e prometem continuada vassalagem. É amor, só pode ser, até vós exclamais senhores, com que perfeição fez Deus a sua obra, que tudo aquilo que lhe vestimos lhe assenta com primor. E da dança apenas posso dizer, que graças a Deus que não são escoceses, pois seria muito atrevimento agitar assim os penduricalhos. De braços entendidos, fazem tudo certinho, no convés da embarcação, assim foram ensinados, estes marinheiros dos três costados. Um dois três, e repete, um dois três, que tudo somado já é um número bem salgado. Quero isto muito bem contado, que não há dança sem marcação, cada passo bem ensaiado, que à vista do estertor, enchem-se de furor os finados a bem de seu patrão. Portanto aprendei meus meninos, mais esta lição, que eu não duro sempre, basta financiares a embarcação que do resto trata a corrente. Dancem, dancem, em direção à ligeira rugosidade, que ela logo se abrirá e vos revelará o que ireis aprender na próxima lição. Esta por aqui fica singela, que de viagem apenas se tratou, comprimida certamente, ao sabor da tremenda torrente, atentai, portanto, que basta montar casa a amante para terdes um segundo lar.

sábado, 14 de julho de 2018

Segunda Lição – Custa a engolir

Meus queridos meninos bem-vindos à segunda lição, que da primeira com certeza vos recordais com emoção, e deveis agora continuar com toda a vossa aplicação. Não é fácil o que vos tenho a dizer, por isso tereis que decorar, sei que sois da escola dos que gostam de entender, mas o que vos tenho a ensinar não é fácil de assimilar. Diz-se na minha terra que ainda tereis que comer muito feijão até lá chegar, e que o saber não se faz apenas de estudar. Sim, sim, eu sei, não fica bem a um professor isto dizer, mas o que é que havemos nós de fazer se não podeis entender. Deixemo-nos de preâmbulos e vamos já ao cerne da lição, que explanar depois tim-tim por tim-tim será a minha segunda missão. Sumariza-se muito bem assim o que vos tenho a ministrar, a consciência é disfuncional, sofre de dislexia, onde por vezes devia estar o tempo de um verbo entra outro à revelia. Vejo bem pela vossa cara que não estais a perceber patavina, fechai por isso os olhos e repeti comigo, a consciência é disfuncional, sofre de asfixia, onde por vezes devia passar o tempo de um verbo entrava-se outro à revelia. Ai, ai, ai, que desafinação que por aí vai, assim não conseguireis obter a aprovação, repeti, pois, mais uma vez, a consciência é disfuncional, sofre com a tirania, onde por vezes reina o tempo de um verbo grita outro à revelia. Que desânimo que desinteresse, já trazeis os olhos por tetos e paredes, olhai para mim meninos, onde está essa sede de aprender, até parece que vos custa a engolir. Ah, ah, agora sim, consegui a vossa atenção, o que vos acabei de dizer, percebeis vós bem com o coração. Come a sopa que te faz bem, já chega de mastigar, não gostas? vá, fecha os olhos, engole, e não quero cá mais conversa. Essa é que é essa, meus meninos, toda a gente engole, e não anda cá com desvarios, engole o rei e a rainha, e até engole a concubina, engole mesmo o imperador, esse rei de reis de olho esbugalhado, que anda no mar sem saber que até cardeal pode ser. E assim, vos digo, porque não haveríeis vós de também engolir? Bem podeis alegar que de peixe não gostais, ou então, pela mesma razão, que tanto o estimais que nenhum mal lhe ousais. Conversas, digo-vos eu sem delongas, vem-vos esse arrependimento, já depois de o terdes saboreado. Mas não penseis que o mal está em vós, nem sequer no que acabaste de deglutir, o mal está na garganta, esse órgão da consciência. Na garganta?, logo havia de durante a lição o professor ensandecer, todos sabem que a consciência está no cérebro ou no coração, conforme a doutrina, mas nunca na garganta, cuja função é de passagem e repentina. Bem dizia meus meninos que o melhor seria decorar, repeti, pois, outra vez comigo, a consciência é disfuncional, sofre da epiglote, onde por vezes devia passar o ar passa a comida a trote. Engasgais-vos, eu sei, e por isso ganhastes medo de engolir, pobre do peixe, coitado, sentis dó agora dele, mas só depois de o terdes mastigado. E para terminar esta lição, já que bem tenho que me apressar, pois está quase na hora do toque, mas não posso finalizar sem vincar algo que também vem mesmo a remoque, quem te manda engolir ama-te. Repeti comigo.

sábado, 7 de julho de 2018

Primeira Lição – Pela boca morre o peixe

Sendo peixe, prefiro-o grelhado, tostadinho, mas não demasiado seco, não, que gosto de lhe meter a faca junto à espinha e fazer-lhe saltar as carnes baforentas, que o danado já não perneia escorregadio, mas ajeita-se côncavo ao olhar, atiçando-nos com uma ponta de superfície, fumegante, branca e entreaberta, enquanto o resto se alonga para baixo, em direção ao corpo esparramado no prato, enlevado por duas ou três batatinhas reboliças, aperaltadas por umas flores de brócolos. Um peixe com os vapores, sim. Bem que o escuto, coitado, que agora que se vê em prato limpo, dá-se ares de alguma importância e tuteia-me, a mim, que o encaro com garfo e faca na mão, mais em posse de ourives do que com disposição guerreira. Eh pá, já viste, diz-me naturalmente, sem desaforo, mas com o à vontade de quem bebeu um ou dois copos de vinho, deste branco fresco com que eu próprio já espevitei as papilas gustativas, em curta dose, é claro, e apenas como um pequeno introito ao grande espetáculo que se avizinha. E podeis ter a certeza que lá por dentro todo o bicho se espevita, tocam tambores, correrias, da boca ao ânus é um ver se te avias. Mas porque não fica ele caladinho?, penso eu para comigo, que disfrute do leito e não se ponha a alvitrar, e eu que até sou amigo, ainda lhe dou um ou dois toques, quando diz algum dislate, com os olhos lhe faço notar que o que vem da sua boca é tudo para contar. Mas, não, não se cala, e quanto mais o como mais ele se empolga. Meto-o por isso na boca, na língua é fofinho, e ele dócil, dócil, deixa-se todo enlambuzar com saliva antes de o mastigar. Ah, como se rebola, gostoso, quase dente não é preciso, basta apertá-lo ao céu da boca para se fazer deglutido. E aí ainda me diz mais uma ou duas, que eu não quero acreditar, que ser tão sensível, tão ingénuo, vivia com certeza no fundo do mar. Mas aqui vos digo meus amigos, que o melhor que ele tem é o coração, bom, bom, como aquele é bem difícil de encontrar. Como se afeiçoa a mim, nesta hora da refeição, todo ele delicadeza, mas a verdade é esta, e bem dura ela é, coração como aquele não quero eu tragar, fica com as tripas a um canto do prato, negras, escorridas e feias ao olhar. É destes segredos feito o mundo, vai a alma para a boca mas não nos agrada ao paladar. Estou seguro que já sabeis, pois tendes ar de estudar, que na boca se forma o bolo alimentar, essa bola saborosa em que um outro ser se deixa amassar. Pois é, é assim, pudéssemos nós ao nascer, como ao comprar a pastilha, poder escolher o sabor com que por cá devêramos andar. E dois juízos seriam necessários, gostaríamos de ser agradáveis e deliciosos, ou trombudos e amargos, qual das vidas preferiríamos para nos apresentar. Olha ali vai fulano, uma doçura de pessoa, e ali sicrano, que não é flor de se cheirar. Espero não vos desiludir, mas a verdade é esta, qualquer que seja o sabor com que vos inteirais alguém se vos irá papar. Mas a grande questão aqui fica, se se tem um coração tão bom, porque é que ele não gosta ao paladar?, esta é a lição, meus meninos, que para a vida deveis levar.

domingo, 1 de julho de 2018

Intestinto – Alvares

Há palavras que nos vêm à cabeça, palavras desacertadas, é certo, mas quando nos apercebermos da sua erradez já nos afeiçoámos tanto a elas que não conseguimos arranjar-lhes substitutas. Bem que procuramos no dicionário, para a frente e para trás, como quem vai swipando caras no tinder, para a direita e para a esquerda, mas a mesma insatisfação, e apenas digo isto para colocar um toquezinho de moral, o que também tem o seu charme, e ficará bem em qualquer perfil, como o sal na comida, nem muito, nem pouco, mas adiante, lemos-lhes o retrato, tintim por tintim, popas surfistas, fofas milus, bustos sorridentes, dentes, muitos dentes, a não ser que se prefira o estilo coolado, daqueles que deixam uma pessoa grudada, e aí vai-se bem com uns óculos escuros, à aviador, a posse que certamente tomará o primeiro robô verdadeiramente inteligente, como um adolescente apresentando a sua candidatura à idade adulta, que o primeiro direito inalienável do dono de sua própria carne, e osso, é levantar voo, muita coolado, para pente, tão a ver, as já supracitadas popas, mas confesso-vos que isto é tudo um pouco intestinto, pelo menos é o que pareceu ao Alvares após a conversa do Tavares e da sua máquina diabólica, quando ficou sem eira nem beira, a máquina bem lhe trazia algo à memória, mas não sabia bem o quê, era algo de intestinto. Sim, foi essa a palavra que se lhe fixou na cabeça, e não houve entrada no grande livro das palavras tabeladas que lhe enchesse as medidas, intestinto como o universo, pensou o Alvares. Uma máquina verdadeiramente orgíaca, capaz de reduzir tudo ao mínimo denominador comum, mas como?, interroga-se o Alvares. Do resultado está ele satisfeito, claro que não sem um certo sabor amargo, intestinto, se quisermos ser mais precisos, pois é possível olhar para o mecanismo de duas formas completamente distintas, a primeira é de ordem puramente prática, imediata e contendo os resultados satisfatórios atempadamente realçados pelo Tavares, ou mais prosaicamente, eh pá, deixa estar, não te preocupes, tudo o que o Romeu lá meter nós encarregamo-nos de transformar em merda, pois é, lembrou-se o Alvares, já ouvi uma anedota sobre isso, até acho que tinha uma moral, ora aí está, a outra ótica, a que atormenta o Alvares, o técnico de imagem, a de ordem teórica, é essa mania que a moral tem em se soberanizar, eh pá, é assim, pá, já diria, o Tavares, foi azar, não correu como esperávamos e foi tudo pelo cano abaixo, e antes tu do que eu, já sabes como é, itchmeneforimeselfe, mas regozija-te, pelo menos ficou provado que a máquina existe, é fenomenal, não é conjuntural, não andámos para aqui enganados, erámos nós ou eram eles, essa é que é essa, seria estúpido ignorar a realidade, e se existe tem apenas que ser estudada, essa é a missão do ser inteligente, deixarmo-nos de merdas, Alvares, estudar, estudar, perceber os seus mais recônditos mecanismos para depois nos alavancarmos a manobrar a besta, pôr-lhe as mãos em cima, e depois quem tem unhas tem unhas quem tem dentes tem dentes, já reparaste que no tinder é mais dentes e menos unhas, ridículo, meu caro Alvares.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Uma máquina muito bem oleada – Tavares

Ah, a vossa curiosidade de saber o que disse o Romeu. E achais que continuando a ler vireis a saber. Que por muito que me coíba, mais tarde ou mais cedo, mas de preferência mais cedo, vá lá, não custa nada, aqui será colocado preto no branco. Pois, não sei não, não sei, com certeza, o que foi dito ao estilo da tia-avó Roberta. Como não o escrevi no momento certo, passou-se-me, e o pudor tem este duplo efeito, apaga do instante e, se for verdadeiramente intenso, apaga mesmo da memória, e agora, se o Romeu não voltar a repetir, não sei não. Mas o que, sim, vos posso dizer, foi o que o Tavares confidenciou ao Alvares, quando este regressou do pequeno almoço, um pouco hesitante, incomodado do que ouviu do Romeu, que o colocava numa posição desagradável, balouçante, onde não se tinha imaginado, evidenciando sinais de querer desistir, abandonar o barco, o que acendeu logo uma luz vermelha no Tavares, para quem numa guerra o bem mais forte é o moral das suas tropas, dizia mesmo, ao inimigo a convenção de Genebra!, mas para manter a unidade das nossas forças vale tudo!, é a guerra é a guerra, é a guerra psicológica, pelo que logo asseverou, para tranquilizar o Alvares e o re-encasquetar do seu espírito de missão, tem calma Alvares, vai tudo correr bem, que isto é uma máquina muito bem oleada, uma vez posta em marcha não há quem a pare. Ora, essa é que é essa, e cabe a este vosso humilde narrador, a tarefa de iniciar a descrição de tal máquina na síntese possível de como o Tavares a enalteceu, obra de génio, aporte de várias engenharias, da mecânica, obviamente, mas também da social. Pois é. Imaginem, antes de mais, um esguia boca de tubos, que se desembocam num alambique, como uma adorável balzaquiana de voz suave e ancas matreiras, onde os mais puros sucos da sedução se esgueiram através de um emaranhado de canais que se encaracolam para cima e para baixo, tentando, devido a restrições logísticas associadas à sua instalação, conter no menor espaço a maior extensão possível, por forma a que nele se produza o produto por fases. Uma outra caraterística, é a utilização de uma técnica chamada de incirculamento, e perdoai-me a inexistência da palavra, mas esta é uma luta constante com os termos, na qual cabe aos tubos mais grossos, aqueles por onde os resultados já passam no seu estado quase final, de fazer isso mesmo, incircular, lá está, os outros, mais especializados, e de algum modo mais suscetíveis, pois na engenharia, tal como nos seres vivos, o trabalho especializado é obra dos elementos mais sensíveis, mais tentados à interrogação. Deveis estar a pensar, mas o que tem de extraordinário esta máquina? Não está o universo pejado dos mais diversos artefatos, cada um com a sua função?, cada um com a sua forma?. E foi exatamente essa a questão levantada pelo Alvares. E a resposta foi-lhe muito bem dada pelo Tavares, meu caro Alvares, o que esta máquina tem de único, é que qualquer que seja o que lá introduzires, o resultado é sempre o mesmo, e confirmou a marosca com um piscar de olho ao Alvares que o sentiu como uma luz verde, de alívio.

domingo, 24 de junho de 2018

Poetisa – Susana

A Susana tem jeito para as palavras. Pega numa folha de papel e vai escrevendo uma a uma, de seguidinha, e, então, para, relê o que escreveu e começa a experimentar, trocando aqui, acrescentando acolá. E há palavras que encaixam muito bem, que parecem estar fadadas para o seu lugar. Estão lá na perfeição. Não no princípio. Da plenitude só se dirá mais tarde, quando elas até já tiverem perdido algum do seu brilho, quando pelo convívio se tenham tornado um pouco como as outras, tenham ido às mesmas festas, partilhado as mesmas companhias, procriado, quiçá, gerando palavrinhas, iniciando uma nova linhagem, uma escola própria, de plagiadores perfeccionistas, que por um dedicado trabalho de polimento definam as regras de um estilo. E não está mal, concordo, também a Susana se delicia a ler os bons espécimes, enquanto interiormente desmonta os princípios com uma precisão matemática, sorrindo, pressentindo como encaixam, por vezes sendo mesmo capaz de antever a próxima, perfilhada, certinha, mas depois chega-lhe um aborrecimento, uma náusea, e diz, foda-se, atira o livro para o chão, e sai a correr de casa, deixando a porta aberta, como quem não tem intenção de voltar. As palavras para que a Susana tem jeito, no princípio são estranhas, ficando mesmo ridículas naquela posição, naquela posição?, nem pensar!, não foram feitas para ali!, é da consonância geral, e as outras, claro, olham-nas desconfortáveis, como se elas tivessem mau cheiro, quem fez este alinhamento, perguntam, que estão elas aqui a fazer, quem as deixou entrar, e gera-se um mal-estar, pressente-se um sentimento de contágio, intranquilidade, que começa por ameaçar as mais frágeis, provocando-lhes arrebates, arfares de peito sob o espartilho, a que as mais conservadoras estão alerta, interpondo um jogo de interpretações que faça regressar a calma à frase, evitando que se faça deslizar os fios de seda pelos ilhós, trazendo cá para fora seios cheios, ansiosos de exposição. Não como os da Susana, que se conseguem esconder na palma da mão, e quando digo palma não digo mão, não sendo os dedos para aqui chamados. Talvez por isso a Susana não seja dada a oscilações do peito, e é com aparente indiferença que intromete as palavras, com uma emoção gelada, filha de um susto, daqueles que provocam arrepios de cima a baixo, paralisam. Ah, Susana. O próprio Afonso lhe disse uma vez, não sem uma ponta de ciúme, tu às vezes pareces possuída pelas palavras. E ele nem sabe bem do que está a falar, como um idiota à porta de um palácio, percebe a grandeza do que tem pela frente, mas não se atreve a entrar. A própria Susana sente que por vezes o Afonso não encaixa bem, mas é realmente difícil comparar quando a droga se intromete com o sexo, nos prazeres não há uma verdadeira soma, a não ser na ressaca, por isso o trouxe para o seu quarto, comprou as doses de heroína, intercalando-as com o sexo, buscando êxtases das ereções e alívios dos chutos, procurando formar frases onde algumas palavras fossem surpreendentes, ainda que fosse por uns instantes, e antes de se tornarem useiras e ter de atirar o livro ao chão.

domingo, 17 de junho de 2018

SIDA – Armindo

Consigo imaginar a anuência escorregadia com que morre um cristão, ou a insubmissão húmida com que morre um ateu, porque já por alguma vez me imaginei algum deles, mas como morre um maciço como o Armindo, uma estrutura óssea imponente, bem estufada de carnes trabalhadas, é para mim um mistério. Em particular se a morte não tem uma causa substantiva, de um peso semelhante, palpável, exterior, uma morte de que nos pudessem dizer, olha, o Armindo morreu, foi atropelado por um camião, não morreu logo, ainda esteve três dias em coma no hospital, perdeu o queixo quando foi de rastos pelo alcatrão, mas quando o visitei encontrei o seu corpo todo, tombado, é certo, mas era o Armindo, os braços moldados alinhados fora dos lençóis, com os dedo grossos onde costumava colocar os anéis. Agora, se o mal vem do interior, como uma térmita que corrói um edifício por dentro, pela calada, instalando-se lá, tornando-o oco, até que chega o momento em que não passa de uma majestosa figura de chocolate, uma figura de si mesmo, frágil ao contacto, onde facilmente se faz mossa, começando a ficar ridículo com as suas mazelas, vulnerável ao toque dos dedos, desfigurando-o de encontro ao vazio interior, ganhando um aspeto chupado, atrofiado, deixando de parecer o Armindo, então pergunto-me, o que é que está a acontecer ao Armindo, que merda de morte é esta, este retrocesso, este amesquinhamento, e por que não adopta ele uma posição, um ponto de vista em que se apoiar, por que não mostra a resignação de quem vai partir e junta os amigos à sua volta, imensos, como num funeral, ou então a revolta de quem não aceita e solta um brado aos céus, fodeste-me, mas para a próxima vais ver, uma blasfémia que está na base da ciência, mas nada, está tão calado como o bicho que o escava, mingua. Vou visitando-o ao longo dos dias, em cada um deles levo um Armindo e trago outro, menor, menos igual ao anterior, e aflige-me não se afligir. Por isso resolvo carregar um fardo que não é meu e monto uma tenda ao lado da sua cama, uma grande tenda de circo onde interiormente presencio as mais variadas palhaçadas, malabarismos, números com animais e fogo, tudo junto, números de que não consigo perceber o princípio nem o fim, em zapping, e enquanto o Armindo continua impávido, esvaziando-se lentamente como um boneco de borracha, eu, por dentro, entrego-me aos mais desmesurados assombramentos, cheios de risos aparvalhados, fedor de animais submissos que se oferecem ao gosto do chicote, belos trapezistas, cruzando o céu debaixo do toldo em encaracolados mortais, em sequência, e quando colocam solidamente os pés de regresso à base o público, constituído apenas por belos Adónis, solta uma exultação orgásmica cá em baixo, imagino também os palhaços enxovalhando-se, pregando-se partidas, rindo-se na cara uns dos outros, exageradas caras brancas e vermelhas, ninguém ri assim, pode dizer quem está junto da morte, mas eu, Humberto, é assim que estou junto à cama até que um dia olho e está vazia, o Armindo desapareceu, não existe, já não chupa um caralho.

domingo, 10 de junho de 2018

Riff – Gonçalo

Na primeira vez há sempre algum risco, mas quem não arrisca na primeira arrisca-se a não arriscar nunca, essa é que é essa. Como num concerto, no palco, com as caras cheias de euforia lá em baixo, braços no ar, estendidos, de dedos esticados, bocas estiradas em prolongados ais, e os músicos perfilados em silêncio. Começa-se, então, com um riff de guitarra, devagar, quase a medo, com tudo o mais ausente, talvez se sinta o agitar do coração do baterista a oxigenar por entre a catedral de pratos, pedais e tambores, com a pulsação a chegar às baquetas que pressentem o cheiro a adrenalina, enquanto o público se silencia de pescoço estendido como grandes lagartos alongando-se lentamente em direção a uma presa, acariciando com as línguas compridas o fio de notas que vai passando em fila indiana, bem comportadas, como um grupo de bailarinos cadenciando uma sequência de passos, e vão eles lambendo o ar à volta delas, uma a uma, sentindo-lhes a harmonia, um monstro com gostos gourmet, diria. Depois, repentinamente, desaba uma trovada tropical, com os pratos a relampejar exaltando de vibrações de luz o espaço, tornando-o descontínuo, fragmentário, pelo que os lagartos aproveitam para se atirar ao ar efetuando mirabolantes acrobacias nos pequenos cubos luminosos que julgam a eles ser destinados, talvez com reminiscências de teletransporte do Star Trek, cubos arrancados do chão pelo baixo, tornados translúcidos pelas guitarras, enquanto sobre o palco o vocalista pronuncia uma ou duas ininteligíveis palavras que os lagartos repetem entrelaçando as línguas e girando uns sobre os outros, aos dois e aos três de cada vez, como multi-pontiagudos dardos. E é o Gonçalo que está lá em cima. Sim o Gonçalo Aires, com a cabeça de cabelos desgrenhados, pretos, tronco nu, o peito escuro mas quase totalmente rapado, não fosse por alguns pelos apenas, por alturas dos mamilos, ponteando-os, pequenos repuxos de um jardim barroco rodeando um minúsculo tanque onde habita uma franzina planta aquática, como o Gonçalo ele todo, ossos jovens sobre carne jovem e pele sedosa, sustendo-se com as mãos sobre os pulsos, com a Ivone por baixo, com a garganta em v, atirada para cima, trazendo um arrasto de cabelos, como o véu de uma noiva, rendilhado, deixando uma mancha de clara de ovo, estrelado, por onde irrompem os olhos de Ivone, a boca, a língua, esticada, a cheirar o ar em volta, devagar Gonçalo, consegue dizer sem esconder a língua, projeta mais o pescoço, atirando os olhos lá para trás, onde as mão empurram a parede, provocando uma vibração nos seios que teima em não desaparecer, os mamilos nitidamente maiores que os de Gonçalo, provavelmente com outras ambições, se desmedidas apenas o tempo o dirá, rápido agora Gonçalo, dos cabelos desengancham-se línguas dardejantes, projetando-se em direção às paredes, ricocheteando, entrelaçando-se e deslaçando-se extenuadas no chão, as dos cabelos do Gonçalo encaracoladas, saem como bumerangues procurando trazer de volta as de Ivone, dobradas, rendidas, agora um riff apenas, Gonçalo.

sábado, 9 de junho de 2018

Inferno – Romeu

Anda Romeu azucrinado com dois diabinhos, um em cada ouvido, que à competição, como num fado à desgarrada, vão declamando das suas razões. Nunca os viu, e bem pode virar a cabeça de repente, procurando pôr os olhos onde antes estavam as orelhas, que nem um rabinho lhes avista. Mas que lá estão lá estão, e de uma outra coisa está Romeu certo, um parece ser bom e o outro mau. O bom perfilha a cartilha humanista, pois no seu julgamento a condição humana vem sempre à baila. Já o mau é egoísta e pensa apenas nele, que, neste caso, tratando-se de diabinhos conselheiros, é no Romeu, o que faz com que mesmo sendo um diabinho mau não seja mau de todo. Mas vamos ao que interessa, L’Ancien Régime, a novela interrompida, a enorme injustiça de que se sente vítima Romeu, e agora o esforço colocado na escrita de uma segunda parte, Mistério, com esperança que venha a despertar o interesse dos produtores, mas que continua enguiçada e ameaça nunca vir a sair do papel. E nada melhor para perceber o quanto azoado anda Romeu com estes dois diabinhos do que vos descrever o que aconteceu num pequeno almoço, em que o Alvares, o técnico de imagem, aparecendo como que vindo do nada, puxa à conversa um suposto comentário do Tavares sobre a putativa sequela, mistério, disse ele, Alvares, sobre o que teria dito o outro, Tavares, quando leu o manuscrito, mas isto é uma aventura ou um mistério, nós estamos com atenção, terá assinalado o Tavares. O diabinho mau, que mais parece um garoto com bichos-carpinteiros, ainda não tinha o Alvares terminado e já estava a invetivar o Romeu, este tipo vem à pesca, dá-lhe de comer, vai ficar dececionado se não levar nada para casa. Já diabinho bom procura colocar água na fervura, contrabalançando, diz, repara como ele está em sofrimento, coitado, fala, é verdade, mas não consegue disfarçar a tristeza nos olhos, não nasceu para ser mau. Mau, claro que não, repreende-o o diabinho da mesma qualidade, achas que se fosse mau o mandariam vir aqui, a maldade tresanda a enxofre e este ainda cheira a Johnson, diz com desdém. Estás a ver, até ele concorda que ele não é mau tipo, aproveita o diabinho antónimo, vem de certeza imbuído de um motivo nobre. Eh, eh, ri com escarninho o diabinho antónimo do antónimo, queres ver que ainda vai para o céu. E porque não? Cai na ratoeira o diabinho oposto. Eh, eh, insiste, o oposto do oposto, tal coisa não existe, vão todos para o inferno, a única diferença é que os maus ficam na gestão. Não lhe prestes atenção Romeu, esse filho ilegítimo de Satanás não acredita em nada, se tratares bem o Alvares vais ver que ele irá reconhecer e estimar-te. Qual quê, exclama o outro, se lhe deres o que quer irá de volta convencido da sua nobre missão, e então repararás como a tristeza inicial se transformará num alívio ético, espólio da vitória, senão ficará revoltado com o seu desaire e podes ter a certeza que se sentará à mesa do teu próximo pequeno almoço com redobrada raiva. O Romeu, talvez pela convivência com a sua tia-avó Roberta, não se contém e exclama o que a falta de espaço e o pudor me impedem de escrever.

sábado, 2 de junho de 2018

Oblívio – Zé

Um sistema de posições meticulosamente desenhadas num contínuo, onde a variação de um milímetro conta, numa prova irrefutável que entre quaisquer dois pontos existe uma infinidade de outros, prontos para a aproximação, prontos para revelarem o abismo entre eles, sugerirem coisas incontáveis, inarráveis em poucas palavras, por mais que nos precipitemos sobre elas com frases sintaticamente corretas, que a semântica não vai lá com gramáticas, frases maravilhosamente blindadas, das quais pensamos, não falta ali nada, nem um de, nem um a, nem um o, nem um da, nem mesmo um e, nada, como os dentes cerrados que rasgam o fio dental, como uma criança se recusa a obedecer, se fecha sobre si própria, protegendo-se, crescendo, entrando na fase em que se cimentam as paredes, se tapam as rachas entre os tijolos, se coloca maquilhagem sobre a cara, negando a existência do umbigo, essa reentrância que se retorce sobre si mesma, em espiral, por onde enfiamos a língua, à procura de um ponto, de um choque original, e vamos entretanto acomodando os olhos ao gigantesco pequeno, com o nariz para ali enfiado, como a câmara de um drone planando sobre as crateras formadas pelos poros, num contínuo, que aqui ora se estende, ora encolhe, longas planuras alvas onde andamos perdidos, sem um ponto de referência, para frente e para trás, como autistas no desempenho de uma tarefa, estendendo a língua idiota, lambendo, molhando, balbuciando com o infinito, um mantra, dizem os mais letrados justificando os movimentos repetitivos da nuca, não interessa, um muro de lamentações sobre o ventre liso, bamboleante como um rede acrobática, para onde atiramos o rosto, inspirando inspirados, pois para além dos olhos só o nariz está desperto, aprecia o trabalho da língua, não a traidora que cospe belas palavras, as que nos trouxeram aqui, a esta cama, não, aquela que humedece, que faz exaltar os odores, e vamos sentindo todo o seu espetro enquanto a cabeça vai e vem, e o nariz sempre atento não quer perder pitada, que agora até já os olhos se turvam, é assim em todas as celebrações, chamam-lhe o estado de transe, atinge-se uma forma de amnésia, esquecem-se as posição há tanto tempo desenhadas, fruto de num trabalho persistente, minucioso, como uma estrutura algébrica, com um fecho qualquer, feito do saber de séculos acumulados, mas é esse o culminar de toda a obra, quando se incrusta no leitor, perde-se a necessidade do seu suporte em papel, entra pelos corpos a dentro e já podemos mandar queimar os livros, não interessa, e depois, claro, a penetração, um ritual próprio, capaz das encenações mais grandiosas, às vezes, outras, parece mais um sussurro, um pedido de desculpa, implorado, entre o anteceder de um grande segredo e a revelação mais banal, despertando uma curiosidade puramente sintática, facial, prega-se no cérebro, lá bem atrás, onde as máquinas de inferência não chegam, salvaguardada, protegida, junto a outras, por categorizar, e a coisa prossegue, como costuma ser, e quando o Zé quer fazer acompanhar o transvasamento de um nome, esquece-se de qual é, oblívio.

sábado, 26 de maio de 2018

Nestas matérias – Humberto

Talvez já não te lembres, triste Armindo, do tempo que passávamos sozinhos, entre os lençóis brancos de linho, e sem mácula, de início, talvez já não te lembres, ó colosso, das horas que passámos estendidos, por entre uns raios alinhados, que sobre a cama traçavam caminhos, e muito a meu contento tomava de assalto o teu corpo, alto e baixo, de mansinho, que o cabeço tem que ser conquistado, quando repousa em desalinho, no teu peito acampei, a coberto de pelos revoltos, e por eles rastejei, até encontrar os mamilos, doces horas de espera essas, continuamente fitando o abismo, pois, quem nestas lides prima, não lhe cabe baixar a guarda, talvez já te esquecesses, desaprumado Armindo, de como me tranquilizaste, agarrando-me pelos ombros, contra o teu peito me esparramaste, já não era eu, era tu, e não tinha tino no que fazia, osculei o teu pénis, todo ele purpurino, e as horas de êxtases pareciam minutos, pois esses silêncios eram momentos absolutos, e não falavas então, com os olhos fixos no teto, fechava e abria eu os meus, para marcar o tempo, por isso, querido Armindo, flor do campo não existe, com um perfume tão ténue, que guie o besouro mais pela intuição, que pelos raios de ouro, e tenho a dizer-te agora, se é que ainda me ouves, amor recordado, que quando eu farejava invejoso, odores de outros homem no teu corpo, não me queixava, imaginava, que se o mundo é tão grande, não tenho o direito de o pedir todo, mas leva-me contigo, por favor, não porque tenha medo de ficar sozinho, mas porque sendo eu tu e já não eu, devo presenciar o destino, como quem olha para a montanha que nos configura o trilho, subo por isso, regresso ao teu rosto, retribuindo de beijos o que ainda não me destes, pois aqui não se encontram as causas dos efeitos, e se assim não fosse, não me demoraria, mergulhando nestes lençóis, da mais límpida água, mas traria um relógio para contar a história, como os mergulhadores fazem agora no computador, e conseguem explicar todas as horas de esplendor, posso, mas não quero, Armindo, estas horas não têm preço nem sentido, enfio-me por isso uma vez mais, nestes lençóis, mantos de eros, e juro-te com a boca que sou um apêndice do teu corpo, com estas asas grandiosas, dá-me tempo, meu amor, que irei fazer levantar a cama, sairemos então deste quarto de segredo, onde nos encontramos sem saber, pondo fim a um degredo, inventado por todos os que não querem ver, iremos então muito juntinhos, ao encontro do campo do Cesário, que acredito como o teu, e eu, que sou da cidade, desejo-o como o li no poema, ainda não te tinha descortinado, Armindo, pudesse eu, e prometia-te uma casinha, caiada, junto a um ribeiro remansoso, onde passássemos a eternidade, enchendo-te eu de cuidados, e lá me transformaria nas coisas pequenas, cada uma com o seu recado, para tu cresceres, até te dissolveres no espaço, e quando alguém lá por acaso passasse, sentir-nos ia ali aos dois, e se subitamente virasse a cabeça, nos procurando, desenharíamos um sorriso nos seus lábios, mas de tudo certamente te esqueceste, porque tudo no mundo morre e muda.

domingo, 20 de maio de 2018

Angola é nossa – Romeu

A tia-avó Roberta era como um almanaque, sabia tudo de pouca coisa. Do Salazar ao Ultramar era com ela. Fizeram as circunstâncias que fosse duplamente vítima do tempo, daquele que fazia avançar a sociedade e do que lhe retrocedia o corpo, como dois comboios que se cruzam em sentidos opostos. Não foi sem algum saudosismo que o resto da família a viu de janela a janela, lá vai a tia-avó Roberta, disseram com a brevidade imposta pela soma das velocidades. Foi por isso confinada a um quarto onde as visitas eram filtradas pelos parâmetros da cautela e da pedagogia. Para a primeira, as recentes ambições políticas dos mais jovens membros da família desaconselhavam a partilha de impressões menos caras aos valores democráticos, que na política, da esquerda à direita, não se vinga sem camaradagem. Para a segunda, era um instrumento de íntima formação, numa altura em que era necessário combater o perigo da desagregação, trazido pela correria dos tempos, com a estabilidade das origens. Tornou-se assim o seu quarto local de peregrinação com um pendor mais de romaria que de santuário, dada a forma mordaz com que lançava as suas invetivas. E é verdade que era useira de alegorias campestres. Quando dizia, essa vaca sagrada vai um dia deixar de dar leite e depois vão implorar pelo regresso do senhor doutor, era certo e sabido que se referia à democracia e a Salazar. E, se por não ser plausível que no universo da tia-avó uma entidade sagrada pudesse dar leite, gerava-se nas suas testemunhas algum mal-estar, receando tudo o que pudesse questionar a credibilidade e autoridade moral da tia Roberta, mas rapidamente acabavam por interpretar a aparente contradição como sendo um recorte da mais fina ironia. Era nesse afã de doutrinação que Romeu era convidado, conjuntamente com os primos, a entrar e fazer um pouco de companhia à tia, coitada, sempre fechada naquele quarto, mas com a nota de que o que ali se dizia não era para ser repetido, por ventura sussurrado entre dentes pelos romeiros daquele lugar. Para o jovem Romeu o quarto da tia-avó tornou-se no santuário de transgressão da sua infância, de tal forma que, o que outros alcançavam no recreio, no convívio com os colegas, através do b a bá iniciático de palavras porcas, era para ele ouvindo a tia-avó que atingia o pós-torpor de quem cospe cá para fora vilipêndios agitando todos os membros simultaneamente como se debaixo de uma descarga elétrica. Tia, pedia-lhe Romeu, fale-me do Ultramar, éramos grandes, meu filho, até que o cigano do Mário Soares entregou tudo aos pretos, e aquela gente só sabe é fornicar. Convenhamos que nesta altura já Romeu tinha que se surripiar para o quarto, pois o piorar do estado de saúde da tia levantava objeções ao seu convívio com os mais jovens. Mas Romeu não se perturbava com os espasmos, mesmo quando na última vez que a viu, arrancando a camisa de dormir com ambas as mãos, expondo as carnes flácidas trilhadas por veios roxos escuros, os seios alongados junto à barriga e tombando da cadeira com os dentes cadavéricos de encontro ao chão, Angola é nossa.

sábado, 12 de maio de 2018

Barba e cabelo – Catarina

Este é um assunto delicado, pelo que nada mais me resta do que me despojar da roupa e assim, todo nu, dizer um poema. Era bom, era. Até pareceria então que dava sentido às coisas, com a barriga ligeiramente para fora e tudo o demais pendente, e que o assunto não tinha sido um arremedo momentâneo, incapaz de se repetir a não ser por outra imitação, tão imperfeita como a primeira, e que mesmo que elas se repetissem com frequência não caraterizariam o sujeito, a não ser pela passagem dos anos pelo corpo, os riscos dos pelos pelo puxar da roupa, que nestas situações de improviso saem por cima, a braços com uma rendição, enredadas, por desabotoar, como se impelidas pela urgência do sexo, e afinal, tão só um poema, meia dúzia de palavras cujo único propósito é virem umas a seguir às outras, em carreirinho, disciplinadas, cada uma como anúncio de previsibilidade da seguinte, que o parceiro se não o diz pensa, prometeste-me tempestade e afinal é tudo só acalmia, enquanto ali se está escorado, imobilizado com o que se tem para dizer, como se possuído por dentro. São diabruras toleradas na juventude, feita de peles escorreitas, mas a idade aconselha à cautela e esta leva à decência, e sendo assim, porquê? Pensais que a vida de criar personagens é fácil, que é um regalo, somos donos e senhores, sentamo-nos e lá vamos nós colorindo-os como uma criança a um desenho, ou uma menina veste e reveste uma boneca. Não. Sonhamos, abrimos os olhos e dói-nos diferença. Tinha depositado tanto na Catarina, tinha-a tão bem guardada que pouco dela vos tinha ainda contado. Para vós quase uma figurante, como se não existisse, um mero enquadramento do Romeu. Para mim, uma santa, se bem me entendeis, que a sujeitei às mais difíceis provas, ao vómito do marido, às suas infidelidades, à Amália, à Madalena, à Sílvia, à Splash!, sim, à Splash!, que neste mundo só o mundano dói. E em boa verdade vos digo que nunca me dececionei, muito menos desconfiei, mas andava distraído. As personagens no início não são nada, depois vão ganhando espessura. Errei. Não devia ter colocado aquelas três mulheres na dilatação da pupila de Romeu, quando era Catarina que o amparava. Ninguém gosta de se saber desprezado. É esta uma pena das narrativas, por muito que amemos um personagem, ou lhe damos provas no texto, ou essa afeição não serve de nada, quanto livro anda por aí a apodrecer em prateleiras cheios de homens e mulheres de amor descuidado, não vos admireis, portanto, que estejam desterrados para esses cantos de esquecimento. Por isso, com o mal feito, e para tentar salvar esta obra, só me resta tirar a roupa e dizer o meu poema. No dia seguinte conheceu Catarina um homem. Se conhecer se aplica a uma curta troca de palavras. Casual no início. Intencional depois. Foi das circunstâncias que pouco depois estava à porta do seu apartamento. Uma vez lá dentro, quando a porta se fecha sobre as suas costas, Catarina disse com uma voz que não lhe reconheço, e, por favor, olhai para o meu corpo despojado, há certas mulheres que gostam de fazer de putas, mas eu não.

sábado, 5 de maio de 2018

Maio, maduro maio – Ivone

A ilusão da multidão. O delírio de um corpo ungido de uma vontade, membro a membro, desfilando em uníssono, caminhando, solavancando a uma ordem maior, prescrita lá mais à frente, impondo uma disciplina imaginada aos seguintes, que a aceitam tão pura como sendo a primeira. A ilusão de corpos no corpo da multidão. As caramboladas com efeitos de fantasia, gente que na marcha ricocheta à frente e a atrás, vai até às grandes paredes rendilhadas de janelas que comprimem o movimento e regressam para mais um ressalto, porque todos se queixam da força da corrente e ninguém menciona as margens que a oprimem. A ilusão dos corpos próprios. Acondicionados neste mês de maio, pendurados de árvores que vergam ao peso dos frutos maduros, num desfilar de odores pairando na brisa indecisa, aventurando-se aqui e ali sem nunca abandonar o conforto da copa, porque todos se deleitam com os atrevimentos que desencadeiam, mas ninguém se lembra sofrimento que é manter os odores em forma. A ilusão do sofrimento dos frutos maduros. No auge da existência, mas já antevendo a decadências das formas, procuram ganhar tempo e por isso afiliam-se a um ritual vodu, pintam a cara de branco, beauty sleep, desculpam-se com um tom quase doce, mas procedem ao esvair sistemático do sangue na privacidade da relação com o próprio corpo, condicionando a decomposição dos odores, recuperando alguma frescura, professando uma amnésia calculada para voltar a atingir uma plenitude absorta. A ilusão da frescura contínua. Como numa grande superfície, onde a fruta de agora é exatamente igual à de ontem, e já se sabe com o que contar amanhã, e assim meses a fio, a mesma textura ao tato, o mesmo escorrer pelos dentes à mordida, até que se fartem por aborrecimento, pois negar o tempo tem limites, e ao fim de algum tempo desconfia-se. A ilusão da desconfiança. Como uma pedra no sapato que não magoa, incomoda, e que já descalçaram várias vezes, reviraram e nada encontraram, voltando a calçar com uma leve sensação de incompetência, pois estava lá, de certeza que é ela que se rebola, escapa à vista, inventou-se para se manifestar quando nela não se pensa. A ilusão da incompetência. Das tentativas repetidas, do calcorrear dos mesmos caminhos, profetizando logo no início ao outro o que se vai passar, num momento de fraqueza, concede-se, mas que não deixa de ser um momento de vaidade, pois jogam ao ioió entre o esquecimento e a consciência, ora vai, ora vem, movido à energia da juventude produzida com um ligeiro toque de pulso, quer no ir, quer no vir, e é assim que a Ivone encontrou o Gonçalo Aires naquele mar de gente, quando a força da vaga levava num único sentido, um turbilhão, disse-se nalguns jornais da época, aqueles que ainda insistiam em colocar na primeira página os crimes do capitalismo, mas convenhamos que era já uma réplica da onda, mas ainda assim iam carambolando com os calores de maio, e a Ivone sente o frio dos cabelos espessos de Gonçalo entre os dedos, sim, aí, Gonçalo, e raiava o sol já no sul.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Mistério – Avô Galvão

Pois é, tudo ocorreu de acordo com o planeado, era agora claro que o Pinote não tinha morto o capitão Simões, até se percebia bem o que tinha acontecido. O Hilário convenceu o Mouro a espalhar o boato acerca da Sra. Marquesa, dizendo que o tinha ouvido da boca do Pinote, em troca do esquecimento do caso do porco, pelo que esta, num momento de fraqueza emocional sustentada por alguma lamechice poética, acaba por escrever a carta de denúncia do paradeiro do Pinote ao Hilário, o qual o captura junto ao casebre, e desgostoso por este não se ter entregue com a doçura de que achava ser merecedora uma pessoa na sua posição, estava apenas no cumprimento do seu dever, e tendo até recebido um pequeno mimo que feriu mais o seu orgulho que o seu corpo, como acontece a todos os que se acham possuidores da razão, assim que o enjaulou mandou chamar o Mouco que o deixou num estado para além do esperado, pois o rancor que te guarda um homem a quem retires uma parte do corpo não é diretamente proporcional à dimensão da porção retirada, pelo que Hilário teve que adiar a notícia da captura, dado não ser da boa ética profissional entregar o peixe em mau estado sem uma razão plausível. Logo, disse o Zé ao avô, tal como estava, o Pinote não tinha condições de ter morto o capitão Simões e muito menos foi agredido na sequência da sua fuga, que nunca terá ocorrido, como alegou o Sr. Hilário, pelo que o mistério está esclarecido, o Pinote não matou o Sr. Capitão Simões. O avô olhou demoradamente o neto, antes de decidir o que responder. Sabes, resolveu-se finalmente, o Sr. Hilário veio falar comigo, disse-me que estiveste em casa dele a falar com a Olímpia, proibiu-te de lá voltares. Também já não é necessário, o avô nem sabe o esforço com que lá fui. E também me disse que o Mouco desapareceu, não sabem dele, pois não, interrompeu o Zé, o Armindo tratou disso, ele também não fazia falta nenhuma. O avô decide então ir direto ao assunto. O que achas que vai acontecer agora que resolveste o mistério, Zé, pergunta-lhe o avô. Então, agora temos que contar tudo ao Sr. Dr. Macedo, e ele irá dar a ordem para libertarem o Pinote e prenderem o Hilário, que mentiu à justiça, sob juramento, não foi avô, foi sob juramento que ele mentiu. Suponho que sim, concede o avô, embora ele possa ser um homem que fez vários juramentos. Vários juramentos, avô, como é isso possível? É possível, sim, mas isso pouco interessa agora. Quer dizer que não vão libertar o Pinote, avô? Sabes Zé, sinto muito ter de te dizer isto, mas já estás a ficar um homem e tens que saber que onde vocês viram um mistério não há mistério nenhum, o Zé olha o avô incrédulo, todos os que querem saber, sabem que o Pinote não matou o capitão Simões, mas como sabem, pergunta-lhe o Zé, o Dr. Macedo sabe, interpõe o Zé com mais uma questão antes de deixar o avô responder, não há mistério, repete o avô, lá em cima decidiram que o Pinote deveria ser responsável pela morte do capitão Simões, lá em cima, avô, sim em Lisboa, na PIDE, o Zé olha sem palavras, o que é necessário é um outro governo, uma outra política, diz-lhe o avô Galvão.

Taxionomia – Joaninha

Debaixo da conversa arrastada, do lento fluir de palavras, o Mouro mantém os olhos semicerrados com pupilas periscópicas. Não se encontra na terra bicho mais camuflado. Acha-se graça ao Mouro, estar-se com ele é só rir, uma grande pândega, e enquanto nos vamos deixando entreter pelos seus adornos aquelas duas pequenas bolas acobertadas por pálpebras papudas vão-nos tirando as medidas de alto a baixo. O Mouro até já inventou uma taxionomia com a qual classifica cada uma e todas as coisas que o cercam. O seu sistema é baseado num conjunto limitado de conceitos, e formulado a partir de uma pergunta bem básica, como é que cada uma das coisas do mundo vê o Mouro? Dirão, o Mouro interpreta o mundo à sua medida! Mas quem não o interpreta à sua? Dirão, o Mouro é autocentrado! Mas quem se arrisca a levar o pensamento aquém do centro de massa do seu corpo? Podem mesmo procurar ter uma argumentação mais impessoal e alegar que a abordagem epistemológica do Mouro não é a mais correta, mas então sugiro que questionem o Mouro acerca disso. Verão que ele logo fletirá o tronco com a cabeça para a frente, ou então colocar-se-á numa posição ligeiramente simétrica, dando relevo à barriga com a cabeça lá atrás, como um ferro de engomar sobre uma tábua de passar a ferro, e vós que sois apressados na utilização da razão direis, vede como o Mouro não é coerente na aplicação do seu modelo interpretativo do conhecimento, se está mais junto a uma parede estende-se, mas se sentado numa cadeira verga-se, percebendo-se que a sua análise é puramente contingencial e carece de rigor. Tende calma, para perceberdes o que está a ocorrer basta que imagineis o periscópio lá dentro a girar como num submarino, com um homem dando pequenos passinhos enquanto roda, roda a 360 graus. Ledes-me agora desconfiados, e dizeis, o possuidor de um tão sofisticado mecanismo de observação não pode ser um caramelo. Bom, sentis agora uma sensação incómoda? Como se alguém vos estivesse a observar? Não vos quero alarmar, mas neste momento o Mouro tem aqueles dois olhinhos húmidos e minúsculos bem focados em vós. Ah, o Mouro sabe tudo, exclamais espantados. Não sabe tudo, sabe tudo o que pode saber um caramelo. Uff, exalais mais descansados. Lá estais vós de novo descendo e subindo na vossa taxionomia. Assim não tendes descanso. Quem não se deixa levar nestas ansiedades é a Joaninha, que no dia anterior aos acontecimentos que relato, foi ter com ele. Foi recebida, com as habituais tramitações sonoras que encobrem o ruído da montagem da maquinaria. O Mouro perguntou-lhe pela mãe e se tinha notícias do pai, mas a Joaninha foi direta ao assunto, então a Sra. Marquesa natruca, disse-lhe, tirando partido da inexistência de tal palavra para a poder pronunciar sem interdições de idade nem ter de temer do seu significado. A dimensão da resposta do Mouro começou por se revelar com um revirar de olhos, que por duas ou três vezes percorreram toda a linha do horizonte, para finalmente dizer sem arrasto nem entorpecimento, já viu menina, tudo isto por causa de um porco.

domingo, 22 de abril de 2018

Olímpia – Zé

Ai que lindo menino. Esta afirmação seguida da entrega de um doce, um rebuçado ou um caramelo, revelado após se levantar a tampa de um recipiente de loiça, opaco por natureza, como sinal de pudor, colocado sobre um pequeno móvel à entrada de casa, numa altura em que brindar com açúcar ainda não trazia nenhum malefício, mas era mesmo um elemento indispensável nas disposições protocolares de bem receber crianças, por muito inocente que pareça, não pode ser tratado como algo normal, até porque Olímpia já andava há muito tempo de olho no miúdo. O miúdo era o Zé, e, diga-se de passagem, que se a sua predisposição para estes mimos nunca tinha sido grande, ia ficando ainda mais diminuta conforme ganhava vontade própria. Mas a Olímpia engraçava com ele, e o que é que havia de fazer. Era vítima de duas situações que não controlava e ambas com origem no seu matrimónio. Um matrimónio que se prolongava sem dar fruto. Um matrimónio que lhe trouxe a ascensão social que a colocou numa terra de ninguém, entre os senhores e os camponeses, não sendo convidada a privar com os primeiros, nem querendo comprometer a posição recém-adquirida dando-se ao convívio dos segundos. E as funções do Hilário não ajudavam, se o davam ao respeito também mantinham as pessoas à distância. Apenas os declarados adeptos do regime não se limitavam a cumprimentar de longe, e ainda assim eram sempre rápidos e circunspetos, uma cautela um pouco contraditória acerca de uma pessoa que tinha a fama de saber tudo. Até sabe o que se fala ao telefone, diziam, como cúmulo da feitiçaria. Tudo somado, Olímpia aborrecia-se em casa. Por isso foi com alegria que recebeu a visita inesperada do netinho do Sr. Dr. José Galvão, um membro da oposição, como já o marido lhe tinha diversas vezes dito, mas Olímpia dividia o mundo por outras linhas, e aquela era gente que se dava com os Marqueses, e, ademais, a esposa do Dr. Galvão sempre tinha sido simpatiquíssima para ela, dela não se podia queixar, não como da Marquesa, que de certeza achava que era mais que os outros. A contragosto deu o Zé as voltas ao rebuçado. Bem espinhosa era esta missão que a Joaninha lhe tinha confiado. Então, como está a sua avozinha, perguntou-lhe a Olímpia, uma vez que o Zé não havia meio de desembuchar. Está bem obrigada, ontem estivemos em casa dos Srs. Marqueses. Logo a Olímpia se fez toda ouvidos. Comentou-se a morte do Sr. Capitão Simões, disse, puxando o rebuçado para um canto ao fundo da boca. O meu avô disse que o caso não estava bem esclarecido, mas o Dr. Macedo replicou que se deu como provado que tinha sido o Pinote. O meu avô insistiu que não era possível, pois ele foi agredido pelo Mouco, ainda antes do capitão Simões morrer, e não quando tentava escapar da prisão, matando o capitão Simões durante a fuga, como alegou o Sr. Hilário. A Sra. Marquesa logo juntou que de certeza que o Sr. Hilário deveria saber mais alguma coisa. Foi quando a Olímpia o interrompeu. Ela disse isso, exclamou, foi ela que escreveu ao Hilário dizendo que o Pinote estava escondido no casebre.

sábado, 21 de abril de 2018

Esquentamento – Armindo

Só o homem livre apanha um esquentamento. É nestes momentos, entre o ridículo e o sublime, que se sente a vertigem da ausência do caminho debaixo dos pés. Nestes ápices de desvario, alguns, com mais perspicácia, pressentem que algo está para acontecer e, pelo sim, pelo não, achegam-se. Pelo sim, poderão ao menos dizer, eu também lá estive e, quem sabe, dos grandes festins até as sobras são divinais. Procuram assim um lugar à mesa levando a mão às costas de uma cadeira enquanto vão dizendo, eu também já tive dessas chatices. Ah, quão distante anda a aproximação da sorte grande. São como melgas que zumbem, zumbem, em volta de um tormentoso rio de sangue que traça linhas sinuosos, ricas de homomorfismos com as constelações celestes, e apenas sentem o cheiro a hemoglobina, numa cegueira na qual não distinguem um poema que abrasa por dentro de um post no facebook, por muito infestado de likes que ele esteja. Pelo não, dirão, só lá fui para gozar o prato, onde já se viu uma coisa destas. Pois é, se no tempo que agora escrevo esteve Armindo incumbido de lançar a invetiva ao pai Mouco, estava muito longe de suspeitar do poema que anos mais tarde o Humberto lhe soletrou junto ao ouvido, enquanto o Armindo o enlaçava com os seus braços bochechudos, facetados no ginásio, de pele oleada, bronzeada e lisa, depois de se lhe ter queixado de um ardor. Não sendo um homem de letras, foram os sons que o tomaram por dentro, os erres, os eis, sopros ditos em sequência, saídos daquele ser aninhado, que, como um fole, se manifesta e esvai em perpétuo movimento. É isso a poesia. Do poema dito já sabeis o início, só o homem livre apanha um esquentamento, e o resto tereis que o tomar em linha contínua, quer porque a disciplina desta página não me o permite, quer porque foi dito sem quebras, sem princípio nem fim, feito de uma dança entre o temor e o tremor, o ardente e o ardor. Mas temo que tenhamos de deixar o esmiuçar do poema, das suas relações fonéticas e semânticas, para uma nova parte desta obra, que aqui já anúncio será apenas feita da ebulição das partes, sem a procura de um todo, pois neste preciso momento soa o primeiro toque no sino da igreja. Uma. O Mouco tem pela manhã a preguiça do álcool, levanta-se tarde e bamboleia-se pela casa, incomodado, com pernas muito abertas. Duas. O Armindo prepara-se para o que tem para dizer, para além da força da razão apercebe-se que a natureza trabalhou o seu corpo numa ordem inversa ao que a bebida fez ao do pai. Três. Coloca-se à frente do Mouco atemorizador, o da meia lua na orelha, o que já foi comido pelos porcos, o que já não tem nada a temer. Quatro. Incrédulo, o Mouco retrocede um pouco, juntado os olhos à abertura das pernas. Cinco. Nunca mais te aproximas da mãe, ouviste, diz-lhe o Armindo, surpreendido com a grandeza da própria candura. Seis. Quem pensas que és para me ameaçares, grita-lhe o Mouco, procurando reaver a autoridade. Sete. Oito. Foste tu que bateste no Pinote na prisão. Nove. Foge, andam à tua procura pela morte do capitão Simões. Dez. Já nem o Hilário te vale. Onze.

domingo, 1 de abril de 2018

Uma História bem Contada – Zalo

Cada qual com o seu papel, cada qual no seu papel. Melhor não consigo descrever a função do ator. Quantas obras fenomenais são assassinadas pelas fracas interpretações. E que se lhes pode dizer a não ser um prosaico, estava tudo tão bem preparado e tu fizeste merda. Assim não dá. Dá deus nozes a quem não tem dentes, diz-se recorrendo a figuras de estilo, à procura de uma outra dignidade, levantando-se do chão, rebuscando entre as deixas uma que se enquadre, que mascare a visão das pérolas espalhando-se pelo chão, que lindas que elas eram antes de entrarem na tua boca, morcão. Mas também o contrário é frequente, quantas vezes a genialidade irrompe do irrisório, do banal. São assim os grandes intérpretes, enfrentam gigantes cavalgando ridicularias, mal se lhes nota o cavalo branco entre a pernas, de minúsculo que ele é, e ainda assim atiram-se sem medo ao adversário, apertando os membros, aos saltos, para o verbo não ficar para trás, não porque precisem, mas porque um ator é um profissional e por isso diz aquilo para que foi pago, só que fá-lo com um tal arcaboiço, que os outros tremem só de o pressentir abrir a boca, o anteceder aquele vozeirão que vem das entranhas e enche uma plateia de arrepios, como se tivessem repentinamente aberto as portas de par em par. Palavras fracas e vazias que nos atravessam com o arremesso de um tornado. Levam tudo à volta. São uma força da natureza. Sim, teatro é corpo com texto. No caso do Zalo o texto estava à dimensão ao corpo. Curto e telegráfico. Sabe-se que passa uma mensagem naquele fio pendurado entre os postes de madeira, o difícil é saber quando. Deste dilema já padecia o Aires pai, que se sentava à volta das ovelhas de olhos no cabo, absorto, como que procurando adivinhar o que por ali iria e quando, da notícia da morte da ti Josefa para o filho, teve a certeza que a viu sair do terceiro poste depois do cabeço do prior e chegar ao poste seguinte, para os lados do cabanal, onde esteve aí um bom minuto a tomar fôlego, que a viagem até ao Brasil não é para brincadeiras, teve o descuido de confidenciar a alguém, mas logo foi desenganado, que não, que aquilo vai mais rápido, talvez não chegue à velocidade de automóvel do Sr. Marquês, mas ela deve ser mais coisa menos coisa. É isto, mais coisa menos coisa, disse-lhe a Joaninha, não tenhas pressa, uma palavra de cada vez, vai-te distraindo, olhando em volta, para a secretária, para a lâmpada pendurada do teto, fala da Sra. Marquesa, diz só, a Sra. Marquesa, que ele fique a saber que é da Sra. Marquesa, depois para, tira os olhos do Hilário, olha para o lado, dá-lhe tempo, ele vai querer saber mais, faz-te esquecido, como se de repente não soubesses porque ali estás, que te quisesses ir embora, basta um ligeiro arrastar de um pé atrás para ele te perguntar por mais, deixa então cair um outro nome, diz-lhe, por causa do Pinote, acho, não te esqueças do acho, Zalo, e olha mais uma vez para o teto, mas agora não te mexas, só a cabeça, imobiliza o teu corpo como para lhe impedir a passagem, e quando sentires que respirou fundo, diz-lhe, quer falar consigo junto ao casebre, e então roda os ombros e deixa-o sair.