Aqui já fica o aviso, esta quarta lição bem pode vir a ser uma desilusão, onde predomine o imprevisto em vez do nunca visto. Íamos nós na anterior, esófago abaixo, em direção ao inferior, esfíncter de passagem, nó oculto de entrada para a câmara dilacerante, onde se espera o horror arrepiante, da corrosão. Mas não, desenhei eu esta lição, a bem da pedagogia, de forma diferente, em vez de vos perderdes no detalhe, quero que vos concentreis na grandeza da digestão. Imaginai pois uma cobra estirada, pelo chão, acabou de engolir uma vaca, toda de uma assentada. Está a pobre lá dentro, inteirinha, acabada de ser tragada sem ter sido alvo de uma única dentada, chupada até ao tutano, e, contudo, o ainda estar com a pele vestida é um espanto. Formulo pois a questão, como achais vós que irá a cobra proceder à assimilação de tão grande animal, e que lhe provoca tal má-formação, abaulada como está, irá chupá-la até ao osso, como diz o povo, ou macerá-la até à medula, como diz o químico, cuja opinião, nestes assuntos, é a mais abalizada. Ai, meu menino, não quero cá galhofa, pare de fazer essa cara à sua colega, não imita a refeição de uma jiboia simulando uma aflição de ventre, ainda que essa cara entediada, não seja de todo despropositada, pois tal é a enormidade da fruição que a cobra se desliga do exterior e só por dentro há ação. Era essa a pergunta, mas leio-vos nos olhos que andais a leste, por isso aqui vai uma pista, a ver se à sala regressais, ainda que cobra tão grande não se encontre aqui, mas é esta a dica que tenho para vós, o estômago da cobra é todo feito de piquinhos e pregas que como minúsculas línguas dão ao bicho uma grande esfrega. Pobre bovídeo, que vai ser tão falado, de certeza que o deixarão num estado que irá exacerbar a sua vocação para a ruminação. Como irá então o réptil rastejante processar o vacum possante? Então, não ouço nada dos vossos lábios, nem um assomo de resposta, que se passa convosco, e se continuo a ajudar lá vai a pedagogia pelo ar. Então, imaginem a vaca ali imobilizada e todas aquelas línguas em consonância a penteá-la para um lado, e depois, se não fica bem no retrato, para o oposto, e nesta ênfase de lhe tirar a fotografia, se for necessário, até lhe fazem a marrafinha. Com um salto de heureca, que faz abanar as carteiras, um menino emocionado, exclama, é o que diz a minha mãe, são as... ai, meu menino, iluminado, bem pode ir dizer uma verdade, mas não é assim que o rastejante consome o gigantesco bicho aprisionado. Mas insiste o miúdo, eu sei, eu sei, que a minha mãe tem razão, ainda que o meu pai lhe diga, cala-te mulher que ainda acabas nessas línguas bifurcadas. Mas, riposta a minha mãe, que não é mulher que se cale, eu falo com essas... ai, meu menino, mais uma vez não, tenha tento na língua, que estamos na lição, pois é professor, é bem capaz de ser verdade, a cara que o meu pai faz é de silêncio, mas tem compreensão e amor. Ah, afinal chegamos a bom porto, tem disto a docência, se deixarmos fluir os assuntos, logo surge matéria que ajuda à conclusão. O que o bom marido insinuou à doce esposa é que não vale a pena interpelar o ofídio durante a digestão.
In 25 de abril sempre (2018)