Meus queridos meninos bem-vindos à segunda lição, que da primeira com certeza vos recordais com emoção, e deveis agora continuar com toda a vossa aplicação. Não é fácil o que vos tenho a dizer, por isso tereis que decorar, sei que sois da escola dos que gostam de entender, mas o que vos tenho a ensinar não é fácil de assimilar. Diz-se na minha terra que ainda tereis que comer muito feijão até lá chegar, e que o saber não se faz apenas de estudar. Sim, sim, eu sei, não fica bem a um professor isto dizer, mas o que é que havemos nós de fazer se não podeis entender. Deixemo-nos de preâmbulos e vamos já ao cerne da lição, que explanar depois tim-tim por tim-tim será a minha segunda missão. Sumariza-se muito bem assim o que vos tenho a ministrar, a consciência é disfuncional, sofre de dislexia, onde por vezes devia estar o tempo de um verbo entra outro à revelia. Vejo bem pela vossa cara que não estais a perceber patavina, fechai por isso os olhos e repeti comigo, a consciência é disfuncional, sofre de asfixia, onde por vezes devia passar o tempo de um verbo entrava-se outro à revelia. Ai, ai, ai, que desafinação que por aí vai, assim não conseguireis obter a aprovação, repeti, pois, mais uma vez, a consciência é disfuncional, sofre com a tirania, onde por vezes reina o tempo de um verbo grita outro à revelia. Que desânimo que desinteresse, já trazeis os olhos por tetos e paredes, olhai para mim meninos, onde está essa sede de aprender, até parece que vos custa a engolir. Ah, ah, agora sim, consegui a vossa atenção, o que vos acabei de dizer, percebeis vós bem com o coração. Come a sopa que te faz bem, já chega de mastigar, não gostas? vá, fecha os olhos, engole, e não quero cá mais conversa. Essa é que é essa, meus meninos, toda a gente engole, e não anda cá com desvarios, engole o rei e a rainha, e até engole a concubina, engole mesmo o imperador, esse rei de reis de olho esbugalhado, que anda no mar sem saber que até cardeal pode ser. E assim, vos digo, porque não haveríeis vós de também engolir? Bem podeis alegar que de peixe não gostais, ou então, pela mesma razão, que tanto o estimais que nenhum mal lhe ousais. Conversas, digo-vos eu sem delongas, vem-vos esse arrependimento, já depois de o terdes saboreado. Mas não penseis que o mal está em vós, nem sequer no que acabaste de deglutir, o mal está na garganta, esse órgão da consciência. Na garganta?, logo havia de durante a lição o professor ensandecer, todos sabem que a consciência está no cérebro ou no coração, conforme a doutrina, mas nunca na garganta, cuja função é de passagem e repentina. Bem dizia meus meninos que o melhor seria decorar, repeti, pois, outra vez comigo, a consciência é disfuncional, sofre da epiglote, onde por vezes devia passar o ar passa a comida a trote. Engasgais-vos, eu sei, e por isso ganhastes medo de engolir, pobre do peixe, coitado, sentis dó agora dele, mas só depois de o terdes mastigado. E para terminar esta lição, já que bem tenho que me apressar, pois está quase na hora do toque, mas não posso finalizar sem vincar algo que também vem mesmo a remoque, quem te manda engolir ama-te. Repeti comigo.
In 25 de abril sempre (2018)