A Susana tem jeito para as palavras. Pega numa folha de papel e vai escrevendo uma a uma, de seguidinha, e, então, para, relê o que escreveu e começa a experimentar, trocando aqui, acrescentando acolá. E há palavras que encaixam muito bem, que parecem estar fadadas para o seu lugar. Estão lá na perfeição. Não no princípio. Da plenitude só se dirá mais tarde, quando elas até já tiverem perdido algum do seu brilho, quando pelo convívio se tenham tornado um pouco como as outras, tenham ido às mesmas festas, partilhado as mesmas companhias, procriado, quiçá, gerando palavrinhas, iniciando uma nova linhagem, uma escola própria, de plagiadores perfeccionistas, que por um dedicado trabalho de polimento definam as regras de um estilo. E não está mal, concordo, também a Susana se delicia a ler os bons espécimes, enquanto interiormente desmonta os princípios com uma precisão matemática, sorrindo, pressentindo como encaixam, por vezes sendo mesmo capaz de antever a próxima, perfilhada, certinha, mas depois chega-lhe um aborrecimento, uma náusea, e diz, foda-se, atira o livro para o chão, e sai a correr de casa, deixando a porta aberta, como quem não tem intenção de voltar. As palavras para que a Susana tem jeito, no princípio são estranhas, ficando mesmo ridículas naquela posição, naquela posição?, nem pensar!, não foram feitas para ali!, é da consonância geral, e as outras, claro, olham-nas desconfortáveis, como se elas tivessem mau cheiro, quem fez este alinhamento, perguntam, que estão elas aqui a fazer, quem as deixou entrar, e gera-se um mal-estar, pressente-se um sentimento de contágio, intranquilidade, que começa por ameaçar as mais frágeis, provocando-lhes arrebates, arfares de peito sob o espartilho, a que as mais conservadoras estão alerta, interpondo um jogo de interpretações que faça regressar a calma à frase, evitando que se faça deslizar os fios de seda pelos ilhós, trazendo cá para fora seios cheios, ansiosos de exposição. Não como os da Susana, que se conseguem esconder na palma da mão, e quando digo palma não digo mão, não sendo os dedos para aqui chamados. Talvez por isso a Susana não seja dada a oscilações do peito, e é com aparente indiferença que intromete as palavras, com uma emoção gelada, filha de um susto, daqueles que provocam arrepios de cima a baixo, paralisam. Ah, Susana. O próprio Afonso lhe disse uma vez, não sem uma ponta de ciúme, tu às vezes pareces possuída pelas palavras. E ele nem sabe bem do que está a falar, como um idiota à porta de um palácio, percebe a grandeza do que tem pela frente, mas não se atreve a entrar. A própria Susana sente que por vezes o Afonso não encaixa bem, mas é realmente difícil comparar quando a droga se intromete com o sexo, nos prazeres não há uma verdadeira soma, a não ser na ressaca, por isso o trouxe para o seu quarto, comprou as doses de heroína, intercalando-as com o sexo, buscando êxtases das ereções e alívios dos chutos, procurando formar frases onde algumas palavras fossem surpreendentes, ainda que fosse por uns instantes, e antes de se tornarem useiras e ter de atirar o livro ao chão.
In 25 de abril sempre (2018)