Anda Romeu azucrinado com dois diabinhos, um em cada ouvido, que à competição, como num fado à desgarrada, vão declamando das suas razões. Nunca os viu, e bem pode virar a cabeça de repente, procurando pôr os olhos onde antes estavam as orelhas, que nem um rabinho lhes avista. Mas que lá estão lá estão, e de uma outra coisa está Romeu certo, um parece ser bom e o outro mau. O bom perfilha a cartilha humanista, pois no seu julgamento a condição humana vem sempre à baila. Já o mau é egoísta e pensa apenas nele, que, neste caso, tratando-se de diabinhos conselheiros, é no Romeu, o que faz com que mesmo sendo um diabinho mau não seja mau de todo. Mas vamos ao que interessa, L’Ancien Régime, a novela interrompida, a enorme injustiça de que se sente vítima Romeu, e agora o esforço colocado na escrita de uma segunda parte, Mistério, com esperança que venha a despertar o interesse dos produtores, mas que continua enguiçada e ameaça nunca vir a sair do papel. E nada melhor para perceber o quanto azoado anda Romeu com estes dois diabinhos do que vos descrever o que aconteceu num pequeno almoço, em que o Alvares, o técnico de imagem, aparecendo como que vindo do nada, puxa à conversa um suposto comentário do Tavares sobre a putativa sequela, mistério, disse ele, Alvares, sobre o que teria dito o outro, Tavares, quando leu o manuscrito, mas isto é uma aventura ou um mistério, nós estamos com atenção, terá assinalado o Tavares. O diabinho mau, que mais parece um garoto com bichos-carpinteiros, ainda não tinha o Alvares terminado e já estava a invetivar o Romeu, este tipo vem à pesca, dá-lhe de comer, vai ficar dececionado se não levar nada para casa. Já diabinho bom procura colocar água na fervura, contrabalançando, diz, repara como ele está em sofrimento, coitado, fala, é verdade, mas não consegue disfarçar a tristeza nos olhos, não nasceu para ser mau. Mau, claro que não, repreende-o o diabinho da mesma qualidade, achas que se fosse mau o mandariam vir aqui, a maldade tresanda a enxofre e este ainda cheira a Johnson, diz com desdém. Estás a ver, até ele concorda que ele não é mau tipo, aproveita o diabinho antónimo, vem de certeza imbuído de um motivo nobre. Eh, eh, ri com escarninho o diabinho antónimo do antónimo, queres ver que ainda vai para o céu. E porque não? Cai na ratoeira o diabinho oposto. Eh, eh, insiste, o oposto do oposto, tal coisa não existe, vão todos para o inferno, a única diferença é que os maus ficam na gestão. Não lhe prestes atenção Romeu, esse filho ilegítimo de Satanás não acredita em nada, se tratares bem o Alvares vais ver que ele irá reconhecer e estimar-te. Qual quê, exclama o outro, se lhe deres o que quer irá de volta convencido da sua nobre missão, e então repararás como a tristeza inicial se transformará num alívio ético, espólio da vitória, senão ficará revoltado com o seu desaire e podes ter a certeza que se sentará à mesa do teu próximo pequeno almoço com redobrada raiva. O Romeu, talvez pela convivência com a sua tia-avó Roberta, não se contém e exclama o que a falta de espaço e o pudor me impedem de escrever.
In 25 de abril sempre (2018)