domingo, 25 de março de 2018

Uma Aventura – Joaninha, Zé, Zalo e Armindo

Era uma vez, começam as histórias, e antes as aventuras começassem da mesma forma. Sentados no chão, prontos a disfrutar delas, sem imprevistos nem exaltações, só para o alimento da mente, o conhecimento do mundo feito de ouvir contar, como se conhece em detalhe um vírus sem o haver contraído, para depois em sonhos nos sentirmos infetados, imaginá-lo a entranhar-se no corpo por uma pequena fissura descurada, até porque esse não é um momento de vigília, e o visualizemos a percorrer as veias, a tocar-nos no mais íntimo, que o sono é uma verossímil desculpa para baixar a guarda. São assim as histórias, tomam-nos o corpo repousado, são o futuro, a omnisciência sem um risco. Não, não, as aventuras não são como as histórias, que o diga o Armindo, que terá de fazer frente ao Mouco, que o diga o Zé, que deve ganhar a confiança da Olímpia, que o diga o Zalo, que tem de contar uma história ao Hilário, que o diga a Joaninha, que precisa de pregar uma partida ao Mouro. De acordo com o planeado, tudo deve acontecer entre as badaladas das onze da manhã e as do meio dia. Só o Zé tem relógio e mesmo que todos tivessem nada substitui a ordem intemporal que vem da torre, diz-se mesmo que houve uma altura em que o lugar andou quinze minutos atrasado em relação à vila vizinha e ninguém deu por nada, para além de uma estranha alteração, narrada pelos viajantes, na duração da viagem entre os dois lugares, que tornaram mais rápida a vinda e prolongavam o regresso. Mas isso já foi há muito tempo, ainda se ia de burro, quem tinha, e todos sabem que esse animal é muito dado a distrações, ora se alongando por frivolidades, ora se lançando no seu passo rápido e curto, um pouco ao estilo de Fred Astaire, a quem a imaginação de um outro zurrar de tal forma se lhe mete na cabeça que não descansa até chegar ao estábulo, onde uma pouca de palha lhe traz de novo o olvido, porque o burro é um animal de obsessões tão fortes quão curta é a sua duração. Assim, ao equídeo foi imputado o crime para poder o relógio continuar a sua soberania. Também no plano concebido pela Joaninha, nada pode substituir este relógio universal, pois também eles, Mouco, Mouro, Olímpia e Hilário, não poderão escapulir-se aos sessenta tiques que lá do cimo da torre marcarão o passar da aventura. Nesse intervalo de tempo, cada minuto deve ocorrer como que marcado por uma batuta precisa e sem desacertos. Ninguém deve falar com ninguém para que tudo possa ocorrer como combinado. Uma sinfonia em que cada instrumento toca sozinho e apenas ao público é dado o prazer da clarividência. E a coisa não é isenta de riscos. Há telefone em casa da Olímpia, e a terra é pequena, percorrem-se as suas ruas, vielas e becos, em menos de meia hora, incluindo as necessárias voltas e reviravoltas, que no desenho da urbe houve mais de partilhas e conveniências que de régua e esquadro. Sendo a Joaninha discípula destes últimos preferiu o relógio ao emaranhado de contingências, e, se tudo correr como planeado, ficará esclarecido que o Pinote não pode ter morto o capitão Simões.

sábado, 3 de março de 2018

Mãe - Armindo

Num futuro não muito longínquo vamos encontrar na rua gente fazendo delicados movimentos com as mãos e, ao princípio, ir-nos-emos surpreender com essa intimidade de trazer por casa assim exposta com a desvergonha de uma distração. Dizem-me que traçarão pequenas órbitas, cheias de carinho, interrompidas para iniciar uma nova ondulação porque o amor não tem fim. Depois, depois também nós nos habituaremos a estar emparelhados aos nossos seres queridos onde quer que estejamos e o trazer alguém no coração passará para as pontas dos dedos, o ténue bafo junto à orelha, a leve palpitação de um olhar, o sinal enviado pelo impercetível interromper de um movimento, ultrapassarão a barreira da distância e o mundo será como um gigantesco ventre egoísta que se coibirá nos expulsar insistindo em aumentar de volume para mais albergar. Ligados, sempre ligados. Estarás sempre comigo mãe, virá um dia a dizer Armindo quando a desmazelada mulher estiver no seu leito com ele de joelhos junto à cama, os cotovelos afundados no colchão, mãos apertadas no topo de um vê invertido, e nessa altura só não verá quem não quer ver, ainda que cada um esteja focado nas suas carícias à distância, e ela cadavérica, não pela hora mas porque sempre o foi, uma mulher precisa de alimento, assim, dado com as mãos, senão não medra, sim, ainda não o disse, o mundo do futuro vai ser feminino, nos antípodas do do Mouco, que nunca teve ouvidos para os seus lamentos, e ela com os ossos como estandarte de carnes fracas, baloiçantes, movendo-se pela casa estonteada como um animal sempre enjaulado a quem foi dado um único vislumbre de uma janela, na distância percorrida entre a casa dos pais e a casa do Mouco, a casa agora dela, e o Armindo de joelhos junto à cama, ele a quem ela aprendeu a temer como ao marido, de um útero tudo pode sair, e saiu um homem, forte e bruto como o Mouco, se amamentar não fosse uma cegueira teria morrido à fome, mas a mama, mesmo pequena, doí, porque quer verter, esguichar, por vezes seria melhor não sermos feitos de carne e osso, de silício antes, seria possível desligar, avariou, chamem a assistência, estamos fechados, voltem mais tarde, noutro dia talvez, se calhar já cá não estou, fugiu com o amante, deixou o filho e o marido desconetados, mas existem impossíveis em que nem sonhar é possível, sempre ligada aos pequenos gestos do Mouco, a sensibilidade exacerbada ao arrastar do pé de uma cadeira, um tremor de terra que lhe abana as carnes, não os ossos, que esses fizeram-se antissísmicos, há quem diga que os ossos não doem, é tudo uma questão de carne, nódoas negras, e foi na carne da sua carne que encontrou a salvação, ouviu-a como ouvia tudo, de olhos descaídos, oferecendo uma face porque ouve mal da outra, como um herbívoro escuta o aproximar de um carnívoro, está-lhes no sangue procurar entender o que eles têm para dizer, até ficarem sem pinga dele, mas naquele dia Armindo fê-la dar a outra fase, olhar alguém de frente pela primeira vez na vida, disse-lhe ele, eu não sou um homem, como o meu pai.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Da turbulência - Joaninha

Vamos agora ao assombro da coexistência pacífica entre o maciço Armindo e o volátil Zalo. Dois seres tão opostos que quando se encontram quase sempre há turbulência. Dela gozam as cegonhas, que de asas desfraldadas ascendem nas correntes de ar que a rocha quente da montanha atira para cima. Por isso, se vos revoltastes com o tratamento de que o Zalo era alvo por parte da trupe do Armindo, digo-vos que o fizestes mais com base na emoção do que na razão. Sereis também vós voláteis? Sim, volúveis, instáveis, inconstantes, inseguros, até mesmo um pouco voantes, volantes e voadores. Sim, o contrário de estáveis e constantes. Ou deverei dizer, não. Não sois firmes, fixos, assentes e seguros. Ah, sentis já o estremecimento que cada uma destas palavras provoca nas vossas entranhas, tirando-vos do sério, atirando-vos para cima. Deixai-me dizer-vos então que vos deixais levar facilmente pelos calores. Porque não sois como as cegonhas que usufruem da matemática da vida, da diferença entre o seu peso e a velocidade do ar que sobe? Vede como se mantêm sérias e impassíveis, como quem vai numa montanha russa apenas a efetuar cálculos, sem um grito nem um esgar. De olhar impassível, quantas operações farão por segundo? Que máquina tão perfeita é uma cegonha e inventámos nós o parapente para nos emocionarmos, eh, tão lindo visto daqui. Sim, também eu tive veleidades de cegonha, tirei as fotografias com duas impercetíveis contrações da íris, mas logo fiquei de olhos esbugalhados, como um aprendiz a quem o mestre nada diz, tempo, necessita de mais tempo, pensa. Mas isso sou eu, pois a Joaninha já tinha as contas feitas. Está lá na fotografia e não vi. Fala com os braços estendidos marcando cada palavra enquanto vai avaliando com os olhos ora no Zalo ora no Armindo, sem se emocionar, que para isso já lhe bastou o pai. É verdade que o Zé fixa o Armindo, como se mantém tesa a rédea de um animal recém-domado, mas acreditar que a psicologia bastaria, que não seria necessária a matemática, é como acreditar que o ar nunca mais pararia de subir e que a rocha continuaria a aquecer, ah é tão lindo isto visto de aqui, ah é tão lindo isto visto de aqui, ah, ah, ah. Não, existe um intervalo no qual o ar sobe e volta a descer, dá um pouco de corda ao Armindo parece dizer a Joaninha, deixa-o estar sem sentir o aperto no pescoço, é verdade que o conquistaste, mas o triunfo é uma cegueira pois é feita de apenas um estado, instável e suscetível, aquele que agora docilmente te lambe as mãos em breve sentirá a propensão de um impulso. O mesmo se aplica a Zalo, o fim do pavor a Armindo seria como deixar de voar e tudo o que planou tem pavor ao aborrecimento terreno. Que Zalo mantenha o receio de Armindo, que Armindo não deixe de ser Armindo, decretou Joaninha. Baixo os olhos como numa celebração e espanto-me porque entre mãos tenho uma terceira fotografia, eu que me recordo de ter apenas duas vezes contraído a íris. Esta é em tudo semelhante à segunda, com o Zalo e o Armindo, mas sem a aura do Mouco nem o peso da anterior, sente-se antes o equilíbrio de uma equação.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Da conquista de um colosso - Zé

Do choque provocado pelas duas contrações da íris, procuro restabelecer-me com a ajuda da matemática e da psicologia. A juntar à inconcebível conquista do Armindo assombra-me também a sua coexistência física neste circunscrito local com o Zalo Aires. Para explicar a primeira recorro à psicologia, para a segunda necessito de lhe adicionar a matemática. E esta ciência dos interiores não parece que se aplique ao Armindo, que está cheio de peripécias inteligíveis, sem nuances, que são como são, de uma tal objetividade que ainda que muitas vezes recontadas não se lhes consegue encontrar um desvio digno de nota. O corpo matulão é assim um excelente objeto de análise objetiva, focada na ação, sem necessidade daquelas apreciações que vasculham seres encolhidos com queda para uma poesia húmida que se declama baixinho em esconsos de personalidade apagada, uma água com anseios de húmus, com a matéria orgânica que se vai encontrando no suor de um corpo redondo, onde a distância que os líquidos têm de percorrer para desaguar nos poros é suficiente para os inebriar de odores, ditos pessoais e munidos de rabiscos com tiques de estilo. Não se podem, portanto, aqui aplicar essas visões intimistas e negadoras da existência das grandes classes categorizadoras da matéria humana com argumento que cada caso é um caso. Pois se o Armindo tem estilo, ele pertence ao grupo dos dois ou três grandes traços que estão deste sempre associados à espécie humana, e que pode ser facilmente caraterizado pela distância que o separa da resolução de um problema, que se noutro pode levar à desmesurada reflexão filosófica, nele é dada pelo espaço que necessita de percorrer para entrar em contacto com a origem da contrariedade. Duas exceções ocorreram, no entanto, em que esse intervalo não foi galgado, e de ambas fostes testemunha, Armindo quedou-se imobilizado, enrubesceu, começou a emitir calor e, quiçá traído pelo corpo, internamente foi vítima da segregação de líquidos com tiques pessoais e não de espécie. Nunca digais que desta água não bebereis, estávamos aprontados a seguir pela análise clara, norteados pela ação, e eis que agora nos vemos na iminência de cair no abismo do intimismo, essa caverna onde as qualidades caseiras se cozinham com os piores ingredientes, resultando num guisado espapaçado que tolhe o apetite e se engole por misericórdia. Mas as coisas são como são, e existem de facto tendências inatas. Não sei se foi pelo cheiro, ou de uma outra forma puramente intuitiva, que o Zé sentiu o calcanhar de Aquiles daquela catapulta pesada, que por entre as cordas e o braço lançador, tudo trambolhos pouco refinados, existia um animal que se deixava conduzir com doçura. Ainda assim foi necessária coragem. Todos estendem a mão quando sabem que o cão é manso, mas o Zé conquistou o colosso quando sobre ele tudo era epopeia. Duas conquistas numa só, pois o triunfo desperta a inveja e o amor, e, ainda que ambos venham mascarados das mesmas manifestações de admiração, mais tarde ou mais cedo revelam-se, e no caso do Zé foi mais tarde.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Das vantagens da fotografia - Clube

É clara a vantagem da fotografia sobre a pintura, ainda que esta última seja mais prestigiada, protagonizada por artistas de pincel baloiçando da mão, enquanto os olhos se fixam ora para fora ora para dentro, conforme professem um estilo mais realista ou mais abstrato, sendo a diferença de escola caraterizada pelo tempo que permanecem em cada um dos estádios, em que o de menor duração pouco contribui para a obra, foi desenhado a pensar no artista, com o objetivo que faça um rápido teste de realidade. É assim, todos as ordens vêm munidas destas válvulas de segurança, tanto mais meticulosas quando mais elaborada se tornou a técnica, mais enredada em si própria, sim, particularmente a realista, capaz de conceber corpos monstruosos que nenhum ser humano digno desse nome alguma vez imaginou e cujo vislumbre arranca risos do demo, até porque nenhum rei vai nu. Por isso vos asseguro, a fotografia é imensamente superior à pintura. Primeiro, não necessita de pincel. Segundo, não obriga ao vai e vem do olhar. Terceiro, é precisa na captura da realidade. Debruça-se um homem sobre a máquina, carrega num botão, e já está. Não vou, portanto, pintar a primeira reunião do clube, prefiro tirar-lhe a fotografia. Fico estático por uns momentos, para não sair tremida, olhos bem abertos, pois a luz não impera dentro do casebre, e contraio a íris não uma, mas duas vezes, para poder depois escolher a que ficou melhor. E, tendo sido tiradas tão de seguida, as únicas diferenças deverão ser puramente técnicas, influenciadas por um pequeno oscilar da mão, o súbito movimento de uma nuvem lá fora, ou um relampejar de neurónios que provoque uma ténue mudança de semblante. Coisas pequenas, é certo, mas que numa fotografia fazem toda a diferença. Pois tal como o fotografo se debruça sobre a máquina, também depois o olhar de cada um dos fotografados se verte sobre a fotografia para se certificar da sua fidelidade à realidade exposta. Vamos então a uma delas, não sei se a primeira ou a segunda, pois a memória entregou-me as sem a indicação da ordem, nela, dos principais figurados, nada surpreende, a Joaninha foi apanhada a falar, curvada para a frente sobre as pernas cruzadas no chão, à sua esquerda, encostado a um barrote, o Zé fixa o Armindo que continua com o tronco hirto, ignorando a exiguidade do espaço, e é neste ponto focal que sou assaltado por um sobressalto, por detrás do Armindo está a figura do Mouco, difusa é certo, mas a meia lua no topo da orelha é indisfarçável, dá-lhe um ar ameaçador, o que nesta reunião com indícios de conjura incute um peso que perpassa todos os restantes figurados. Não caibo em mim com o que vejo. Como não foi isto o que testemunhei no momento em que me debrucei sobre a câmara? Também nisto é a fotografia superior à pintura, prefere a realidade ao criador. É com mãos débeis que puxo da outra, não sei o que procuro, mas a busca da tranquilidade está pespegada de movimentos inúteis. Nesta, tal como na anterior, continua presente o Mouco ameaçador, e é quando afasto os olhos com desalento da sua figura carcomida que vejo, entre a Joaninha e o Zé, o Zalo Aires.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Das vantagens de se pertencer a um Clube - Joaninha, Zé e Armindo

Mais uma vez, devo começar com um reparo sobre o título. A palavra se. Pois desconfio que a lestes como pronome pessoal, como pertencer-se a um clube, como se descreve nas brochuras de angariação de sócios, escritas com o único intuito de aumentar as hostes, essencialmente os incautos, e quantos ingénuos pertencem a clubes apenas para lhes dar corpo, sem nunca chegarem efetivamente ao caroço, ao âmago, mas se a lerdes como conjunção, e se com propriedade pertencerdes a um algum clube decerto a tereis lido dessa forma, pois é para mim certo e sabido que, assim sendo, não andareis neste mundo com os olhos fechados, nesse caso, bom nesse caso, peço-vos para vos irdes embora deste texto, e faço-o por duas boas razões, a primeira é que já sabeis o que aqui se irá escrever e por isso podeis gastar melhor o vosso tempo a fazer outra coisa qualquer, sei lá, ide jogar xadrez, entretende-vos com peões, cavalos, bispos, torres, rainhas e reis, estes últimos de incalculável valor, ainda que só consigam dar um passinho de cada vez, como uma delicada gueixa, a segunda, porque me entedio de escrever para vós, agoniam-me as táticas e as estratégias, tudo muito posicional, muito estático, cheio de disposições, e acordei hoje com vontade de escrever sobre árvores, regatos, casebres e pedras de granito que nos rendilham as nádegas quando nelas nos sentamos, comunicando-nos pela parte menos nobre o estado da mãe terra, debitando-nos pacientemente para o corpo calor ou frio, conforme a estação do ano, e, neste mecanismo de desapego eletrostático, nada melhor do que ir olhando para as árvores dispostas em xadrez, intrometendo-se no acesso ao casebre, tornando penoso o progresso em sua direção, e porventura, quase sem querer, reparamos que escasseiam por alturas deste, quando se impõe a encosta do monte onde ele se empoleirou solitário, talvez porque o criador é do tipo aventureiro e descurou a retaguarda, tenha sido por entusiasmo que lançou a bolota para a frente, na sofreguidão que carateriza a procriação, ou tenha sido por falta de amor, e nada melhor que a guerra para justificar a ausência do leito, porque entre um casebre em ruínas e uma gueixa vai uma indisfarçável diferença de carga, ainda que ambos tenham já visto tudo, mas, qualquer que tenha sido a tática ou a estratégia, e não me vou perder agora no esmiuçar das diferenças, o que é certo é que a calvície prematura na cabeça com coroa derreada pode ser um estratagema, engendrado com algum sacrifício, uma entrega, como uma oferenda aos deuses destinada a obter o favor das próximas jogada, senão quando, vemos dirigir-se para o casebre, cada um à sua vez, primeiro o Zé, como um cavalo ligeiro e um pouco nervoso, fazendo repetitivos acenos com a cabeça, como quem vai a pensar, não a saudar, dando duas voltas ao casebre perscrutando ao horizonte, com ele ainda cá fora sobe encosta acima o Armindo num movimento lento e retilíneo, caminha como que hipnotizado, talvez emparedado pela carga e, finalmente, chega a Joaninha, ziguezagueando, destra, em direção a eles, como uma rainha. Qual será a senha?

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Retrato psicológico de um - Caramelo

Sei que o título tem tiques humoristas. Eminentemente visuais, dados pelo travessão que procura atirar o Caramelo para fora da frase, pudesse eu, pontualmente, adotar a forma tategaki. Sei também que já antes vos foi dado um retrato psicológico de um caramelo, endereçado ao Mouro pela voz do Hilário. Se não tendes presente relembro-vos, aquele em que se exalta a dissolução provocada pelos sucos salivares. Sei ainda da ironia dessa situação, em que o Pinote é caramelizado por forma a embrulhar o Mouro com um lindo papel colorido, capaz de fazer salivar uma criança. Notai a circularidade do processo, do húmido ao seco e de volta ao húmido, não fosse o Hilário um alquimista do quotidiano. E, se ficasse por aqui, seria um retrato neorrealista, puramente mandibular, como aqueles em que as pessoas sorriem com desmesura, onde o traço se faz dos maxilares para dentro, da forma física para a textura psicológica, do todo para o detalhe, descrevendo o que acontece a um caramelo quando se coloca entre os dentes. Prefiro, contudo, traçar o Mouro de outra forma, de dentro para fora. Sei que não é uma abordagem utilitária e tem tendência a encabelar-se nas narrativas, esquecendo os fins. Mas eu não consigo deixar de olhar para o Mouro com alguma ternura. E o que é a ternura senão a vontade de passar a mão pelo pelo, e depois disso todas as desculpas são possíveis, todos os defeitos são compreensíveis, engraçados até, vistos como tiques de personalidade, sinais que não incomodam. Gosto do Mouro, é senhor dos seus humores, húmidos e frios, segundo a formulação clássica, mas que aqui, neste ermo do império temperamental, ganham a forma vulgar, aquela que troca o frio pelo lento, que é a melhor maneira de resistir aos calores. Gosto do seu arrastar previsível de argumentos, da sua lengalenga entediante, não pelo que ela diz, mas pelo que me provoca. Se a preguiça é um pecado capital, o deixarmo-nos enlaçar pelo torpor é divino. Gosto sobretudo das suas fraquezas, aquelas que o põem a falar, dos pequenos arranques que o tiram da inércia de máquina adormecida. Desculpo-lhe o favor que fez ao Hilário pela extraordinária interlocução com o porco, pois sei que separar um do outro é ter nenhum. Ambos irrompem como um soluço e abrandam de seguida, voltando o Mouro ao estado inicial de uma máquina sem memória. Assim se explica a sua suscetibilidade à pressão, a facilidade com que se aviva, esbraceja e atira uma resposta. Tem por isso a Joaninha a missão simplificada, até porque o próprio Mouro se enternece pelo destino da pequena. Mas, para o completo retrato de um caramelo é necessário juntar os dois pontos de vista, o do Hilário e da Joaninha, uma vez que no segundo se alimenta e cresce o caramelo para ser tragado pelo primeiro, num movimento inicial de dentro para fora seguido de um movimento oposto de fora para dentro, como se pode observar numa qualquer série sobre a vida animal. Por isso, quando Joaninha lhe perguntou sobre o que sabia acerca da prisão do pai, o Mouro encostou-se à parede e respondeu naa.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Da arte de bem atirar – Armindo

Nada pode selar melhor um início de amizade do que um ato de generosidade seguido de um outro de compreensão. Comigo foi o mesmo, disse-lhe o Zé. Armindo sentiu derreter o corpo enorme, um calor subiu-lhe pelas pernas acima, apropriando-se da cabeça, deixando-o num estado turvo para o qual não teve nenhum tipo de preparação. Era a segunda vez que se deixava baralhar por insignificâncias, e tudo na mesma semana. Por razões diferentes é verdade, mas em comum, em ambas, sentiu vontade de abraçar quem tinha pela frente. Conteve-se. Não era rapaz para mariquices. Tinha uma reputação a manter perante a trupe que o olhava com uma atenção mediada pela interrogação. São estas situações que podem catapultar um chefe para a aura que será eternamente recordada, lembraste quando o Armindo se virou para ele e, ou, então, lançam as sementes da desordem, quando se começa a remoer das capacidades do chefe, sentindo-se a estripe de traição que resulta da desilusão, antecâmara do colapso, em que cada qual ao descrer do chefe se acha especial. Homem mesmo seria desdenhar da escopeta, fazer dos seis falhanços prova provada da sua inutilidade, dar um piparote no Zé e pô-lo a correr dali para fora à fisgada, mostrando a superioridade das artes tradicionais sobre as modernices do tiro de flober. Mas Armindo não estava para aí virado, e, tendo deixado passar o momento, deu a vez ao Zé que se ofereceu para o industriar na arte de bem atirar. Foi uma voz débil que assentiu perante uma audiência de boquiabertos rapazes de fisga descaída, com o elástico a baloiçar a descontento. Elásticos empoeirados todos, alguns já a necessitar de substituição pelas mordidelas sofridas de pedras mais pontiagudas que aproveitam o puxar do elástico, o refinar da espessura, para deixarem a sua marca. Se o descalabro de um exército perante o olhar dos seus generais é horrível o desconsolo dos soldados perante a renuncia daqueles que os comandam é um momento de uma beleza lírica capaz de encher salas. Filas de rapazes de calções, rotos, remendados, de olhos encadeados pela luz de palco enquanto o Zé ajuda o Armindo a encaixar a coronha no ombro, lhe diz para não fazer muita força, apenas a suficiente para lhe tirar o peso dos braços, para vencer a tendência para descair, passar-lhe o carrego do chão para o ombro, que coloque os pés em paralelo, um atrás e o outro à frente, torcendo o torço, numa leve reminiscência das gravuras dos antigos egípcios, posição de uma inegável presença cénica, que encoste levemente a face à madeira, sentindo-lhe o cheiro à medida que vai procurando a mira com o olho e o dedo tateia em direção ao gatilho, mirando o alvo através da argola com o piquinho no meio, alinhando este como outro lá na ponta do cano, e agora fazer pequenos movimentos com os braços, bailando o cano em volta da lata, como quem faz a assinatura antes de fazer a obra, e por fim, diz-lhe o Zé, que sustenha a respiração para que o movimento do dedo sobre o gatilho aconteça no mais completo vácuo, e o Armindo faz a lata soltar um lamento que desencadeia o coro dos rapazes tristes.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Mouro – Joaninha

O Mouro é castanho e tem uma forma engraçada de falar. O som abafado de palavras que sem sucesso se debatem para terminar, como se uma força se agarrasse aos dentes impedindo-os de se afastarem em demasia, trazendo-os de volta à palavra seguinte, produz um falar em surdina inacabada. É assim que Joaninha se recorda dele. Aos serões, sentada ao colo da mãe, no banco de pedra do lado de fora da casa, ouvia aquela que considerava por excelência a conversa dos crescidos. Percebia pouco. Percebia que se falava do pai, ainda que nunca o seu nome fosse pronunciado, e, juntando tudo, concebia que de um grande mistério se tratava. Porquê? A importância do assunto. O resguardo que lhe era devido. E, sobretudo, o linguajar do Mouro que vertia uma espécie de código que, acreditava, apenas os iniciados terem a chave. E isto dito com propriedade, pois eram frases cheias de inícios de palavras, sem vírgulas nem travessões, que ele pausadamente colocava umas atrás das outras. A mãe percebia, e ia assentando com um acenar de cabeça ou um olhar que com o tempo se tornou mais vago, fosse porque as saudades se metafisicam com o prolongar da distância, fosse porque a conversa repetida é desfocada como o eco, fosse porque se foi enfastiando dos ditos e dos não ditos do Mouro, não sei. Fosse o que fosse, o Mouro não parecia dar por nada, talvez devido ao seu apego às coisas terrenas, manifestado naquela mania de falar com os animais, ou porque o que falava era determinado pela urgência do momento, ou porque a lentidão que imprimia ao que dizia permitia o esquecimento. Mas para Joaninha isso não era problema, não lhe percebendo o conteúdo podia encantar-se com a solenidade da forma, e aí as repetições são soberanas, vão da ansiedade da antecipação à emoção da confirmação. Por isso, foi aprendendo a lengalenga de cor, apreendendo o Mouro de forma puramente sintática, como o diabo rouba a alma a um homem. Quando anos mais tarde resolveu perceber o que estava por detrás da celebração, o que o Mouro efetivamente prenunciava, partiu em vantagem. Já sabia que o Mouro era um caramelo, que debaixo do seu ar escorreito e falador estava um corpo amalgamado e suscetível ao calor. E não era difícil encontrar o Mouro, o apetite pela conversa trazia-lhe o gosto da rua. Quando se cruzavam trocavam a saudação, boa tarde Sr. Mouro, bo tard Joan cumprim tu mã, dizia encostado a uma parede caiada. Mas naquele dia, Joaninha ia decidida a entabular conversa, e tirando partido da visível moleza em que o Mouro se encontrava, aquela que é dada pelo sol matinal de novembro depois uns dias de frio e chuva, disse-lhe, sabe, tenho saudades de quando nos visitava à soleira da porta, j lá va tem, respondeu o Mouro entre o surpreendido e o deliciado, num movimento lento de lagarto, te notí de te pa, não resistiu a perguntar, sim, tivemos carta esta semana, ele pergunta por vossemecê, o corpo de Mouro, seja pelo calor do sol, seja pelo inesperado da notícia, arqueia enquanto pergunta, q di ele?

domingo, 31 de dezembro de 2017

Da Fisga a Flobert – Armindo

Educai os vossos moços na fisga, serão exímios na lança, pode-se ler num tratado da Grécia Antiga sobre a formação da juventude. Quando pela primeira vez encontrei esta citação não queria acreditar. Pareceu-me conter duas imprecisões que a esvaem de credibilidade, a primeira de ordem social e a segunda de ordem técnica. Debrucemo-nos primeiro sobre a segunda. Estareis de acordo comigo que não é de todo verossímil que no manejo da fisga se possam desenvolver as competências requeridas pela lança, e, contudo, de facto não é esse aspeto técnico a que me refiro, mas sim a que na Grécia Antiga não haveria fisgas, dado que um dos seus constituintes principais é a borracha. Mas a dúvida instalou-se em mim quando me ocorreu que talvez o tradutor, procurando dar uma tonalidade mais atual e apelativa, tivesse preterido a palavra funda, que seria mais fiel, pela de fisga, capaz de provocar uma imagem mais consonante na imaginação do leitor moderno, transmitindo com maior eficácia a intenção da frase. E é assim que também através da segunda chego à primeira imprecisão, a de ordem social. Suponho que já na sua origem o dito enferma dos problemas técnicos que refiro, agora não os linguísticos, mas os do uso e manejo de armas, e que eles são propositados. Senão vejamos, a funda é uma arma menos nobre, historicamente associada a pastores, usada contra animais e nas suas refregas pessoais, enquanto a lança está destinada ao uso da aristocracia e com ela se traça a história, senão vejamos todos os corpos traçados por lanças na Ilíada. Ocorre-me assim que talvez esta citação seja uma das muitas reformulações de uma mesma estória de que a história é feita, e que terá um dos seus expoentes na formulação Bíblica de David e Golias, em que o primeiro com uma simples funda e meia dúzia de pedras derrota o poderosamente armado Golias. Tem este introito o único objetivo de dar alguma universalidade ao que aconteceu naqueles meados dos anos sessenta em pleno Alentejo. Desconfiando, ou não, do caráter intemporal que os pequenos gestos podem ter, sai o Zé armado da sua flober em direção a um descampado onde sabia de antemão que o Armindo e o seu bando se dedicavam à prática do tiro de fisga. Não se enganou, pois quando lá chegou estava Armindo chefiando um exercício de acertar em latas velhas que, por lhes faltar a carapuça, se encontravam a amofinadas por todas as pedradas que levavam. Dois aspirantes situavam-se do lado de lá do muro onde as latas assentavam com a responsabilidade da sua reposição rápida, o que faziam de uma forma brusca, levando a supor algumas situações de imprecisão de tiro ou falta de organização. Do lado de cá o Armindo dava instruções sobre a arte de bem fisgar. Zé fez-se distraído e passou com a flober ao ombro tão junto ao grupo que foi impossível a Armindo inibir-se de pedir para experimentar dar um ou dois tiros. Claro, disse o Zé, passando-lhe a arma para a mão e meia dúzia de chumbos que Armindo colocou entre os dentes. Seis vezes se fez silêncio e em todas elas o Armindo falhou.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma Pista Doce – Mouro

Quando foi da prisão do Pinote o Mouro várias vezes procurou Deolinda com intenção de ajudar. A intenção era boa, mas um pouco baralhada, pelo menos é assim que Deolinda a descreve. Agiu como amigo que era de Pinote e contudo pressentia-se uma hesitação. O Mouro tinha sempre uma achega de sua justiça a tudo que se dizia. Se por acaso se comentava que o casebre não tinha sido um bom local para Pinote se esconder, logo ele intervinha para dizer que não, que não havia outro como aquele, suficiente perto para ter o apoio da mulher e suficientemente longe dos caminhos mais calcorreados. Mas, se por ventura, se estranhava como teria sido possível terem sabido onde se ocultava, logo ele aventava que por aquelas bandas ninguém consegue estar muito tempo sem ser dado por visto, então o Ti Zé Ramires não foi encontrado morto lá para os lados da zurze, exemplificava, onde nem animal vai, e defunto como estava de certeza que Ti Zé não mexia nem mugia, vincava com os elementos bucólicos que, nem ele sabia porquê, enfeitavam a sua prosa, e lá deram com ele quando ainda não há muito teria arriado, tal que ainda nem os filhos tinham mostrado sinais de preocupação e já tinham o corpo do progenitor à porta para devolver à terra mãe. E lá ouvia Deolinda o Mouro, um pouco estupefata com a resposta pronta para as questões referentes às ocorrências que levaram ao encarceramento do Pinote. O Mouro colocava no tratamento deste assunto a mesma argumentação atrapalhada com que foi apanhado pelo Sr. Morgado. Não é que ele estava a falar com o porco, estranhava o Morgado, sem ironia nenhuma, que era homem pio e austero, pouco dado a imaginações. Mas nem todos são assim, e lá na terra zombava-se que o Mouro teria desenvolvido poderes de falar com os animais, e por isso, se tinha escapado a um destino pior foi decerto porque o porco intercedeu por ele, que o Mouro não lhe teria querido fazer mal, e que de certa forma até lhe estava agradecido pela companhia, que passar a noite sozinho na pocilga é um aborrecimento, e uma visita é uma visita. Salvo pelo suíno, galhofava-se. Mas menos certa disso andava Deolinda. A mulher de Pinote, depois das várias intervenções atabalhoadas do Mouro, e da confissão que o Aires lhe fez sobre a conversa da Marquesa, e do rumor que se dizia o Mouro ter lançado da boca do Pinote sobre a intimidade desta última, deu-lhe para juntar um mais um e mais outro, para concluir que o Mouro sabe coisa. Passou a recebê-lo cada vez mais em silêncio, de tal modo que este, sentindo que a nascente onde se alimentava secava, foi espaçando as visitas de tal forma que passado pouco tempo já não era aparecido. Deu graças Deolinda, que não era mulher de ressentimentos, mas a quem, devido ao resultado da soma, a presença do Mouro passou a criar uma sensação de mal-estar no estômago, daquelas que provocam úlcera. Nos serões, quando à noite à porta de casa a filha lhe perguntava sobre o pai, a mãe lá lhe ia dizendo que o Mouro tinha sido um caramelo.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Uma Pista Difícil – Mouco

O Mouco não gosta de crianças. Quando as vê corre logo com elas. Aquilo nem aproximar, levanta a cabeça do chão, puxa o braço acima, cotovelo e mão à mesma altura, não se percebe se como ameaça, se para proteger os olhos dos raios do sol, e rosna, arre daqui. E é no rosnar proferido com uns olhos faiscados de vermelho que fica claro, o Mouco não gosta de crianças. E não deitem a culpa à bebida, coitada, que tem a costas largas. Na taberna do Manel encontram-se bêbados bem ternurentos. Sempre na brincadeira, trocando trocadilhos de camaradagem. É claro que às vezes as coisas azedam, há desafios que se transformam em desaforos, isso sim, o álcool é o responsável pelas derrapagens, mas nada que possa desresponsabilizar o Mouco do seu fel. E nem sequer é coisa que compreenda, quando não bebe sente aquele frenesim, e depois de beber fica na mesma. Não exatamente na mesma, senão de que serviria beber, é um frenesim ao ralenti e isso faz diferença, como uma forma de consciência. Nesses momentos o Mouco sente-se como o protagonista de um filme, enquanto corre atrás do Armindo em volta da mesa está também sentado na plateia, lá bem na fila da frente, com o ecrã a entrar-lhe pelos olhos adentro, a observar-se, como um cavaleiro engalanado pondo em debandada um grupo de inimigos. Por isso, quando levanta o braço e expele para os garotos, arre daqui, fá-lo de modo tão contundente, tão cénico, que já se sabe que o melhor será guardar distância. Sendo o Mouco uma pista, não é, por conseguinte, uma pista fácil, pelo menos não como aquelas que se encontram na neve fofa, feita de peugadas, seja de botas, de cavalos ou de pneus, e que se pode docilmente copiar para uma folha de papel. A Joaninha contou ao Zé que foi o Mouco que agrediu o pai dentro da prisão, e não os guardas na sequência da sua fuga, como se disse nos jornais. Quando o Pinote encontrou a porta da cela aberta já tinha levado a zurra do Mouco e foi muito a custo que se arrastou pelos corredores da prisão até ser de novo apanhado. O Mouco deve saber alguma coisa. Quem é que o chamou à prisão quando o Pinote foi preso? O Zé anda às voltas com isto. Como saber o que sabe o Mouco. É verdade que na taberna ele se vangloriou naquele dia, mas nunca disse quem foi que o lá levou. E isso foi nessa altura, porque com o desenrolar dos acontecimentos a bravata desapareceu do currículo oficial do Mouco, passou a fazer parte apenas de um ligeiro cerrar das pálpebras, acompanhado por uma propositadamente impercetível contração dos lábios. O Zé já perguntou ao Manel se sabia de alguma coisa, mas ele fechou-se como uma ostra, o molho por fora apetitoso e ela cerrada, de dentes que nem à faca se conseguem abrir, não fosse o Manel um taberneiro, trabalhando no ramo das profissões onde juntamente com o produto vendido vai a presteza para ouvir, concordar e calar. Mas o Zé não é rapaz para desanimar com dificuldades, independentemente do seu tamanho, e ocorreu-lhe que o Armindo pode saber algo.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Clube – Zé e Joaninha

Pertencer a um clube tem o seu quê. Não àqueles cuja admissão apenas requer a convicção, mas aos propositadamente faltos de espaço. Normalmente meia dúzia de cadeirões de pele numa sala impregnada de madeiras, castanhas escuras quase sempre, tenho que carregar nos plurais para descrever com precisão o tom carregado destes lugares. Clubes onde não se vai para falar, mas sim para trocar umas esparsas palavras, de uma íntima circunstância, como quem convive com um parente há muito amado e morto. Tudo o demais acontece com cada um na sua aura, folheando longamente o jornal, no vagar de quem o que possa acontecer no mundo já pouco ou nada lhe diz respeito, a não ser para uma observação curta, dita para dentro ou para o cadeirão ao lado, carregada de uma confirmação que nem sequer pode ser cínica, pois os que por ali assentam nunca chegaram a desacreditar das convenções sociais. Lugares conservadores por natureza, onde a leitura de jornal é como um sossegado jogo de paciência em que com cada notícia se preenche uma entrada na ontologia que descreve o universo. No caso do Pinote não podia ser mais simples, agitador mata capitão responsável pelas forças da ordem, diz-se no título principal, seguindo-se, a letra mais modesta, a indicação que foi durante uma tentativa de fuga que se deram os factos. Já no fim da notícia se informa que o indivíduo, de alcunha Pinote, muito embora tenha oferecido resistência, foi rapidamente detido pelas autoridades e que terá ficado ferido com alguma gravidade. Está a acontecer, diz um membro ao fundo, por entre as folhas grandes do jornal que segura com mãos brancas, de dedos compridos salteados por pelos tranquilos. A observação é tão certeira que não surte nenhum comentário. Não para de chover, observa o Zé para preencher o silêncio que se criou no casebre desde que chegou. As chegadas inesperadas dilatam o espaço, mas não de forma uniforme, dão-lhe um jeito alongado do lado do que chega à custa de uma contração no sítio do que estava, provocando incómodo a ambos, ao primeiro, a sensação de ligeiro resvalar no sentido oposto ao movimento de chegada, e ao segundo, uma tração sem explicação em direção ao chegado. Ou seja, o imprevisto provoca um deslocamento, o que neste caso nem pode parecer surpreendente dado o estado do casebre, descaído de um dos lados. Assim, se quando Joaninha ali se arrumou parecia que não caberia mais ninguém e todos os ruídos eram próximos, agora com o Zé sentado ao seu lado o interior do casebre afunda-se, para além da porta, até à janela triangular, e os sons da água a bater nas traves quebradas mal se percebem ao longe. Sim, quando eu cheguei estava a começar, confirma Joaninha, é capaz de ainda demorar um pouco mais. Ficam assim a olhar pela porta resignados a que a borrasca passe. O teu pai não é o Pinote, não resiste o Zé a questionar, não tirando os olhos do branco aberto pela porta. Se Joaninha respondeu ou não, não sabemos, pois nesse momento a chuva disparou em tal saraivada que o melhor é calar e ficar à escuta.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Casebre – Joaninha

Se quisermos descrever um lugar no Alentejo, então o melhor será utilizar o outono como pano de fundo. Assim, escapamos aos estereótipos do estio, da acalmia, dos silêncios afogueados. É quando dois nomes nada parecem ter a ver um com outro que o seu cruzamento nos pode trazer algo de novo. Há, por isso, duas formas de dizer. A primeira, preguiçosa, é como um insulto, feito de uma única palavra, na certeza de abrir um dicionário do outro lado. Desta se fazem as exaltações para fora e por sua cautela se inventou o politicamente correto. A outra, lânguida, revela uma entrada em branco, produz um instante de vazio, como o momento em que água ameaça lançar-se num pulo. Desta outra se fazem as exaltações para dentro e por sua cautela se criaram os grémios literários. É por isso que vos descrevo no outono o casebre alentejano onde Pinote se escondeu há mais de dez anos atrás. Sabemos que esteve lá com o verão, tão dado a contemplações, não como imperativo metafísico, mas como uma estratégia de contenção do suor, feita de movimentos pausados. Sabemos que foi isso que fez durante o dia, mas que de noite se entregou a conversas com a natureza, argumentações descabidas, a não ser que venham a ser apresentadas como fontes de profecias e encontrem algum seguidor. Não foi esse o caso, até porque não sabemos o que se transacionou e para encontrar num sapo alguma manifestação do divino é necessário regressar a tempos mais primordiais. Portanto, um casebre. Derrubado, quase todo ele. Telha chapada, enegrecida pelo calor. Janela triangular, pela fraqueza de uma parede. Traves em vê, com espigões secos de revolta. Branco tingido, pelo azul dos rodapés. A laje poeirenta, onde Pinote se deitou. Podia ter-se transformado numa ermida. Daquelas aonde se vai em romaria durante uma tarde quente de verão à procura de vinho fresco do barro e conforto na ordem existente. Mas isso é no verão. O outono é áspero. Quem por aqui vem é a Joaninha. Não teme o azul escuro cinzento, que atormenta dos céus. O vento que se levanta rápido, trazendo o cheiro a chuva. Põe a capa e diz à mãe que já volta. Quando se afasta já as mulheres estão a tirar a roupa dos arames. Não faz o caminho do Aires pois o ribeirão já leva água. Ainda assim, tem que saltar por entre rochas pontiagudas, que por aqui a chuva é de visitas brutas que não amaciam pedras. Quando chega junto do casebre, as escassas pingas grossas, que voam oblíquas puxadas pelo vento, reduzem o espaço de permeio. Rapidamente se abriga de pernas cruzadas sobre a laje. Ajeita uma ou duas telhas para impedir a entrada da água. O vento entra pela janela triangular e escapa-se pela porta, fazendo uma tangente ao corpo de Joaninha. A água escorre das telhas molhadas para cima das traves quebradas, enchendo o casebre dos cheiros quentes do verão acumulados na madeira. Uma atmosfera de estufa que é por rajadas empurrada para fora. O repentino aumento do ruído da água a correr no ribeirão leva Joaninha a desviar a atenção das traves ensopadas, quando enfrenta dois olhos molhados e um bafo quente que pedem para entrar.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Nabo – Zé

Pode-se gostar ou não, mas nabo sabe a nabo. O resto, as repulsas e as delícias, é já uma questão cultural, e, como tal, uma questão de grupo. E o avô pertencia ao grupo dos homens formados na clareza de espírito, que cultivam uma ligação direta entre a mente e o corpo, sem rodopios, como quem tem um carro para se deslocar de um sítio ao outro e não para fazer piões. Com essa máxima montava o diapasão com que orientava a formação educativa do neto. Com este, procurava provocar ruídos bem pautados, nos antípodas do chiar da borracha do chão. Naquele tempo, quando já se ouviam uns zunzuns sobre outras possibilidades, do esbanjar da existência em curvas e contracurvas efetuadas para não chegar, e, mesmo sendo um progressista, não podia deixar de mencionar de si para si, que o Dr. Galvão cultivava a discrição com uma quase religiosidade, que estava a ficar velho. Nisso têm os conservadores vantagem, nunca se podem sentir atraiçoados pelo tempo. Assim, pode-se ler no ritual do nabo um processo formativo, no qual, consciente do fosso criado pelas diferenças de idade, o avô simulava os ruídos a que não achava sentido, raspando a fibra do nabo no esmalte dos dentes, para extrair sucos límpidos, sem voluptuosidade. Numa frase, efetuava malabarismos de juventude com bolas antigas. Podeis achar rebuscado, mas de igual modo se pode ler na pressão de ar o mesmo máximo cuidado, uma precisa delineação geométrica entre o gatilho da espingarda e o corpo do pássaro. O Dr. Galvão era um liberal de linhas diretas, e não é que não tivesse os seus vícios, os charutos que partilhava com Sr. Marquês, por exemplo. Mas a república é plural, e no seu panteão jaz a tolerância de muitos deuses, sendo missão do homem experimentar as várias roupagens com que se pode cobrir. O que ele verdadeiramente temia era o oblívio prematuro, a vida numa única veste. Por isso o nabo, que despe a boca de sabores. Mas nabo sabe a nabo. E se para o avô havia uma espiritualidade racional no seu exercício, para o Zé, objeto da pedagogia possível, ainda que cuidadosamente elaborada, o nabo sabe a isso mesmo. Foi esse o gosto com que ficou na boca, tendo-o assaltado uma dúvida forte, porque é que os avós não disseram nada, já saberiam que não tinha sido o Pinote, ou desviaram o assunto por ele ser delicado. Como vedes, na altura o Zé já vivia com interrogações, mas era então mais dado à procura de respostas. Começou a fervilhar por dentro. Sentiu-se investido da responsabilidade de que foi empossado. Era igualzinho ao avô, disse a avó. E a questão do Pinote não era alheia à família Galvão. Ouviu uma vez na taberna do Manel, enquanto este passava os pássaros por um fio de azeite quente, o Mouco dizer entredentes, para que ouvisse, olha, olha, o netinho do defensor do Pinote, o que perdeu o pio. Foi assim que foi sabendo da história que se contava baixo, porque o Hilário tem muitos ouvidos, de um Pinote que não tinha medo de ninguém, que enfrentou o Hilário e que o avô o defendeu em tribunal da acusação de ter morto o Capitão Simões. O Pinote haveria um dia de regressar, dizia-se.

sábado, 25 de novembro de 2017

Avô – Avô

Quem foi então que matou o Sr. Capitão Simões, perguntou inexpressivo o avô, enquanto mordia ruidosamente um pedaço de nabo. Digo inexpressivo, pois o nabo ao sentir-se apertado liberta uma água adocicada, rica em sais, que enche a boca com o sabor das nascentes de montanha. Um gosto frio a seixos ladeados de bolhas de ar, na eminência de serem empurrados encosta abaixo, devido a um súbito aumento de caudal, como aquele que agora brotava dos dentes do avô, pelas gengivas, tombando sobre a língua, circundando momentaneamente por debaixo desta, numa pequena lagoa onde o Dr. Galvão especialmente se concentrava para sentir o suco ainda gelado e relativamente livre de saliva. Era apenas quando estas glândulas, obcecadas pela a sua missão funcional, num processo a que devem a sua existência, começavam a bombear calor e matéria pastosa, que o avô engolia. Fez-se um silêncio glacial. O avô, com uma feição estanque, onde pairava uma interrogação que encobria um sorriso, mantinha o olhar no neto enquanto que, com a mão cega, retirava o miolo do pão com que gostava de enxugar a boca depois do ritual do nabo. O Zé nem sequer procurou palavras, cansado que estava das que tinha proferido, pois, ainda que apenas as tenha pronunciado uma única vez no ar, lá dentro foram tão repetidas que agora não tinha outras. Com a mão alcançou o pequeno prato onde a avó coloca as rodelas de nabo à disposição do marido e, sem hesitar, precipitou para a boca a que estava acima, bem grande por sinal, extraída da parte mais bochechuda do tubérculo, lá onde a cor rósea está paredes meia com o branco marfim, provocando-lhe um sufoco libertador, obrigando-o a ajeitar a rodela com pequenos movimentos, encaixando-a finalmente entre os molares. Fez tudo isto sem lhe sentir o sabor, tão atarefada estava a boca na gestão do volume. E, se antes nada poderia ter dito, agora, que se concretizava um antigo receio, aquele em que, desconfiando de um cheiro que lhe arrepiava as pupilas gustativas, temia de algum dia ter de vir a tragar tal coisa, o calce que tinha entre os dentes imobilizava-lhe os maxilares, dando-lhe uma expressão bolachuda, paralisando-lhe o rosto enquanto os olhos firmes ganhavam umas pontas avermelhadas. Se apertou os dentes, foi para respirar. Foi como se um forte aguaceiro se precipitasse sobre o seu corpo. Água apenas, que a fibra, essa, deixou-se espremer mas não de desfez, ficando como uma nuvem enxuta entre os dentes. Se não foi o Pinote, então quem terá matado o Capitão Simões, questionou-se incomodado com os restos de nabo que, soltos da opressão dos dentes, se entregavam à liberdade de vadiar. Depois de uma resposta há uma pergunta para qual apenas conseguimos ficar calados. A avó veio em ajuda do neto, a comer nabo cru, estás a ficar igualzinho ao teu avô, disse procurando equilibrar a dose de graça com a de elogio. Foi ainda com os olhos fixos que o Zé levou à boca o pedaço de pão que tentou apanhar com naturalidade da mesa, quando ouviu do avô, numa cumplicidade masculina, é bom, não é?

sábado, 11 de novembro de 2017

A hora da refeição é sagrada – Dr. José Galvão, Esposa e Zé

Como qualquer homem treinado na barra de um tribunal, o Dr. José Galvão gere com precisão as suas expressões faciais. O rosto é como um cão amestrado, sentado, com os olhos abertos e a língua esgueirando-se pela boca entreaberta, preparado para receber uma ordem, fazer uma graça. Tem, por isso, um ar patusco, a que facilmente nos afeiçoamos, e que os incautos sentenciam ser inofensivo. Mas lá dentro está uma máquina bem oleada, recebendo informação detalhada através de globos oculares um pouco debruçados para fora, como uma velha à janela. É por causa desse olhar, que não consegue disfarçar um pendor esbugalhado, que aqueles que o enfrentaram, aqueles que de alguma forma tiveram de com ele esgrimir alguma razão, seja no tribunal ou na política, afirmem em privado, e apenas para os de confiança, aquele ar é uma armadilha. Mas todos sabemos que com vinagre não se apanham moscas, e, das intenções, nada há a apontar ao Dr. Galvão. Pelo menos eu, que partilho as suas opiniões, mesmo não podendo dizer com toda a certeza quais são, só vos posso assegurar que não há, até ao momento, neste relato, nenhum outro homem, ou mulher, que me inspire mais confiança, e que eu não abdique de qualquer atividade ou compromisso, para poder partilhar uns momentos com ele, trocar uns pareceres, deleitar-me como me perscruta enquanto falo, seja do tempo ou das pessoas, com um sorriso que me inspira a continuar. E não encontro melhor forma de figurar o Dr. Galvão fora da prisão do corpo, que pouco deixa acrescentar a um par de olhos, um nariz e uma boca, delimitados por duas orelhas, do que uma mesa posta, pronta para a refeição, para receber os convivas. Aí sim o posso descrever em plenitude, expandindo-se por todo o tampo, com os pratos vazios, sorridentes, recetivos, os de sopa por concavados, rechonchudos, encimando os rasos, como pétalas de uma flor expetante, os debaixo por silenciosos, sorrateiros, aguardando a sua vez, para depois do desfolhar do acolherar do creme, pouco a pouco, até ficar apenas a pequena película, que da loiça se diz suja, nota de um estômago começado a aconchegar, dum amaciar dos modos, um escorrer das educações, das empatias, queres mais sopa, pergunta a avó, que o que primeiro foi regulado foi a partilha, na génese da moral. E o avô silencioso, todo ouvidos, porque a hora da refeição é sagrada, que a ele coube a honra de a concretizar, lá fora colheu os frutos para agora os plantar sobre a mesa, observante, expetante, sorri, deixa acontecer. E o Zé que trazia aquilo guardado, ali por alturas do diafragma, onde o estômago e os pulmões se acotovelam, toques simpáticos, brincalhões, na hora da refeição, porque a hora da refeição é sagrada, diatribes inocentes, sem sarcasmos, da mesma forma que se podem tolerar brincadeiras de crianças na hora da missa, e ainda assim, ali andava a coisa, que teimava em não sair, empurrada para cima, empurrada para baixo, torneada em todas as possíveis variações com que poderia ser dita, e quando desarmou a guarda saiu tal qual a ouviu de Zalo, não foi o pinote que matou o capitão simões.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Sétimo Céu – Armindo

Aquele deixai o Zalo em paz entrou pelo Armindo adentro como um trovão. Paralisou-o. Dos pés à cabeça. Foi um relampejar frio que lhe subiu pelas pernas acima, seguido de um aumento instantâneo do metabolismo que lhe colocou o corpo em chamas, e a culpa de tudo estava no coração que se atirou numa cega corrida em frente, sem razão, por isso, os membros, mais sensatos, não tugiram nem mugiram, deixaram-se estar, milhões de anos de evolução deu-lhes a sabedoria que dali só podia vir asneira. Já os companheiros estavam estupefactos. O gigante Armindo. Não entendiam. Há nas diferenças de idades mistérios que só a química pode explicar, e num grupo de formação tão recente, onde o líder, por questões de autoridade, recrutou membros mais novos, estes são desprovidos de ambos os atributos necessários ao entendimento, a idade e a química, já para não falar do conhecimento dos seus efeitos, que a adesão à causa do Armindo marca um rumo onde o saber não ocupa espaço. O próprio não dava conta de si, as primeiras manifestações químicas são como os vulcões, lançam a poeira que esconde a lava. Não é, com certeza, nas corridas à volta da mesa que nos preparamos para estas eventualidades. Quantas vezes não terão os cidadãos de Pompeia passeado à volta do Vesúvio, usufruindo da bela paisagem das encostas onde as videiras prometem o doce vinho. E Joaninha, embora fizesse fé de ignorar o que é belo, não podia lutar contra a própria natureza. Isso entrou pelos olhos de Armindo de forma nublosa. O que primeiro viu foi o desaforo, o desafio, a ele, chefe de pandilha, engalanado nos seus próprios sucessos, feito em frente do seu exercício, em pleno campo de batalha, quando se preparava para uma investida, tendo já prometido aos da sua trupe o desfrute do saque, que da divisão de dividendos se fazem as organizações fortes. O que temeu primeiro foi o descalabro de uma ordem, feita à chapada, é certo, mas uma ordem tout court, uma paz romana exportada de casa, que deixa todos dormir tranquilos sabendo com o que podem contar no dia seguinte. Por isso sentiu ódio por Joaninha, reviveu-lhe o seu pior pesadelo, alguém a quem não se pode dar um par de sopapos, pedra basilar da sua construção cotidiana. E em segundo lugar, e isso sim foi devastador, e a razão última porque foi incapaz de esboçar uma retirada estratégica, virando costas e entoando com desdém para os seus seguidores, raparigas, foi aquela sensação doce que a imobilização muscular lhe trouxe, uma magia que os poetas enchem de palavras, mas que Armindo não verbalizou para além de dois ou três grunhires, que a língua, sorrateiramente avisada pelos membros, resolveu não levar adiante, destravando-se do cérebro. Foi a rapariga que o soltou dizendo-lhe, que estás para aí pasmado. Deu corda aos sapatos, afastando-se atabalhoadamente, pressentindo algum desconforto nas suas hostes, um abaixamento de moral resultante de uma crise de liderança, que teve de resolver nos dias seguintes aplicando corretivos, enquanto ia descortinando que uma coisa como esta não deve ser deste mundo.

sábado, 28 de outubro de 2017

plosAires – Zalo

Lá vai o Zalo plosaires! Lá vai o Zalo plosaires! Grita um grupo de rapazes, distintamente chefiados pelo Armindo, um grandalhão de calções de alças, desproporcionados para o corpo que cobrem, filho do Mouco, exemplarmente educado pelo pai numa dura disciplina de porrada sem eira nem beira, isenta de qualquer sentido lógico, ainda que o pai anuncie cada nova sessão com irrefutáveis argumentos, e mesmo que o miúdo insista em ensaiar umas voltas em torno da mesa, puxando mais pelo progenitor do que abrindo a porta a uma qualquer escapadela, enquanto a mãe observa com algum alívio por para já não ser chegada a sua hora, e de quem o professor desistiu de educar, desde que quase teve uma síncope depois de lhe arrear com a régua no traseiro, pois não arrancava da tabuada do dois, enquanto o matulão mostrava um risinho escarninho para o resto da classe, ainda insistiu o educador, ah, estás a rir, disse, aumentando a intensidade e frequência da tábua de madeira, até que finalmente percebeu quanto os seus métodos pedagógicos estavam aquém dos do progenitor, resolvendo passar a tratá-lo com a um adulto, então quando vais trabalhar, disse-lhe, já numa linguagem de gente crescida, e contudo o Armindo gostava da escola, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair, no recreio um rei, pondo em prática o que aprendia em casa, que na sala de aula divagava, o que irá naquela cabeça, pensava o professor, sonharia quando pairava os olhos pela janela, mas isso era o professor, dado a poesias, desterrado para aqueles lados por imposição do destino, que até a lei da régua surgiu por adaptação à realidade, realpolitik, chamou-se lhe mais tarde, que esta gente já chegava à escola formada, com frequência sazonal, modelada pelas colheitas e pelo tempo, com a chuva eram mais assíduos, não o Armindo, que vinha sempre, o pai não era muito dado a obrigações, nem um pedaço tinha para si, que os outros sempre se iam dedicando a um cantinho, próprio ou emprestado, muitas vezes nem emprestado, consentido, mas a escola era tudo para ele, sempre que chumbava ficava mais próximo do professor, inconscientemente percebendo a teoria dos dois poderes, o da força do conhecimento e a do conhecimento da força, por isso facilmente formou uma pandilha, mesmo que nas regras de admissão fizesse parte levar uma coça do líder, mas era uma única vez, à entrada, era da praxe, Roma e Pavia não se fizeram num dia, e depois já se podia começar a meter a colher na sopa, desgraçados são os que não vão em grupos, como o Zalo, filho de pastor, que nem à escola ia, ceifeiro é homem, pastor é pastor, não se dá com gente, não vai à taberna, não opina, não comenta, pasta, cheira a bicho, não cheira a suor, e é opinião formada a superioridade do vinho sobre o leite, o próprio senhor doutor disse, o vinho dá de comer, portanto, coitado do Zalo, despojado de ambos os poderes, quando na mirada desta pandilha, continua caminho como se não fosse nada, mas desta vez, talvez por ser início do dia, talvez por uma sinergia de grupo ainda por perceber, vinham mesmo por ele, não fosse a Joaninha lhes ter gritado, deixai o Zalo em paz!

domingo, 22 de outubro de 2017

Com ele ao colo – Joaninha

Joaninha quase viu Zalo nascer. Quase, pois um parto não é espetáculo para uma criança de oito ou nove anos. Nem para ninguém, dado o seu desfecho incerto. Por isso, se espera que a natureza faça o seu trabalho, que dê vida ou a retire. Por isso, não é a chegada da hora que trava os homens de irem aos seus afazeres, submissos ao destino. E o que sai de entre as pernas da mulher é visto com a desconfiança com que se olham para as promessas. Que vingue primeiro, que mostre do que é capaz, antes de começar a ser levado a sério, alguém com que se possa contar, para trabalhar e para procriar. Por isso, a mulher é deixada só, ao cuidado de outra, mais experiente, de uma experiência contada no número de partos, pouco interessando do seu sucesso ou insucesso, mais como celebrante do que como resultado de uma qualquer capacidade técnica. Deolinda foi tomando essa função. Ter o homem na prisão emprestava-lhe a pureza celibatária requerida para a consagração da monstruosidade com que a natureza se manifesta nestas situações. A limpeza do sangue do corpo da criança, a recolha das entranhas esponjosas que tombam no chão, por entre um bailado de moscas exultantes com o que todas as manifestações de vida lhes profetizam. Joaninha quase viu Zalo nascer porque esteve do lado de fora. Recorda-se que Alzira blasfemou contra toda a criação e jurou que nenhum homem lhe voltaria a provocar uma dor tão tardia. Quando chegou a sua vez de pegar nele ao colo, surpreendeu-se com o seu aspeto engelhado. Não era bonito. Veio ao mundo com ar de bicho façanhudo, parecendo ter sido moldado pelas imprecações da progenitora, como se de uma primeira manifestação de amor filiar se tratasse. Há em certa fealdade uma postura de desafio, de régio isolamento. E por isso, Joaninha, achou-lhe graça. Na ausência do pai, vinha cultivando o gosto pelo prático, procurando remover todos os vestígios de estética, que via como uma afronta ao cárcere e à reclusão. Nas escassas visitas que lhe fez, nunca viu o Pinote atraente que regalava os olhos das mulheres, centrava-se antes na sua determinação e vontade de lutar, que são avessas a contemplações. As exaltações primordiais de Pinote foram acamadas na prisão sob as rotinas diárias, a partilha com os camaradas e as demonstrações de existência com os guardas. Trazia assim na memória um pai escuro, de corpo escorreito pela perseverança, de palavras escondidas, como os doces guardados à chave no armário, que se comedia na demonstração de afetos e lhe falava de uma forma lógica, por frases marcadas por antecedentes e consequentes bem explícitos, exemplos claros, escolhidos a dedo, como se de exercícios pedagógicos se tratassem. Terminada a visita ficava com muito tempo para cimentar a lição. Por isso, quando depois dos gritos de revolta de Alzira recebeu Zalo ao colo, com o seu rosto comprido, de faces assimétricas, olhos pequenos e fechados, que olhavam com desconfiança fugidia, e longos cabelos pretos e sebosos, viu um bicho acabado de sair da toca, e recordou-se de Pinote.