Últimos Dias. Não, são não aqueles que vedes a letra branca sobre o fundo vermelho de uma faixa, garrafais, a uma porta por onde prometem camisas baratas ou salvação eterna, e se os questionais com as promessas passadas, euforias, quase clímaces, reasseguram com uma confiança tranquilizadora, não, agora é que é. Últimos Dias. Não, não são eles que formam o vórtice do homem tântrico, escravo de um códice, estonteado, hesitante, entre o dever, o não dever e o prazer. Últimos Dias. Nem sequer são os de uma morte anunciada, bem real, corridos com revolta e incompreensão. Dias que se sentem passar cheios de minúcia, de detalhes asfixiantes que clamam a sua existência quase com maldade. Estes últimos dias de que vos falo são mais esparsos, perfurados pelos buracos das ausências, quase sempre a dois. Dois corpos estirados, cada um para seu lado, formando um rendilhado por onde a luz do sol vai passando, traçando linhas no chão, que se movem, lentas, colapsando ao fim do dia na parede do quarto. Dia, noite, amanhecer, anoitecer, manhã, tarde, claro, escuro, não interessa. São dias que se alongam como se fossem um único, onde a passagem do tempo é marcada pelo esvaziamento do pacote de heroína e sequências de figuras geométricas. No quarto de Susana tudo o resto é desordem. Enormes bocas de papel escancaradas sobre o chão, repassadas de marcas de gordura e de um ou outro triângulo arredondado, já frio, que tendo sobrevivido a ser engolido deteriora-se como um pedaço de comida preso entre os dentes. Por entre as caixas, roupas derrubadas por súbitos fervilhares, corridas ao sprint, entusiasmos tombados com as formas do acaso. Calças cujas pernas tropeçaram uma na outra, umas, semi do avesso, outras, expondo um rabo branco sobre pernas azuis, bronzeadas pelo ardor químico do corante. T-shirts deixadas cair em ondas que se sobrepõem sobre si mesmas desenhando sulcos cuja adição forma pequenas colinas. Desfavorecidos pontos de observação, de onde se pode almejar quanto muito um pé gigantesco, descalço, o dedo grande à frente criando a ilusão de uma cordilheira de montanhas que se perfilam à distância. O dedo mindinho, longínquo, assomando fugidio ao fundo dos restantes, como o destino mais desafiante. O que se verá desde lá? Pergunta-se daqui. Deste aglutinado de t-shirt. A questão é interrompida por uma trepidação vulcânica, pelo deslizar do pé de encontro ao chão, esmagando os dedos, sujeitando-os a numa pressão anunciadora de novas réplicas. O pé atira-se então de borco para a frente, libertando os dedos, expondo-os como iguais, revelando uma passagem para o corpo desmedido descoberto pelo deslocamento. A perna de Susana transformada numa subida em duas partes. A primeira, de uma doce inclinação sobre uma superfície lisa onde um ligeiro planalto nos oferece o deslumbramento da segunda, um espanto dos olhos, um desafio à vontade dos que almejam experimentar, não livre de perigos, das avalanches, dos tremores de terras que agora lhe contraem os músculos.
In 25 de abril sempre (2017)