domingo, 2 de abril de 2017

in extremis –

Uns grunhidos? In extremis? Não é coisa bonita. Estávamos à espera de mais. Uma carta dedicada a uma causa não pode deixar que as suas últimas palavras sejam uns grunhidos. Se a Igreja se regozija com a conversão in extremis dos não crentes, uns grunhidos não poderão com certeza ser interpretados como uma conversão, um arrependimento no momento da partida, mas dão margem ao pequeno comentário. Pobre diabo, tanta conversa e lá foi como todos os outros. Se calhar pediu para ser recebido do lado de lá. Lá está. Se calhar. Venho por isso em defesa da carta republicana. Não, não houve arrepiar de princípios. Achais porventura que uma carta fadada para ser engolida pela boca negra de um diabo vermelho teme a morte, ou parte na esperança de um além. Ah, dizeis vós, pois é, mas entram com a certeza de serem entregues ao Destinatário. Tendes aí um ponto, concedo, mas isso é porque usais as imagens deste mundo para inventar um outro. Dir-vos-ei mais. Apenas podeis empregar esse argumento porque é o progresso que garante a entrega da mensagem. É a vitória da civilização, da máquina racional, que com os seus bem oleados mecanismos assegura que chegam ao destino. Nessa idade média, de que éreis senhores, poucas missivas escapavam à intempérie, à desventura, ao acaso. E o que dizíeis então? Vede como as mensagens do homem para o homem são nada. E tínheis então um ponto. O que perfaz dois pontos. Mas não vos parece que foram somados com alguma batota? Dais agora uma volta sobre as vossas razões, revoltados, e atirais que um homem sem alma é como um animal. Por isso grunhiu. Não, não foi falta de alma, foi falta de ar. Pois foi, vireis vós de volta, mas se tivesse alma, teria a vontade que não cala, não precisaria de ar para falar. Mas que falar é esse sem ar? Um milagre? Bom, contra milagres já nada posso. Desdenhais dos milagres, dizeis a rir, esperai o momento da morte e depois falamos. Acho que voltámos ao princípio. Um elo, como o que enlaça a carta republicana no seu leito. Coitada, perdeu a cor rósea, está lívida, presa na mão do Sr. Capitão Simões, que jaz no chão. Tombado da cadeira, tem em volta do pescoço o garrote com que foi estrangulado. A polícia diz que deve ter sido alguém em que ele tivesse confiança, para se ter colocado por detrás do capitão antes de este dar o alarme. Não costumava estar no gabinete aquela hora. Era um homem de hábitos. Alguma situação excecional o deve ter levado a romper a rotina. Foi um encontro combinado, com certeza. Uma amante? Para o garrote é necessário um pulso forte, determinado a não parar. Um golpe certeiro. O corpo foi deixado no local onde ficou, paralisado com a falta de ar. Não há sinais luta ou de ter sido arrastado. Também não se deu pela falta de nada, gavetas e armários não têm aspeto de terem sido mexidos. Qual seria o motivo do encontro? Um assunto pessoal? O que ocorreu in extremis? Terá percebido a razão do seu triste destino? O que terá dito? Com a carta do Dr. José Galvão na mão, esse ateu confesso.

domingo, 26 de março de 2017

Papillon – do Bigode

Pois é, quando parecia não ter fim, eis que tudo se precipita. Não, não foi o corte no canto superior da folha cujo ângulo até lhe deu um ar marialva, tivesse ela um palito entre dentes. Foi o bigode chinês. Não tinha já dito, antes caísse. Pois é, mas não caiu. São os apegos. E pasmai, nem sequer foi obra da carta anónima. Coitada. Muito ela ficou surpreendida. Quer porque tinha planeado retalhar a republicana pedaço a pedaço. Quer porque tinha planeado poupá-la. Vá-se lá saber o que vai na alma de uma anónima. Aconteceu tudo muito de repente. Não podemos isentar de culpas o bigode, mas também terá como desculpa que apenas foi o que é, e o que é o que é a mais não é obrigado. Um bigode passa uma vida a robustecer-se em balanços constantes, como resultado dos movimentos da carta. Uma verdadeira cordoaria ao ar livre. E depois fica como aqueles homens que, após passarem largas temporadas no ginásio, olham-se ao espelho e sentem bruscamente um enorme vazio. Então, pobre daquele coitado que se lhe atravessa à frente. Ainda mal o viu e já está em cima dele. Pumba, que tu és isto. Pumba, que tu és aquilo. E o azarado pode ser todo ouvidos, mas dificilmente compreende. Pois é. Aquilo que no duelo se tinha tornado diversão para a carta republicana, para o seu bigode foi o alimentar de uma ânsia, uma cega vontade de agarrar na anónima e a apertar tanto que viesse a desfalecer. E tomem nota na palavra cega. Um bigode pode ter fibra, mas falta-lhe retina. Se os derradeiros acontecimentos são da irresponsabilidade do bigode, um observador externo até pode atribuir todo o mérito à carta anónima, que se aventurou numa manobra arriscada. Desdenhou da fibra do bigode com o objetivo de provocar desconcentração e reduzir a precisão de movimentos da carta republicana. Para isso, aproveitou o breve desacerto resultante do corte no canto superior para deslocar o teatro das operações mais abaixo, na zona onde o bigode permanecia pespegado. Entrou então num jogo do gato e do rato, chamando o bigode a si e rapidamente se lhe esquivando. Estava, portanto, a parte cerebral da carta republicana a refazer-se do corte enquanto o bigode entrava em roda livre, como um desaçaimado cão treinado para matar. E não é que na sua cegueira se atira ao próprio dono?! A ponta comprida do bigode deu uma volta, entrelaçando-se com a ponta curta, enlaçando a carta republicana a meio, convencida que estava apertando a anónima, que olhava sarapantada. Nenhuma forma de morrer é bonita, mas esta tem requintes de malvadez. O aperto começa por selar, amarfalhando a parte atrevida da folha que ficou enredada na língua do envelope, soltando pequenos grunhidos. A asfixia provocada pelo nó fez engrandecer os lados, que aumentaram de volume e enrubesceram como dois pulmões à procura de ar. Ao centro, o laço dado pelo bigode aumenta de força, pois a falta de oxigénio destruiu as zonas de controlo e a fibra do bigode contrai irrefletidamente. No seu aperto máximo, quando de dentro só vinha silêncio, a carta tinha a forma de um papillon. Não é uma forma bonita de morrer.

sábado, 25 de março de 2017

Mas Quando É Que Acaba – o Duelo

Mas Quando É Que Isto Acaba? Sim, faço questão de perguntar assim, começando cada palavra com maiúscula, com os faróis acessos para a condução da noite. E pergunto-o na preguiça de quem sabe que chegou a hora de terminar e se deixa estar. Por isso interrogo-me para atiçar o prazer e depois rir. Quando estamos envoltos em técnicas, táticas, golpes, e outros estratagemas, somos capazes de passar toda a noite nisso. Comprar uma cave, enchê-la de mesas, cada uma com a sua batalha, o seu jogo, em que se enfrentam papel e plástico, encharcados de significado, e regressar à cama pela madrugada, exaustos e satisfeitos, quando os vizinhos saem para o jogging. É assim que eu me encontro, mero espetador deste jogo de cartas. Quantas combinações há naqueles dois magros paralelepípedos. As três dimensões do espaço não são suficientes para explicar a subtileza de um arrastar de canto, nem a determinada intenção de uma leve pressão, ou as ligeiras oscilações de dentes dos selos. Talvez se deva ao facto da carta anónima ter suspeitado que a republicana não é quem diz ser. Que tenhamos não um, mas dois mascarilhas. Subitamente desconfortáveis, sem saberem o que fazer. Um mascarilha aplica um golpe à mascarilha ao que o outro mascarilha responde com uma técnica de mascarilha. Um duelo existencial e sem sentido. Um empate. Poderá conter todas as técnicas e táticas do mascarilha, mas emoção nenhuma, o grau zero do inesperado. Porque digo então que estas figuras são dignas de passarmos a noite a observá-las? Porque comprei uma cave onde todas as noites mergulho? Porque após o sobressalto do reconhecimento resolvem continuar a representar o seu papel, fingindo que estão a fingir. Se tendes dificuldade em perceber imaginai um baile de máscaras organizado por um grupo de amigos de longa data. São por isso agora mais afincadamente o que fingem ser. A republicana mais republicana e a anónima mais anónima. A primeira, repleta de ênfases libertadores, aplica táticas que expõem. Desafia a anónima a mostrar o que tem escrito. Para isso, alterna movimentos lentos com repentinos arranques, procurando soltar a língua do envelope. Mas a cola da anónima resiste ao destempero. Para cada movimento, finge que adere, flete, e depois faz-se plana. O que atiça a republicana, para quem um revés não é derrota. Recorre por isso ao ardil do agora vou-me embora, colocando-se, através de uma rápida viravolta, fora da visão do endereço. Infelizmente, o célere movimento é denunciado pelo bigode chinês, que a anónima ainda vê escapulir-se por baixo de si. Sorri, porque o sorriso é o escape da memória, e faz-se tonta, finge-se atónica. A republicana não sabe se há de acreditar, indecisão que a anónima aproveita para numa dupla pirueta à retaguarda raspar a outra num golpe de navalha. Da manobra há a lamentar a perda do canto superior da folha republicana, que no seu afã libertador, nem nos momentos de maior refrega procura a segurança do envelope, na ânsia de tudo observar, e poder dar instruções informadas. Pensais que este foi um golpe fatal? Qual quê, isto nunca mais acaba.

domingo, 12 de março de 2017

Ainda Outras Técnicas, Táticas, Golpes e Outros Estratagemas – do Duelo

Pois é, primeiro estranha-se e depois entranha-se. O selo dado pela carta republicana à anónima desencadeou em mim a doce sensação da compreensão dos princípios básicos do duelo de cartas. A isso não terá sido alheia a boa disposição da carta republicana que, após obrigar a anónima àquele faiscar de olhos, gritou com alegria, Vive La Repúblique, sim, assim mesmo, em francês, com um forte acento jacobino, que como sabemos é um bolchevismo permeável à participação aristocrática, e, maravilha das maravilhas, deu um pequeno pulo no ar, se é que a palavra pulo se pode aplicar a um movimento que não tem o seu início no chão, agitando simultaneamente ambos os cantos inferiores, o que descartou imediatamente a hipótese de a vibração singular de cantos ser uma caraterística congénita, pelo menos nos momentos de alegria. E agora sim, a alegria da republicana e a raiva da anónima deu origem a toda uma variedade de técnicas, táticas, golpes e outros estratagemas do duelo de cartas que, abri bem os olhos, é um gosto observar. Com a cabeça fora de si, e por favor imaginem como cabeça de uma carta a aba do envelope que impede o fácil acesso ao seu conteúdo, ou não seja dito dos desmiolados que têm a boca junto ao coração, a carta anónima aplica um golpe conhecido por gancho em cunha, em que mais em força do que em jeito, se atira perpendicularmente com todo o seu peso contra a republicana, procurando asfixiá-la contra uma parede ou outro objeto que ocasionalmente possa estar na trajetória. Esta não consegue conter o riso, não sei se ainda por via da alegria do selo ou pelo contacto do corpo quente da anónima, que, de inesperado, provoca involuntárias contrações musculares da folha dentro envelope. Não se encontrando numa situação completamente desconfortável a republicana usa uma tática conhecida, na gíria popular, por deixa-tetar quetás bem, mas que na linguagem militar, mais formal, é referida como retrocesso manhoso, em que se simula a intenção de avançar seguido de um retrocesso, com o objetivo de experimentar o adversário e convencê-lo que tudo lhe está a correr de feição. Apenas quando está quase em contacto com a parede é que a republicana resolve aplicar a técnica conhecida por chave mista, embora outros se lhe refiram como chave invertida, mas que resulta da evolução de uma técnica antiga, anterior ainda à luta de cartas, quando não havia correio e os povos deste lugar comunicavam por uma técnica conhecida por a passada. No que consiste então a chave mista? Bom, a republicana liberta-se do abraço asfixiante, deslocando a parte inferior para fora, num movimento que tem de ter tanto de rápido como de inesperado para poder passar pelos cantos inferiores sem eles começarem a vibrar, ficando as duas cartas agora encaixadas na parte superior, mas permitindo à carta republicana conduzir a seu belo prazer a anónima, desgastada que está da investida contra a parede, e obrigada agora a recuar, um pouco em contrapé, dada a ligeira torção a que se encontra sujeita. Esta folha está a chegar ao fim, pelo que me vejo obrigado a deixar o estratagema para a próxima.

sábado, 11 de março de 2017

Técnicas – do Duelo

O que agora vos conto tereis vós que ler de olhos fechados. Sim, de olhos fechados. Imaginai que vos deslocais a um outro mundo. Um mundo onde cresceu uma civilização alienígena. Achais que é por terdes os olhos abertos que percebereis coisa alguma? Qual quê? Fechai os olhos e deixai-vos tragar pelos seres que o habitem. Então, se tiverdes sorte, se fordes engolidos da forma certa, talvez possais ter um primeiro vislumbre das leis que o governam. É assim que deveis fazer para ler a descrição do duelo. Mas direis que esta narrativa já se alonga, e que a seguis sem pestanejar. Pois é, mas isso foi porque procurei neste mundo o que mais se assemelhasse ao que pretendia descrever, e quando, por estranho e nunca visto, me surgia algo sem correspondência visível, ou invisível, logo me agarrei a qualquer coisa, pois quando nada há tudo serve. Sim, sei que achastes muita graça ao empernar e à luta de espadas destinatárias. Que vos foi fácil fazer associações, sorrir com malícia. Enfim, perceber. Mas isso foi porque vos falei na linguagem do mundo em que já fostes digeridos várias vezes. Agora acabou. Sinto em mim a rutura da veracidade factual, e, o que temos à nossa frente é uma luta de cartas. Onde já se viu tal coisa? Fechai então os olhos e lede com atenção. As cartas confrontam-se frente a frente e parece-me a mim que evitam tocar-se. Medem-se, enquanto se deslocam em círculo. O som constante e agudo que ouvis é produzido pela vibração dos cantos. É por isso que não se tocam. Estão muito próximas, mas à distância dos milímetros que a dobra dos cantos permite. Sentis também pequenos estalidos, que ocasionalmente entremeiam a vibração? Pois, acontecem sempre que as aguçadas pontas dos cantos se encontram. Nesses momentos têm, simultaneamente, um brusco movimento para trás. Esta é a técnica básica do combate. Esqueci de referir que em cada momento apenas um dos cantos está ativo. Não sei se por motivos congénitos, ou se já fará parte de um princípio que seguem com disciplina. As figuras que desenham acontecem pela alteração do canto vibrante e pelas rotações rápidas que permitem trocar de canto quando este começa a ficar cansado. Apercebo-me que esta manobra é antecedida pela perda de fulgor dos estalidos. Uma outra técnica consiste num toque forte, e seco, dado com o selo. Como podereis imaginar, só pode acontecer quando a vibração está a ocorrer no canto oposto àquele onde foi colocado o cavalinho com a corneta. Sou levado a supor que este será o golpe mais fatal, pois vão alternando o canto que vibra, do lado do selo e dos restantes, em manobras de defesa e ataque. É nisto que estão as nossas duas cartas de um modo um pouco entediante. Podeis por isso continuar de olhos fechados, dado que este me parece ser como um daqueles desportos que apenas pode ser apreciado por conhecedores. Eis que senão quando, num rápido movimento a carta republicana aplica um selo na anónima. Esta abre bem os olhos de dupla surpresa. A do golpe, que parece provocar dor, e a de verificar, pelo valor do selo, que a republicana foi enviada por correio azul.

domingo, 5 de março de 2017

Introspeção – do Duelo

Neste momento em que os oponentes se encontram de novo face a face, a uma distância que permite um interregno narrativo da ação, para a análise da situação de cada um dos adversários, é a altura ideal para se fazer uma introspeção. Introspeção? Questionarão aqueles que, sentindo o cheiro a sangue, reduziram já ao mínimo todas as funções cerebrais acima do hipotálamo. Sim, introspeção. Estamos perante duas cartas possuidoras das suas razões, que não se atiraram ao despique por dá cá esta palha, e que, não obstante eivadas de convicção, ainda se vão interrogando. Ou julgáveis que eram dois pugilistas profissionais em cujos cérebros se repete a palavra mata à cadência de um tambor. Nesse caso sim, a introspeção seria uma atividade inútil, bastaria avaliar a quantidade de sangue vertido por cada um deles e os sinais de vacilação dos músculos. Mas como se pode então proceder à análise introspetiva de uma carta? Deveremos considerar as cartas em si? Ou os seus remetentes? Ou mesmo os seus patrocinadores, já que a anónima não tem remetente e do Dr. Galvão é de encomenda. Para as cartas em si, poderíamos procurar ler nas entrelinhas, mas não creio que estas tenham sofrido qualquer alteração em resultado das lesões do combate havido. Já a hipótese de avaliação dos remetentes não permite uma análise equilibrada e imparcial, dado que a anónima teria a vantagem de poder em qualquer momento ser uma coisa e o seu oposto. Resta-nos, portanto, a introspeção dos patrocinadores, mas também aí pouco se pode adiantar, uma vez que esta já foi feita em o Bispote. Com desalento vos digo, pobre Pinote, ter o seu destino na mão dos Deuses, esses magníficos seres emocionais, senhores da imprevisibilidade que é filha do capricho. Parei desalentado, confesso. Mas foi nesse momento desanimo que me ocorreu como o nosso cérebro nos prega partidas. Põe-se a pensar, a pensar. Ah, como ele gosta de pensar. Então, não vistes perante os vossos olhos as cartas a pelejar? Vistes porventura o Sr. Marquês na vozeirada republicana da carta do Dr. Galvão? Estaria por lá talvez a sua emoção, mas os ideais eram do Dr. Galvão, e os toques da arte de combate da carta ele própria. O mesmo se pode dizer da anónima, não se lhe pode negar a presença da Sra. Marquesa e do Hilário Mendes, mas é ela que ali está, forjada na luta. O meu cérebro abre-se maravilhado a este novo paradigma filosófico. Sim agora tudo faz sentido. Estou certo que poderei finalmente fazer uma análise introspetiva de cada um dos contendores. Do lado esquerdo temos a carta anónima, quase como chegou à refrega. Não se lhe nota uma dobra, quanto mais um rasgão. Já a carta do Dr. Galvão está semiaberta, com a folha um pouco de fora, revelando alguns dos seus argumentos, deixando-os ao livre comentário, senão à galhofa, da populaça. O estado do envelope também não é o melhor, devido às manobras aéreas a que foi sujeito, revela a possibilidade de alguma fragilidade estrutural. Mas o pior é o bigode chinês que provoca o riso de quem observa e enfraquece a sua força anímica. Antes caísse.

sábado, 4 de março de 2017

Valentia – carta do Dr. José Galvão

Não, as palavras que porventura acabastes de ler não são o último produto de um cérebro no seu momento de estertor, não. Não são a enunciação das encruzilhadas que um moribundo não percorreu, como se a última perceção da vida tivesse a forma de uma árvore invertida, não. Pensastes, mas não são. Ou julgáveis que uma guerra por entreposta pessoa pode ser mais do que um entretém. O que esperáveis de uma confrontação de destinatários? Acháveis que o trespassar do Capitão Simões era um ponto final e poderíamos avançar já para o Perdidos e Achados, que como vos disse espera à porta pela sua vez. Pois é, menosprezais o malvado do Sr. Stern, que insiste em nos atormentar, enquanto não parte ele também. E, ironia das ironias, comentava-se que o cérebro do Sr. Capitão Simões já não estava a funcionar há alguém tempo. Que ele já era só olhos. E que quando a Hilário Mendes atravessou o O de Capitão, sim o O de Capitão, não o O de Simões, nem sequer o O de Armando, ós estes bem menos letais, atingiu um órgão vital entrando pelo cérebro adentro. Mas como vos digo a causa da morte não foi cerebral, foi visual. E se essa foi a causa, sobre a consequência posso-vos dizer que quando chegou ao chão, solta da mão do Capitão Simões, a carta do Dr. Galvão levava o Exmo. Sr. Capitão Armando Simões como um penduricalho, um muito desequilibrado bigode chinês, agarrado ao sobrescrito pelo O fatal. Peço-vos, pois, que mantenhais esta imagem para o resto da contenda. E se ela terminará na meia folha que resta, nada vos posso prometer, dado que já várias vezes o afirmei e agora percebo que o escriba é o mais passivo dos seres. Só olhos, como o ido Capitão Simões. Imaginai então a carta a aproximar-se do chão, o ões jazendo já no soalhado encerado do escritório, quando num ato de valentia, fazendo das tripas coração, se retira ao humilhante destino, evita com maestria o corpo em queda do Capitão Simões, tudo isto sob a fortíssima vibração resultante da perturbação aerodinâmica provocada pelo bigode chinês, e se coloca frente a frente com a carta anónima. Esta, que tinha sido industriada a se manter calada, não se conteve perante a visão de um sobrescrito com o destinatário descaído e disse com um riso escarninho, parece o mancha branca. Aqui conto apenas o que se passou, não sei a origem da referência, se pertencerá a algum imaginário pessoal, se possuirá alguma relação com o mancha negra, um personagem malvado de banda desenhada, mas que tocou fundo na carta republicana tocou, de tal forma que puxou das suas origens pré-burguesas e gritou bem alto, o meu pai é um homem do povo, simples mas honrado, podeis violar a correspondência, gostar de emporcalhar-vos com a observação das entranhas, mas sabei que ao pé dele não passais de seres viscosos. Bom, meus prezados leitores, não sei o que estais a pensar, mas eu, que procuro ser o mais imparcial relator, não pude deixar de murmurar um, à valente. E digo-vos que a carta anónima não ficou indiferente, começando a levantar os olhos, mas refreou-se, a tempo de evitar perder de novo a compostura, e fez-se sonsa.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Guerra – de Razões

Há obras que o melhor é não as começar porque nunca mais acabam. Deixei-vos com a carta do Dr. Galvão tombando em rodopio e agora vejo-me na obrigação de esclarecer se estava ou não Pinote acompanhado, e se não estava, se foi o Dr. Galvão induzido em falta ou foi ele próprio que pisando a ténue linha da ética profissional inventou esse facto, e se foi induzido em falta, quem o induziu e com que propósito, e terá esse alguém sido também induzido ou inventou ele a história, e por que razão e com que objetivo, e se foi o próprio Dr. Galvão que criou o facto, então porque o fez, porque arriscaria a sua reputação por uma criada e um comunista, ainda que patrocinados pelo Sr. Marquês, ou será que já tinha planeado escusar-se com algum personagem menor da nossa história, um Mouco que disse que ouviu o Mouro dizer, e se Pinote estava acompanhado então porque é que este narrador vos omitiu esse facto, e se assim foi qual a razão, qual foi a sua intenção, e será que se irá escusar em questões de estilo literário, de fluidez da narrativa, de coerência concetual dos cenas e seus cenários, sim, claro que a corrida do Pinote monte abaixo perderia muito do seu teor épico se tivesse acontecido no meio de uma multidão, em que não seria claro se Pinote avançou por determinação própria ou se foi a isso empurrado pela turba, ainda que quando se chega aos movimentos de massas a própria determinação perde a individualidade, ou terá este narrador intenções de endeusar, de criar modelos para vender ideologias, sejam elas do individual ou coletivo, ou será que a solidão forçada de Pinote aconteceu devida a uma sua obsessão infantil por sapos, esses improváveis seres, redondos e de olhos esbugalhados, os antepassados concetualmente mais próximos das vacas, ou não andassem ambos no mundo a pastar, ou então este nem sequer é um problema pois a carta do Dr. Galvão foi escrita com o cuidado de um advogado por forma a não deixar claro se Pinote estava acompanhado no momento da prisão, pois se um companheiro afirmar que Pinote foi levado isso não quer dizer que seja um testemunho direto, pode ter sido um guarda que chibatou, ou o Mouco ter deixado cair alguma frase na taberna onde foi lavar o suor da porrada em vinho, mas se é assim, porque é que Deolinda andava à procura de Pinote, indo todos os dias à vila, será que isso nunca aconteceu na realidade, que foi um desvio poético do narrador, uma desculpa para um cântico, e se não estava na carta do Dr. Galvão porque é que o Capitão Simões aceitou como verdadeira a afirmação do Hilário, será que não leu a carta com atenção, ou na confusão da batalha não teve a frieza de avaliar cada uma das palavras de Hilário, talvez o seu torpor burocrático o tenha incapacitado a desviar-se das mais óbvias estocadas habituado que estava a legislar em paz, e se o Pinote nunca existiu, nem o Marquês, e muito menos Deolinda, que foram inventados porque a Joaninha ameaçava tornar-se numa personagem enfadonha, afogada na luta de classes, e nada melhor que ir buscar um passado cheio de sobressaltos para dar um salto em frente, e se de facto Pinote existiu mas não era comu

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Afocinhados – Exmo. Sr. Hilário Mendes e Exmo. Sr. Capitão Armando Simões

Sei que estais pendentes do desenrolar da contenda, que do resultado já todos nós sabemos. Por isso me apreço a pegar na pena e peço humildemente ao Deus dos escribas que me ajude, que não comece a colocar à frente de cada palavra uma outra, que afaste de mim o diabo do Sr. Sterne com as suas achegas, derivas, e, ai meu Deus, ordinarices, para que esta página baste. Não vos vou recordar onde ficámos, pois tenho a certeza que não preciso. E também espero não defraudar as vossas expetativas quanto ao desenrolar dos factos, que muitas certezas já acumulastes para vos verdes agora abandonados. Sigamos, pois, em frente, armados das nossas convicções. Sim, frente a frente estão afocinhados o Exmo. Sr. Hilário Mendes e o Exmo. Sr. Capitão Armando Simões. Escritos a letra bem diferente. A letra grande e bem desenhada do Dr. Galvão ali enredada com a letra pontiaguda da mão anónima. Em extremos opostos, os Exmos. como punhos e o Srs. como guardas de duas espadas que se digladiam. A do Capitão Simões é mais comprida, o que, parecendo uma vantagem, não é. Já lá vão os anos, e a cadeira e o trabalho burocrático, retiraram-lhe a habilidade do manejo de uma arma deste porte, atrapalhando-o mesmo um pouco, tendo a lâmina Capitão Armando Simões de ser movida com cautela entre papelada, armários, secretária, tinteiros e mata borrões. Já o seu adversário pode tirar partido da manobra ágil que a pequenez de uma Hilário Mendes proporciona. O Capitão Simões é discípulo das manobras disciplinadas em que os exércitos se posicionam com uma certa idiotice coreográfica. Por isso, Hilário sabe que para vencer basta envergonhar, pois o que a disciplina mais teme é a descompostura. Quando Hilário entrou na sala o Capitão Simões empertigou-se confiante como se envergando o seu uniforme de gala. Sente-se Hilário, disse com o desdém natural dos que, sabendo de antemão o resultado, gostam de tratar o adversário com complacência. O que sabe o Hilário do paradeiro do Joaquim Pinote, desfere o Capitão Simões, empunhando na mão enxuta a carta do Dr. Galvão. Hilário sente o vão desferir da estocada e responde calmamente, o Pinote foi preso, como o meu Capitão ordenou. Está preso!? Atira-lhe o Capitão em tom crescente, marcando o início das hostilidades com uma intensa salva de artilharia. Preso!? Dispara uma segunda salva devido ao gosto pelo estrondo. E porque não fui informado, vozeira por entre o fumo. Hilário aproveita para mudar de posição colocando-se lateralmente e observando o rosto helénico do Capitão Simões. É daí que resolve desferir o primeiro golpe. O que está na carta do Dr. Galvão não corresponde à realidade, quando apanhámos Pinote ele não estava acompanhado. O Capitão Simões é duplamente surpreendido, pelo ângulo da estocada e pelo alvo escolhido. A carta vacila na mão. Como sabe o que está nesta carta, pergunta-lhe no sobressalto de um exército que teme pela sua estratégia. Tenho ordens de Lisboa para ler toda a correspondência. A lâmina Hilário Mendes trespassa Sr. Capitão Simões enquanto a carta do Dr. Galvão tomba às reviravoltas.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Duelo – de Morte

Prolonga-se esta narrativa para além do que tinha sido imaginada, urge, pois, pôr-lhe um final, a bem de outras que clamam à porta pela sua vez, gritando, quando é que tem fim esta novela. Sendo eu um ente fraco à solicitação alheia, principalmente quando carregada da necessidade, lanço-me à obra. Pensei, pensei, e conclui que o melhor é terminar com um duelo de morte. Mas já ouço as mesmas vozes que me impunham o fim rápido alegar que duelo está bem, mas anunciar já que é de morte retira-lhe a tensão dramática. Ah, lamentais-vos, mas afinal seguíeis com atenção! Pois, então, mais vos digo, vai morrer a alegria e a vida e vencer a ignomínia, e de resto, de forma bem traiçoeira. Enlouqueceu, dirão, deitar assim pela janela um tão árduo enredo. Descansai que ainda não é desta, pois sei bem que ao lerdes duelo de morte logo deitastes os olhos ao fim da página. Sim, morre o ideal republicano, vencido pela sua fraqueza, o gosto pela vida. Triste lição esta. Mas tantas estocadas tenho para relatar que devo com presteza começar. Quem se enfrenta? De um lado, está a carta do Dr. Galvão ao Capitão Simões, do outro, a carta anónima de que, suspeito, sabeis a origem e o destino. Qual o objetivo do duelo? A liberdade de Pinote. Quais as armas escolhidas? As mais naturais para os contendores: o envelope e a folha. Quais os golpes permitidos? Bom, aqui foi difícil chegar a um acordo. De início procurou-se que não houvesse golpes baixos, mas um parecer do Dr. Macedo, juiz na comarca, foi de opinião que entre cartas não há golpes baixos. Baseou o seu entendimento no facto de não fazer sentido dizer que uma carta deu uma joelhada a outra, pois as cartas não possuem joelhos, nem partes sensíveis onde aplicar tal golpe. Com certeza uma opinião formada mais na leitura de leis do que de correspondência. Mas assim foi decidido, e as duas cartas enfrentaram-se sabendo que dali apenas uma sairia viva. Começaram executando uma dança giratória, medindo-se, mantendo a distância. A carta republicana sentiu uma profunda repulsa ao ler o endereço da sua adversária, Exmo. Sr. Hilário Mendes, não conseguindo conter as palpitações provocadas pela revolta das palavras e frases contidas na sua folha. Logo aí a anónima partiu em vantagem. Devido à emoção, foi a carta republicana quem esboçou o primeiro ataque. Levantou a aba e deixou sair um pouco da folha para que a anónima ficasse ciente dos seus valores e princípios. Vã carga esta sobre uma anónima. Como resposta fez-se dengosa, pois sabia que a gentalha republicana é atreita aos prazeres da carne. Estes movimentos ondulatórios provocaram grande desconcerto. A folha, cheia de palavras, resistia, mas o envelope, concebido para a rua, não ficou de todo insensível. Tirando partido da vantagem, a carta anónima chega-se à republicana, e, desculpe-me o Dr. Macedo, a melhor palavra que encontro para descrever este golpe é, empernando. Ah, miséria, que ainda não é desta que consigo acabar. Esperem mais um pouco, que a vós já regresso com mais uma página da refrega.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Visita – Hilário

São vários os tipos de visita. A visita de cortesia, feita ao princípio da tarde para não incomodar, que se pode deixar ficar para o lanche, mas nunca para jantar. A visita de negócios, feita com um objetivo mútuo, prolonga-se enquanto necessário, terminando assim que qualquer uma das partes o decida. A visita de agradecimento, quase sempre curta, cumpre um ritual para que seja registado que não se fica em falta. A visita de amizade, que entra pela casa adentro, abrindo-se às intimidades. A visita de apresentação, onde um fala e o outro observa, e é o introito de futuras visitas. Mais haverá, tantas quantas as etiquetas, mas estas chegam para o que nos traz aqui, a visita que Hilário Mendes fez à Sra. Marquesa. Um pouco inesperada. Não é que não houvesse no passado um historial sobre o qual se pudesse desenhar o protocolo desta. Eram frequentes as idas do pai de Hilário a casa dos Marqueses. A mais das vezes para receber instruções ou dar conhecimento. Uma variante pobre da visita de negócios, em que apenas um dos lados a pode dar por terminada. Claro que também houve visitas de agradecimento e apresentação. Algumas na presença de Hilário, como quando o pai foi apresentar o casal recém-casado. Mas todas elas diferentes das visitas que o próprio Hilário se habitou a fazer. Não aos Marqueses, mas às casas dos oposicionistas, onde quer que eles se encontrassem, como foi a subida ao monte para visitar Pinote. Visitas onde a urgência da necessidade não dá tempo à cobertura da etiqueta. Por isso, quando a Sra. Marquesa soube do pedido de Hilário Mendes para ser recebido, não pôde deixar de ficar a matutar. Procurou decidir sob que protocolo se deveria reger. E nada melhor que o passado para definir as regras de correspondência de dignidade. Mas também sabia da recente promoção de Hilário, que o tinha tornado num homem respeitado, até mesmo um pouco temido. Por outro lado, o pedido era-lhe diretamente dirigido, não incluindo o Sr. Marquês, o que sugeria a exclusão da visita de cortesia ou mesmo a de negócios. Andava por isso apreensiva, de modo que quando Hilário entrou resolveu deixar-lhe marcar o tom da conversa. Os meus respeitos Sra. Marquesa, e os meus agradecimentos por me receber, disse Hilário mantendo uma distância circunstancial. Como está Hilário, como está a sua esposa, respondeu-lhe um pouco tranquilizada, e acrescentou, muitos parabéns pelas suas novas responsabilidades. Muito obrigado, respondeu com uma ligeira vénia, sabe que aqui terá sempre alguém pronto a servi-la. A que devo este prazer, questionou-lhe a Sra. Marquesa. Venho agradecer-lhe a dedicação que a Sra. Marquesa demonstra pela Nação, disse Hilário mantendo a cabeça semi-fletida e avançado meio passo enquanto procura os olhos da Sra. Marquesa. Não tem de quê, sabe que nesta casa temos a maior consideração pelo trabalho do Senhor Doutor em prol de Portugal. Venho comunicar-lhe em primeira mão que apanhámos o Joaquim Pinote, disse Hilário acercando-se da Sra. Marquesa. Obrigado, juntou-lhe com intimidade na voz.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Poema – Marquesa

Quem nunca sonhou verter para a folha um pouco da sua alma. Quem nunca sonhou ser musa de poeta. Quem nunca passou um mau bocado. Quem nunca procurou na pena uma companheira. Quem nunca procurou o consolo num poema. Quem na noite escura não acendeu a luz sobre a folha branca. Estas são os princípios que regem a escola da poesia. Já lá vai tempo desde que a frequentei. Era novo e sonhava, como todos nós, vir a ser possuído por um génio, ficar para a posteridade. Somos compelidos, por isso, a percorrer mundo, quase sempre de noite. Noites de lua ou sem ela, como deve ser. Noites de tempestade, à procura do momento mágico em que um humano e a natureza se conciliam num ato singular. Foi por isso que ao ver a Sra. Marquesa acordada noite fora me fui colocar à sua mercê sobre a escrivaninha. Ali estive algum tempo, atarracada, à espera que notasse em mim. Andava agitada a Marquesa. Especialmente pela madrugada. Foi ainda antes da aurora que o rapaz regressou com a cesta cheia, de onde vem tão cedo que se não vislumbra a hora. Da janela do meu quarto presencio este enigma, sabe Deus porque estou acordada se nada deveria acontecer lá fora. Mas ao que os meus olhos veem não devo correr a cortina, pois se Ele me quis desperta é porque esta pode ser a minha sina. Quem dele se desobriga mais tarde ou mais cedo se afadiga, no remorso ou na pena por não ter sido digna. Podem de mim mal falar mas sou eu que decido onde coloco a pena, mesmo nesta carta anónima que escrevo com temor, mas sem problema. Mas porque sou eu assim, se calhar não devia, mas se de meu amo sou escrava a Deus sou obrigada. Coitada dessa outra mulher de criança ao peito, devo por ela fazer aquilo que não me diz respeito. Se Ele aqui me quer, não sou propriamente eu que o faço, mas o próprio Senhor isso me poisa no regaço. Escreve Deus por linhas tortas e eu dele sou a espada, que neste mundo faz justiça, quando poucos mais se importam. Mas se a meu senhor fujo foi porque ele não me quis agarrar, que muito pronta estava eu para lhe agradar. Que culpa tem esta outra mulher que não seja ter vindo ao mundo no lugar errado e num quarto sem fundo. Mas porque disso te preocupas, vede como eles bailam, ignoram o poderoso como cães sem laia. Serão gente, serão dele filhos, mas só na aflição recordam que têm alma dentro da carne calva. Anda ela pela casa como se não fosse minha, por isso me trespassa uma dor bem comezinha. Perdoai-me meu Deus por cumprir a vossa vontade, embora saiba que possa estar a pecar se fosse noutro lugar. A este palácio vim parar, não sei se por minha vontade, mas foi com certeza por razões de lealdade. Pelos quadros na parede suspeitei com aflição que não serei a primeira a que as coisas não correm de feição. Que posso meu amo fazer para quebrar esta sorte, se o bem só por si parece trazer mais dor do que a morte. Deixai, deixai as coisas ocorrer, pois o mundo é como a roda onde se coloca a criança que nasceu sem norte. Também eu me sinto para aqui perdida, ainda que na genealogia me seja fácil encontrar de quem sou a preferida.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Cântico – Deolinda

Sereis vós daqueles que se emocionam com um hino, que não resistem a um estádio em uníssono, a uma parada, a um desfile, a um mar de gente entoando palavras? Sabei, pois, que o hino é um meu irmão extraviado. Depois de uma cuidada educação musical, do dedilhar do piano na meninice, deixou-se encantar pelas certezas, ganhou músculo, perdeu o ouvido. A verdadeira emoção está nas incertezas que nos levam a procurar chaves, a estar atendo ao pormenor. Uma emoção que vai e vem. Que ataca de surpresa as mais inusitadas partes do corpo. Um vibrar aqui. Um baque ali. Depois, um enlevamento que não deixa nada de fora. E, uma vez lá em cima, o silêncio. É isso que o hino não percebe, o silêncio. Tão cheio de si, teme que não é. O que eu aprendi, e ele esqueceu, é que existo para me calar. Foi assim quando o Aires regressou com a cesta cheia. Eu percebi logo que o meu irmão subiu aquele monte, como gosta, ao ritmo do latido dos cães, aos gritos de estímulo dos homens, com a certeza que o caçador tem das delícias da presa. Imobilizei Deolinda com um grito, e podei ter a certeza que Aires nada ouviu. Parecia tão etéreo o Aires em frente a Deolinda, pairava com o seu ar, dando voltas sobre si mesmo, e da cesta nada caía. Depois atingi os músculos da face direita de Deolinda, pois no exaltar inicial das assimetrias está a arte da composição. É quando o Aires começa a abrir a boca para dizer não sei o quê que Deolinda sai comigo numa correria. De quanta coisa é feito o mundo. A poeira, que saúda o toque dos pés de Deolinda, atira-se ao ar com determinação. As pedras balançam-se à nossa frente, discutindo alternativas de caminho, a várias vozes. Vemos o casebre ao fundo, aumentando de intensidade, elevando-se enquanto nos aproximamos. Num último fôlego chegamos ao cimo. Deolinda entra por ali a dentro, deixando-me para trás, e estaca em frente ao recanto semicoberto, fixando a marca do corpo de Pinote sobre a laje. Silêncio. Se a ida foi presto, o regresso é lamentoso. Quão diverso é o mundo. Quão diferente a descida de Deolinda da de Pinote. Onde um arrancou a pedra do chão na raiva da corrida, o outro nela se enrola, levando-a em frente, como um empecilho das extremidades, tolhendo-as, arrastando-as. Como se prolonga este desaparecimento. De Pinote conta-se apenas a mancha no chão. Onde estás Pinote. Quem te levou. O Marquês perguntou por ti. O Dr. Galvão escreveu ao Capitão Simões. E nada. Nada. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou. Que eu ando neste desvario. Todos os dias à vila vou. Todo o dia repito o caminho. E nada. Nada. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou. Que a poeira já não é minha amiga. Nem as pedras me indicam o caminho. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou? Onde está o hino? Onde estás irmão?

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Soco – Hilário e Pinote

Anda esta narrativa numa modorra, voltada para a caraterização psicológica dos personagens, mostrando nuances, roçando mesmo a mariquice dos diálogos interiores, mas eu não gosto nada disso. Para mim, onde não há ação não há nada. E não me venham com a importância de consciencializar os atos. Ponham-se a consciencializar, ponham-se, e depois digam que apanharam. Consciencialização é já com o outro no chão. Aí sim, é um regalo de diálogo interior. Vê-lo a retorcer-se restitui-nos a tranquilidade à respiração e um claro entendimento de como as coisas são. Depois olhamos à volta e sentimos como nos olham com respeito, e já está, é isto o mundo. Sei que há por aí muitos literatos que discordam de mim, mas a verdade é que evitam cruzar-se comigo. Não me preocupam. Enquanto estão às voltas com as suas matizes emocionais eu treino no saco. Até vos digo mais, embora não o confessem, até eles me admiram. Um vencedor é um vencedor, que raio. Tudo isto vem a propósito de uma polémica em que estive recentemente envolvido. Quem deu um soco em quem? Quem se acobardou? Diriam que isso pouco interessa. O Pinote já está dentro. Apanhou uma boa zurra. De grande que foi, que o Hilário até teve que o manter uns tempos incógnito no cárcere, a ver se ficava menos feio. Mas o respeito é muito bonito e houve quem dissesse que no monte foi o Pinote que malhou no Hilário. Que este até largou o cão por lhe faltar a firmeza na mão quando viu o Pinote correr para ele. Que já foi lá dentro que Pinote recebeu a visita do Mouco. Que dada a importância do preso, havia dois guardas à escuta, um de cada lado, enquanto o Mouco e o Pinote resolviam uma questão antiga. Dizem que o Pinote pouco falou, talvez por respeito pelo outro. Que às tantas até tiveram que agarrar no Mouco pois a argumentação sem resposta enlouquece qualquer um. Isto é o que dizem. Mas o importante não é isso, o importante é saber se o Hilário largou ou não o cão. Se virou costas, e começou a correr monte abaixo. Se o Pinote o agarrou e disse, vira-te. Se Pinote teve que o fazer mudar de opinião. Se nesse momento eu estive no punho de Pinote, ainda antes dos guardas finalmente o agarrarem. Bom, tenho que confessar que é uma grande responsabilidade. Não estou habituado a este tipo de problemas. No início até me pareceu que era simples. Mas depois de ver o Pinote amassado na cela fiquei um pouco confuso. Graças a Deus que o Hilário logo me mandou chamar. Tivemos uma conversa olhos nos olhos. Como sabem eu não sou muito de conversas, e gosto de tudo muito bem explicadinho. Mas está muito bem informado o Hilário. Disse-me que já tinha ouvido falar de mim. Boas referências, disse. Se continuasse assim teria futuro. Talvez até viesse a trabalhar para ele. Como verdadeiros colegas. Sem problemas de podermos ser vistos em camaradagem. De repente tudo fica claro na minha cabeça. O Hilário não é como esses intelectuais que me olham com repulsa. O Hilário larga o cão pois não quer empecilhos. Vira as costas ao Pinote para se concentrar, e enquanto o sente aproximar eu encho-lhe a mão.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Bispote – Marqueses

É magnífica a obra de Deus. Somos continuamente maravilhados pelas infinitas combinações fruto da sua criação, como um livro cheio de enigmas que possamos passar a vida a reler, encontrando sempre algo de novo. Mas, não há nada mais rico de diversidade do que a querela entre um homem e uma mulher. Ela pode durar uma vida inteira e nunca se esgota. Sinto-me por isso uma obra de Deus, já que é sobre mim que os Marqueses desenrolam um infindável rol de argumentações, pequenos ditos, observações en passant, que, todos juntos, dariam com certeza um livro extraordinário. Tentarei, contudo, resumi-la nesta página a que tenho direito, nesta obra que também se arvora em infindável. Deveis estar neste momento com elevadas expetativas acerca de mim. Estou habituado a isso. À minha visão as pessoas apressam-se. Sou um bispote detentor de um inconfundível acento inglês e estou em casa dos Marqueses há muitas gerações. Já era o favorito da Marquesa, a velha, e agora caí nas graças do atual Sr. Marquês, que era muito afeiçoado à Senhora sua mãe. Não sei se é por causa disso, mas sinto-me acarinhado. E de tal forma o sou, que a Sra. Marquesa, a nova, não consegue esconder os ciúmes. Pois é, quem rouba um filho a sua mãe nunca se redime da culpa, nem da punição. Sorride sempre que oiçais, a minha nora gosta muito de mim, ou, dou-me muito bem com a minha sogra. Sorride. Sou eu que recorda aos novos, aos que pretendem refrescar o património genético desta família, que bem podem tentar, mas a signa deste clã foi traçada há muitas gerações, por guerreiros encabelados em cima de cavalos, e nada há a fazer. Podem trazer nome ou fortuna, mas será só uma achega, um fingimento de renovação. Por isso, quando o Sr. Marquês me coloca em destaque, em cima da sua secretária, a Sra. Marquesa não se consegue conter e alvitra, ao menos pode colocar o bispote no chão. O Sr. Marquês, homem treinado nas artes da caça, e que sabe que bicho que não mexe é bicho que prevalece, diz, é-me mais conveniente para colocar a cinza do charuto. A Sra. Marquesa, a nova, não é mulher de guerras abertas, pelo que é que pela calada que se dirige ao escritório do Sr. Marquês. Deixai então dar-vos uma nota sobre estes momentos a sós, sem testemunhas, agora que a Sra. Marquesa, a velha, já cá não está para lhe poder confidenciar dos tratos de que sou vítima. A sua face perde a candura que a Sra. Marquesa, a nova, sabe tão bem cultivar. Pega-me pela asa, com repugnância, e leva-me a bambolear até ao chão, sem a dignidade a que me habituei com a Sra. Marquesa, a velha. Mas a memória de sua mãe continua bem presente em seu filho, pelo que assim que regressa ao prazer do seu charuto, o Sr. Marquês pega em mim com ambas as mãos e recoloca-me no lugar a que tenho direito. Nada tranquiliza mais para uma mãe que a satisfação do seu filho. É, contudo, sol de pouca dura pois a Sra. Marquesa, sabedora da estratégia do Sr. Marquês prepara-se para a nova investida e logo sugere, porque não oferece o bispote ao seu companheiro de charuto, o Dr. Galvão. Que desaforo, um republicano.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Recheio – Marquesa

Muito se tem escrito sobre a educação e quase sempre a principal questão que se coloca é como deve ocorrer a aprendizagem para além do ninho. A resposta mais elaborada foi dada pelo Grand Tour, em que o jovem gentil-homem inglês viajava pela europa continental, em particular na Itália renascentista, onde se imergia em cultura, e não só. Nesses tempos a formação de um homem fazia-se ao ritmo do cavalgar, sem o bulício do comboio que engole a paisagem. Mas qual o impacto que o Grand Tour pode ter neste lugarejo do Alentejo, neste século que já não se compadece com viagens que demoram anos? Nenhum, não fosse a Sra. Marquesa numa noite de insónia ter visto o pequeno Aires sair de madrugada com uma cesta em direção aos campos. Letrada, pela leitura de obras neoclássicas de viagens, e estando ciente de como estas são determinantes na formação do caráter, logo procurou similaridades entre as escapadas sub-reptícias do miúdo esfarrapado e as epopeias dos gentis-homens. Encheu-se por isso tanto de cuidados como de suspeitas e logo pela manhã resolveu dar uma volta pelas encostas onde sabia que o miúdo costumava andar aos pássaros, mas não sem antes se munir de mim, que estava repousado numa cristaleira entre os meus irmãos. Quem sou eu afinal? A minha aparência pouco me interessa a não ser para ajudar a chegar aquilo que realmente sou, o recheio. Claro que por fora tenho uma prata vermelha, que quando desembrulhada mostra o chocolate, mas isso não é nada até me meterem na boca e eu romper por entre o chocolate derretido. Venho concebido para libertar um pequeno ardor doce que surpreende o próprio chocolate. Agora que já sabeis a artimanha de que sou feito, ouvi. Estava o Aires agachado atrás de um sobreiro, e tão absorto nos pássaros que nem deu pela chegada da Marquesa. Que andas à procura? O Aires volta-se. Olha atarantado, quer porque não fosse hábito ela dirigir-lhe a palavra, quer porque lhe parece imponente, assim vista de baixo. Na ausência de resposta estende-me e diz, toma, olha o que tenho para ti. O Aires olha-me com fascínio. Sabe que por detrás da prata deve haver coisa boa. Do chocolate sabia da existência e até já tinha provado uma ou outra vez, por isso a alegria quando me tirou a primeira capa foi compreensível, mas uma vez na boca, quando me soltei sobre a língua, a expressão foi da surpresa da coisa nova, que a Marquesa logo aproveita. Sabes o que são os comunistas? A chegada simultânea àquele ser de uma teoria resultante de milhares de anos de conceção filosófica, enquanto na boca do rapaz eu me desfaço, evidencia um cuidado pedagógico a que não será alheio as leituras de viagens da Sra. Marquesa. Sabes o que o Hilário disse que eles fazem? A resposta do Aires, comigo na boca, é de um entendimento sem palavras. Sei quem vais procurar pelas manhãs. Arriscou a Marquesa. O rapaz assente, não sei se por mim, se porque percebeu a pergunta. A Marquesa dá-se por entendida. Quando o encontrares diz-lhe do que são capazes os comunistas, mas não lhe fales de mim.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Criancinhas – Pinote

O povo pode não entender os males do comunismo mas percebe com certeza o horror de se comerem criancinhas. Incrédulos? Sabei que esta foi a introdução que Hilário teve na formação em luta anti subversiva. Direis, exemplo típico de um anticomunismo primário. Mas isso sois vós que sabeis ler. O comunismo é um vírus concebido por mentes superiores para grassar entre os pobres de imaginação. Sim, disse imaginação, não instrução. O comunismo é redução da imaginação ao grau zero da expetativa. Um chato sonho de um mundo novo. Antes 72 virgens, para já não falar das delícias de Twin Peaks. Por isso o antídoto apenas pode recorrer às mesmas armas, mas em maior dose. Para quê imaginar um mundo novo se se lhe pode contrapor volúpias, enredos, arrepios. Isso sim, isso será capaz de prender o povo. Imaginai só todo o prazer que está nas entrelinhas, mesmo quando lá nada está, especialmente quando lá nada está. Jogada de mestre esta da CIA quando escreveu este manual de luta anti subversiva, de que a versão portuguesa é já uma tradução da versão em língua espanhola, concebida para as traseiras da América. Assim, logo que soube do desaparecimento de Pinote, Hilário passou a mensagem, os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço. Andava desconfiado que ele não andaria longe e todo o corpo pede pão para a boca. Para o Aires, o rapazola que andava nessa altura pelos seus catorze anos, e que até nem tinha esse apelido, mas que assim ficou devido a uma queda que deu num poço, que o deixou meio aparvalhado, pelo que lhe diziam com frequência, o fedelho parece que anda nos aires, e tão verdadeiro e intenso era o transtorno que veio mesmo mais tarde a dar esse nome de direito a seus filhos. Mas dizia eu, narrador que me quero distante, pois tendo este pequeno relato laivos de pastorícia e homens transtornados, sinto o ímpeto de me inspirar no grande Cervantes e escrever com pena de ironia as misérias terrestres. Dizia eu, que foi precisamente este garoto, cujo pai foi ao longo dos anos trocando a pancada na mulher pelo entupimento em vinho. Dizia eu, que foi pelo seu desnorte, por gostar de andar pelos campos a desoras, pelos poucos cuidados que os pais lhe tinham, que Deolinda o escolheu para todas as madrugadas o equipar com a cesta e enviar à procura do seu marido. Imaginai agora, e deixarei quase tudo à vossa imaginação, imaginai o rapaz frente a frente com o Pinote, o rapaz com os seus aires, o Pinote retornado de uma querela filosófica com todos os animais da natureza. Imaginai o miúdo a estender a cesta com os olhos esparvoados, não fixando o Pinote, e perguntando, tu és comunista. Imaginai agora o sol a despontar de um lado, ainda o escuro da noite do outro, Pinote com o fedor de uns dias, porque perguntas isso, são as primeiras palavras que soletra para outro ser humano desde o dia de ontem. Imaginai a resposta do Aires, o Hilário diz que os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço, com os olhos no chão à espera que algo aconteça. Imaginai agora o miúdo de regresso com a cesta vazia, e o Pinote ao vê-lo de costas murmura, filhos da puta. Imaginai.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Confissão – Marquesa

Não existe maior responsabilidade do que a da intermediação. Somos como o conduto entre duas fatias de pão. Amaciamos-lhes as superfícies para que possam assentar um a sobre a outra em harmonia. E as arestas são tantas. Especialmente quando somos o veículo de comunicação de dois seres tão distintos, ainda que ansiando a se verem e reverem como sendo um só, como um pai e um filho. É por isso trabalho de embaixador, que esvai sentimentos e emoções em palavras suaves, quase neutras ao ouvido, para obviar a precipitações. Sei que há por aí quem argumente da nossa inutilidade, e até insinue algum interesse nas custas do perdão. Idiotas que não fazem a mínima ideia de quem está do outro lado. Pensam que é como eles. Que o podem tutear. Sabes, ontem comi demais, eu sei que não devia, é a gula, mas os meus olhos e estômago conluiaram-se contra mim, no que suspeito ser um pacto velado com o mafarrico que teima em me surgir travestido com os odores da chanfana, e do qual eu sou, igualmente, o principal beneficiário e lesado. Desgraçados. Com certeza nunca visitaram a Capela Sistina. Trazer a chanfana junto a ele é como enviar numa nave não tripulada à procura de inteligência extraterrestre uma imperial e um pires de tremoços. Entendeis agora, homens da razão? Não vedes como ele se espraia pelo teto, magnificente. Achais que aquele corpo pode ter estômago? Ignorais que a combustão deteriora. Está ali há centenas de anos, sereno, impassível, belo. A chanfana é um insulto. Atiça-se-nos apetitosa, mas fria não sabe a nada. Obra do diabo. Como são precárias as coisas deste mundo. Por isso devemos ser sensíveis da sua sensibilidade. Essa é a missão da confissão. Acho que agora percebereis melhor os meus cuidados assim que a Senhora Marquesa se ajoelhou. Vi logo o que lhe ia pela alma. Já tinha ouvido alguns zunzuns. Querida senhora. Tão treinada em intermediações, as mais das vezes a ele entreguei o que dela recebi, tal como recebi, sem a necessidade de um reparo, ou não houvesse nobreza na palavra da nobreza. Mas hoje temi pelo pior. A boca do povo emporcalha. É necessário ter estômago para não sucumbir, e séculos de ascensão torna-nos frágeis às coisas mundanas. Meu caro Senhor Prior, há em mim uma irritação permanente que não consigo afastar. Porquê, minha querida senhora, que vos traz assim? Não sei, mas sei que o povo fala. Deixai o povo falar, quereis maior prova de penitência? Sim, eu sei que é isso que ele de mim espera, e isso eu lhe quero dar, mas por vezes escapa à minha vontade e fraquejo. Sois uma santa, de uma linhagem única. Que posso fazer com este tormento? Sede forte, pois ele colocou em vós este desafio e em vós tem os olhos postos. Mas, meu estimado guia, receio não poder estar à altura da missão que ele a mim atribuiu. Tendes sua compaixão e podeis ter a certeza que sereis um exemplo. Sim, aceito, mas se a sua vontade fosse outra também não me importava. Pois, aqui tendes a importância da confissão, mesmo das mais preparadas criaturas, aquelas que poderiam privar com ele, temos, por vezes, de deixar cair algumas intenções por terra.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Ermita – Pinote

Antes fosse numa ermida, mas não existe ermida com ermita pois esta é construída a posteriori, como remediação, para conforto dos crentes. Por isso, talvez um dia se venha a fazer uma canção, ou uma estátua, ao Pinote, mas, agora, quando lhe disseram, foge que o Hilário vem por ti, coube-lhe em sorte um canto semi-telhado neste casebre em ruínas. Nem sequer se pode dizer que tenha sido uma escolha afortunada. No cimo do monte a vista é boa, mas a fuga está condenada ao fracasso devido à falta de arvoredo ou irregularidades no terreno em volta. Talvez seja esta a sina dos ermitas, a inutilidade prática da clarividência. E quero acentuar, prática, pois poderá observar com grande antecipação o aproximar dos guardas, vê-los avançar aos solavancos e imaginar mesmo as botas pretas arrastadas pelos puxões dos cães, e quedar-se ali numa paralisia extática, um luxo filho da falta de alternativa. Mas porque é que um comunista se deixa levar para o alto de um monte em vez de procurar os camaradas e entrar para a clandestinidade. Primeiro, o aviso não veio da pessoa indicada, depois, a filha recém-nascida impeliu-o a ficar por perto. Por isso está aqui, como um ermita, num isolamento sem propósito, que vai do despontar do sol de um lado ao mergulhar do outro, sob a capa estarrecedora do silêncio quente de Agosto, até que a noite chega. É então que de forma concertada os mais insuspeitos seres, que sob o sol optaram por passar despercebidos, se enchem de razões que já não podem calar. Pinote, que sempre foi avesso ao silêncio, e ainda mais ao apagamento do ser, passa os dias num torpor endoidecido de homem remetido a uma toca como um bicho cauteloso. Mas é à noite que se manifesta o seu destrambelhamento de ermita, sob um céu estrelado que os bichos sentem ser o seu palco. Então, Pinote presencia uma peça encenada pela natureza. Sapos que se aventuram entre recantos de humidade param para o fitar com curiosidade. Ficam-se frente a frente, fitando-se longamente, ainda que a noite não seja fiel na marcação do tempo, e em Pinote a sua noção se tenha desregulado devido à quase ausência de vida social. Nestas suspensões, os mais variados insetos vão permeando o diálogo silencioso com interjeições que o enriquecem de argumentos e razões. Não é fácil para um homem jovem, habituado a travar-se de razões, ver-se remetido a diálogos onde parece ter uma capacidade de intervenção diminuta, como que um mero figurante, ainda que de um forte simbolismo, mas onde a sua vontade não conta. Inicialmente ainda se revoltou. Emitiu sons e fez gestos que forçavam o silêncio à sua volta. Mas passado o assombro inicial, logo regressavam com redobrada força os ditos e não ditos, onde ele começou a sentir comentários desdenhosos à sua atitude. A falta de um claro oponente que pudesse frontalmente questionar levou-o, pouco a pouco, a afundar-se numa letargia sonolenta em que esperava pelo anunciar da claridade e a chegada do rapaz que lhe trazia a comida. Podia então saciar a sede com água fresca e mordiscar o pão e o queijo que Deolinda colocava na cesta.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Intimidade – Olímpia

O ego vibrante de Olímpia provoca-lhe minúsculas fissuras. Naquele dia, quando Olímpia regressou a casa, Hilário percebeu logo. Quem é que ela pensa que é? A Marquesa. O corpo de Olímpia perde limpidez devido à ressonância provocada pela palavra. Marquesa. Hilário sente que sabe a causa. Só pode ser o imbecil do Mouro. Nunca deveria ter intercedido por ele ao Morgado. Põe-se com aqueles ares. Exala Olímpia aumentando a vibração, e porque está em intimidade junta-lhe, deve ser porque natruca. Agora Olímpia ri, numa segurança de fora para dentro. Não fiques assim mulher. Apazigua Hilário, pois sabe que estes sentimentos trazem más consequências, nós que uma vez dados dificilmente se desatam. Até percebo o Marquês, que interesse pode ter aquela cabeleira emproada. Esquiva-se Olímpia. Vais ver que não é o que parece. Se calhar nem sequer te estava a ver. Cumprimentou-te? Pergunta-lhe Hilário, procurando que mude de frequência. Aquela múmia só saúda quando lhe apetece. Retoma Olímpia após uns instantes estática. Vais ver que não. Insiste Hilário. Mas ninguém lhe diz o que ela realmente é? Questiona-se Olímpia parando subitamente de vibrar. Sabes lá se ainda não virá a necessitar de nós. Como que lhe promete Hilário. Que sabes tu homem? Olímpia recobra nitidez. Pois é. Vós que menosprezais o poder da intimidade, que dizeis, a intimidade é a sarjeta das queixas, ponde aqui os ouvidos. É na intimidade que se lambem as feridas, não numa comiseração sem sentido, mas com vista a criarem crosta. Todos os grandes monumentos começaram assim, num desabafo entre dois seres que se constroem para fora. Sim, existe intimidade num monumento. Há a tendência de os associar à coisa pública e como tal incólumes às intempéries, construídos com uma transparência representativa dos valores que norteiam uma sociedade. Sem a humidade do bafo. Mas as coisas são como são e mesmo os monumentos necessitam de cuidado para não se virem a tornar objeto da arqueologia. Por isso, quem me julga recatada, a meu canto, fadada para o chá e a velhice, e nesse juízo pressupõe pequenez, está muito enganado acerca da minha mais valia. Quem me desconsidera são os tolos e os ingénuos e eu sei o embasbacamento que as grandes obras provocam nos primeiros e o seu efeito penetrante e mobilizador nos segundos. De facto, pouco os distingue, pois um tolo é um ingénuo volúvel onde o enlevo não solidifica. E, é, ironicamente, para esses pobres coitados que os monumentos são construídos, na intimidade. Mas, sim, concedo que há intimidades e intimidades. Eu sou das que edificam, construída por desconfortos fortalecidos num forte sentido de injustiça. Outras que eu por aí vejo, instaladas na segurança dos seus palácios, tornaram-se moles, definham na procura do bem e, por isso, tornam-se permeáveis ao endrominar. Não é sem um ligeiro calafrio que esta imagem me ocorre, pois pressinto que este é o nosso yin-yang, a saliva que cura é o veneno que destrói civilizações, e, talvez, nas futuras traduções da Bíblia o Apocalipse ocorrerá no dia em que se grave a intimidade.