Há obras que o melhor é não as começar porque nunca mais acabam. Deixei-vos com a carta do Dr. Galvão tombando em rodopio e agora vejo-me na obrigação de esclarecer se estava ou não Pinote acompanhado, e se não estava, se foi o Dr. Galvão induzido em falta ou foi ele próprio que pisando a ténue linha da ética profissional inventou esse facto, e se foi induzido em falta, quem o induziu e com que propósito, e terá esse alguém sido também induzido ou inventou ele a história, e por que razão e com que objetivo, e se foi o próprio Dr. Galvão que criou o facto, então porque o fez, porque arriscaria a sua reputação por uma criada e um comunista, ainda que patrocinados pelo Sr. Marquês, ou será que já tinha planeado escusar-se com algum personagem menor da nossa história, um Mouco que disse que ouviu o Mouro dizer, e se Pinote estava acompanhado então porque é que este narrador vos omitiu esse facto, e se assim foi qual a razão, qual foi a sua intenção, e será que se irá escusar em questões de estilo literário, de fluidez da narrativa, de coerência concetual dos cenas e seus cenários, sim, claro que a corrida do Pinote monte abaixo perderia muito do seu teor épico se tivesse acontecido no meio de uma multidão, em que não seria claro se Pinote avançou por determinação própria ou se foi a isso empurrado pela turba, ainda que quando se chega aos movimentos de massas a própria determinação perde a individualidade, ou terá este narrador intenções de endeusar, de criar modelos para vender ideologias, sejam elas do individual ou coletivo, ou será que a solidão forçada de Pinote aconteceu devida a uma sua obsessão infantil por sapos, esses improváveis seres, redondos e de olhos esbugalhados, os antepassados concetualmente mais próximos das vacas, ou não andassem ambos no mundo a pastar, ou então este nem sequer é um problema pois a carta do Dr. Galvão foi escrita com o cuidado de um advogado por forma a não deixar claro se Pinote estava acompanhado no momento da prisão, pois se um companheiro afirmar que Pinote foi levado isso não quer dizer que seja um testemunho direto, pode ter sido um guarda que chibatou, ou o Mouco ter deixado cair alguma frase na taberna onde foi lavar o suor da porrada em vinho, mas se é assim, porque é que Deolinda andava à procura de Pinote, indo todos os dias à vila, será que isso nunca aconteceu na realidade, que foi um desvio poético do narrador, uma desculpa para um cântico, e se não estava na carta do Dr. Galvão porque é que o Capitão Simões aceitou como verdadeira a afirmação do Hilário, será que não leu a carta com atenção, ou na confusão da batalha não teve a frieza de avaliar cada uma das palavras de Hilário, talvez o seu torpor burocrático o tenha incapacitado a desviar-se das mais óbvias estocadas habituado que estava a legislar em paz, e se o Pinote nunca existiu, nem o Marquês, e muito menos Deolinda, que foram inventados porque a Joaninha ameaçava tornar-se numa personagem enfadonha, afogada na luta de classes, e nada melhor que ir buscar um passado cheio de sobressaltos para dar um salto em frente, e se de facto Pinote existiu mas não era comu
In 25 de abril sempre (2017)