sábado, 25 de fevereiro de 2017

Guerra – de Razões

Há obras que o melhor é não as começar porque nunca mais acabam. Deixei-vos com a carta do Dr. Galvão tombando em rodopio e agora vejo-me na obrigação de esclarecer se estava ou não Pinote acompanhado, e se não estava, se foi o Dr. Galvão induzido em falta ou foi ele próprio que pisando a ténue linha da ética profissional inventou esse facto, e se foi induzido em falta, quem o induziu e com que propósito, e terá esse alguém sido também induzido ou inventou ele a história, e por que razão e com que objetivo, e se foi o próprio Dr. Galvão que criou o facto, então porque o fez, porque arriscaria a sua reputação por uma criada e um comunista, ainda que patrocinados pelo Sr. Marquês, ou será que já tinha planeado escusar-se com algum personagem menor da nossa história, um Mouco que disse que ouviu o Mouro dizer, e se Pinote estava acompanhado então porque é que este narrador vos omitiu esse facto, e se assim foi qual a razão, qual foi a sua intenção, e será que se irá escusar em questões de estilo literário, de fluidez da narrativa, de coerência concetual dos cenas e seus cenários, sim, claro que a corrida do Pinote monte abaixo perderia muito do seu teor épico se tivesse acontecido no meio de uma multidão, em que não seria claro se Pinote avançou por determinação própria ou se foi a isso empurrado pela turba, ainda que quando se chega aos movimentos de massas a própria determinação perde a individualidade, ou terá este narrador intenções de endeusar, de criar modelos para vender ideologias, sejam elas do individual ou coletivo, ou será que a solidão forçada de Pinote aconteceu devida a uma sua obsessão infantil por sapos, esses improváveis seres, redondos e de olhos esbugalhados, os antepassados concetualmente mais próximos das vacas, ou não andassem ambos no mundo a pastar, ou então este nem sequer é um problema pois a carta do Dr. Galvão foi escrita com o cuidado de um advogado por forma a não deixar claro se Pinote estava acompanhado no momento da prisão, pois se um companheiro afirmar que Pinote foi levado isso não quer dizer que seja um testemunho direto, pode ter sido um guarda que chibatou, ou o Mouco ter deixado cair alguma frase na taberna onde foi lavar o suor da porrada em vinho, mas se é assim, porque é que Deolinda andava à procura de Pinote, indo todos os dias à vila, será que isso nunca aconteceu na realidade, que foi um desvio poético do narrador, uma desculpa para um cântico, e se não estava na carta do Dr. Galvão porque é que o Capitão Simões aceitou como verdadeira a afirmação do Hilário, será que não leu a carta com atenção, ou na confusão da batalha não teve a frieza de avaliar cada uma das palavras de Hilário, talvez o seu torpor burocrático o tenha incapacitado a desviar-se das mais óbvias estocadas habituado que estava a legislar em paz, e se o Pinote nunca existiu, nem o Marquês, e muito menos Deolinda, que foram inventados porque a Joaninha ameaçava tornar-se numa personagem enfadonha, afogada na luta de classes, e nada melhor que ir buscar um passado cheio de sobressaltos para dar um salto em frente, e se de facto Pinote existiu mas não era comu

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Afocinhados – Exmo. Sr. Hilário Mendes e Exmo. Sr. Capitão Armando Simões

Sei que estais pendentes do desenrolar da contenda, que do resultado já todos nós sabemos. Por isso me apreço a pegar na pena e peço humildemente ao Deus dos escribas que me ajude, que não comece a colocar à frente de cada palavra uma outra, que afaste de mim o diabo do Sr. Sterne com as suas achegas, derivas, e, ai meu Deus, ordinarices, para que esta página baste. Não vos vou recordar onde ficámos, pois tenho a certeza que não preciso. E também espero não defraudar as vossas expetativas quanto ao desenrolar dos factos, que muitas certezas já acumulastes para vos verdes agora abandonados. Sigamos, pois, em frente, armados das nossas convicções. Sim, frente a frente estão afocinhados o Exmo. Sr. Hilário Mendes e o Exmo. Sr. Capitão Armando Simões. Escritos a letra bem diferente. A letra grande e bem desenhada do Dr. Galvão ali enredada com a letra pontiaguda da mão anónima. Em extremos opostos, os Exmos. como punhos e o Srs. como guardas de duas espadas que se digladiam. A do Capitão Simões é mais comprida, o que, parecendo uma vantagem, não é. Já lá vão os anos, e a cadeira e o trabalho burocrático, retiraram-lhe a habilidade do manejo de uma arma deste porte, atrapalhando-o mesmo um pouco, tendo a lâmina Capitão Armando Simões de ser movida com cautela entre papelada, armários, secretária, tinteiros e mata borrões. Já o seu adversário pode tirar partido da manobra ágil que a pequenez de uma Hilário Mendes proporciona. O Capitão Simões é discípulo das manobras disciplinadas em que os exércitos se posicionam com uma certa idiotice coreográfica. Por isso, Hilário sabe que para vencer basta envergonhar, pois o que a disciplina mais teme é a descompostura. Quando Hilário entrou na sala o Capitão Simões empertigou-se confiante como se envergando o seu uniforme de gala. Sente-se Hilário, disse com o desdém natural dos que, sabendo de antemão o resultado, gostam de tratar o adversário com complacência. O que sabe o Hilário do paradeiro do Joaquim Pinote, desfere o Capitão Simões, empunhando na mão enxuta a carta do Dr. Galvão. Hilário sente o vão desferir da estocada e responde calmamente, o Pinote foi preso, como o meu Capitão ordenou. Está preso!? Atira-lhe o Capitão em tom crescente, marcando o início das hostilidades com uma intensa salva de artilharia. Preso!? Dispara uma segunda salva devido ao gosto pelo estrondo. E porque não fui informado, vozeira por entre o fumo. Hilário aproveita para mudar de posição colocando-se lateralmente e observando o rosto helénico do Capitão Simões. É daí que resolve desferir o primeiro golpe. O que está na carta do Dr. Galvão não corresponde à realidade, quando apanhámos Pinote ele não estava acompanhado. O Capitão Simões é duplamente surpreendido, pelo ângulo da estocada e pelo alvo escolhido. A carta vacila na mão. Como sabe o que está nesta carta, pergunta-lhe no sobressalto de um exército que teme pela sua estratégia. Tenho ordens de Lisboa para ler toda a correspondência. A lâmina Hilário Mendes trespassa Sr. Capitão Simões enquanto a carta do Dr. Galvão tomba às reviravoltas.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Duelo – de Morte

Prolonga-se esta narrativa para além do que tinha sido imaginada, urge, pois, pôr-lhe um final, a bem de outras que clamam à porta pela sua vez, gritando, quando é que tem fim esta novela. Sendo eu um ente fraco à solicitação alheia, principalmente quando carregada da necessidade, lanço-me à obra. Pensei, pensei, e conclui que o melhor é terminar com um duelo de morte. Mas já ouço as mesmas vozes que me impunham o fim rápido alegar que duelo está bem, mas anunciar já que é de morte retira-lhe a tensão dramática. Ah, lamentais-vos, mas afinal seguíeis com atenção! Pois, então, mais vos digo, vai morrer a alegria e a vida e vencer a ignomínia, e de resto, de forma bem traiçoeira. Enlouqueceu, dirão, deitar assim pela janela um tão árduo enredo. Descansai que ainda não é desta, pois sei bem que ao lerdes duelo de morte logo deitastes os olhos ao fim da página. Sim, morre o ideal republicano, vencido pela sua fraqueza, o gosto pela vida. Triste lição esta. Mas tantas estocadas tenho para relatar que devo com presteza começar. Quem se enfrenta? De um lado, está a carta do Dr. Galvão ao Capitão Simões, do outro, a carta anónima de que, suspeito, sabeis a origem e o destino. Qual o objetivo do duelo? A liberdade de Pinote. Quais as armas escolhidas? As mais naturais para os contendores: o envelope e a folha. Quais os golpes permitidos? Bom, aqui foi difícil chegar a um acordo. De início procurou-se que não houvesse golpes baixos, mas um parecer do Dr. Macedo, juiz na comarca, foi de opinião que entre cartas não há golpes baixos. Baseou o seu entendimento no facto de não fazer sentido dizer que uma carta deu uma joelhada a outra, pois as cartas não possuem joelhos, nem partes sensíveis onde aplicar tal golpe. Com certeza uma opinião formada mais na leitura de leis do que de correspondência. Mas assim foi decidido, e as duas cartas enfrentaram-se sabendo que dali apenas uma sairia viva. Começaram executando uma dança giratória, medindo-se, mantendo a distância. A carta republicana sentiu uma profunda repulsa ao ler o endereço da sua adversária, Exmo. Sr. Hilário Mendes, não conseguindo conter as palpitações provocadas pela revolta das palavras e frases contidas na sua folha. Logo aí a anónima partiu em vantagem. Devido à emoção, foi a carta republicana quem esboçou o primeiro ataque. Levantou a aba e deixou sair um pouco da folha para que a anónima ficasse ciente dos seus valores e princípios. Vã carga esta sobre uma anónima. Como resposta fez-se dengosa, pois sabia que a gentalha republicana é atreita aos prazeres da carne. Estes movimentos ondulatórios provocaram grande desconcerto. A folha, cheia de palavras, resistia, mas o envelope, concebido para a rua, não ficou de todo insensível. Tirando partido da vantagem, a carta anónima chega-se à republicana, e, desculpe-me o Dr. Macedo, a melhor palavra que encontro para descrever este golpe é, empernando. Ah, miséria, que ainda não é desta que consigo acabar. Esperem mais um pouco, que a vós já regresso com mais uma página da refrega.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Visita – Hilário

São vários os tipos de visita. A visita de cortesia, feita ao princípio da tarde para não incomodar, que se pode deixar ficar para o lanche, mas nunca para jantar. A visita de negócios, feita com um objetivo mútuo, prolonga-se enquanto necessário, terminando assim que qualquer uma das partes o decida. A visita de agradecimento, quase sempre curta, cumpre um ritual para que seja registado que não se fica em falta. A visita de amizade, que entra pela casa adentro, abrindo-se às intimidades. A visita de apresentação, onde um fala e o outro observa, e é o introito de futuras visitas. Mais haverá, tantas quantas as etiquetas, mas estas chegam para o que nos traz aqui, a visita que Hilário Mendes fez à Sra. Marquesa. Um pouco inesperada. Não é que não houvesse no passado um historial sobre o qual se pudesse desenhar o protocolo desta. Eram frequentes as idas do pai de Hilário a casa dos Marqueses. A mais das vezes para receber instruções ou dar conhecimento. Uma variante pobre da visita de negócios, em que apenas um dos lados a pode dar por terminada. Claro que também houve visitas de agradecimento e apresentação. Algumas na presença de Hilário, como quando o pai foi apresentar o casal recém-casado. Mas todas elas diferentes das visitas que o próprio Hilário se habitou a fazer. Não aos Marqueses, mas às casas dos oposicionistas, onde quer que eles se encontrassem, como foi a subida ao monte para visitar Pinote. Visitas onde a urgência da necessidade não dá tempo à cobertura da etiqueta. Por isso, quando a Sra. Marquesa soube do pedido de Hilário Mendes para ser recebido, não pôde deixar de ficar a matutar. Procurou decidir sob que protocolo se deveria reger. E nada melhor que o passado para definir as regras de correspondência de dignidade. Mas também sabia da recente promoção de Hilário, que o tinha tornado num homem respeitado, até mesmo um pouco temido. Por outro lado, o pedido era-lhe diretamente dirigido, não incluindo o Sr. Marquês, o que sugeria a exclusão da visita de cortesia ou mesmo a de negócios. Andava por isso apreensiva, de modo que quando Hilário entrou resolveu deixar-lhe marcar o tom da conversa. Os meus respeitos Sra. Marquesa, e os meus agradecimentos por me receber, disse Hilário mantendo uma distância circunstancial. Como está Hilário, como está a sua esposa, respondeu-lhe um pouco tranquilizada, e acrescentou, muitos parabéns pelas suas novas responsabilidades. Muito obrigado, respondeu com uma ligeira vénia, sabe que aqui terá sempre alguém pronto a servi-la. A que devo este prazer, questionou-lhe a Sra. Marquesa. Venho agradecer-lhe a dedicação que a Sra. Marquesa demonstra pela Nação, disse Hilário mantendo a cabeça semi-fletida e avançado meio passo enquanto procura os olhos da Sra. Marquesa. Não tem de quê, sabe que nesta casa temos a maior consideração pelo trabalho do Senhor Doutor em prol de Portugal. Venho comunicar-lhe em primeira mão que apanhámos o Joaquim Pinote, disse Hilário acercando-se da Sra. Marquesa. Obrigado, juntou-lhe com intimidade na voz.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Poema – Marquesa

Quem nunca sonhou verter para a folha um pouco da sua alma. Quem nunca sonhou ser musa de poeta. Quem nunca passou um mau bocado. Quem nunca procurou na pena uma companheira. Quem nunca procurou o consolo num poema. Quem na noite escura não acendeu a luz sobre a folha branca. Estas são os princípios que regem a escola da poesia. Já lá vai tempo desde que a frequentei. Era novo e sonhava, como todos nós, vir a ser possuído por um génio, ficar para a posteridade. Somos compelidos, por isso, a percorrer mundo, quase sempre de noite. Noites de lua ou sem ela, como deve ser. Noites de tempestade, à procura do momento mágico em que um humano e a natureza se conciliam num ato singular. Foi por isso que ao ver a Sra. Marquesa acordada noite fora me fui colocar à sua mercê sobre a escrivaninha. Ali estive algum tempo, atarracada, à espera que notasse em mim. Andava agitada a Marquesa. Especialmente pela madrugada. Foi ainda antes da aurora que o rapaz regressou com a cesta cheia, de onde vem tão cedo que se não vislumbra a hora. Da janela do meu quarto presencio este enigma, sabe Deus porque estou acordada se nada deveria acontecer lá fora. Mas ao que os meus olhos veem não devo correr a cortina, pois se Ele me quis desperta é porque esta pode ser a minha sina. Quem dele se desobriga mais tarde ou mais cedo se afadiga, no remorso ou na pena por não ter sido digna. Podem de mim mal falar mas sou eu que decido onde coloco a pena, mesmo nesta carta anónima que escrevo com temor, mas sem problema. Mas porque sou eu assim, se calhar não devia, mas se de meu amo sou escrava a Deus sou obrigada. Coitada dessa outra mulher de criança ao peito, devo por ela fazer aquilo que não me diz respeito. Se Ele aqui me quer, não sou propriamente eu que o faço, mas o próprio Senhor isso me poisa no regaço. Escreve Deus por linhas tortas e eu dele sou a espada, que neste mundo faz justiça, quando poucos mais se importam. Mas se a meu senhor fujo foi porque ele não me quis agarrar, que muito pronta estava eu para lhe agradar. Que culpa tem esta outra mulher que não seja ter vindo ao mundo no lugar errado e num quarto sem fundo. Mas porque disso te preocupas, vede como eles bailam, ignoram o poderoso como cães sem laia. Serão gente, serão dele filhos, mas só na aflição recordam que têm alma dentro da carne calva. Anda ela pela casa como se não fosse minha, por isso me trespassa uma dor bem comezinha. Perdoai-me meu Deus por cumprir a vossa vontade, embora saiba que possa estar a pecar se fosse noutro lugar. A este palácio vim parar, não sei se por minha vontade, mas foi com certeza por razões de lealdade. Pelos quadros na parede suspeitei com aflição que não serei a primeira a que as coisas não correm de feição. Que posso meu amo fazer para quebrar esta sorte, se o bem só por si parece trazer mais dor do que a morte. Deixai, deixai as coisas ocorrer, pois o mundo é como a roda onde se coloca a criança que nasceu sem norte. Também eu me sinto para aqui perdida, ainda que na genealogia me seja fácil encontrar de quem sou a preferida.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Cântico – Deolinda

Sereis vós daqueles que se emocionam com um hino, que não resistem a um estádio em uníssono, a uma parada, a um desfile, a um mar de gente entoando palavras? Sabei, pois, que o hino é um meu irmão extraviado. Depois de uma cuidada educação musical, do dedilhar do piano na meninice, deixou-se encantar pelas certezas, ganhou músculo, perdeu o ouvido. A verdadeira emoção está nas incertezas que nos levam a procurar chaves, a estar atendo ao pormenor. Uma emoção que vai e vem. Que ataca de surpresa as mais inusitadas partes do corpo. Um vibrar aqui. Um baque ali. Depois, um enlevamento que não deixa nada de fora. E, uma vez lá em cima, o silêncio. É isso que o hino não percebe, o silêncio. Tão cheio de si, teme que não é. O que eu aprendi, e ele esqueceu, é que existo para me calar. Foi assim quando o Aires regressou com a cesta cheia. Eu percebi logo que o meu irmão subiu aquele monte, como gosta, ao ritmo do latido dos cães, aos gritos de estímulo dos homens, com a certeza que o caçador tem das delícias da presa. Imobilizei Deolinda com um grito, e podei ter a certeza que Aires nada ouviu. Parecia tão etéreo o Aires em frente a Deolinda, pairava com o seu ar, dando voltas sobre si mesmo, e da cesta nada caía. Depois atingi os músculos da face direita de Deolinda, pois no exaltar inicial das assimetrias está a arte da composição. É quando o Aires começa a abrir a boca para dizer não sei o quê que Deolinda sai comigo numa correria. De quanta coisa é feito o mundo. A poeira, que saúda o toque dos pés de Deolinda, atira-se ao ar com determinação. As pedras balançam-se à nossa frente, discutindo alternativas de caminho, a várias vozes. Vemos o casebre ao fundo, aumentando de intensidade, elevando-se enquanto nos aproximamos. Num último fôlego chegamos ao cimo. Deolinda entra por ali a dentro, deixando-me para trás, e estaca em frente ao recanto semicoberto, fixando a marca do corpo de Pinote sobre a laje. Silêncio. Se a ida foi presto, o regresso é lamentoso. Quão diverso é o mundo. Quão diferente a descida de Deolinda da de Pinote. Onde um arrancou a pedra do chão na raiva da corrida, o outro nela se enrola, levando-a em frente, como um empecilho das extremidades, tolhendo-as, arrastando-as. Como se prolonga este desaparecimento. De Pinote conta-se apenas a mancha no chão. Onde estás Pinote. Quem te levou. O Marquês perguntou por ti. O Dr. Galvão escreveu ao Capitão Simões. E nada. Nada. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou. Que eu ando neste desvario. Todos os dias à vila vou. Todo o dia repito o caminho. E nada. Nada. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou. Que a poeira já não é minha amiga. Nem as pedras me indicam o caminho. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou? Onde está o hino? Onde estás irmão?

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Soco – Hilário e Pinote

Anda esta narrativa numa modorra, voltada para a caraterização psicológica dos personagens, mostrando nuances, roçando mesmo a mariquice dos diálogos interiores, mas eu não gosto nada disso. Para mim, onde não há ação não há nada. E não me venham com a importância de consciencializar os atos. Ponham-se a consciencializar, ponham-se, e depois digam que apanharam. Consciencialização é já com o outro no chão. Aí sim, é um regalo de diálogo interior. Vê-lo a retorcer-se restitui-nos a tranquilidade à respiração e um claro entendimento de como as coisas são. Depois olhamos à volta e sentimos como nos olham com respeito, e já está, é isto o mundo. Sei que há por aí muitos literatos que discordam de mim, mas a verdade é que evitam cruzar-se comigo. Não me preocupam. Enquanto estão às voltas com as suas matizes emocionais eu treino no saco. Até vos digo mais, embora não o confessem, até eles me admiram. Um vencedor é um vencedor, que raio. Tudo isto vem a propósito de uma polémica em que estive recentemente envolvido. Quem deu um soco em quem? Quem se acobardou? Diriam que isso pouco interessa. O Pinote já está dentro. Apanhou uma boa zurra. De grande que foi, que o Hilário até teve que o manter uns tempos incógnito no cárcere, a ver se ficava menos feio. Mas o respeito é muito bonito e houve quem dissesse que no monte foi o Pinote que malhou no Hilário. Que este até largou o cão por lhe faltar a firmeza na mão quando viu o Pinote correr para ele. Que já foi lá dentro que Pinote recebeu a visita do Mouco. Que dada a importância do preso, havia dois guardas à escuta, um de cada lado, enquanto o Mouco e o Pinote resolviam uma questão antiga. Dizem que o Pinote pouco falou, talvez por respeito pelo outro. Que às tantas até tiveram que agarrar no Mouco pois a argumentação sem resposta enlouquece qualquer um. Isto é o que dizem. Mas o importante não é isso, o importante é saber se o Hilário largou ou não o cão. Se virou costas, e começou a correr monte abaixo. Se o Pinote o agarrou e disse, vira-te. Se Pinote teve que o fazer mudar de opinião. Se nesse momento eu estive no punho de Pinote, ainda antes dos guardas finalmente o agarrarem. Bom, tenho que confessar que é uma grande responsabilidade. Não estou habituado a este tipo de problemas. No início até me pareceu que era simples. Mas depois de ver o Pinote amassado na cela fiquei um pouco confuso. Graças a Deus que o Hilário logo me mandou chamar. Tivemos uma conversa olhos nos olhos. Como sabem eu não sou muito de conversas, e gosto de tudo muito bem explicadinho. Mas está muito bem informado o Hilário. Disse-me que já tinha ouvido falar de mim. Boas referências, disse. Se continuasse assim teria futuro. Talvez até viesse a trabalhar para ele. Como verdadeiros colegas. Sem problemas de podermos ser vistos em camaradagem. De repente tudo fica claro na minha cabeça. O Hilário não é como esses intelectuais que me olham com repulsa. O Hilário larga o cão pois não quer empecilhos. Vira as costas ao Pinote para se concentrar, e enquanto o sente aproximar eu encho-lhe a mão.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Bispote – Marqueses

É magnífica a obra de Deus. Somos continuamente maravilhados pelas infinitas combinações fruto da sua criação, como um livro cheio de enigmas que possamos passar a vida a reler, encontrando sempre algo de novo. Mas, não há nada mais rico de diversidade do que a querela entre um homem e uma mulher. Ela pode durar uma vida inteira e nunca se esgota. Sinto-me por isso uma obra de Deus, já que é sobre mim que os Marqueses desenrolam um infindável rol de argumentações, pequenos ditos, observações en passant, que, todos juntos, dariam com certeza um livro extraordinário. Tentarei, contudo, resumi-la nesta página a que tenho direito, nesta obra que também se arvora em infindável. Deveis estar neste momento com elevadas expetativas acerca de mim. Estou habituado a isso. À minha visão as pessoas apressam-se. Sou um bispote detentor de um inconfundível acento inglês e estou em casa dos Marqueses há muitas gerações. Já era o favorito da Marquesa, a velha, e agora caí nas graças do atual Sr. Marquês, que era muito afeiçoado à Senhora sua mãe. Não sei se é por causa disso, mas sinto-me acarinhado. E de tal forma o sou, que a Sra. Marquesa, a nova, não consegue esconder os ciúmes. Pois é, quem rouba um filho a sua mãe nunca se redime da culpa, nem da punição. Sorride sempre que oiçais, a minha nora gosta muito de mim, ou, dou-me muito bem com a minha sogra. Sorride. Sou eu que recorda aos novos, aos que pretendem refrescar o património genético desta família, que bem podem tentar, mas a signa deste clã foi traçada há muitas gerações, por guerreiros encabelados em cima de cavalos, e nada há a fazer. Podem trazer nome ou fortuna, mas será só uma achega, um fingimento de renovação. Por isso, quando o Sr. Marquês me coloca em destaque, em cima da sua secretária, a Sra. Marquesa não se consegue conter e alvitra, ao menos pode colocar o bispote no chão. O Sr. Marquês, homem treinado nas artes da caça, e que sabe que bicho que não mexe é bicho que prevalece, diz, é-me mais conveniente para colocar a cinza do charuto. A Sra. Marquesa, a nova, não é mulher de guerras abertas, pelo que é que pela calada que se dirige ao escritório do Sr. Marquês. Deixai então dar-vos uma nota sobre estes momentos a sós, sem testemunhas, agora que a Sra. Marquesa, a velha, já cá não está para lhe poder confidenciar dos tratos de que sou vítima. A sua face perde a candura que a Sra. Marquesa, a nova, sabe tão bem cultivar. Pega-me pela asa, com repugnância, e leva-me a bambolear até ao chão, sem a dignidade a que me habituei com a Sra. Marquesa, a velha. Mas a memória de sua mãe continua bem presente em seu filho, pelo que assim que regressa ao prazer do seu charuto, o Sr. Marquês pega em mim com ambas as mãos e recoloca-me no lugar a que tenho direito. Nada tranquiliza mais para uma mãe que a satisfação do seu filho. É, contudo, sol de pouca dura pois a Sra. Marquesa, sabedora da estratégia do Sr. Marquês prepara-se para a nova investida e logo sugere, porque não oferece o bispote ao seu companheiro de charuto, o Dr. Galvão. Que desaforo, um republicano.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Recheio – Marquesa

Muito se tem escrito sobre a educação e quase sempre a principal questão que se coloca é como deve ocorrer a aprendizagem para além do ninho. A resposta mais elaborada foi dada pelo Grand Tour, em que o jovem gentil-homem inglês viajava pela europa continental, em particular na Itália renascentista, onde se imergia em cultura, e não só. Nesses tempos a formação de um homem fazia-se ao ritmo do cavalgar, sem o bulício do comboio que engole a paisagem. Mas qual o impacto que o Grand Tour pode ter neste lugarejo do Alentejo, neste século que já não se compadece com viagens que demoram anos? Nenhum, não fosse a Sra. Marquesa numa noite de insónia ter visto o pequeno Aires sair de madrugada com uma cesta em direção aos campos. Letrada, pela leitura de obras neoclássicas de viagens, e estando ciente de como estas são determinantes na formação do caráter, logo procurou similaridades entre as escapadas sub-reptícias do miúdo esfarrapado e as epopeias dos gentis-homens. Encheu-se por isso tanto de cuidados como de suspeitas e logo pela manhã resolveu dar uma volta pelas encostas onde sabia que o miúdo costumava andar aos pássaros, mas não sem antes se munir de mim, que estava repousado numa cristaleira entre os meus irmãos. Quem sou eu afinal? A minha aparência pouco me interessa a não ser para ajudar a chegar aquilo que realmente sou, o recheio. Claro que por fora tenho uma prata vermelha, que quando desembrulhada mostra o chocolate, mas isso não é nada até me meterem na boca e eu romper por entre o chocolate derretido. Venho concebido para libertar um pequeno ardor doce que surpreende o próprio chocolate. Agora que já sabeis a artimanha de que sou feito, ouvi. Estava o Aires agachado atrás de um sobreiro, e tão absorto nos pássaros que nem deu pela chegada da Marquesa. Que andas à procura? O Aires volta-se. Olha atarantado, quer porque não fosse hábito ela dirigir-lhe a palavra, quer porque lhe parece imponente, assim vista de baixo. Na ausência de resposta estende-me e diz, toma, olha o que tenho para ti. O Aires olha-me com fascínio. Sabe que por detrás da prata deve haver coisa boa. Do chocolate sabia da existência e até já tinha provado uma ou outra vez, por isso a alegria quando me tirou a primeira capa foi compreensível, mas uma vez na boca, quando me soltei sobre a língua, a expressão foi da surpresa da coisa nova, que a Marquesa logo aproveita. Sabes o que são os comunistas? A chegada simultânea àquele ser de uma teoria resultante de milhares de anos de conceção filosófica, enquanto na boca do rapaz eu me desfaço, evidencia um cuidado pedagógico a que não será alheio as leituras de viagens da Sra. Marquesa. Sabes o que o Hilário disse que eles fazem? A resposta do Aires, comigo na boca, é de um entendimento sem palavras. Sei quem vais procurar pelas manhãs. Arriscou a Marquesa. O rapaz assente, não sei se por mim, se porque percebeu a pergunta. A Marquesa dá-se por entendida. Quando o encontrares diz-lhe do que são capazes os comunistas, mas não lhe fales de mim.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Criancinhas – Pinote

O povo pode não entender os males do comunismo mas percebe com certeza o horror de se comerem criancinhas. Incrédulos? Sabei que esta foi a introdução que Hilário teve na formação em luta anti subversiva. Direis, exemplo típico de um anticomunismo primário. Mas isso sois vós que sabeis ler. O comunismo é um vírus concebido por mentes superiores para grassar entre os pobres de imaginação. Sim, disse imaginação, não instrução. O comunismo é redução da imaginação ao grau zero da expetativa. Um chato sonho de um mundo novo. Antes 72 virgens, para já não falar das delícias de Twin Peaks. Por isso o antídoto apenas pode recorrer às mesmas armas, mas em maior dose. Para quê imaginar um mundo novo se se lhe pode contrapor volúpias, enredos, arrepios. Isso sim, isso será capaz de prender o povo. Imaginai só todo o prazer que está nas entrelinhas, mesmo quando lá nada está, especialmente quando lá nada está. Jogada de mestre esta da CIA quando escreveu este manual de luta anti subversiva, de que a versão portuguesa é já uma tradução da versão em língua espanhola, concebida para as traseiras da América. Assim, logo que soube do desaparecimento de Pinote, Hilário passou a mensagem, os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço. Andava desconfiado que ele não andaria longe e todo o corpo pede pão para a boca. Para o Aires, o rapazola que andava nessa altura pelos seus catorze anos, e que até nem tinha esse apelido, mas que assim ficou devido a uma queda que deu num poço, que o deixou meio aparvalhado, pelo que lhe diziam com frequência, o fedelho parece que anda nos aires, e tão verdadeiro e intenso era o transtorno que veio mesmo mais tarde a dar esse nome de direito a seus filhos. Mas dizia eu, narrador que me quero distante, pois tendo este pequeno relato laivos de pastorícia e homens transtornados, sinto o ímpeto de me inspirar no grande Cervantes e escrever com pena de ironia as misérias terrestres. Dizia eu, que foi precisamente este garoto, cujo pai foi ao longo dos anos trocando a pancada na mulher pelo entupimento em vinho. Dizia eu, que foi pelo seu desnorte, por gostar de andar pelos campos a desoras, pelos poucos cuidados que os pais lhe tinham, que Deolinda o escolheu para todas as madrugadas o equipar com a cesta e enviar à procura do seu marido. Imaginai agora, e deixarei quase tudo à vossa imaginação, imaginai o rapaz frente a frente com o Pinote, o rapaz com os seus aires, o Pinote retornado de uma querela filosófica com todos os animais da natureza. Imaginai o miúdo a estender a cesta com os olhos esparvoados, não fixando o Pinote, e perguntando, tu és comunista. Imaginai agora o sol a despontar de um lado, ainda o escuro da noite do outro, Pinote com o fedor de uns dias, porque perguntas isso, são as primeiras palavras que soletra para outro ser humano desde o dia de ontem. Imaginai a resposta do Aires, o Hilário diz que os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço, com os olhos no chão à espera que algo aconteça. Imaginai agora o miúdo de regresso com a cesta vazia, e o Pinote ao vê-lo de costas murmura, filhos da puta. Imaginai.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Confissão – Marquesa

Não existe maior responsabilidade do que a da intermediação. Somos como o conduto entre duas fatias de pão. Amaciamos-lhes as superfícies para que possam assentar um a sobre a outra em harmonia. E as arestas são tantas. Especialmente quando somos o veículo de comunicação de dois seres tão distintos, ainda que ansiando a se verem e reverem como sendo um só, como um pai e um filho. É por isso trabalho de embaixador, que esvai sentimentos e emoções em palavras suaves, quase neutras ao ouvido, para obviar a precipitações. Sei que há por aí quem argumente da nossa inutilidade, e até insinue algum interesse nas custas do perdão. Idiotas que não fazem a mínima ideia de quem está do outro lado. Pensam que é como eles. Que o podem tutear. Sabes, ontem comi demais, eu sei que não devia, é a gula, mas os meus olhos e estômago conluiaram-se contra mim, no que suspeito ser um pacto velado com o mafarrico que teima em me surgir travestido com os odores da chanfana, e do qual eu sou, igualmente, o principal beneficiário e lesado. Desgraçados. Com certeza nunca visitaram a Capela Sistina. Trazer a chanfana junto a ele é como enviar numa nave não tripulada à procura de inteligência extraterrestre uma imperial e um pires de tremoços. Entendeis agora, homens da razão? Não vedes como ele se espraia pelo teto, magnificente. Achais que aquele corpo pode ter estômago? Ignorais que a combustão deteriora. Está ali há centenas de anos, sereno, impassível, belo. A chanfana é um insulto. Atiça-se-nos apetitosa, mas fria não sabe a nada. Obra do diabo. Como são precárias as coisas deste mundo. Por isso devemos ser sensíveis da sua sensibilidade. Essa é a missão da confissão. Acho que agora percebereis melhor os meus cuidados assim que a Senhora Marquesa se ajoelhou. Vi logo o que lhe ia pela alma. Já tinha ouvido alguns zunzuns. Querida senhora. Tão treinada em intermediações, as mais das vezes a ele entreguei o que dela recebi, tal como recebi, sem a necessidade de um reparo, ou não houvesse nobreza na palavra da nobreza. Mas hoje temi pelo pior. A boca do povo emporcalha. É necessário ter estômago para não sucumbir, e séculos de ascensão torna-nos frágeis às coisas mundanas. Meu caro Senhor Prior, há em mim uma irritação permanente que não consigo afastar. Porquê, minha querida senhora, que vos traz assim? Não sei, mas sei que o povo fala. Deixai o povo falar, quereis maior prova de penitência? Sim, eu sei que é isso que ele de mim espera, e isso eu lhe quero dar, mas por vezes escapa à minha vontade e fraquejo. Sois uma santa, de uma linhagem única. Que posso fazer com este tormento? Sede forte, pois ele colocou em vós este desafio e em vós tem os olhos postos. Mas, meu estimado guia, receio não poder estar à altura da missão que ele a mim atribuiu. Tendes sua compaixão e podeis ter a certeza que sereis um exemplo. Sim, aceito, mas se a sua vontade fosse outra também não me importava. Pois, aqui tendes a importância da confissão, mesmo das mais preparadas criaturas, aquelas que poderiam privar com ele, temos, por vezes, de deixar cair algumas intenções por terra.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Ermita – Pinote

Antes fosse numa ermida, mas não existe ermida com ermita pois esta é construída a posteriori, como remediação, para conforto dos crentes. Por isso, talvez um dia se venha a fazer uma canção, ou uma estátua, ao Pinote, mas, agora, quando lhe disseram, foge que o Hilário vem por ti, coube-lhe em sorte um canto semi-telhado neste casebre em ruínas. Nem sequer se pode dizer que tenha sido uma escolha afortunada. No cimo do monte a vista é boa, mas a fuga está condenada ao fracasso devido à falta de arvoredo ou irregularidades no terreno em volta. Talvez seja esta a sina dos ermitas, a inutilidade prática da clarividência. E quero acentuar, prática, pois poderá observar com grande antecipação o aproximar dos guardas, vê-los avançar aos solavancos e imaginar mesmo as botas pretas arrastadas pelos puxões dos cães, e quedar-se ali numa paralisia extática, um luxo filho da falta de alternativa. Mas porque é que um comunista se deixa levar para o alto de um monte em vez de procurar os camaradas e entrar para a clandestinidade. Primeiro, o aviso não veio da pessoa indicada, depois, a filha recém-nascida impeliu-o a ficar por perto. Por isso está aqui, como um ermita, num isolamento sem propósito, que vai do despontar do sol de um lado ao mergulhar do outro, sob a capa estarrecedora do silêncio quente de Agosto, até que a noite chega. É então que de forma concertada os mais insuspeitos seres, que sob o sol optaram por passar despercebidos, se enchem de razões que já não podem calar. Pinote, que sempre foi avesso ao silêncio, e ainda mais ao apagamento do ser, passa os dias num torpor endoidecido de homem remetido a uma toca como um bicho cauteloso. Mas é à noite que se manifesta o seu destrambelhamento de ermita, sob um céu estrelado que os bichos sentem ser o seu palco. Então, Pinote presencia uma peça encenada pela natureza. Sapos que se aventuram entre recantos de humidade param para o fitar com curiosidade. Ficam-se frente a frente, fitando-se longamente, ainda que a noite não seja fiel na marcação do tempo, e em Pinote a sua noção se tenha desregulado devido à quase ausência de vida social. Nestas suspensões, os mais variados insetos vão permeando o diálogo silencioso com interjeições que o enriquecem de argumentos e razões. Não é fácil para um homem jovem, habituado a travar-se de razões, ver-se remetido a diálogos onde parece ter uma capacidade de intervenção diminuta, como que um mero figurante, ainda que de um forte simbolismo, mas onde a sua vontade não conta. Inicialmente ainda se revoltou. Emitiu sons e fez gestos que forçavam o silêncio à sua volta. Mas passado o assombro inicial, logo regressavam com redobrada força os ditos e não ditos, onde ele começou a sentir comentários desdenhosos à sua atitude. A falta de um claro oponente que pudesse frontalmente questionar levou-o, pouco a pouco, a afundar-se numa letargia sonolenta em que esperava pelo anunciar da claridade e a chegada do rapaz que lhe trazia a comida. Podia então saciar a sede com água fresca e mordiscar o pão e o queijo que Deolinda colocava na cesta.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Intimidade – Olímpia

O ego vibrante de Olímpia provoca-lhe minúsculas fissuras. Naquele dia, quando Olímpia regressou a casa, Hilário percebeu logo. Quem é que ela pensa que é? A Marquesa. O corpo de Olímpia perde limpidez devido à ressonância provocada pela palavra. Marquesa. Hilário sente que sabe a causa. Só pode ser o imbecil do Mouro. Nunca deveria ter intercedido por ele ao Morgado. Põe-se com aqueles ares. Exala Olímpia aumentando a vibração, e porque está em intimidade junta-lhe, deve ser porque natruca. Agora Olímpia ri, numa segurança de fora para dentro. Não fiques assim mulher. Apazigua Hilário, pois sabe que estes sentimentos trazem más consequências, nós que uma vez dados dificilmente se desatam. Até percebo o Marquês, que interesse pode ter aquela cabeleira emproada. Esquiva-se Olímpia. Vais ver que não é o que parece. Se calhar nem sequer te estava a ver. Cumprimentou-te? Pergunta-lhe Hilário, procurando que mude de frequência. Aquela múmia só saúda quando lhe apetece. Retoma Olímpia após uns instantes estática. Vais ver que não. Insiste Hilário. Mas ninguém lhe diz o que ela realmente é? Questiona-se Olímpia parando subitamente de vibrar. Sabes lá se ainda não virá a necessitar de nós. Como que lhe promete Hilário. Que sabes tu homem? Olímpia recobra nitidez. Pois é. Vós que menosprezais o poder da intimidade, que dizeis, a intimidade é a sarjeta das queixas, ponde aqui os ouvidos. É na intimidade que se lambem as feridas, não numa comiseração sem sentido, mas com vista a criarem crosta. Todos os grandes monumentos começaram assim, num desabafo entre dois seres que se constroem para fora. Sim, existe intimidade num monumento. Há a tendência de os associar à coisa pública e como tal incólumes às intempéries, construídos com uma transparência representativa dos valores que norteiam uma sociedade. Sem a humidade do bafo. Mas as coisas são como são e mesmo os monumentos necessitam de cuidado para não se virem a tornar objeto da arqueologia. Por isso, quem me julga recatada, a meu canto, fadada para o chá e a velhice, e nesse juízo pressupõe pequenez, está muito enganado acerca da minha mais valia. Quem me desconsidera são os tolos e os ingénuos e eu sei o embasbacamento que as grandes obras provocam nos primeiros e o seu efeito penetrante e mobilizador nos segundos. De facto, pouco os distingue, pois um tolo é um ingénuo volúvel onde o enlevo não solidifica. E, é, ironicamente, para esses pobres coitados que os monumentos são construídos, na intimidade. Mas, sim, concedo que há intimidades e intimidades. Eu sou das que edificam, construída por desconfortos fortalecidos num forte sentido de injustiça. Outras que eu por aí vejo, instaladas na segurança dos seus palácios, tornaram-se moles, definham na procura do bem e, por isso, tornam-se permeáveis ao endrominar. Não é sem um ligeiro calafrio que esta imagem me ocorre, pois pressinto que este é o nosso yin-yang, a saliva que cura é o veneno que destrói civilizações, e, talvez, nas futuras traduções da Bíblia o Apocalipse ocorrerá no dia em que se grave a intimidade.

sábado, 17 de dezembro de 2016

natruca – Marquesa

Se o verbo é fugaz, o substantivo perdura. Nasci, da boca do Hilário para o ouvido do Mouro, um verbo com o sujeito subentendido, por cautela do meu criador. Fiz-me frase na cabeça do Mouro e fui colocado na boca do Pinote para chegar ao ouvido da Marquesa. Tudo ficaria por aqui, mas entusiasmei-me com as minhas sete letras, n a t r u c a, o que levou a repetir-me com frequência. Era visto nos mais variados trejeitos de lábios. Desde o natruca serrado, próprio dos cautelosos, pronunciado com os olhos a atirar ao longe para garantir o segredo, ao natruca jovial e brincalhão em que os interlocutores se miram diretamente desafiando o sorriso à desgarrada. Não posso dizer que tenha percorrido mundo, pois os humanos apenas se interessam por aquilo que conhecem. Mas no lugarejo era já uma frase substantiva. Quando o Pinote passava eu era citado em uníssono, fosse por murmúrios ou por pensamentos. Não vos posso dizer o que sentia, pois era ainda uma criatura recente, e se dizem que esse é o período mais importante na formação de qualquer ser, não deixa de ser irónico o pouco que nos recordamos dele. Como vedes, se comecei por ser lexical, os meus sentidos brotaram do uso que me foi dado. Sou um verdadeiro filho da experiência. Se duvidais, procurai-me no dicionário e vede se me encontrais. Eu próprio lá fui de início. Sofria nessa altura a angústia dos filhos de pais incógnitos, afogueados na ideia que o caráter é hereditário. Do desconsolo de nem sequer encontrar uma raiz, que não fosse além do mundo mineral, qualquer coisa feita de sódio, resolvi aceitar o meu destino. Fui percebendo que o meu significado dependia do contexto. Como qualquer criança, fui um ser brincalhão. Repetido na taberna, quando o espírito ainda não foi substituído pelo vinho, num incitamento a mais um copo. Experienciei aí uma existência saltitona, amiga da camaradagem. Não preciso de dizer que gostamos de nos ver assim, e o Pinote também desfrutava, embora sem perceber porquê. Mas já quando passava a Sra. Marquesa tocava outra orquestra. Senti o desdém que na primeira oportunidade é atirado aos poderosos. A latente vingança que os rodeia, e que excecionalmente os pode levar à guilhotina ou ao pelotão de fuzilamento. Não gostei de me ver assim. Esqueci a jovialidade e senti-me ácido. Os mesmo que na taberna comigo gracejavam, quando o vinho tomava conta das suas entranhas retomavam a mim com a revolta com que num beco se insulta a parede em frente. E se eu não era indiferente imaginem a Sra. Marquesa que começou a imaginar-me nos lábios dos que a cercavam. Foi assim que um dia trocou um olhar com Olímpia, a mulher de Hilário. Não posso jurar que estivesse nesse momento na boca de Olímpia, mas isso é um pormenor. Aconteceu. Estava já convencido que a minha sina neste mundo era trazer a desventura quando cheguei ao ouvido do Sr. Padre. Aquele homem esboçou um olhar pausado e interrogativo quando me pronunciou, como que para medir a situação, natruca, e foi então que lhe ouvi, com uma paz na voz, própria dos homens de fé tranquila, santa senhora.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Mangual – Hilário

Passar de camponês a feitor é um privilégio, parece que o mundo sorri. Deixar de fixar o chão sempre à cata do que a terra dá, para olhar os homens de frente, dizer-lhes olhos nos olhos, não faças ronha no malhar, ó Zé, e eles baixam a cabeça para o pau estirado entre o grão, vergam o tronco para regressar ao vaivém de braços, como que se auto punindo por terem ousado querer escapar à terra. Para o feitor é uma libertação a consciência deste mundo de redomas geradas pelos movimentos do mangual. Pode até enternecer-se, por força da memória, com as gravuras que a sobrevivência desenha nas suas paredes, mas respeita o desígnio de uma ordem que, talvez por o ter favorecido, não se questiona. Mas, se assim foi com o pai de Hilário, não o foi para o filho, que cresceu a ver esses homens estranhos, porque não é um deles, em volta da casa, encerrados nos maguais, a bater à porta com a cabeça dobrada e o chapéu na mão, pedindo instruções, apresentando uma queixa, ou procurando mesmo granjear uma opinião sobre uma disputa para regressar, depois, revigorados à refrega. Em vez do dom da graça, sentiu-se dilacerado por uma injustiça, que contrariamente ao que seria de esperar, não surgiu da revolta sobre a condição dos camponeses, mas sim da sua. Sentia-a à mesa, quando o pai se queixava de mais uma intervenção do Dr. Galvão porque a jorna não era paga a um mandrião. Revoltava-se, pois, a amizade do Sr. Marquês pelo Dr. Galvão atribuía ao feitor a causa dos problemas e a obrigação de os solucionar. O pai lá resolvia tudo a bem, comprometendo a sua honra, este é tormento dos que servem um homem emocional, e, muitas vezes, mesmo contra o que achava serem os interesses do patrão. Já o filho, desenvolveu uma exaltação dormente na qual não há sequer um pestanejar. Instruiu-se na arte da espera. Começou cedo. Com os filhos dos camponeses, prontos a reforçar os argumentos com os punhos, aprendeu que, pela gestão das erupções alheias, dois pode ser menos do que um. Foi assim construindo um mundo baseado num denominador comum gerador de pequenas quantidades. Como a aprendizagem do mangual, esmigalhando ao bater forte no chão, concebeu que o universo seria apenas a combinação de dois ou três princípios básicos, e, se no pintor esta revelação serve para construir ilusões, em Hilário resultou no cuidado de reduzir os fenómenos ao ínfimo, ainda que tendo como paga o amargo desengano de quem chega sempre ao mesmo. Talvez para não se ver igual aos que batiam à porta de seu pai, fechados numa mistura de pó e palha, engalanou-se com a ideia de um outro filho de feitor a quem por devoção não quis reduzir ao absurdo. E, não existe dever mais arrebatador que o nascido da dedicação de um homem pela sua projeção num outro que imagina grande. Por isso, se hierarquicamente Hilário responde ao capitão Simões, navega com um desprezo solicito as ordens e opiniões daqueles que o cercam. Sabe que quando chega a hora do chá, Simões, Marquês, Galvão, Macedo, são mesma lavra e por isso apenas responde ao Senhor Doutor.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Cunha – Marquês

Falam mal da cunha, mas eu sou apenas uma manifestação da inteligência emocional. Posso é ser mais ou menos pontiaguda. Isso sim. Diria que uma cunha predominantemente aguçada tem um problema de ética. Mas não aquela que não fere, que é mesmo até um pouco aveludada, e que vai entrando com pequenas pancadinhas, veja lá o que pode fazer, sabe bem que eu não sou destas coisas. E, enquanto me vão vendo abrindo caminho, dão loas com um, sempre agradecido, já sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, muito obrigado, mas eu não necessito de nada, qual quê, a vida dá as suas voltas, mais tarde ou mais cedo, sabe-se lá, enfim, mas já sabe que pode contar comigo, quer para a coisa ela própria, ou para levar o seu problema a alguém, que, mais do que eu o consiga resolver, por amor de Deus, sabe bem que nunca o iria incomodar com tais coisas. Uma lengalenga. Um prolongar do prazer do catar, em que o esborrachar de microscópicos seres serve de escusa para a troca de pequenas carícias com a ponta dos dedos. Mas eu não fui concebido assim, lembro-me bem. Foi no intervalo do bridge em casa dos marqueses, quando as senhoras os interromperam para o chá, que o Sr. Marquês chamou à parte o Dr. Galvão para lhe mostrar uns charutos que acabou de receber de Cuba, deixando o capitão Simões com o Dr. Macedo, cujas enraizadas opções ideológicas incapacitaram para o desfrute de alguns dos prazeres da vida, à conversa sobre os recentes problemas com os ceifeiros. Meu caro José disse-lhe o Marquês, ando preocupado com um rapaz que casou com uma criada aqui da casa. Ela está cá desde pequena, é quase da família, sabe, e agora com uma filha acabada de nascer. Corre por aí o rumor que o Hilário Mendes anda de olho nele. Se ocorrer algo a rapariga irá ter consigo, mas peço-lhe a máxima descrição neste assunto. Como vedes não sou uma cunha qualquer, sou um jeito que um monárquico pede a um republicano para ajudar um comunista. Dito de outra forma, aquela como gosto de me ver ao espelho, visto-me com um veludo azul monárquico, tenho a têmpera do aço comunista por dentro e sou ajudada a entrar com a retórica republicana, eu sou única. Concebida nessa tarde de domingo de final de junho no gabinete do Sr. Marquês, enquanto na varanda o Dr. Macedo, juiz na comarca, pede ao capitão Simões que não hesite mais, se cada um cumprir o seu dever tudo correrá bem, o Hilário que não esteja com mais delongas. Como sou diferente desta combinação de circunstância, tão institucional, tão pequenina, como este Estado Novo, feito da uniformidade da raça, modesto e sem cor, sem graça. Uma cunha escrava do dever, de gabinete, com a vida facilitada, nem sequer é uma verdadeira cunha, é o desenrolar de mecanismos instalados por onde passam outras, indistintas, mais uma apenas, sem a pujança, o dinamismo e o tormento das formas, que me dão um ímpeto de fantasia e de paixão, que me enleva e me deixa em arco, convencida do meu poder, que tudo irá correr bem, na verdade, na determinação, na justiça, na oratória, e que nunca, nunca, serei engavetada.

domingo, 27 de novembro de 2016

Caramelo – Pinote

O caramelo parece duro ao contacto do dedo. Mas quando se desembrulha mostra a forma imperfeita suscetível ao calor. E se na boca se agarra aos dentes, é sol de pouca dura, pois o banho de saliva rapidamente o transforma numa criatura doce e solicita que quanto mais se aperta mais suco liberta. Foi assim que Hilário respondeu às dúvidas do Mouro. O Pinote é um caramelo, disse-lhe. Convence-te disso, um caramelo. Mas o Mouro não se deixa convencer, é companheiro de ceifa do Pinote, conhece-o bem. Costumam estar do mesmo lado na tração da corda. Sabe do que ele é capaz. Recorda inclusive o dia que teve um desentendido com o Melenas, e não foi bonito de se ver, saíram ambos cheios de sangue e na boca o Pinote trazia um bocado da orelha daquele que passou a ficar conhecido como o Mouco. Bem o tinham avisado. Tivesse ele dado ouvidos. Mas não. Fez insinuações sobre a mulher, a Deolinda, e vai que o Pinote não se ficou e no fim disse, com a dobra da orelha entre dentes, vou dá-la aos porcos, cabrão. Por isso o Mouro não se quer deixar convencer. Mas como foi que se deixou apanhar pelo Hilário? Na corte do Sr. Morgado a tentar roubar um porco. Não é muito esperto o Mouro, uma galinha ainda vá que não vá, torce-lhe o pescoço e já não pia mais, mas um porco? Como estava a pensar levá-lo? Com falinhas mansas, não. O pobre animal deve ter achado chegada a hora da matança e entrou num berreiro que, se nas manhãs de novembro traz logo ao paladar o gosto ao guisado do soventre, a meio da noite sobressaltou o Morgado com um, quem é que me quer roubar o porco. Como um azar nunca vem só, o Hilário estava na guarda, e sabendo do companheirismo entre o Mouro e o Pinote, convenceu o Sr. Morgado a não apresentar queixa. Disse-lhe, deixe estar que com este peixe apanhamos um maior. Há muito que traz o Pinote debaixo de olho, mas desde que casou com a Deolinda ficou protegido do Marquês. Não é muito o que lhe pede o Hilário. Cimentar a amizade com o Pinote, ser visto a falar com ele em grande camaradagem, quando mais próximo melhor. E depois, perguntou o Mouro. Depois falamos, disse-lhe o Hilário. Mas o Mouro não está convencido. Não custa nada, e até parece que queres ir para a choldra, ó Mouro, recorda-lhe o outro. Se pudesse não aceitava este caramelo, mas que remédio. Lá me mete na boca e vai-me cautelosamente macerando com os dentes enquanto saliva. Saliva mais por medo do que por vontade, como se procurasse colocar uma camada protetora entre mim e a sua boca, evitando magoar-se. Pois é, remédio é remédio, mesmo quando vem com uma película doce. Raio do porco, pensou, para quê aquele berreiro todo, ele é mais dia menos dia, e comigo até seria uma aventura. Mas não, pôs-se naqueles propósitos. Não percebe que é assim a vida. Que mania esta de se deixar comer por aquele que o alimentou. Se calhar imaginou alguma ternura na lavadura. Convenceu-se que o Morgado gostava dele. Como andas enganado amigo. Mais vale uma fuga de liberdade que vianda toda a vida! Insurge-se o Mouro, enquanto me vou derretendo na sua boca.

domingo, 13 de novembro de 2016

Baile – Deolinda e Pinote

Não consigo imaginar as danças de todo o ano, feitas da esterilidade da eletricidade e do preservativo. Baile, é na primavera tardia, quando as árvores já empunham frutos maduros. Ao descoberto, com a brisa fresca a aproveitar viajar pela calada. À noite, por entre a luz rasteira da pequena fogueira que abre um manto rosado para a lua. Na eira, rodeada do tremulado das copas das árvores feito de flutuações de luz. Sobre as lajes, onde o rodopiar levanta uma poeira fina que envolve os dançarinos. Com rapazes e raparigas, a quem o vinho áspero amaciado pelo barro faz levantar a voz. Sim, isso é baile, isso sou eu. Sou uma excentricidade do Sr. Marquês que se regala em autorizar estas celebrações pagãs, contra a opinião do padre e a vontade da mulher. Também de fora vem gente respondendo ao chamamento da fogueira. O Pinote, pequenino, fazendo jus ao dito, é dos melhores dançarinos destes lugares. Tem fama de atrevido. A sua chegada é saudada pelo enrubescer das raparigas, como se tivessem bebido uma malga de vinho de um só trago. Trocam olhares entre si, porque a socialização do desejo silencia o pecado. Esperam a sua vez, suspensas do rodopiar rápido de Pinote ao som da concertina. Esta noite também veio a Deolinda. Costuma ficar sentada olhando distraída os pares. Tem a cabeça noutro lado, dizem. Mas, como é da casa, não se aventuram com ela. Vontade não lhes falta, pois quando a quantidade de vinho na cabeça ultrapassa o que resta no pote a visão da beleza provoca deslumbramentos. Sempre que Pinote dançou com Deolinda sentiu-se insignificante. A atitude dela desarmava-o, como se fosse incólume aos seus truques e maneirismos. Dançava envolta na beatitude de quem não está. Porém, esta noite, saudou a chegada do Pinote com um olhar, como se estivesse à espera dele. Depois, tomou mais vinho do que o provar. Pinote nunca tinha visto Deolinda assim. Do desfazer do véu surgiu uma presença corporal com uma descompostura altiva. Pinote foi buscá-la para dançar. Do que aconteceu já nenhum deles se recorda com exatidão. Cabe-me por isso a mim a narrativa pois, como ireis ver, ultrapassa o espaço físico onde decorreu e apenas pode ser explicada pelo baile. A eira é retangular, sobre ela os pares giram sobre si enquanto se transladam em círculo. De um lado, a luz da lua recorta as faces com um traço escorreito. Do oposto, a fogueira esbate a diferenças entre os corpos dando-lhes o fingimento de uma única massa. Entre um lado e o outro, o revelar e o esconder. Em baixo, por entre o manto de poeira avermelhada, os pés agitam-se à procura de coincidirem num único ponto. Em cima, os troncos atiram-se para trás agarrando-se e deixando-se fugir com os braços. Os círculos começam-se a alargar ultrapassando o espaço da eira. Pinote e Deolinda vão girando por entre uma terra salpicada pelas sombras das árvores e a luz da lua. O fuso dos pés marca um risco que se vai afundando em sulco. A mão de Pinote procura a terra molhada. Dizem. Dizem, que eu disso nada sei, que, naquele dia, quando Deolinda chegou, já vinha tocada.
In 25 de abril sempre (2016) (Leonard Cohen 1934-2016)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Rapa - Joaninha

Pertenço ao grupo daqueles que, de esquecidos, precisam de ser pormenorizadamente descritos, como se estivessem agora a ser concebidos pela primeira vez. Primeiro que tudo a minha função. Tenho por objetivo arrebanhar os restos que se agarram às paredes dos recipientes onde se bateu uma massa que deve seguir viagem para a cozedura. São pedaços que, suspeitando do destino de fogo, tentam sorrateiramente ficar ao fresco, enquanto os seus irmãos vão dar com os costados a uma forma cheia a três quartos para deixar atuar a levedura. O meu aspeto é um pouco ridículo, confesso, quando empunhado na mão da cozinheira, passo mesmo por ser uma caricatura de rato, um pau esbranquiçado com duas orelhas de borracha. Mas é nestas orelhas que está a minha arte. Feitas de uma borracha dura que se agarra ao cabo para absorver a energia que se propaga das pontas pela pressão exercida sobre o recipiente. As pontas, essas sim, têm uma macieza sempre pronta para se ajustar a qualquer superfície que o recipiente possa vir a apresentar, desde que seja arredondada, claro, que para as retorcidas, feitas de arestas cortantes, está o Hilário. No palácio dos Marqueses fui recebido com desconfiança. Preferiam um Rei, evidentemente, daqueles que distribuem favores pela nobreza. Ainda assim, uma desconfiança mediada pela esperança. Talvez, após um período inicial, possam voltar os outros tempos, pensaram. Pelo meu ar afável tenho este dom de suscitar expetativas. Mas, uma vez instalado na minha gaveta, focado no meu objetivo, sistematicamente, dia a dia, não passo no exame do Sr. Marquês, que comenta à noite ao deitar, tire daí a ideia, ele traz uma agenda própria. A Sra. Marquesa, mulher que se habitou a ser pragmática, respondeu-lhe, do mal o menos. O Sr. Marquês ainda se incomodou a recordar que não há como um Rei, pois até o povo gosta de um Rei, é uma questão de afetos. Mas eu não sou de afetos e desde então o Sr. Marquês evita passar pela cozinha. Quem por aqui anda é a Deolinda, que dizem ser mulher de um comunista, o Pinote. Assim que soube fiquei logo com as orelhas a arder, colocarem-me junto a um familiar de um comunista, mas enfim, serão idiossincrasias da nobreza, acham-se com direitos próprios. O Pinote, nunca o vi, está preso, mas presencio a devoção que a Deolinda lhe tem quando sobre ele fala à filha que por aqui vai cirandando. Eu tento salvar o que resta desta família, incutir-lhe os valores que a possam levar a bom porto. Procuro, por isso, explorar os silenciosos suspenses com que a miúda me observa quando besuntado de chocolate viajo do tacho para a forma. Digo-lhe que a força da vontade é como a charrua que rasga a terra. Mas ela parece não me ouvir, fascinada pelo brilho do chocolate quente que escorre. Tenho a vantagem que me permite insistir, mas, compadecida, a mãe tira um pouco do chocolate com o dedo e oferece-o à filha. Vi o franzir de sobrolho da Sr. Marquesa, que de fora da cozinha nos observa, quando a boca gulosa de Joaninha suga os restos do chocolate, e pensa exatamente o mesmo que eu, coitada, filha de um comunista.

domingo, 30 de outubro de 2016

Carta - Zé

Hoje em dia as cartas, se é que ainda existe tal coisa, não são o que eram. Nem sequer eu sou como foram antes de mim. Digo-vos com frontalidade, eu sou uma carta da Primeira República! Substitui o adocicado escorregadio da carta monárquica, cheio de adulações, de um liberalismo eivado da divindade da constituição, por um fim mais terra a terra. Sou feita de uma hombridade racional, que sem fazer desfeita à boa sociabilidade, não anda com rodeios e diz o que pensa a bem do progresso social. Foi pelo menos assim que o Dr. José Galvão, digníssimo advogado da comarca desta vila alentejana, me escreveu, muito embora o tempo da República já fosse e vivêssemos sob os auspícios, não necessariamente bons, pelo menos na opinião do meu signatário, do Sr. Doutor, cujo nome aqui não necessito pronunciar dada a sua omnipresença. O Dr. Galvão é um homem de causas, e até a sua esposa costuma comentar com graça que, se tivesse tantos contos de réis como galinhas oferecidas em jeito de paga pelas defesas que o marido faz de pobres na barra do tribunal, teria dinheiro suficiente para mandar fazer um palácio igual ao dos marqueses. Mas não um necessariamente igual, ajuntava imediatamente o Dr. Galvão, fazendo graça sobre a graça da mulher, teria a magnificência do progresso, trocaria os salões, salas e salinhas, desenhados por decalque de hierarquias e protocolos, por espaços funcionais onde a vénia fosse trocada pela curiosidade. Houvesse verba, e acrescentar-lhe-ia com certeza um pequeno observatório astronómico, que o Dr. Galvão, embora sendo um homem do direito, não enjeita o gosto, e a esperança, que tem na ciência. Mas, enquanto não se depositam os proveitos do seu trabalho neste sonho positivista, é o Zequinha, o seu neto, que fica com a responsabilidade de transformar a galinha, salva por argumentos jurídicos de terminar como canja de defunto de pobre, numa massa alimentar que lhe proporciona um crescimento saudável arredando o espetro das enfermidades que enchem as igrejas de devotos. É a matéria orgânica destas mesmas galinhas que alimenta de energia o punho do Dr. Galvão quando com convicção me endereça ao Sr. Capitão Simões, responsável pela ordem neste recanto de Portugal. Questiono Vossa Excelência sobre o paradeiro do Sr. Joaquim Pinote. Não questiono a ordem estabelecida antes sobre ela construo a minha alegação. O desaparecimento do Pinote, como é saudado entre os seus, logo após ter encabeçado os protestos por terem trazidos os ratos da Beira Baixa para a ceifa, gente submissa e cujos horizontes ideológicos cabem dentro de uma côdea de pão, isto pensou, mas não escreveu, o Dr. Galvão, sem ter sido presente a tribunal é um ato ilegal que ofende os básicos princípios do direito. Partilho com Vossa Excelência a preocupação pela ordem pública, mas caso se confirme que o Sr. Joaquim Pinote foi levado pelo Sr. Hilário Mendes, como alguns dos seus companheiros se prestam a testemunhar, deve Vossa Excelência esclarecer onde se encontra o Sr. Joaquim Pinote e de que é acusado. Escusado será recordar-lhe da angústia da mulher e da filha.