quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Diário – Catarina

Letra miudinha disposta em linhas que varrem de lado a lado o pequeno caderno. A escrita serrada e contínua dá imediatamente a perceber o carácter privado, escrito para ser escrito, para a comunicação num só sentido. Eu sou o diário da Catarina. Repositório de observações sobre o mundo, abro-me às confidências que intimamente se fazem a um amante sobre os outros, como se nunca pudesse vir a acontecer uma separação, na crença da unicidade que o amor traz. Posso garantir que sou o mais fiel dos amantes. Que apenas contarei os meus segredos se for violado, aberto e lido sem autorização. O que contenho não diferirá com certeza de qualquer diário de uma rapariga de 15 anos com curiosidade suficiente sobre o mundo e o seu corpo. Uma amálgama de querer e receio, de gostar e aversão, ainda não distante da educação infantil sobre a higiene, o limpo e o sujo. Sou o último testemunho duma inocência construída na pureza. Mas, o que tenho de especial? O que podem ter de especial os diários? De certeza que não é a forma como começam. Começamos com o fim da infância. Onde diferimos é na forma como acabamos. É aí que se testemunha a passagem, frequentemente abrupta, à maturidade, ao fim da descoberta. Se por acaso fossemos tão ingénuos como quem nos escreve padeceríamos da ansiedade da obra inacabada, à espera do seu autor para fechar um enredo, terminar uma contenda. Mas um dia esquecem-se de nós e somos lentamente despromovidos na distância ao nosso escriba, complicando o acesso, acabando eventualmente num caixote transportado por carregadores de empresas de mudanças de sótão em sótão, até que um putativo herdeiro venha avaliar do nosso real valor. Nada de palpável encontrará, pois, os diários são rituais de passagem que se esgotam no preciso momento em que os seus sujeitos começam as suas realizações. No meu caso, as últimas páginas estão preenchidas por um fascínio por Humberto interrompido por uma revolta, uma quase raiva, para com Romeu. Este Romeu chegou de repente quase o oposto de Humberto, que paulatinamente me foi apresentado. Humberto foi-me inicialmente fisicamente descrito. Começou pelos olhos azuis e os cabelos loiros. Mais tarde uma detalhada descrição das mãos, e só então me falou do seu temperamento. De como era simpático e conversador, diferente dos outros rapazes, mais fugidios, que falavam de passagem com as raparigas, como continuação da competição em que estavam envolvidos. Humberto não era assim e começaram a namorar. Contou-me das longas conversas e das suas opiniões, uma estruturação de objetivos onde percebi uma semente de ambição, em que suspeitei Catarina se revia. Então, um dia, subitamente, falou como Romeu, dois anos mais velho, interrompeu Humberto. Da frieza com que se dirigiu a ele. Quase o ignorando. Defendeu Humberto na exata medida em que exacerbou uma profunda aversão a Romeu. E aí terminou o diário. Não sei o que aconteceu a Humberto, nem sequer se Romeu era alto ou baixo, ou qual seria a sua opinião acerca das coisas.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Pequeno político – Humberto

Nesta matéria quem tem uma opinião formada sou eu. É fácil ter opinião, mas nem todas as opiniões são adequadas. Uma opinião deve marcar presença, para ser notada, senão de que serviria ter opinião, e ao mesmo tempo não incomodar, e muito menos ofender, para além do estritamente necessário. Não é uma arte fácil, mas aprende-se, o Humberto que o diga. Cedo sentiu a convocação, ainda no secundário, para a associação de estudantes. Porém no início era mais a vontade que a perícia. Humberto abria a boca e lá saía a minha voz desconectada como se de um ato de ventriloquismo se tratasse. Recordo que o Romeu ainda observou com graça, Humberto, pareces um político a falar. Pobre Humberto, não estava à espera, perdeu o controlo e calou-me, começando ele a falar. Disse, pois... pois..., e pior, repetiu o Romeu dizendo, um político. Felizmente lá voltei eu a retomar o controlo e juntei-lhe mais esta matéria, e aquela, e aqueloutra, coisas de orçamentos, gestões, e acima de tudo as regras que nas suas nuances pregam partidas. Mas serviu-lhe de lição. A partir daí percebeu que nada poderia ser inesperado. Pega-se na coisa, seja ela uma pergunta ou um mero comentário, e começa-se a fiar, criando um novelo que vai embrulhando o que não interessa, deixando de fora a mensagem, saliente e luzidia. Essa é a regra principal que a todos recomendo, se não há uma mensagem mais vale estar calado. Nas reuniões identificamos facilmente os que falam porque gostam de se ouvir, ou pior, porque acreditam piamente no que dizem, daqueles que pragmaticamente dizem o que é necessário para atingir os seus objetivos. Por isso a mensagem não deve conter a verdade, como julgam os crédulos, mas sim o que é útil. Nisso, mesmo enquanto aprendiz e inábil, Humberto nunca esteve com os primeiros, sabia claramente que o jogo bonito e vistoso pode encher o olho, mas não traz vitórias tranquilas, daquelas que perduram. Esta é a segunda verdade que podeis aprender do pequeno político que está dentro do Humberto, a vitória a que deveis almejar é a de secretaria. Às vitórias de que não se percebe a origem não é fácil achar o fim. Não foi sempre um aprendiz o Humberto. No início ainda falava a duas vozes, daí a observação de Romeu, e eu andava um pouco aos trambolhões lá dentro, pronto para responder à chamada sempre que Humberto queria dar um a opinião, marcar uma diferença, enfim, marcar a posição. Com o tempo deixámos de ser dois e já não se percebia quando falava um ou o outro. Digamos que é isso o crescimento, moldarmo-nos por dentro com fantasias que com o tempo se tornam reais. Existe, contudo, nesse período de folga entre a fantasia e o corpo, uma visível falta de coerência que pode trazer desconforto. No caso de Humberto, o fim do namoro com Catarina não é alheio ao reparo de Romeu. Catarina tinha apenas 15 anos e não ficou indiferente. Humberto ainda tentou. Quase sentiu, ou simulou, o sofrimento da perda, tão normal nos adolescentes. Falou com ela, justificou-se, mas o fascínio nestas idades é puramente mágico, e aqui entre nós, Humberto sentiu um grande alívio.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Peluches – Catarina

Os peluches no quarto de Catarina contam uma história em duas fases. A primeira, mais cor de rosa e redonda, de um período em que a linguagem ainda não era capaz de traçar formas precisas, é feito de noddies adocicados mas sem graça, que agora se amontoam dentro do armário. Cá fora, estamos nós os peluches da segunda fase, dispostos em cima da cama e sentados nas cadeiras, senhores deste quarto por testamento de alguém que partiu. Estamos fortemente imbuídos da tarefa de combater o esquecimento, para que o quarto não seja deixado ao abandono e usado para fins diferentes daqueles para que foi tantos anos habitado. Representamos animais de olhos brilhantes que imediatamente encaram quem entra, num misto de aviso e solicitude. Muito cedo a Catarina nos preferiu a nós, mais fiéis modelos da realidade, do que aos redondos moradores, odes a uma meiguice fechada sobre si mesma, falha de esplendor. Juntamos a serenidade calma do leão com a matreirice rápida do guaxinim. Quem para olha para nós não pode deixar de ver isso e simultaneamente sorrir pois, não obstante os perigos que as nossas qualidades subentendem, somos fofos. Essa é evidentemente a razão pela qual as meninas nos preferem. Nelas, aquele sorriso exclui uma competição aberta, para a qual os homens se sentem frequentemente impelidos, e desencadeia um outro jogo. Porque sabemos isso? Bem, porque nós somos os peluches e recordamos como a Catarina nos pegava e repreendia por crimes que não tínhamos cometido, mas para os quais nós parecíamos predestinados. Não olhes assim para o coelho, dizia ela com ironia ao guaxinim. Por causa desta partilha habituámo-nos a uma camaradagem em que cada um representa o seu papel. Foram-se juntando animais, oferecidos principalmente pelo pai, depois de uma viagem, ou de uma doença mais renitente, das que não deixa ir à escola. A chegada de um novo bicho era por nós saudada com a curiosidade de saber que nova malandrice se vinha adicionar ao grupo. Por isso fazíamo-nos difíceis, dado que a verdadeira camaradagem nunca é oferecida, obrigando o novo habitante a suportar afrontas. Tinha assim que esgrimir o seu feitio com o nosso, uma luta na qual encenávamos as disputas do costume com um olho no novato, para ver de que era feito. A Catarina a tudo isto assistia, acabando por facilitar a vida ao recém chegado, acarinhando-o e deixando os veteranos relegados aos cadeirões e aos cantos do quarto. Cresceu assim nesta selva comedida por quatro paredes, mas não se pode dizer tenha aqui estado fechada. Nós que estávamos cá dentro e que quase nunca saíamos, apercebíamo-nos que algumas destas brincadeiras que connosco encenava já tinham sido semi-aprendidas lá fora, mas era no sossego deste retiro que as desenvolvia experimentando variações. Por isso podemos dizer que quem melhor conhece a Catarina somos nós, dela não só sabemos o que é, como todas as outras brincadeiras que connosco experimentou e que por alguma razão, ou falta dela, nunca aplicou lá fora.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Blusão – Zé

Um blusão coçado, este que está no bengaleiro. Joaninha está farta de dizer para comprar outro mas o Zé gosta de mim. Sou o único que quer seja inverno quer seja verão está sempre pronto para sair. Sou um companheiro. Mesmo essa acusação de ser coçado é falsa. Sou de cabedal. Talvez os blusões de cabedal de hoje em dia possam ficar roçados de finos que são, por mania da moda ou da economia. Mas eu sou de cepa antiga. Para me darem a forma dos humanos não tiraram de mim a vaca de que sou feito. Grosso, quando o Zé dobra o cotovelo são as minhas rugas que se revelam e não o braço dele. Sou uma armadura que protege este homem grande. Sinto que quando olham para ele, especialmente as mulheres, veem um belo homem de 1 metro e 80 a quem os 85 quilos acrescentam mais de imponência do que de gordura. Mas eu sei como é frágil o seu corpo. Conheço-o intimamente. O batimento dos órgãos. Os pequenos frenesins e as contrações. As hesitações que por vezes o atravessam. Sou leal. Nada conto. Como um amigo nem ao Zé disso falo. Vestido de mim, creio que até ele ignora, ou finge ignorar, as fraquezas do corpo. Imbuídos desta força, feita da união entre o amor que lhe dedico e a confiança que me tem, temos percorrido muito caminho. Mas é um homem sensível que, como todos, tem medo de morrer. A essa luz poderão ser vistas as suas escapadelas, os seus pecados. Poderão dizer que é desculpa de amigo. Que o defendo porque lhe visto a pele. Contudo sei como um corpo pode começar a sentir-se só depois de ser abandonado pelas certezas que as paixões trazem. Comprou-me depois de ter perdido a esperança na revolução. Foi pelas conversas que fui ouvindo que percebi o que se tinha passado antes. Então, ele, menos atento ao corpo, mais compenetrado no futuro, não sentia as hesitações. Não que elas lá não estivessem. Dos seus órgãos nunca eu senti um antes e um depois, como o sinto em Zé. É assim a juventude. Um ignorar feito de andar para a frente. Foi quando desconfiou do corpo que me vestiu, que procurou mãos que se metessem entre mim e o seu peito. Que o desejassem. Que cheias do desejo não sentissem as hesitações. Não se pode chamar pecado a esta necessidade. Nunca lhe senti vaidade nas conquistas. A beleza das mulheres traz paz. Não há ostentação, silêncio apenas. A outros ouvi-lhes eu contar-lhe das suas aventuras. Histórias de conquista e sucesso. Mas nem nessas horas propícias Zé se descoseu. Teria sido fácil. Ninguém o poderia acusar de vanglória. Não tinha sido ele que iniciou a conversa. Seria apenas um ato de camaradagem. Coisa normal entre homens concebidos para caçar. Mas não. Nunca vacilou. Já eu, confesso, feito de animal como sou, tinha alguma. Envaidecia-me de lhes sentir os seios quentes. Talvez o seu calor me trouxesse à memória o tempo em que vivia no campo cobrindo um corpo possante e calmo. Cheio de uma vida que era a minha. Que não se tirava para pendurar no bengaleiro à entrada de casa.

domingo, 7 de agosto de 2016

Espraiar – Isabel

Os seres são feitos da propriedade da contenção. De um corpo, comporta dos seus fluidos, que os impede de transbordar, da dissolução do ser num magma primordial. Dizem que este espraiar é o contrário de estar vivo. Que estar vivo é a contenção, a vida entre portas, sendo o corpo o zeloso guardião do eu, da dignidade, de tudo o que somos feitos. Talvez se permita algum extravasar, mas controlado, pensado, de consequências bem definidas, e acima de tudo capaz de preservar o eu. Eu não sou assim. Tenho um corpo que toma o nome de Isabel mas sinto uma constante ansiedade de sair. Conhecer gente, conversar, não estar em casa. A rua. Sim, a rua arrebata-me, conquista-me. É lá que me sinto bem. Ao ar. Com algo sempre a acontecer, ou para acontecer. E o que acontece aborrece-me no preciso momento que ocorre. Quero logo mais. A Isabel pensa que esta a insatisfação é dela, mas sou eu que a empurro. Sem mim talvez fosse mais caseira, tivesse tido outra vida, filhos até. Mas isso é chorar sobre o molhado. As coisas são como são e se eu e a Isabel somos diferentes, separar-nos também não é possível. Por isso a Isabel não desconfia de mim e entrega-se. No início ainda mostrava uma estranheza. Depois do meu impulso, que a levava a sair, sentia-a absorta. Andava assim uns dias, como que a tentar recompor-se. A regressar a si. À procura do eu. Mas eu estava sempre lá e foi perdendo essa distância entre o que fazia e o que era. Já terá sido assim com o Zé. Bom falo do Zé porque sei que é nele que estais interessados. Que dizer do Zé que a Isabel não vos saiba contar. O Zé aconteceu num período em que a Isabel já não se interrogava. Pelo contrário, foi no período a seguir às indagações e estranhezas, numa altura em que a revolução estava no seu máximo fervor. E não é que a Isabel, estivesse imbuída de um particular espírito revolucionário, de missão, de mudança da ordem do mundo. Não, não era isso que a animava, mas era a rua com o seu extravasar de gente, de emoções. E se na altura muita gente vivia a revolução com a mente, com um objetivo bem delineado, como se constroem as ideias que tanto mal fazem ao mundo, ela bastava-se no transbordar, e uso o pronome ela pois a linguagem está sempre um passo atrás da revolução. Pensava eu que agora ela já não se distinguia de mim. Foi então nessa época que conheceu o Zé. Um homem bonito, interessou-me enquanto não o possuí. Era senhor de um ardor que devia muito à juventude. Senti uma curiosidade acicatada pela omnipresença da Joaninha. Não gostava dela. Tanta organização incomodava-me. Desconfiava mesmo que viesse a por um fim à rua. A termos que voltar para casa, a um mundo contido entre quatro paredes, com planos e objetivos a atingir. E a mim não me enganava. Como olhava para nós. Por isso empurrei a Isabel para o Zé. Como negação da ordem e uma manifestação da revolução. A Isabel acha que foi mais do que isso devido à nostalgia que lhe tolhe a memória. Pois é, com a idade procuramos dar aos nossos atos um sentido que deixe uma marca que fique quando tivermos de partir. Eu não sou assim.

sábado, 6 de agosto de 2016

Amor – Joaninha e Zé

Todos sabemos que há muitas formas de amor. O amor entre Joaninha e o Zé é apenas uma delas. Mas poderemos dizer que é um? Não serão dois? Será que o amor que o Zé tem pela Joaninha é igual ao amor que a Joaninha tem pelo Zé? Se fosse um, quereria dizer que quando começou, assim como quando terminou, isso aconteceu simultaneamente no Zé e na Joaninha, e contudo, qualquer pessoa que tenha amado sabe-o improvável, excetuando os casos de amor à primeira vista, que seriam a prova irrefutável da unicidade do amor se não acontecessem com tanta frequência à mesma pessoa, e quase sempre de uma forma inoportuna. Por outro lado, se são dois, então o amor não existe, é apenas um prolongado fingimento de que duas coisas diferentes são iguais. Mas, ninguém melhor que eu para esclarecer estas dúvidas, que imagino inquietantes para quem não é o amor. Eu sou o amor da Joaninha e do Zé. Suponho que neste momento ficaram convencidos que o amor é um. Bom, talvez devamos ser cautelosos. Eu sou o amor, mas eu não sou um, sou dois. Como é isso possível? Poderemos dizer que sou um mas existe uma distância que eu tenho que percorrer, da Joaninha para o Zé e de regresso à Joaninha, como os sins numa conversa telefónica. Ou talvez, melhor, os tás. Tás aí? Tou! Amas-me? Sim! Muito sofro eu nessa azafama, de um lado para o outro, a confirmar o irrevogável. Por isso quando se diz que o amor parte o coração, sou eu que bruscamente paro e me encosto a um canto sem me importar mais comigo, extenuado de amor. Se me aguento nessa primeira fase, vou então com o tempo deixando-me de correrias. Diz-se então que o amor é coisa passageira e o que fica é a amizade. Não sei. Foi a Joaninha que primeiro me enviou ao Zé. O Zé, distraído, não dava por nada. Empolgado pelos tempos, pelo movimento de massas. Sentia-me pequeno em todo aquele vendaval. Eu que fui feito para revirar as entranhas, não era nada, quando comparado com o amor à igualdade, à fraternidade e à amizade entre os povos. Sentia dentro de mim aquela tendência burguesa de possuir, de ter só para mim, mas calava-a bem fundo. A Joaninha sabia o que fazer. Para conquistar a exaltação do Zé, para a ter só para ela, fez o trabalho da formiga. Pacientemente esperou que chegasse o inverno. Carregou espiga a espiga, amealhou, criou a estrutura. Não que não se fosse imaginando com ele, belo, com os cabelos aos caracóis, a barba e o corpo forte. Mas sabia esperar, cada coisa a seu tempo. Assim posso dizer que cresci na Joaninha, treinado com o olho no Zé, pronto a caçá-lo, a tê-lo só para ela. Muito me ensinou. Quando o Zé teve o caso com a Isabel, revoltei-me. Não tinha sido para isso que tinha sido feito. Mas a Joaninha disse-me, tem calma, espera, cada coisa a seu tempo, deixa-o, que voar também cansa. Olhei para a Joaninha surpreendido. Não sentia ela a afronta? Não imaginava o corpo dele sobre o da Isabel a intrometer-se no nosso sonho? Meu Deus, cheguei a duvidar se eu seria de verdade.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Renault – Joaninha

Os Renaults são carros redondos, especialmente os antigos. O Renault da Joaninha é duplamente redondo, de antigo e da Joaninha. Eu sou esse Renault com a reforma assegurada. Estimado pela minha dona pelo que fiz e pelo que agora represento. Sou uma 4l de 5 portas, do tempo em que os tampões das rodas escondiam com algum pudor umas jantes não desenhadas para serem mostradas. Fiz muitas viagens que, com o tempo, ganharam de cerimónia o que foram perdendo de utilidade. Tenho saudades das crianças, o Afonso e a Catarina, no banco de trás, com a Joaninha ao volante. O Zé nunca gostou de me conduzir. Agora pouco saio deste ramerrame, casa-escola, escola-casa. De antes recordo as viagens ao Algarve, as férias no parque de campismo de Armação de Pêra. A aventura da estrada. Os carros que me apareciam pela frente, olhos nos olhos, a fazer ultrapassagens. Agora, estou mais para o chá... As conversas das colegas da Joaninha junto ao carro, antes da última despedida. Por vezes repetem a despedida, sempre com mais uma coisa para dizer. Coisa redonda, coisas de mulheres, aqui que ninguém nos ouve. Nas idas para o Algarve era o calor da conversa do verão de 75. Cheia da certeza de mudar isto. Ainda sem os miúdos, com o que eu percebia, rodava convicta de haver um antes e um depois. Cada instante era diferente. Cada quilómetro percorrido deixava para trás o passado. Falavam das cooperativas, da terra a quem a trabalha, enquanto atravessavam um Alentejo amarelo. Depois veio o Afonso. Tenho que confessar que fui comprada por causa dele. Para haver espaço para o levar. Na ida de 75 já Joaninha o levava na barriga. Eu não dei por isso. Ainda era nova e não desconfiei dos cuidados de Zé. “Queres que eu conduza, amor?”. “Olha que se calhar é melhor querida”. Mas Joaninha sempre igual e ela própria não desarmava. Trabalho igual, salário igual. Depois os tempos foram mudando. Não para Joaninha, mas já Catarina explora a força herdada da mãe na sua vertente mais feminina. Sei que não é ela que conduz. Quem mo disse foi o Volkswagen do Romeu, o companheiro dela. Desculpem, agora já não se usa companheiro, é o namorado. Estacionou ao meu lado e estivemos na conversa. Começou na brincadeira acerca dos carros Franceses. Estes Alemães. Acham que carros é com eles. Mas entendemo-nos. Ele também tinha alguma curiosidade em perceber o que é a vida de um carro idoso. Percebi que tem medo de ser trocado ao fim de seis ou sete anos. Coitado, se calhar aquilo dos carros Franceses era inveja. Mas lá me contou do Romeu e a Catarina na estrada. Coisas que carros contam a carros... Inconfidências que ficam só entre nós. Percebi que não estão a pensar em crianças. O Volkswagen não vai passear criancinhas tão cedo. Coitado, uma vida bem menos preenchida do que aquela que eu tive. A revolução. As crianças. O fruto da revolução. Os frutos a crescer. O esmorecer das convicções no Zé. A sua ritualização na Joaninha. O desemprego de Afonso. O Volkswagen da Catarina.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

20:07:31 – 20:07:38

Zé é interrompido por Joaninha que o olha demoradamente. É também levado a se observar. Tem descurado o corpo. Num desleixo associado a alguma apatia tem-lhe prestado pouca atenção. Não fosse pelas mãos, que frequentemente se intrometem em frente aos olhos, quase ignoraria a sua existência. Mas então não é possível ignorar a agitação dos dedos pendurados das costas e as marcas castanhas que por ali crescem. Vê nelas os sinais da idade e conjetura acerca do resto. Mantém-se pelas suposições pois o pudor impede-o de procurar. Não vai ao médico e por isso não separa o dentro do fora. Para Zé o corpo é uma massa disforme e sem fronteira. Exclui a beleza, essa barreira que enfeita a matéria para a tornar apetecível, dado que esconder é uma subtil afirmação da existência. Observa assim a massa ondulante que fibra ao ritmo da respiração marcando a passagem do tempo como a oscilação do átomo.
Continua a ser um homem bonito, o Zé, aos 57 anos. A testa alongada e bronzeada coroada por uma cabeleira farta. O cabelo encaracolado e uma barba tisnada de brancos cercam uma boca carnuda encimada por dois olhos negros molhados. As bochechas saídas dão ao todo um ar de ilha num mar de pelos, com as orelhas a emergirem como pontiagudos rochedos. No pescoço forte, as rugas da idade não incomodam e anunciam um corpo robusto levemente coberto de tufos macios que ondeiam sobre si preservando a forma. Por debaixo, a pele suave está regada de pequenas manchas, ancoradoiros para quem por ali navega. Os pequenos mamilos rosados, num peito que não se desmancha, são os marcos geodésicos daquele maciço. A imponência nos homens realça a beleza, como se num desafio exigissem o seu direito ao sol, a estarem ali. É esta presença que é cara a Joaninha.
É tranquilidade o que sente quando observa o Zé a dormir a seu lado. O sono, que torna os corpos indefesos, protege-os com a graça do bebé. É assim que Ivone se sente mais feliz. Entrega-se na vigília daquele gigante. A força do corpo adormecido, fazê-la esquecer que lá dentro fervilha de desejos que teme não perceber. Olha para a massa que respira. É como se de um desconhecido se tratasse. Percorre as linhas do corpo, a nítida fronteira que estabelecem com o ar. Prossegue para outros objetos que silenciosos os cercam, as dunas do lençol, a madeira da cama, o castanho do chão, o branco da parede, os retângulos das gavetas da cómoda. As cores vívidas acentuam as formas, delineando-as, de uma geometria perfeita. Sente-se envolta por um mundo sem cambiantes, onde cada coisa é igual a si própria. Sente vergonha da paz que sente, mas deseja que este seja o fim da saciedade.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

20:03 – 20:10

Chegado ao quarto deita-se em cima da cama. Na imobilidade que o inunda, tenta detetar algum movimento no candeeiro do teto, ainda que ligeiro. Joaninha entra, acabou de chegar da escola, precisa de mudar de roupa antes de ir para a reunião. Fala, Joaninha fala da escola, das pessoas. Coisas de que Zé tem imagens, ora pormenorizadas ora desvanecidas, construídas, camada a camada, como quadros nunca finalizados que todos os dias são retocados. Observa o corpo da mulher, com a saia e o casaco, tirado o casaco, a blusa decotada com o colar de pérolas, debaixo das calças as pernas redondas com as marcas da idade. Não consegue evitar misturar o que ouve com o que vê. A idade da conversa e a idade do corpo. E contudo, continua tão ágil, tão cheia de sentido. Percebe isso, mas a lógica escapa-lhe, suspeita que o traçar de um caminho apenas aumenta o número de alternativas.
Não tem muito tempo. Um duche rápido e mudar de roupa. — Encontrei a Margarida à saída da escola. — dá a volta à cama e prossegue — Preocupada com a questão dos professores titulares. — abre a porta do guarda-vestidos — É a mais nova do agrupamento dela. Artes visuais. — Joaninha faz questão em realçar — De certa forma é uma surpresa não se ter colocado do lado dos jovens espoliados. — a voz não esconde alguma satisfação enquanto vai passando a mão por cabides que puxa ligeiramente para expor a roupa. Para por um instante e olha para ele que a segue com o olhar. Prossegue — Vai vir esta noite à reunião. — não evita pensar se Zé poderá ter interpretado alguma velada acusação — Temos que estar unidos. — procura abandonar a hesitação seguindo em frente — A forma como se começa é fundamental. — Interrompe-se. — Ah, o Gonçalves convidou-nos para no domingo ir almoçar lá a casa.
Ricardo acabou de sair. Deixa-se estar um pouco no sofá. Pensamentos que vão e vêm. A sensação doce do corpo pesado de Zé que a aperta contra a cama, o desconforto de sentir os filhos dele que não vê há muito, e de quem foi criando imagens, afunda-se na de Catarina de quem Zé é mais apegado e que imagina agora igual à de Joaninha. Agita-se, procura regressar ao Zé, não como uma abstração, um desejo, sabe que isso de nada serve, fixa-se sim em pormenores do rosto, marcas na pele, na tranquilidade de o sentir a dormir. Pensa nos seus pais, a cara do pai enrugada a olhar para ela, a mãe doméstica, o desejo que sentiu de sair, de mudar de vida, Lisboa pela primeira vez, Santa Apolónia, a luz desta cidade, uma vida nova, a sensação do recomeço, a paz que trazem os lugares virgens, o Zé, a voz que ouviu no hospital, a segurança, as incertezas, a paciência, encher-se de estar com ele seguido da espera.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

19:38 – 20:03

Depois da porta há um pequeno hall habitado pela existência. As coisas úteis a quem sai ou entra em casa. O bengaleiro com as várias possibilidades de casaco a usar nesta época do ano. Da gente da casa, da mulher e do filho, mas não da filha que já cá não mora. A sapateira igual. Algumas fotografias especadas sobre a cómoda cumprimentam quem entra preparando-se para contar uma história. Os filhos pequenos, a sorrir ou a correr. Ainda antes dos filhos, as lutas em que se envolveram, os amanhãs. Depois os filhos maiores, a ameaçarem ficar iguais ao pais, mas sem a luta, mais encarreirados ou com outras exaltações. Finalmente as fotografias da partida, da queima das fitas da filha, sob protesto da mãe, e do filho com a namorada, boa rapariga, ali colocada fora de tempo, para manifestar um desejo e fincar um rumo, revelando algumas interrogações e procurando enterrar alguma ansiedade.
A porta do carro faz um ruído quando abre. Já está há algum tempo assim. Tem que o levar à oficina. Também não admira, já tem mais de 30 anos. Joaninha tem algum orgulho no Renault. Poderia desfazer-se dele, mas é como uma bandeira. Gosta de acentuar como contrasta com o cuidado que tem consigo, na maquilhagem, na roupa, e ao mesmo tempo marcar os seus valores. Ao volante pensa no filho de novo à procura de emprego. Continua em casa. Afonso já tem mais de 30 anos mas não consegue abdicar deste instinto protetor. E a situação não parece poder vir a melhorar. Um daqueles cursos das letras que não dão para nada. Já está há algum tempo com esta namorada. A filha tirou engenharia. Está empregada e há muito que vive com o namorado. Quando saiu quem mais lhe sentiu a falta foi o Zé. Sempre tão apegada a ela. Às vezes parece-lhe que a sua saída foi o fim de uma competição velada pela atenção do pai.
Tocam à porta, deve ser Ricardo, costuma aparecer por esta hora para dois dedos de conversa. — Na cama a esta hora? — diz-lhe com um piscar de olho. — O Zé acabou de sair — responde-lhe Ivone com um pequeno sorriso no canto da boca. — Como vão as coisas? Já vai algum tempo. Quanto? Dois anos, não é? — pergunta-lhe a atiçar. — Sim, — assenta Ivone — um pouco mais de dois anos. Começou quando estivemos no mesmo hospital. Sabes os filhos… — diz Ivone, sentindo-se obrigada a acrescentar uma desculpa que sabe não fazer sentido. — Como está o Humberto? — pergunta para mudar de conversa. — Está bem — responde — Pode ser agora que os pais dele comecem a aceitar a nossa relação. Convidámo-los a vir-nos visitar. — E então? — interrompe Ivone? — Pela mãe acho que vêm, mas do pai já não sei. — Ricardo, pestaneja um pouco. — Foi tudo tão complicado.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

19:08 – 19:38

Se caminhasse de olhos fechados talvez tivesse mais tino na direção. Uma brisa refresca o ar. Zé recorda o corpo imobilizado em ponte, uns instantes só, e depois o descer da montanha que laboriosamente subiu. Agora regressa a casa. São assim as caminhadas, feitas do ir e do vir, planeadas e sem surpresas, não são como as migrações e por isso já têm o regresso na partida. Desordenadamente, amontoam-se-lhe na cabeça os fragmentos de por onde vai passando. As árvores de tronco bochechudo, que apertou com a mão peluda marcada pela idade. O rio quase seco com o seu leito de seixos que ladeiam um fio ondulado e negro. As pedras negras do passeio dispostas em zebra que o estonteiam. As faixas de sombra dos candeeiros de iluminação que se estendem fantasmagóricas à sua frente pelo sol do entardecer. Está à porta de casa. Cerca de 30 minutos é o que costuma demorar desde a casa de Ivone.
À porta da escola passa gente. Para-se e fala-se. Joaninha está com alguns colegas. Discute-se o problema dos professores titulares. Querem diferenciar os professores para virar uns contra os outros, argumenta. A avaliação é a desculpa. No início serão falinha mansas, mas uma vez se encontrem no lugar começará o respeito, e depois as vénias. Devagar, despercebidamente, para voltar ao antigamente. O fim da escola democrática. Não podemos ficar de braços cruzados. Pelo menos eu não ficarei. É na primeira reação que se procura cheirar o medo. Isso determinará toda a estratégia. Por isso devemos recusar-nos a fazer os exames de avaliação. Ao dono pouco interessa o pau, quer só ver se lhe o trazem à mão. Logo à noite vamos discutir na reunião que formas de luta deveremos tomar. Margarida, de artes visuais, também está revoltada. É a mais nova mas não vai na conversa da luta de gerações.
Deitada na cama com um lençol branco que lhe cobre uma perna e traça um risco oblíquo ao longo do corpo, Ivone deixa-se estar sob o fresco que entra pela janela. Sente o ténue peso do lençol, e a sua quase ausência, os ruídos que entram com o ar, de carros que passam amiúde, vozes de pessoas de regresso a casa, crianças no parque em frente que pedem uma última brincadeira antes de recolherem para jantar. A luz que passa por entre as fisgas do estore estende-se sobre o quarto chegando ao seu corpo que respira acordado, oferecendo-se ao fresco quando inspira, os músculos entregues a uma letargia expetante. Numa quase adoração, com os olhos semi-abertos, Ivone abarca a totalidade do quarto, não se focando em nada, nem no reposteiro que por vezes ondula, nem no espelho com reflexos baços, ou sequer no buraco formado pela porta aberta.

sábado, 30 de julho de 2016

Mobocracy

Agora que alguns apontam Donald Trump como os limites da democracia, num piscar de olhos a uma ordem a la Singapura, um artigo interessante, Donald Trump and the Myth of Mobocracy, para trazer alguma luz aos iluminados.

domingo, 15 de maio de 2016

quotidiano

o que há na forma de uma costela de vaca do animal de que fez parte               um naco de carne com um osso para pegar     esparramado sobre o prato branco      acastanhado pelo fogo     com uns laivos do vermelho que já foi sangue               um bicho volumoso     esquartejado por aí     alguns pedaços no espaço oco do paralelepípedo branco do meu frigorífico     outros por outras insuspeitáveis concavidades               deixava com certeza uma marca no chão que pisou     uns cascos arredondados de aerodinâmica ajustada     feitos para pastar por vontade e correr por necessidade                 no prato corta-se em pequenos pedaços com a faca e aperta-se levemente entre os dentes     liberta um suco que nos acorda para a vida     roda-se para o ajeitar ao gume     toma outra forma      a pega mais longe      deixada para o fim      para o caixote debaixo do lava loiças                  há na costela de vaca a alguns euros o quilo a razão da existência do bicho     os anos a rapar calmamente erva     uns olhos esbugalhados     um cenário de prados e árvores que viram outras vacas                  sentada     trazendo à boca os restos arrancados     agora pacientemente triturados     num exercício de dupla satisfação

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Trump Tower

A retitle of the old post Hi in Vegas by the force of circumstances

Hi Vegas
I'm in Vegas
I'm at the Harrahs
I'm at the Circus
I'm not downtown

Hi Mom
I'm in Vegas
I've been shopping
Walking stripdown and up
Having a lot of fun

Hi there
Ain't I gorgeous?
I know, I'm just a girl on a card
But if you wish
I can become for real

Hi 500 dollars babe
I'm just a 100 pounds boy
I've left home today
And I can dream
Hi I Hi I Hi I Hi I

Hi Dad
I'm in Vegas
I've been playing blackjack
I put on that poker face you taught me
But there was no girls on the cards

How can I get to power?
Enter at Bally's
Pass through the slot machines
Turn left where the blackjack tables are
Do a walkthrough charming Paris
Get out at the Arc de Triomphe
Turn right to the Eiffel Tower
And you'll see Cesars Palace
And then Trump Tower
The power back and forth
Back and forth

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Descendo a Avenida





David Hume disse

todo o nosso conhecimento é baseado nas nossas experiências

Mas não foi agora

que descemos a avenida

Creio que o afirmou já há algum tempo

quando ainda não havia a tua experiência

nem a minha

Primeiro teve-a o Hume

e foi o que conjeturou

Depois veio a minha

e finalmente chegou a tua

que vou percebendo diversa

Os três vamos descendo a avenida

embora o Hume cá não esteja

mas está a experiência

A do Hume?

Não, esta




17/9/2015

domingo, 23 de agosto de 2015

Quadragésimo primeiro dia

Tendo-nos apercebido ao quadragésimo dia que o calendário do ano da areia é pura imaginação, o quadragésimo primeiro dia é feito da mais completa liberdade. Tudo é possível, mesmo o que nunca antes foi pensado, dentro do calendário.

Cada novo dia expande o calendário com as suas conjeturas. Cada pensamento, cada opinião, alonga o calendário mas não nos faz sair dele. Um idealismo subordinado à matéria.

sábado, 22 de agosto de 2015

Taurus

A raiva com que arremetia tolhia-lhe a vista e contudo cada investida trazia-lhe um sabor a vitória.

Tudo começou com sussurros. Pequenas vozes insinuaram-se. Cada uma contava apenas uma pequena parte, um pormenor. Coube a Manuel juntá-las, construir o todo, descobrir a verdade. Quando a descobriu soube-a sua, ninguém lhe a tinha contado. Nessa certeza cresceu, fortaleceu o corpo e se preparou para a lide.

Sabia que iria acontecer apenas uma vez. Por isso tinha estudado o combate ao pormenor. Não apenas este combate, todos os combates possíveis. Todas as combinações de investidas e de como aparar os golpes. Mas nesta preparação algo prevalecia, algo visceral, inicial, a origem daquela raiva. Isso não tinha combinações, era como era, estaria lá no momento em que entrasse na arena, seria levada consigo, para não se enganar, para não dar azo a erros, a mal entendidos. Por vezes já dava consigo a sonhar no prazer único do combate.

Quando finalmente chegou a altura, e entrou com aquele misto de raiva e alegria, Manuel já tinha sido lidado.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Turdus merula

Aquele palhaço sempre a gargalhar, uma fonte de desordem, um empata gente séria. Era assim que se referiam a Lúcio.

Na aldeia havia gente séria, gente com dons divinatórios. Anteviam coisas que as pessoas percebiam. Por isso recorriam a eles. As respostas tinham mais solenidade do que as perguntas. As perguntas eram sobre a vida. Quando me vou casar? O meu marido vai deixar a Bezerrinha? Irei herdar o lameiro? As respostas apontavam para mais além, punham condições, obstáculos a ultrapassar, mezinhas para fazer bem feitas. E as pessoas lá regressavam a casa, com os seus temores confirmados, mas com uma adquirida grandeza e um caminho para percorrer.

Quando confrontado com estas grandezas, Lúcio gargalhava. Olhavam para ele, que não fosse palhaço. Mas ele dizia:

— Vão pequeninos e regressam grandes na mesma.

E depois gargalhava de novo. Por isso não o levavam a sério. A segunda gargalhada era idêntica à primeira, como se não tivesse dito nada.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Canis lupus familiaris

Era nos olhos que mais se sentia o António. Grandes, firmes e prestáveis, presidiam a uma cara que apenas existia para eles. Todos diziam, lá está o António com aquele olhar. Quando torcia os cantos da boca, ou enrugava a testa, os olhos permaneciam inalterados como um bric-a-brac de bijuterias adornado por uma jóia.

Em tudo o resto era simples o António. Muito amigo de seus amigos, nas coisas que a eles diziam respeito colocava um empenho pelo qual era admirado e estimado. Eram amigos de longa data, reuniam-se com regularidade disciplinada, duas vezes por ano. Os encontros eram um reviver transmutado em abraços e palmadas nas costas. Esses afetos, ainda que empolados pela lupa do tempo, traziam-lhe uma tranquilidade, a que se encostava com a satisfação afável de quem espera por mais. E as partidas eram como as chegadas.

Foi percorrendo as coisas da vida como deve ser. António teve mulheres e filhos. A primeira deu-lhe dois. Da segunda teve mais um, como confirmação. Cumpriu as sua obrigações, fez o que tinha de fazer e não se intrometeu no que não lhe dizia respeito. Aos filhos, depois de criados, deixou-os partir com naturalidade, sem sinal de resignação.

Era da caça que ele mais gostava. Uma coisa de família. Lembrava-se do avô e do pai regressarem com as perdizes penduradas do cinto e as caçadeiras abertas. É a do pai que ainda usa. É pela sua mira que as vê passar depois de soltar o cão. Dois gatilhos. Pum, e às vezes cai uma, pum, para confirmar. Abre sempre a arma, para ver saltar os cartuxos, antes de tirar o animal da boca do cão, com o cheiro da pólvora, o sangue da perdiz e a baba alegre.

Agora está aqui encostado a esta árvore a ver o tempo passar. Parece-lhe que passa muito lentamente, e cada vez mais lentamente. Enquanto vai fechando os olhos, a planície vai-se prolongando e as árvores sobrepondo-se. E contudo, o espaço entre elas continua a aumentar. Árvores mais esparsas, planície mais longe. Sente na boca um travo a vinho. Abre as mãos para o cão lamber.

In da Memória da Areia dos Bichos

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Corvus

Vicente, de seu nome completo Vicente António Baltazar de Carolina e David Eduardo Feliciano da Glória e Horácio Inácio Joaquim de Lúcio Manuel de Nicolau dos Nicolaus, mais conhecido por Vicente dos Nicolaus, nasceu insubmisso por natureza.

Tão negro de pele como obstinado de carácter, Vicente é daqueles para quem estar aqui é um direito. Bem lhe referem o que deve, mas ele persiste em ignorar. Acusam-no, com alguma razão, dada a miscelânea do seu nome, de que apenas pode ser fruto de uma monstruosa fornicação. Produto de um daqueles bacanais a que os Deuses do Olimpo se entregam por escárnio dos humanos, imitando-os para melhor os vilipendiarem. Durante essas orgias travestem-se com os nomes que os humanos escolhem e misturam-se em grande algazarra engendrando um novo nome. Repousados da festa, inventam um corpo e um humor, tão ridículos como o nome e insignificantes como os humanos. Juntos os três, atiram-nos para o mundo como um a feto abandonado.

Vicente teria sido o nome a que chegaram. Quanto ao corpo e ao humor, perfeitos Deuses são incapazes de conceber o absolutamente imperfeito. Juntando o pouco que tinha, no frio do abandono e na exposição ao sol teria desenvolvido a obstinação e a insubmissão que eram só suas. Mas isso não era tudo, na sua cabeça conviviam um diligente António com um irreverente Lúcio, havia um Joaquim Baltazar que vivia entre um mundo perfeito e a realidade da sua ausência, para já não falar de um David Feliciano, obcecado com poderes tão dissemelhantes, ou da encruzilhada de uma Glória Carolina. Dentro da sua cabeça todos esses Nicolaus coabitam.

Vendo tamanho tumulto numa obra que achavam sua, e enojados com a promiscuidade daí resultante, os Deuses quiseram impor ordem, mas perante a insubmissão de Vicente e o perigo de perderem a sua representação nos humanos, optaram, por impotência, a condená-lo a ser bicho, um e muitos.