sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Retângulos, janelas e pontos

Observo, por entre os retângulos da grade da varanda, os prédios entrecortados em fim de tarde já escura. Prédios retangulares, polvilhados de janelas que espaçadamente se vão acendendo e apagando. Dentro das janelas iluminadas passam, súbitos, pequenos pontos de gente.

Também eu caminho na luz da sala enquanto os meus olhos seguem os retângulos da varanda.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O burro

O copo mergulha na mancha escura. Enche-se e é puxado para cima escorrendo água. Um bater cadenciado, cada vez mais nítido, marca o compasso da subida. Solta a água, reinicia a descida e fica suspenso, balouçando, boquiaberto a olhar para o fundo do poço.

A água transparente cai sobre o tabuleiro, separa-se para visitar os cantos e encontra-se de novo ao centro. Numa onda corre pela calha em direção ao buraco de pedra que leva ao tanque. É engolida e perde-se no escuro.

O homem vai encaminhando a água castanha que lentamente ensopa a terra. A sachola matraqueia entre lama e pedras. O homem ajeita a aba do chapéu e sente o fresco no círculo de suor em volta da cabeça.

Uma pedra da parede do poço, que vê numa nesga da saca que lhe cobre os olhos, traz-lhe algo à memória. Estaca a olhar e o bater cala-se.

A voz grita, ah burro do diabo. Volta a sentir a canga no pescoço, atira o corpo para a frente, exala pelas largas narinas e o travão da nora recomeça a bater.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Carduelis Carduelis

O meu nome é Glória. Inventam-me muitas origens, mas eu vim de dentro de um ovo. Eu sei porque estive lá. Era um sítio onde tudo era redondo, onde os movimentos eram arcos e se davam voltas. Quente, quase sempre, nem imaginava que pudesse haver outro lugar, até que senti sons estranhos. Inicialmente notei apenas uma ligeira pressão sobre o ovo e depois, quando essa pressão desaparecia, ainda que por instantes, ficava menos quente e os sons aumentavam de volume, tornando-se mais nítidos.

Embora ainda estivesse dentro do ovo já me entretinha a imaginar o que estaria lá fora. Pobre imaginação. Julgava que este ovo estava dentro de um outro ovo maior. Neste estavam os sons mais próximos, aqueles que me eram mais familiares. Um bater seco no ar seguido de um abanar. Um contínuo ranger associado a um baloiçar. Mas, puxando ainda mais pela imaginação, conjeturei que este ovo, que cobria o meu, deveria estar dentro de um outro ainda maior. Tinha que ser assim pois não havia outra forma de perceber os distantes balbuciares que vinham sobretudo da parte de baixo do ovo. Eram sussurros seguidos de gritos murmurados e corridas abafadas. Tudo muito apagado, muito ténue.

Quando já tinha explorado todos os sons que me cercavam e os tinha associado aos dois ovos onde o meu se encaixava, dava comigo a imaginar, por analogia, mais sons que não ouvia e mais ovos que os justificassem, todos dentro uns dos outros. Assim passava os meus dias e quiçá imaginei tudo o que é possível imaginar dentro de um ovo.

Um dia enganei-me a fazer um movimento, que não saiu em redondo, e rompi o ovo. À minha frente estava um menino tão boquiaberto como eu. O meu nome é Glória.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Segundo dia

Recordo perfeitamente o segundo dia. Prolongou-se por dezanove dias e terminou há pouco. Nele, perenes, encontro retângulos, janelas e pontos, mas há outras memórias mais difusas que vão e vêm.

Encontro a memória de um autocarro, seguido de um metro, seguido de um comboio, em que não viajei. E o retorno dessa memória, um comboio seguido de um metro, seguido de um autocarro, de regresso a casa. As memórias podem ser assim, vividas em dois sentidos, num a partida e no outro o regresso, sem termos feito nenhuma das viagens. Os mesmos objetos intercalados de diferentes maneiras.

Há memórias ainda mais difusas e que portanto nos parecem alheias. Contrariamente às primeiras, são memórias que pontualmente passam como picos de montanha no percurso de um avião. Enchem o dia como batidas de coração, marcam o ritmo das primeiras, dão-lhes cor e sabor mas quase não damos por elas. Por isso as imagino alheias, aparentam não ter nexo, feitas de memórias que partiram com o tempo e que regressam aos pedaços.

Mas regressemos aos pontos perenes, as janelas e os retângulos. Na memória fico indeciso sobre onde começa um retângulo e termina uma janela. Talvez o mais importante seja o paralelepípedo onde me encontro, feito de um infinito número de retângulos que continuamente se cortam. Dos vários retângulos, daqueles que estão na fronteira do paralelepípedo, um poderá ser uma porta, outro uma janela e outro, ainda, abrir-se-á para a varanda.

Recordo caminhar dentro desse paralelepípedo, entre dois pontos. Nesse percurso, cada vez que atravesso um dos infinitos retângulos sou perpassado por uma memória. No conjunto, estas memórias dão o tom ao caminhar. Desloco-me com os olhos posto no retângulo que dá para a varanda mas o que vejo refrata-se nas memórias de outros inúmeros retângulos que se entrepõem entre mim e onde os meus olhos se fixam.

Tudo junto, somando tudo, o segundo dia teve uns poucos segundos de duração.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Vigésimo quinto dia

Agora, neste vigésimo quinto dia, vamos olhar para dentro do casulo. Para o casulo na fase borboleta. Uma fase de leitura, depois da escrita feita pela lagarta. Como se alguém tivesse nascido dentro de uma biblioteca, tenha andado por ali às voltas e um dia descubra um livro com o nome de porta.

A vida da borboleta através do casulo é um caminho entre o seu centro e as coisas sem nome. Um caminho que pode tomar muitas formas.

Em algumas delas a borboleta corta a direito. Numa primeira camada de nomes que referem nomes, que muito vagamente indicam a existência das coisas, suspeita que possa haver coisas sem nome e entra num frenesim que imediatamente a impele para a camada seguinte, e assim sucessivamente.

Noutras, a borboleta embrenha-se na leitura, ora se aproxima mais das coisas, ora se afunda nos nomes de nomes. Diz-se, mas não acredito, que esta leitora tem uma vocação de escritora. Uma borboleta com complexos de lagarta. Não acredito, pois ainda não viu as coisas sem nome e, olhando para o seu rasto, não é claro que, se entre camadas, entre prateleiras, entre estantes, entre salas e salas repletas de livros receosos da traça, tenha suspeitado da porta. Não é uma escritora, é uma leitora devoradora, pois mesmo a última linha escrita pela lagarta, a do auge da retórica, apenas se justifica por todas as outras linhas, e estas pelas coisas sem nome.

É a borboleta que corta a direito, a que faz uma leitura libertária, aquela que poderá vir a ser lagarta.

In da Memória da Areia dos Bichos

domingo, 9 de agosto de 2015

Viagem galática

Tinha pensado naquela viagem há muito. Planeado tudo ao detalhe. Não sabia o que encontraria mas a informação recolhida garantia-lhe que se virasse sempre à direita voltaria ao ponto de partida. Era uma informação que foi juntando aqui e ali, ouvindo desapercebidamente as conversas. Conversas de mulheres que se alongavam no terraço pela tarde terminando apenas para irem fazer o jantar a maridos que nunca tinha visto. Foi na certeza da existência das casas para onde estas mulheres corriam à espera dos maridos que alicerçou o seu plano.

As primeiras explorações fê-las ao fundo das escadas. Aí, o portão que felizmente se encontrava quase sempre aberto, dava para uma rua que à direita logo se precipitava numa esquina e à esquerda tinha uma longa subida por onde achava que deveria ocorrer o regresso. Antes de partir certificou-se de que a seguir à esquina à direita se avistava outra, também à direita, indiciando o retângulo perfeito que havia imaginado.

Quando finalmente resolveu iniciar o empreendimento, foi com um misto de alegria e medo. Encontraria as imaginadas esquinas que lhe permitiram regressar? A primeira conhecia bem e rápido a cruzou. Esse foi o impulso inicial que o impediu de voltar atrás. A isso também ajudou a descida que se seguiu. Foi então que dobrou a segunda esquina. À sua frente apresentava-se-lhe uma enorme subida que não tinha imaginado. Tenebrosa esta ladeira que o impedia de confrontar o plano com a realidade. Era ladeadas por casas com janelas que o olhavam como a um estranho. Respirou fundo e subiu-a impelido pela resignação dos que fogem de casa.

Quando chegou ao cimo viu o seu esforço recompensado. A uma curta distância já avistava uma outra esquina que possibilitaria uma nova curva à direita, e a quase certeza do retângulo. A alegria tomou posse do que antes o medo dominava. Agora já não tinha pressa em voltar. Sentia o ar e o vento encherem-lhe os pulmões enquanto os olhos bem abertos observavam com curiosidade as casas e as janelas cheias de luz.

Foi então que a uma janela de um primeiro andar surgiu um ser, gordo e disforme, que, apanhando-o desprevenido, lá de cima lhe atira: Ó Tózinho, que andas aqui a fazer sozinho? Era então aqui que ela vivia, a gorda de sacristia com a mania de trocar bolachas secas por beijos molhados nos quais sempre se sentia manducado.

Toda a viagem se destroçou. O galático retângulo perfeito, que alguns metros mais à frente se confirmou, perdeu todo o seu valor e regressava agora, sem qualquer medo ou alegria, revoltado com a pequenez do mundo.

sábado, 8 de agosto de 2015

Nicolaus Nicolau

De todos estes bichos há um que me intriga mais do que os outros. É a espécie Nicolau do género Nicolaus. Um bicho em que cada exemplar não deve diferir dos restantes e, contudo, como isso está constantemente a acontecer toda a espécie se vai moldando à alteração ganhadora mais recente. Com propriedade, nem sequer se pode afirmar que a espécie Nicolau exista, mas sim, que existe um conjunto de espécies do género Nicolaus e que estas espécies de um único exemplar se copiam num sincronizado movimento, como os peixes de um cardume. Sempre quase a ficar iguais.

Para uma melhor análise vou-me focar num único exemplar de uma espécie do género Nicolaus. Chamemos-lhe, para ter um nome, Senhor Nicolau. Tomo aqui a liberdade de usar o nome da espécie, Nicolau, para referir o seu único exemplar, o que não será um abuso pois ele é efetivamente único, e uso Senhor para denotar uma outra espécie. Não é uma espécie real, essa é Nicolau e tem apenas um exemplar, o Senhor Nicolau, mas é uma espécie criada, daquelas que constantemente estão a aparecer, e desaparecer, dentro do género Nicolaus.

Foquemos-nos agora nestas espécies criadas, aquelas que permitem agregar estes exemplares desgarrados do género Nicolaus. No caso do Senhor Nicolau é Senhor. O Senhor tem propriedades e foi mandado estudar para Coimbra para ser Doutor. Contudo falha a transitar da espécie Senhor para a espécie Doutor. Isso provoca alguma consternação noutros membros do género Nicolaus, especialmente os mais próximos, pois não era isso que dele se esperava. Estranhamente, ao Senhor Nicolau isso não o parece afligir. Continua a ser tratado como são tratados todos os da espécie Senhor, com deferência e um olho aberto à cata de oportunidades.

E as oportunidades não faltam. Aparentemente desimbuído de qualquer preocupação acerca da sua espécie criada, o Senhor Nicolau vai perdendo o Senhor, ficando cada vez mais só Nicolau. Um pecado capital numa espécie de um único exemplar.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Vigésimo sétimo dia

Há uma outra questão que deixámos para o vigésimo sétimo dia. Que relação existe entre os nomes que a borboleta atribui às coisas sem nome e os nomes que leu ao romper através do casulo?

Partimos do princípio que ambos os conjuntos de nomes são coerentes. Os das coisas sem nome, pela repetição a que obriga a luta pela vida. Será impensável para a sobrevivência da borboleta, e para o seu objetivo de regressar ao casulo, que cada vez que pouse numa planta lhe atribua um nome diferente. Que viva num constante êxtase de novos nomes. Isso deixará para o fim, para a fase lagarta. Agora cada poisar é o solidificar de um nome e o resto vem por arrasto. Um nome puxa outro nome, palavra puxa palavra, e é nessa ordem, e na repetição dessa ordem, que é feita a coerência dos nomes das coisas sem nome.

Já os nomes do casulo têm a coerência da biblioteca. Nomes construídos por escritores que se leram, amaram e odiaram, que concordaram e profundamente discordaram. E tanta dialética só pode gerar um todo coerente.

Sendo ambos coerentes é agora necessário saber se há alguma diferença na essência da coerência. Para isso imaginemos um casulo de coisas sem nome e um mundo biblioteca. Neste cenário, as lagartas definham com exuberância construindo coisas sem nome e as borboletas vivem entre nomes e construções de nomes.

Não, não diferem na essência.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Trigésimo segundo dia

O trigésimo segundo dia está cheio da serenidade da planta, e deixemos o dicionário de lado para não repetirmos o trigésimo primeiro dia.

Que nome poderá sair do encontro entre a borboleta e a planta, em que uma se agita à cata de nomes e a outra se deixa tocar com serenidade. O nome que a borboleta dá à planta é a cristalização de um verbo. Um nome que se pretende volte a ser verbo, em cada nova comemoração, em cada nova recordação. Contudo, o tempo vai esbatendo o estranhamento do toque da pata na planta. Quando o tempo termina a sua obra o nome esquece o que já foi, tal como uma estátua é a negação do verbo.

Já o verbo que a planta dá ao toque da borboleta é uma coisa sem nome.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Septuagésimo quinto dia

O dia de hoje, o septuagésimo quinto, é hoje. Por isso fica destacado no calendário: é o dia de hoje.

No dia de hoje, quando a borboleta poisa na planta e o nome se lhe agarra à pata e sobe por ela acima, é um corpo que se agarra a outro corpo. O corpo da planta ao corpo da borboleta. Um nome celebra esse acontecimento. É com ele que a borboleta o comemora sempre que num outro instante volta a poisar numa planta.

Já é mais obscuro se a planta o comemorará com o mesmo nome.

domingo, 2 de agosto de 2015

Vigésimo primeiro dia

O vigésimo primeiro dia é o da borboleta atravessando as paredes do casulo.

Recordar-se-á da lagarta? Ou aprenderá da sua história roendo as paredes do casulo em direção à liberdade?

Um processo curioso este. Primeiro vai ler a parede mais interna, aquela em que a lagarta, no auge da retórica, deve ter deixado escrita pura emoção. Depois a emoção vai-se reduzindo e a borboleta começa a aprender nomes de coisas que supostamente devem existir. Quando finalmente rompe o casulo encontra as coisas sem nome.

Nas suas leituras libertárias terá a borboleta encontrado as instruções sobre como fazer um casulo?

sábado, 1 de agosto de 2015

Nenuco

O Ken levanta-se. Na cama, a Barbie ainda dorme com os cabelos entre os lábios. Segue de mansinho para a cozinha. Afasta os copos de Gin da noite anterior para colocar o espremedor. A laranja enche-lhe a mão, corta-a com uma faca, espreme cada metade e atira para o lixo os restos retorcidos. Aproxima o copo da boca, sentindo o cheiro do sumo cada vez mais próximo. Entreabre os lábios e quando o sumo os toca sente um ruído no quarto. Deve ser a Barbie a revirar-se na cama, pensa, e recorda-se de no revolver da noite ela lhe ter chamado Nenuco.

Conduz o seu descapotável, com os cabelos soltos, os largos óculos escuros e o relógio que gira no pulso com as curvas da estrada. Vai deixando outros carros para trás, vê-os aproximar à sua frente e de seguida afastarem-se atrás de si. No iPhone a foto da Barbie começa a pestanejar. Curva à direita e o iPhone continua a vibrar sobre o tapete, onde já não o pode alcançar. Vai procurando juntar todos estes fragmentos, nunca se tinha imaginado Nenuco.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Meta-bicho

Quem é este bicho que escreve sobre os bichos? Bom, não é um, são vários. Cada um deles é como um senhor Nicolau, que com a sua lupa observa ao pormenor os bichos, cataloga-os e cristaliza-os com formol dentro de um frasco. Desta forma, o bicho e a sua descrição constituem uma perfeita simetria. A partir do bicho cristalizado chega-se à sua descrição e desta de volta ao bicho, e assim sucessivamente como dois espelhos frente a frente.

Nestas sucessivas transformações, o bicho e a sua descrição vão sofrendo ligeiras mutações. Em cada instante, nos espelhos surgem um senhor Nicolau e uma descrição, diferindo ligeiramente. Um senhor Nicolau dentro de um frasco, uma descrição dentro de um livro. E os espelhos continuam a fazer o seu trabalho.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sexagésimo dia

Agora que contornámos o sexagésimo nono dia, ganhámos a paz para a questão da sexagésima: Porque não faz fruto a palavra de Deus?

Prega o Pregador que é por culpa dos Pregadores, ficando, escolasticamente desculpados Deus e os Homens. Sem dúvida uma construção barroca, a conceção do fruto pela exaustiva repetição da sua afirmação e da sua negação. É isso a Pregação.

Mas não deixa de me vir à memória outros dias, bem mais distantes que este, que aconteceu algures em 1655, dias da lagarta e da borboleta. Apenas necessito de fazer correspondências, construir as alegorias e ainda assim fico-me só pelo Pregador e pela sua Pregação. Também aí nos questionámos entre a lagarta e a borboleta, o ovo e a galinha. Cada um culpando o anterior pela sua existência. Cada um construindo-se à custa do outro, afirmando-se negando-o e abrindo a ala à sua posterior negação. Cada um igual ao anterior para conseguir justificar a pequena diferença. Numa relação infindável de ovos e galinhas, de lagartas e borboletas, colocados numa gigantesca fila de Pregadores e Pregações. Como o fruto e a palavra de Deus.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Cujo nome já não recordo

Uma mulher, cujo nome já não recordo...

E não recordo de facto, embora conceda que fica bem começar assim. E ainda melhor fica admitir que se reconhece. Bom, talvez recorde um nome como se recorda uma sequência de letras, mas, sendo o que escrevo o que é,  o significado dessa sequência é irrelevante.

E dizia, uma mulher, cujo nome já não recordo, sentou-se à minha frente... Não é nova, mas por vezes tem lapsos de juventude. Então nota-se frescura e ficamos na dúvida se a vemos como é ou como era.

Mas não nos dispersemos pois isso nada acrescenta.

Esta mulher, cujo nome já não recordo, senta-se à minha frente e começa a falar sobre a fidelidade. Vai contando como aceitou ser fiel sabendo que marido não o era, e assim viveu anos numa espécie de felicidade consigo mesma. 

Deixo-me absorver pela sinceridade com que fala, e acho que consigo visualizar os lapsos de juventude a percorrerem-lhe a cara como ondas. Mas isso sou eu.

Esta mulher com um nome que já não me recorda, conta como ajudou a prender um homem, seduzindo-o. Explica como foi perigoso, como construiu uma encenação, uma teia de mentira para fazer tropeçar o lado bom de um homem mau. 

Percebo a determinação desta mulher, mas já não sigo mais o que diz. Ausento-me.

Dou comigo a imaginar dois espelhos simétricos, num o marido seduz, noutro seduz ela. São a mais perfeita cópia um do outro, mas apenas num há traição. No outro há algo mais estranho e difuso.

domingo, 26 de julho de 2015

Gallus Prostratus

— Isto agora anda tudo trocado, homens com homens, mulheres com mulheres. Nem quero saber, pois comigo não, não, quantas vezes as prostrei eu, belas mulheres, cabelos negros, ruivos, louros, haréns, ou não me chame eu Feliciano. Falava-lhes ao ouvido e elas quietas e mudas, já sabiam ao que vinha, mediam-me, não perdiam pita do que dizia. O ouvido de uma era a boca de um altifalante, as palavras propagavam-se e eram às dezenas os pares de olhos que me auscultavam quando passava. O sucesso é assim, sempre a subir, e um homem tem que se aguentar, não é para todos. Nunca deixei nenhuma triste, que um homem deve ser feito de princípios. Claro que outros achavam que eram mais que eu, muito mal disseram, que não fazia, que cantava de galo, que eu não as cuidava, que a assistência não era como devia. Apontavam falhas aqui e ali, pormenores, qualquer coisa servia, mas o que era? Era inveja... Sim invejas, que um homem deve seguir em frente, de cabeça erguida, que a inveja rasteja e não se deve pôr-lhe os olhos em cima. Por isso onde tu chegavas Feliciano era uma calma, harmonia sobre harmonia, uma Pax Romana, que para isso servem armas. Ai Feliciano, e agora aqui prostrado e esses miúdos passam por ti e fingem que não te veem, devem pensar que sabem, que cantam bem... Próstatas novas.

In da Memória da Areia dos Bichos

sábado, 25 de julho de 2015

Sexagésimo nono dia

Há algo de incontornável no sexagésimo nono dia, mesmo que se contorne. Isso sente-se logo ao esboçar do quinquagésimo segundo. Este, de identidade própria, tem apenas o aproximar do outro.

Não é sequer um dia menor do ano da areia. Prenhe das costumeiras repetições, gira sobre si próprio sem nada mudar, como num filme pornográfico em que continuamente se muda de posição para continuar a fazer exatamente o mesmo, num grau zero do Kamasutra.

Nos biliões de imagens já filmadas, e nos biliões por filmar, encontra-se um apagar, uma indolência e uma ausência de vaidade, a qual sendo o mais ténue dos pecados é também o único, pois todos os restantes necessitam deste primeiro passo.

Outros dirão que não é vaidade, é vontade, está em todas as coisas, e nem sequer é pecado. Pertence, sim, à eterna ordem natural do manducar, da irrevogabilidade da vontade na alteração das formas.

Sim, é verdade que em alguns atores, principiantes, se nota alguma luz, mas isso é porque este bicho tem uma abissal vontade de sonhar. Contudo, a indolência é rainha num mundo onde na mais completa ausência de pecado se procede à sua mais acabada representação.

Um mundo como indolência e representação que Schopenhauer terá ignorado.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Rio

Naquele rio, daquele país,
por vezes corre sangue.
Mas das suas margens
não há relatos de massacres,
ou de outros sacrifícios.
Sente-se sim nele uma sofreguidão,
um pavor de deixar de correr.

domingo, 19 de julho de 2015

O do desassossego

Muitos têm definido o homem, e em geral o têm definido em contraste com os bichos. Por isso, nas definições do homem, é frequente o uso da frase "o homem é um bicho..." e um adjectivo, ou "o homem é um bicho que..." e diz-se o quê, ou "o homem é um meta-bicho" e aí já não se diz mais nada.

O homem é então um meta-bicho, um bicho que se observa a si mesmo, ou melhor, um meta-bicho que observa um bicho, pois é o ato de observar que acrescenta o meta ao bicho. É fundamental realçar que o bicho e o meta-bicho têm que ser necessariamente o mesmo. A observação de um outro bicho não faz do bicho meta-bicho, muito antes pelo contrário, bichifica-o, se me é permitido dizê-lo, pois a comparação tem por objetivo último a competição, a procura da vantagem. Já a auto-observação de um bicho carece de utilidade, dado ser uma verdade insofismável a impossibilidade de qualquer ser, mesmo um bicho, procurar vantagem de si próprio. Acho que fica assim claro que quando um bicho se observa a si próprio não pode ser um bicho, sendo certamente um meta-bicho.

Mas surge agora uma aparente incoerência que não devemos ignorar, o meta-bicho, ao observar-se a si próprio não pode estar a observar um bicho, está a observar um meta-bicho. Isso leva-nos a ter de redefinir meta-bicho como o meta-bicho que observa o meta-bicho. Dirão os leitores que isso é impossível, dado que esta definição contradiz a anterior, mas não é bem assim como irei procurar explicar. É frequente o meta-bicho observar, um pouco embevecido, naturalmente, o meta-bicho. Diz-se, dar-se ares de meta-bicho, comparar-se com os bichos e ser-lhe clara a diferença, a distância. Para isso nem sequer necessito de referir a observação que Pessoa faz do camponês de Loures, que todos sabemos não existir e ser uma mera efabulação de Pessoa para melhor se observar. Também eu já caí nessa armadilha, eu que sou pouco na ordem dos que pensam, e nada se me comparar a Pessoa, também já me julguei um meta-bicho da cidade que ouvia os Joys Divisions de Manchester e observar com alguma displicência os bichos de minha aldeia a vibrarem com os Marcos Paulos não sei donde, e nessa observação não havia uma comparação com eles, pois éramos de diferentes ordens de grandeza, mas sim uma comparação com o meta-bicho que eu próprio era. Pois, como já tinha referido, o meta-bicho adora observar-se a si próprio.

Mas ainda não é tudo. Nessa minha observação fui-me apercebendo da ausência de distância nas emoções, entre Manchester, a minha cidade e a minha aldeia. Antes pelo contrário, por vezes até senti inveja dos bichos da minha aldeia, da forma simples como vibravam, sem demasiadas articulações. Por falta de disciplina dei comigo a vestir-me das suas emoções e a observar o meta-bicho que eu era. Desta forma percebi muitas coisas que não tinha percebido antes, desconheci-me. E o que é isto senão o bicho a observar o meta-bicho. Sou obrigado a concluir, portanto, que o meta-bicho só pode ser o bicho que observa o meta-bicho.

Levanto-me indeciso sobre se bebo um chá, se vou à janela observar a noite ou se continuo sentado junto ao aquecedor. Não recordo qual é a minha decisão. Penso sobre o bicho e não sei se há alguma réstia de ironia no que acabo de escrever, mas rendo-me, o meta-bicho é o bicho do desassossego.

In da Memória da Areia dos Bichos

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O primeiro dia do ano da areia

Quando olhamos para a frente verificamos que o número de dias é finito. São exatamente 365. Isso traz-nos alguma serenidade. Sabemos que o de hoje foi o primeiro. Está quase terminado, amanhã será o segundo, e então poderemos recordar o primeiro, percebê-lo com distinção, como ele realmente foi. E não só no segundo dia, mas em todos os outros o poderemos trazer à memória, a ele e a qualquer outro que já tenha passado. Quanto aos dias que faltam nada poderemos fazer, para esses é necessário esperar que aconteçam antes de poderem ser recordados.

Tudo isto é tão óbvio que nem sequer seria digno de nota e não mereceria estas parcas palavras se não fosse um outro facto que entretanto constatei. Este ano é, de acordo com a astronomia Baktun, o ano da areia, aquele que terá 365 dias mas esses dias serão infinitos.

Ao princípio fiquei surpreendido e não queria acreditar. Como é possível que tenha 365 dias e eles sejam infinitos? Claro que poderia esperar pelo dia de amanhã, ver se o dia de hoje seria o dia de hoje, se ao recordá-lo ele seria exatamente como aconteceu. Se assim fosse, se não vislumbrar nele um qualquer outro primeiro dia, então teria a certeza que este dia era único e ocuparia o seu lugar como sendo o primeiro. Mais ainda, se cada dia impedir outro de usurpar o seu lugar teremos efetivamente 365 dias e eles não poderão ser infinitos.

Contudo, a dúvida levantada impede-me de seguir esta estratégia. E se for verdade? Então não posso esperar pois se o fizer, e resta menos de uma hora para o primeiro dia acabar, se os dias forem infinitos, irei perder a memória deste para poder recordar o outro. Confesso que também não sei o que possa fazer se chegar à conclusão que é verdade, mas ainda assim vou tentar conjeturar como é possível que 365 dias sejam infinitos e depois pensarei como impedir o esvaziamento da memória deste dia.

Ocorre-me que talvez eles sejam mesmo apenas 365 mas que estejam entrelaçados. Que a memória de um dia seja amalgamada com as memórias dos restantes dias. Ou que de facto os dias não possam ser recordados, mas que atribuamos as memórias aos dias para estas serem mais verosímeis. Que quando julgamos recordar um dia estejamos sim a inventá-lo, a juntar um conjunto de memórias e a dar-lhe um nome de dia.

Dizemos com vaidade, este foi o primeiro dia. Mesmo quando voltamos a recordar essas mesmas memórias, aquelas que atribuímos àquele dia, elas vão-se amalgamar com outras memórias, e lá teremos outro primeiro dia.

Se esta conjetura for verdadeira então é monstruoso, pois o dia de amanhã também poderá ser construído com memórias, como um qualquer outro dia que passou. Desta forma, hoje, agora, neste primeiro dia deste ano os 365 dias são infinitos e já todos aconteceram.

Olho para o relógio, são 23:59 e, mais por instinto do que por convicção, procuro as memórias deste dia.

In da Memória da Areia dos Bichos