domingo, 19 de julho de 2015

O do desassossego

Muitos têm definido o homem, e em geral o têm definido em contraste com os bichos. Por isso, nas definições do homem, é frequente o uso da frase "o homem é um bicho..." e um adjectivo, ou "o homem é um bicho que..." e diz-se o quê, ou "o homem é um meta-bicho" e aí já não se diz mais nada.

O homem é então um meta-bicho, um bicho que se observa a si mesmo, ou melhor, um meta-bicho que observa um bicho, pois é o ato de observar que acrescenta o meta ao bicho. É fundamental realçar que o bicho e o meta-bicho têm que ser necessariamente o mesmo. A observação de um outro bicho não faz do bicho meta-bicho, muito antes pelo contrário, bichifica-o, se me é permitido dizê-lo, pois a comparação tem por objetivo último a competição, a procura da vantagem. Já a auto-observação de um bicho carece de utilidade, dado ser uma verdade insofismável a impossibilidade de qualquer ser, mesmo um bicho, procurar vantagem de si próprio. Acho que fica assim claro que quando um bicho se observa a si próprio não pode ser um bicho, sendo certamente um meta-bicho.

Mas surge agora uma aparente incoerência que não devemos ignorar, o meta-bicho, ao observar-se a si próprio não pode estar a observar um bicho, está a observar um meta-bicho. Isso leva-nos a ter de redefinir meta-bicho como o meta-bicho que observa o meta-bicho. Dirão os leitores que isso é impossível, dado que esta definição contradiz a anterior, mas não é bem assim como irei procurar explicar. É frequente o meta-bicho observar, um pouco embevecido, naturalmente, o meta-bicho. Diz-se, dar-se ares de meta-bicho, comparar-se com os bichos e ser-lhe clara a diferença, a distância. Para isso nem sequer necessito de referir a observação que Pessoa faz do camponês de Loures, que todos sabemos não existir e ser uma mera efabulação de Pessoa para melhor se observar. Também eu já caí nessa armadilha, eu que sou pouco na ordem dos que pensam, e nada se me comparar a Pessoa, também já me julguei um meta-bicho da cidade que ouvia os Joys Divisions de Manchester e observar com alguma displicência os bichos de minha aldeia a vibrarem com os Marcos Paulos não sei donde, e nessa observação não havia uma comparação com eles, pois éramos de diferentes ordens de grandeza, mas sim uma comparação com o meta-bicho que eu próprio era. Pois, como já tinha referido, o meta-bicho adora observar-se a si próprio.

Mas ainda não é tudo. Nessa minha observação fui-me apercebendo da ausência de distância nas emoções, entre Manchester, a minha cidade e a minha aldeia. Antes pelo contrário, por vezes até senti inveja dos bichos da minha aldeia, da forma simples como vibravam, sem demasiadas articulações. Por falta de disciplina dei comigo a vestir-me das suas emoções e a observar o meta-bicho que eu era. Desta forma percebi muitas coisas que não tinha percebido antes, desconheci-me. E o que é isto senão o bicho a observar o meta-bicho. Sou obrigado a concluir, portanto, que o meta-bicho só pode ser o bicho que observa o meta-bicho.

Levanto-me indeciso sobre se bebo um chá, se vou à janela observar a noite ou se continuo sentado junto ao aquecedor. Não recordo qual é a minha decisão. Penso sobre o bicho e não sei se há alguma réstia de ironia no que acabo de escrever, mas rendo-me, o meta-bicho é o bicho do desassossego.

In da Memória da Areia dos Bichos

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O primeiro dia do ano da areia

Quando olhamos para a frente verificamos que o número de dias é finito. São exatamente 365. Isso traz-nos alguma serenidade. Sabemos que o de hoje foi o primeiro. Está quase terminado, amanhã será o segundo, e então poderemos recordar o primeiro, percebê-lo com distinção, como ele realmente foi. E não só no segundo dia, mas em todos os outros o poderemos trazer à memória, a ele e a qualquer outro que já tenha passado. Quanto aos dias que faltam nada poderemos fazer, para esses é necessário esperar que aconteçam antes de poderem ser recordados.

Tudo isto é tão óbvio que nem sequer seria digno de nota e não mereceria estas parcas palavras se não fosse um outro facto que entretanto constatei. Este ano é, de acordo com a astronomia Baktun, o ano da areia, aquele que terá 365 dias mas esses dias serão infinitos.

Ao princípio fiquei surpreendido e não queria acreditar. Como é possível que tenha 365 dias e eles sejam infinitos? Claro que poderia esperar pelo dia de amanhã, ver se o dia de hoje seria o dia de hoje, se ao recordá-lo ele seria exatamente como aconteceu. Se assim fosse, se não vislumbrar nele um qualquer outro primeiro dia, então teria a certeza que este dia era único e ocuparia o seu lugar como sendo o primeiro. Mais ainda, se cada dia impedir outro de usurpar o seu lugar teremos efetivamente 365 dias e eles não poderão ser infinitos.

Contudo, a dúvida levantada impede-me de seguir esta estratégia. E se for verdade? Então não posso esperar pois se o fizer, e resta menos de uma hora para o primeiro dia acabar, se os dias forem infinitos, irei perder a memória deste para poder recordar o outro. Confesso que também não sei o que possa fazer se chegar à conclusão que é verdade, mas ainda assim vou tentar conjeturar como é possível que 365 dias sejam infinitos e depois pensarei como impedir o esvaziamento da memória deste dia.

Ocorre-me que talvez eles sejam mesmo apenas 365 mas que estejam entrelaçados. Que a memória de um dia seja amalgamada com as memórias dos restantes dias. Ou que de facto os dias não possam ser recordados, mas que atribuamos as memórias aos dias para estas serem mais verosímeis. Que quando julgamos recordar um dia estejamos sim a inventá-lo, a juntar um conjunto de memórias e a dar-lhe um nome de dia.

Dizemos com vaidade, este foi o primeiro dia. Mesmo quando voltamos a recordar essas mesmas memórias, aquelas que atribuímos àquele dia, elas vão-se amalgamar com outras memórias, e lá teremos outro primeiro dia.

Se esta conjetura for verdadeira então é monstruoso, pois o dia de amanhã também poderá ser construído com memórias, como um qualquer outro dia que passou. Desta forma, hoje, agora, neste primeiro dia deste ano os 365 dias são infinitos e já todos aconteceram.

Olho para o relógio, são 23:59 e, mais por instinto do que por convicção, procuro as memórias deste dia.

In da Memória da Areia dos Bichos

terça-feira, 14 de julho de 2015

Fogo de Artifício

Caminham pela praia de noite e vai dizendo que aquele firmamento é o resultado de uma grande explosão. Uma explosão que ainda não acabou e de que vemos, sobrepostos, o presente e o passado.

Vai dizendo que também nós somos fragmentos dessa explosão, talvez dos mais efémeros, e que ainda assim a celebramos de uma forma ainda mais efémera, com fogo de artifício.

Ela olha para ele, sorri, e pensa - fogo de artifício.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Etoxiuq

Agora que vou vendo House of Cards e ouço as referências aos apelos ao primado da realidade vem-me à memória

Etoxiuq

Foi construindo a sua teia usando como fio as pequenezes, e as grandezas, dos homens. Fê-lo com tal precisão e minúcia que não se percebia onde acabavam umas e começavam as outras. E como a matéria de que era feita era a mesma que capturava foi ganhando o tamanho de todas as coisas.

Ao sentir aproximar-se o fim resolveu dar uma nome à sua obra. Chamou-lhe Etoxiuq e com alguma vaidade disse que era como o Mundo. Já no seu tempo alguns se atreveram a discordar dele. Diz-se que Cervantes sugeriu que poderia não ser. Para sustentar essa impressão referiu um certo cavaleiro da Mancha que afirmava não ser uma teia, mas sim um moinho, e que eram vários.

Não obstante de tudo isto ter sido informado, com a vertigem do fim, persistiu em teimar.

domingo, 5 de julho de 2015

Cairo

Agora que recebo a notícia que num bote de borracha cheio de miséria não cabem dois Deuses vem-me à memória

Cairo

Acredito nas constantes, nas repetições. E de tal forma acredito que as procuro mesmo quando lá não estão. Assim, não acredito em Deus muito para além desta débil teoria unificadora com que desejo ver o mundo. Todavia quero acreditar que a paz é a mesma.

Recordo passear no Cairo e entrar por alguns bairros com a intenção de ver como é o mundo sem esfinges nem pirâmides. Num lugar entre casas castanhas e baixas, um garoto diz-me, na língua possível de quem não fala a mesma língua, que um homem santo quer falar comigo.

Entro por uma porta. Lá dentro é fresco e escuro. Quando os olhos se habituam vejo ao fundo um homem que sorri. Com a ajuda do débil intérprete começa a falar de Deus. Diz que o meu Deus e o Deus dele não são assim tão diferentes. Que é bom ambos acreditarmos. Naquele tempo ainda não tinha pensado nas constantes e sou acometido de sinceridade. Digo-lhe, com pena, que não acredito em Deus.

Tenho à minha frente um rosto hirto com um braço estendido que me aponta a luz da rua. De novo cá fora, debaixo do sol impiedoso, continuo a caminhar por entre um amarelo acastanhado que tudo cobre.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

chip no cão

Quando haverá alguém que se revolte com o chip no cão?

Sim, dizem que é por amor. Medo de perder o animal. Mas que raio, não pode um animal que gosta de nós um dia partir, assim, sem mais nem menos, ao deus-dará, sem uma justificação, não porque não goste do dono, mas porque sim, por descuido, desleixo, ou uma partida do olfato.

Lá está a porra do chip para o trazer de volta, o entregar a quem de direito, ao amor certinho e acomodado, até que a morte os separe, o cão primeiro, claro, que até nisso os cães são os melhores amigos do homem.

Bem sei que o chip é apenas a extensão da coleira, tal como a enxada o é do braço, o polegar está na génese da ferramenta, o cão a ferramenta do afeto e blá blá blá. Mas o que é que um cão, que não tem polegar, tem a ver com isso, basta-lhe abocanhar a comida e babar-se quanto baste.

Uma extensão perfeita. Com a coleira, um puxão e vai que corre dono, arfa que gostas de mim, palpita que não me queres perder, promete-me carícias a ver se eu volto. Mas agora com a merda do chip, qual quê.

Quando haverá alguém que se revolte com o chip no cão?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

quotidiano

um triângulo com ponta de queixo     repousa sobre o retângulo branco     impassível     ausente

domingo, 8 de fevereiro de 2015

quotidiano

as linhas paralelas do banco    dispostas em ângulo acolhedor     recebem a linha quebrada    quebrada no banco     quebrada do sol

sábado, 31 de janeiro de 2015

quotidiano

um bando de linhas curvas     rola pelo chão do jardim     soltando a poeira das conversas     dando voltas sobre si mesmas     sobre o olho da espiral    fixam-se umas nas outras    evitando estontear-se     fazem avanços de recuos     de pequenas confidências     fingindo coincidir no centro     entrelaçam-se sussurrando     amalgamam-se frente ao banco     enchem enchem quase circunferências     contendo a respiração     no silêncio de um instante     agrupam-se em formação     para a fotografia     esvaiem-se de um fôlego     espirais de novo     rolam com o ar que expelem

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

quotidiano

duas linhas sentadas    ao canto de uma mesa     separadas pelo ângulo reto      olham-se de esguelha     tomam-se de razões     sorrindo     meio a brincar     meio a sério     ondulam enquanto argumentam     da terra para o ar     libertando espírito     achando-se graça     concordando     debruçam-se por simpatia     discordando     formam um v pela repulsão dos narizes     apercebem-se da descompostura     refreiam o ondular     acalmam-se     ficando de novo retilíneas     duas linhas sentadas

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

quotidiano

um quarto cheio de linhas     finas e rápidas umas     largas e pastosas outras     todas devotas do mesmo objetivo     debruçam-se sobre o puzzle     cruzam-se     experimentam os encaixes     um a um     na cegueira de quem sabe o que faz     planeando     as finas cortam as pastosas     deixando rastros da memória da interseção     teimam em recruzar-se mais à frente     na inconsequência da corrida     insistem em estar ali     num quarto cheio de riscos

domingo, 21 de dezembro de 2014

quotidiano

caminhamos guiados por fios pintalgados de brancos     de contínuas interrupções     que nos levam à forma oca de luz     luzes que ora escondem ora inventam     a árvore

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

quotidiano

o vai-vem de um pincel sem mão     um risco sobre o anterior    outro logo mais à frente     ajeita um pouco atrás     riscos que se reforçam e contradizem-se     afirmam-se e não deixam escapar nada     feitos de corridas e súbitas paragens    pairam a olhar para o seu traço     para o que ainda não está escrito     seguem e traçam a cópia

terça-feira, 18 de novembro de 2014

quotidiano

há nas interceções das linhas a vontade de as fazer coincidir      disso são feitos os encontros      mesmo que breves      têm a espessura do que foi e do que há-de vir      uma contradição entre o espaço e o tempo      aglutinam num único ponto toda a caminhada      um ponto de influxo     o borrão da paragem inesperada de canetas inebriadas no fluxo da escrita      o esgrimir das pontas traça engraçados arabescos      feitos de vontade e de hesitação      feitos de olhar para trás e para a frente      de desistência      de fôlego      as linhas presas agitam-se      convergem e divergem

18/11/2014

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

quotidiano

caminhamos ao longo da margem     junto aos pés o som abafado de um gato a beber leite de um mar tranquilizado por uma garganta de pedra     do outro lado a marginal de luz gente e cafés repete a fronteira da água apenas um pouco mais longe mais cautelosa     traçamos uma linha em suave arco de baía que se desenha da direita para a esquerda em contramão desta escrita     apressado passa um cão ainda com afazeres nesta hora já tão tardia     deixamos cair palavras soltas para marcar o ritmo do passo e ficar claro que existe gente entre o mar e a vila     redesenhamos o arco da esquerda para a direita procurando identificar na areia as peugadas que nos levaram aonde agora estamos

17/9/2014

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ainda sobre a Areia - Quinquagésimo Terceiro Dia

No quinquagésimo terceiro dia foi descoberto, entre uns velhos pertences de Mark Twain, uma solta folha de papel onde ombreavam as seguintes palavras, se emprenhares pelos ouvidos vais ter de criar a criança. Os peritos questionam-se sobre se a frase é da autoria de Mark Twain. O estilo é, talvez não o seja o verbo, mas é a sua letra direita e corrida. Mais abaixo, numa letra mais fugidia, com uma tinta que os mesmos peritos certificam ser outra, encontra-se escrito, e nunca saberás quem é o pai.

Intriga-me toda esta ocorrência. Sempre considerei Twain um anti-Pessoa, pois um escreve a vida e o outro o pensamento. Um faz-nos pensar sobre a vida, o outro diz-nos que não pensar é o seu fim último. Intriga-me, pois ouvir é não ver e depois imaginar. Um pouco como ler. Pessoa era perito em imaginar a vida, com uma precisão só possível a quem não a vive. Já Twain é o oposto.

Intriga-me, pois parece que foi escrito em duas fases, primeiro o se e depois o e. E vamos ignorar aqueles que irão com certeza alegar que primeiro terá sido escrito o e e depois o se. Eu poderia ser um deles, mas ignoremo-los.

Intriga-me porque teria Twain necessitado de acentuar algo tão evidente na promiscuidade de bocas e ouvidos. Porque se daria a esse trabalho? Ter-lhe-ia apenas ocorrido depois, ou acrescentou-o como um recalco a algum incrédulo? E se assim foi, porque o fez numa folha de papel destinada a ser lida um século mais tarde? Porque se escreve uma resposta para ninguém ler, para se guardar entre uns pertences? Intriga-me.

Por isso construo a minha própria teoria. Não foi Twain que escreveu o que Twain escreveu. Foi um heterónimo de Pessoa, Twain claro. Mas dirão que foi encontrado nos pertences de Mark Twain, com a letra de Twain. Mas o que são os pertences, e a letra, de um homem morto? Ainda assim uma teoria absurda, mas muito antes, um outro Pregador, Vieira, escreveu, se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo?

Porque toma Pessoa a vida para não pensar na vida?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ainda sobre Areia

Amo-te, mas não te tenho apego
- Jiddu Krishnamurti

Qual é a linha que que separa o Homem Santo de Don Giovanni?
Ou, porque é que Salome come, segundo Oscar Wilde, a boca da cabeça de São João Baptista servida numa bandeja?

http://www.amazon.co.uk/Areia-Ant%C3%B3nio-Rito-Silva/dp/1497426529

domingo, 27 de abril de 2014

Areia - novo livro




O Prefácio de Areia (www.amazon.co.uk/Areia-António-Rito-Silva/dp/1497426529)

Amo-te, mas não te tenho apego. Qual é a linha que que separa o Homem Santo de Don Giovanni?

Começou este livro por ser sobre pontos, linhas e curvas. O desejo de um universo sem a gordura dos sentimentos. Ambos, livro e universo, feitos de uma geometria abstrata povoada de súbitas formas em dias concretos onde tudo é construído com palavras.

Tudo começou entre o primeiro e o segundo dia, quando me distraí a observar rectângulos, janelas e pontos. No primeiro dia, Borges induziu-me a imaginar um ano infinito. Entre o primeiro e o segundo, num instante de silêncio, dei comigo, numa noite fria e seca de inverno, a observar os prédios onde ao longe se continuavam a acender e a apagar luzes, embora o natal já não fosse. Estranhei a existência de vida por entre as formas. Questionei-me até onde poderia observar a vida como geometria, apenas fibra, sem a gordura.

Não fui bem sucedido. Houve um momento que resvalei e voltei à gordura dos sentimentos. Aí, talvez por não saber perder, escrevi um dia escorregadio de sensações. Em vão o tentei projetar na geometria do ano da areia.

Há assim neste livro um dia e um ano, e ambos têm a mesma dimensão.

quarta-feira, 23 de abril de 2014