Agora que recebo a notícia que num bote de borracha cheio de miséria não cabem dois Deuses vem-me à memória
Cairo
Acredito nas constantes, nas repetições. E de tal forma acredito que as procuro mesmo quando lá não estão. Assim, não acredito em Deus muito para além desta débil teoria unificadora com que desejo ver o mundo. Todavia quero acreditar que a paz é a mesma.
Recordo passear no Cairo e entrar por alguns bairros com a intenção de ver como é o mundo sem esfinges nem pirâmides. Num lugar entre casas castanhas e baixas, um garoto diz-me, na língua possível de quem não fala a mesma língua, que um homem santo quer falar comigo.
Entro por uma porta. Lá dentro é fresco e escuro. Quando os olhos se habituam vejo ao fundo um homem que sorri. Com a ajuda do débil intérprete começa a falar de Deus. Diz que o meu Deus e o Deus dele não são assim tão diferentes. Que é bom ambos acreditarmos. Naquele tempo ainda não tinha pensado nas constantes e sou acometido de sinceridade. Digo-lhe, com pena, que não acredito em Deus.
Tenho à minha frente um rosto hirto com um braço estendido que me aponta a luz da rua. De novo cá fora, debaixo do sol impiedoso, continuo a caminhar por entre um amarelo acastanhado que tudo cobre.
domingo, 5 de julho de 2015
quinta-feira, 28 de maio de 2015
chip no cão
Quando haverá alguém que se revolte com o chip no cão?
Sim, dizem que é por amor. Medo de perder o animal. Mas que raio, não pode um animal que gosta de nós um dia partir, assim, sem mais nem menos, ao deus-dará, sem uma justificação, não porque não goste do dono, mas porque sim, por descuido, desleixo, ou uma partida do olfato.
Lá está a porra do chip para o trazer de volta, o entregar a quem de direito, ao amor certinho e acomodado, até que a morte os separe, o cão primeiro, claro, que até nisso os cães são os melhores amigos do homem.
Bem sei que o chip é apenas a extensão da coleira, tal como a enxada o é do braço, o polegar está na génese da ferramenta, o cão a ferramenta do afeto e blá blá blá. Mas o que é que um cão, que não tem polegar, tem a ver com isso, basta-lhe abocanhar a comida e babar-se quanto baste.
Uma extensão perfeita. Com a coleira, um puxão e vai que corre dono, arfa que gostas de mim, palpita que não me queres perder, promete-me carícias a ver se eu volto. Mas agora com a merda do chip, qual quê.
Quando haverá alguém que se revolte com o chip no cão?
quarta-feira, 8 de abril de 2015
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
domingo, 8 de fevereiro de 2015
quotidiano
as linhas paralelas do banco dispostas em ângulo acolhedor recebem a linha quebrada quebrada no banco quebrada do sol
sábado, 31 de janeiro de 2015
quotidiano
um bando de linhas curvas rola pelo chão do jardim soltando a poeira das conversas dando voltas sobre si mesmas sobre o olho da espiral fixam-se umas nas outras evitando estontear-se fazem avanços de recuos de pequenas confidências fingindo coincidir no centro entrelaçam-se sussurrando amalgamam-se frente ao banco enchem enchem quase circunferências contendo a respiração no silêncio de um instante agrupam-se em formação para a fotografia esvaiem-se de um fôlego espirais de novo rolam com o ar que expelem
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
quotidiano
duas linhas sentadas ao canto de uma mesa separadas pelo ângulo reto olham-se de esguelha tomam-se de razões sorrindo meio a brincar meio a sério ondulam enquanto argumentam da terra para o ar libertando espírito achando-se graça concordando debruçam-se por simpatia discordando formam um v pela repulsão dos narizes apercebem-se da descompostura refreiam o ondular acalmam-se ficando de novo retilíneas duas linhas sentadas
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
quotidiano
um quarto cheio de linhas finas e rápidas umas largas e pastosas outras todas devotas do mesmo objetivo debruçam-se sobre o puzzle cruzam-se experimentam os encaixes um a um na cegueira de quem sabe o que faz planeando as finas cortam as pastosas deixando rastros da memória da interseção teimam em recruzar-se mais à frente na inconsequência da corrida insistem em estar ali num quarto cheio de riscos
domingo, 21 de dezembro de 2014
quotidiano
caminhamos guiados por fios pintalgados de brancos de contínuas interrupções que nos levam à forma oca de luz luzes que ora escondem ora inventam a árvore
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
quotidiano
o vai-vem de um pincel sem mão um risco sobre o anterior outro logo mais à frente ajeita um pouco atrás riscos que se reforçam e contradizem-se afirmam-se e não deixam escapar nada feitos de corridas e súbitas paragens pairam a olhar para o seu traço para o que ainda não está escrito seguem e traçam a cópia
terça-feira, 18 de novembro de 2014
quotidiano
há nas interceções das linhas a vontade de as fazer coincidir disso são feitos os encontros mesmo que breves têm a espessura do que foi e do que há-de vir uma contradição entre o espaço e o tempo aglutinam num único ponto toda a caminhada um ponto de influxo o borrão da paragem inesperada de canetas inebriadas no fluxo da escrita o esgrimir das pontas traça engraçados arabescos feitos de vontade e de hesitação feitos de olhar para trás e para a frente de desistência de fôlego as linhas presas agitam-se convergem e divergem
18/11/2014
18/11/2014
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
quotidiano
caminhamos ao longo da margem junto aos pés o som abafado de um gato a beber leite de um mar tranquilizado por uma garganta de pedra do outro lado a marginal de luz gente e cafés repete a fronteira da água apenas um pouco mais longe mais cautelosa traçamos uma linha em suave arco de baía que se desenha da direita para a esquerda em contramão desta escrita apressado passa um cão ainda com afazeres nesta hora já tão tardia deixamos cair palavras soltas para marcar o ritmo do passo e ficar claro que existe gente entre o mar e a vila redesenhamos o arco da esquerda para a direita procurando identificar na areia as peugadas que nos levaram aonde agora estamos
17/9/2014
terça-feira, 27 de maio de 2014
Ainda sobre a Areia - Quinquagésimo Terceiro Dia
No quinquagésimo terceiro dia foi descoberto, entre
uns velhos pertences de Mark Twain, uma solta folha de papel onde ombreavam as
seguintes palavras, se emprenhares pelos ouvidos vais ter de criar a criança.
Os peritos questionam-se sobre se a frase é da autoria de Mark Twain. O estilo
é, talvez não o seja o verbo, mas é a sua letra direita e corrida. Mais abaixo,
numa letra mais fugidia, com uma tinta que os mesmos peritos certificam ser outra,
encontra-se escrito, e nunca saberás quem é o pai.
Intriga-me toda esta ocorrência. Sempre considerei
Twain um anti-Pessoa, pois um escreve a vida e o outro o pensamento. Um faz-nos
pensar sobre a vida, o outro diz-nos que não pensar é o seu fim último.
Intriga-me, pois ouvir é não ver e depois imaginar. Um pouco como ler. Pessoa
era perito em imaginar a vida, com uma precisão só possível a quem não a vive.
Já Twain é o oposto.
Intriga-me, pois parece que foi escrito em duas
fases, primeiro o se e depois o e. E vamos ignorar aqueles
que irão com certeza alegar que primeiro terá sido escrito o e e depois
o se. Eu poderia ser um deles, mas ignoremo-los.
Intriga-me porque teria Twain necessitado de
acentuar algo tão evidente na promiscuidade de bocas e ouvidos. Porque se daria
a esse trabalho? Ter-lhe-ia apenas ocorrido depois, ou acrescentou-o como um
recalco a algum incrédulo? E se assim foi, porque o fez numa folha de papel
destinada a ser lida um século mais tarde? Porque se escreve uma resposta para
ninguém ler, para se guardar entre uns pertences? Intriga-me.
Por isso construo a minha própria teoria. Não foi
Twain que escreveu o que Twain escreveu. Foi um heterónimo de Pessoa, Twain
claro. Mas dirão que foi encontrado nos pertences de Mark Twain, com a letra de
Twain. Mas o que são os pertences, e a letra, de um homem morto? Ainda assim
uma teoria absurda, mas muito antes, um outro Pregador, Vieira, escreveu, se
Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a
Escritura para tentar a Cristo?
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Ainda sobre Areia
Amo-te, mas não te tenho apego
- Jiddu Krishnamurti
Qual é a linha que que separa o Homem Santo de Don Giovanni?
Ou, porque é que Salome come, segundo Oscar Wilde, a boca da cabeça de São João Baptista servida numa bandeja?
http://www.amazon.co.uk/Areia-Ant%C3%B3nio-Rito-Silva/dp/1497426529
- Jiddu Krishnamurti
Qual é a linha que que separa o Homem Santo de Don Giovanni?
Ou, porque é que Salome come, segundo Oscar Wilde, a boca da cabeça de São João Baptista servida numa bandeja?
http://www.amazon.co.uk/Areia-Ant%C3%B3nio-Rito-Silva/dp/1497426529
domingo, 27 de abril de 2014
Areia - novo livro
O Prefácio de Areia (www.amazon.co.uk/Areia-António-Rito-Silva/dp/1497426529)
Amo-te, mas não te tenho apego. Qual é a linha que que separa o Homem Santo de Don Giovanni?
Começou este livro por ser sobre pontos, linhas e curvas. O desejo de um universo sem a gordura dos sentimentos. Ambos, livro e universo, feitos de uma geometria abstrata povoada de súbitas formas em dias concretos onde tudo é construído com palavras.
Tudo começou entre o primeiro e o segundo dia, quando me distraí a observar rectângulos, janelas e pontos. No primeiro dia, Borges induziu-me a imaginar um ano infinito. Entre o primeiro e o segundo, num instante de silêncio, dei comigo, numa noite fria e seca de inverno, a observar os prédios onde ao longe se continuavam a acender e a apagar luzes, embora o natal já não fosse. Estranhei a existência de vida por entre as formas. Questionei-me até onde poderia observar a vida como geometria, apenas fibra, sem a gordura.
Não fui bem sucedido. Houve um momento que resvalei e voltei à gordura dos sentimentos. Aí, talvez por não saber perder, escrevi um dia escorregadio de sensações. Em vão o tentei projetar na geometria do ano da areia.
Há assim neste livro um dia e um ano, e ambos têm a mesma dimensão.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
domingo, 20 de abril de 2014
How Venice became a museum
http://www.beereads.com/why-nations-fail-daron-acemoglu?page=0,66
HE GROUP OF ISLANDS that form Venice lie at the far north of the Adriatic Sea. In the Middle Ages, Venice was possibly the richest place in the world, with the most advanced set of inclusive economic institutions underpinned by nascent political inclusiveness. It gained its independence in AD 810, at what turned out to be a fortuitous time. The economy of Europe was recovering from the decline it had suffered as the Roman Empire collapsed, and kings such as Charlemagne were reconstituting strong central political power. This led to stability, greater security, and an expansion of trade, which Venice was in a unique position to take advantage of. It was a nation of seafarers, placed right in the middle of the Mediterranean. From the East came spices, Byzantine-manufactured goods, and slaves. Venice became rich. By 1050, when Venice had already been expanding economically for at least a century, it had a population of 45,000 people. This increased by more than 50 percent, to 70,000, by 1200. By 1330 the population had again increased by another 50 percent, to 110,000; Venice was then as big as Paris, and probably three times the size of London.
One of the key bases for the economic expansion of Venice was a series of contractual innovations making economic institutions much more inclusive...
http://www.beereads.com/why-nations-fail-daron-acemoglu?page=0,66
HE GROUP OF ISLANDS that form Venice lie at the far north of the Adriatic Sea. In the Middle Ages, Venice was possibly the richest place in the world, with the most advanced set of inclusive economic institutions underpinned by nascent political inclusiveness. It gained its independence in AD 810, at what turned out to be a fortuitous time. The economy of Europe was recovering from the decline it had suffered as the Roman Empire collapsed, and kings such as Charlemagne were reconstituting strong central political power. This led to stability, greater security, and an expansion of trade, which Venice was in a unique position to take advantage of. It was a nation of seafarers, placed right in the middle of the Mediterranean. From the East came spices, Byzantine-manufactured goods, and slaves. Venice became rich. By 1050, when Venice had already been expanding economically for at least a century, it had a population of 45,000 people. This increased by more than 50 percent, to 70,000, by 1200. By 1330 the population had again increased by another 50 percent, to 110,000; Venice was then as big as Paris, and probably three times the size of London.
One of the key bases for the economic expansion of Venice was a series of contractual innovations making economic institutions much more inclusive...
http://www.beereads.com/why-nations-fail-daron-acemoglu?page=0,66
domingo, 30 de março de 2014
Areia - Manducar
Dia 8 de Abril será publicado o meu novo livro, Areia.
Construído à volta da dicotomia geometria-emoção, aqui fica um dos seus dois Manducares, o Maducar-emoção para aguçar o apetite.
MANDUCAR
Sem ninguém ao volante, o carro carambola nas curvas. Fernando está sentado no banco detrás e sente na barriga as voltas do volante solto. O homem sentado a seu lado tem uma forma de Dragão.
— Sabes, — diz o Dragão — creio que não vai ninguém a conduzir o carro. — Enquanto fala a sua boca cospe uma chispa ondulante, como a chama-piloto de um esquentador.
É de noite. A estrada é labiríntica. Os faróis do carro vão iluminando casas de pedra nua que se atravessam à frente.
— Vamos bater, vamos bater. — Avisa o Dragão, como que o chamando à responsabilidade.
Do banco traseiro, Fernando procura conduzir o carro como se fosse uma bicicleta, inclinado-se para um lado e para o outro.
— Assim não vai funcionar. Vamos estampar-nos de encontro a uma dessas casas. — Ironiza o bicho.
Agarrando-se às costas do assento da frente, Fernando dá uma cambalhota entre o banco traseiro e o assento do condutor. Quando se senta ao volante o Dragão também já está no banco ao seu lado.
— Tu és capaz. Tu és capaz. — Diz-lhe com uma voz de desenhos animados, quase carinhosa, como que a dar força. — Pega no volante e tira-nos daqui.
Fernando gira o volante e o carro vira no sentido oposto, escapando miraculosamente de bater nas casas. Gira de novo e segue em direção oposta à pretendida, falhando por um triz uma parede de pedra.
— Onde tiraste a carta? — Pergunta-lhe com uma calma curiosa nos olhos. — Não me digas que foi na farinha Amparo… — e desata às gargalhadas, satisfeito consigo mesmo. Nesse instante o carro dá uma pirueta e quando o Fernando regressa ao assento também lá está sentado o Dragão. O corpo contrai-se-lhe ao contacto com este ser rijo e disforme.
— Não tenhas medo, sou só um Dragão. Sei que desejas não estar aqui, mas temos que conversar.
Quando de novo agarra o volante ele escalda. Solta-o imediatamente e ao procurar arrefecer as mãos encontra a crosta do Dragão sobre o qual está sentado. Ele sorri e diz.
— Sabes, não é o volante que escalda, são as tuas mãos que estão geladas, tal como as minhas escamas.
Ao prestar atenção ao Dragão o carro começa a despenhar-se pelo labirinto, como se de um precipício se tratasse. Resignado, Fernando pergunta-se como é possível haver fogo num ser gelado. Mas parece que ele lhe lê o pensamento.
— Sou tão quente. Não precisas de pedir.
Surpreende-se e vira-se de repente. Não é necessário voltar a cabeça totalmente. No banco ao lado está a Graça. Carrega com força com as mãos nas pernas do Dragão, como que para acordar de um pesadelo, mas o que sente é o macio do assento. A Graça abre a boca mostrando o piercing implantado no meio da língua enquanto diz.
— Olá.
Já não via a Graça há algum tempo. Que raio está ela a fazer aqui? Para onde terá ido o Dragão?
— Olá — repete a Graça.
É uma miúda gira a Graça, pensa Fernando, e recorda o corpo pequeno e firme que adivinha dentro da blusa lilás que traz vestida.
— Long time no see! — Diz-lhe ela com ar maroto.
Fernando sente-se baralhado. Olha através do para-brisas e vê que o carro cavalga por ali abaixo, no vazio, totalmente fora de controlo. Surpreende-se com a indolência que se apodera do corpo. Sem pensar, deixa-se enrolar pelas piruetas. A Graça fala sem parar mas não consegue prestar atenção no que ela diz. Vai tomando várias formas à sua frente. É uma gelatina que se espalha pelo carro e se reagrupa. Por vezes julga ver a chispa do Dragão no língua de Graça que ondula incessantemente. Fecha os olhos.
Sente-se quente. Abre os olhos com intenção de saber onde vai cair mas só vê o remoinho formado pelo carro. Tem a Graça ao colo quando um forte impacto faz saltar tudo à volta. Há um líquido que amortece o choque e retorna o carro com gentileza à superfície.
Olha em volta e está sozinho. Nem sinal da Graça ou do Dragão. Percorre com o olhar a superfície da água. O tejadilho do carro meio afundado impede-o de ver mais do que uma pequena tira. Aí abundam pequenas cabeças que incessantemente perscrutam o horizonte. De repente, dá por um peixe de olhos esbugalhados do lado de fora do carro, mesmo ao lado dele. Abre uma boca de dentes afiados e parece que ri enquanto o abocanha através o vidro da porta. Sente-se a ser devorado, triturado pouco a pouco. O corpo vai-se partindo em pedaços. Quando finalmente se entrega ao seu fim ouve uma voz que o enche de paz.
— A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros.
Incrédulo, abre os olhos. Ao fundo, num micro mundo plano feito de uns poucos centímetros acima do topo da água, está uma pequena figura de Santo António com as suas vestes castanhas, a corda pendurada e a criança ao colo. Centenas de peixes bóiam na água e olham para a imagem que baloiça.
— Comeis-vos uns aos outros. — Repete o Santo, chamando mais peixes à superfície.
Há peixes que começam a chorar desalmadamente. Batem com raiva com as barbatanas no peito e ferem-se com os seus próprios dentes. Impassível o Santo continua.
— Sei que estais aqui para saciar o vosso apetite.
O clamor redobra de intensidade. Alguns peixes tentam arrancar-se à água mas batem no baixo céu e voltam a mergulhar com violência, ensanguentados. Entre eles identifica aquele que o tragou. Chora tão boquiaberto como os restantes. Sente um arrepio e procura ver se ainda há restos de si na boca do peixe. Fernando interroga-se se porventura terá sido comido. Os peixes começam a nadar de lado em volta de Santo António, com a cabeça e uma das barbatanas fora de água, como se numa procissão. O Santo continua.
— E achais que depois de o saciar nunca mais o voltareis a ter?
Fernando, o que foi comido, começa a chorar. As lágrimas saem da água, sobem-lhe pelos olhos, e aglutinam-se no teto do carro. Junto a ele passa agora o peixe que o comeu. Diz-lhe que não foi apetite mas sim a vaidade dos dentes que o abocanharam. Abraçam-se com compaixão. Mais peixes vão trocando abraços na sua caminhada em redor do Santo, encontram-se, abraçam-se e prosseguem.
A figura do Santo começa a desfazer-se pela chuva de lágrimas. Primeiro as roupas perdem a cor e tingem a água que se acumula no teto com um forte castanho. O menino desaparece-lhe dos braços e de seguida o próprio Santo se desvanece na cortina de água que escorre para o céu.
Fernando é empurrado pela água das suas lágrimas que se cumulou no teto do carro e agora tomba sobre ele com o desaparecimento do Santo. Num turbilhão aproveita as pequenas bolhas que passam para respirar. Com ele vão os outros peixes que voltam a desfilar a vaidade dos afiados dentes. Dentes das mais variadas formas, longos ou curtos, direitos ou retorcidos, sempre afiados. Nas voltas vai passando por entre eles, escapando sempre por um triz a ser despedaçado. Acaba por se habituar às piruetas e vai saltando entre peixes agarrando-se aos seus dentes. Os peixes, esses, perdem alguma da sua dignidade quando giram sobre os seus magníficos dentes. Vai-se sentindo mais divertido, especialmente com os dentes helicoidais que lhe dão mais velocidade. Os peixes bem tentam abocanhá-lo mas ele sente-se ágil e atira-se por entre dentes.
Um refluxo súbito de água baralha-lhe os movimentos e fá-lo entrar pela boca de um enorme peixe também em desequilíbrio. Lá dentro há um calor que contrasta com o frio húmido de fora. Sob uma luz ténue vê um pequeno peixe, companheiro de infortúnio.
— Senta-te — diz-lhe ele.
Tem um ar franzino que lhe lembra alguém.
— Não te preocupes, nem se está mal aqui — diz-lhe como que para o tranquilizar — o nosso hospedeiro toma conta de nós. Do que engole, algumas coisas comem-se e com as outras faz-se amizade — justifica, e ri desalmadamente.
Não pode deixar de engraçar com este pequeno ser. Em qualquer lado há alguém que está bem, pensa.
— Claro que para fazer amizade é também necessário que não nos comam, — Diz pensativo, como que filosofando — mas também já vi que tu não és dos que tens mais olhos que barriga. — Continua.
É ligeiramente prateado. Tem um óculos redondos que se prendem por altura das guelras e não é, definitivamente, do género de despertar apetites.
— Come que deves estar com apetite.
Oferece-lhe uma pequena amêijoa à bulhão pato que se não fosse pela falta de limão estaria perfeita. A bem do súbito companheirismo nada comenta e sorve a amêijoa com satisfação.
— Sabes, — diz ele não o deixando falar, seguro da amizade criada na partilha da amêijoa — Se não fosse pela falta de limão estaria perfeita, mas foi assim que aqui chegou. — Justificou-se. — Era meia dose e essa era a última. — Remata como que a enaltecer o valor que dá à amizade.
O sabor da amêijoa reforça-lhe a impressão inicial de este peixe lhe recordar alguém. Puxa pela memória mas não lhe ocorre quem poderá ser. Talvez seja só a memória de uma memória, pensa. Não tem o hábito de falar com peixes.
— Recordas-me alguém. — Atira-lhe o peixe à cara.
Quando se prepara para o esclarecer entra um peixe maior que imediatamente o traga. Tem uns olhos tão afiados quanto os dentes.
— Queres ser meu amigo? — Começa ele a matar.
Estas circunstâncias também propiciam amizades, pensa o Fernando enquanto cautelosamente vai dando pequenos passos a trás. Ocorre-lhe que a qualquer momento este peixe se poderá transformar na Graça ou no Dragão.
— Ele era teu amigo? — Questiona. — Era inesperadamente saboroso, devia ter uma vida requintada, ser daqueles que gostam de desfrutar das pequenas coisas da vida. — Diz, procurando estabelecer contado através da primeira coisa que encontra em comum.
— Sabes, posso-te contar sobre ele coisas que nunca poderias vir a saber. Especialmente agora que partiu. — Diz ele forçando a amizade.
Fernando sente que este peixe sofre de solidão. Talvez sobreviva a se equilibrar entre a fraqueza do apetite e a necessidade de companhia. Não diferirá muito daquele que comeu, apenas que o outro era do estilo bon vivant, um pouco gourmet.
— Não somos muito diferentes. Eu também adoro amêijoas. Uma vez tive uma que era muito minha amiga, a Noémia — Humedecem-lhe os cantos dos olhos pontiagudos
A constatação que há em todos os seres apetite e uma gigantesca vontade de amar, faz com que Fernando deixe de recuar.
— Somos todos iguais. Aqui andamos transformando o acaso em comida ou amor. E qual é a diferença? Nenhuma. Sempre o mesmo apego, o apego que nos traz no mundo. Posso-te falar da Noémia e deste pequeno de óculos que acabei de tragar e se não os nomear tu não saberás de quem estou a falar. E a qualquer um assentará o que disser, pois somos todos iguais. A Noémia também era uma mulher de apetites que gostava de conversar. Sei que às vezes somos diferentes, mas isso é quando queremos, quando não queremos somos iguais.
Ocorre a Fernando se esta última frase terá algum um sentido metafísico, mas o peixe continua.
— Em todos nós a mesma questão: o que comer, o que amar? Uma vez um peixe disse-me, quando percebeu que o ia comer: ser ou não ser, eis a questão. Coitado, não disse mais nada, como andava enganado, às voltas com o apego, que até no fim fingiu que não tinha apego. Essa não é a questão, a questão é vou-te comer ou vou-te amar. Essa sim é a questão. — Está agora lavado em lágrimas.
Fernando está surpreendido. Sente que este peixe pensou a sério neste problema. Que teve ter chegado a uma conclusão. Entusiasma-se com a possibilidade de ele lhe a poder revelar, de finalmente perceber toda esta inverosímil história porque está a passar. O Dragão, a Graça, o Santo António, o peixe de óculos, este peixe sábio, todos eles devem fazer um sentido. Esse sentido está neste peixe que já não parece ter dentes e olhos afiados. Fernando entrega-se para receber a verdade.
— Deves estar a pensar a que conclusão cheguei. Estão errados os que separam o apetite do amor do amor ao apetite. Qualquer um deles, quando só, deixa-nos sós. Os dois juntos também.
O peixe olha para Fernando com uma profunda tristeza enquanto se aproxima dele. Quando finalmente percebe que vai ser comido, Fernando procura algumas palavras para dizer, tal como no banco detrás do automóvel procurava conduzir.
Subitamente, Fernando acorda estremunhado.
Construído à volta da dicotomia geometria-emoção, aqui fica um dos seus dois Manducares, o Maducar-emoção para aguçar o apetite.
MANDUCAR
Sem ninguém ao volante, o carro carambola nas curvas. Fernando está sentado no banco detrás e sente na barriga as voltas do volante solto. O homem sentado a seu lado tem uma forma de Dragão.
— Sabes, — diz o Dragão — creio que não vai ninguém a conduzir o carro. — Enquanto fala a sua boca cospe uma chispa ondulante, como a chama-piloto de um esquentador.
É de noite. A estrada é labiríntica. Os faróis do carro vão iluminando casas de pedra nua que se atravessam à frente.
— Vamos bater, vamos bater. — Avisa o Dragão, como que o chamando à responsabilidade.
Do banco traseiro, Fernando procura conduzir o carro como se fosse uma bicicleta, inclinado-se para um lado e para o outro.
— Assim não vai funcionar. Vamos estampar-nos de encontro a uma dessas casas. — Ironiza o bicho.
Agarrando-se às costas do assento da frente, Fernando dá uma cambalhota entre o banco traseiro e o assento do condutor. Quando se senta ao volante o Dragão também já está no banco ao seu lado.
— Tu és capaz. Tu és capaz. — Diz-lhe com uma voz de desenhos animados, quase carinhosa, como que a dar força. — Pega no volante e tira-nos daqui.
Fernando gira o volante e o carro vira no sentido oposto, escapando miraculosamente de bater nas casas. Gira de novo e segue em direção oposta à pretendida, falhando por um triz uma parede de pedra.
— Onde tiraste a carta? — Pergunta-lhe com uma calma curiosa nos olhos. — Não me digas que foi na farinha Amparo… — e desata às gargalhadas, satisfeito consigo mesmo. Nesse instante o carro dá uma pirueta e quando o Fernando regressa ao assento também lá está sentado o Dragão. O corpo contrai-se-lhe ao contacto com este ser rijo e disforme.
— Não tenhas medo, sou só um Dragão. Sei que desejas não estar aqui, mas temos que conversar.
Quando de novo agarra o volante ele escalda. Solta-o imediatamente e ao procurar arrefecer as mãos encontra a crosta do Dragão sobre o qual está sentado. Ele sorri e diz.
— Sabes, não é o volante que escalda, são as tuas mãos que estão geladas, tal como as minhas escamas.
Ao prestar atenção ao Dragão o carro começa a despenhar-se pelo labirinto, como se de um precipício se tratasse. Resignado, Fernando pergunta-se como é possível haver fogo num ser gelado. Mas parece que ele lhe lê o pensamento.
— Sou tão quente. Não precisas de pedir.
Surpreende-se e vira-se de repente. Não é necessário voltar a cabeça totalmente. No banco ao lado está a Graça. Carrega com força com as mãos nas pernas do Dragão, como que para acordar de um pesadelo, mas o que sente é o macio do assento. A Graça abre a boca mostrando o piercing implantado no meio da língua enquanto diz.
— Olá.
Já não via a Graça há algum tempo. Que raio está ela a fazer aqui? Para onde terá ido o Dragão?
— Olá — repete a Graça.
É uma miúda gira a Graça, pensa Fernando, e recorda o corpo pequeno e firme que adivinha dentro da blusa lilás que traz vestida.
— Long time no see! — Diz-lhe ela com ar maroto.
Fernando sente-se baralhado. Olha através do para-brisas e vê que o carro cavalga por ali abaixo, no vazio, totalmente fora de controlo. Surpreende-se com a indolência que se apodera do corpo. Sem pensar, deixa-se enrolar pelas piruetas. A Graça fala sem parar mas não consegue prestar atenção no que ela diz. Vai tomando várias formas à sua frente. É uma gelatina que se espalha pelo carro e se reagrupa. Por vezes julga ver a chispa do Dragão no língua de Graça que ondula incessantemente. Fecha os olhos.
Sente-se quente. Abre os olhos com intenção de saber onde vai cair mas só vê o remoinho formado pelo carro. Tem a Graça ao colo quando um forte impacto faz saltar tudo à volta. Há um líquido que amortece o choque e retorna o carro com gentileza à superfície.
Olha em volta e está sozinho. Nem sinal da Graça ou do Dragão. Percorre com o olhar a superfície da água. O tejadilho do carro meio afundado impede-o de ver mais do que uma pequena tira. Aí abundam pequenas cabeças que incessantemente perscrutam o horizonte. De repente, dá por um peixe de olhos esbugalhados do lado de fora do carro, mesmo ao lado dele. Abre uma boca de dentes afiados e parece que ri enquanto o abocanha através o vidro da porta. Sente-se a ser devorado, triturado pouco a pouco. O corpo vai-se partindo em pedaços. Quando finalmente se entrega ao seu fim ouve uma voz que o enche de paz.
— A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros.
Incrédulo, abre os olhos. Ao fundo, num micro mundo plano feito de uns poucos centímetros acima do topo da água, está uma pequena figura de Santo António com as suas vestes castanhas, a corda pendurada e a criança ao colo. Centenas de peixes bóiam na água e olham para a imagem que baloiça.
— Comeis-vos uns aos outros. — Repete o Santo, chamando mais peixes à superfície.
Há peixes que começam a chorar desalmadamente. Batem com raiva com as barbatanas no peito e ferem-se com os seus próprios dentes. Impassível o Santo continua.
— Sei que estais aqui para saciar o vosso apetite.
O clamor redobra de intensidade. Alguns peixes tentam arrancar-se à água mas batem no baixo céu e voltam a mergulhar com violência, ensanguentados. Entre eles identifica aquele que o tragou. Chora tão boquiaberto como os restantes. Sente um arrepio e procura ver se ainda há restos de si na boca do peixe. Fernando interroga-se se porventura terá sido comido. Os peixes começam a nadar de lado em volta de Santo António, com a cabeça e uma das barbatanas fora de água, como se numa procissão. O Santo continua.
— E achais que depois de o saciar nunca mais o voltareis a ter?
Fernando, o que foi comido, começa a chorar. As lágrimas saem da água, sobem-lhe pelos olhos, e aglutinam-se no teto do carro. Junto a ele passa agora o peixe que o comeu. Diz-lhe que não foi apetite mas sim a vaidade dos dentes que o abocanharam. Abraçam-se com compaixão. Mais peixes vão trocando abraços na sua caminhada em redor do Santo, encontram-se, abraçam-se e prosseguem.
A figura do Santo começa a desfazer-se pela chuva de lágrimas. Primeiro as roupas perdem a cor e tingem a água que se acumula no teto com um forte castanho. O menino desaparece-lhe dos braços e de seguida o próprio Santo se desvanece na cortina de água que escorre para o céu.
Fernando é empurrado pela água das suas lágrimas que se cumulou no teto do carro e agora tomba sobre ele com o desaparecimento do Santo. Num turbilhão aproveita as pequenas bolhas que passam para respirar. Com ele vão os outros peixes que voltam a desfilar a vaidade dos afiados dentes. Dentes das mais variadas formas, longos ou curtos, direitos ou retorcidos, sempre afiados. Nas voltas vai passando por entre eles, escapando sempre por um triz a ser despedaçado. Acaba por se habituar às piruetas e vai saltando entre peixes agarrando-se aos seus dentes. Os peixes, esses, perdem alguma da sua dignidade quando giram sobre os seus magníficos dentes. Vai-se sentindo mais divertido, especialmente com os dentes helicoidais que lhe dão mais velocidade. Os peixes bem tentam abocanhá-lo mas ele sente-se ágil e atira-se por entre dentes.
Um refluxo súbito de água baralha-lhe os movimentos e fá-lo entrar pela boca de um enorme peixe também em desequilíbrio. Lá dentro há um calor que contrasta com o frio húmido de fora. Sob uma luz ténue vê um pequeno peixe, companheiro de infortúnio.
— Senta-te — diz-lhe ele.
Tem um ar franzino que lhe lembra alguém.
— Não te preocupes, nem se está mal aqui — diz-lhe como que para o tranquilizar — o nosso hospedeiro toma conta de nós. Do que engole, algumas coisas comem-se e com as outras faz-se amizade — justifica, e ri desalmadamente.
Não pode deixar de engraçar com este pequeno ser. Em qualquer lado há alguém que está bem, pensa.
— Claro que para fazer amizade é também necessário que não nos comam, — Diz pensativo, como que filosofando — mas também já vi que tu não és dos que tens mais olhos que barriga. — Continua.
É ligeiramente prateado. Tem um óculos redondos que se prendem por altura das guelras e não é, definitivamente, do género de despertar apetites.
— Come que deves estar com apetite.
Oferece-lhe uma pequena amêijoa à bulhão pato que se não fosse pela falta de limão estaria perfeita. A bem do súbito companheirismo nada comenta e sorve a amêijoa com satisfação.
— Sabes, — diz ele não o deixando falar, seguro da amizade criada na partilha da amêijoa — Se não fosse pela falta de limão estaria perfeita, mas foi assim que aqui chegou. — Justificou-se. — Era meia dose e essa era a última. — Remata como que a enaltecer o valor que dá à amizade.
O sabor da amêijoa reforça-lhe a impressão inicial de este peixe lhe recordar alguém. Puxa pela memória mas não lhe ocorre quem poderá ser. Talvez seja só a memória de uma memória, pensa. Não tem o hábito de falar com peixes.
— Recordas-me alguém. — Atira-lhe o peixe à cara.
Quando se prepara para o esclarecer entra um peixe maior que imediatamente o traga. Tem uns olhos tão afiados quanto os dentes.
— Queres ser meu amigo? — Começa ele a matar.
Estas circunstâncias também propiciam amizades, pensa o Fernando enquanto cautelosamente vai dando pequenos passos a trás. Ocorre-lhe que a qualquer momento este peixe se poderá transformar na Graça ou no Dragão.
— Ele era teu amigo? — Questiona. — Era inesperadamente saboroso, devia ter uma vida requintada, ser daqueles que gostam de desfrutar das pequenas coisas da vida. — Diz, procurando estabelecer contado através da primeira coisa que encontra em comum.
— Sabes, posso-te contar sobre ele coisas que nunca poderias vir a saber. Especialmente agora que partiu. — Diz ele forçando a amizade.
Fernando sente que este peixe sofre de solidão. Talvez sobreviva a se equilibrar entre a fraqueza do apetite e a necessidade de companhia. Não diferirá muito daquele que comeu, apenas que o outro era do estilo bon vivant, um pouco gourmet.
— Não somos muito diferentes. Eu também adoro amêijoas. Uma vez tive uma que era muito minha amiga, a Noémia — Humedecem-lhe os cantos dos olhos pontiagudos
A constatação que há em todos os seres apetite e uma gigantesca vontade de amar, faz com que Fernando deixe de recuar.
— Somos todos iguais. Aqui andamos transformando o acaso em comida ou amor. E qual é a diferença? Nenhuma. Sempre o mesmo apego, o apego que nos traz no mundo. Posso-te falar da Noémia e deste pequeno de óculos que acabei de tragar e se não os nomear tu não saberás de quem estou a falar. E a qualquer um assentará o que disser, pois somos todos iguais. A Noémia também era uma mulher de apetites que gostava de conversar. Sei que às vezes somos diferentes, mas isso é quando queremos, quando não queremos somos iguais.
Ocorre a Fernando se esta última frase terá algum um sentido metafísico, mas o peixe continua.
— Em todos nós a mesma questão: o que comer, o que amar? Uma vez um peixe disse-me, quando percebeu que o ia comer: ser ou não ser, eis a questão. Coitado, não disse mais nada, como andava enganado, às voltas com o apego, que até no fim fingiu que não tinha apego. Essa não é a questão, a questão é vou-te comer ou vou-te amar. Essa sim é a questão. — Está agora lavado em lágrimas.
Fernando está surpreendido. Sente que este peixe pensou a sério neste problema. Que teve ter chegado a uma conclusão. Entusiasma-se com a possibilidade de ele lhe a poder revelar, de finalmente perceber toda esta inverosímil história porque está a passar. O Dragão, a Graça, o Santo António, o peixe de óculos, este peixe sábio, todos eles devem fazer um sentido. Esse sentido está neste peixe que já não parece ter dentes e olhos afiados. Fernando entrega-se para receber a verdade.
— Deves estar a pensar a que conclusão cheguei. Estão errados os que separam o apetite do amor do amor ao apetite. Qualquer um deles, quando só, deixa-nos sós. Os dois juntos também.
O peixe olha para Fernando com uma profunda tristeza enquanto se aproxima dele. Quando finalmente percebe que vai ser comido, Fernando procura algumas palavras para dizer, tal como no banco detrás do automóvel procurava conduzir.
Subitamente, Fernando acorda estremunhado.
terça-feira, 4 de março de 2014
Baruch Espinoza
Milagres feitos devagar são obras da Natureza; obras da natureza feitas depressa são milagres.
- Sermão do SS. Sacramento (1645), Padre António Vieira
- Sermão do SS. Sacramento (1645), Padre António Vieira
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Carl Sagan
o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança
- Sermão de Quarta-feira de Cinza (1672), Padre António Vieira
- Sermão de Quarta-feira de Cinza (1672), Padre António Vieira
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