domingo, 27 de abril de 2014
Areia - novo livro
O Prefácio de Areia (www.amazon.co.uk/Areia-António-Rito-Silva/dp/1497426529)
Amo-te, mas não te tenho apego. Qual é a linha que que separa o Homem Santo de Don Giovanni?
Começou este livro por ser sobre pontos, linhas e curvas. O desejo de um universo sem a gordura dos sentimentos. Ambos, livro e universo, feitos de uma geometria abstrata povoada de súbitas formas em dias concretos onde tudo é construído com palavras.
Tudo começou entre o primeiro e o segundo dia, quando me distraí a observar rectângulos, janelas e pontos. No primeiro dia, Borges induziu-me a imaginar um ano infinito. Entre o primeiro e o segundo, num instante de silêncio, dei comigo, numa noite fria e seca de inverno, a observar os prédios onde ao longe se continuavam a acender e a apagar luzes, embora o natal já não fosse. Estranhei a existência de vida por entre as formas. Questionei-me até onde poderia observar a vida como geometria, apenas fibra, sem a gordura.
Não fui bem sucedido. Houve um momento que resvalei e voltei à gordura dos sentimentos. Aí, talvez por não saber perder, escrevi um dia escorregadio de sensações. Em vão o tentei projetar na geometria do ano da areia.
Há assim neste livro um dia e um ano, e ambos têm a mesma dimensão.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
domingo, 20 de abril de 2014
How Venice became a museum
http://www.beereads.com/why-nations-fail-daron-acemoglu?page=0,66
HE GROUP OF ISLANDS that form Venice lie at the far north of the Adriatic Sea. In the Middle Ages, Venice was possibly the richest place in the world, with the most advanced set of inclusive economic institutions underpinned by nascent political inclusiveness. It gained its independence in AD 810, at what turned out to be a fortuitous time. The economy of Europe was recovering from the decline it had suffered as the Roman Empire collapsed, and kings such as Charlemagne were reconstituting strong central political power. This led to stability, greater security, and an expansion of trade, which Venice was in a unique position to take advantage of. It was a nation of seafarers, placed right in the middle of the Mediterranean. From the East came spices, Byzantine-manufactured goods, and slaves. Venice became rich. By 1050, when Venice had already been expanding economically for at least a century, it had a population of 45,000 people. This increased by more than 50 percent, to 70,000, by 1200. By 1330 the population had again increased by another 50 percent, to 110,000; Venice was then as big as Paris, and probably three times the size of London.
One of the key bases for the economic expansion of Venice was a series of contractual innovations making economic institutions much more inclusive...
http://www.beereads.com/why-nations-fail-daron-acemoglu?page=0,66
HE GROUP OF ISLANDS that form Venice lie at the far north of the Adriatic Sea. In the Middle Ages, Venice was possibly the richest place in the world, with the most advanced set of inclusive economic institutions underpinned by nascent political inclusiveness. It gained its independence in AD 810, at what turned out to be a fortuitous time. The economy of Europe was recovering from the decline it had suffered as the Roman Empire collapsed, and kings such as Charlemagne were reconstituting strong central political power. This led to stability, greater security, and an expansion of trade, which Venice was in a unique position to take advantage of. It was a nation of seafarers, placed right in the middle of the Mediterranean. From the East came spices, Byzantine-manufactured goods, and slaves. Venice became rich. By 1050, when Venice had already been expanding economically for at least a century, it had a population of 45,000 people. This increased by more than 50 percent, to 70,000, by 1200. By 1330 the population had again increased by another 50 percent, to 110,000; Venice was then as big as Paris, and probably three times the size of London.
One of the key bases for the economic expansion of Venice was a series of contractual innovations making economic institutions much more inclusive...
http://www.beereads.com/why-nations-fail-daron-acemoglu?page=0,66
domingo, 30 de março de 2014
Areia - Manducar
Dia 8 de Abril será publicado o meu novo livro, Areia.
Construído à volta da dicotomia geometria-emoção, aqui fica um dos seus dois Manducares, o Maducar-emoção para aguçar o apetite.
MANDUCAR
Sem ninguém ao volante, o carro carambola nas curvas. Fernando está sentado no banco detrás e sente na barriga as voltas do volante solto. O homem sentado a seu lado tem uma forma de Dragão.
— Sabes, — diz o Dragão — creio que não vai ninguém a conduzir o carro. — Enquanto fala a sua boca cospe uma chispa ondulante, como a chama-piloto de um esquentador.
É de noite. A estrada é labiríntica. Os faróis do carro vão iluminando casas de pedra nua que se atravessam à frente.
— Vamos bater, vamos bater. — Avisa o Dragão, como que o chamando à responsabilidade.
Do banco traseiro, Fernando procura conduzir o carro como se fosse uma bicicleta, inclinado-se para um lado e para o outro.
— Assim não vai funcionar. Vamos estampar-nos de encontro a uma dessas casas. — Ironiza o bicho.
Agarrando-se às costas do assento da frente, Fernando dá uma cambalhota entre o banco traseiro e o assento do condutor. Quando se senta ao volante o Dragão também já está no banco ao seu lado.
— Tu és capaz. Tu és capaz. — Diz-lhe com uma voz de desenhos animados, quase carinhosa, como que a dar força. — Pega no volante e tira-nos daqui.
Fernando gira o volante e o carro vira no sentido oposto, escapando miraculosamente de bater nas casas. Gira de novo e segue em direção oposta à pretendida, falhando por um triz uma parede de pedra.
— Onde tiraste a carta? — Pergunta-lhe com uma calma curiosa nos olhos. — Não me digas que foi na farinha Amparo… — e desata às gargalhadas, satisfeito consigo mesmo. Nesse instante o carro dá uma pirueta e quando o Fernando regressa ao assento também lá está sentado o Dragão. O corpo contrai-se-lhe ao contacto com este ser rijo e disforme.
— Não tenhas medo, sou só um Dragão. Sei que desejas não estar aqui, mas temos que conversar.
Quando de novo agarra o volante ele escalda. Solta-o imediatamente e ao procurar arrefecer as mãos encontra a crosta do Dragão sobre o qual está sentado. Ele sorri e diz.
— Sabes, não é o volante que escalda, são as tuas mãos que estão geladas, tal como as minhas escamas.
Ao prestar atenção ao Dragão o carro começa a despenhar-se pelo labirinto, como se de um precipício se tratasse. Resignado, Fernando pergunta-se como é possível haver fogo num ser gelado. Mas parece que ele lhe lê o pensamento.
— Sou tão quente. Não precisas de pedir.
Surpreende-se e vira-se de repente. Não é necessário voltar a cabeça totalmente. No banco ao lado está a Graça. Carrega com força com as mãos nas pernas do Dragão, como que para acordar de um pesadelo, mas o que sente é o macio do assento. A Graça abre a boca mostrando o piercing implantado no meio da língua enquanto diz.
— Olá.
Já não via a Graça há algum tempo. Que raio está ela a fazer aqui? Para onde terá ido o Dragão?
— Olá — repete a Graça.
É uma miúda gira a Graça, pensa Fernando, e recorda o corpo pequeno e firme que adivinha dentro da blusa lilás que traz vestida.
— Long time no see! — Diz-lhe ela com ar maroto.
Fernando sente-se baralhado. Olha através do para-brisas e vê que o carro cavalga por ali abaixo, no vazio, totalmente fora de controlo. Surpreende-se com a indolência que se apodera do corpo. Sem pensar, deixa-se enrolar pelas piruetas. A Graça fala sem parar mas não consegue prestar atenção no que ela diz. Vai tomando várias formas à sua frente. É uma gelatina que se espalha pelo carro e se reagrupa. Por vezes julga ver a chispa do Dragão no língua de Graça que ondula incessantemente. Fecha os olhos.
Sente-se quente. Abre os olhos com intenção de saber onde vai cair mas só vê o remoinho formado pelo carro. Tem a Graça ao colo quando um forte impacto faz saltar tudo à volta. Há um líquido que amortece o choque e retorna o carro com gentileza à superfície.
Olha em volta e está sozinho. Nem sinal da Graça ou do Dragão. Percorre com o olhar a superfície da água. O tejadilho do carro meio afundado impede-o de ver mais do que uma pequena tira. Aí abundam pequenas cabeças que incessantemente perscrutam o horizonte. De repente, dá por um peixe de olhos esbugalhados do lado de fora do carro, mesmo ao lado dele. Abre uma boca de dentes afiados e parece que ri enquanto o abocanha através o vidro da porta. Sente-se a ser devorado, triturado pouco a pouco. O corpo vai-se partindo em pedaços. Quando finalmente se entrega ao seu fim ouve uma voz que o enche de paz.
— A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros.
Incrédulo, abre os olhos. Ao fundo, num micro mundo plano feito de uns poucos centímetros acima do topo da água, está uma pequena figura de Santo António com as suas vestes castanhas, a corda pendurada e a criança ao colo. Centenas de peixes bóiam na água e olham para a imagem que baloiça.
— Comeis-vos uns aos outros. — Repete o Santo, chamando mais peixes à superfície.
Há peixes que começam a chorar desalmadamente. Batem com raiva com as barbatanas no peito e ferem-se com os seus próprios dentes. Impassível o Santo continua.
— Sei que estais aqui para saciar o vosso apetite.
O clamor redobra de intensidade. Alguns peixes tentam arrancar-se à água mas batem no baixo céu e voltam a mergulhar com violência, ensanguentados. Entre eles identifica aquele que o tragou. Chora tão boquiaberto como os restantes. Sente um arrepio e procura ver se ainda há restos de si na boca do peixe. Fernando interroga-se se porventura terá sido comido. Os peixes começam a nadar de lado em volta de Santo António, com a cabeça e uma das barbatanas fora de água, como se numa procissão. O Santo continua.
— E achais que depois de o saciar nunca mais o voltareis a ter?
Fernando, o que foi comido, começa a chorar. As lágrimas saem da água, sobem-lhe pelos olhos, e aglutinam-se no teto do carro. Junto a ele passa agora o peixe que o comeu. Diz-lhe que não foi apetite mas sim a vaidade dos dentes que o abocanharam. Abraçam-se com compaixão. Mais peixes vão trocando abraços na sua caminhada em redor do Santo, encontram-se, abraçam-se e prosseguem.
A figura do Santo começa a desfazer-se pela chuva de lágrimas. Primeiro as roupas perdem a cor e tingem a água que se acumula no teto com um forte castanho. O menino desaparece-lhe dos braços e de seguida o próprio Santo se desvanece na cortina de água que escorre para o céu.
Fernando é empurrado pela água das suas lágrimas que se cumulou no teto do carro e agora tomba sobre ele com o desaparecimento do Santo. Num turbilhão aproveita as pequenas bolhas que passam para respirar. Com ele vão os outros peixes que voltam a desfilar a vaidade dos afiados dentes. Dentes das mais variadas formas, longos ou curtos, direitos ou retorcidos, sempre afiados. Nas voltas vai passando por entre eles, escapando sempre por um triz a ser despedaçado. Acaba por se habituar às piruetas e vai saltando entre peixes agarrando-se aos seus dentes. Os peixes, esses, perdem alguma da sua dignidade quando giram sobre os seus magníficos dentes. Vai-se sentindo mais divertido, especialmente com os dentes helicoidais que lhe dão mais velocidade. Os peixes bem tentam abocanhá-lo mas ele sente-se ágil e atira-se por entre dentes.
Um refluxo súbito de água baralha-lhe os movimentos e fá-lo entrar pela boca de um enorme peixe também em desequilíbrio. Lá dentro há um calor que contrasta com o frio húmido de fora. Sob uma luz ténue vê um pequeno peixe, companheiro de infortúnio.
— Senta-te — diz-lhe ele.
Tem um ar franzino que lhe lembra alguém.
— Não te preocupes, nem se está mal aqui — diz-lhe como que para o tranquilizar — o nosso hospedeiro toma conta de nós. Do que engole, algumas coisas comem-se e com as outras faz-se amizade — justifica, e ri desalmadamente.
Não pode deixar de engraçar com este pequeno ser. Em qualquer lado há alguém que está bem, pensa.
— Claro que para fazer amizade é também necessário que não nos comam, — Diz pensativo, como que filosofando — mas também já vi que tu não és dos que tens mais olhos que barriga. — Continua.
É ligeiramente prateado. Tem um óculos redondos que se prendem por altura das guelras e não é, definitivamente, do género de despertar apetites.
— Come que deves estar com apetite.
Oferece-lhe uma pequena amêijoa à bulhão pato que se não fosse pela falta de limão estaria perfeita. A bem do súbito companheirismo nada comenta e sorve a amêijoa com satisfação.
— Sabes, — diz ele não o deixando falar, seguro da amizade criada na partilha da amêijoa — Se não fosse pela falta de limão estaria perfeita, mas foi assim que aqui chegou. — Justificou-se. — Era meia dose e essa era a última. — Remata como que a enaltecer o valor que dá à amizade.
O sabor da amêijoa reforça-lhe a impressão inicial de este peixe lhe recordar alguém. Puxa pela memória mas não lhe ocorre quem poderá ser. Talvez seja só a memória de uma memória, pensa. Não tem o hábito de falar com peixes.
— Recordas-me alguém. — Atira-lhe o peixe à cara.
Quando se prepara para o esclarecer entra um peixe maior que imediatamente o traga. Tem uns olhos tão afiados quanto os dentes.
— Queres ser meu amigo? — Começa ele a matar.
Estas circunstâncias também propiciam amizades, pensa o Fernando enquanto cautelosamente vai dando pequenos passos a trás. Ocorre-lhe que a qualquer momento este peixe se poderá transformar na Graça ou no Dragão.
— Ele era teu amigo? — Questiona. — Era inesperadamente saboroso, devia ter uma vida requintada, ser daqueles que gostam de desfrutar das pequenas coisas da vida. — Diz, procurando estabelecer contado através da primeira coisa que encontra em comum.
— Sabes, posso-te contar sobre ele coisas que nunca poderias vir a saber. Especialmente agora que partiu. — Diz ele forçando a amizade.
Fernando sente que este peixe sofre de solidão. Talvez sobreviva a se equilibrar entre a fraqueza do apetite e a necessidade de companhia. Não diferirá muito daquele que comeu, apenas que o outro era do estilo bon vivant, um pouco gourmet.
— Não somos muito diferentes. Eu também adoro amêijoas. Uma vez tive uma que era muito minha amiga, a Noémia — Humedecem-lhe os cantos dos olhos pontiagudos
A constatação que há em todos os seres apetite e uma gigantesca vontade de amar, faz com que Fernando deixe de recuar.
— Somos todos iguais. Aqui andamos transformando o acaso em comida ou amor. E qual é a diferença? Nenhuma. Sempre o mesmo apego, o apego que nos traz no mundo. Posso-te falar da Noémia e deste pequeno de óculos que acabei de tragar e se não os nomear tu não saberás de quem estou a falar. E a qualquer um assentará o que disser, pois somos todos iguais. A Noémia também era uma mulher de apetites que gostava de conversar. Sei que às vezes somos diferentes, mas isso é quando queremos, quando não queremos somos iguais.
Ocorre a Fernando se esta última frase terá algum um sentido metafísico, mas o peixe continua.
— Em todos nós a mesma questão: o que comer, o que amar? Uma vez um peixe disse-me, quando percebeu que o ia comer: ser ou não ser, eis a questão. Coitado, não disse mais nada, como andava enganado, às voltas com o apego, que até no fim fingiu que não tinha apego. Essa não é a questão, a questão é vou-te comer ou vou-te amar. Essa sim é a questão. — Está agora lavado em lágrimas.
Fernando está surpreendido. Sente que este peixe pensou a sério neste problema. Que teve ter chegado a uma conclusão. Entusiasma-se com a possibilidade de ele lhe a poder revelar, de finalmente perceber toda esta inverosímil história porque está a passar. O Dragão, a Graça, o Santo António, o peixe de óculos, este peixe sábio, todos eles devem fazer um sentido. Esse sentido está neste peixe que já não parece ter dentes e olhos afiados. Fernando entrega-se para receber a verdade.
— Deves estar a pensar a que conclusão cheguei. Estão errados os que separam o apetite do amor do amor ao apetite. Qualquer um deles, quando só, deixa-nos sós. Os dois juntos também.
O peixe olha para Fernando com uma profunda tristeza enquanto se aproxima dele. Quando finalmente percebe que vai ser comido, Fernando procura algumas palavras para dizer, tal como no banco detrás do automóvel procurava conduzir.
Subitamente, Fernando acorda estremunhado.
Construído à volta da dicotomia geometria-emoção, aqui fica um dos seus dois Manducares, o Maducar-emoção para aguçar o apetite.
MANDUCAR
Sem ninguém ao volante, o carro carambola nas curvas. Fernando está sentado no banco detrás e sente na barriga as voltas do volante solto. O homem sentado a seu lado tem uma forma de Dragão.
— Sabes, — diz o Dragão — creio que não vai ninguém a conduzir o carro. — Enquanto fala a sua boca cospe uma chispa ondulante, como a chama-piloto de um esquentador.
É de noite. A estrada é labiríntica. Os faróis do carro vão iluminando casas de pedra nua que se atravessam à frente.
— Vamos bater, vamos bater. — Avisa o Dragão, como que o chamando à responsabilidade.
Do banco traseiro, Fernando procura conduzir o carro como se fosse uma bicicleta, inclinado-se para um lado e para o outro.
— Assim não vai funcionar. Vamos estampar-nos de encontro a uma dessas casas. — Ironiza o bicho.
Agarrando-se às costas do assento da frente, Fernando dá uma cambalhota entre o banco traseiro e o assento do condutor. Quando se senta ao volante o Dragão também já está no banco ao seu lado.
— Tu és capaz. Tu és capaz. — Diz-lhe com uma voz de desenhos animados, quase carinhosa, como que a dar força. — Pega no volante e tira-nos daqui.
Fernando gira o volante e o carro vira no sentido oposto, escapando miraculosamente de bater nas casas. Gira de novo e segue em direção oposta à pretendida, falhando por um triz uma parede de pedra.
— Onde tiraste a carta? — Pergunta-lhe com uma calma curiosa nos olhos. — Não me digas que foi na farinha Amparo… — e desata às gargalhadas, satisfeito consigo mesmo. Nesse instante o carro dá uma pirueta e quando o Fernando regressa ao assento também lá está sentado o Dragão. O corpo contrai-se-lhe ao contacto com este ser rijo e disforme.
— Não tenhas medo, sou só um Dragão. Sei que desejas não estar aqui, mas temos que conversar.
Quando de novo agarra o volante ele escalda. Solta-o imediatamente e ao procurar arrefecer as mãos encontra a crosta do Dragão sobre o qual está sentado. Ele sorri e diz.
— Sabes, não é o volante que escalda, são as tuas mãos que estão geladas, tal como as minhas escamas.
Ao prestar atenção ao Dragão o carro começa a despenhar-se pelo labirinto, como se de um precipício se tratasse. Resignado, Fernando pergunta-se como é possível haver fogo num ser gelado. Mas parece que ele lhe lê o pensamento.
— Sou tão quente. Não precisas de pedir.
Surpreende-se e vira-se de repente. Não é necessário voltar a cabeça totalmente. No banco ao lado está a Graça. Carrega com força com as mãos nas pernas do Dragão, como que para acordar de um pesadelo, mas o que sente é o macio do assento. A Graça abre a boca mostrando o piercing implantado no meio da língua enquanto diz.
— Olá.
Já não via a Graça há algum tempo. Que raio está ela a fazer aqui? Para onde terá ido o Dragão?
— Olá — repete a Graça.
É uma miúda gira a Graça, pensa Fernando, e recorda o corpo pequeno e firme que adivinha dentro da blusa lilás que traz vestida.
— Long time no see! — Diz-lhe ela com ar maroto.
Fernando sente-se baralhado. Olha através do para-brisas e vê que o carro cavalga por ali abaixo, no vazio, totalmente fora de controlo. Surpreende-se com a indolência que se apodera do corpo. Sem pensar, deixa-se enrolar pelas piruetas. A Graça fala sem parar mas não consegue prestar atenção no que ela diz. Vai tomando várias formas à sua frente. É uma gelatina que se espalha pelo carro e se reagrupa. Por vezes julga ver a chispa do Dragão no língua de Graça que ondula incessantemente. Fecha os olhos.
Sente-se quente. Abre os olhos com intenção de saber onde vai cair mas só vê o remoinho formado pelo carro. Tem a Graça ao colo quando um forte impacto faz saltar tudo à volta. Há um líquido que amortece o choque e retorna o carro com gentileza à superfície.
Olha em volta e está sozinho. Nem sinal da Graça ou do Dragão. Percorre com o olhar a superfície da água. O tejadilho do carro meio afundado impede-o de ver mais do que uma pequena tira. Aí abundam pequenas cabeças que incessantemente perscrutam o horizonte. De repente, dá por um peixe de olhos esbugalhados do lado de fora do carro, mesmo ao lado dele. Abre uma boca de dentes afiados e parece que ri enquanto o abocanha através o vidro da porta. Sente-se a ser devorado, triturado pouco a pouco. O corpo vai-se partindo em pedaços. Quando finalmente se entrega ao seu fim ouve uma voz que o enche de paz.
— A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros.
Incrédulo, abre os olhos. Ao fundo, num micro mundo plano feito de uns poucos centímetros acima do topo da água, está uma pequena figura de Santo António com as suas vestes castanhas, a corda pendurada e a criança ao colo. Centenas de peixes bóiam na água e olham para a imagem que baloiça.
— Comeis-vos uns aos outros. — Repete o Santo, chamando mais peixes à superfície.
Há peixes que começam a chorar desalmadamente. Batem com raiva com as barbatanas no peito e ferem-se com os seus próprios dentes. Impassível o Santo continua.
— Sei que estais aqui para saciar o vosso apetite.
O clamor redobra de intensidade. Alguns peixes tentam arrancar-se à água mas batem no baixo céu e voltam a mergulhar com violência, ensanguentados. Entre eles identifica aquele que o tragou. Chora tão boquiaberto como os restantes. Sente um arrepio e procura ver se ainda há restos de si na boca do peixe. Fernando interroga-se se porventura terá sido comido. Os peixes começam a nadar de lado em volta de Santo António, com a cabeça e uma das barbatanas fora de água, como se numa procissão. O Santo continua.
— E achais que depois de o saciar nunca mais o voltareis a ter?
Fernando, o que foi comido, começa a chorar. As lágrimas saem da água, sobem-lhe pelos olhos, e aglutinam-se no teto do carro. Junto a ele passa agora o peixe que o comeu. Diz-lhe que não foi apetite mas sim a vaidade dos dentes que o abocanharam. Abraçam-se com compaixão. Mais peixes vão trocando abraços na sua caminhada em redor do Santo, encontram-se, abraçam-se e prosseguem.
A figura do Santo começa a desfazer-se pela chuva de lágrimas. Primeiro as roupas perdem a cor e tingem a água que se acumula no teto com um forte castanho. O menino desaparece-lhe dos braços e de seguida o próprio Santo se desvanece na cortina de água que escorre para o céu.
Fernando é empurrado pela água das suas lágrimas que se cumulou no teto do carro e agora tomba sobre ele com o desaparecimento do Santo. Num turbilhão aproveita as pequenas bolhas que passam para respirar. Com ele vão os outros peixes que voltam a desfilar a vaidade dos afiados dentes. Dentes das mais variadas formas, longos ou curtos, direitos ou retorcidos, sempre afiados. Nas voltas vai passando por entre eles, escapando sempre por um triz a ser despedaçado. Acaba por se habituar às piruetas e vai saltando entre peixes agarrando-se aos seus dentes. Os peixes, esses, perdem alguma da sua dignidade quando giram sobre os seus magníficos dentes. Vai-se sentindo mais divertido, especialmente com os dentes helicoidais que lhe dão mais velocidade. Os peixes bem tentam abocanhá-lo mas ele sente-se ágil e atira-se por entre dentes.
Um refluxo súbito de água baralha-lhe os movimentos e fá-lo entrar pela boca de um enorme peixe também em desequilíbrio. Lá dentro há um calor que contrasta com o frio húmido de fora. Sob uma luz ténue vê um pequeno peixe, companheiro de infortúnio.
— Senta-te — diz-lhe ele.
Tem um ar franzino que lhe lembra alguém.
— Não te preocupes, nem se está mal aqui — diz-lhe como que para o tranquilizar — o nosso hospedeiro toma conta de nós. Do que engole, algumas coisas comem-se e com as outras faz-se amizade — justifica, e ri desalmadamente.
Não pode deixar de engraçar com este pequeno ser. Em qualquer lado há alguém que está bem, pensa.
— Claro que para fazer amizade é também necessário que não nos comam, — Diz pensativo, como que filosofando — mas também já vi que tu não és dos que tens mais olhos que barriga. — Continua.
É ligeiramente prateado. Tem um óculos redondos que se prendem por altura das guelras e não é, definitivamente, do género de despertar apetites.
— Come que deves estar com apetite.
Oferece-lhe uma pequena amêijoa à bulhão pato que se não fosse pela falta de limão estaria perfeita. A bem do súbito companheirismo nada comenta e sorve a amêijoa com satisfação.
— Sabes, — diz ele não o deixando falar, seguro da amizade criada na partilha da amêijoa — Se não fosse pela falta de limão estaria perfeita, mas foi assim que aqui chegou. — Justificou-se. — Era meia dose e essa era a última. — Remata como que a enaltecer o valor que dá à amizade.
O sabor da amêijoa reforça-lhe a impressão inicial de este peixe lhe recordar alguém. Puxa pela memória mas não lhe ocorre quem poderá ser. Talvez seja só a memória de uma memória, pensa. Não tem o hábito de falar com peixes.
— Recordas-me alguém. — Atira-lhe o peixe à cara.
Quando se prepara para o esclarecer entra um peixe maior que imediatamente o traga. Tem uns olhos tão afiados quanto os dentes.
— Queres ser meu amigo? — Começa ele a matar.
Estas circunstâncias também propiciam amizades, pensa o Fernando enquanto cautelosamente vai dando pequenos passos a trás. Ocorre-lhe que a qualquer momento este peixe se poderá transformar na Graça ou no Dragão.
— Ele era teu amigo? — Questiona. — Era inesperadamente saboroso, devia ter uma vida requintada, ser daqueles que gostam de desfrutar das pequenas coisas da vida. — Diz, procurando estabelecer contado através da primeira coisa que encontra em comum.
— Sabes, posso-te contar sobre ele coisas que nunca poderias vir a saber. Especialmente agora que partiu. — Diz ele forçando a amizade.
Fernando sente que este peixe sofre de solidão. Talvez sobreviva a se equilibrar entre a fraqueza do apetite e a necessidade de companhia. Não diferirá muito daquele que comeu, apenas que o outro era do estilo bon vivant, um pouco gourmet.
— Não somos muito diferentes. Eu também adoro amêijoas. Uma vez tive uma que era muito minha amiga, a Noémia — Humedecem-lhe os cantos dos olhos pontiagudos
A constatação que há em todos os seres apetite e uma gigantesca vontade de amar, faz com que Fernando deixe de recuar.
— Somos todos iguais. Aqui andamos transformando o acaso em comida ou amor. E qual é a diferença? Nenhuma. Sempre o mesmo apego, o apego que nos traz no mundo. Posso-te falar da Noémia e deste pequeno de óculos que acabei de tragar e se não os nomear tu não saberás de quem estou a falar. E a qualquer um assentará o que disser, pois somos todos iguais. A Noémia também era uma mulher de apetites que gostava de conversar. Sei que às vezes somos diferentes, mas isso é quando queremos, quando não queremos somos iguais.
Ocorre a Fernando se esta última frase terá algum um sentido metafísico, mas o peixe continua.
— Em todos nós a mesma questão: o que comer, o que amar? Uma vez um peixe disse-me, quando percebeu que o ia comer: ser ou não ser, eis a questão. Coitado, não disse mais nada, como andava enganado, às voltas com o apego, que até no fim fingiu que não tinha apego. Essa não é a questão, a questão é vou-te comer ou vou-te amar. Essa sim é a questão. — Está agora lavado em lágrimas.
Fernando está surpreendido. Sente que este peixe pensou a sério neste problema. Que teve ter chegado a uma conclusão. Entusiasma-se com a possibilidade de ele lhe a poder revelar, de finalmente perceber toda esta inverosímil história porque está a passar. O Dragão, a Graça, o Santo António, o peixe de óculos, este peixe sábio, todos eles devem fazer um sentido. Esse sentido está neste peixe que já não parece ter dentes e olhos afiados. Fernando entrega-se para receber a verdade.
— Deves estar a pensar a que conclusão cheguei. Estão errados os que separam o apetite do amor do amor ao apetite. Qualquer um deles, quando só, deixa-nos sós. Os dois juntos também.
O peixe olha para Fernando com uma profunda tristeza enquanto se aproxima dele. Quando finalmente percebe que vai ser comido, Fernando procura algumas palavras para dizer, tal como no banco detrás do automóvel procurava conduzir.
Subitamente, Fernando acorda estremunhado.
terça-feira, 4 de março de 2014
Baruch Espinoza
Milagres feitos devagar são obras da Natureza; obras da natureza feitas depressa são milagres.
- Sermão do SS. Sacramento (1645), Padre António Vieira
- Sermão do SS. Sacramento (1645), Padre António Vieira
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Carl Sagan
o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança
- Sermão de Quarta-feira de Cinza (1672), Padre António Vieira
- Sermão de Quarta-feira de Cinza (1672), Padre António Vieira
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Politicamente correto
Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: “Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.”
- Sermão da Sexagésima, Padre António Vieira
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Manducar
"A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande."
-- Sermão de Santo António aos Peixes -- Padre António Vieira
-- Sermão de Santo António aos Peixes -- Padre António Vieira
domingo, 9 de fevereiro de 2014
A Democracia e a Classe média
Agora que se fala no enfraquecimento da classe média, dois artigos interessantes para pensar sobre o papel democracia hoje em dia.
Democracy vs. Inequality
Asian Democracy
Democracy vs. Inequality
Asian Democracy
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Crónicas do Inferno
Uma colega perguntava-me se não me incomodava as pessoas poderem associar o que escrevo no blog e o que faço como Professor do Técnico. Como se o receio de quem pergunta pudesse passar para quem responde. Recordei a fábula de Esopo sobre o velho, o menino e o burro. Realmente não há muito a recear, se quiserem falar, falarão, quer vamos montados no burro ou com o burro às costas. Mas esta é a visão mais simples.
Mais interessante é a possibilidade para se construir uma história invertida. A geração de atos não intencionais, quase aleatórios, seguida da observação da sua interpretação pelos outros. Como que se um escritor resolvesse escrever uma história gerando um conjunto fortuito de atos, não estabelecendo a priori, ou intencionalmente, qualquer relações entre eles, sendo depois um cronista.
Esta escrita na vida seguida da escrita da crónica é provavelmente a única possibilidade de escrita. Aqui exacerbada, através da interpretação intermédia dos outros, ela acontece sempre que um escritor acaba de escrever uma palavra e a consciência espontânea que ela lhe gera no contexto em que é colocada. Veja-se acima a palavra invertida, que usei para referir a geração de uma história de forma inversa, a crónica (história) das interpretações em vez de uma história para ser interpretada, logo suscitou em mim a consciência que a palavra pode ter outra interpretação. A decisão de a deixar lá ficar é a possibilidade de gerar uma história invertida, e tudo isso acontece numa fração de segundos sem a mediação dos outros. Agora é só ficar à escuta.
Claro que isto me leva à crónica dos testemunho, à crónica do inferno. A história dos testemunhos como construção coerente de uma narrativa. Mas que coerência poderá haver numa narrativa construída sobre atos fortuitos?
Esta foi a minha questão inicial. O edifício narrativo facilmente ruirá ao acaso, pensei. Curiosamente não é assim por duas razões. A primeira é que a narrativa se constrói sobre uma ideia, podemos chamar-se uma verdade, a qual permite filtrar os atos à luz da sua coerência. A escrita desta mensagem e a sua não escrita, e ambas ainda são possíveis pois ainda não publiquei, serão interpretadas à mesma luz. A segunda razão tem a ver com o pendor do poder para rescrever a história. Ou seja, quando a dissemelhança de situações começa a ser insuportável para a coerência narrativa surge a necessidade de rescrever. A reescrita pode ser bruta, simplesmente colocando e retirando da fotografia, criando atos coerentes, ou subtil, através de retoques nos gradientes da memória.
Para as Crónicas do Inferno procuro as formas e tonalidades da interpretação e da reescrita nos testemunhos. Cada interpretação, cada reescrita, incluindo a sua crónica, é obra do escritor à procura da sua coerência narrativa. Já a incoerência do todo é obra de Deus.
Mais interessante é a possibilidade para se construir uma história invertida. A geração de atos não intencionais, quase aleatórios, seguida da observação da sua interpretação pelos outros. Como que se um escritor resolvesse escrever uma história gerando um conjunto fortuito de atos, não estabelecendo a priori, ou intencionalmente, qualquer relações entre eles, sendo depois um cronista.
Esta escrita na vida seguida da escrita da crónica é provavelmente a única possibilidade de escrita. Aqui exacerbada, através da interpretação intermédia dos outros, ela acontece sempre que um escritor acaba de escrever uma palavra e a consciência espontânea que ela lhe gera no contexto em que é colocada. Veja-se acima a palavra invertida, que usei para referir a geração de uma história de forma inversa, a crónica (história) das interpretações em vez de uma história para ser interpretada, logo suscitou em mim a consciência que a palavra pode ter outra interpretação. A decisão de a deixar lá ficar é a possibilidade de gerar uma história invertida, e tudo isso acontece numa fração de segundos sem a mediação dos outros. Agora é só ficar à escuta.
Claro que isto me leva à crónica dos testemunho, à crónica do inferno. A história dos testemunhos como construção coerente de uma narrativa. Mas que coerência poderá haver numa narrativa construída sobre atos fortuitos?
Esta foi a minha questão inicial. O edifício narrativo facilmente ruirá ao acaso, pensei. Curiosamente não é assim por duas razões. A primeira é que a narrativa se constrói sobre uma ideia, podemos chamar-se uma verdade, a qual permite filtrar os atos à luz da sua coerência. A escrita desta mensagem e a sua não escrita, e ambas ainda são possíveis pois ainda não publiquei, serão interpretadas à mesma luz. A segunda razão tem a ver com o pendor do poder para rescrever a história. Ou seja, quando a dissemelhança de situações começa a ser insuportável para a coerência narrativa surge a necessidade de rescrever. A reescrita pode ser bruta, simplesmente colocando e retirando da fotografia, criando atos coerentes, ou subtil, através de retoques nos gradientes da memória.
Para as Crónicas do Inferno procuro as formas e tonalidades da interpretação e da reescrita nos testemunhos. Cada interpretação, cada reescrita, incluindo a sua crónica, é obra do escritor à procura da sua coerência narrativa. Já a incoerência do todo é obra de Deus.
domingo, 26 de janeiro de 2014
Judeu
Ao ler -- Pode fazê-lo trabalhar 18 horas por dia, pode alojá-lo numa casota, pode mandá-lo desactivar uma bomba, dormir com, servir à mesa vestido de libré, ou fazer salamaleques às visitas. -- em a Nova Escravatura Civilizada ocorreu-me uma frase do Judeu Groucho Marx -- Military justice is to justice what military music is to music.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Ainda sobre o copular entre o bem e o mal
O inferno enquanto o copular entre o bem e o mal poderá parecer excessivo. Mas nada como procurar exemplos. Zen at War de Brian Victoria, sobre o Budismo Zen no período Meiji (1868-1945) no Japão e a sua subordinação ao estado pode ser um desses exemplos. Brian Victoria descreve como o Budismo Zen para "sobreviver" se foi moldando à política imperialista Nipónica e contribuiu para a máquina de guerra, como os princípios do não-ser eram usados na doutrinação dos Kamikaze. Uma manifestação deste inferno é patente num texto de D. T. Suzuki citada em Zen at War:
The sword is generally associated with killing, and most of us wonder how it can come into connection with Zen, which is a school of Buddhism teaching the gospel of love and mercy. The fact is that the art of swordsmanship distinguishes between the sword that kills and the sword that gives life. The one that is used by a technician cannot go any further than killing, for he never appeals to the sword unless he intends to kill. The case is altogether different with the one who is compelled to lift the sword. For it is not he but the sword itself that does the killing. He has no desire to do harm to anybody, but the enemy appears and makes himself a victim. It is as though the sword performs automatically its function of justice, which is the function of mercy... When the sword is expected to play this sort of role in human life, it is no more a weapon of self-defense or an instrument of killing, and the swordsman turns into an artist of the first grade, engaged in producing a work of genuine originality.
A questão está em saber se nesta separação entre o que empunha a espada e a morte da espada existe hipocrisia ou se será apenas cegueira formal. Se for cegueira formal então ainda poderemos encontrar alguma beleza nas espadas que cumprem o seu destino, algo que também se encontra em algumas histórias de Borges, como se a propagação do ódio pudesse ser feita através da herança do faqueiro. Infelizmente, a ausência em D. T. Suzuki de qualquer dor no pós-guerra, e a continuação do boiar, sugerem mais a hipocrisia ou, talvez, o seu entrelaçar com a cegueira formal.
A ironia, e é a ironia que o poder teme pois jamais a ironia conseguiu alcançar o poder, é que filosofia Zen é muito influenciada pelo Tao Te Ching. Uma ironia Taoista/Zen, e por isso não é demais relembrar o décimo oitavo poema do Tao Te Ching:
Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.
Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.
Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.
Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.
The sword is generally associated with killing, and most of us wonder how it can come into connection with Zen, which is a school of Buddhism teaching the gospel of love and mercy. The fact is that the art of swordsmanship distinguishes between the sword that kills and the sword that gives life. The one that is used by a technician cannot go any further than killing, for he never appeals to the sword unless he intends to kill. The case is altogether different with the one who is compelled to lift the sword. For it is not he but the sword itself that does the killing. He has no desire to do harm to anybody, but the enemy appears and makes himself a victim. It is as though the sword performs automatically its function of justice, which is the function of mercy... When the sword is expected to play this sort of role in human life, it is no more a weapon of self-defense or an instrument of killing, and the swordsman turns into an artist of the first grade, engaged in producing a work of genuine originality.
A questão está em saber se nesta separação entre o que empunha a espada e a morte da espada existe hipocrisia ou se será apenas cegueira formal. Se for cegueira formal então ainda poderemos encontrar alguma beleza nas espadas que cumprem o seu destino, algo que também se encontra em algumas histórias de Borges, como se a propagação do ódio pudesse ser feita através da herança do faqueiro. Infelizmente, a ausência em D. T. Suzuki de qualquer dor no pós-guerra, e a continuação do boiar, sugerem mais a hipocrisia ou, talvez, o seu entrelaçar com a cegueira formal.
A ironia, e é a ironia que o poder teme pois jamais a ironia conseguiu alcançar o poder, é que filosofia Zen é muito influenciada pelo Tao Te Ching. Uma ironia Taoista/Zen, e por isso não é demais relembrar o décimo oitavo poema do Tao Te Ching:
Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.
Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.
Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.
Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.
sábado, 21 de dezembro de 2013
A Burlona do Amor, The End e Tao Te Ching
Dos testemunhos, até agora, alguma parra mas pouca uva.
Talvez o mais interessante seja o da Burlona do Amor, uma história que andou pelos jornais e televisões no início deste ano. Uma pesquisa no google permite obter um conjunto de notícias sobre este caso mas uma boa síntese destes testemunhos está na Deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERCS). Que vão desde a caracterização da "burlona":
- "...nunca se contentou com pouco. Habituada a uma vida de luxos e mordomias, a burlona, de 44 anos, nunca quis trabalhar. Sem fontes de rendimento, tinha ainda o vício do jogo. Tudo graças aos homens que enganara".
- "…, pai da burlona, sabia das farsas da filha. Era apresentado aos homens e mostrava-se conivente com todas as mentiras. Vivem juntos em Setúbal".
E, claro, a garantia policial:
- "Está a ser investigada pela PJ de Setúbal"
Estes são os testemunhos que presumivelmente bebem da fonte. Quanto aos testemunhos que se constroem sobre testemunhos, a deliberação descreve duas situações diferentes. A primeira é a transcrição de parte da entrevista onde o Dr. Moita Flores (F.M.F.), que, segundo o meio de comunicação social em causa, no uso das suas competências profissionais, traça o perfil psicológico alegada Burlona:
J.P.: Para já, uma história que também já é conhecida, a “Burlona do Amor” continua a ser notícia.
(…)
F.M.F.: A “burlona do amor” é engraçado.
J.P.: (risos) A “burlona do amor” é bonito, não é?
F.M.F.: É bonito!
(…)
F.M.F.: E aliás, esta senhora com a prática que tem, se calhar também vai fazer carreira internacional, não é?
J.P.: (risos) Um dia destes está noutro sítio a fazer estas burlas.
F.M.F.: Ou a polícia que lhe deite a mão e para com isto de uma vez por todas porque a gente diverte-se, mas isto são crimes sérios.
J.P.: São crimes sérios. Ó Francisco, nós estamos a sorrir e a contar, no fundo, a história, mas o que nos deixa… o que fez com que nós hoje trouxéssemos de novo este assunto aqui tem a ver com o facto de esta senhora até há algum tempo atrás… houve um jornal que disse que ela… portanto, publicou a fotografia dela inclusive e dizendo que a senhora estaria desaparecida ou a monte… fugida, digamos assim, e esse próprio jornal, enfim, desmentindo-se a si próprio dá conta se não estou em erro hoje, que afinal de contas ela está … é perfeitamente possível encontrá-la e fotografaram-na naquilo que julgo ser o local onde habita. Esta senhora não devia ser presa? Ou não devia ser inquirida pela polícia, não devia haver uma investigação...?
(…)
F.M.F.: As circunstâncias levam muitas vezes a que estes crimes fiquem sem queixa, não é? Mas quando tem queixa isto são crimes públicos, que obrigam a uma ação séria da polícia, não é? Agora, muitas vezes… porque eu sei que ela… julgo que sei, que ela já foi presa, um ou duas vezes e foi posta em liberdade, não é? Isto então é…, é mesmo o cacarejar sempre fora do galinheiro, está sempre à vontade.
J.P.: (risos) Já se sente muito à vontade, não é?
F.M.F.: Consegue dar um golpe de 400 ou 500 mil euros, epá, pode tirar umas férias, quer dizer… Tira umas fériazitas porque sabe que depois haverá mais um otário que vai acreditar nas pernas, nas mamas, no sorriso, no fascínio, no olhar, na história. Ela tem as suas histórias.
J.P.: E encanta?!
F.M.F.: Encanta e encanta de tal maneira, que cantando os leva!
J.P.: (risos) Esperemos que mais ninguém, enfim, que mais ninguém… Aparece sempre um, não é? Mas está feito o alerta. A senhora está perfeitamente identificada”.
F.M.F.: E no ativo. (risos)
J.P.: (risos) Está por aí. Tenham cuidado, tenham cuidado. E portanto, esta matéria… seguramente um dia destes teremos mais notícias sobre ela e seguramente também teremos a informação, espero eu, que tenha sido de novo investigada pela polícia.
Talvez o mais interessante seja o da Burlona do Amor, uma história que andou pelos jornais e televisões no início deste ano. Uma pesquisa no google permite obter um conjunto de notícias sobre este caso mas uma boa síntese destes testemunhos está na Deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERCS). Que vão desde a caracterização da "burlona":
- "...nunca se contentou com pouco. Habituada a uma vida de luxos e mordomias, a burlona, de 44 anos, nunca quis trabalhar. Sem fontes de rendimento, tinha ainda o vício do jogo. Tudo graças aos homens que enganara".
- "…, de 44 anos, seduzia os homens para conseguir uma vida luxuosa. Aproveitou também para saldar dívidas de jogo".
- "A burlona, que até hoje nunca foi detida, adorava viajar. Passava longas temporadas em Inglaterra e as passagens de ano eram festejadas nas ilhas Canária".
Até à sugestão de alguma promiscuidade com o seu progenitor:
- "A burlona, que até hoje nunca foi detida, adorava viajar. Passava longas temporadas em Inglaterra e as passagens de ano eram festejadas nas ilhas Canária".
Até à sugestão de alguma promiscuidade com o seu progenitor:
- "…, pai da burlona, sabia das farsas da filha. Era apresentado aos homens e mostrava-se conivente com todas as mentiras. Vivem juntos em Setúbal".
E, claro, a garantia policial:
- "Está a ser investigada pela PJ de Setúbal"
Estes são os testemunhos que presumivelmente bebem da fonte. Quanto aos testemunhos que se constroem sobre testemunhos, a deliberação descreve duas situações diferentes. A primeira é a transcrição de parte da entrevista onde o Dr. Moita Flores (F.M.F.), que, segundo o meio de comunicação social em causa, no uso das suas competências profissionais, traça o perfil psicológico alegada Burlona:
J.P.: Para já, uma história que também já é conhecida, a “Burlona do Amor” continua a ser notícia.
(…)
F.M.F.: A “burlona do amor” é engraçado.
J.P.: (risos) A “burlona do amor” é bonito, não é?
F.M.F.: É bonito!
(…)
F.M.F.: E aliás, esta senhora com a prática que tem, se calhar também vai fazer carreira internacional, não é?
J.P.: (risos) Um dia destes está noutro sítio a fazer estas burlas.
F.M.F.: Ou a polícia que lhe deite a mão e para com isto de uma vez por todas porque a gente diverte-se, mas isto são crimes sérios.
J.P.: São crimes sérios. Ó Francisco, nós estamos a sorrir e a contar, no fundo, a história, mas o que nos deixa… o que fez com que nós hoje trouxéssemos de novo este assunto aqui tem a ver com o facto de esta senhora até há algum tempo atrás… houve um jornal que disse que ela… portanto, publicou a fotografia dela inclusive e dizendo que a senhora estaria desaparecida ou a monte… fugida, digamos assim, e esse próprio jornal, enfim, desmentindo-se a si próprio dá conta se não estou em erro hoje, que afinal de contas ela está … é perfeitamente possível encontrá-la e fotografaram-na naquilo que julgo ser o local onde habita. Esta senhora não devia ser presa? Ou não devia ser inquirida pela polícia, não devia haver uma investigação...?
(…)
F.M.F.: As circunstâncias levam muitas vezes a que estes crimes fiquem sem queixa, não é? Mas quando tem queixa isto são crimes públicos, que obrigam a uma ação séria da polícia, não é? Agora, muitas vezes… porque eu sei que ela… julgo que sei, que ela já foi presa, um ou duas vezes e foi posta em liberdade, não é? Isto então é…, é mesmo o cacarejar sempre fora do galinheiro, está sempre à vontade.
J.P.: (risos) Já se sente muito à vontade, não é?
F.M.F.: Consegue dar um golpe de 400 ou 500 mil euros, epá, pode tirar umas férias, quer dizer… Tira umas fériazitas porque sabe que depois haverá mais um otário que vai acreditar nas pernas, nas mamas, no sorriso, no fascínio, no olhar, na história. Ela tem as suas histórias.
J.P.: E encanta?!
F.M.F.: Encanta e encanta de tal maneira, que cantando os leva!
J.P.: (risos) Esperemos que mais ninguém, enfim, que mais ninguém… Aparece sempre um, não é? Mas está feito o alerta. A senhora está perfeitamente identificada”.
F.M.F.: E no ativo. (risos)
J.P.: (risos) Está por aí. Tenham cuidado, tenham cuidado. E portanto, esta matéria… seguramente um dia destes teremos mais notícias sobre ela e seguramente também teremos a informação, espero eu, que tenha sido de novo investigada pela polícia.
Se neste testemunho se faz o espírito com pessoas de Fernando Pessoa, já a segunda situação está mais próxima de uma metafísica do testemunho, segundo Paul Ricouer. Nela o testemunho da "Burlona" sobre ela própria é inserido no "livro" de testemunhos:
- No dia 7 de março, o <jornal> publicou um direito de resposta exercido pela ora queixosa, tendo o jornal intitulado o Direito de Resposta de “Carta de ‘Burlona do Amor’”. No final do texto surge a seguinte nota: “Nota da Direção: o <jornal> esclarecerá amanhã alguns pontos sobre este direito de resposta”.
Ou seja, o testemunho da "Burlona" é usado para confirmar os testemunhos que "bebem" da fonte, e aqui começa a metafísica, pois o louco não pode provar que não está louco pois é louco.
Mas ainda assim, para encontrar uma metafísica do mal, é pouco. Por isso ocorre-me uma frase que li em The End, de Ian Kershaw, sobre o último ano da segunda guerra mundial: "goza a guerra pois a paz vai ser pior". Como é possível tal afirmação? De acordo com o autor deve-se à identificação entre o destino de Hitler e o destino da Alemanha. A não separação entre os dois levou ao fortalecer da resistência mas, eventualmente, à queda de ambos. Num poema do Tao Te Ching poderá estar alguma pista para perceber como se gera este inferno:
Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.
Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.
Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.
Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.
Parece ser neste copular entre o bem e o mal que se poderá encontrar uma metafísica do mal.
Continuo à procura de testemunhos.
- No dia 7 de março, o <jornal> publicou um direito de resposta exercido pela ora queixosa, tendo o jornal intitulado o Direito de Resposta de “Carta de ‘Burlona do Amor’”. No final do texto surge a seguinte nota: “Nota da Direção: o <jornal> esclarecerá amanhã alguns pontos sobre este direito de resposta”.
Ou seja, o testemunho da "Burlona" é usado para confirmar os testemunhos que "bebem" da fonte, e aqui começa a metafísica, pois o louco não pode provar que não está louco pois é louco.
Mas ainda assim, para encontrar uma metafísica do mal, é pouco. Por isso ocorre-me uma frase que li em The End, de Ian Kershaw, sobre o último ano da segunda guerra mundial: "goza a guerra pois a paz vai ser pior". Como é possível tal afirmação? De acordo com o autor deve-se à identificação entre o destino de Hitler e o destino da Alemanha. A não separação entre os dois levou ao fortalecer da resistência mas, eventualmente, à queda de ambos. Num poema do Tao Te Ching poderá estar alguma pista para perceber como se gera este inferno:
Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.
Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.
Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.
Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.
Parece ser neste copular entre o bem e o mal que se poderá encontrar uma metafísica do mal.
Continuo à procura de testemunhos.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Kizombas de sempre
Nisto das Kizombas há as más, as assim assim, e as de sempre. O Jeito Dela, http://www.youtube.com/watch?v=HyZmUf4yJu4, do Moçambicano Gasso, pertence ao conjunto destas últimas. Num estilo ultra-romântico, por vezes a roçar o pimba, e com um excelente video oficial, que faz lembrar a corrente expressionista do cinema Alemão, vejam-se os grandes planos dos rostos, deve ser dançada tomando as respetivas pausas.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Inferno
Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa
Num dos seus contos, Italo Calvino descreve um planeta terra vazio onde os mais variados objetos vão caindo do céu. Numa parábola à criação, os seus dois únicos habitantes vão zelosamente juntando o que encontram - fogões, vasos, árvores, … - e meticulosamente arrumando cada coisa no seu lugar. Também eu não resisto à tentação a ir encaixando o que vou encontrando.
Agora que se aproxima do fim o meu terceiro livro quero abraçar algo mais ambicioso, uma narrativa sobre o Inferno. Para isso tenho vindo a juntar pequenos apontamentos que aqui apresento como se uma ordem tivessem.
Se um início houvesse, diria que ocorreu à mais de três anos, quando me foi anunciado o Inferno. Daí a imaginar todas as possíveis combinações de Inferno foi um passo. Depois, foi o tempo de perceber da sua inevitabilidade. Então juntei-lhe a citação que ouvi há dias de Alberto Caeiro: sou do tamanho daquilo que vejo. Desta conjugação entre o que aconteceu há três anos e o que ouvi há dias nasceu a intenção de escrever um livro sobre o Inferno.
Contudo, não basta ter os olhos abertos e observar o que nos cerca, é necessário ter uma estrutura. O primeiro passo foi a procura de um condenado ao Inferno. Encontrei La Gloire num livro de Boris Vian lido na adolescência. Condenado a recolher cadáveres com os dentes do fundo rio em troca do ouro dos habitantes, La Gloire encarna um Inferno aquático sem fogo.
Mas para haver um Inferno tem que haver um conceito de mal absoluto. Para isso procurei o conceito de bem absoluto no trabalho de Paul Ricouer sobre a hermenêutica do testemunho. De acordo com Ricoeur existe uma metafísica relativamente ao testemunho que vai para além da experiência e da ideia do bem. Acorreu-me então que o livro poderia ser feito apenas de testemunhos sobre o condenado para daí surgir uma metafísica do mal.
A seguinte questão coloca-se sobre quais são os testemunhos que contêm essa capacidade metafísica de geração da consciência do mal absoluto. Lembrei-me a seleção feitas dos Evangelhos e a sua depuração dos apócrifos. Assim, uma narrativa sobre o Inferno poderia descrever o processo de seleção dos testemunhos verdadeiros, aqueles que consubstanciam e emanam o mal, na perspetiva de uma das pessoas incumbida dessa seleção. Focar-se-ia o livro em uma única pessoa e na sua (re)leitura dos testemunhos, as dúvidas que se lhe levantam, e as estratégias e modelos mentais subjacentes à seleção que vai construindo.
Finalmente, recentemente li a frase de Fernando Pessoa, com que encabeço este texto: Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas. Creio haver alguma contradição entre a pobreza do espírito feito apenas com pessoas e a metafísica do testemunho, mas aceitei este como um desafio que poderá enriquecer o livro. Contudo, para poder continuar gostaria de obter um extenso conjunto de testemunhos do mal sobre os quais possa trabalhar. Para isso peço aos meus leitores que achem que têm histórias que valha a pena contar que me enviem. Estou particularmente interessado em testemunhos que sejam construídos sobre testemunhos, em que não tenha havido contacto direto com a origem do mal, mas que possam conter essa experiência metafísica emergente da interação com um testemunho.
Agradeço todas as contribuições que me possam enviar para Antonio.Rito.Silva@gmail.com. Obrigado.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa
Num dos seus contos, Italo Calvino descreve um planeta terra vazio onde os mais variados objetos vão caindo do céu. Numa parábola à criação, os seus dois únicos habitantes vão zelosamente juntando o que encontram - fogões, vasos, árvores, … - e meticulosamente arrumando cada coisa no seu lugar. Também eu não resisto à tentação a ir encaixando o que vou encontrando.
Agora que se aproxima do fim o meu terceiro livro quero abraçar algo mais ambicioso, uma narrativa sobre o Inferno. Para isso tenho vindo a juntar pequenos apontamentos que aqui apresento como se uma ordem tivessem.
Se um início houvesse, diria que ocorreu à mais de três anos, quando me foi anunciado o Inferno. Daí a imaginar todas as possíveis combinações de Inferno foi um passo. Depois, foi o tempo de perceber da sua inevitabilidade. Então juntei-lhe a citação que ouvi há dias de Alberto Caeiro: sou do tamanho daquilo que vejo. Desta conjugação entre o que aconteceu há três anos e o que ouvi há dias nasceu a intenção de escrever um livro sobre o Inferno.
Contudo, não basta ter os olhos abertos e observar o que nos cerca, é necessário ter uma estrutura. O primeiro passo foi a procura de um condenado ao Inferno. Encontrei La Gloire num livro de Boris Vian lido na adolescência. Condenado a recolher cadáveres com os dentes do fundo rio em troca do ouro dos habitantes, La Gloire encarna um Inferno aquático sem fogo.
Mas para haver um Inferno tem que haver um conceito de mal absoluto. Para isso procurei o conceito de bem absoluto no trabalho de Paul Ricouer sobre a hermenêutica do testemunho. De acordo com Ricoeur existe uma metafísica relativamente ao testemunho que vai para além da experiência e da ideia do bem. Acorreu-me então que o livro poderia ser feito apenas de testemunhos sobre o condenado para daí surgir uma metafísica do mal.
A seguinte questão coloca-se sobre quais são os testemunhos que contêm essa capacidade metafísica de geração da consciência do mal absoluto. Lembrei-me a seleção feitas dos Evangelhos e a sua depuração dos apócrifos. Assim, uma narrativa sobre o Inferno poderia descrever o processo de seleção dos testemunhos verdadeiros, aqueles que consubstanciam e emanam o mal, na perspetiva de uma das pessoas incumbida dessa seleção. Focar-se-ia o livro em uma única pessoa e na sua (re)leitura dos testemunhos, as dúvidas que se lhe levantam, e as estratégias e modelos mentais subjacentes à seleção que vai construindo.
Finalmente, recentemente li a frase de Fernando Pessoa, com que encabeço este texto: Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas. Creio haver alguma contradição entre a pobreza do espírito feito apenas com pessoas e a metafísica do testemunho, mas aceitei este como um desafio que poderá enriquecer o livro. Contudo, para poder continuar gostaria de obter um extenso conjunto de testemunhos do mal sobre os quais possa trabalhar. Para isso peço aos meus leitores que achem que têm histórias que valha a pena contar que me enviem. Estou particularmente interessado em testemunhos que sejam construídos sobre testemunhos, em que não tenha havido contacto direto com a origem do mal, mas que possam conter essa experiência metafísica emergente da interação com um testemunho.
Agradeço todas as contribuições que me possam enviar para Antonio.Rito.Silva@gmail.com. Obrigado.
domingo, 24 de novembro de 2013
Dissensus
Saio do Everest Montanha e decido caminhar para deixar discorrer pelos membros os calores que alguns pratos Nepaleses emprestam ao corpo. Ao passar pelo Júlio de Matos vejo-me na obrigação de agarrar uma folha de papel que esvoaçando quase se me entrega nas mãos. Nesta folha leio, escrevinhado, as atuais notícias da minha sanidade são tão exageradas como as, anteriores, acerca da minha loucura.
Estaco, e, enquanto o ar frio da noite me entra pelo nariz num brado de refrigeração solicitada pelo corpo, ocorre-me que este deve ser mais um daqueles ineficazes gritos com pretensões literárias, em que o grito empobrece a pretensão e o estilo literário abafa o grito. Foi com certeza escrito por um dos loucos que aqui habita, penso.
Entretanto, começa a tomar conta do meu corpo uma sensação de dissensus. Não sei se se deve à folha entre mãos ou à comida que ingeri. Nesta imobilidade dou comigo a imaginar o psiquiatra deste pobre louco, entre compêndios, gerando o consensus, agarrando-se a todos os possíveis factos e, em desespero de causa, criando, aqui e ali, o que faz falta. Imagino também os sucessivos construídos universos de que o louco se entretém a divergir.
Retomando o passo, vou-me afastando e sinto comiseração pelo pobre psiquiatra.
Estaco, e, enquanto o ar frio da noite me entra pelo nariz num brado de refrigeração solicitada pelo corpo, ocorre-me que este deve ser mais um daqueles ineficazes gritos com pretensões literárias, em que o grito empobrece a pretensão e o estilo literário abafa o grito. Foi com certeza escrito por um dos loucos que aqui habita, penso.
Entretanto, começa a tomar conta do meu corpo uma sensação de dissensus. Não sei se se deve à folha entre mãos ou à comida que ingeri. Nesta imobilidade dou comigo a imaginar o psiquiatra deste pobre louco, entre compêndios, gerando o consensus, agarrando-se a todos os possíveis factos e, em desespero de causa, criando, aqui e ali, o que faz falta. Imagino também os sucessivos construídos universos de que o louco se entretém a divergir.
Retomando o passo, vou-me afastando e sinto comiseração pelo pobre psiquiatra.
domingo, 29 de setembro de 2013
Memória
(publicado em 24 de Setembro de 2013)
O que seria da memória se não fosse o esquecimento? Tal como na senilidade o esquecimento nos enche das texturas da memória também neste livro procurei juntar tudo o que vou encontrando por entre o que já não recordo. E não posso negar ter abrilhantado, com mais ou menos cuidado, o que vai surgindo, tal como a memória o faz para não se deixar cair no abismo olvidar.
Mentiria, também, se dissesse que não há uma teoria por detrás, uma linha onde penduro esta memória. Sou incapaz de escapar à obsessão da ordem, mesmo quando o nego. Por isso, este pequeno livro procura fazer um todo, esgotar a memória, fechar nestas páginas tudo o que pudesse vir a recordar. Mais uma vaidade de duvidosa concretização, mas se não fosse assim este objeto não existiria. Agora que desisto do todo, para o livro poder existir, o que aqui não fica com certeza se virá a manifestar debaixo de outros nomes e de outras formas, pois para isso serve a memória.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Mem%C3%B3ria-Portuguese-Ant%C3%B3nio-Rito-Silva/dp/1492363774
O que seria da memória se não fosse o esquecimento? Tal como na senilidade o esquecimento nos enche das texturas da memória também neste livro procurei juntar tudo o que vou encontrando por entre o que já não recordo. E não posso negar ter abrilhantado, com mais ou menos cuidado, o que vai surgindo, tal como a memória o faz para não se deixar cair no abismo olvidar.
Mentiria, também, se dissesse que não há uma teoria por detrás, uma linha onde penduro esta memória. Sou incapaz de escapar à obsessão da ordem, mesmo quando o nego. Por isso, este pequeno livro procura fazer um todo, esgotar a memória, fechar nestas páginas tudo o que pudesse vir a recordar. Mais uma vaidade de duvidosa concretização, mas se não fosse assim este objeto não existiria. Agora que desisto do todo, para o livro poder existir, o que aqui não fica com certeza se virá a manifestar debaixo de outros nomes e de outras formas, pois para isso serve a memória.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Mem%C3%B3ria-Portuguese-Ant%C3%B3nio-Rito-Silva/dp/1492363774
sábado, 28 de setembro de 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Conjugar o verbo Querer na China Capitalista Comunista Budista Taoista Confucionista
Presente:
Eu não quero
Tu não queres
Ele não quer
Nós queremos
Vós não quereis
Eles não querem
Futuro Indicativo Capitalista:
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Pretérito Perfeito Comunista:
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Conjuntivo Budista:
Se eu quisesse nós não quereríamos
Se tu quisesses nós não quereríamos
Se ele quisesse nós não quereríamos
Se eu não quisesse nós quereríamos
Se vós quisésseis nós não quereríamos
Se eles quisessem nós não quereríamos
Pretérito mais que Perfeito Taoista:
Nós quiséramos suprema harmonia
Nós quiséramos central harmonia
Nós quiséramos preservar harmonia
Nós quiséramos harmonia celestial
Nós quiséramos eterna harmonia
Nós quiséramos completa harmonia
Imperativo Confucionista:
Queiramos nós antepassados
Queiramos nós lealdade
Queiramos nós regras
Queiramos nós estabilidade
Queiramos nós ordem
Queiramos nós harmonia social
Interrogativo Dezasseistista:
Porquê deixar de eu querer e ainda assim fazer?
17 de Setembro de 2013
Eu não quero
Tu não queres
Ele não quer
Nós queremos
Vós não quereis
Eles não querem
Futuro Indicativo Capitalista:
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Pretérito Perfeito Comunista:
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Conjuntivo Budista:
Se eu quisesse nós não quereríamos
Se tu quisesses nós não quereríamos
Se ele quisesse nós não quereríamos
Se eu não quisesse nós quereríamos
Se vós quisésseis nós não quereríamos
Se eles quisessem nós não quereríamos
Pretérito mais que Perfeito Taoista:
Nós quiséramos suprema harmonia
Nós quiséramos central harmonia
Nós quiséramos preservar harmonia
Nós quiséramos harmonia celestial
Nós quiséramos eterna harmonia
Nós quiséramos completa harmonia
Imperativo Confucionista:
Queiramos nós antepassados
Queiramos nós lealdade
Queiramos nós regras
Queiramos nós estabilidade
Queiramos nós ordem
Queiramos nós harmonia social
Interrogativo Dezasseistista:
Porquê deixar de eu querer e ainda assim fazer?
17 de Setembro de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Ainda os mesmos Bichos
Ainda os mesmos Bichos (publicado em 8 de Agosto de 2013)
O que gosto em Bichos de Miguel Torga são as frases que não esbanjam e o Portugal de Trás-os-Montes, que suspeito não será muito diferente de uma Beira Baixa que conheci. Uma terra que obrigava homens e animais a serem bichos. O cão, o gato e o burro que por ali andam fingindo ser nossos.
Por acaso, surgiu a possibilidade de o reler.
Desse reencontro com os Bichos, escritos aos pedaços, um por cada conto de Miguel Torga, mais três outros à laia de fecho, surgiram estes fragmentos que agora aqui junto. A sua releitura mostrou-me que já tinha esquecido o suficiente para agora não me atrever alterá-los para além de algumas ligeiras pinceladas. Tal como os bichos, podem ainda fingir ser meus, mas, já não me pertencem.
Outros bichos haverá, mas no momento, que se repetiu no correr dos dias do Outono, foram estes que encontrei. Agora, aqui juntos, gostaria que a leitura de cada um seja um relampejo imediatamente seguido de um esquecimento, como as manifestações dos bichos.
Neste rearranjo voltei a verificar que gosto destes bichos. Espero que também goste.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Ainda-mesmos-Bichos-Ant%C3%B3nio-Silva/dp/1491071893
O que gosto em Bichos de Miguel Torga são as frases que não esbanjam e o Portugal de Trás-os-Montes, que suspeito não será muito diferente de uma Beira Baixa que conheci. Uma terra que obrigava homens e animais a serem bichos. O cão, o gato e o burro que por ali andam fingindo ser nossos.
Por acaso, surgiu a possibilidade de o reler.
Desse reencontro com os Bichos, escritos aos pedaços, um por cada conto de Miguel Torga, mais três outros à laia de fecho, surgiram estes fragmentos que agora aqui junto. A sua releitura mostrou-me que já tinha esquecido o suficiente para agora não me atrever alterá-los para além de algumas ligeiras pinceladas. Tal como os bichos, podem ainda fingir ser meus, mas, já não me pertencem.
Outros bichos haverá, mas no momento, que se repetiu no correr dos dias do Outono, foram estes que encontrei. Agora, aqui juntos, gostaria que a leitura de cada um seja um relampejo imediatamente seguido de um esquecimento, como as manifestações dos bichos.
Neste rearranjo voltei a verificar que gosto destes bichos. Espero que também goste.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Ainda-mesmos-Bichos-Ant%C3%B3nio-Silva/dp/1491071893
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