Milagres feitos devagar são obras da Natureza; obras da natureza feitas depressa são milagres.
- Sermão do SS. Sacramento (1645), Padre António Vieira
terça-feira, 4 de março de 2014
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Carl Sagan
o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança
- Sermão de Quarta-feira de Cinza (1672), Padre António Vieira
- Sermão de Quarta-feira de Cinza (1672), Padre António Vieira
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Politicamente correto
Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: “Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.”
- Sermão da Sexagésima, Padre António Vieira
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Manducar
"A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande."
-- Sermão de Santo António aos Peixes -- Padre António Vieira
-- Sermão de Santo António aos Peixes -- Padre António Vieira
domingo, 9 de fevereiro de 2014
A Democracia e a Classe média
Agora que se fala no enfraquecimento da classe média, dois artigos interessantes para pensar sobre o papel democracia hoje em dia.
Democracy vs. Inequality
Asian Democracy
Democracy vs. Inequality
Asian Democracy
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Crónicas do Inferno
Uma colega perguntava-me se não me incomodava as pessoas poderem associar o que escrevo no blog e o que faço como Professor do Técnico. Como se o receio de quem pergunta pudesse passar para quem responde. Recordei a fábula de Esopo sobre o velho, o menino e o burro. Realmente não há muito a recear, se quiserem falar, falarão, quer vamos montados no burro ou com o burro às costas. Mas esta é a visão mais simples.
Mais interessante é a possibilidade para se construir uma história invertida. A geração de atos não intencionais, quase aleatórios, seguida da observação da sua interpretação pelos outros. Como que se um escritor resolvesse escrever uma história gerando um conjunto fortuito de atos, não estabelecendo a priori, ou intencionalmente, qualquer relações entre eles, sendo depois um cronista.
Esta escrita na vida seguida da escrita da crónica é provavelmente a única possibilidade de escrita. Aqui exacerbada, através da interpretação intermédia dos outros, ela acontece sempre que um escritor acaba de escrever uma palavra e a consciência espontânea que ela lhe gera no contexto em que é colocada. Veja-se acima a palavra invertida, que usei para referir a geração de uma história de forma inversa, a crónica (história) das interpretações em vez de uma história para ser interpretada, logo suscitou em mim a consciência que a palavra pode ter outra interpretação. A decisão de a deixar lá ficar é a possibilidade de gerar uma história invertida, e tudo isso acontece numa fração de segundos sem a mediação dos outros. Agora é só ficar à escuta.
Claro que isto me leva à crónica dos testemunho, à crónica do inferno. A história dos testemunhos como construção coerente de uma narrativa. Mas que coerência poderá haver numa narrativa construída sobre atos fortuitos?
Esta foi a minha questão inicial. O edifício narrativo facilmente ruirá ao acaso, pensei. Curiosamente não é assim por duas razões. A primeira é que a narrativa se constrói sobre uma ideia, podemos chamar-se uma verdade, a qual permite filtrar os atos à luz da sua coerência. A escrita desta mensagem e a sua não escrita, e ambas ainda são possíveis pois ainda não publiquei, serão interpretadas à mesma luz. A segunda razão tem a ver com o pendor do poder para rescrever a história. Ou seja, quando a dissemelhança de situações começa a ser insuportável para a coerência narrativa surge a necessidade de rescrever. A reescrita pode ser bruta, simplesmente colocando e retirando da fotografia, criando atos coerentes, ou subtil, através de retoques nos gradientes da memória.
Para as Crónicas do Inferno procuro as formas e tonalidades da interpretação e da reescrita nos testemunhos. Cada interpretação, cada reescrita, incluindo a sua crónica, é obra do escritor à procura da sua coerência narrativa. Já a incoerência do todo é obra de Deus.
Mais interessante é a possibilidade para se construir uma história invertida. A geração de atos não intencionais, quase aleatórios, seguida da observação da sua interpretação pelos outros. Como que se um escritor resolvesse escrever uma história gerando um conjunto fortuito de atos, não estabelecendo a priori, ou intencionalmente, qualquer relações entre eles, sendo depois um cronista.
Esta escrita na vida seguida da escrita da crónica é provavelmente a única possibilidade de escrita. Aqui exacerbada, através da interpretação intermédia dos outros, ela acontece sempre que um escritor acaba de escrever uma palavra e a consciência espontânea que ela lhe gera no contexto em que é colocada. Veja-se acima a palavra invertida, que usei para referir a geração de uma história de forma inversa, a crónica (história) das interpretações em vez de uma história para ser interpretada, logo suscitou em mim a consciência que a palavra pode ter outra interpretação. A decisão de a deixar lá ficar é a possibilidade de gerar uma história invertida, e tudo isso acontece numa fração de segundos sem a mediação dos outros. Agora é só ficar à escuta.
Claro que isto me leva à crónica dos testemunho, à crónica do inferno. A história dos testemunhos como construção coerente de uma narrativa. Mas que coerência poderá haver numa narrativa construída sobre atos fortuitos?
Esta foi a minha questão inicial. O edifício narrativo facilmente ruirá ao acaso, pensei. Curiosamente não é assim por duas razões. A primeira é que a narrativa se constrói sobre uma ideia, podemos chamar-se uma verdade, a qual permite filtrar os atos à luz da sua coerência. A escrita desta mensagem e a sua não escrita, e ambas ainda são possíveis pois ainda não publiquei, serão interpretadas à mesma luz. A segunda razão tem a ver com o pendor do poder para rescrever a história. Ou seja, quando a dissemelhança de situações começa a ser insuportável para a coerência narrativa surge a necessidade de rescrever. A reescrita pode ser bruta, simplesmente colocando e retirando da fotografia, criando atos coerentes, ou subtil, através de retoques nos gradientes da memória.
Para as Crónicas do Inferno procuro as formas e tonalidades da interpretação e da reescrita nos testemunhos. Cada interpretação, cada reescrita, incluindo a sua crónica, é obra do escritor à procura da sua coerência narrativa. Já a incoerência do todo é obra de Deus.
domingo, 26 de janeiro de 2014
Judeu
Ao ler -- Pode fazê-lo trabalhar 18 horas por dia, pode alojá-lo numa casota, pode mandá-lo desactivar uma bomba, dormir com, servir à mesa vestido de libré, ou fazer salamaleques às visitas. -- em a Nova Escravatura Civilizada ocorreu-me uma frase do Judeu Groucho Marx -- Military justice is to justice what military music is to music.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Ainda sobre o copular entre o bem e o mal
O inferno enquanto o copular entre o bem e o mal poderá parecer excessivo. Mas nada como procurar exemplos. Zen at War de Brian Victoria, sobre o Budismo Zen no período Meiji (1868-1945) no Japão e a sua subordinação ao estado pode ser um desses exemplos. Brian Victoria descreve como o Budismo Zen para "sobreviver" se foi moldando à política imperialista Nipónica e contribuiu para a máquina de guerra, como os princípios do não-ser eram usados na doutrinação dos Kamikaze. Uma manifestação deste inferno é patente num texto de D. T. Suzuki citada em Zen at War:
The sword is generally associated with killing, and most of us wonder how it can come into connection with Zen, which is a school of Buddhism teaching the gospel of love and mercy. The fact is that the art of swordsmanship distinguishes between the sword that kills and the sword that gives life. The one that is used by a technician cannot go any further than killing, for he never appeals to the sword unless he intends to kill. The case is altogether different with the one who is compelled to lift the sword. For it is not he but the sword itself that does the killing. He has no desire to do harm to anybody, but the enemy appears and makes himself a victim. It is as though the sword performs automatically its function of justice, which is the function of mercy... When the sword is expected to play this sort of role in human life, it is no more a weapon of self-defense or an instrument of killing, and the swordsman turns into an artist of the first grade, engaged in producing a work of genuine originality.
A questão está em saber se nesta separação entre o que empunha a espada e a morte da espada existe hipocrisia ou se será apenas cegueira formal. Se for cegueira formal então ainda poderemos encontrar alguma beleza nas espadas que cumprem o seu destino, algo que também se encontra em algumas histórias de Borges, como se a propagação do ódio pudesse ser feita através da herança do faqueiro. Infelizmente, a ausência em D. T. Suzuki de qualquer dor no pós-guerra, e a continuação do boiar, sugerem mais a hipocrisia ou, talvez, o seu entrelaçar com a cegueira formal.
A ironia, e é a ironia que o poder teme pois jamais a ironia conseguiu alcançar o poder, é que filosofia Zen é muito influenciada pelo Tao Te Ching. Uma ironia Taoista/Zen, e por isso não é demais relembrar o décimo oitavo poema do Tao Te Ching:
Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.
Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.
Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.
Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.
The sword is generally associated with killing, and most of us wonder how it can come into connection with Zen, which is a school of Buddhism teaching the gospel of love and mercy. The fact is that the art of swordsmanship distinguishes between the sword that kills and the sword that gives life. The one that is used by a technician cannot go any further than killing, for he never appeals to the sword unless he intends to kill. The case is altogether different with the one who is compelled to lift the sword. For it is not he but the sword itself that does the killing. He has no desire to do harm to anybody, but the enemy appears and makes himself a victim. It is as though the sword performs automatically its function of justice, which is the function of mercy... When the sword is expected to play this sort of role in human life, it is no more a weapon of self-defense or an instrument of killing, and the swordsman turns into an artist of the first grade, engaged in producing a work of genuine originality.
A questão está em saber se nesta separação entre o que empunha a espada e a morte da espada existe hipocrisia ou se será apenas cegueira formal. Se for cegueira formal então ainda poderemos encontrar alguma beleza nas espadas que cumprem o seu destino, algo que também se encontra em algumas histórias de Borges, como se a propagação do ódio pudesse ser feita através da herança do faqueiro. Infelizmente, a ausência em D. T. Suzuki de qualquer dor no pós-guerra, e a continuação do boiar, sugerem mais a hipocrisia ou, talvez, o seu entrelaçar com a cegueira formal.
A ironia, e é a ironia que o poder teme pois jamais a ironia conseguiu alcançar o poder, é que filosofia Zen é muito influenciada pelo Tao Te Ching. Uma ironia Taoista/Zen, e por isso não é demais relembrar o décimo oitavo poema do Tao Te Ching:
Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.
Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.
Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.
Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.
sábado, 21 de dezembro de 2013
A Burlona do Amor, The End e Tao Te Ching
Dos testemunhos, até agora, alguma parra mas pouca uva.
Talvez o mais interessante seja o da Burlona do Amor, uma história que andou pelos jornais e televisões no início deste ano. Uma pesquisa no google permite obter um conjunto de notícias sobre este caso mas uma boa síntese destes testemunhos está na Deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERCS). Que vão desde a caracterização da "burlona":
- "...nunca se contentou com pouco. Habituada a uma vida de luxos e mordomias, a burlona, de 44 anos, nunca quis trabalhar. Sem fontes de rendimento, tinha ainda o vício do jogo. Tudo graças aos homens que enganara".
- "…, pai da burlona, sabia das farsas da filha. Era apresentado aos homens e mostrava-se conivente com todas as mentiras. Vivem juntos em Setúbal".
E, claro, a garantia policial:
- "Está a ser investigada pela PJ de Setúbal"
Estes são os testemunhos que presumivelmente bebem da fonte. Quanto aos testemunhos que se constroem sobre testemunhos, a deliberação descreve duas situações diferentes. A primeira é a transcrição de parte da entrevista onde o Dr. Moita Flores (F.M.F.), que, segundo o meio de comunicação social em causa, no uso das suas competências profissionais, traça o perfil psicológico alegada Burlona:
J.P.: Para já, uma história que também já é conhecida, a “Burlona do Amor” continua a ser notícia.
(…)
F.M.F.: A “burlona do amor” é engraçado.
J.P.: (risos) A “burlona do amor” é bonito, não é?
F.M.F.: É bonito!
(…)
F.M.F.: E aliás, esta senhora com a prática que tem, se calhar também vai fazer carreira internacional, não é?
J.P.: (risos) Um dia destes está noutro sítio a fazer estas burlas.
F.M.F.: Ou a polícia que lhe deite a mão e para com isto de uma vez por todas porque a gente diverte-se, mas isto são crimes sérios.
J.P.: São crimes sérios. Ó Francisco, nós estamos a sorrir e a contar, no fundo, a história, mas o que nos deixa… o que fez com que nós hoje trouxéssemos de novo este assunto aqui tem a ver com o facto de esta senhora até há algum tempo atrás… houve um jornal que disse que ela… portanto, publicou a fotografia dela inclusive e dizendo que a senhora estaria desaparecida ou a monte… fugida, digamos assim, e esse próprio jornal, enfim, desmentindo-se a si próprio dá conta se não estou em erro hoje, que afinal de contas ela está … é perfeitamente possível encontrá-la e fotografaram-na naquilo que julgo ser o local onde habita. Esta senhora não devia ser presa? Ou não devia ser inquirida pela polícia, não devia haver uma investigação...?
(…)
F.M.F.: As circunstâncias levam muitas vezes a que estes crimes fiquem sem queixa, não é? Mas quando tem queixa isto são crimes públicos, que obrigam a uma ação séria da polícia, não é? Agora, muitas vezes… porque eu sei que ela… julgo que sei, que ela já foi presa, um ou duas vezes e foi posta em liberdade, não é? Isto então é…, é mesmo o cacarejar sempre fora do galinheiro, está sempre à vontade.
J.P.: (risos) Já se sente muito à vontade, não é?
F.M.F.: Consegue dar um golpe de 400 ou 500 mil euros, epá, pode tirar umas férias, quer dizer… Tira umas fériazitas porque sabe que depois haverá mais um otário que vai acreditar nas pernas, nas mamas, no sorriso, no fascínio, no olhar, na história. Ela tem as suas histórias.
J.P.: E encanta?!
F.M.F.: Encanta e encanta de tal maneira, que cantando os leva!
J.P.: (risos) Esperemos que mais ninguém, enfim, que mais ninguém… Aparece sempre um, não é? Mas está feito o alerta. A senhora está perfeitamente identificada”.
F.M.F.: E no ativo. (risos)
J.P.: (risos) Está por aí. Tenham cuidado, tenham cuidado. E portanto, esta matéria… seguramente um dia destes teremos mais notícias sobre ela e seguramente também teremos a informação, espero eu, que tenha sido de novo investigada pela polícia.
Talvez o mais interessante seja o da Burlona do Amor, uma história que andou pelos jornais e televisões no início deste ano. Uma pesquisa no google permite obter um conjunto de notícias sobre este caso mas uma boa síntese destes testemunhos está na Deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERCS). Que vão desde a caracterização da "burlona":
- "...nunca se contentou com pouco. Habituada a uma vida de luxos e mordomias, a burlona, de 44 anos, nunca quis trabalhar. Sem fontes de rendimento, tinha ainda o vício do jogo. Tudo graças aos homens que enganara".
- "…, de 44 anos, seduzia os homens para conseguir uma vida luxuosa. Aproveitou também para saldar dívidas de jogo".
- "A burlona, que até hoje nunca foi detida, adorava viajar. Passava longas temporadas em Inglaterra e as passagens de ano eram festejadas nas ilhas Canária".
Até à sugestão de alguma promiscuidade com o seu progenitor:
- "A burlona, que até hoje nunca foi detida, adorava viajar. Passava longas temporadas em Inglaterra e as passagens de ano eram festejadas nas ilhas Canária".
Até à sugestão de alguma promiscuidade com o seu progenitor:
- "…, pai da burlona, sabia das farsas da filha. Era apresentado aos homens e mostrava-se conivente com todas as mentiras. Vivem juntos em Setúbal".
E, claro, a garantia policial:
- "Está a ser investigada pela PJ de Setúbal"
Estes são os testemunhos que presumivelmente bebem da fonte. Quanto aos testemunhos que se constroem sobre testemunhos, a deliberação descreve duas situações diferentes. A primeira é a transcrição de parte da entrevista onde o Dr. Moita Flores (F.M.F.), que, segundo o meio de comunicação social em causa, no uso das suas competências profissionais, traça o perfil psicológico alegada Burlona:
J.P.: Para já, uma história que também já é conhecida, a “Burlona do Amor” continua a ser notícia.
(…)
F.M.F.: A “burlona do amor” é engraçado.
J.P.: (risos) A “burlona do amor” é bonito, não é?
F.M.F.: É bonito!
(…)
F.M.F.: E aliás, esta senhora com a prática que tem, se calhar também vai fazer carreira internacional, não é?
J.P.: (risos) Um dia destes está noutro sítio a fazer estas burlas.
F.M.F.: Ou a polícia que lhe deite a mão e para com isto de uma vez por todas porque a gente diverte-se, mas isto são crimes sérios.
J.P.: São crimes sérios. Ó Francisco, nós estamos a sorrir e a contar, no fundo, a história, mas o que nos deixa… o que fez com que nós hoje trouxéssemos de novo este assunto aqui tem a ver com o facto de esta senhora até há algum tempo atrás… houve um jornal que disse que ela… portanto, publicou a fotografia dela inclusive e dizendo que a senhora estaria desaparecida ou a monte… fugida, digamos assim, e esse próprio jornal, enfim, desmentindo-se a si próprio dá conta se não estou em erro hoje, que afinal de contas ela está … é perfeitamente possível encontrá-la e fotografaram-na naquilo que julgo ser o local onde habita. Esta senhora não devia ser presa? Ou não devia ser inquirida pela polícia, não devia haver uma investigação...?
(…)
F.M.F.: As circunstâncias levam muitas vezes a que estes crimes fiquem sem queixa, não é? Mas quando tem queixa isto são crimes públicos, que obrigam a uma ação séria da polícia, não é? Agora, muitas vezes… porque eu sei que ela… julgo que sei, que ela já foi presa, um ou duas vezes e foi posta em liberdade, não é? Isto então é…, é mesmo o cacarejar sempre fora do galinheiro, está sempre à vontade.
J.P.: (risos) Já se sente muito à vontade, não é?
F.M.F.: Consegue dar um golpe de 400 ou 500 mil euros, epá, pode tirar umas férias, quer dizer… Tira umas fériazitas porque sabe que depois haverá mais um otário que vai acreditar nas pernas, nas mamas, no sorriso, no fascínio, no olhar, na história. Ela tem as suas histórias.
J.P.: E encanta?!
F.M.F.: Encanta e encanta de tal maneira, que cantando os leva!
J.P.: (risos) Esperemos que mais ninguém, enfim, que mais ninguém… Aparece sempre um, não é? Mas está feito o alerta. A senhora está perfeitamente identificada”.
F.M.F.: E no ativo. (risos)
J.P.: (risos) Está por aí. Tenham cuidado, tenham cuidado. E portanto, esta matéria… seguramente um dia destes teremos mais notícias sobre ela e seguramente também teremos a informação, espero eu, que tenha sido de novo investigada pela polícia.
Se neste testemunho se faz o espírito com pessoas de Fernando Pessoa, já a segunda situação está mais próxima de uma metafísica do testemunho, segundo Paul Ricouer. Nela o testemunho da "Burlona" sobre ela própria é inserido no "livro" de testemunhos:
- No dia 7 de março, o <jornal> publicou um direito de resposta exercido pela ora queixosa, tendo o jornal intitulado o Direito de Resposta de “Carta de ‘Burlona do Amor’”. No final do texto surge a seguinte nota: “Nota da Direção: o <jornal> esclarecerá amanhã alguns pontos sobre este direito de resposta”.
Ou seja, o testemunho da "Burlona" é usado para confirmar os testemunhos que "bebem" da fonte, e aqui começa a metafísica, pois o louco não pode provar que não está louco pois é louco.
Mas ainda assim, para encontrar uma metafísica do mal, é pouco. Por isso ocorre-me uma frase que li em The End, de Ian Kershaw, sobre o último ano da segunda guerra mundial: "goza a guerra pois a paz vai ser pior". Como é possível tal afirmação? De acordo com o autor deve-se à identificação entre o destino de Hitler e o destino da Alemanha. A não separação entre os dois levou ao fortalecer da resistência mas, eventualmente, à queda de ambos. Num poema do Tao Te Ching poderá estar alguma pista para perceber como se gera este inferno:
Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.
Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.
Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.
Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.
Parece ser neste copular entre o bem e o mal que se poderá encontrar uma metafísica do mal.
Continuo à procura de testemunhos.
- No dia 7 de março, o <jornal> publicou um direito de resposta exercido pela ora queixosa, tendo o jornal intitulado o Direito de Resposta de “Carta de ‘Burlona do Amor’”. No final do texto surge a seguinte nota: “Nota da Direção: o <jornal> esclarecerá amanhã alguns pontos sobre este direito de resposta”.
Ou seja, o testemunho da "Burlona" é usado para confirmar os testemunhos que "bebem" da fonte, e aqui começa a metafísica, pois o louco não pode provar que não está louco pois é louco.
Mas ainda assim, para encontrar uma metafísica do mal, é pouco. Por isso ocorre-me uma frase que li em The End, de Ian Kershaw, sobre o último ano da segunda guerra mundial: "goza a guerra pois a paz vai ser pior". Como é possível tal afirmação? De acordo com o autor deve-se à identificação entre o destino de Hitler e o destino da Alemanha. A não separação entre os dois levou ao fortalecer da resistência mas, eventualmente, à queda de ambos. Num poema do Tao Te Ching poderá estar alguma pista para perceber como se gera este inferno:
Quando o grande Tao é esquecido,
surgem leis impondo a justiça e a piedade.
Quando a esperteza e o intelecto se espalham,
surgem os hipócritas.
Quando os laços familiares entram em conflito
surgem o dever filial e os rituais religiosos.
Quando o país está em crise
surgem os indivíduos patriotas.
Parece ser neste copular entre o bem e o mal que se poderá encontrar uma metafísica do mal.
Continuo à procura de testemunhos.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Kizombas de sempre
Nisto das Kizombas há as más, as assim assim, e as de sempre. O Jeito Dela, http://www.youtube.com/watch?v=HyZmUf4yJu4, do Moçambicano Gasso, pertence ao conjunto destas últimas. Num estilo ultra-romântico, por vezes a roçar o pimba, e com um excelente video oficial, que faz lembrar a corrente expressionista do cinema Alemão, vejam-se os grandes planos dos rostos, deve ser dançada tomando as respetivas pausas.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Inferno
Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa
Num dos seus contos, Italo Calvino descreve um planeta terra vazio onde os mais variados objetos vão caindo do céu. Numa parábola à criação, os seus dois únicos habitantes vão zelosamente juntando o que encontram - fogões, vasos, árvores, … - e meticulosamente arrumando cada coisa no seu lugar. Também eu não resisto à tentação a ir encaixando o que vou encontrando.
Agora que se aproxima do fim o meu terceiro livro quero abraçar algo mais ambicioso, uma narrativa sobre o Inferno. Para isso tenho vindo a juntar pequenos apontamentos que aqui apresento como se uma ordem tivessem.
Se um início houvesse, diria que ocorreu à mais de três anos, quando me foi anunciado o Inferno. Daí a imaginar todas as possíveis combinações de Inferno foi um passo. Depois, foi o tempo de perceber da sua inevitabilidade. Então juntei-lhe a citação que ouvi há dias de Alberto Caeiro: sou do tamanho daquilo que vejo. Desta conjugação entre o que aconteceu há três anos e o que ouvi há dias nasceu a intenção de escrever um livro sobre o Inferno.
Contudo, não basta ter os olhos abertos e observar o que nos cerca, é necessário ter uma estrutura. O primeiro passo foi a procura de um condenado ao Inferno. Encontrei La Gloire num livro de Boris Vian lido na adolescência. Condenado a recolher cadáveres com os dentes do fundo rio em troca do ouro dos habitantes, La Gloire encarna um Inferno aquático sem fogo.
Mas para haver um Inferno tem que haver um conceito de mal absoluto. Para isso procurei o conceito de bem absoluto no trabalho de Paul Ricouer sobre a hermenêutica do testemunho. De acordo com Ricoeur existe uma metafísica relativamente ao testemunho que vai para além da experiência e da ideia do bem. Acorreu-me então que o livro poderia ser feito apenas de testemunhos sobre o condenado para daí surgir uma metafísica do mal.
A seguinte questão coloca-se sobre quais são os testemunhos que contêm essa capacidade metafísica de geração da consciência do mal absoluto. Lembrei-me a seleção feitas dos Evangelhos e a sua depuração dos apócrifos. Assim, uma narrativa sobre o Inferno poderia descrever o processo de seleção dos testemunhos verdadeiros, aqueles que consubstanciam e emanam o mal, na perspetiva de uma das pessoas incumbida dessa seleção. Focar-se-ia o livro em uma única pessoa e na sua (re)leitura dos testemunhos, as dúvidas que se lhe levantam, e as estratégias e modelos mentais subjacentes à seleção que vai construindo.
Finalmente, recentemente li a frase de Fernando Pessoa, com que encabeço este texto: Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas. Creio haver alguma contradição entre a pobreza do espírito feito apenas com pessoas e a metafísica do testemunho, mas aceitei este como um desafio que poderá enriquecer o livro. Contudo, para poder continuar gostaria de obter um extenso conjunto de testemunhos do mal sobre os quais possa trabalhar. Para isso peço aos meus leitores que achem que têm histórias que valha a pena contar que me enviem. Estou particularmente interessado em testemunhos que sejam construídos sobre testemunhos, em que não tenha havido contacto direto com a origem do mal, mas que possam conter essa experiência metafísica emergente da interação com um testemunho.
Agradeço todas as contribuições que me possam enviar para Antonio.Rito.Silva@gmail.com. Obrigado.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa
Num dos seus contos, Italo Calvino descreve um planeta terra vazio onde os mais variados objetos vão caindo do céu. Numa parábola à criação, os seus dois únicos habitantes vão zelosamente juntando o que encontram - fogões, vasos, árvores, … - e meticulosamente arrumando cada coisa no seu lugar. Também eu não resisto à tentação a ir encaixando o que vou encontrando.
Agora que se aproxima do fim o meu terceiro livro quero abraçar algo mais ambicioso, uma narrativa sobre o Inferno. Para isso tenho vindo a juntar pequenos apontamentos que aqui apresento como se uma ordem tivessem.
Se um início houvesse, diria que ocorreu à mais de três anos, quando me foi anunciado o Inferno. Daí a imaginar todas as possíveis combinações de Inferno foi um passo. Depois, foi o tempo de perceber da sua inevitabilidade. Então juntei-lhe a citação que ouvi há dias de Alberto Caeiro: sou do tamanho daquilo que vejo. Desta conjugação entre o que aconteceu há três anos e o que ouvi há dias nasceu a intenção de escrever um livro sobre o Inferno.
Contudo, não basta ter os olhos abertos e observar o que nos cerca, é necessário ter uma estrutura. O primeiro passo foi a procura de um condenado ao Inferno. Encontrei La Gloire num livro de Boris Vian lido na adolescência. Condenado a recolher cadáveres com os dentes do fundo rio em troca do ouro dos habitantes, La Gloire encarna um Inferno aquático sem fogo.
Mas para haver um Inferno tem que haver um conceito de mal absoluto. Para isso procurei o conceito de bem absoluto no trabalho de Paul Ricouer sobre a hermenêutica do testemunho. De acordo com Ricoeur existe uma metafísica relativamente ao testemunho que vai para além da experiência e da ideia do bem. Acorreu-me então que o livro poderia ser feito apenas de testemunhos sobre o condenado para daí surgir uma metafísica do mal.
A seguinte questão coloca-se sobre quais são os testemunhos que contêm essa capacidade metafísica de geração da consciência do mal absoluto. Lembrei-me a seleção feitas dos Evangelhos e a sua depuração dos apócrifos. Assim, uma narrativa sobre o Inferno poderia descrever o processo de seleção dos testemunhos verdadeiros, aqueles que consubstanciam e emanam o mal, na perspetiva de uma das pessoas incumbida dessa seleção. Focar-se-ia o livro em uma única pessoa e na sua (re)leitura dos testemunhos, as dúvidas que se lhe levantam, e as estratégias e modelos mentais subjacentes à seleção que vai construindo.
Finalmente, recentemente li a frase de Fernando Pessoa, com que encabeço este texto: Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas. Creio haver alguma contradição entre a pobreza do espírito feito apenas com pessoas e a metafísica do testemunho, mas aceitei este como um desafio que poderá enriquecer o livro. Contudo, para poder continuar gostaria de obter um extenso conjunto de testemunhos do mal sobre os quais possa trabalhar. Para isso peço aos meus leitores que achem que têm histórias que valha a pena contar que me enviem. Estou particularmente interessado em testemunhos que sejam construídos sobre testemunhos, em que não tenha havido contacto direto com a origem do mal, mas que possam conter essa experiência metafísica emergente da interação com um testemunho.
Agradeço todas as contribuições que me possam enviar para Antonio.Rito.Silva@gmail.com. Obrigado.
domingo, 24 de novembro de 2013
Dissensus
Saio do Everest Montanha e decido caminhar para deixar discorrer pelos membros os calores que alguns pratos Nepaleses emprestam ao corpo. Ao passar pelo Júlio de Matos vejo-me na obrigação de agarrar uma folha de papel que esvoaçando quase se me entrega nas mãos. Nesta folha leio, escrevinhado, as atuais notícias da minha sanidade são tão exageradas como as, anteriores, acerca da minha loucura.
Estaco, e, enquanto o ar frio da noite me entra pelo nariz num brado de refrigeração solicitada pelo corpo, ocorre-me que este deve ser mais um daqueles ineficazes gritos com pretensões literárias, em que o grito empobrece a pretensão e o estilo literário abafa o grito. Foi com certeza escrito por um dos loucos que aqui habita, penso.
Entretanto, começa a tomar conta do meu corpo uma sensação de dissensus. Não sei se se deve à folha entre mãos ou à comida que ingeri. Nesta imobilidade dou comigo a imaginar o psiquiatra deste pobre louco, entre compêndios, gerando o consensus, agarrando-se a todos os possíveis factos e, em desespero de causa, criando, aqui e ali, o que faz falta. Imagino também os sucessivos construídos universos de que o louco se entretém a divergir.
Retomando o passo, vou-me afastando e sinto comiseração pelo pobre psiquiatra.
Estaco, e, enquanto o ar frio da noite me entra pelo nariz num brado de refrigeração solicitada pelo corpo, ocorre-me que este deve ser mais um daqueles ineficazes gritos com pretensões literárias, em que o grito empobrece a pretensão e o estilo literário abafa o grito. Foi com certeza escrito por um dos loucos que aqui habita, penso.
Entretanto, começa a tomar conta do meu corpo uma sensação de dissensus. Não sei se se deve à folha entre mãos ou à comida que ingeri. Nesta imobilidade dou comigo a imaginar o psiquiatra deste pobre louco, entre compêndios, gerando o consensus, agarrando-se a todos os possíveis factos e, em desespero de causa, criando, aqui e ali, o que faz falta. Imagino também os sucessivos construídos universos de que o louco se entretém a divergir.
Retomando o passo, vou-me afastando e sinto comiseração pelo pobre psiquiatra.
domingo, 29 de setembro de 2013
Memória
(publicado em 24 de Setembro de 2013)
O que seria da memória se não fosse o esquecimento? Tal como na senilidade o esquecimento nos enche das texturas da memória também neste livro procurei juntar tudo o que vou encontrando por entre o que já não recordo. E não posso negar ter abrilhantado, com mais ou menos cuidado, o que vai surgindo, tal como a memória o faz para não se deixar cair no abismo olvidar.
Mentiria, também, se dissesse que não há uma teoria por detrás, uma linha onde penduro esta memória. Sou incapaz de escapar à obsessão da ordem, mesmo quando o nego. Por isso, este pequeno livro procura fazer um todo, esgotar a memória, fechar nestas páginas tudo o que pudesse vir a recordar. Mais uma vaidade de duvidosa concretização, mas se não fosse assim este objeto não existiria. Agora que desisto do todo, para o livro poder existir, o que aqui não fica com certeza se virá a manifestar debaixo de outros nomes e de outras formas, pois para isso serve a memória.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Mem%C3%B3ria-Portuguese-Ant%C3%B3nio-Rito-Silva/dp/1492363774
O que seria da memória se não fosse o esquecimento? Tal como na senilidade o esquecimento nos enche das texturas da memória também neste livro procurei juntar tudo o que vou encontrando por entre o que já não recordo. E não posso negar ter abrilhantado, com mais ou menos cuidado, o que vai surgindo, tal como a memória o faz para não se deixar cair no abismo olvidar.
Mentiria, também, se dissesse que não há uma teoria por detrás, uma linha onde penduro esta memória. Sou incapaz de escapar à obsessão da ordem, mesmo quando o nego. Por isso, este pequeno livro procura fazer um todo, esgotar a memória, fechar nestas páginas tudo o que pudesse vir a recordar. Mais uma vaidade de duvidosa concretização, mas se não fosse assim este objeto não existiria. Agora que desisto do todo, para o livro poder existir, o que aqui não fica com certeza se virá a manifestar debaixo de outros nomes e de outras formas, pois para isso serve a memória.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Mem%C3%B3ria-Portuguese-Ant%C3%B3nio-Rito-Silva/dp/1492363774
sábado, 28 de setembro de 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Conjugar o verbo Querer na China Capitalista Comunista Budista Taoista Confucionista
Presente:
Eu não quero
Tu não queres
Ele não quer
Nós queremos
Vós não quereis
Eles não querem
Futuro Indicativo Capitalista:
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Pretérito Perfeito Comunista:
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Conjuntivo Budista:
Se eu quisesse nós não quereríamos
Se tu quisesses nós não quereríamos
Se ele quisesse nós não quereríamos
Se eu não quisesse nós quereríamos
Se vós quisésseis nós não quereríamos
Se eles quisessem nós não quereríamos
Pretérito mais que Perfeito Taoista:
Nós quiséramos suprema harmonia
Nós quiséramos central harmonia
Nós quiséramos preservar harmonia
Nós quiséramos harmonia celestial
Nós quiséramos eterna harmonia
Nós quiséramos completa harmonia
Imperativo Confucionista:
Queiramos nós antepassados
Queiramos nós lealdade
Queiramos nós regras
Queiramos nós estabilidade
Queiramos nós ordem
Queiramos nós harmonia social
Interrogativo Dezasseistista:
Porquê deixar de eu querer e ainda assim fazer?
17 de Setembro de 2013
Eu não quero
Tu não queres
Ele não quer
Nós queremos
Vós não quereis
Eles não querem
Futuro Indicativo Capitalista:
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Pretérito Perfeito Comunista:
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Conjuntivo Budista:
Se eu quisesse nós não quereríamos
Se tu quisesses nós não quereríamos
Se ele quisesse nós não quereríamos
Se eu não quisesse nós quereríamos
Se vós quisésseis nós não quereríamos
Se eles quisessem nós não quereríamos
Pretérito mais que Perfeito Taoista:
Nós quiséramos suprema harmonia
Nós quiséramos central harmonia
Nós quiséramos preservar harmonia
Nós quiséramos harmonia celestial
Nós quiséramos eterna harmonia
Nós quiséramos completa harmonia
Imperativo Confucionista:
Queiramos nós antepassados
Queiramos nós lealdade
Queiramos nós regras
Queiramos nós estabilidade
Queiramos nós ordem
Queiramos nós harmonia social
Interrogativo Dezasseistista:
Porquê deixar de eu querer e ainda assim fazer?
17 de Setembro de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Ainda os mesmos Bichos
Ainda os mesmos Bichos (publicado em 8 de Agosto de 2013)
O que gosto em Bichos de Miguel Torga são as frases que não esbanjam e o Portugal de Trás-os-Montes, que suspeito não será muito diferente de uma Beira Baixa que conheci. Uma terra que obrigava homens e animais a serem bichos. O cão, o gato e o burro que por ali andam fingindo ser nossos.
Por acaso, surgiu a possibilidade de o reler.
Desse reencontro com os Bichos, escritos aos pedaços, um por cada conto de Miguel Torga, mais três outros à laia de fecho, surgiram estes fragmentos que agora aqui junto. A sua releitura mostrou-me que já tinha esquecido o suficiente para agora não me atrever alterá-los para além de algumas ligeiras pinceladas. Tal como os bichos, podem ainda fingir ser meus, mas, já não me pertencem.
Outros bichos haverá, mas no momento, que se repetiu no correr dos dias do Outono, foram estes que encontrei. Agora, aqui juntos, gostaria que a leitura de cada um seja um relampejo imediatamente seguido de um esquecimento, como as manifestações dos bichos.
Neste rearranjo voltei a verificar que gosto destes bichos. Espero que também goste.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Ainda-mesmos-Bichos-Ant%C3%B3nio-Silva/dp/1491071893
O que gosto em Bichos de Miguel Torga são as frases que não esbanjam e o Portugal de Trás-os-Montes, que suspeito não será muito diferente de uma Beira Baixa que conheci. Uma terra que obrigava homens e animais a serem bichos. O cão, o gato e o burro que por ali andam fingindo ser nossos.
Por acaso, surgiu a possibilidade de o reler.
Desse reencontro com os Bichos, escritos aos pedaços, um por cada conto de Miguel Torga, mais três outros à laia de fecho, surgiram estes fragmentos que agora aqui junto. A sua releitura mostrou-me que já tinha esquecido o suficiente para agora não me atrever alterá-los para além de algumas ligeiras pinceladas. Tal como os bichos, podem ainda fingir ser meus, mas, já não me pertencem.
Outros bichos haverá, mas no momento, que se repetiu no correr dos dias do Outono, foram estes que encontrei. Agora, aqui juntos, gostaria que a leitura de cada um seja um relampejo imediatamente seguido de um esquecimento, como as manifestações dos bichos.
Neste rearranjo voltei a verificar que gosto destes bichos. Espero que também goste.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Ainda-mesmos-Bichos-Ant%C3%B3nio-Silva/dp/1491071893
domingo, 28 de outubro de 2012
Os blogues, segundo Fernando Pessoa
Ah, que inveja que eu tenho do blogue seguinte. Tão cheio de ódio, amor ou raiva. Tão certo do que deve ser, ou cheio de vazio e a suplicar que aconteça algo a seguir.
Como me emociono com a verdade que encontro neste blogue e por uns instantes dou-me ao luxo de esquecer que eu sou o que não está lá, o que não a quer encontrar. Ah, que inveja.
Que inveja que eu tenho do teu corpo, que não é o meu e pressinto nesse blogue, um corpo que insinuas cheio de chuva e flores. Um corpo que eu quero para sentir inveja.
Como invejo as cadeiras do relvas e à socapa me sento numa delas. Respiro fundo e permito-me pensar que este reino é meu, até que o autor vem a correr comigo, dizendo que esta cadeira é do relvas, não é minha, que posso sentir inveja, mas não posso estragar o blogue. Ah, que inveja.
Sinto inveja desse teu pequeno poema que ninguém comenta, por inveja. Imagino essas palavras na minha boca. Palavras que a tão enchem que basta mover as mandíbulas para se propagarem como um post num blogue. Que inveja.
E arrasto a inveja de um blogue para o blogue seguinte. E a inveja vai-se partindo aos bocados. Um pouco fica neste blogue, mas tento guardar algo para poder continuar a caminhada. E é um contrassenso isto que andar com a inveja aos pedaços. Ela quer-se forte, junta, sentida. Ai que inveja.
Como me emociono com a verdade que encontro neste blogue e por uns instantes dou-me ao luxo de esquecer que eu sou o que não está lá, o que não a quer encontrar. Ah, que inveja.
Que inveja que eu tenho do teu corpo, que não é o meu e pressinto nesse blogue, um corpo que insinuas cheio de chuva e flores. Um corpo que eu quero para sentir inveja.
Como invejo as cadeiras do relvas e à socapa me sento numa delas. Respiro fundo e permito-me pensar que este reino é meu, até que o autor vem a correr comigo, dizendo que esta cadeira é do relvas, não é minha, que posso sentir inveja, mas não posso estragar o blogue. Ah, que inveja.
Sinto inveja desse teu pequeno poema que ninguém comenta, por inveja. Imagino essas palavras na minha boca. Palavras que a tão enchem que basta mover as mandíbulas para se propagarem como um post num blogue. Que inveja.
E arrasto a inveja de um blogue para o blogue seguinte. E a inveja vai-se partindo aos bocados. Um pouco fica neste blogue, mas tento guardar algo para poder continuar a caminhada. E é um contrassenso isto que andar com a inveja aos pedaços. Ela quer-se forte, junta, sentida. Ai que inveja.
sábado, 27 de outubro de 2012
Central Tejo
O livro de fotografia Central Tejo - Imagens de um Tempo Ausente de António Paixão, com um voltímetro na capa, um amperímetro na contracapa e o volume de um objeto industrial, contém o resultado de uma veneração intemporal, sem medida.
É uma veneração pelos objetos construídos pelo homem que, desprovidos de função ou na sua ignorância, se tornam objeto de culto. Uma veneração feita das mesmas impressões que terá um humano ao chegar a um planeta alienígena, ainda que cheio de vida e em funcionamento.
É uma veneração pelos objetos construídos pelo homem que, desprovidos de função ou na sua ignorância, se tornam objeto de culto. Uma veneração feita das mesmas impressões que terá um humano ao chegar a um planeta alienígena, ainda que cheio de vida e em funcionamento.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
como um ovo
como um ovo
de aspeto sólido
arredondado e liso
facilmente se quebra e escorre entre os dedos
também as palavras fortes
diretas e sem adornos
facilmente se rompem e escorrem
como um ovo
de aspeto sólido
arredondado e liso
facilmente se quebra e escorre entre os dedos
também as palavras fortes
diretas e sem adornos
facilmente se rompem e escorrem
como um ovo
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
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