Presente:
Eu não quero
Tu não queres
Ele não quer
Nós queremos
Vós não quereis
Eles não querem
Futuro Indicativo Capitalista:
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Nós queremos ser ricos
Pretérito Perfeito Comunista:
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Nós quisemos um mundo novo
Conjuntivo Budista:
Se eu quisesse nós não quereríamos
Se tu quisesses nós não quereríamos
Se ele quisesse nós não quereríamos
Se eu não quisesse nós quereríamos
Se vós quisésseis nós não quereríamos
Se eles quisessem nós não quereríamos
Pretérito mais que Perfeito Taoista:
Nós quiséramos suprema harmonia
Nós quiséramos central harmonia
Nós quiséramos preservar harmonia
Nós quiséramos harmonia celestial
Nós quiséramos eterna harmonia
Nós quiséramos completa harmonia
Imperativo Confucionista:
Queiramos nós antepassados
Queiramos nós lealdade
Queiramos nós regras
Queiramos nós estabilidade
Queiramos nós ordem
Queiramos nós harmonia social
Interrogativo Dezasseistista:
Porquê deixar de eu querer e ainda assim fazer?
17 de Setembro de 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Ainda os mesmos Bichos
Ainda os mesmos Bichos (publicado em 8 de Agosto de 2013)
O que gosto em Bichos de Miguel Torga são as frases que não esbanjam e o Portugal de Trás-os-Montes, que suspeito não será muito diferente de uma Beira Baixa que conheci. Uma terra que obrigava homens e animais a serem bichos. O cão, o gato e o burro que por ali andam fingindo ser nossos.
Por acaso, surgiu a possibilidade de o reler.
Desse reencontro com os Bichos, escritos aos pedaços, um por cada conto de Miguel Torga, mais três outros à laia de fecho, surgiram estes fragmentos que agora aqui junto. A sua releitura mostrou-me que já tinha esquecido o suficiente para agora não me atrever alterá-los para além de algumas ligeiras pinceladas. Tal como os bichos, podem ainda fingir ser meus, mas, já não me pertencem.
Outros bichos haverá, mas no momento, que se repetiu no correr dos dias do Outono, foram estes que encontrei. Agora, aqui juntos, gostaria que a leitura de cada um seja um relampejo imediatamente seguido de um esquecimento, como as manifestações dos bichos.
Neste rearranjo voltei a verificar que gosto destes bichos. Espero que também goste.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Ainda-mesmos-Bichos-Ant%C3%B3nio-Silva/dp/1491071893
O que gosto em Bichos de Miguel Torga são as frases que não esbanjam e o Portugal de Trás-os-Montes, que suspeito não será muito diferente de uma Beira Baixa que conheci. Uma terra que obrigava homens e animais a serem bichos. O cão, o gato e o burro que por ali andam fingindo ser nossos.
Por acaso, surgiu a possibilidade de o reler.
Desse reencontro com os Bichos, escritos aos pedaços, um por cada conto de Miguel Torga, mais três outros à laia de fecho, surgiram estes fragmentos que agora aqui junto. A sua releitura mostrou-me que já tinha esquecido o suficiente para agora não me atrever alterá-los para além de algumas ligeiras pinceladas. Tal como os bichos, podem ainda fingir ser meus, mas, já não me pertencem.
Outros bichos haverá, mas no momento, que se repetiu no correr dos dias do Outono, foram estes que encontrei. Agora, aqui juntos, gostaria que a leitura de cada um seja um relampejo imediatamente seguido de um esquecimento, como as manifestações dos bichos.
Neste rearranjo voltei a verificar que gosto destes bichos. Espero que também goste.
Amazon: http://www.amazon.co.uk/Ainda-mesmos-Bichos-Ant%C3%B3nio-Silva/dp/1491071893
domingo, 28 de outubro de 2012
Os blogues, segundo Fernando Pessoa
Ah, que inveja que eu tenho do blogue seguinte. Tão cheio de ódio, amor ou raiva. Tão certo do que deve ser, ou cheio de vazio e a suplicar que aconteça algo a seguir.
Como me emociono com a verdade que encontro neste blogue e por uns instantes dou-me ao luxo de esquecer que eu sou o que não está lá, o que não a quer encontrar. Ah, que inveja.
Que inveja que eu tenho do teu corpo, que não é o meu e pressinto nesse blogue, um corpo que insinuas cheio de chuva e flores. Um corpo que eu quero para sentir inveja.
Como invejo as cadeiras do relvas e à socapa me sento numa delas. Respiro fundo e permito-me pensar que este reino é meu, até que o autor vem a correr comigo, dizendo que esta cadeira é do relvas, não é minha, que posso sentir inveja, mas não posso estragar o blogue. Ah, que inveja.
Sinto inveja desse teu pequeno poema que ninguém comenta, por inveja. Imagino essas palavras na minha boca. Palavras que a tão enchem que basta mover as mandíbulas para se propagarem como um post num blogue. Que inveja.
E arrasto a inveja de um blogue para o blogue seguinte. E a inveja vai-se partindo aos bocados. Um pouco fica neste blogue, mas tento guardar algo para poder continuar a caminhada. E é um contrassenso isto que andar com a inveja aos pedaços. Ela quer-se forte, junta, sentida. Ai que inveja.
Como me emociono com a verdade que encontro neste blogue e por uns instantes dou-me ao luxo de esquecer que eu sou o que não está lá, o que não a quer encontrar. Ah, que inveja.
Que inveja que eu tenho do teu corpo, que não é o meu e pressinto nesse blogue, um corpo que insinuas cheio de chuva e flores. Um corpo que eu quero para sentir inveja.
Como invejo as cadeiras do relvas e à socapa me sento numa delas. Respiro fundo e permito-me pensar que este reino é meu, até que o autor vem a correr comigo, dizendo que esta cadeira é do relvas, não é minha, que posso sentir inveja, mas não posso estragar o blogue. Ah, que inveja.
Sinto inveja desse teu pequeno poema que ninguém comenta, por inveja. Imagino essas palavras na minha boca. Palavras que a tão enchem que basta mover as mandíbulas para se propagarem como um post num blogue. Que inveja.
E arrasto a inveja de um blogue para o blogue seguinte. E a inveja vai-se partindo aos bocados. Um pouco fica neste blogue, mas tento guardar algo para poder continuar a caminhada. E é um contrassenso isto que andar com a inveja aos pedaços. Ela quer-se forte, junta, sentida. Ai que inveja.
sábado, 27 de outubro de 2012
Central Tejo
O livro de fotografia Central Tejo - Imagens de um Tempo Ausente de António Paixão, com um voltímetro na capa, um amperímetro na contracapa e o volume de um objeto industrial, contém o resultado de uma veneração intemporal, sem medida.
É uma veneração pelos objetos construídos pelo homem que, desprovidos de função ou na sua ignorância, se tornam objeto de culto. Uma veneração feita das mesmas impressões que terá um humano ao chegar a um planeta alienígena, ainda que cheio de vida e em funcionamento.
É uma veneração pelos objetos construídos pelo homem que, desprovidos de função ou na sua ignorância, se tornam objeto de culto. Uma veneração feita das mesmas impressões que terá um humano ao chegar a um planeta alienígena, ainda que cheio de vida e em funcionamento.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
como um ovo
como um ovo
de aspeto sólido
arredondado e liso
facilmente se quebra e escorre entre os dedos
também as palavras fortes
diretas e sem adornos
facilmente se rompem e escorrem
como um ovo
de aspeto sólido
arredondado e liso
facilmente se quebra e escorre entre os dedos
também as palavras fortes
diretas e sem adornos
facilmente se rompem e escorrem
como um ovo
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
sábado, 22 de setembro de 2012
humildade
um dedo do pé
um dedo do pé afunda-se numa cama
uma cama no meio de um quarto
uma cama no meio de um quarto onde um dedo do pé
um quarto dentro de uma casa
um quarto dentro de uma casa onde uma cama
uma casa num prédio
uma casa num prédio onde num quarto
uma escada rasga um prédio
uma escada rasga um prédio e leva de uma porta a uma casa
uma rua onde uma porta
uma rua onde uma porta se abre para uma escada
um bairro de gente
um bairro de gente onde uma rua
uma cidade cheia
uma cidade cheia de um bairro
um país com mar
um país com mar onde uma cidade tem um nome
um país com mar e uma cidade cheia com nome e um bairro de gente onde uma rua tem uma porta que se abre para uma escada que rasga um prédio e desemboca numa casa onde num quarto sobre uma cama um dedo de pé se afunda com um imenso peso
- Humility - Wim Mertens
um dedo do pé afunda-se numa cama
uma cama no meio de um quarto
uma cama no meio de um quarto onde um dedo do pé
um quarto dentro de uma casa
um quarto dentro de uma casa onde uma cama
uma casa num prédio
uma casa num prédio onde num quarto
uma escada rasga um prédio
uma escada rasga um prédio e leva de uma porta a uma casa
uma rua onde uma porta
uma rua onde uma porta se abre para uma escada
um bairro de gente
um bairro de gente onde uma rua
uma cidade cheia
uma cidade cheia de um bairro
um país com mar
um país com mar onde uma cidade tem um nome
um país com mar e uma cidade cheia com nome e um bairro de gente onde uma rua tem uma porta que se abre para uma escada que rasga um prédio e desemboca numa casa onde num quarto sobre uma cama um dedo de pé se afunda com um imenso peso
- Humility - Wim Mertens
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Evondres
Tomar o avião
Primeiro em pequenas doses
Para criar habituação
Depois em cruzeiro
Para cumprir o roteiro
NorthFields
Green Park
Southwark
Bermondsey
Canary Wharf
Wharf, Wharf, Wharf disse Canary
Nestas docas se fizeram navios
That, That, That disse Cher
Deste porto financeiro
Nunca partiremos à deriva
Comer sushi no chão
Também em pequenas doses
Para criar habituação
Aqui entre a terra e o rio
Por vezes sente-se algum frio
Heron Quays
Canary Wharf
West India Quay
Shadwell
Tower Hill
Do tapete rolante
Veem-se as jóias da coroa
Espantadas caras
Passam pelo andor
Num grande fervor
Monument
Cannon Street
Mansion House
Blackfriars
Westminster
Seis mulheres teve o oitavo
E como eram todas giras
Ficou tão de pantanas
Que teve de ir à igreja
Separar-se
E a Zabete?
Num tempo de shake e inspiração
Tinha ciúmes da Maria
Que de uma outra religião
Tinha a cabeça mais bonita
Cortem-lhe a cabeça!
Qual delas Vossa Senhoria?
Aquela que ela ainda agora tinha
Que é dela, com mil raios
Rolou por aí abaixo
Espeta-a num pau
Que é para aprenderem
A pensar com a cabeça
Não vão eles achar que a minha
É como a dela com certeza
Westminster
Embankment
Charing Cross
Trafalgar Square
National Portrait Gallery
Pintou a avó nua
Com tal crueza
E delicadeza
Que está agora na Gallery
Exposta
O Mexicano arde na boca sem dó
Queima que é um disparate
Apaga o fogo com 7up
Ufa, que alívio, agora já rio
Mas ainda tenho os lábios em desvario
Charing Cross
Piccadilly Circus
Leicester Square
Convent Garden
Holborn
1 morto, 2 morto, 3 morto, 4 morto, 5 morto, 6 morto, 7 morto, 8 morto, 9 morto
Diz um morto
Com um ligeiro sotaque egípcio
Would you like a cup of tea?
Very British, indeed
Holborn
Oxford Circus
Green Park
Victoria
St. James Park
Focinho pontiagudo
E cauda comprida
Nas tardes de amendoins
O esquilo vai à mão
Mas a mão não chega ao esquilo
St. James Park
Westminster
Embankment
Temple
Mansion House
Modern art is like
An unfinished sentence
You have to fill the gaps
Tate on you brother
Que saudades
Do Vietnamita
Da beef noodle soup
Mas eu noodle quero
Queres ou não queres?
Mansion House
Embankment
Oxford Circus
Regent's Park
Baker Street
Aqui também há uma Madame
Feita da cera
De todas as formas
Com que eu quero ser fotografada
Será Mrs, Miss ou apenas Ms?
17 de Setembro de 2012
Primeiro em pequenas doses
Para criar habituação
Depois em cruzeiro
Para cumprir o roteiro
NorthFields
Green Park
Southwark
Bermondsey
Canary Wharf
Wharf, Wharf, Wharf disse Canary
Nestas docas se fizeram navios
That, That, That disse Cher
Deste porto financeiro
Nunca partiremos à deriva
Comer sushi no chão
Também em pequenas doses
Para criar habituação
Aqui entre a terra e o rio
Por vezes sente-se algum frio
Heron Quays
Canary Wharf
West India Quay
Shadwell
Tower Hill
Do tapete rolante
Veem-se as jóias da coroa
Espantadas caras
Passam pelo andor
Num grande fervor
Monument
Cannon Street
Mansion House
Blackfriars
Westminster
Seis mulheres teve o oitavo
E como eram todas giras
Ficou tão de pantanas
Que teve de ir à igreja
Separar-se
E a Zabete?
Num tempo de shake e inspiração
Tinha ciúmes da Maria
Que de uma outra religião
Tinha a cabeça mais bonita
Cortem-lhe a cabeça!
Qual delas Vossa Senhoria?
Aquela que ela ainda agora tinha
Que é dela, com mil raios
Rolou por aí abaixo
Espeta-a num pau
Que é para aprenderem
A pensar com a cabeça
Não vão eles achar que a minha
É como a dela com certeza
Westminster
Embankment
Charing Cross
Trafalgar Square
National Portrait Gallery
Pintou a avó nua
Com tal crueza
E delicadeza
Que está agora na Gallery
Exposta
O Mexicano arde na boca sem dó
Queima que é um disparate
Apaga o fogo com 7up
Ufa, que alívio, agora já rio
Mas ainda tenho os lábios em desvario
Charing Cross
Piccadilly Circus
Leicester Square
Convent Garden
Holborn
1 morto, 2 morto, 3 morto, 4 morto, 5 morto, 6 morto, 7 morto, 8 morto, 9 morto
Diz um morto
Com um ligeiro sotaque egípcio
Would you like a cup of tea?
Very British, indeed
Holborn
Oxford Circus
Green Park
Victoria
St. James Park
Focinho pontiagudo
E cauda comprida
Nas tardes de amendoins
O esquilo vai à mão
Mas a mão não chega ao esquilo
St. James Park
Westminster
Embankment
Temple
Mansion House
Modern art is like
An unfinished sentence
You have to fill the gaps
Tate on you brother
Que saudades
Da beef noodle soup
Mas eu noodle quero
Queres ou não queres?
Mansion House
Embankment
Oxford Circus
Regent's Park
Baker Street
Aqui também há uma Madame
Feita da cera
De todas as formas
Com que eu quero ser fotografada
Será Mrs, Miss ou apenas Ms?
17 de Setembro de 2012
domingo, 2 de setembro de 2012
Dia 15 - The Dead
Abandonámos o local com um cansaço feito de músculos descontraídos. A descida era feita do descair do corpo. Descíamos aos sobressaltos. As distâncias entre nós iam variando, formando-se um corpo desengonçado que parecia descer a montanha aos trambolhões controlados. A cada momento prestes a lançar-se no abismo, a cada momento a se agarrar de novo ao chão.
Observado com mais detalhe, podia-se imaginar neste corpo uma longa coluna de onde se prendiam semi-arcos. Era entre estes semi-arcos que nós nos movíamos e que nos impediam sair de dentro do corpo que configurávamos. Não, de facto, nós eram os semi-arcos e os nossos movimentos marcavam o respirar ofegante de um animal acabado de ressuscitar.
Era a cabeça, feita de um enormes buracos sem olhos, que nos atirava para a frente. As gigantescas mandíbulas, premiadas de uns dentes que já foram úteis, dão ao animal um ar sedento de vida. A cabeça bamboleia-se de um lado para o outro, de cima para baixo, e pelos buracos dos olhos passa tudo o que está à volta. A conjugação dos buracos nos olhos e das mandíbulas abertas dão ao animal uma expressão de incredibilidade.
Eveline caminha com os olhos nos olhos do animal, procurando ver tudo o que ele vê. Há na sua cara uma expressão de contentamento que não lhe tínhamos visto antes. A sua respiração é consonante com a respiração do animal e, caminhando entre nós, é o seu movimento que marca a deslocação lateral daquela desmedida massa. Sempre que chegamos a um ponto, já ela se move na direção oposta, levando-nos atrás.
O caminhar de James é marcado pelo alheamento de Eveline. Inicialmente ainda procura olhar pelos olhos do animal, mas acaba a observar o corpo que nos envolve. É um extraordinário monumento que avança no tempo e onde James tenta encontrar o seu lugar. Vai fazendo isso experimentando diferentes formas de andar. Aquela que lhe parecia mais óbvia era a de Eveline, mas ela, ou o corpo, estão sempre um pouco depois, ou um pouco antes. Enquanto vai procurando acertar, dá então consigo a imaginar como teria sido imponente esse animal, como a sua presença deveria impor respeito e forjar vontades. Mas de tantos desacertos, James começa a ficar para trás. Sente passar-lhe pelas costas um fio frio, como um arrepio. É a longa cauda do animal que passa por ele. Já sem obrigações fica sentado a observar-nos na descida.
Viro-me e pergunto-lhe, Então James, não vens?
- Inspirado em The Dead de James Joyce, num esqueleto de dinossauro no Natural History Museum e nos monumentos funerários no British Museum em Londres.
Observado com mais detalhe, podia-se imaginar neste corpo uma longa coluna de onde se prendiam semi-arcos. Era entre estes semi-arcos que nós nos movíamos e que nos impediam sair de dentro do corpo que configurávamos. Não, de facto, nós eram os semi-arcos e os nossos movimentos marcavam o respirar ofegante de um animal acabado de ressuscitar.
Era a cabeça, feita de um enormes buracos sem olhos, que nos atirava para a frente. As gigantescas mandíbulas, premiadas de uns dentes que já foram úteis, dão ao animal um ar sedento de vida. A cabeça bamboleia-se de um lado para o outro, de cima para baixo, e pelos buracos dos olhos passa tudo o que está à volta. A conjugação dos buracos nos olhos e das mandíbulas abertas dão ao animal uma expressão de incredibilidade.
Eveline caminha com os olhos nos olhos do animal, procurando ver tudo o que ele vê. Há na sua cara uma expressão de contentamento que não lhe tínhamos visto antes. A sua respiração é consonante com a respiração do animal e, caminhando entre nós, é o seu movimento que marca a deslocação lateral daquela desmedida massa. Sempre que chegamos a um ponto, já ela se move na direção oposta, levando-nos atrás.
O caminhar de James é marcado pelo alheamento de Eveline. Inicialmente ainda procura olhar pelos olhos do animal, mas acaba a observar o corpo que nos envolve. É um extraordinário monumento que avança no tempo e onde James tenta encontrar o seu lugar. Vai fazendo isso experimentando diferentes formas de andar. Aquela que lhe parecia mais óbvia era a de Eveline, mas ela, ou o corpo, estão sempre um pouco depois, ou um pouco antes. Enquanto vai procurando acertar, dá então consigo a imaginar como teria sido imponente esse animal, como a sua presença deveria impor respeito e forjar vontades. Mas de tantos desacertos, James começa a ficar para trás. Sente passar-lhe pelas costas um fio frio, como um arrepio. É a longa cauda do animal que passa por ele. Já sem obrigações fica sentado a observar-nos na descida.
Viro-me e pergunto-lhe, Então James, não vens?
- Inspirado em The Dead de James Joyce, num esqueleto de dinossauro no Natural History Museum e nos monumentos funerários no British Museum em Londres.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
14 dias a caminhar
Estes 14 dias de caminhada, mais ou menos imaginária, foi escrito entre os dias 1 e 16 de Agosto de 2012 ao passo de um conto de Dubliners de James Joyce e de recordações de lugares:
- Dia 1 - A aproximação. Escrito no dia 1 de Agosto depois da leitura de The Sisters e de uma aproximação às Torres del Paine.
- Dia 2 - Ticket Birds. Escrito no dia 2 de Agosto depois da leitura de An Encounter e de um percurso nas Torres del Paine.
- Dia 3 - Glaciar. Escrito no dia 3 de Agosto depois da leitura de Araby e de algumas memórias do Grey Glacier.
- Dia 4 - Eveline. Escrito nos dias 3 e 4 de Agosto depois da leitura de Eveline e de uma travessia do Mt Razorback & the Lost World.
- Dia 5 - A descida. Escrito nos dias 4 e 5 de Agosto depois da leitura de After the Race e de uma memória de Milaa Milaa Falls.
- Dia 6 - O observador de pássaros. Escrito no dia 6 de Agosto depois da leitura de Two Gallants, de um barco nos canais Patagónicos e de A Quinta de Joan Miró.
- Dia 7 - Linhas e arcos. Escrito a 7 de Agosto depois da leitura de The Boarding House, de uma viagem nos canais Patagónicos e de uma Anunciação de Botticelli.
- Dia 8 - Labirintos. Escrito a 8 de Agosto depois da leitura de A Little Cloud e de Puerto Natales.
- Dia 9 - James. Escrito a 9 de Agosto depois da leitura de Counterparts e uma aproximação às Torres del Paine.
- Dia 10 - Espiral. Escrito a 10 de Agosto depois da leitura de Clay e um desejo de Paul Horwath.
- Dia 11 - Ponto. Escrito a 12 de Agosto depois da leitura de A Painful Case e de um topo de montanha em Gredos.
- Dia 12 - Trajetória eclíptica. Escrito a 13 e 14 de Agosto depois da leitura de Ivy Day in the Committee Room e das pedras de Gredos.
- Dia 13 - Língua. Escrito a 14 e 15 de Agosto depois da leitura de A Mother e da Quinta dos Loridos.
- Dia 14 - base, fuste, capitel,. Escrito a 16 de Agosto depois da leitura de Grace, das torres de Torres del Paine e de um poema de António Gedeão.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Dia 14 - base, fuste, capitel,
À nossa frente, as torres de granito saindo de uma luva de neve sem dedos. Finalmente chegámos. Nem queríamos acreditar. Quatorze dias. As torres eram massivas rochas que se estreitavam lado a lado.
Estendemos-nos no chão, cada um para o seu lado. Entre nós um mar de pedras roliças. Virando a cabeça víamos os corpos entrecortados pelas pedras. Eram corpos deformados por inesperadas barrigas.
James via as pedras das torres a entrar pelas nuvens que se desfaziam quando as tocavam. Esticou-se um pouco mais. Os pés calçaram uns sapatos de pedra. As mãos enviaram-se dentro de umas luvas castanhas. A cabeça estava fixa nas torres. Não pestanejava, mas de dentro da sua boca saía um corpo azul, irregular, que ía variando de tonalidade e forma com a luz do sol e a sombra das nuvens. O tamanho do corpo aumentava conforme respirava.
De Eveline não se via a cabeça. No seu lugar um pedregulho, um pouco maior que os restantes. Entre este e as pernas, ausentes pela presença de uma outra pedra, uma barriga onde se notava a respiração. A respiração era irregular e começou a propagar-se ao solo. Primeiro foram as pedras que escondiam Eveline que começaram a tremer, mas depois o tremor começou a propagar-se em círculos concêntricos.
A corpo azul reluzente de James e a respiração de Eveline tomaram conta de todo o local. As pedras começam a rebolar e a saltar. Misturam-se com o corpo azul. O azul tingiu-se de castanhos. Agora a sucessão de tremores já não deixa as pedras regressar ao chão, atirando-as cada vez mais alto. Saltam no topo das torres, como capiteis. No chão, volto a ver os corpos de James e Eveline por inteiro. De onde me encontro, parecem suster as torres.
Estendemos-nos no chão, cada um para o seu lado. Entre nós um mar de pedras roliças. Virando a cabeça víamos os corpos entrecortados pelas pedras. Eram corpos deformados por inesperadas barrigas.
James via as pedras das torres a entrar pelas nuvens que se desfaziam quando as tocavam. Esticou-se um pouco mais. Os pés calçaram uns sapatos de pedra. As mãos enviaram-se dentro de umas luvas castanhas. A cabeça estava fixa nas torres. Não pestanejava, mas de dentro da sua boca saía um corpo azul, irregular, que ía variando de tonalidade e forma com a luz do sol e a sombra das nuvens. O tamanho do corpo aumentava conforme respirava.
De Eveline não se via a cabeça. No seu lugar um pedregulho, um pouco maior que os restantes. Entre este e as pernas, ausentes pela presença de uma outra pedra, uma barriga onde se notava a respiração. A respiração era irregular e começou a propagar-se ao solo. Primeiro foram as pedras que escondiam Eveline que começaram a tremer, mas depois o tremor começou a propagar-se em círculos concêntricos.
A corpo azul reluzente de James e a respiração de Eveline tomaram conta de todo o local. As pedras começam a rebolar e a saltar. Misturam-se com o corpo azul. O azul tingiu-se de castanhos. Agora a sucessão de tremores já não deixa as pedras regressar ao chão, atirando-as cada vez mais alto. Saltam no topo das torres, como capiteis. No chão, volto a ver os corpos de James e Eveline por inteiro. De onde me encontro, parecem suster as torres.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Dia 13 - Língua
O que se passou no dia de hoje, ou deverei dizer noite, pela presença do fantástico, ou deverei dizer do passado, é bastante irreal. Quando penso neste dia parece-me mais um sonho que uma caminhada. Poderia descrevê-lo como o primeiro, mas vou fazê-lo como a segunda.
O segundo dia a caminhar na trajetória ecliptíca, com o horizonte a prolongar-se, a cada passo, um pouco mais para lá, conjuntamente com a mescla de entusiasmo e cansaço que nos possuía, deve ter criado em nós um torpor gerador de visões. Era dia e, por obra do que James alega ter sido um eclipse, vez-se noite. Já segundo Eveline tudo se deveu a James, no seu deambular, se ter entreposto entre ele e a crista cerrada. Não sou capaz de concordar com um ou discordar do outro, nem de distinguir com clareza o que cada um viu, ou supôs ver, pelo que não me irei preocupar com isso.
Houve sim um momento em que as pedras sobre as quais pensávamos caminhar se revelaram serem pequenos corpos com uma desproporcionada cabeça. Eram graníticos, polidas de lábios grossos e olhos sem fundo. Foi então que deixámos de ouvir os nossos passos e das cabeças saíram sons incompreensíveis. E contudo, aos poucos, conforme continuámos a caminhar, os pés começaram a encontrar sentidos nesses sons.
Depois, reparámos em gigantescas figuras de pedra que marcavam o caminho. Silenciosas, de longos braços, em diferentes posturas, pareciam tocar os sons que dançávamos. Nesse momento, o receio que sentíamos consubstanciou-se nos passos a que começámos a dar nomes. Um, a que chamámos aproximação, era feito de pequenos avanços e recuos, num outro, a que demos o nome de descida, o corpo atirava-se na direção da pendente mas não saía do lugar. No ponto, quedávamos-nos a ver Eveline rodar sobre nós, já na espiral tínhamos que a suster enquanto ela girava.
Suspeitei que estes passos formavam uma língua. A isso não é de todo estranho o ter verificado que cada um dançava os passos de forma diferente. Por exemplo, como era diferente a forma como eu e James executávamos a aproximação. E James era exímo nos labirintos, colocava os pés entre as cabeças no chão e subitamente desaparecia entre as figuras de pedra, reaparecendo depois, mais à frente, ou atrás. Ah... e como era Eveline graciosa em linhas e arcos.
O segundo dia a caminhar na trajetória ecliptíca, com o horizonte a prolongar-se, a cada passo, um pouco mais para lá, conjuntamente com a mescla de entusiasmo e cansaço que nos possuía, deve ter criado em nós um torpor gerador de visões. Era dia e, por obra do que James alega ter sido um eclipse, vez-se noite. Já segundo Eveline tudo se deveu a James, no seu deambular, se ter entreposto entre ele e a crista cerrada. Não sou capaz de concordar com um ou discordar do outro, nem de distinguir com clareza o que cada um viu, ou supôs ver, pelo que não me irei preocupar com isso.
Houve sim um momento em que as pedras sobre as quais pensávamos caminhar se revelaram serem pequenos corpos com uma desproporcionada cabeça. Eram graníticos, polidas de lábios grossos e olhos sem fundo. Foi então que deixámos de ouvir os nossos passos e das cabeças saíram sons incompreensíveis. E contudo, aos poucos, conforme continuámos a caminhar, os pés começaram a encontrar sentidos nesses sons.
Depois, reparámos em gigantescas figuras de pedra que marcavam o caminho. Silenciosas, de longos braços, em diferentes posturas, pareciam tocar os sons que dançávamos. Nesse momento, o receio que sentíamos consubstanciou-se nos passos a que começámos a dar nomes. Um, a que chamámos aproximação, era feito de pequenos avanços e recuos, num outro, a que demos o nome de descida, o corpo atirava-se na direção da pendente mas não saía do lugar. No ponto, quedávamos-nos a ver Eveline rodar sobre nós, já na espiral tínhamos que a suster enquanto ela girava.
Suspeitei que estes passos formavam uma língua. A isso não é de todo estranho o ter verificado que cada um dançava os passos de forma diferente. Por exemplo, como era diferente a forma como eu e James executávamos a aproximação. E James era exímo nos labirintos, colocava os pés entre as cabeças no chão e subitamente desaparecia entre as figuras de pedra, reaparecendo depois, mais à frente, ou atrás. Ah... e como era Eveline graciosa em linhas e arcos.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Dia 12 - Trajetória eclíptica
Após termos estado no ponto resolvemos circundar a montanha para alcançar o outro lado, aquele que tínhamos observado. Seguimos assim ao longo da encosta, com a presença constante da inexpugnável crista de pedras do topo.
Os nossos passos, embora aparentemente enérgicos e determinados de chegar, eram marcados por um indisfarçável deambular. Seguíamos em frente com a rapidez de quem está preso por uma corda que nos segura, mas que por vezes fica lassa e nos dá a sensação de caminhar no vazio.
Eveline seguia agora visivelmente à frente. O caminho que percorríamos não estava marcado, guiávamos-nos pela crista, procurando manter a distância relativamente a ela, e pelo horizonte da encosta que encurvava lentamente. Naquele caminho inventado, os pés resvalavam à procura de apoio e tentávamos nos próximos passos restabelecer a distância ao topo.
A conversa entre James e Eveline era entrecortada pelo vacilar da caminhada.
- Quanto faltará...
- Talvez depois daquela rocha já vejamos...
- O outro lado.
- Sim, talvez.
- Fiquei surpreendida...
- Com o quê?
- Com a paisagem do outro lado.
- Sim, também não estava à espera.
- Já se veem os cumes.
- Há um grande desnível até ao desfiladeiro.
- Já dali se consegue ver como são perfeitos.
- Lá a floresta é muito densa.
- Ainda têm alguma neve.
- Seria por não haver sol que o verde era tão escuro...
- É magnífico!
- Sim, é!
Os nossos passos, embora aparentemente enérgicos e determinados de chegar, eram marcados por um indisfarçável deambular. Seguíamos em frente com a rapidez de quem está preso por uma corda que nos segura, mas que por vezes fica lassa e nos dá a sensação de caminhar no vazio.
Eveline seguia agora visivelmente à frente. O caminho que percorríamos não estava marcado, guiávamos-nos pela crista, procurando manter a distância relativamente a ela, e pelo horizonte da encosta que encurvava lentamente. Naquele caminho inventado, os pés resvalavam à procura de apoio e tentávamos nos próximos passos restabelecer a distância ao topo.
A conversa entre James e Eveline era entrecortada pelo vacilar da caminhada.
- Quanto faltará...
- Talvez depois daquela rocha já vejamos...
- O outro lado.
- Sim, talvez.
- Fiquei surpreendida...
- Com o quê?
- Com a paisagem do outro lado.
- Sim, também não estava à espera.
- Já se veem os cumes.
- Há um grande desnível até ao desfiladeiro.
- Já dali se consegue ver como são perfeitos.
- Lá a floresta é muito densa.
- Ainda têm alguma neve.
- Seria por não haver sol que o verde era tão escuro...
- É magnífico!
- Sim, é!
domingo, 12 de agosto de 2012
Dia 11 - Ponto
Hoje, após mais um dia a subir, chegámos ao ponto. Não é fácil descrever um ponto. A única forma de o fazer é dizendo como nos aproximámos dele, que forma tomou perante os nossos olhos, e depois, o que vimos e como nos sentimos quando lá estivemos.
Estes dois dias a subir foram dirigidos para esse ponto. A subida foi feita pela encosta nordeste. Embora procurássemos atingir o ponto, fomos-nos entretendo a observar a paisagem lá me baixo. Mas isso também contribuiu para construir uma expetativa de como ela seria o outro lado. O que se veria ao atingir o ponto? E como seria poder rodar a cabeça e trocar os olhos entre as duas paisagens? Como é que essas duas imagens se encontrariam no cérebro, nesse ponto?
A subida não foi fácil e estávamos cansados como finalmente vimos o ponto. A reação imediata foi lançarmos-nos para ele, mas o acesso não era fácil e acabámos a acotovelarmos-nos, sem maldade, sem conseguir avançar. E aquele ponto era o único que nos permitiria ver o lado sudoeste, o restante cume era um escarpado fio de navalha. Mesmo o acesso a uma pessoa só não era fácil, Eveline desequilibrou-se e só não caiu pois James a segurou.
E agora que já lá estivemos, o que se vê naquele ponto, depois da canseira da subida? Há efetivamente duas paisagens que ali se encontram, cortadas por um risco de pedras aguçadas. Mas é impossível descrevê-las com precisão, pois apenas lá esteve um de cada vez, e quem pode assegurar que não fomos traídos por um piscar de olhos ao rodar da cabeça ou devido a um desfasamento entre o ponto no cérebro e o ponto sob os pés. Sim, partilhámos depois essas experiências singulares, mas quem pode assegurar que uma vez de volta não efabulávamos já sobre o ponto.
Estes dois dias a subir foram dirigidos para esse ponto. A subida foi feita pela encosta nordeste. Embora procurássemos atingir o ponto, fomos-nos entretendo a observar a paisagem lá me baixo. Mas isso também contribuiu para construir uma expetativa de como ela seria o outro lado. O que se veria ao atingir o ponto? E como seria poder rodar a cabeça e trocar os olhos entre as duas paisagens? Como é que essas duas imagens se encontrariam no cérebro, nesse ponto?
A subida não foi fácil e estávamos cansados como finalmente vimos o ponto. A reação imediata foi lançarmos-nos para ele, mas o acesso não era fácil e acabámos a acotovelarmos-nos, sem maldade, sem conseguir avançar. E aquele ponto era o único que nos permitiria ver o lado sudoeste, o restante cume era um escarpado fio de navalha. Mesmo o acesso a uma pessoa só não era fácil, Eveline desequilibrou-se e só não caiu pois James a segurou.
E agora que já lá estivemos, o que se vê naquele ponto, depois da canseira da subida? Há efetivamente duas paisagens que ali se encontram, cortadas por um risco de pedras aguçadas. Mas é impossível descrevê-las com precisão, pois apenas lá esteve um de cada vez, e quem pode assegurar que não fomos traídos por um piscar de olhos ao rodar da cabeça ou devido a um desfasamento entre o ponto no cérebro e o ponto sob os pés. Sim, partilhámos depois essas experiências singulares, mas quem pode assegurar que uma vez de volta não efabulávamos já sobre o ponto.
sábado, 11 de agosto de 2012
Dia 10 - Espiral
O dia foi a subir. Primeiro por uma encosta suave mas assim que nos aproximámos do núcleo central o caminho transformou-se numa íngreme subida a dar voltas em caracol. Estamos constantemente a reencontrarmos-nos, ainda que com um ou dois metros de altura de diferença. Eveline vai no meio e conta como resolveu fazer esta viagem.
- Um dia surgiu uma possibilidade de tirar umas férias de dois meses. Sempre tinha sonhado vir aqui e procurei na internet.
- Encontrei muita informação sobre os percursos, com fotografias e descrições de pessoas que cá vieram.
- Tudo o que vi deixou-me entusiasmada. Falei com uma amiga que já cá tinha estado.
- Ela disse-me que este sítio era maravilhoso, mas que Agosto não seria a melhor época.
- Mas disse-lhe que apenas poderia fazer tirar férias em Agosto.
- Ela disse-me porque não tentava tirar mais tarde.
- Eu disse-lhe que poderia tentar mas que era difícil.
- Ela disse-me para eu falar com o meu chefe.
- Eu disse-lhe que ele não iria autorizar, mas resolvi perguntar à minha mãe.
- A minha mãe ficou surpreendida, mas depois disse também ela teria gostado de fazer este caminho.
- Ah, fiquei tão contente por a minha mãe me dizer isso que no dia seguinte falei logo com o meu chefe.
- Ele apenas ouviu
- Não percebi se estava de acordo ou não, mas é-me sempre difícil perceber o que é que ele está a pensar.
- Disse-me que iria falar com o responsável.
- Nessa noite encontrei um amigo, o Karl, e contei-lhe
- Ficou tão entusiasmado. Disse que deveria ir mesmo.
- No dia seguinte o chefe veio falar comigo e disse que não seria possível por causa dos clientes.
- Fiquei tão revoltada. Ainda no outro dia derem isso ao Tom.
- Queixei-me à minha amiga.
- Ela disse-me que não fazia sentido nenhum.
- Passámos toda a noite a conversar sobre isto.
- Quando cheguei a casa pensei que se pedisse uma licença poderia passar seis meses a viajar por aqui.
- Falei com o meu namorado e disse-lhe que estava a pensar viajar durante seis meses.
- Ele deu-me todo o apoio.
- Perguntei-lhe porque não vinha comigo.
- Ele disse que não podia por causa do cão. Sobretudo agora que o cão estava velho.
- Eu disse-lhe que compreendia.
- Ele disse-me que se eu esperasse que o cão morresse vinha comigo.
- Eu disse-lhe que agora já não dava para esperar.
- Um dia surgiu uma possibilidade de tirar umas férias de dois meses. Sempre tinha sonhado vir aqui e procurei na internet.
- Encontrei muita informação sobre os percursos, com fotografias e descrições de pessoas que cá vieram.
- Tudo o que vi deixou-me entusiasmada. Falei com uma amiga que já cá tinha estado.
- Ela disse-me que este sítio era maravilhoso, mas que Agosto não seria a melhor época.
- Mas disse-lhe que apenas poderia fazer tirar férias em Agosto.
- Ela disse-me porque não tentava tirar mais tarde.
- Eu disse-lhe que poderia tentar mas que era difícil.
- Ela disse-me para eu falar com o meu chefe.
- Eu disse-lhe que ele não iria autorizar, mas resolvi perguntar à minha mãe.
- A minha mãe ficou surpreendida, mas depois disse também ela teria gostado de fazer este caminho.
- Ah, fiquei tão contente por a minha mãe me dizer isso que no dia seguinte falei logo com o meu chefe.
- Ele apenas ouviu
- Não percebi se estava de acordo ou não, mas é-me sempre difícil perceber o que é que ele está a pensar.
- Disse-me que iria falar com o responsável.
- Nessa noite encontrei um amigo, o Karl, e contei-lhe
- Ficou tão entusiasmado. Disse que deveria ir mesmo.
- No dia seguinte o chefe veio falar comigo e disse que não seria possível por causa dos clientes.
- Fiquei tão revoltada. Ainda no outro dia derem isso ao Tom.
- Queixei-me à minha amiga.
- Ela disse-me que não fazia sentido nenhum.
- Passámos toda a noite a conversar sobre isto.
- Quando cheguei a casa pensei que se pedisse uma licença poderia passar seis meses a viajar por aqui.
- Falei com o meu namorado e disse-lhe que estava a pensar viajar durante seis meses.
- Ele deu-me todo o apoio.
- Perguntei-lhe porque não vinha comigo.
- Ele disse que não podia por causa do cão. Sobretudo agora que o cão estava velho.
- Eu disse-lhe que compreendia.
- Ele disse-me que se eu esperasse que o cão morresse vinha comigo.
- Eu disse-lhe que agora já não dava para esperar.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Dia 9 - James
Ao fundo, a montanha com as nuvens. De onde se encontra traça uma linha reta até ao sopé. Parece-lhe que a caminhada demorará um dia. Nunca aqui tinha estado antes, mas James está habituado a caminhar durante vários dias. Preparou-se com tudo o necessário e a mochila não está pesada.
Após três horas a caminhar faz uma paragem. Olhando para o ponto de partida e para a montanha calcula ter feito metade do caminho. Come qualquer coisa e bebe algum café. Em redor a paisagem não difere da que já percorreu.
Após um pequeno descanso recomeça o caminho. As descidas para os vales são ligeiros sobressaltos de que sai quando chega ao cimo da próxima colina, onde recupera a linha. Vai precisando de fazer poucos acertos a não ser quando inesperadamente à sua frente surge algum curso de água que tenha que circundar.
Uma nuvem começa a deixar cair pingos que obliquamente chocam com ele. A chuva não é muito forte, a não ser pela força com que o vento empurra as gotas. Não lhe parece que seja significante para o desviar do percurso delineado.
Após três horas a caminhar faz uma paragem. Olhando para o ponto de partida e para a montanha calcula ter feito metade do caminho. Come qualquer coisa e bebe algum café. Em redor a paisagem não difere da que já percorreu.
Após um pequeno descanso recomeça o caminho. As descidas para os vales são ligeiros sobressaltos de que sai quando chega ao cimo da próxima colina, onde recupera a linha. Vai precisando de fazer poucos acertos a não ser quando inesperadamente à sua frente surge algum curso de água que tenha que circundar.
Uma nuvem começa a deixar cair pingos que obliquamente chocam com ele. A chuva não é muito forte, a não ser pela força com que o vento empurra as gotas. Não lhe parece que seja significante para o desviar do percurso delineado.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Dia 8 - Labirintos
A chegada a este porto criou alguma inquietação em James. Quando o barco atracou não havia ninguém no cais, como se fosse um lugar abandonado. Os passageiros que iam saindo desapareciam por entre as várias ruas que, como portas, se abriam para o cais. A cidade era um ermo corrido pelo vento e as casas feias, de janelas com olheiras e língua de fora, impossibilitavam imaginar qualquer aconchego. Mesmo o sol e a sua luz eram frios e cheios de poeira. Ao errar pelas ruas ia cruzando esquinas e dando com novas fileiras de casas iguais. Quando passou pelo mesmo sítio pela segunda vez entrou por uma porta para não se deixar engolir naquele labirinto.
Uma vez dentro foi avançando, abrindo portas, que lá deverão estar por causa do frio, até que chegou ao fundo de umas escadas. Não se via ninguém dentro da casa. Subiu as escadas e à direita estava uma pequena sala. Tinha um ar acolhedor, duas cadeiras de baloiço, uma mesa e um grosso tapete junto a uma lareira acesa. Deixou-se ficar numa cadeira a apanhar o calor. Com o corpo aconchegado James questionou-se porque não estaria ninguém na casa. Levantou-se e foi ao quarto ao lado que tinha duas camas e uma outra porta. Do lado de lá desta porta havia uma outra sala, parecida com a primeira, com uma escada. Ao fundo da escada estava uma ampla sala. James começou a suspeitar que a casa devia ser enorme.
Uma vez dentro foi avançando, abrindo portas, que lá deverão estar por causa do frio, até que chegou ao fundo de umas escadas. Não se via ninguém dentro da casa. Subiu as escadas e à direita estava uma pequena sala. Tinha um ar acolhedor, duas cadeiras de baloiço, uma mesa e um grosso tapete junto a uma lareira acesa. Deixou-se ficar numa cadeira a apanhar o calor. Com o corpo aconchegado James questionou-se porque não estaria ninguém na casa. Levantou-se e foi ao quarto ao lado que tinha duas camas e uma outra porta. Do lado de lá desta porta havia uma outra sala, parecida com a primeira, com uma escada. Ao fundo da escada estava uma ampla sala. James começou a suspeitar que a casa devia ser enorme.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Dia 7 - Linhas e arcos
Passar um dia a bordo deste cargueiro, ajeitado ao transporte de passageiros, pode tornar-se monótono. Logo cedo, no início do dia, percorro minuciosamente o barco mas percebo que não chegará para o preencher. De seguida, atiro-me à leitura de The Boarding House e, quando termino, receio não vir a encontrar a bordo nada que se relacione com este anúncio feito por uma mãe a um homem de que deverá casar com a sua filha. Para além disso, decido que desta vez não me irei socorrer de James, nem de Eveline.
Que poderá haver de anúncio neste barco? Sei que o capitão fará amanhã de manhã o anúncio da atracagem ao porto de destino. Mas essa é uma chegada anunciada. Peço auxílio a um livro de Madonas do renascimento que começo a folhear. Prende-me a atenção um quadro de Botticelli sobre a anunciação do arcanjo Gabriel a Maria. Maria, extremamente bela, estende a mão na direção da mão de Gabriel. Ambos têm as mãos abertas que não se tocam. O arcanjo Gabriel está de joelhos e podem-se identificar dois retângulos dispostos diagonalmente que marcam a distância entre Maria e Gabriel. Um retângulo é formado pelos braços estendidos e as cabeças, o outro, mais pequeno e dentro do primeiro, pelas mãos de dedos abertos, palma frente a palma. Estes dois retângulos estabelecem uma tensão na distância entre as duas figuras.
Com reduzida esperança de encontrar dentro do barco, neste dia, e no limitado tempo em que cá estou, algo do anúncio que Joyce descreve, também tenho dúvidas de vir a reconhecer alguma forma de anunciação de Botticelli. Não que não possa haver mulheres belas a bordo para representarem o seu papel, sei que o passar do tempo neste lugar fechado se encarregará que isso aconteça. Agora a complexidade, quer da estrutura narrativa de Joyce, quer da significação de Botticelli, serão difíceis de reconstruir nesta amálgama de ferro fumegante e ronronante.
Assim, retorno ao mais simples, às figuras geométricas. Não pretendendo transformar os passageiros, os quais desconheço, em personagens, prefiro ficar pelas figuras geométricas que vão formando, especialmente sempre que se encontrem junto à borda do navio, quando têm a paisagem como fundo e se torna mais fácil geometrizá-los.
Sento-me num banco no convés e observo um casal jovem. Ela forma um arco que alterna entre o concavo e o convexo na direcção dele. Ele, primeiro uma simples linha, vai transformando-se num arco cada vez mais pronunciado na direção dela. Formam por alguns instantes duas circunferências concêntricas e separam-se. Ela já lá não está e a parte superior da linha que o forma começa a girar presa pela ponta ao chão, formando um cone invertido. Aproxima-se uma mulher mais velha. É uma linha grossa e curta. Algumas pessoas que se colocam à frente não me deixam ver mais, mas Joyce também não conta.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Dia 6 - O observador de pássaros
Eveline é de baixa estatura. Os retângulos das escadas são um pouco largos para o comprimentos das pernas. Por isso, ao subir, vai fazendo crescendos com as ancas. Ao fundo das escadas, alguns homens, à espera, seguem o movimento com pequenas elipses dos olhos, mas talvez não com tanta perfeição.
O barco que nos vai levar através destes canais e, ocasionalmente, por mar aberto é um grande paralelepípedo ao qual foi colado um bico. Na cabine, onde vamos passar a noite, atropelam-se quatro camas no acesso a uma pequena janela quadrada por onde ainda se vê o local que agora abandonamos.
No convés acumulam-se as pessoas em início de viagem. O barco começa a mover-se com o ruído dos motores a rodar no vazio da manobra e os gritos dos marinheiros, larga o cabo, puxa o cabo. O último cabo que segurava o barco é um passageiro aflito correndo sobre a água e saltando para o barco in extremis.
Os passageiros partem com os olhos no local que deixámos como se o barco fosse demasiado exíguo. Mas, aos poucos, conforme a distância aumenta, os olhares começam a desviar-se, primeiro para as margens depois à procura uns dos outros.
De entre os passageiros, há um que perscruta continuamente o horizonte. É franzino de óculos, usa uma barba rala, e encontra-se sempre acompanhado de uns potentes binóculos. É um observador de pássaros. Ficamos a saber que eles abundam nestes canais, razão pela qual aqui veio. E os pássaros vão traçando longínquas linhas no horizonte as quais ganham sentido e relevância nas explicações que vai dando sobre os seus distintos modos de voo e comportamentos.
É simpático com uns modos delicados, e está sempre disponível a interromper a observação e emprestar os binóculos a quem queira seguir o voo das aves. À sua volta vão-se juntando passageiros, quer porque têm algum interesse por pássaros, quer porque ali está a acontecer algo. Junto a ele estão dois homens mais velhos, de cabelos grisalhos e barba desgrenhada que lhes cobre todo o rosto deixando apenas de fora uns lábios grossos e um minúsculo par de olhos esbugalhados. São muito parecidos, tenho dificuldade em os distinguir, e pelo facto de viajarem conjuntamente com o aparentemente frágil observador de pássaros, ganham uma forma de Dupond e Dupont.
Também Eveline não resiste em ir ver os pássaros. Assim que se aproxima um dos Dupond e Dupont pergunta-lhe, ?De donde eres tu?, ao que imediatamente o outro Dupond e Dupont acrescenta, Where are you from?. Eveline afasta-se sorrindo e dirige-se para a proa. Estamos a entrar em mar aberto. As ondas começam a agigantar-se e o barco vai-se transformando num paralelepípedo oblíquo que se equilibra entre estibordo e bombordo. Olhando para as ondas Eveline continua a sorrir.
domingo, 5 de agosto de 2012
Dia 5 - A descida
De Eveline, a primeira impressão não permaneceu. Enquanto caminhou connosco, no resto do percurso de ontem e durante o dia de hoje, não lhe vislumbrei no rosto cansaço ou hesitação. Antes pelo contrário, havia jovialidade e desenvoltura a andar. De nós era quem mais falava. Não que iniciasse as conversas, mas aos nossos comentários sempre acrescentava algo. Também James começou a conversar mais. Agora deixava-se ficar para trás, tendo perdido alguma daquela determinação cega que no início o guiava.
A estas transformações não será de todo estranho a alteração que ocorreu no caminho. Conforme fomos descendo a montanha começaram a suceder-se os cursos de água, por vezes com pequenas cascatas. Nestas zonas da montanha a água corre célere, mesmo que em pequena quantidade. Também a temperatura foi gradualmente aumentando ao mesmo tempo que a água, levantada pela queda e encurralada nos desfiladeiros, criava um ambiente húmido e cerrado, diferente daquele que tínhamos encontrado no topo.
E depois há um som constante. No cume de uma montanha o som é tão rarefeito como o ar, mas aqui em baixo os sons são levados nas partículas de água. O som da água mistura-se com a voz de Eveline, com o ruído das pedras que resvalam sob as nossas botas e, acima de tudo, com o silêncio todo ouvidos de James. James diz algo e depois cala-se a ouvir Eveline. Mais tarde vim a perceber que o que interessa a James não eram as respostas de Eveline, mas o conjunto de sons no qual a voz de Eveline se inscreve. Eveline deixa-se ir nesse jogo pela satisfação que lhe dá ouvir a sua voz nos ouvidos de James.
A meio da tarde chegamos a uma cascata formada por um retângulo perfeito. É feita de fios de água que caiem sem alvoroço sobre um pequeno lago, como se este tivesse sido desenhado para receber aquela corrente. No cimo do retângulo, um emaranhado de árvores forma uma boca verde de onde jorra a água. Em baixo, uma linha abre-se no lago para deixar gentilmente entrar a água. À volta tudo é verde e, devido ao sombreado do local, predominam os fetos.
Eveline senta-se a olhar para a cascata. O rosto é redondo, com os olhos negros e o nariz curto. As orelhas, pequenas, mal se notam sob um cabelo escuro e corrido. A idade que agora aparenta é o culminar da descida e da cascata. Um pequeno círculo nada em direção ao retângulo. A cabeça é engolida entre a água que lhe cai em cima e a água que se abre para a receber. Já do lado de lá da cortina de água, por entre os fios, está o rosto de Eveline que nos observa.
A estas transformações não será de todo estranho a alteração que ocorreu no caminho. Conforme fomos descendo a montanha começaram a suceder-se os cursos de água, por vezes com pequenas cascatas. Nestas zonas da montanha a água corre célere, mesmo que em pequena quantidade. Também a temperatura foi gradualmente aumentando ao mesmo tempo que a água, levantada pela queda e encurralada nos desfiladeiros, criava um ambiente húmido e cerrado, diferente daquele que tínhamos encontrado no topo.
E depois há um som constante. No cume de uma montanha o som é tão rarefeito como o ar, mas aqui em baixo os sons são levados nas partículas de água. O som da água mistura-se com a voz de Eveline, com o ruído das pedras que resvalam sob as nossas botas e, acima de tudo, com o silêncio todo ouvidos de James. James diz algo e depois cala-se a ouvir Eveline. Mais tarde vim a perceber que o que interessa a James não eram as respostas de Eveline, mas o conjunto de sons no qual a voz de Eveline se inscreve. Eveline deixa-se ir nesse jogo pela satisfação que lhe dá ouvir a sua voz nos ouvidos de James.
A meio da tarde chegamos a uma cascata formada por um retângulo perfeito. É feita de fios de água que caiem sem alvoroço sobre um pequeno lago, como se este tivesse sido desenhado para receber aquela corrente. No cimo do retângulo, um emaranhado de árvores forma uma boca verde de onde jorra a água. Em baixo, uma linha abre-se no lago para deixar gentilmente entrar a água. À volta tudo é verde e, devido ao sombreado do local, predominam os fetos.
Eveline senta-se a olhar para a cascata. O rosto é redondo, com os olhos negros e o nariz curto. As orelhas, pequenas, mal se notam sob um cabelo escuro e corrido. A idade que agora aparenta é o culminar da descida e da cascata. Um pequeno círculo nada em direção ao retângulo. A cabeça é engolida entre a água que lhe cai em cima e a água que se abre para a receber. Já do lado de lá da cortina de água, por entre os fios, está o rosto de Eveline que nos observa.
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