Nestas caminhadas os encontros sucedem-se e repetem-se. Por vezes rendemo-nos à repetição como a uma inevitabilidade e começamos a caminhar juntos, e separamos-nos quando o vento ou a chuva assim o decidem, ou a seu pretexto. Esta caminhada também não será exceção.
Aqui, no sopé da montanha, o que se nota é a ausência do vento. A montanha está mesmo em frente. Olhar para ela é um longo e pausado sim com a cabeça. Aproveito para respirar profundamente enquanto vou observando os seus recantos e voltas. Há uma sensação de liberdade resultante da alegria da desabituação do olhar.
Não estou sozinho. No acampamento há mais pessoas. Com alguns dos rostos já me cruzei antes, com outros ir-me-ei provavelmente cruzar em breve, outros não voltarei a ver. São rostos sem ruído. Aqui, num local que ainda não se possui, em que cada gesto e cada passo carece de repetição, o ruído é um luxo. Conforme começarmos a andar e formos perdendo este espanto iremos regressando às repetições e aos rituais, mas agora ainda não é assim.
Inicio a caminhada do dia. Saio sozinho em direção a Norte. O trilho está bem marcado, é fácil nos primeiros quilómetros mas depois começa e ficar mais íngreme, sendo necessária a ajuda das mãos. Gosto do escalar de movimentos amplos de braços e pernas, um pouco como subir a árvores. Do cimo de uma pedra fico-me a observar outros que também se esforçam por subir. Alguns sobem determinados, quase sem parar, enquanto noutros o cansaço transforma-se em argumentos. Param para explicar onde agarrar com a mão ou onde colocar o pé e assim a sua subida transforma-se num mapa do caminho. Um dos que sobe determinado é James. Já nos cruzámos antes. Quando chega à pedra em que estou sentado pára e acena. Em poucas palavras acertamos que partilhamos a mesma direção. Levanto-me e recomeçamos a caminhar.
James não fala muito mas tem sentido de humor. Por este caminho ouvem-se pássaros e ele sugere que também nós sejamos pássaros. Digo-lhe que não sei imitar pássaros. Diz não ser um problema e propõe que sejamos ticket birds. Retira os bilhetes de admissão no parque e mostra-me como se podem fazer vibrar entre os dedos. O som propaga-se entre as árvores e os pássaros silenciam-se surpreendidos e ficam à escuta, como talvez tenha acontecido a primeira vez que foi ouvido um homem nestas paragens.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Dia 1 - A aproximação
Ao fundo a montanha, imponente de acordo com as expetativas. Sobre ela umas massivas nuvens, negras e brancas, como uma pasta, prolongam o seu volume. Ainda não a percorri mas já muito sei sobre ela, dos seus vales e cumes, rios e glaciares, e das pedras que lhe dão o nome. É com este conhecimento que decido fazer uma aproximação. A aproximação foi calculada, será um dia de caminhada, cerca de 18 quilómetros até ao sopé.
Nestes primeiros passos há um anunciar da montanha. Dela não tiro os olhos. Do seu tamanho, que deverá ir aumentando conforme me aproximo, ganham forma os próximos 14 dias. Estes dias serão muito semelhantes, sobre as pernas e com a mochila às costas, ora a subir ou a descer, e demarcados pelo ir de um sítio a outro.
Contrariamente às expetativas, após as primeiras horas já não olho a montanha. Vou olhando o caminho e a paisagem que me rodeia. Passo por um pequeno vale pespegado de árvores, esqueléticas de um fogo, rodeadas de viçosos arbustos verdes. É este contraste que me prende a atenção. Começo por me concentrar nas árvores que, negras do fogo e brancas pelo polimento da chuva, são esculturas imponentes deixadas por aqui ficar. Mas a sua imponência está cercada por arbustos que por todo o lado rebentam, desordenados. Entre o silêncio das árvores e a bisbilhotice dos arbustos, é a segunda que agora me chama. Os arbustos falam com pesar das árvores que já foram. São comedidos, não necessitam de terminar as perguntas pois as respostas são logo dadas por ligeiros acenares de folhas. Entretanto, o vento que começa a levantar-se transforma a conversa em sussurros de concordância que percorrem o vale. Já não há perguntas nem respostas, apenas folhas que se agitam na mesma direção. Deixam-se adormecer nesta harmonia. Fico a saber pouco das árvores.
Volto a concentrar-me na montanha que continua lá à frente. O vento que fazia sussurrar as folhas aumenta conforme vou caminhando. Vou-me vergando a esse vento e por vezes tenho que parar para não retroceder. Nestes terrenos enlameados, a lama acumula-se nas botas em diversas camadas que secam rapidamente com o vento antes de se voltarem a encharcar numa poça. Com as pernas curvadas, bamboleio-me ao andar. O peito arqueia para a frente e a mochila fica quase na horizontal sobre as costas. A montanha torna-se invisível quanto mais me empurra para trás.
Nestes primeiros passos há um anunciar da montanha. Dela não tiro os olhos. Do seu tamanho, que deverá ir aumentando conforme me aproximo, ganham forma os próximos 14 dias. Estes dias serão muito semelhantes, sobre as pernas e com a mochila às costas, ora a subir ou a descer, e demarcados pelo ir de um sítio a outro.
Contrariamente às expetativas, após as primeiras horas já não olho a montanha. Vou olhando o caminho e a paisagem que me rodeia. Passo por um pequeno vale pespegado de árvores, esqueléticas de um fogo, rodeadas de viçosos arbustos verdes. É este contraste que me prende a atenção. Começo por me concentrar nas árvores que, negras do fogo e brancas pelo polimento da chuva, são esculturas imponentes deixadas por aqui ficar. Mas a sua imponência está cercada por arbustos que por todo o lado rebentam, desordenados. Entre o silêncio das árvores e a bisbilhotice dos arbustos, é a segunda que agora me chama. Os arbustos falam com pesar das árvores que já foram. São comedidos, não necessitam de terminar as perguntas pois as respostas são logo dadas por ligeiros acenares de folhas. Entretanto, o vento que começa a levantar-se transforma a conversa em sussurros de concordância que percorrem o vale. Já não há perguntas nem respostas, apenas folhas que se agitam na mesma direção. Deixam-se adormecer nesta harmonia. Fico a saber pouco das árvores.
Volto a concentrar-me na montanha que continua lá à frente. O vento que fazia sussurrar as folhas aumenta conforme vou caminhando. Vou-me vergando a esse vento e por vezes tenho que parar para não retroceder. Nestes terrenos enlameados, a lama acumula-se nas botas em diversas camadas que secam rapidamente com o vento antes de se voltarem a encharcar numa poça. Com as pernas curvadas, bamboleio-me ao andar. O peito arqueia para a frente e a mochila fica quase na horizontal sobre as costas. A montanha torna-se invisível quanto mais me empurra para trás.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Um livro e uma montanha
Um dos livros que mais me surpreendeu foi Dubliners de James Joyce. Ao terminar de ler cada conto ficava com a ideia que nada tinha acontecido. Cada história é sobre o que não aconteceu ou sobre o que poderia ter acontecido. Querer-se falar a língua que já não se fala, ser-se o que não se é, amar-se o que não se teve: são histórias de um mundo fora do mundo.
Escrito numa altura de ressurgimento nacionalista na Irlanda, no início do século XX, fez-me lembrar um pouco um Portugal que conheci em pequeno, e que por vezes pressinto que está a querer voltar. Um Portugal que deseja ser o que não é.
Tudo isto porque ao relembrar Dubliners acho que encontrei a leitura para este Verão. Agora só falta escolher a montanha onde fazer a caminhada para o reler.
Escrito numa altura de ressurgimento nacionalista na Irlanda, no início do século XX, fez-me lembrar um pouco um Portugal que conheci em pequeno, e que por vezes pressinto que está a querer voltar. Um Portugal que deseja ser o que não é.
Tudo isto porque ao relembrar Dubliners acho que encontrei a leitura para este Verão. Agora só falta escolher a montanha onde fazer a caminhada para o reler.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
balbúrdia
a a a a a aceitação acontecer aconteceu acrescenta ando ao aqui aquilo até aéreos bem bom carro carros cheguei choque coca-cola com com compreensão conseguir contar contente controladores conveniente convidada corrigir de de de de de decente depois depois doce dois dos e e e e e e e e e e e és és encomendados encontrado entra era era essas estou estou eu exames faz fazer fenomenal ferros foi forma gel greve haver horário ida ir já lata livros londres mas mas matrícula meu mim muda muito muito mão na na nada nos não não não não não não o o o ocupado olhando os os outra papel para para para parecia peço pode pois porque posso posso prato preencher que que que que que que resto retroceder saiu sala se será serão significado também te tempo tirada tivéssemos três tu tu tudo um um uma uma uma unhas vai vigiar zero
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Guerra e Mundo Humano
Acabei de reler o 1º volume de Guerra e Paz mais de 30 anos depois de ter lido o livro pela 1ª vez. Esta versão é uma tradução recente de Nina Guerra e Filipe Guerra e tem uma nota sobre o título. De facto, o título original seria Guerra e Sociedade, ou Guerra e Mundo Humano. As palavras do russo para paz e sociedade, ou universo, ou mundo humano, são homófonas e embora no tempo de Tolstoi se escrevessem com grafia diferente isso hoje já não acontece, justificando a tradução por Guerra e Paz que se popularizou no ocidente.
Um outro aspeto curioso foi já não recordar a história, mas ao reler ser bastante mais claro as caraterísticas das personagens. As personagens de Pedro, Vassíli, Bolkônski e outros vieram rapidamente à memória conforme fui lendo.
Um outro aspeto curioso foi já não recordar a história, mas ao reler ser bastante mais claro as caraterísticas das personagens. As personagens de Pedro, Vassíli, Bolkônski e outros vieram rapidamente à memória conforme fui lendo.
Apenas isso
- Ouvi dizer que a palavra appenas não tem apenas um p.
- Não, a mim afiançaram-me que apennas terá dois enes.
- Mas é evidente que ao pronunciar se prolonga o é, por exemplo para dar ênfase a que é apeeeenas isso.
- Tenho que vos confessar que todos têm razão, appeeeennas leva dois pês, dois enes e 4 és.
- Quem diria, apenas há dois dias atrás achava que appeeeennas era bem maneirinha e afinal saiu esta monstruosidade.
- E da missa sabes tu apenas a metade inicial, basta appeeennassss perguntar a quem sabe para ficar a perceber todos os ésses que tem no fim.
- Sabes a metade inicial? Estás apenas a te esquecer de todos os às que aaaappeeeennassss tem no princípio.
- Mas afinal o que significa aaaappeeennassss?
- Aaaappeeeennassss isssssso.
- Não, a mim afiançaram-me que apennas terá dois enes.
- Mas é evidente que ao pronunciar se prolonga o é, por exemplo para dar ênfase a que é apeeeenas isso.
- Tenho que vos confessar que todos têm razão, appeeeennas leva dois pês, dois enes e 4 és.
- Quem diria, apenas há dois dias atrás achava que appeeeennas era bem maneirinha e afinal saiu esta monstruosidade.
- E da missa sabes tu apenas a metade inicial, basta appeeennassss perguntar a quem sabe para ficar a perceber todos os ésses que tem no fim.
- Sabes a metade inicial? Estás apenas a te esquecer de todos os às que aaaappeeeennassss tem no princípio.
- Mas afinal o que significa aaaappeeennassss?
- Aaaappeeeennassss isssssso.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
De supetão
De supetão, uma centelha de calor enche-se de suor
De supetão, um rebentar de nêsperas enche-se de sabor
De supetão, um espreguiçar de luz enche-se de dia
De supetão, um despertar de linhas enche-se de formas
domingo, 27 de maio de 2012
Espiar
Escrevi há algum tempo que o caso da maçonaria seria talvez apenas um problema de moscas.
Mas com o que se vai sabendo o problema tem uma grande dimensão. Os espiões fazem relatórios sobre a vida privada de membros proeminentes da economia, o caso Balsemão . O presidente da república queixa-se que foi alvo de escutas telefónicas, o caso Cavaco Silva. Os jornalistas espiam a família real e o chefe de oposição/primeiro ministro, e são próximos ao outro chefe da oposição/primeiro ministro, o caso Rupert Murdoch. Os ministros recebem informação de espiões e fazem chantagem sobre a vida privada de jornalistas, o caso Miguel Relvas e Silva Carvalho, ...
Parece que espiar se tornou numa importante arma do "jogo democrático". Permitirá redefinir estratégias em tempo real e utiliza de forma igual os serviços secretos e as empresas de segurança privadas. Tudo será facilitado por a tecnologia de produção e análise da informação ser cada vez mais ubíqua.
Serão moscas mas o burro vale a pena.
Mas com o que se vai sabendo o problema tem uma grande dimensão. Os espiões fazem relatórios sobre a vida privada de membros proeminentes da economia, o caso Balsemão . O presidente da república queixa-se que foi alvo de escutas telefónicas, o caso Cavaco Silva. Os jornalistas espiam a família real e o chefe de oposição/primeiro ministro, e são próximos ao outro chefe da oposição/primeiro ministro, o caso Rupert Murdoch. Os ministros recebem informação de espiões e fazem chantagem sobre a vida privada de jornalistas, o caso Miguel Relvas e Silva Carvalho, ...
Parece que espiar se tornou numa importante arma do "jogo democrático". Permitirá redefinir estratégias em tempo real e utiliza de forma igual os serviços secretos e as empresas de segurança privadas. Tudo será facilitado por a tecnologia de produção e análise da informação ser cada vez mais ubíqua.
Serão moscas mas o burro vale a pena.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Hi in Vegas
Hi Vegas
I'm in Vegas
I'm at the Harrahs
I'm at the Circus
I'm not downtown
Hi Mom
I'm in Vegas
I've been shopping
Walking stripdown and up
Having a lot of fun
Hi there
Ain't I gorgeous?
I know, I'm just a girl on a card
But if you wish
I can become for real
Hi 500 dollars babe
I'm just a 100 pounds boy
I've left home today
And I can dream
Hi I Hi I Hi I Hi I
Hi Dad
I'm in Vegas
I've been playing blackjack
I put on that poker face you taught me
But there was no girls on the cards
How can I get to power?
Enter at Bally's
Pass through the slot machines
Turn left where the blackjack tables are
Do a walkthrough charming Paris
Get out at the Arc de Triomphe
Turn right to the Eiffel Tower
And you'll see Cesars Palace
And then Trump Tower
The power back and forth
Back and forth
I'm in Vegas
I'm at the Harrahs
I'm at the Circus
I'm not downtown
Hi Mom
I'm in Vegas
I've been shopping
Walking stripdown and up
Having a lot of fun
Hi there
Ain't I gorgeous?
I know, I'm just a girl on a card
But if you wish
I can become for real
Hi 500 dollars babe
I'm just a 100 pounds boy
I've left home today
And I can dream
Hi I Hi I Hi I Hi I
Hi Dad
I'm in Vegas
I've been playing blackjack
I put on that poker face you taught me
But there was no girls on the cards
How can I get to power?
Enter at Bally's
Pass through the slot machines
Turn left where the blackjack tables are
Do a walkthrough charming Paris
Get out at the Arc de Triomphe
Turn right to the Eiffel Tower
And you'll see Cesars Palace
And then Trump Tower
The power back and forth
Back and forth
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Linha Vermelha
O filme Linha Vermelha de José Filipe Costa é um filme honesto, não porque o Cinema seja necessariamente honesto, mas porque o realizador o é. É um documentário sobre o filme Torre Bela de Thomas Harlan, que relata a ocupação de uma herdade no Ribatejo em 1975. O documentário mostra como a presença da câmara de filmar desencadeia acontecimentos e como Thomas Harlan a usa para manipular a realidade. Ainda assim, como a manipulação necessita de se alimentar da realidade para ser verosímil e a passagem do tempo torna a manipulação quase anedótica, fica muito para ver.
Vê-se o dono da herdade no seu palácio (era assim que os trabalhadores viam a casa da herdade) dizer, com um Francês distinto, não saber de onde vinham os trabalhadores da herdade. Veem-se os trabalhadores, com um ar infantil a olhar boquiabertos para o palácio. Era este o Portugal de antes do 25 de Abril. Linha vermelha segue o percurso dos ocupantes até aos dias de hoje e percebe-se que já não olham boquiabertos para o palácio. Contudo não segue o percurso do dono da herdade pelo que ficamos sem saber se o resultado de perder o seu palácio foi ter-se fechado noutros palácios, mais ou menos virtuais, limitado a saber do que ocorre lá fora através da mediação de Rasputines.
Na França, em 1789, quem tinha o poder vivia fechado num palácio chamado Versailles e tinha pouca consciência do que acontecia na sua herdade chamada França. Foi preciso uma revolução para deixar de haver um Rei da França e passar a haver um Rei dos Franceses. Contudo, não deixa de ser curioso que a verdadeira revolução aconteceu alguns milhares de quilómetros para oeste, com a independência dos Estados Unidos.
Neste momento de crise começam a resurgir os desígnios que ultrapassam a dimensão das pessoas. É Portugal, é a Nação, e deixa de ser os Portugueses. O sacrifício das pessoas é pedido a bem destes desígnios pintados de abstrato. Contudo a História ensina-nos que eles nunca têm nada de abstrato e são de fato os desígnios de alguns.
Vê-se o dono da herdade no seu palácio (era assim que os trabalhadores viam a casa da herdade) dizer, com um Francês distinto, não saber de onde vinham os trabalhadores da herdade. Veem-se os trabalhadores, com um ar infantil a olhar boquiabertos para o palácio. Era este o Portugal de antes do 25 de Abril. Linha vermelha segue o percurso dos ocupantes até aos dias de hoje e percebe-se que já não olham boquiabertos para o palácio. Contudo não segue o percurso do dono da herdade pelo que ficamos sem saber se o resultado de perder o seu palácio foi ter-se fechado noutros palácios, mais ou menos virtuais, limitado a saber do que ocorre lá fora através da mediação de Rasputines.
Na França, em 1789, quem tinha o poder vivia fechado num palácio chamado Versailles e tinha pouca consciência do que acontecia na sua herdade chamada França. Foi preciso uma revolução para deixar de haver um Rei da França e passar a haver um Rei dos Franceses. Contudo, não deixa de ser curioso que a verdadeira revolução aconteceu alguns milhares de quilómetros para oeste, com a independência dos Estados Unidos.
Neste momento de crise começam a resurgir os desígnios que ultrapassam a dimensão das pessoas. É Portugal, é a Nação, e deixa de ser os Portugueses. O sacrifício das pessoas é pedido a bem destes desígnios pintados de abstrato. Contudo a História ensina-nos que eles nunca têm nada de abstrato e são de fato os desígnios de alguns.
sábado, 21 de abril de 2012
Um gato
Era uma vez um gato gordo e fofo que fazia cocó na banheira e uma menina que gostava muito do gato porque uma menina é uma menina e um gato é um gato.
terça-feira, 17 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
Do Poder e dos Afetos (snipers)
As três primeiras intervenções são certeiras e claramente dirigidas umas às outras. Antevê-se o despertar de paixões, uma guerra. E se os primeiros tiros forem apenas uma encenação?
Numa trama digna de Agatha Christie dir-se-ia que objetivo das primeiras intervenções é apenas o despertar de emoções. Mas não é necessário ir a Agatha Christie, a história das guerras civis está cheia de aprendizes de feiticeiro, que começam fascinados consigo próprios e acabam num emaranhado de feitiços.
Depois vem o nojo, o silêncio, o esquecimento, e então surge um novo aprendiz que pensa que desta vez é que é.
Numa trama digna de Agatha Christie dir-se-ia que objetivo das primeiras intervenções é apenas o despertar de emoções. Mas não é necessário ir a Agatha Christie, a história das guerras civis está cheia de aprendizes de feiticeiro, que começam fascinados consigo próprios e acabam num emaranhado de feitiços.
Depois vem o nojo, o silêncio, o esquecimento, e então surge um novo aprendiz que pensa que desta vez é que é.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Kizomba
Gosto de Kizomba.
Gosto de dançar com horizontes cheios de embondeiros que não há maneira de parirem.
Gosto de dançar com horizontes que não param de parir mais e mais embondeiros.
Gosto de dançar com canções prenhes de palavras que não entendo.
Gosto de dançar com horizontes cheios de embondeiros que não há maneira de parirem.
Gosto de dançar com horizontes que não param de parir mais e mais embondeiros.
Gosto de dançar com canções prenhes de palavras que não entendo.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Do Poder e dos Afetos (2)
MACBETH
We will proceed no further in this business:
He hath honour'd me of late; and I have bought
Golden opinions from all sorts of people,
Which would be worn now in their newest gloss,
Not cast aside so soon.
LADY MACBETH
Was the hope drunk
Wherein you dress'd yourself? hath it slept since?
And wakes it now, to look so green and pale
At what it did so freely? From this time
Such I account thy love. Art thou afeard
To be the same in thine own act and valour
As thou art in desire? Wouldst thou have that
Which thou esteem'st the ornament of life,
And live a coward in thine own esteem,
Letting 'I dare not' wait upon 'I would,'
Like the poor cat i' the adage?
MACBETH
Prithee, peace:
I dare do all that may become a man;
Who dares do more is none.
LADY MACBETH
What beast was't, then,
That made you break this enterprise to me?
When you durst do it, then you were a man;
And, to be more than what you were, you would
Be so much more the man. Nor time nor place
Did then adhere, and yet you would make both:
They have made themselves, and that their fitness now
Does unmake you. I have given suck, and know
How tender 'tis to love the babe that milks me:
I would, while it was smiling in my face,
Have pluck'd my nipple from his boneless gums,
And dash'd the brains out, had I so sworn as you
Have done to this.
MACBETH
If we should fail?
LADY MACBETH
We fail!
But screw your courage to the sticking-place,
And we'll not fail.
- Macbeth, William Shakespeare
We will proceed no further in this business:
He hath honour'd me of late; and I have bought
Golden opinions from all sorts of people,
Which would be worn now in their newest gloss,
Not cast aside so soon.
LADY MACBETH
Was the hope drunk
Wherein you dress'd yourself? hath it slept since?
And wakes it now, to look so green and pale
At what it did so freely? From this time
Such I account thy love. Art thou afeard
To be the same in thine own act and valour
As thou art in desire? Wouldst thou have that
Which thou esteem'st the ornament of life,
And live a coward in thine own esteem,
Letting 'I dare not' wait upon 'I would,'
Like the poor cat i' the adage?
MACBETH
Prithee, peace:
I dare do all that may become a man;
Who dares do more is none.
LADY MACBETH
What beast was't, then,
That made you break this enterprise to me?
When you durst do it, then you were a man;
And, to be more than what you were, you would
Be so much more the man. Nor time nor place
Did then adhere, and yet you would make both:
They have made themselves, and that their fitness now
Does unmake you. I have given suck, and know
How tender 'tis to love the babe that milks me:
I would, while it was smiling in my face,
Have pluck'd my nipple from his boneless gums,
And dash'd the brains out, had I so sworn as you
Have done to this.
MACBETH
If we should fail?
LADY MACBETH
We fail!
But screw your courage to the sticking-place,
And we'll not fail.
- Macbeth, William Shakespeare
sábado, 31 de março de 2012
Do Poder e dos Afetos
Bonaparte: Now some people say he's gotten a little too big for his spats. But I say, he's a man who'll go far. Some people say he's gone too far. But I say, you can't keep a good man down. Of course he's still got a lot to learn. That big noise he made on St. Valentines Day - that wasn't very good for public relation. You let them two witnesses get away. That sure was careless.
Spats: Don't worry about those two guys. They're as good as dead. I almost caught up with them today.
Bonaparte (flabbergasted): You mean you let 'em get away twice? Some people would say that's real sloppy. But I say, to err is human, to forgive divine. And just to show you what l think of you, Spats, the boys told me you was gonna have a birthday. So we baked you a little cake.
Spats: My birthday? Why, it ain't for another four months.
Bonaparte: So we're a little early. What's a few months between friends?
- Some Like It Hot, Billy Wilder
Spats: Don't worry about those two guys. They're as good as dead. I almost caught up with them today.
Bonaparte (flabbergasted): You mean you let 'em get away twice? Some people would say that's real sloppy. But I say, to err is human, to forgive divine. And just to show you what l think of you, Spats, the boys told me you was gonna have a birthday. So we baked you a little cake.
Spats: My birthday? Why, it ain't for another four months.
Bonaparte: So we're a little early. What's a few months between friends?
- Some Like It Hot, Billy Wilder
terça-feira, 6 de março de 2012
Três Versões de Judas
Ainda sobre o bem e o mal, um Egoless-God segundo Jorge Luis Borges, Tres Versiones de Judas.
domingo, 4 de março de 2012
Pessoas, boas más assim assim
Esta semana por várias vezes ouvi argumentações acerca da maioria das pessoas ser honesta e trabalhadora. Claro, que quem assim argumenta está também a referir-se àquela minoria que não o é. Esta é a velha questão das pessoas boas e das pessoas más. O problema não é novo.
Antes da libertação, os campos de concentração nazis, como Auschwitz, tinham um conjunto de pessoas boas e trabalhadoras que estavam, de forma sistemática, a exterminar pessoas que em vez de trabalhar eram avarentas e se dedicavam à usura. Não era por acaso que nos campos havia inscrições a dizer que o trabalho educa.
Claro que no dia da libertação os papéis se inverteram e subitamente as pessoas boas já não tinham mulheres e filhos à sua espera em casa, mas eram completamente desumanas.
A experiência de Milgrim procurou perceber como é que este tipo de situações pode acontecer, dado que a maior parte das pessoas é honesta e trabalhadora. De acordo com os resultados da experiência cerca de 65% das pessoas é obediente e segue as ordens da autoridade até ao fim. Ou seja, os guardas de Auschwitz poderiam ter sido cidadãos honestos e trabalhadores do Connecticut.
A experiência não dá nenhuma caracterização dos 35% de pessoas que se recusou a submeter outras pessoas a choques elétricos que os poderiam levar à morte. Mas parecem ser pessoas que têm tendência para desobedecer a ordens, para não fazerem o que lhes compete.
Aqui levanta-se-me uma questão. Então são estas pessoas que não obedecem a ordens, que não fazem o que devem, que são boas? Mas Portugal precisa dos outros e esses são maus!
Estarei confuso? Assim assim,
Antes da libertação, os campos de concentração nazis, como Auschwitz, tinham um conjunto de pessoas boas e trabalhadoras que estavam, de forma sistemática, a exterminar pessoas que em vez de trabalhar eram avarentas e se dedicavam à usura. Não era por acaso que nos campos havia inscrições a dizer que o trabalho educa.
Claro que no dia da libertação os papéis se inverteram e subitamente as pessoas boas já não tinham mulheres e filhos à sua espera em casa, mas eram completamente desumanas.
A experiência de Milgrim procurou perceber como é que este tipo de situações pode acontecer, dado que a maior parte das pessoas é honesta e trabalhadora. De acordo com os resultados da experiência cerca de 65% das pessoas é obediente e segue as ordens da autoridade até ao fim. Ou seja, os guardas de Auschwitz poderiam ter sido cidadãos honestos e trabalhadores do Connecticut.
A experiência não dá nenhuma caracterização dos 35% de pessoas que se recusou a submeter outras pessoas a choques elétricos que os poderiam levar à morte. Mas parecem ser pessoas que têm tendência para desobedecer a ordens, para não fazerem o que lhes compete.
Aqui levanta-se-me uma questão. Então são estas pessoas que não obedecem a ordens, que não fazem o que devem, que são boas? Mas Portugal precisa dos outros e esses são maus!
Estarei confuso? Assim assim,
sábado, 3 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
Anda para aí uma gripe
Entrou, instalou-se no corpo, e quase me convenço a deixá-la ficar. Há qualquer coisa de agradável no torpor do estado febril e no esticar das pernas doridas. Mas resisto e corro com ela à força de paracetamol.
Sinto qualquer coisa no corpo e dizem-me que anda para aí uma gripe, mas pressinto que é ela de novo, talvez travestida com uma nova aparência, ardilosamente construída com as suas memórias da visita anterior.
E se fui eu que me instalei neste corpo, e estou apenas a presenciar um primordial encontro.
Sinto qualquer coisa no corpo e dizem-me que anda para aí uma gripe, mas pressinto que é ela de novo, talvez travestida com uma nova aparência, ardilosamente construída com as suas memórias da visita anterior.
E se fui eu que me instalei neste corpo, e estou apenas a presenciar um primordial encontro.
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