Nos anos 40, a oposição às políticas de Péron valeu a
Borges a demissão de bibliotecário municipal e a oferta de um lugar de
inspector de aves. O ultraje, de que se alimentam os poderosos, conjuntamente com a prisão da mãe e da irmã, marcou Borges. Enquanto
presidente da sociedade de escritores argentinos (SADE) foi sentindo o
isolamento e a solidão daqueles que se opõem a ditadores demagogos, como
era o caso de Péron. (1)
Nos anos 70, Borges apoiou os golpes estado de Videla e Pinochet. De Pinochet disse que era bondoso (2). Do então presidente da sociedade dos escritores argentinos disse que não representava ninguém, quando este indagava Videla sobre o destino de escritores desaparecidos, alguns deles provavelmente lançados vivos, de avião, sobre o mar da prata. (3)
O apoio a Videla e Pinochet estava enraizado na repulsa a Péron que tinha regressado em 1973 à presidência da Argentina por via democrática.
Talvez a humilhação sofrida fosse como um daqueles punhais que, segundo Borges, o das mitologias dos subúrbios, cumprem o seu destino de morte para além da vontade dos homens que os empunham.
Talvez, ainda segundo Borges, o dos jogos com o tempo e o infinito, antes ou depois de morrer, se tenha encontrado perante Deus e lhe tenha
perguntado quem era, ao que Deus lhe terá respondido, meu Borges, tal como te
sonhaste ninguém também eu te sonhei homem. (4)
(1) Peron's government had seized control of the Argentine mass media
and regarded SADE with indifference. Borges later recalled, however,
"Many distinguished men of letters did not dare set foot inside its
doors." - Wikipedia, Jorge Luis Borges, Political Opinions.
(2) El día en que Borges perdió el Premio Nobel - Carlos Maldonado R.
(3) Borges on the Right - Katherine Singer Kovacs
(4) La historia agrega que, antes o después de morir, se supo frente a Dios y le dijo: Yo, que tantos hombres he sido en vano, quiero ser uno y yo. La voz de Dios le contestó desde un torbellino: Yo tampoco soy; yo soñé el mundo como tú soñaste tu obra, mi Shakespeare, y entre las formas de mi sueño estás tú, que como yo eres mucho y nadie. - Jorge Luis Borges (Everything and Nothing)
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
sábado, 21 de janeiro de 2012
Um poço sem fundo (2)
Borges y Yo
Al otro, a Borges, es a quien le ocurren las cosas. Yo camino por Buenos Aires y me demoro, acaso ya mecánicamente, para mirar el arco de un zaguán y la puerta cancel; de Borges tengo noticias por el correo y veo su nombre en una terna de profesores o en un diccionario biográfico. Me gustan los relojes de arena, los mapas, la tipografía del siglo XVII, las etimologías, el sabor del café y la prosa de Stevenson; el otro comparte esas preferencias, pero de un modo vanidoso que las convierte en atributos de un actor. Sería exagerado afirmar que nuestra relación es hostil; yo vivo, yo me dejo vivir para que Borges pueda tramar su literatura y esa literatura me justifica. Nada me cuesta confesar que ha logrado ciertas páginas válidas, pero esas páginas no me pueden salvar, quizá porque lo bueno ya no es de nadie, ni siquiera del otro, sino del lenguaje o la tradición. Por lo demás, yo estoy destinado a perderme, definitivamente, y sólo algún instante de mí podrá sobrevivir en el otro. Poco a poco voy cediéndole todo, aunque me consta su perversa costumbre de falsear y magnificar. Spinoza entendió que todas las cosas quieren perseverar en su ser; la piedra eternamente quiere ser piedra y el tigre un tigre. Yo he de quedar en Borges, no en mí (si es que alguien soy), pero me reconozco menos en sus libros que en muchos otros o que en el laborioso rasgueo de una guitarra. Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.
No sé cuál de los dos escribe esta página.
- Jorge Luis Borges
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
As moscas
Confesso que começo a ter pena do pessoal da maçonaria, de tanta pancada que têm levado. Ainda por cima, apanhados em contramão no PSD.
De tudo isto ocorre-me uma questão. Pelo que leio percebo que vale a pena pertencer à maçonaria, parece que se conseguem uns benefícios, mas não leio em lado nenhum quais são os mecanismos usados para obter essas benesses.
Assim, começo a recordar as velhas Farpas de Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz e pergunto-me se isto não será só um problema de moscas.
De tudo isto ocorre-me uma questão. Pelo que leio percebo que vale a pena pertencer à maçonaria, parece que se conseguem uns benefícios, mas não leio em lado nenhum quais são os mecanismos usados para obter essas benesses.
Assim, começo a recordar as velhas Farpas de Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz e pergunto-me se isto não será só um problema de moscas.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Um poço sem fundo
Por vezes questiono-me sobre se o ser é dizível ou indizível. A possibilidade de possuir um objecto por o dizer é bastante antiga e deve ter começado por ser um acto de magia. A representação de animais e peixes nas pinturas rupestres simbolizavam a capacidade de possuir a coisa em si e, consequentemente, de a matar.
Talvez para proteger a vida humana, e dado que a proibição de um ser humano matar outro ser humano é das mais antigas, foi desenvolvido este princípio de que o ser é indizível. Ele encontra-se nas religiões, em que o ser é referido como alma, em algumas manifestações artísticas, na sua procura do silêncio, ou até, de uma forma mais racional, na declaração universal dos direitos do homem, no respeito por todas as diferenças e portanto na impossibilidade de as reduzir a uma mera representação.
Mas será o ser mesmo indizível? Por exemplo, se observar continuamente uma pessoa, em todos os seus actos serei capaz de a possuir, de a tornar finita?
No filme Blade Runner há um diálogo que ilustra bem essa fronteira entre o ser e o não ser, entre o dizível e o indizível, entre Rachel, uma replicante, e Deckard, um blade runner (caçador de replicantes).
Rachael: You think I'm a replicant, don't you?
Deckard: Hah.
Rachael: Look, it's me with my mother.
Deckard: Yeah. -- Remember when you were six? You and your brother snuck into an empty building through a basement window. You were gonna play doctor. He showed you his, but when it got to be your turn you chickened and ran. Remember that? You ever tell anybody that? Your mother, Tyrell, anybody huh? You remember the spider that lived in a bush outside your window? Orange body, green legs. Watched her build a web all summer. Then one day there was a big egg in it. The egg hatched--
Rachael: The egg hatched...
Deckard: And?
Rachael: And a hundred baby spiders came out. And they ate her.
Deckard: Implants! Those aren't your memories. They're somebody else's. They're Tyrell's niece's
Mas Philip K. Dick torna os replicantes indizíveis quando coloca Roy, um outro replicante, a poupar a vida de Deckard e a morrer em paz.
Roy: I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the darkness at Tanhauser Gate. All those moments will be lost in time like tears in rain. Time to die.
Os regimes autoritários sempre tiveram a tentação de tornar o ser dizível. Vejam-se as confissões, quase sempre obtidas através da tortura, durante a Inquisição ou nas purgas Estalinistas. Uma vez reduzido o ser à sua confissão, matá-lo, terminar com o seu corpo, era já apenas um pormenor.
Talvez para proteger a vida humana, e dado que a proibição de um ser humano matar outro ser humano é das mais antigas, foi desenvolvido este princípio de que o ser é indizível. Ele encontra-se nas religiões, em que o ser é referido como alma, em algumas manifestações artísticas, na sua procura do silêncio, ou até, de uma forma mais racional, na declaração universal dos direitos do homem, no respeito por todas as diferenças e portanto na impossibilidade de as reduzir a uma mera representação.
Mas será o ser mesmo indizível? Por exemplo, se observar continuamente uma pessoa, em todos os seus actos serei capaz de a possuir, de a tornar finita?
No filme Blade Runner há um diálogo que ilustra bem essa fronteira entre o ser e o não ser, entre o dizível e o indizível, entre Rachel, uma replicante, e Deckard, um blade runner (caçador de replicantes).
Rachael: You think I'm a replicant, don't you?
Deckard: Hah.
Rachael: Look, it's me with my mother.
Deckard: Yeah. -- Remember when you were six? You and your brother snuck into an empty building through a basement window. You were gonna play doctor. He showed you his, but when it got to be your turn you chickened and ran. Remember that? You ever tell anybody that? Your mother, Tyrell, anybody huh? You remember the spider that lived in a bush outside your window? Orange body, green legs. Watched her build a web all summer. Then one day there was a big egg in it. The egg hatched--
Rachael: The egg hatched...
Deckard: And?
Rachael: And a hundred baby spiders came out. And they ate her.
Deckard: Implants! Those aren't your memories. They're somebody else's. They're Tyrell's niece's
Mas Philip K. Dick torna os replicantes indizíveis quando coloca Roy, um outro replicante, a poupar a vida de Deckard e a morrer em paz.
Roy: I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the darkness at Tanhauser Gate. All those moments will be lost in time like tears in rain. Time to die.
Os regimes autoritários sempre tiveram a tentação de tornar o ser dizível. Vejam-se as confissões, quase sempre obtidas através da tortura, durante a Inquisição ou nas purgas Estalinistas. Uma vez reduzido o ser à sua confissão, matá-lo, terminar com o seu corpo, era já apenas um pormenor.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Choque de culturas
Numa reunião em que participei recentemente discutia-se esta tendência, de país do sul, de sermos condescendentes com os nossos. Argumentava-se que noutros países, do norte, não era assim, que cada pessoa tinha mais consciência e capacidade de avaliar objectivamente.
Ironicamente, a solução sugerida, era criar um órgão de pessoas competentes e idóneas que pudesse controlar estas situações.
Digo ironicamente, pois não é a primeira vez que observo pessoas com experiência de países do norte invocarem essa experiência para identificar problemas típicos de países do sul e, para de seguida, proporem também típicas soluções do sul.
Com a inevitabilidade cultural chega-se a uma encruzilhada, e segue-se o liberalismo cosmético.
Será razão para desistir? De facto já ocorreram profundas mudanças culturais nas sociedades. Como é que isso aconteceu? Como foi nos países da Reforma de Lutero?
Ironicamente, a solução sugerida, era criar um órgão de pessoas competentes e idóneas que pudesse controlar estas situações.
Digo ironicamente, pois não é a primeira vez que observo pessoas com experiência de países do norte invocarem essa experiência para identificar problemas típicos de países do sul e, para de seguida, proporem também típicas soluções do sul.
Com a inevitabilidade cultural chega-se a uma encruzilhada, e segue-se o liberalismo cosmético.
Será razão para desistir? De facto já ocorreram profundas mudanças culturais nas sociedades. Como é que isso aconteceu? Como foi nos países da Reforma de Lutero?
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A luz ao fundo do túnel
Blade Runner é um filme de culto, com o seu ser ou não ser segundo Philip K. Dick e as ambiências de Ridley Scott cheias de bazares de lojas de orientais.
Na televisão perguntaram a uma transeunte como tinham sido as suas compras de Natal. Responde que com a crise comprou tudo nos chineses.
A resposta é curiosa pois, por um lado, não contém muita informação, o que se compra no ocidente é na sua maior parte produzido na China, mas por outro lado, dá a entender que comprou produtos baratos, concebidos e produzidos na China.
Ou seja, um ocidente mais pobre tenderá a comprar menos produtos concebidos no ocidente e produzidos na China e passará a comprar mais produtos concebidos e produzidos na China. Perdem-se assim algumas mais valias da globalização, ainda que as mesmas, como estamos agora a constatar, não cheguem para contrabalançar o défice.
Será que ao fundo do túnel há uma loja dos chineses?
E encontraremos lá um ocidente a questionar-se sobre quem é, perseguindo um oriente que dizem não ser, mas que se calhar é?
You think I'm a replicant, don't you?
Okay, bad joke. I made a bad joke. You're not a replicant.
Na televisão perguntaram a uma transeunte como tinham sido as suas compras de Natal. Responde que com a crise comprou tudo nos chineses.
A resposta é curiosa pois, por um lado, não contém muita informação, o que se compra no ocidente é na sua maior parte produzido na China, mas por outro lado, dá a entender que comprou produtos baratos, concebidos e produzidos na China.
Ou seja, um ocidente mais pobre tenderá a comprar menos produtos concebidos no ocidente e produzidos na China e passará a comprar mais produtos concebidos e produzidos na China. Perdem-se assim algumas mais valias da globalização, ainda que as mesmas, como estamos agora a constatar, não cheguem para contrabalançar o défice.
Será que ao fundo do túnel há uma loja dos chineses?
E encontraremos lá um ocidente a questionar-se sobre quem é, perseguindo um oriente que dizem não ser, mas que se calhar é?
You think I'm a replicant, don't you?
Okay, bad joke. I made a bad joke. You're not a replicant.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Santo Friedman não faz milagres
A China está a planear colocar um homem na lua e está a desenvolver um sistema de GPS que permitirá localizar com precisão os submarinos dos EUA, o que alguns já referem como uma ameaça à segurança. A China, sem pressas, mas de forma consistente, vai desenvolvendo os seus programas espaciais.
Entretanto nos EUA os programas da NASA são desmantelados, devido ao corte nos gastos públicos e a ser mais barato alugar os foguetes Russos.
Parecem jogadas de um jogo de estratégia, daqueles que se joga num tabuleiro.
Santo Friedman não faz milagres na China.
Entretanto nos EUA os programas da NASA são desmantelados, devido ao corte nos gastos públicos e a ser mais barato alugar os foguetes Russos.
Parecem jogadas de um jogo de estratégia, daqueles que se joga num tabuleiro.
Santo Friedman não faz milagres na China.
domingo, 1 de janeiro de 2012
Um gigantesco corpo sem consciência
A relativa passividade com que os Judeus aceitaram ser encaminhados para os campos de concentração é de algum modo surpreendente. A forma como viviam na exclusão, a aceitavam e dela tiravam partido, estava enraizada na sua cultura e tinha sido a chave da sobrevivência ao longo de séculos. Por ventura, pensaram que mais uma vez essa seria a fórmula da sobrevivência.
O conjunto de valores culturais que permitiram aos Vikings criar uma comunidade significativa na Gronelândia foi uma das razões por que pereceram quando as condições iniciais se alteraram.
A forma como um punhado de Ingleses dominou e geriu um continente como a Índia também é surpreendente.
Estudos sobre as redes sociais mostram que elas possuem uma estrutura nas quais a velocidade de transmissão da informação é instantânea. Curiosamente essa qualidade também pode levar ao seu colapso, sempre que os canais de comunicação transmitam/dupliquem informação desadequada à razão de ser da rede social.
Hoje em dia os mercados vivem da, e reagem à, informação em tempo real. Será um gigantesco corpo sem consciência?
O conjunto de valores culturais que permitiram aos Vikings criar uma comunidade significativa na Gronelândia foi uma das razões por que pereceram quando as condições iniciais se alteraram.
A forma como um punhado de Ingleses dominou e geriu um continente como a Índia também é surpreendente.
Estudos sobre as redes sociais mostram que elas possuem uma estrutura nas quais a velocidade de transmissão da informação é instantânea. Curiosamente essa qualidade também pode levar ao seu colapso, sempre que os canais de comunicação transmitam/dupliquem informação desadequada à razão de ser da rede social.
Hoje em dia os mercados vivem da, e reagem à, informação em tempo real. Será um gigantesco corpo sem consciência?
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Liberdade
Um amigo costuma dizer, meio a sério meio a brincar, cuidado com os que te querem fazer bem.
Em Março de 1946, o censor do livro de Dostoievsky, os Irmãos Karamazov, está certo do que é melhor para as classes menos cultas. Como será a sua atitude se as classes menos cultas não desejarem o bem que ele lhes quer?
Já Mestre Hakuin não quer, faz. Quando lhe dão a criança não diz que seria melhor cuidada pelos pais, quando lhe retiram a criança não diz que os pais não a merecem.
O que haverá de profundamente diferente entre eles?
Em Março de 1946, o censor do livro de Dostoievsky, os Irmãos Karamazov, está certo do que é melhor para as classes menos cultas. Como será a sua atitude se as classes menos cultas não desejarem o bem que ele lhes quer?
Já Mestre Hakuin não quer, faz. Quando lhe dão a criança não diz que seria melhor cuidada pelos pais, quando lhe retiram a criança não diz que os pais não a merecem.
O que haverá de profundamente diferente entre eles?
domingo, 25 de dezembro de 2011
Quando a magia da televisão...
A televisão alimenta-se de pessoas.
Neste Natal, numa reportagem sobre os militares portugueses no Líbano, são colocados frente a frente um militar, no Líbano, e a sua mulher com o filho ao colo, na Figueira da Foz. Pretende-se dar a entender que a televisão tornou possível este encontro, mas o militar vai dizendo à mulher (em entrelinhas) deixa lá, e explicitamente, falamos depois no skype. O entrevistador remata a reportagem com uma pérola: É assim quando a magia da televisão e a magia do Natal se juntam...
Num jantar de caridade na noite de Natal, entrevista-se uma das comensais. Pergunta-se se não teria de comer se não fosse esse jantar, o que a senhora nega, de seguida pergunta-se se estaria sozinha se não fosse o jantar, o que a senhora nega. Quando a magia da televisão e a magia do Natal se juntam...
A análise de um telejornal dará uma boa imagem do estado do país, não pelo que se diz, mas pelo que se pretende dizer, e pela forma como se passa essa mensagem.
Neste Natal, numa reportagem sobre os militares portugueses no Líbano, são colocados frente a frente um militar, no Líbano, e a sua mulher com o filho ao colo, na Figueira da Foz. Pretende-se dar a entender que a televisão tornou possível este encontro, mas o militar vai dizendo à mulher (em entrelinhas) deixa lá, e explicitamente, falamos depois no skype. O entrevistador remata a reportagem com uma pérola: É assim quando a magia da televisão e a magia do Natal se juntam...
Num jantar de caridade na noite de Natal, entrevista-se uma das comensais. Pergunta-se se não teria de comer se não fosse esse jantar, o que a senhora nega, de seguida pergunta-se se estaria sozinha se não fosse o jantar, o que a senhora nega. Quando a magia da televisão e a magia do Natal se juntam...
A análise de um telejornal dará uma boa imagem do estado do país, não pelo que se diz, mas pelo que se pretende dizer, e pela forma como se passa essa mensagem.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Pode não ser assim
Hoje, ao falar da crise, um amigo articulou como normal a possibilidade de uma ditadura militar no caso de, devido a um colapso económico, se crie muita instabilidade social. Disse que as pessoas iriam aceitar.
É evidente que uma análise história nos leva a esta conclusão, ainda assim, fiquei um pouco chocado. Esta é a forma como pensam os que sentem que o podem fazer: as pessoas vão aceitar.
Será assim?
Duas notas:
- A democracia é bem mais útil em situações de crise, mesmo que elas incluam pobreza, do que nas situações de bem estar.
- Estamos num mundo diferente, em que, tal como as empresas se tornaram transnacionais, também as organizações democráticas se globalizaram, Avaaz.org é um bom exemplo.
Uma nota final sobre a crítica no documento do wikipedia-Avaaz ao clicktivism e o efeito commitment-and-consistency.
É evidente que uma análise história nos leva a esta conclusão, ainda assim, fiquei um pouco chocado. Esta é a forma como pensam os que sentem que o podem fazer: as pessoas vão aceitar.
Será assim?
Duas notas:
- A democracia é bem mais útil em situações de crise, mesmo que elas incluam pobreza, do que nas situações de bem estar.
- Estamos num mundo diferente, em que, tal como as empresas se tornaram transnacionais, também as organizações democráticas se globalizaram, Avaaz.org é um bom exemplo.
Uma nota final sobre a crítica no documento do wikipedia-Avaaz ao clicktivism e o efeito commitment-and-consistency.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Das Ideologias e Da Cultura
Ideologias há muitas e cada cultura adapta-as à medida da sua inevitabilidade. Disso são exemplo os 140% democráticos na Rússia e a monarquia comunista na Coreia do Norte.
Em Portugal já passámos por diversas ideologias. "Recentemente", fomos do republicanismo macho ao fascismo beato, seguindo-se a democracia subsidiada e agora vem aí o liberalismo redentor.
Como é que todas estas ideologias foram tratadas pela mesma cultura?
Neste momento de incerteza pergunto-me como será o liberalismo segundo a cultura Portuguesa?
Prognósticos só no fim do jogo, mas cada um nós deverá começar a observar atentamente o seu local de trabalho para perceber o que 37 anos de democracia terão acrescentado à cultura Portuguesa e, claro, o que o futuro nos reserva.
Em Portugal já passámos por diversas ideologias. "Recentemente", fomos do republicanismo macho ao fascismo beato, seguindo-se a democracia subsidiada e agora vem aí o liberalismo redentor.
Como é que todas estas ideologias foram tratadas pela mesma cultura?
Neste momento de incerteza pergunto-me como será o liberalismo segundo a cultura Portuguesa?
Prognósticos só no fim do jogo, mas cada um nós deverá começar a observar atentamente o seu local de trabalho para perceber o que 37 anos de democracia terão acrescentado à cultura Portuguesa e, claro, o que o futuro nos reserva.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Da Redenção Pessoal e Da Redenção Social
Algumas histórias Zen soam estranhas, por vezes quase irreais. Por exemplo, a história do Mestre Hakuin que cuida do que não é dele e que não se prende ao que ama é um extraordinário exemplo de redenção pessoal, difícil de entender num mundo que apenas funciona se a taxa de crescimento, que resulta na capacidade de possuir mais, for de 2 a 3%.
Isto levanta a questão de saber se a redenção pessoal se poderá tornar numa redenção social.
Curiosamente esse argumento tem sido frequentemente usado, muito especialmente nas situações de crise, em que os recursos escasseiam e se levanta a questão de como gerir a sua distribuição.
Por exemplo, quando falei com os mais velhos foi-me dito que a Senhora do Sr. Dr., tinha sempre uma panela ao lume com sopa para os pobres. Dizia ela que com umas poucas batatas e umas folhas de couve se fazia uma sopa. Afirmação semelhante tinha já sido dita muito antes por uma Rainha, são rosas Senhor, e muitas outras expressões semelhantes pertencerão provavelmente ao imaginário popular.
O argumento que a esquerda tem para esta proposta de redenção social através da redenção pessoal é que de facto ela esconde uma situação de perpetuação da ordem social estabelecida. Desta forma, a desconfiança relativamante à redenção pessoal atingiu o seu extremo nos países totalitários comunistas, em que a prática religiosa foi reprimida.
E assim, como em todas as coisas significativas da vida, chega-se a um paradoxo: provavelmente a esquerda tem razão e a experiência de Mestre Hakuin é fantástica.
Isto levanta a questão de saber se a redenção pessoal se poderá tornar numa redenção social.
Curiosamente esse argumento tem sido frequentemente usado, muito especialmente nas situações de crise, em que os recursos escasseiam e se levanta a questão de como gerir a sua distribuição.
Por exemplo, quando falei com os mais velhos foi-me dito que a Senhora do Sr. Dr., tinha sempre uma panela ao lume com sopa para os pobres. Dizia ela que com umas poucas batatas e umas folhas de couve se fazia uma sopa. Afirmação semelhante tinha já sido dita muito antes por uma Rainha, são rosas Senhor, e muitas outras expressões semelhantes pertencerão provavelmente ao imaginário popular.
O argumento que a esquerda tem para esta proposta de redenção social através da redenção pessoal é que de facto ela esconde uma situação de perpetuação da ordem social estabelecida. Desta forma, a desconfiança relativamante à redenção pessoal atingiu o seu extremo nos países totalitários comunistas, em que a prática religiosa foi reprimida.
E assim, como em todas as coisas significativas da vida, chega-se a um paradoxo: provavelmente a esquerda tem razão e a experiência de Mestre Hakuin é fantástica.
Outra História Zen
Is That So?
The Zen master Hakuin was praised by his neighbours as one living a pure life.
A beautiful Japanese girl whose parents owned a food store lived near him. Suddenly, without any warning, her parents discovered she was with child.
This made her parents angry. She would not confess who the man was, but after much harassment at last named Hakuin.
In great anger the parent went to the master. "Is that so?" was all he would say.
After the child was born it was brought to Hakuin. By this time he had lost his reputation, which did not trouble him, but he took very good care of the child. He obtained milk from his neighbours and everything else he needed.
A year later the girl-mother could stand it no longer. She told her parents the truth - the real father of the child was a young man who worked in the fishmarket.
The mother and father of the girl at once went to Hakuin to ask forgiveness, to apologize at length, and to get the child back.
Hakuin was willing. In yielding the child, all he said was: "Is that so?"
The Zen master Hakuin was praised by his neighbours as one living a pure life.
A beautiful Japanese girl whose parents owned a food store lived near him. Suddenly, without any warning, her parents discovered she was with child.
This made her parents angry. She would not confess who the man was, but after much harassment at last named Hakuin.
In great anger the parent went to the master. "Is that so?" was all he would say.
After the child was born it was brought to Hakuin. By this time he had lost his reputation, which did not trouble him, but he took very good care of the child. He obtained milk from his neighbours and everything else he needed.
A year later the girl-mother could stand it no longer. She told her parents the truth - the real father of the child was a young man who worked in the fishmarket.
The mother and father of the girl at once went to Hakuin to ask forgiveness, to apologize at length, and to get the child back.
Hakuin was willing. In yielding the child, all he said was: "Is that so?"
domingo, 4 de dezembro de 2011
Pôr isto na ordem
Na sequência da greve geral e dos cocktails molotof notei nos títulos de alguns jornais que há por aí vontade de pôr isto na ordem.
Eu, que vivi a maior parte da minha vida na desordem democrática, resolvi perguntar aos mais velhos como era a ordem de antigamente. Falaram-me da fome e dos pobres que se roubavam uns aos outros pois as propriedades agrícolas do Sr. Dr. estavam guardadas pela GNR. E também que roubar couves ao Sr. Dr. era mais grave do que roubar a outro pobre. Uma resolvia-se na justiça e a outra numa briga de taberna.
Não consigo evitar associar essa vontade de ordem a alguma da actual tendência "privatizante" do que é público. Aqui, os serviços de segurança e de justiça.
Será para isso que se quer pôr isto na ordem?
Eu, que vivi a maior parte da minha vida na desordem democrática, resolvi perguntar aos mais velhos como era a ordem de antigamente. Falaram-me da fome e dos pobres que se roubavam uns aos outros pois as propriedades agrícolas do Sr. Dr. estavam guardadas pela GNR. E também que roubar couves ao Sr. Dr. era mais grave do que roubar a outro pobre. Uma resolvia-se na justiça e a outra numa briga de taberna.
Não consigo evitar associar essa vontade de ordem a alguma da actual tendência "privatizante" do que é público. Aqui, os serviços de segurança e de justiça.
Será para isso que se quer pôr isto na ordem?
História Zen
Muddy Road
Tanzan and Ekido were once traveling together down a muddy road. A heavy rain was still falling.
Coming around a bend, they met a lovely girl in a silk kimono and sash, unable to cross the intersection.
"Come on, girl" said Tanzan at once. Lifting her in his arms, he carried her over the mud.
Ekido did not speak again until that night when they reached a lodging temple. Then he no longer could restrain himself. "We monks don't go near females," he told Tanzan, "especially not young and lovely ones. It is dangerous. Why did you do that?"
"I left the girl there," said Tanzan. "Are you still carrying her?"
Tanzan and Ekido were once traveling together down a muddy road. A heavy rain was still falling.
Coming around a bend, they met a lovely girl in a silk kimono and sash, unable to cross the intersection.
"Come on, girl" said Tanzan at once. Lifting her in his arms, he carried her over the mud.
Ekido did not speak again until that night when they reached a lodging temple. Then he no longer could restrain himself. "We monks don't go near females," he told Tanzan, "especially not young and lovely ones. It is dangerous. Why did you do that?"
"I left the girl there," said Tanzan. "Are you still carrying her?"
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Pensar em tempo de crise
Em tempo de crise é importante repetir aquilo que sai do mainstream, por isso umas citações de José Pacheco Pereira que vale a pena ler e pensar, e um incentivo para ler os posts na totalidade...
- A crise que atravessamos não é apenas económica, social e financeira, é também uma crise da democracia. Ela surge já há vários anos de forma larvar e agora apresenta-se com cada vez maior clareza aos nossos olhos. A crise do sistema económico capitalista, aquilo a que muitas vezes se chama eufemisticamente “economia de mercado”, impregna inevitavelmente a democracia como sistema político, arrastando-se numa crise conjunta. É irónico que poucos anos depois da afirmação universal do “fim da História”, pela vitória universal da democracia, se veja esta resvalar para uma “democracia restritiva”, com o retorno de velhas ideias sobre o “governo das competências” e a tecnocracia.
Em http://abrupto.blogspot.com/2011/11/o-mundo-que-estamos-criar-4-mas-ha-pelo.html:
- Salazar pensava assim, que a pobreza era uma virtude e muitos dos nossos governantes, como acham que tudo o que a mão do estado toca é por natureza impuro, aconselham dieta aos magros, como se a mortificação a que eles presidem fosse um castigo divino executado pela troika e seus mandantes.
- E acima de tudo não precisamos de todo da antipatia activa com os que estão a perder, como se eles fossem os culpados do que nos está a acontecer. Ou será que alguém pensa que um banqueiro, desses que influenciaram e patrocinaram a política de todos os nossos governos, tem menos culpas do que um motorista da Carris? É que parece que sim.
- Salazar pensava assim, que a pobreza era uma virtude e muitos dos nossos governantes, como acham que tudo o que a mão do estado toca é por natureza impuro, aconselham dieta aos magros, como se a mortificação a que eles presidem fosse um castigo divino executado pela troika e seus mandantes.
- E acima de tudo não precisamos de todo da antipatia activa com os que estão a perder, como se eles fossem os culpados do que nos está a acontecer. Ou será que alguém pensa que um banqueiro, desses que influenciaram e patrocinaram a política de todos os nossos governos, tem menos culpas do que um motorista da Carris? É que parece que sim.
- Em democracia os "custos" dos direitos não os põem em causa e é por isso que há para aí uma vaga antidemocrática, demasiado unanimista, que nos empobrece a cabeça numa altura em que também empobrecemos nos nossos bolsos. E a verdade é que o empobrecimento do pensar, a raiva contra o dissenso, o unanimismo do único, tem efeitos ainda mais devastadores do que a troika. E para mim já me basta esta, para que agora me ponha na fila do rebanho. Tem também custos, mas quero lá saber.
domingo, 23 de outubro de 2011
Democracia
Os problemas económicos que enfrentamos escondem um perigo mais profundo, o questionar do sistema democrático.
Esse perigo está aí, e começa por nós nos coibirmos de exercer a nossa liberdade pela necessidade. Quando isso acontece já a perdemos de facto e facilmente nos a retirarão de jure.
Esse perigo está aí, e começa por nós exercermos a nossa liberdade de forma inconsequente. Facilmente gastaremos energia no acessório e quando chegar a altura de defender o essencial estaremos esgotados.
Mais do que nunca é necessário que as pessoas procurem exercer a cidadania, o que não é fácil numa sociedade que saiu da ditadura com uma revolução militar e que pouco depois ficou imergida num bem estar subsidiado pela Europa.
PS: Citação de Benjamin Franklin no Abrupto
Esse perigo está aí, e começa por nós nos coibirmos de exercer a nossa liberdade pela necessidade. Quando isso acontece já a perdemos de facto e facilmente nos a retirarão de jure.
Esse perigo está aí, e começa por nós exercermos a nossa liberdade de forma inconsequente. Facilmente gastaremos energia no acessório e quando chegar a altura de defender o essencial estaremos esgotados.
Mais do que nunca é necessário que as pessoas procurem exercer a cidadania, o que não é fácil numa sociedade que saiu da ditadura com uma revolução militar e que pouco depois ficou imergida num bem estar subsidiado pela Europa.
PS: Citação de Benjamin Franklin no Abrupto
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Da Grécia e De Portugal
As diferenças entre a Grécia e Portugal são abissais. Lá revoltam-se, aqui organizamos-nos para resolver o problema. Lá acham que algo está mal no sistema, aqui achamos que algo está mal em nós. Provavelmente ambos têm um pouco de razão. Por um lado vivemos acima das nossas possibilidades e por outro os cidadãos perderam o controlo de como têm sido gastos os seus impostos. E ambas as situações devem ter contribuído para o défice. As questões são:
- Como se pode produzir mais?
- Como é que vai ser o financiamento dos partidos, e a sua sequência de "toma lá dá cá" que se prolonga antes e depois do financiamento?
Não vai ser suficiente responder a apenas uma das perguntas.
E não é um problema de somenos importância que quem está a tentar responder à primeira pergunta faz parte do problema da segunda.
domingo, 16 de outubro de 2011
Quando sabes onde queres chegar o caminho é irrelevante
O apresentador aponta para uma parte de um gráfico que diz mostrar um aumento nos últimos anos, mas de facto o parte do gráfico que refere é contante nesse período. Quando lhe fazem notar que algo está errado repara que é a outra parte do gráfico a que se queria referir.
De facto, quando estamos convencidos dos resultados a que queremos chegar já não olhamos para o caminho.
Se há alguma relevância nas filosofias/religiões orientais, como o Budismo, é toda a estrutura argumentativa que desvaloriza o resultado ou fim, o que obriga a pessoa a concentrar-se na única coisa que resta, o caminho.
De facto, quando estamos convencidos dos resultados a que queremos chegar já não olhamos para o caminho.
Se há alguma relevância nas filosofias/religiões orientais, como o Budismo, é toda a estrutura argumentativa que desvaloriza o resultado ou fim, o que obriga a pessoa a concentrar-se na única coisa que resta, o caminho.
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