sábado, 8 de junho de 2019

O Dr. Humberto Mascarenhas fecha os olhos

Considerando a teoria e a prática das relações de poder, é estonteante, quase contranatura, a facilidade com que um homossexual fala para o coração de uma mulher, pelo que as consequências podem ir desde a mais completa harmonia, em que ele se torna para ela numa mulher-homem, onde uma intensa intimidade afetiva se materializa no corpo masculino, como uma torneada conversa num porto seguro, desarredondado e peludo, até ao mais avassalador cenário, em que ele se torna para ela num homem-mulher, onde a intensidade da atração esquisitóide de duas almas gémeas esbarra constantemente com o desatino dos corpos que não encaixam, como se o mais enlevado espírito acabasse vítima de esgotamento por falta de matéria onde repousar. E, se a juntar a esta capacidade de chegar perto, de gerar sons que fazem eco, que ficam a ressoar lá dentro, que demoram a se dissipar, entre as pernas e a cabeça, pulsando por ali, se juntarmos a ilusão do fortuito, como aquele encontro ocasional entre o Humberto e a Cátia, num bar, na zona da Assembleia da República, depois de Humberto ter deixado Ricardo a chorar em casa, implorando-lhe que não o deixasse, o tipo de encontro que tem uma fugacidade tranquilizadora, primeiro, por ser uma segunda vez, a primeira foi há alguns anos atrás, em que quase não falaram, Cátia foi-lhe apresentada pelo namorado, o Afonso, o irmão de uma amiga de adolescência, a Catarina, foram cinco minutos, dez, se tanto, segundo, por ser um encontro fortuito e isso gerar na cabeça de algumas mulheres uma sensação libertadora, de uma ordem onde o destino era uma moeda de troca, uma coisa de milénios, a liberdade de escolher, o livre arbítrio, a democracia. Mas, terceiro, pela abordagem direta, completamente descomprometida, e, ao mesmo tempo, quase como se o encontro estivesse combinado, passado todos aqueles anos, o Humberto disse, Cátia, há algum tempo, a Cátia surpreendida, conhecia o Humberto, claro, a televisão é um dispositivo de reavivamento da memória, não se esqueçam de votar no domingo, várias refeições ao dia, saia de casa, não fique no sofá, lembras-te de mim, sim, claro, um político não esquece uma cara, não esquece um nome, respondeu Humberto, e riram enquanto pediam um gin, o Humberto não gosta de gin, e quando bastantes palavras mais à frente Humberto lhe toca na mão, como se a ajudando a levantar o copo do balcão, a Cátia sussurra-lhe muito baixinho, com um sorriso, mas tu não és homossexual?, ao que o Humberto lhe responde, mas tu não és a namorada do Afonso?, era, responde, e, no apartamento de Cátia, com as luzes da rua a entrar pela janela, meio embriagados do álcool e da sintonia das almas, tiram a roupa sem a rapidez dos amantes, mas os corpos são belos, não há outra beleza que não seja a dos corpos, dos músculos do Humberto, dos seios rijos do ginásio da Cátia, beijam-se porque estão vivos, deitam-se um sobre o outro, olham-se demoradamente, Humberto fecha os olhos e vê o Ricardo, um homem de cinquenta anos, sim, isso, não pares, diz-lhe Cátia.

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