domingo, 16 de junho de 2019

Mascarenhas e o triunfo do caráter. Opinião de José de Mendonça

Quando apela à indiferenciação entre a esquerda e a direita, Humberto Mascarenhas exalta acima de tudo o triunfo do caráter, ou, se me é permitida a liberdade, o surgimento de um homocharacter, e que se colocarmos nas mãos deste supra-homosapiens o dinheiro dos nossos impostos, podemos finalmente deixar de nos preocupar com a política, pois podemos ficar certos do ótimo funcionamento das empresas públicas, das escolas e dos hospitais, podendo passar a dedicar-nos apenas àquilo que realmente somos, agricultores, engenheiros, jornalistas, pedreiros, sendo esta, mesmo, a machadada final no populismo. Muito bonito. Aquilo que pergunto é, será mesmo? Será que podemos dedicar-nos a ser apenas aquilo que somos, agricultores, engenheiros, jornalistas, pedreiros, e deixar a gestão da coisa pública ao homocharacter? Em boa verdade, eu diria que depende muito de sabermos como se forma este homocharacter, e em última análise do que é feito. Uma coisa é um homocharacter todo forrado a ética, transparente como a verdade, branco como a virgem, terno como um pai, meigo como uma mãe, que gosta de crianças, é afável com o vizinho, e determinado com o bandalho e com o gabiru. E, não deixa de ser curioso, todos estes homocharacteres são, historicamente, avessos à política, estão onde estão porque ouviram um chamamento, ou tiveram de fazer a rodagem ao automóvel, ou, embora sejam muito populares, estão sempre indecisos se devem continuar, colocando condições, pois não gostam de política, exercem a sua função com sacrifício, gostariam sim de estar a fazer aquilo que realmente são, agricultores, engenheiros, jornalistas, pedreiros, mas tiveram a infelicidade de nascer homocharacter, e por isso têm que cumprir um destino. E nós, seus filhos, seus fervorosos seguidores, pedimos-lhes dos nossos locais de trabalho, das nossas escolas, das nossas famílias, pedimos-lhe encarecidamente, não nos deixeis, continuai, sacrificai-vos um pouco mais por nós, que prometemos continuara a trabalhar com afinco para o bem comum. Aí estou de acordo com Humberto Mascarenhas, estes homocharacteres são o fim do populismo pois são como nós, os que trabalham, os que pagam impostos, os agricultores, os engenheiros, os jornalistas, os pedreiros, e não são como eles, os políticos, embora tenham infelizmente que o ser não sendo. São por isso providenciais e, simultaneamente, transcendentais. Só que depois existe um homocharacter espertalhão, que sabe como funciona o populismo, que vive na obsessão com a sua imagem, com o que se pensa deles, que até têm um gabinete só para isso, que são capazes de tudo para brilharem, e por isso são feitos de ética por fora e vicissitudes por dentro, que dizem o que o povo quer ouvir, que quando dizem nós estão e pensar neles, e que quando dizem eles também e que, em momentos de sinceridade, dizem que são assim apenas porque os verdadeiros homocharateres não existem, provando que são é descrentes do futuro da Nação. Se o homocharacter que não acredita contaminar Portugal, poderá ter consequências calamitosas.

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