domingo, 5 de maio de 2019

Sr. Marquês, Water Music, segundo George Frideric Handel

Há relatos que uma ligação prolongada à galeria iconográfica Pinote suscita uma ligeira sensação de tontura, aquilo que em língua castelhana, mais precisamente, se chama de mareo. E se aqui uso esta palavra, não é por acaso, pois muitos defendem agora, numa luta desesperada de sobrevivência perante a língua inglesa, uma língua universal latina, onde em vez de se falar usando apenas as palavras que seguem na mesma barca, se possa escolher de entre as várias embarcações que, ao sabor da maré, sobem e descem o rio. Pois, surpreendei-vos, a galeria iconográfica não é mais do que uma enorme barca, de remos alçados, rio acima, rio abaixo, onde à proa vai sentado o Sr. Marquês, sem vaidade, só por condição. O ícone da sua esposa, a Sra. Marquesa, encontra-se bem no centro, como tivemos oportunidade de o descrever, literariamente enclausurado, dispondo-se os restantes ícones, adequadamente, os Hilários e seus consortes a estibordo, cabendo o bombordo aos Pinotes e seus compagnons de route. É a extrema largura da barca que propiciou que até agora possamos ter ignorado a presença deste ícone colossal. Sempre nos colocámos lateralmente, ora tomando um partido, ora tomando o outro, enganados por esse suposto primado do humano, segundo o qual cada ser é um ser, cada ser tem a sua perspetiva. Achámos que a linha traçada pelo corpo do Sr. Capitão Armando Simões estava lá para dividir as duas partes, e, nesta condição, posicionámo-nos ora de um lado, ora do outro, da contenta, esquecendo que a obra barroca não tem lado, e se fossemos brejeiros diríamos mesmo que, quando muito, é roliça. É por isso irrelevante, neste ícone de ícones, que do ponto de vista do Sr. Marquês as partes estejam trocadas, que a direita esteja à sua esquerda e a esquerda à sua direita, já que os salpicos humanos não têm lado, entrelaçam-se, revolvem-se, empolam como o sarampo, calçam sapatos de tacão alto, vestem meias acima do joelho, fazem uma vénia e trocam de costado. Mas o mesmo já não se pode dizer de quem se senta à popa, uma bela pintura ao estilo Velázquez, não são Las meninas, mas quase poderia ser, uma delas é, a outra parece ser a sua mãe que a traz ao colo, mas a menina é uma menina grande, aparenta ter mais de 50 anos, embora esteja vestida como uma niña, ornamentada com um laço de flores no cabelo e um vestido com uma dupla saia, largamente ultrapassando a mãe em volume, sendo esta visivelmente mais nova, com a beleza espontânea das flores de início da primavera. E para quem calhou em sorte ficar à popa, a esquerda não está trocada com a direita. Esta é a razão do mareo que nos invade quando passamos muito tempo a divagar pela galeria iconográfica Pinote. E quando disso nos apercebemos não podemos deixar de perguntar, quem é o seu autor? quem concebeu esta visão longitudinal da comédia humana? quem se arroga o direito de esvaziar o particular a bem do geral? quem submete um ícone que nega o que se sentiu nos outros ícones sem precisar de os negar? Façam uma vénia e deem meia volta ao sabor do software da Mindicon. Sim, do software da Mindicon!

Sem comentários:

Enviar um comentário