quarta-feira, 1 de maio de 2019

Natruca, la petite mort, segundo Roland Barthes

O ícone da Sra. Marquesa rapidamente perdeu a ligação à sua fonte de origem, dado o enorme valor simbólico que adquiriu na galeria iconográfica Pinote, passando antes a ser referido como Natruca, la petit mort, segundo Roland Barthes, num tributo da máquina ao simbólico. O ícone está colocado no seguimento do corpo estirado de A Morte do Sr. Capitão Armando Simões, curiosamente, posicionando-se em ambas as pontas, realçando os aspetos fortemente concetuais da obra, em permanente recusa de revelar uma forma, muito menos um corpo. De facto, é formado por um arco de letras esparsas, que, em nuvem, cobrem a morte caída, adensando-se, então, nas pontas em textos completos, de um lado poético, de uma rima tão infantil como emocional, e do outro de uma espessa narrativa, quase auto justificativa, como quem, à hora do chá, descreve um acontecimento incómodo em que se viu envolvido, exposição que, não cabendo na mesa onde se encontra o bule, se vai dispondo em camadas, auxiliando-se de repetições por forma a estabelecer uma continuidade, como num naperon os bordados reiterativos vão juntando os diversos panos de linho. Se na narrativa as repetições têm como objetivo o retomar do fôlego, na poética procuram atingir o coração com flechadas minimais. Mas, o que contêm estas duas pontas? De certeza que encontrareis com que as preencher, mas se vos tolhe a preguiça ou a falta de imaginação, podeis, na narrativa, colocar cada uma destas páginas, empilhadas umas sobre as outras, e, na poética, repetir destas aquelas que rimam, em particular uma delas, a do poema da Sra. Marquesa, mas, como vos disse, podem ser quaisquer outras, que uma vez tomando o seu lugar serão como estas, que disto é feita a crítica literária. Concentremo-nos então nas pequenas letras que pairam sobre o desditoso corpo imaginário do capitão Simões, que são de facto, sabe-se agora, a alma do ícone. Bailam elas diversas danças, desde a mazurca ao forró, para já não falar da valsa e da kizomba, mas sem nunca tomarem um sentido. Depreende-se daí que para isso servem, o mais das vezes, as letras, destinadas à baralhação, ainda que ritmada. Podem-se passar assim horas, senão dias, meses, ou anos, observando os diversos bailados, maravilhando-nos com a insaciável vida de um punhado de letras folionas, ainda que desprovidas de sentido. E é então que fortuitamente, num acaso coreográfico, se estabelece sobre o cadáver a palavra natruca, numa forma substantiva. E esta consonância casual não seria, por si só, fonte de qualquer surpresa, já que outra coisa não se esperaria de tão despojado referente, não fosse que depois desta figura, e através de nova inusitada combinação, mas agora num estilo mais refinado, em itálico, daquelas danças em que os dançarinos fazem uma roda com as mãos sobrepostas ao centro e levando os calcanhares à altura do traseiro, se dá à luz la petite mort. A primeira acusativa substantiva, a segunda declarativa sublimativa, fazem espernear o cavalo de pau entre as pernas do capitão Simões, de tal modo que a pergunta que nele tem escrita se enche de néon arroxeado.

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