Tudo o que é irreal suscita atração. O Pinote segundo Dr. José Galvão desencadeou uma avalanche de visitas à galeria. E para isso, esclareço-vos já, desculpando-me, pelo lapso, dado com frequência me esquecer da época para que escrevo, que também é a única em que me podem ler, uma vez que, como já vos disse, a literatura morreu não muito depois do início do século XXI, e para isso, dizia, e desculpai-me mais uma vez destas interjeições que com frequência se intrometem na minha escrita, mas que é também um sinal dos tempos, em que os humanos se dedicam aos pensamentos divergentes, deixando os convergentes, aqueles que têm como único objetivo chegar a uma conclusão, às máquina, entretendo-nos nós na procura da perceção do todo, uma vez que a tecnologia nos abasta, e só não divaga quem não pode, como escreveu um dos últimos poetas de que há memória, e para isso, dizia, um poeta, desculpai-me de novo, que apagou toda a sua obra pouco depois de experimentar as transferências cerebrais, mais propriamente as visitas às galerias iconográficas, sim, e para isso, e perguntais-vos, talvez, como pode uma poeta apagar uma obra, não um manuscrito atirado para uma lareira num momento de despeito, mas uma obra publicada, uma obra completa, publicada, repito, e para isso, dizia, bastava ligarmo-nos a uma máquina de visita iconográfica, adquirir um acesso e dispormo-nos a nos deixar percorrer pelas imagens que são baixadas diretamente para o nosso cérebro, onde são temporariamente depositadas sobre as outras que nos habitam, e uso a palavra imagem sem propriedade, uma vez que no tempo em que viveis essa é a única forma como podereis entender o modo como se gravam impressões alheias no cérebro, sim, andaram durante anos os artistas a ter golpes de inspiração, pensava-se, a tirar cá para fora o que achavam estar lá profundamente incrustado, sim, a razão do ser, o ser, mesmo o ser, talvez tenha sido essa a razão do desalento do poeta, não um momento de raiva devido a um desentendimento com a crítica, mas um momento de prostração devido a um desentendimento consigo mesmo, talvez porque se tivesse convencido da sua obra, daquelas sibilações linguísticas, como quem se faz de um modelo externo de si mesmo, como os comentadores a que assistis nos programas de televisão, e para isso, perguntais-vos, desconfio, como pode ter apagado a obra, simples, respondo-vos, desligou-se, mas primeiro considerou-a pobre, parcial e imatura, uma coisa que representa uma coisa não pode nunca ser a própria coisa, é outra coisa, disse o poeta, mas já não o escreveu, ou diz-se que disse, pois, como disse, ele apagou-se, mas, desculpai-me, o Pinote segundo Dr. José Galvão sobrecarregou a galeria de descargas, pois suscitou-se a curiosidade sobre como seria o ícone cerebral de uma máquina, admirais-vos vós, que o que vos descrevi como uma estátua de bronze, disforme, possa ter despertado tanto furor, sois como o poeta, prendeis-vos da forma, onde procurais encontrar o ser, nunca visitastes uma galeria iconográfica cerebral.
In 25 de abril sempre (2019)
Sem comentários:
Enviar um comentário